quinta-feira, 19 de abril de 2012

O Bichinho do Teatro

Carlos Bicho, Carlitos no meio familiar, Bichinho entre os colegas, já tinha tido a experiência de actor na peça os Três Porquinhos, em pequenino mas era agora, já de buço, a primeira vez que pisava palco com pano e luzes numa sala de plateia cheia e às escuras.

O pai fizera-se à mãe, quando jovens se encontraram a sós num recanto dos bastidores do teatro da colectividade, ele ponto, ela contra-regra e honraram esse encontro mesmo depois de extinta essa actividade, participando como público em tudo o que era teatro, fosse na aldeia, na cidade, no Carmo ou no Trindade.

A professora Gertrudes era professora de português e honrava a sua profissão como especialista em Maias de Essa, amante de Camões e mulher de Gil Vicente. Da mesma forma que só lavava com Omo, só barrava o pão com Planta e só bebia Sagres, limitava orgulhosamente a sua cultura literária a este trio.

Há muitos anos que encenava com os seus alunos o Auto da Barca. Um lençol branco e outro vermelho a cada um dos cantos do palco; cada um com três cantos presos, um em cima e dois em baixo, de modo a fazerem vela triangular; na base deles mais dois lençóis castanhos presos a três cadeiras e a formar arco faziam as barcas; uma moça meiga em fato de comunhão solene a fazer de anjo; um moço espevitado, com rabo e cornos de diabo; o resto da turma nos restantes papéis; com jeito ou sem jeito, com brancas ou com rimas e “ó da barca” soavam as pancadas.

O pai do Carlos além de se auto-considerar com currículo de espectador, suficiente para desprezar as competências da professora encenadora, recomendou ao filho a recusa do papel secundário que lhe fora anunciado e acrescentou:

- Tu dizes-lhe que, em vez de participares na peça, preferes fazer uma recitação poética no final! Ela que não se preocupe com a escolha que eu trato disso!

Realizados o auto e os aplausos, Carlitos foi apresentado e apresentou-se sozinho, frente à ribalta, focado por um potente projector.

Todo ele e tudo nele abanava. De voz a abanar tentou começar. Nos rápidos pensamentos que lhe abanavam a cabeça pensou no que o pai, espectador, estaria a pensar. Não o conseguiu distinguir na penumbra da assistência repleta de olhos escuros e faces sombrias. Tentou novamente a primeira palavra. O olhar da professora Gertrudes à frente da fila da frente cortou-lhe a primeira sílaba. Sentiu um líquido viscoso escorrer-lhe pelas calças abaixo. Era o golpe final. Só lhe restava desistir corajosamente. Deu meia volta em direcção ao fundo do palco, esperou risos de troça e só ouviu silêncio, convenceu-se que com a luz intensa toda a gente via as calças claras com a mancha escorreita e escura e num acesso de raiva, virou a cara ao público e declamou:

- Caguei para isto tudo!

E dito isto, saiu das luzes com uma bomba de gargalhadas a estoirar entre estilhaços de palmas a aplaudir.

A professora Gertrudes que além de Essa, Camões e Gil Vicente também adorava microfones, subiu ao palco, cantou desculpas por esta mas também por outras quaisquer coisinhas e chamou ao palco a directora, o presidente, a vereadora, o pároco e a senhora que emprestara os lençóis.

Fora de cena, sob o fundo dos discursos que duravam mais tempo do que a própria peça, sob as salvas pedidas a este e àquilo, que eram mais devidas que aos actores, pai e mãe consolavam o filho:

- Estiveste bem! Foste verdadeiro e ninguém viu! Foste o verdadeiro actor! O público aplaudiu! Que mais queres tu?
- Quero ir para casa para mudar de calças!

NOTA: Se essa o incomoda leia os comentários.

16 comentários:

Pata Negra disse...

Ó anónimo, seu muito bem que Eça é só com um ésse!

O Guardião disse...

O medo e as suas consequências deram-lhe a oportunidade de tirar uma salva de palmas do público. Nada mau para um principiante ainda para mais de improviso.
Cumps

JFrade disse...

Omeça, então o puto borrou-se todo?
A culpa foi do Gil Vissente.
JFrade

JFrade disse...

Onde pára o comentário do anómimo que ainda há pouco encimava os comentários?
JFrade

Pata Negra disse...

JFrade
Está lá! Não me digas que não o vês?!
Um abrasso

Maria disse...

Çó tu me Çacarias um çorriso a esta hora...

Abrasso.

JFrade disse...

Ai não está não. Não comesses com as tuas reinassões.
Saudassões.
JFrade

maceta disse...

este anónimo é o da craveira? do paquímetro? do micrómetro? ou de uma farramenta qualquer? dassilva...já no outro dia marrou com os dois ss...ainda por cima não usa o cartão do cidadão.

abraço

Anónimo disse...

Alto aí ó Maceta, o anónimo da craveira sou eu, o autêntico. E entrei na brincadeira. O anónimo dos dois ss é uma toupeira, é burro e não entende o jeito de escrever do Pata Negra.

maceta disse...

Fica explicado, não sabia que anónimo é apelido. Este é um país cheio de maneis...

Pata Negra disse...

Calma aí ó maceta, não vás na cantiga do anónimo da craveira, o verdeiro, o anónimo dos dois ss sou eu e não sou burro, sou porco que nem um suíno. Isto é, não existe primeiro comentário neste post, ou melhor, o primeiro é o segundo
Um abrasso aos doiss

Manuel Silva disse...

Chega um gajo a casa todo roto ao fim de uma semana do caraças e, para relaxar, pega numa cerveja e vai espreitar o seu blogue favorito e o que é encontra? Encontra uma tal confusão que fica baralhadinho de todo. Afinal quem é o marreta que é porco, o anónimo da caveira, o outro que gosta dos dois ss, (o cabrão é nazi?) o tipo que diz que é suíno e, já agora, o que é isso do primeiro comentário ser o segundo? Só vou a meio da cerveja e ao jantar bebi água por causa do fdp do balão. Por isso, se alguém aqui está bêbedo não sou eu.
Tenho a mulher à espera e eu a perder tempo com estas tretas. Mas quando não percebo o que se passa fico piurço e dá-me vontade de partir tudo.
Agora vou-me deitar mas espero que de manhã esteja aqui um comentário a explicar tudo. Boas noites

maceta disse...

Pata

isto é um terreno enganador...

abraço

O Puma disse...

Troquem lá isso por miúdos

O texto é excelente

M A R I A disse...

Pois não vejo margem para dúvida :
Vossa Majestade criou um Anómimo para tirar ao Eça o "s", mas agora, a quem para o anónimo olhar, vai Vossa Excelência acusar de o ver a ele, ocupando o seu lugar...
E dirá de certezinha :
o que primeiro comentou o que eu escrevi, tem que vir depois de mim.
Como podem pois os amigos, neste plano cogitar :
- Vê-lo a ele e não a mim, logo em 1º lugar ?...
Não há lençol que acoberte este "adoudada" conversa.

Quer que a Corte olhe para Si e põe-lhe um anónimo à cabeça ...

Ao menos enquanto isso o Carlitos fez a cena e fê-la com qual realismo que há-de ora trabalhar já em grande e no cinema :)

E se lido tudo isto, nada lhe fizer ssentido, lembre-se que foi o anónimo que eu vejo porque o criou que entrou aqui em primeiro e um "S" nos levou ...

:)))))))))



Que bom ainda haver espaço para um esse de (O-O) sorriso!

Obrigado.

Um beijinho amigo.

Maria

samuel disse...

Estou para aqui há que tempos à cassa dos erros horto-gráficos e nada...

Abrasso.