sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Modorra

Acima de tudo, o que mais gosto na vida é de ter sono!...

Gosto de adormecer enquanto leio
Adoro adormecer enquanto faço a barba ou me penteio
Hoje mesmo adormeci a meio do banho
E saí de casa sem cortar as unhas de uma mão
Adormeço só de ver uma televisão
Caem-me as pálpebras quando me chateio
E já me aconteceu adormecer no seio dum orgasmo
Pasmo de sono quando falas
E balanceio a cabeça de tintas para as tuas conversas
Gosto de pousar a cabeça no ombro do passageiro do lado
Gosto de me deixar esticar no banco do jardim
Gosto de sestas
Gosto de adormecer ao anoitecer
Gosto de readormecer de madrugada
Gosto de dormir por tudo e nada
E até não me importava de adormecer eternamente
Se pudesse acordar na eterna noite
Para ver o sol, a horta, os filhos e o amor
E se a garrafa de gás já está a meio
Também gosto de adormecer com a bebedeira
Quero adormecer se tenho dores
Gosto de adormecer se estou contente
Dormir para mim é um descanso
Gosto de adormecer na minha cama
Gosto de adormecer à sombra do carvalho
Gostava de me deixar dormir descansado na calçada
Devia ser permitido dormir nas horas de trabalho
Gosto quando me bate o sono
Para mim uma boa palestra é um sedativo
Adormeci uma vez réu em tribunal no tempo da sentença
Gosto tanto de dormir que estou agora mesmo adormecendo enquanto estou escrevendo
Gosto de dormir como carago
O sono faz de mim um ser calado
Raramente digo asneiras enquanto durmo
Ressonar é o meu maior pecado
Gosto de vez em quando da claridade
Sobretudo se for para ver mulheres bonitas para as recordar enquanto sonho
Sobre o travesseiro
Sobre o corpo
Sobre tudo dormir
Dormir enquanto os poderosos falam de poder
Enquanto os poetas falam de poesia
Enquanto os engenheiros falam de pontes e os economistas de valias
Enquanto os artistas falam de arte
Que não há coisa mais entediante
Que um artista falar da própria arte

Dormir enquanto o país arde
Dormir enquanto a pátria se consome
Dormir enquanto se comem uns aos outros
E a mim não me comem
Porque como estou dormindo julgam que estou morto
Dormir enquanto falam os comentadores da TV
Sobretudo quando estes falam é absolutamente necessário
A bem das gerações vindouras
Que todo o país durma
E felizmente dorme
Neste preciso momento adormeci
-Golo!!!!
Nem isso me acorda
E estou com a sensação que me acarinham mãos macias
Durmo profundamente
Ah! Gosto também de adormecer enquanto me contam histórias
A do Capuchinho é a minha preferida
Embora eu goste de assinar João Ratão
Um dia adormeci quando me cantavam os anos
Adoro que me digam de manhã:
-Parece que ainda vens a dormir!
Adoro que me repreendam:
- Tu estás a dormir ou quê!?
Adoro que me ordenem:
- Tu vai mas é para a cama que o teu mal é sono!
Adoro ópio ou erva dormideira
Há fumo de cigarros nos meus sonhos
Espuma de cerveja em pesadelos
Cabelos de pestanas
De tudo há
E estas palavras só não têm nexo
Porque estou mais pra lá do que pra cá!

27 comentários:

Alberto Cardoso disse...

Majestade.
Quando era miúdo e ficava com sono diziam os adultos que tinha chegado o "João Pestana". Nunca soube quem era o personagem. Até hoje! Porque hoje descobri que o tal "João" mudou de apelido: de "Pestana" para "Ratão". Aí está, tão simples quanto isto.
Sua Alteza sabe quanto admiro os seus escritos. Já deixei aqui, várias vezes, disso testemunho. E este de hoje não é excepção. Li-o, reli-o, treli-o vezes sem conta. Mas o verso que mais me entusiasma é o que diz "Gosto de cestas". Cestas! As famosas «ciestas» dos nossos hermanos! A Ibéria a impôr-se. Apenas um mísero "i" nos separa. Que romântico: em Portugal "cesta" em Espanha "ciesta".
Espera aí! Parece-me que os cabrões escrevem "siesta". Os sacanas! Será que querem que escrevamos “sesta”? NUNCA!!!!! Abaixo a Ibéria.
Alberto Cardoso, um Seu humilde servo.
P.S. GOOOOOLO DO SPORTING!!!!!!!!!!!

Pata Negra disse...

Senhor Alberto,
o seu mal é çono: se reparar bem verá que o que está escrito são "sestas" o que não quer dizer que um rei não possa também gostar de cestas. O senhor tem-se revelado um cervo maldoso!
Um abraço com remela do Rei dos Leittões

Boris disse...

Pata Negra, Pata Negra
vim aqui p´ra t´acordar
não posso com tanto sono
num país a se afogar.

Pata Negra, Pata Negra
basta de tanto alhear
mudam as moscas fica a merda
e gente sem trabalhar.

Falta pão em muita mesa
falta remédio em muito lar,
falta paz e segurança
falta um país a avançar.

Dizem que muitos corruptos,
gente grande lá do alto,
com as palavras do Marinho
vivem agora em sobressalto.

Porém com tudo a dormir
e com aqueles que a bem
vêm dizer que afinal
tudo é calúnia de alguém

continuam a roubar
sob o olhar benevolente
destes lacaios de merda
que adormecem toda a gente.

Pata Negra, Pata Negra
não acordes de repente
mas ergue-te bem devagar
p´ra enfrentares esta gente.

Está na hora de acordar.

martelo disse...

gostei e não fez sono...

Marreta disse...

Vou fazer uma cura de sono.
Saudações do Marreta.

MARIA disse...

Como Vª Majestade escreve bem !
Escreve assim, estando mais "pra lá do que pra cá " . Que seria se estivesse mais "pra cá"?...
:)
Parabéns pelo texto, é dos melhores que tem escrito, muito bem construído, muito bonito.
Gostei do modo inteligente e subreptício como lança o repto : vivemos num País dormente, adormecido... Porém tal qual no "poema em linha recta" de F Pessoa, poucos o admitem... Bom é sermos heróis ...
Só para contrariar vou confessar : também adoro dormir.
Adoro que me contem histórias.
Embora prefira o João Ratão ao Capuchinho.
Mas as melhores de todas as histórias são as publicadas neste reino.
Também adoro mãos macias para adormecer.
Não podendo emprestar as mãos, deixo-lhe um beijinho amigo e digo : durma, durma bem !
Amanhã, temos uma revolução para fazer ! ...

Maria

Alberto Cardoso disse...

Majestade
Qual Egas Moniz, apresento-me, com mulher, filhos, cão, gato, e canário (não levo o peixinho vermelho porque não consigo descobrir onde a cabeça do fdp acaba e o corpo começa), apresento-me, dizia eu, com os meus mais queridos, com a corda ao pescoço deixando ao arbítrio de Vossa Alteza Real o nosso destino achando por bem a decisão que tomardes.
Foi, atrevimento, insensatez, loucura ler «sesta» onde estava escrito, em bom português «cesta» (ou vice-versa). Por isso não mereço mais viver! Nem, tão-pouco os meus mais próximos.
Seja feita a vontade de Sua Majestade.
Alberto Cardoso

Zé Povinho disse...

Seja a sesta seja o sono reparador, qualquer um é bem vindo. Há por aí uns pormenores que não me fazem sono (durante, que depois é outra coisa), mas agora vou retirar-me antes que sua majestade adormeça ao ler-me.
Abraço do Zé

António de Ramalho Rijo disse...

pah,
http://malhorijo.blogspot.com/

quintarantino disse...

... sono, sesta, dorminhoca, soneca ou que seja ... dêem-me um colchão ou uma rede e levanto o mundo ... zzzzzzzzzzzzzzzzzzz ...

SILÊNCIO CULPADO disse...

Dorminhoco!!......

René disse...

Dorme que a vida é nada
dorme que tudo é vão
se alguém achou a estrada
achou-a em confusão
com a alma enganada.

Fernando Pessoa

samuel disse...

Companheiro

Espero que o soninho tenha sido bom, mas agora toma lá um despertador do Zé Gomes Ferreira e do Lopes Graça.

Abraço.


"ACORDAI"

Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!

SILÊNCIO CULPADO disse...

Majestade
Agora bem acordadinho pelo Samuel poderia ir visitar o Silêncio que a "educação" fugiu e precisa-se de quem não seja preconceituoso.
Abraço desperto

Meg disse...

E não é que já estou cheia de sono e ainda não acabei!!!
Volto mais tarde para ler o resto.
A sério agora, gostei do texto e das entrelinhas. Dá que pensar e isso dá sono...

Um abraço

Joshua disse...

Há leituras que valem um dia! Li de olhos bem abertos a tua magnífica omnissoneira. Para quem repara no quanto dorme, no quanto se assenta e se assesta, acho-te bem lúcido e disperto para a ciclópica noção inteira do próprio sono.

A mim, pelo contrário, acontece-me dormir numa profunda vigilância de soldado na negra noite disperto: a qualquer momento entra-me um Sócrates pelo quarto dentro a pedir mais, como se alguma vez eu lhe tivesse dado alguma coisa e sobretudo quando o que dei já dei à minha mulher, que agora dorme consolada por lhe ter dado forte e repetidamente, como ela, que é brasileira, gosta, porque é dela que eu gosto, e a ela que eu quero e não penso reverter a minha decidida orientação. Nessa altura, encosto-me à parede e peço uma coisa só, conforme o meu dever de soldado: «A senha! Diz a senha, caralho!» Nessa altura, o espectro vai embora a murmurar que não se deixa intimidar e tal... Desculpas para não saber a senha, que é «Em Povo que Dorme (enquanto o comemos de cebolada) não se Mexe».

Enfim, pesadelos. Não admira que ela, a minha esposa, durma cada vez mais consolada e eu cada vez durma menos, assustado, para mais a trabalhar no Pub algumas madrugadas intensas, muitas vezes com mulheres que requisitam atenção e roço e nos lambem com o olhar lascivo... Lá devem ser sensíveis ao Cio dos Gatos, essa agência secreta de fodilhanaço cíclico, mulheres maduras e frescas a quem dou cartão e cartão recebo...

Bom, agora é que não durmo mesmo!

PALAVROSSAVRVS REX

Louise disse...

Pata Negra!?
Acordaaaaaaaa!
Está na hora da sesta!

Raposa Velha disse...

Gostava de deixar escrito alguma coisa inteligente, que mal nenhum há em variar. Mas face aos olhos meios cerrados pela areia das noticias, fico-me pela alguma coisa.

NÓMADA disse...

Dormir enquanto o país arde
Dormir enquanto a pátria se consome
Dormir enquanto se comem uns aos outros
E a mim não me comem
Porque como estou dormindo julgam que estou morto
Dormir enquanto falam os comentadores da TV
Sobretudo quando estes falam é absolutamente necessário
A bem das gerações vindouras
Que todo o país durma
E felizmente dorme

E aqui está o opium que faz Sua majestade dormir.

Metralhinha disse...

Outro dia deixei aqui um (julgo eu) bom comentário, mas o Blogger estava em baixo e não mo deixou publicar.
Hoje limito-me a deixar um grande abraço.

pé-de-salsa disse...

Como Vossa Majestade sabe: Um revolucionário nunca dorme.

Meg disse...

Pata Negra,

Estejas lá como estiveres... não estou entendendo nada.
Regressão ou fez-me mal o almoço!
Help!

Um beijo

O Guardião disse...

Nem deu tempo para cabecear, tal o ritmo da coisa. Ainda bem que a modorra não impede a escrita aqui teclada.
Vi por aqui gente que está ausente dos seus espaços, o que é bom registar.
Cumps

Anónimo disse...

Ando a dormir há uma eternidade decididamente! E agora que acordei, já é muito tarde!!!

Milu disse...

Bem! Agora que aqui cheguei, e ao vê-lo assim tão ensonado, recordei-me de uma espécie de anedota, que um dia me contaram, era eu uma jovem na idade da inconsequência.
Viajavam dois indivíduos numa carruagem de comboio, um deles sempre a dormir, o outro desperto que nem um alho, a quem a certa altura lhe apeteceu falar, pois a viagem já ia longa. Vai daí aproximou-se do dorminhoco e acordou-o, sacudindo-lhe uma manga do casaco disse-lhe:

Amigo! O sono é a antecâmara da morte, William Shakespeare.

O dorminhoco abriu um olho,e, muito estremunhado, responde:

Vá pró c#&%lho, Zé Manel.

MARIA disse...

Majestade,

Depois de já tanto dito, ponderado, engraçado, inteligente e dormente por tanta, e tão habilitada gente, que posso ainda dizer de um poema tão valoroso e bonito ?

Se de sono anda aflito, acomodo-lhe a coberta, ajeito-lhe o travesseiro, deixo-lhe um beijinho amigo e permaneço consigo :
- durma bem ...
chega sempre a primavera depois de um longo Janeiro...

Camolas disse...

Que os braços de morfeu te encaminhem para a ilha dos amores, reserva passagem tb para mim, ansioso para partir deste pontão que cheira a merda