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quarta-feira, 6 de março de 2019

Há homens que não tem jeito nenhum para as mulheres

Se eu fosse mulher não queria um dia, preferia um porco.

Em 1953 todos aqueles vales estavam rodeados de floresta, todas as propriedades eram limitadas por regatos, todos os campos eram cultivados. Nas imediações dos milheirais existiam sempre represas rodeadas de salgueiros, carvalhos e outros arvoredos. Era para aí que as mães mandavam os filhos brincar à hora do calor. Mesmo quando estes começavam a ganhar corpo para agarrar na enxada, naquela idade em que não se é uma coisa nem outra, ao fim duma leira de canseira, haveria sempre uma voz com mais poderes que mandava:
 - Vão lá agora brincar um bocadito!

Foi no cumprimento duma dessas ordens que os dois se viram a sós num daqueles recantos sombrios onde sempre brincaram. Passou a concha da mão pela água da represa e atirou sobre o corpo que começava a ser outro.
- Ai! Molhaste-me a mama!
- Molhei!? Ora mostra!

Abriu a blusa lentamente e exibiu com legítima vaidade só uma das duas. Não adianta descrever o que foi visto, toda a gente já viu! Enfim, a perfeição como ela se revela no corpo de qualquer rapariga, salvaguardando que a perfeição é sempre relativa e que não interessa aqui particularizar esse conceito aos olhos de quem viu. Aquela visão, aquele seio, vi-lo-ia a perseguir em toda a vida.

Quando, já barbado, deu pelo pai fugido para o Brasil, a irmã mais velha a dar lareira a um homem casado e a mãe, conformada, agarrada a todas as alfaias, determinou-se a dar caminho ao sonho e emigrou para a Austrália. Veio duas vezes curtas, a última em 78, visitar a mãe mas, por vergonha, medo, mania ou por acaso, não se encontrou com a irmã nem correu o povoado a rever velhas relações.

Voltava agora com 74 anos, com duas malas, num táxi que tacteou lentamente a estrada asfaltada coberta de folhedos, entre silvados e a paisagem cruel dos campos ao abandono: a primeira casa do vale, abandonada, depois, frente a frente, duas com poucos sinais de vida, mais à frente ”uma casa estilo maison com janelas à la fenetre”, residência de férias pela aparência, um pouco mais adiante uma outra em ruínas e, ao fundo, a casa do seu destino.
- Foi aqui que eu nasci!
- Não me diga que vai ficar aqui?!
Anotou o número de telefone do taxista e despediu-se. Olhou, apreciou, sentiu saudade, alegria, tristeza, reviveu. À parte as ervas, as silvas e as teias, tudo deveria estar como a sua mãe deixou quando morreu, fazia poucos anos.
A irmã, que pelo remetente da carta fazia vida lá para o norte, reclamara a sua presença para arrumar partilhas. Ele poderia até ficar definitivamente. Em terras de poucas mulheres havia feito vida apenas com mulheres da vida - diga-se que vira muitos mas nunca mais vira um igual ao da represa - não fizera família e bem que, como homem livre e aventureiro, lhe poderia dar para viver ali o resto dos seus dias.
Perguntava a si próprio o que ganhara em sair dali. Poderia pagar a sua longa ausência à memória da sua mãe, voltando a cultivar os campos, reconstruindo a casa e os anexos, restaurando ferramentas e utensílios – afinal de contas, em tudo o que via, sentia a presença e a energia dela.

Deu volta ao pátio e à casa e arrombou a porta apodrecida. Foi duro entrar, foi duro olhar cada prateleira, cada objecto e a lareira ainda com as cinzas da última fogueira. Já esperava não encontrar condições para pernoitar. Precavera-se com equipamento de campista para os primeiros dias. Antes de dar mais tempo a recordações, a projectos e trabalhos de limpeza teria de arranjar terreiro e montar a tenda. Estava agachado na preparação das estacas quando ouviu um carro de mão.
Aproximou-se. Depois dos primeiros instantes de reconhecimento, surpreenderam-se mutuamente. Cumprimentaram-se. Fizeram a conversa da ocasião. Estou eu, viúva, e a minha cunhada mas lá em baixo no lugar ainda vive muita gente!
- Por aqui passam-se os dias, as horas não. Ao menos hoje vai lá comer a casa. Alguma sopa se há-de arranjar!

Durante a ceia as duas mulheres não pararam de contar e fazer perguntas. Acabariam por ficar só os dois na despedida e, ao levantar-se, o evitável aconteceu: um copo de água despejou-se na blusa negra de Rosalina.
- Mostra-me a outra!
- Júlio!!!
Para quem nunca teve jeito para abordar mulheres, teria sido apenas mais um estalo. Aconteceu que o mesmo não criou desculpas, nem ressentimentos mas apenas uns pares de gargalhadas, sinal que ambos ainda estavam a tempo de poder começar. Quando se dirigiu à porta e olhou para trás para dizer boa noite, viu exibir-se a blusa entreaberta e sentiu de novo a juventude.
- Ainda bem que não me pediste para te mostrar a mesma!
Joaquina já devia estar a dormir. Mesmo que espreitasse pela janela nunca iria acreditar no que veria, os dois num beijo.
- Não te desejo pela perfeição, o teu sorriso é e será sempre belo nem que te caiam os dentes!

sexta-feira, 1 de março de 2019

Um dia de Natal no Carnaval

Há uns anos, preparava com uns amigos uma peça de Natal para o Natal da coletividade. A três dias da estreia as coisas estavam tão mal!... os atores não sabiam o texto, os cenários não se desenrolavam, as músicas enrolavam-se, os projetores fundiam-se, o desastre anunciava-se, de modo que decidimos cancelar o espetáculo.

Custava-nos desperdiçar o trabalho entretanto realizado, adiar para o próximo ano seria demais, pelo que decidimos fazer uns ajustes ao guião para que a história encaixasse no Carnaval e, assim mesmo, ela foi a cena, no domingo gordo, com o nome "Um dia de Natal no Carnaval".

Foi um sucesso. Natal e Carnaval rimam de facto. Desde então não consigo separar as duas festividades e janeiro é quase como se não existisse. Também o Fabrício me ajudou a esta combinação.

O Fabrício é uma daquelas personagens únicas que todas as pequenas cidades de província têm, acarinham e faz parte do meio. É portador de um qualquer distúrbio mental que lhe dificulta o ganha-pão. Jovem ainda, assume-se atleta e corre as redondezas em treino permanente. Entra na barbearia, no talho, no supermercado, na repartição, contando as proezas das provas de atletismo em que participa, e sempre a correr, como se os seus afazeres não lhe deixassem tempo para parar muito tempo em algum lado.

Por vezes permanece imóvel em lugares frequentados, põe uma caixa de sapatos à sua frente e espera que caiam algumas moedas dos peões. Fica estático, numa pose que assume a sua condição, e essa autenticidade retira-lhe o grau menor de mendigo e confere ao seu gesto a dignidade de um trabalho a 
que tem direito. Julgo que consegue, por isso, resultados suficientes para o sustento.

Naquele Carnaval, o Fabrício fez uma bem dele! Dispenso debruçar-me sobre as suas razões e convido cada um a cogitar nelas: o Fabrício andou pelas ruas vestido de Pai Natal!


Este texto, tal como esta foto, homenageiam o Fabrício. 
O Fabrício é o do meio.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Como esconder o desejo sexual?

De acordo com o The Independent, uma pesquisa realizada no hospital John Radcliffe, em Oxford, mostrou que, em algumas pessoas, o espirro pode ser provocado por desejos sexuais.
O estudo foi iniciado pelo otorrinolaringologista Mahmood Bhutta, que atendeu um paciente que tinha uma sequência “incontrolável” de espirros a cada vez que tinha um pensamento com conotação sexual. Após atender esse paciente, Bhutta contactou o psiquiatra Harold Maxwell e os dois iniciaram, pela internet, uma pesquisa sobre o tema. Encontraram 17 pessoas que tinham esse problema. Revista Época


ESPIRRO SOB SUSPEITA

Jornal britânico lembrou episódio de 2007, quando a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, espirrou durante encontro com o então presidente da Rússia, Vladimir Putin (à esq.), e o ex-líder da União Soviética, Mikhail Gorbachev

Afinal não estou só. Não sou de estudos, não ligo muito a estudos, a não ser que me digam directamente respeito e vão ao encontro dos meus problemas. É caso para eu dizer: 17 não, 18!...

Folgo em saber que nenhum dos leitores me conhece pessoalmente, caso contrário, se vier para a rua constipado, vou acabar numa relação.

Até à presente confissão, este era um assunto guardado na intimidade entre mim e a minha companheira. Com um espirro meu, tanto lhe pode dar para sair repentinamente de casa dizendo que vai sozinha às compras, como lhe pode dar para avançar na minha direcção a pretexto dum ponto negro na orelha esquerda. Se espirro enquanto caminhamos na rua, começa a olhar à volta a procura dum motivo para alimentar o ciúme.

Quando começámos a nosso enamoramento levou um tempo até que tivesse aceite que, quando éramos apenas amigos, nem todos os espirros que eu dava tinham a ver com ela.
- Então tinham a ver com outras?!

Há uns dias, quando tive conhecimento desta notícia, expliquei-lhe mais acerca do modo como aprendi a disfarçar os meus impulsos nessa idade:
- Como, na maior parte dos homens, a coisa pende mais para o lado esquerdo, aprendi a ter sempre o lenço e o telemóvel no bolso direito das calças!...
- Tu és um mentiroso! Nesse tempo não existiam telemóveis!

Pois, não sei onde fui buscar esta do telemóvel, posso muito bem pôr as mãos nos bolsos. O pior é que, manda a educação burguesa, quando se espirra se deve pôr a mão, o lenço ou as duas coisas à frente da boca. Por isso, é sempre bom andar com o telemóvel. Atchin!!!...!!!!

Nota: Na eventualidade deste texto ser lido por alguém com o mesmo problema, seria bom que o manifestasse na caixa de comentários. Eu próprio tratarei de passar a informação aos investigadores de Oxford. Quem sabe se não seremos muito mais de 20? Quem sabe se não poderemos vir a formar a Sneezing Syndrome Association of Desire?

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OO OOOOOO OOOOO OOOOOOOOO OOOOOOOOOO OOOOOOO OOOOOO

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não! não são zeros nem ós! são partículas dum espirro que acabei de dar

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Nos cornos e na pele do touro


Doze quilómetros por maus caminhos de terra batida, entre pinhais, lugares, vinhas e milheirais, o homem ao guião, a mulher pendura na traseira do selim da motorizada, sentada de lado por impedimento da saia justa ao joelho, a criança, essa sim escarrapachada, sobre o depósito da gasolina. Fomos à Praça de Toiros de Abiul à primeira e última tourada a que assisti, ao vivo, na vida.

Trouxe de lá a primeira resposta à questão do que queres ser quando fores grande (?), moço forcado, pois claro e, douto na lide pela experiência, comecei a liderar as pegas ao carneiro grande quando ia guardar as ovelhas com os meus primos. 
Também, no recreio da escola, brincávamos às touradas. Aí, rodavam todos por todos os papéis. O que fazia de touro tinha de rodar o cinto de modo a que a fivela e a ponta ficassem na parte das costas para fazer o rabo. Fazia-se a pega como mandam as regras e, na parte do toureio, as garrochas eram as espigas duma erva daninha que se pegavam às camisolas de lã. Eu era bom na pega, no rabo, como cavaleiro, como touro ou como cavalo.

Quando, já jovem, fui a uma garraiada, diverti-me do lado de fora, dono de juízo para não me pôr nos cornos do touro. Ponho-me agora na pele dele.

"É pá! Porque é que estes humanos, que tratam de mim todos os dias, me carregaram agora para  cima desta camioneta? Porventura vão levar-me para outras pastagens. Estou a gostar do passeio. Mas, espera aí, desapareceram os campos, isto para aqui é só casario! Olha, querem que eu desça! Mas para quê, se aqui não vejo erva que se coma? Pronto, querem que eu vá por este corredor além? Vocês é que mandam! Se querem, eu vou! É lá! Tanta algazarra! Nunca vi um espaço assim sem verde! Pasto também não vejo! Ena pá tanta gente! E se gritam! Será para mim? Deve ser, sinto-me o centro. Olha aquele ali com um pano vermelho! Está a meter-se comigo! Vou correr para ele! Cobarde, fugiu! Outra vez? Anda cá que eu te digo! Na verdade até estou a gostar da brincadeira! E parece-me que todos estes humanos que aqui estão à volta também estão a gostar! Venham, venham todos brincar para a areia, vamos fazer uma festa! Até que enfim que vejo um cavalo! Vou ter com ele! Corro atrás dele! Estou a divertir-me tanto! Ai! Então? O tipo bem cheiroso que ia em cima dele espetou-me qualquer coisa nas costas!? Este tipo merece uma cornada nas pernas! Ai vai levá-las, vai! Não fujas cavalo que eu não te aleijo! Eu quero é apanhar esse empertigado que te cavalga! Ai! Outra? Agora doeu! Desta vez não me escapas! Gaita! Estou cansado! Mas o homem insiste em desafiar-me? Vou lá outra vez? Não vou? Não, que ainda me espeta outra no lombo! Mas o gajo está mesmo a pedi-las! Vou! Não fujas! Este cavalo tem cá uma corrida e faz cá umas fintas! Mas o que eu gostava mesmo era de apanhar uma perna do teu cavaleiro! Ai! Ai! Ai! Outra! Estou a sangrar! Este tipo quer matar-me! Desisto? Não sei que faça! Não confio mais em seres racionais! Vejo-os tão contentes! E o gajo bem vestido que me feriu? Todo ele é cagança! Vão embora? Vão embora vão! Eu também ia, mas não vejo forma de sair daqui! Outra vez o pequenote da capa vermelha. Quer festa? Tenho dores. Agora já não me apetece! Não insistas pá! Pronto já vi, queres uma cornada? Vai, vai, vai, ai que te safaste por pouco. E pronto, não vejo saída! Olha-me agora uma manada deles! Que será que estes querem? Olha que vocês não têm cavalos para fugir de mim! Se vêm por bem deixem-se estar! Olhem que eu já não estou para festas! Estão a chamar-me? Querem tourada chamem os vossos pais! Olhem que eu vou! Vou! Ah! Assim eu gosto! Estão a abraçar-me! Cuidado que eu ainda piso algum! Então? Vão embora? Então e tu? Que é que ficaste aí a fazer agarrado ao meu rabo? Gostas de rabos? Porra, já estou farto de andar à volta! Larga lá isso que eu não corro atrás de ti! Estou é com umas dores do caraças! Estou a ver bem? Gaita! Nunca vi tanta vaca! Agora que estou ferido é que mas trazem? Até que enfim que vejo campinos! Finalmente entre amigos! Querem levar-me convosco? Eu vou! Mas vocês não sabem é as dores com que estou! O melhor será mesmo matarem-me. Não me admira nada que seja para isso que me levam! Adeus humanos! Sei que nasci para morrer mas vocês também não escapam!"

Digamos, portanto, que até podíamos, inclusive os touros, divertirmo-nos muito com as touradas. A crueldade dos que espetam por prazer é que é demais. Porque é que não fazem como na esgrima ou no paintball onde ninguém se aleija? É que toda esta polémica das touradas em que, de um lado estão os que gostam dos touros e lhes espetam ferros, do outro estão os que gostam de touros mas nunca deram uma palha a nenhum, começa a ser ela própria uma tourada em que o touro é o cidadão comum. 

Dizem uns: se deixarmos de comer frango de aviário, acabam os frangos de aviário e os aviários. 
Dizem outros: não faço mal a uma mosca e gosto muito de bife de boi preto mal passado.
Haja paciência!
Animal nunca! Porco sempre! 



quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Uma história sem piada


No jardim do Cardal existe um lago circular com uma estátua ao meio, não me lembro se com um peixe a deitar água pela boca, se com um menino a mijar. O lago é rodeado por um passeio com várias ramificações e limitado por um conjunto de colunas de pedra que formam uma pérgula que dá caminho às trepadeiras.

Nós passávamos ali todos os dias a caminho de outros cantos do jardim, com os livros de filosofia e química debaixo do braço e, todos os dias, estava um velho sentado no mesmo banco. Tive intenções de um dia falar com aquele velho mas nunca o cheguei a fazer. Não me lembro se o velho olhava para nós, para o jornal ou para a estátua.

Passou um grupo de jovens de mochila às costas e telemóvel na mão, um deles sorriu-me. 
A esta distância não consigo ver se está um peixe a deitar água pela boca ou um menino a mijar, quanto mais ler um jornal! 

Porra! Mijei-me todo! Provavelmente achei piada a alguma coisa que me passou pela cabeça! O pior é que já não me lembro da piada nem se algum dia passei por este lago e tive intenções de falar com um velho que estava aqui sentado! Não importa! Se não falei então, falo agora! Isto de um tipo falar sozinho dá nestas histórias.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

A Grande Manifestação Nacional do Dia 15 é feita de nós


Do outro lado da rua onde moro também há casas com janelas e, como é natural, há uma janela que encaixa mais no ângulo da minha janela. Como é natural,  estando-me nas tintas para que seja observado daquela janela, observo diariamente que atrás  daquela janela vive uma mulher que anda em casa de um lado para o outro, que às vezes fica imóvel e, que às vezes, vem à janela. Como faço esta observação há alguns anos, sei que aquela mulher, tal como eu, vive sozinha, tal como eu tem uma certa idade, que se está nas tintas para que eu espreite a sua intimidade e que também lhe é indiferente a minha. Sei também, do que tenho observado, que aquela mulher não tem gato nem tem cão.

No fim de contas, tal como eu, aquela mulher é uma das mulheres da rua, uma das mulheres da cidade, uma das mulheres do país, salvaguardando que eu sou tudo isso menos mulher. 

Não tem gato nem cão mas tem um bácoro. Sim, um bácoro! Vive lá para trás da casa mas, de vez em quando, escapule-se do quintal pela porta das traseiras, atravessa a casa e sai pela porta principal. Depois é esperar pela solidariedade da rua para que, cercado, se veja obrigado a fugir pela  única saída, que é  afinal a entrada do número sete. Eu, que vivo no oito, nunca dei um passo para a recolha e limito-me a observar a tourada da minha janela, desconfio que o leitão não é de estimação nem é sempre o mesmo. Se fosse o mesmo já seria um porco! Estou convencido que a mulher o cria para depois o comer.

Aparentemente esta história, esta janela, esta mulher poderiam ser indiferentes a esta rua, a esta cidade, a este país. Acontece que hoje mesmo, véspera do Bolinho, a mulher agitou, da janela dela para a minha, um chouriço enquanto me inquiria se eu queria um. Se fosse eu o ofertante poderia ser mal interpretado! Mas uma mulher é uma mulher e, em resposta ao meu aceno positivo, não tardou à minha porta com a oferta, não sem que trouxesse acompanhada uma pergunta:

- O senhor vai à Manifestação Nacional do dia 15?
- Ó minha senhora, nem o Bolinho a 1, nem o São Martinho a 11, o meu próximo grande dia é o dia da Grande Manifestação Nacional do dia 15!

Eu sabia que teria de ter alguma coisa em comum com esta mulher, alguma coisa que muitas outras mulheres e homens têm em comum! Homens e mulheres únicos na sua rua, na sua cidade, no seu país, na sua luta e  que, com outras mulheres e homens únicos, fazem uma rua, fazem uma cidade, fazem um país, fazem uma Grande  Manifestação.

- Só por isso, por ambos irmos, o senhor devia convidar-me para lhe ajudar a comer o chouriço!
- Vamos, temos de acertar o amor com que dia 15 vamos tratar da nossa vida e da Grande Porca!

Aparentemente esta história não tem sentido. Que importa as histórias não terem sentido se conseguirmos dar aos dias o sentido histórico que eles exigem?

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O Bichinho do Teatro


Carlos Bicho, Carlitos no meio familiar, Bichinho entre os colegas, já tinha tido a experiência de actor na peça os Três Porquinhos, em pequenino mas era agora, já de buço, a primeira vez que pisava palco com pano e luzes numa sala de plateia cheia e às escuras.

O pai fizera-se à mãe, quando jovens se encontraram a sós num recanto dos bastidores do teatro da colectividade, ele ponto, ela contra-regra e honraram esse encontro mesmo depois de extinta essa actividade, participando como público em tudo o que era teatro, fosse na aldeia, na cidade, no Carmo ou no Trindade.

A professora Gertrudes era professora de português e honrava a sua profissão como especialista em Maias de Essa, amante de Camões e mulher de Gil Vicente. Da mesma forma que só lavava com Omo, só barrava o pão com Planta e só bebia Sagres, limitava orgulhosamente a sua cultura literária a este trio.

Há muitos anos que encenava com os seus alunos o Auto da Barca. Um lençol branco e outro vermelho a cada um dos cantos do palco; cada um com três cantos presos, um em cima e dois em baixo, de modo a fazerem vela triangular; na base deles mais dois lençóis castanhos presos a três cadeiras e a formar arco faziam as barcas; uma moça meiga em fato de comunhão solene a fazer de anjo; um moço espevitado, com rabo e cornos de diabo; o resto da turma nos restantes papéis; com jeito ou sem jeito, com brancas ou com rimas e “ó da barca” soavam as pancadas.

O pai do Carlos além de se auto-considerar com currículo de espectador, suficiente para desprezar as competências da professora encenadora, recomendou ao filho a recusa do papel secundário que lhe fora anunciado e acrescentou:

- Tu dizes-lhe que, em vez de participares na peça, preferes fazer uma recitação poética no final! Ela que não se preocupe com a escolha que eu trato disso!

Realizados o auto e os aplausos, Carlitos foi apresentado e apresentou-se sozinho, frente à ribalta, focado por um potente projector.

Todo ele e tudo nele abanava. De voz a abanar tentou começar. Nos rápidos pensamentos que lhe abanavam a cabeça pensou no que o pai, espectador, estaria a pensar. Não o conseguiu distinguir na penumbra da assistência repleta de olhos escuros e faces sombrias. Tentou novamente a primeira palavra. O olhar da professora Gertrudes à frente da fila da frente cortou-lhe a primeira sílaba. Sentiu um líquido viscoso escorrer-lhe pelas calças abaixo. Era o golpe final. Só lhe restava desistir corajosamente. Deu meia volta em direcção ao fundo do palco, esperou risos de troça e só ouviu silêncio, convenceu-se que com a luz intensa toda a gente via as calças claras com a mancha escorreita e escura e num acesso de raiva, virou a cara ao público e declamou:

- Caguei para isto tudo!

E dito isto, saiu das luzes com uma bomba de gargalhadas a estoirar entre estilhaços de palmas a aplaudir.

A professora Gertrudes que além de Essa, Camões e Gil Vicente também adorava microfones, subiu ao palco, cantou desculpas por esta mas também por outras quaisquer coisinhas e chamou ao palco a directora, o presidente, a vereadora, o pároco e a senhora que emprestara os lençóis.

Fora de cena, sob o fundo dos discursos que duravam mais tempo do que a própria peça, sob as salvas pedidas a este e àquilo, que eram mais devidas que aos actores, pai e mãe consolavam o filho:

- Estiveste bem! Foste verdadeiro e ninguém viu! Foste o verdadeiro actor! O público aplaudiu! Que mais queres tu?
- Quero ir para casa para mudar de calças!

NOTA: Se essa o incomoda leia os comentários.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O Chouriço do Custódio



Albertina casou tarde e enviuvou cedo sem que lhe tenha vingado prole. Deixou-lhe o falecido, gado e fazenda suficientes para não morrer de fome e trabalho para não ter tempo para encantar outro de companhia.
Eram os dias em que teria de levar a porca ao porco e o porco mais falado daquele ano, era o do Custódio, casado e sem filhos, o qual levava por emprenhamento um chouriço por cria.

Levou, ciosa, o cio da porca aos currais do cobridor, com um baraço, uma verdasca e uma saca de milho para lhe acertar o caminho. Custódio abriu a porta, ajudou a empurrar a porca para dentro e fechou o ferrolho. Ambos ficaram de braços na cerca, de olho no entusiasmo do macho e no jeito da fêmea mas nada acontecia.

- Ó homem vai lá tu! - queria dizer ela encaminhar o porco ou ajeitar o rabo à porca...
 E, quando acabou de insistir pela terceira vez, riu-se de embaraço por ter reparado na asneira que repetira. Reparou também que Custódio desapertara o cinto e rogou-lhe por Deus:
- Ó homem não castigues o animal!
Quando o viu baixar as calças pensou para consigo:
- Ai este raio que me vai dar cabo da porca! Eu nem quero pensar o que ela pode parir!

Albertina resistiu por instinto mas acabou rendida pelo desejo sobre um carro de rodas onde ambos se envolveram em duas valentes...  - faltou-me agora o termo... ou rima!... mas já  agora que, como narrador, pus o bedelho no enredo, aproveito para um conselho:
- Albertina, lá por não os haver, não quer dizer que não te tenhas metido em maus lençóis!

Consumado o ato  humano, ainda em recomposição, espreitaram para o lado de dentro do curral onde, agora sim, os animais faziam a sua parte num infindável coito que ambos classificariam, em pensamento, como invejável.

As coisas aconteceram, as coisas acontecem e, ao fim de doze semanas, a porca pariu doze bácoros. Custódio não reclamou a dúzia de chouriços.
Ao fim de seis meses Albertina foi aos Doze com os leitões. Custódio, encontrou-a e disse-lhe:
- Albertina, que barriga é essa?!
Albertina, cúmplice do seu estado, fez silêncio.
Ao fim de doze meses, tinha o menino, portanto, já três meses, envergonhada por ter copulado com homem casado, Albertina continuava a recusar identificar o nome do pai, o que muito irritava os curiosos e ainda mais o padre que, como ministro da confissão, se achava no direito de tudo saber.

Mas, ao fim de trinta e um meses,  na Festa de Santa Madalena, deu-se o trinta e um:
Custódio, dirigiu-se a ela e referindo-se ao menino que  trazia ao colo:
- Então, como é que se porta o chouriço?!
Albertina, recordando o modo submisso com que se entregou sobre o carro de rodas, insubmissa, atirou de alto e em som para que toda a gente ouvisse
- Não me fodes outra vez! Um grande chouriço me saíste tu! Agarra-o que é teu filho!

Custódio ficou com o menino nos braços e chorou. A mulher dele, dando de caras com a cena, largou-lhe uma deixa de palavras coradas:
- Aí tens nas mãos o que eu, pelos vistos, não te consigo dar!

E o arraial animou-se de tal forma que ninguém foi julgado ou foi juiz, Custódio continuou a viver com a mulher, a mulher continuou amiga de Albertina, o padre renunciou ao celibato e casou com Albertina.

Hoje em dia, na aldeia, já ninguém vai com a porca ao porco, já ninguém vai estudar para padre e toleram-se com mais abertura certas paixões de ocasião. Contudo, mudados os tempos, o puto nunca se livrou de ter como alcunha "O Chouriço do Custódio".


domingo, 7 de outubro de 2018

Não tenho pena de Cristiano Ronaldo



Ó menino Cristiano, isto dos problemas na vida não pode calhar sempre aos mesmos! Preocupam-me muito mais os resultados eleitorais no Brasil do que o teu caso com a justiça americana! Registo apenas que entre tu e essa mulher, um dos dois é vítima e um dos dois está a mentir! Mas olha, é o que acontece a quem goza dos belos prazeres entre a gente rica americana, a quem dorme em luxuosos hotéis e anda em altos carros!
Tivesses tu um velho volkswagen carocha e podia ser que a justiça resolvesse o caso assim:

A moça recorreu à justiça, acusando o namorado de a ter violado.
- Diga-me lá menina o que lhe aconteceu.
- Então o meu namorado convidou-me para dar um passeio no seu carocha...
- E a menina foi?
- Ó senhor doutor juiz, eu na minha inocência, fui!...
- E conte lá, depois...
- Depois parou o carro numa mata...
- E a menina não disse nada?
- Ó senhor juiz, eu na minha inocência, pensei...
- Sim, mas conte lá...
- Depois começou a fazer-me umas festinhas...
- E a menina não reagiu?
- Ó senhor doutor juiz, eu na minha inocência...
- E depois, que lhe fez ele mais?
- Tirou-me as cuequinhas e....
- E a menina deixou?...
- Ó senhor doutor juiz, eu na minha inocência deixei...
- Então e a seguir?
- A seguir mandou-me ir para o banco de trás...
- E a menina foi?
- Ó senhor doutor juiz, eu na minha inocência fui!
- Foi e depois?
- Depois abriu-me as pernas...
- E a menina não estranhou?
- Ó senhor doutor juiz, eu na minha inocência...
- Abriu as pernas e?...
- Disse-me para as estender e enfiou-me cada um dos pés naquelas pegas que estão por cima das portas.
- E a menina não resistiu?
- Ó senhor doutor juiz, eu na minha inocência ...
- Ó menina vá-se embora que inocente sou eu que há vinte anos que tenho um volkswagen e ainda não tinha percebido para é que servem as pegas!!!

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

A ponte sobre o Tejo, a ponte de Salazar e a ponte 25 de Abril


Havia um passadiço para quem não queria molhar a barriga das pernas mas as bestas de carga, os carros de bovinos e equinos e até os automóveis, transpunham a ribeira se não houvesse cheia ou grande lamaçal. Entretanto, já eram tempos de se poder construir uma ponte em cimento armado que unisse as duas margens e o presidente da câmara, nomeado pelo regime, vinha ao lugar para dar nota que a obra iria para a frente assim que houvesse disponibilidade orçamental.

Apareceu então, assessorado, num carro preto de modelo da altura mas, quando já tinha quase vencida a travessia, ficou atascado e, por mais pedras, paus e mato que os naturais enfiassem por debaixo dos rodados era só patinanço, afundanço e enlameanço, de tal forma que a comitiva nem do veículo podia sair, sob pena de dar cabo do lustro dos sapatos e dos fatos finos próprios dos seus ofícios.

Ordenou a autoridade municipal aos aldeões que arranjassem uma saída para o incidente e era se desejavam alguma vez ali ter ponte! Com humilde respeito e obediência, foram uns homens buscar a junta mais possante engatado-a ao carro para o libertar do atoleiro. Não parecia a força da parelha ser a solução, ou porque estranharam a natureza da carga ou porque ela fosse demais, teimosos que nem burros, os bois não se mostraram tão servis como os boieiros.

Por feliz ou infeliz coincidência, quis o destino que o presidente fosse tratado por Engenheiro Falcão e que pelo mesmo nome respondesse um cão, o Falcão, que ali estava acompanhando o dono. Pois não é que, tendo ouvido em tons diversos o vocábulo, o cão se atiçou aos dois animais e estes, espantados, desataram com força incontrolável em incontrolável corrida, arrastando o veículo em balanceante andamento até o fazer tombar na primeira curva!

Acalmou o gado e acalmaram-se os presentes mas não o presidente e os seus que, sentindo o embaraço do ridículo numa visita de onde deveriam ter saído vitoriosos e aclamados, informaram o povo que aquela ponte só seria feita se houvesse uma revolução.

Sentida, a boa gente, pela vingança declarada e pelo mau feitio dos administradores, assim que viram partir o carro mal tratado a bater latas, decidiram logo ali, em informal assembleia popular, que sim, a ponte seria feita, nem que nesse ano não houvesse dinheiro para o andor, nem para a banda, nem para os foguetes, nem esmola para a Santa Ana ou para missas.

Fez-se a ponte com a força, os pedreiros, os serventes e os dinheiros da terra e acharam por bem os voluntários batizá-la de Ponte do Falcão, não para lembrar o autarca não grato mas como sinal de gratidão ao cão Falcão.

Quem não ficou muito contente foi o prior, tendo até ameaçado fazer excomunhões, tendo-se apenas conformado quando alguns, mais tementes aos Céus, levaram a sua avante e foram com ele benzer a obra e gravar nela o nome de Ponte de Santa Ana.

Veio a Revolução e, sendo conhecida a história no concelho, veio o primeiro presidente eleito à povoação e, por justiça da história, quis ressarcir o povo da quantia despendida e mais algum ainda, que era merecido pela coragem demonstrada. Sempre presentes e convidados, os representantes do clero nestas ocasiões, quando chegou a vez do prior dizer as suas, dirigindo-se ao político e aos cristãos, fez a sua proposta de bradar aos céus: que, se o erário estava assim aberto, seria justo reconhecer que a dívida era para com a Igreja, mais particularmente para Santa Ana que quase não teve festa no ano da construção da ponte.

Ao fim de alguma discussão chegou-se a acordo, e acordado foi que, se o dinheiro fosse aplicado no largo da capela, que era do uso de todos, e o padre reconhecesse que já não havia dívida para com a Santa,  poderia ser esse o destino do montante, desde que se mudasse o nome da ponte para Ponte do Povo.

Acontece que hoje, passados tantos anos, coexistem os que a referem como Ponte do Falcão, Ponte de Santana ou Ponte do Povo e, sinais dos tempos, os mais jovens começaram a chamar-lhe a Ponte dos Três Nomes.

domingo, 29 de julho de 2018

A árvore que mais amei

Era uma figueira de porte que excedia a normalidade. Debaixo da sua copa só a hortelã se dava. Roubava espaço ao talho da horta e ao socalco das ervilhas, fazia sombra ao terreiro da nora e ao poço ao qual devia a sua frondosidade. Do seu tronco principal, que junto ao solo não se abraçava, nasciam vários ramos de diâmetro da largura dum tronco de criança, desses derivavam outros com grossura de perna ou braço de homem, desses outros de dedo polegar ou de mindinho, enfim, uma árvore, uma figueira grande.

Segredou-me minha mãe, um certo dia, que, quando eu era mesmo pequeno e ela tinha de ir tratar de coisas à vila, me deixava preso a ela com uma corda das ovelhas, me deixava uns cacos e uns cavacos para eu brincar, um naco de pão com marmelada dentro dum tacho para o guardar das formigas - vinte minutos para lá, vinte minutos lá, vinte minutos para cá, uma hora e eu permanecia sempre entretido sem uma lágrima no olho.
- Ai se fosse agora e alguém soubesse! Vinham os da Protetora e eu seria notícia, crucificada e julgada pelos adeptos das creches de vinte e quatro horas.

Já de idade maior e com habilidade de trepador, tratando da horta, mandava-me com uma saca colher figos. Então eu começava nos troncos principais, uns mesmo à mão, outros esticando-me, outros mais longe, onde um adulto nunca poderia chegar, as pontas da árvore a abanar, mas eu lá ia, recolher mais dois ou três, até onde houvesse ramos com força para me suportar.  Que bom era sentir-me macaco!
E, cheia a saca, descia e ia vitorioso mostrá-la à mãe que abria regos para os feijões.

- Desce a ladeira e vai dá-los à dona Henriqueta que não conheço pessoa que goste mais de figos pingo mel! Mas traz a saca!...
- Ai meu menino! Deus te pague! A tua mãe é uma santa!

Voltava ao quintal e "filho vai encher outra" e "ó mãe já está".
- Filho sobe o monte e vai levá-los à tia Engrácia ela vai ficar muito agradecida! Mas traz  a saca!
- Ai meu menino! Que Deus te pague! A tua mãe é uma santa!

Nova corrida, nova viagem, rica figueira, está carregada, "apanha mais uma para a tua avó! Mas traz a saca! "
Atravessar o Vale da Carreira, sempre a correr, a avó Gracinda:
- Meu santo filho que casou tão bem! Não tenho nada para te dar mas diz à tua mãe que eu lhe agradeço!

- Apanha só mais uma para a senhora Teodora, bate à porta e mostra respeito ao pedir a saca!
- Ó João Trinca Espinhas, a tua mãe é tonta, eu gosto deles é comidos da árvore, mas está bem, dá cá!
- A senhora gostava era de estar escarrapachada nos ramos a roçarem-lhe a crica!
(Há coisas que só se pensam e não se devem dizer ou escrever).

- Agora brinca! Não vás pró pé do poço, não saias da sombra da figueira, quando o sol se for chegará o pai.
Ele, pesado do trabalho, pesado demais para subir à figueira, punha-me às cavalitas, tira este ali, estão mesmo bons, vê se consegues agarrar aquele, ainda tem leite, olha aquele ali, que boa passa. E, já satisfeito, com peito para um bagaço, descia-me dos ombros, punha as mãos ao bolso e dava-me dois rebuçados de meio tostão.

Até que um dia, eu já maiorzito... amanhã vamos cortar a figueira, as raízes estão a dar cabo das paredes do poço, sem a sua sombra podemos ter mais dez regos de feijões e livrar-mo-nos do mosquedo de setembro!

Então, com machados, machadas, serras, serrotes e pedoas, nos fizemos ao monstro e o despedaçámos. Custou-me muito, mais do que ver o avô a enterrar, ver o tio embarcar ou matar o porco!
- Esta lenha não vale nada, não chega aos pés do pinho ou do carvalho!
- Se é assim porque carvalho a traçamos e não a damos à cabra da dona Teodora?
- Que raio de ideia a tua, foste logo pensar na única pessoa do lugar que não tem gado e, além disso, as cabras só comeriam as folhas!

As figueiras nunca foram árvores amadas, talvez pela história de Judas, talvez pelas suas raízes atrevidas... mas os figos! ai os figos! chamava-lhe um figo! diz o povo e não por acaso!
E, ainda hoje, passados mais de oitenta anos, quando eu vou à terra para ver se os marcos estão no sítio, abeiro-me do poço para ver a altura da água, sinto o cheiro da hortelã que não sobreviveu à falta que a sombra da figueira lhe deixou e regresso a casa desejoso de figos pingo mel.



sábado, 21 de julho de 2018

Ebrionário

Ébria pose, ébria postura, olhar ébrio, gestos ébrios, frases ébrias, palavras que se atropelam entre si, ideias sentidas sem sentido, uma irrequietude quieta de quem soletra sílabas que se arrastam nos olhos de quem nos vê e não nos ouve. Versos ébrios? Ah isso não existe! Ah, nenhum tratamento, nenhum vento, nenhuma marcha, nenhuma frente ativa nos poderá trazer a sobriedade com que entrámos na escola com uma sacola de pano, com um caderno e uma pedra de ardósia. Querer conhecer o código dos símbolos do alfabeto, aprender a ler e a escrever, numa ânsia de, vindos à luz, tudo querer saber.

Saber ler, falar corretamente, citar poetas e escrituras, escrever cartas e discutir filosofias de caserna ou academia; interpretar o mundo, as razões dos homens e das mulheres, a história, as religiões, as revoluções, as utopias e dar por ela, ao fim duns longos anos, que em curtos dias a última garrafa  está vazia. E, por incrível que pareça, não é a nossa cabeça que anda à roda, é o mundo que roda à nossa volta, não são os nossos olhos que veem tudo enublado, é a realidade que é nebulosa. Não, não foi o álcool, nem o fumo do cânhamo que nos afastou da realidade, o que nos intoxicou foram os fumos dos automóveis que nos guiam, das ondas eletromagnéticas dos telemóveis que nos socializam, da worl wide web que nos ensina tudo em código binário, o código mais simples que existe e que o homem simples não entende. 

Impossível voltar à realidade. Tanto que eu gostava de voltar à realidade, reaprender a lucidez, pousar os pés na terra, cheirar o alecrim, ser como o meu avô, embora não dispensando o último livro que li, o banho de água quente, o frigorífico e um blogue de que gosto muito mas que não me lembro agora o nome - esqueço-me muito! - e um bom tinto!

Ébrio! Ou apenas um bocado arrebatado! Sem paciência para a televisão nem para os telespetadores, para os comentadores e para os comentados, para o governo e para os eleitores, para os reformados e para os empregados, para os alunos e para os professores, para os filhos e para os pais, para as crianças e para os anciãos,  para os brigadeiros e para os soldados,  para os juízes e para os julgados, para os exploradores e para os explorados, para os polícias e para os os ladrões, para os patrões e para os sindicatos, para os médicos e para os doentes, para os lúcidos e para os dementes, para os bêbados e para os que só bebem água. 
- Eu, são e lúcido? Seria o homem ideal!  


Assim, sou só um proco.. pcorco.. porco - consegui, apesar da cabra... da ciática!...
Gostava de ficar conhecido como o porco que inventou o termo "ebrionário".

domingo, 27 de maio de 2018

Lição de português

- Cuida da burra João mas não vás para ao pé do poço!

Dizia minha mãe antes de desaparecer, descalça, pelo milheiral adentro para, com os calcanhares e a sachola, encaminhar a água à raiz de cada pé de espiga. E eu ficava ali, seguindo as voltas da burra emprestada p´lo ti Adelino, vendada e amarrada à nora, repetindo voltas sempre iguais, cumprindo com os seus círculos o sucesso da próxima colheita. E eu andava por ali, também às voltas, seguindo solidário as suas voltas, caçando borboletas, contando os alcatruzes a cada despejo, seguindo os caminhos da água até esta desaparecer pela sombra fechada do milho que escondia a minha mãe. Impossível repetirem-se esses cheiros, essas águas, esse verde; nem a vida me permitirá chegar aos calcanhares do ti Adelino - dificilmente conseguirei um dia ter uma burra!

Mas sou bem herdado na parte que toca a ter passado. Usufruí dessa riqueza de partilhar com a burra o verde do milho, o som da água, a sombra da latada que completava o poço e toda a engenharia da secular nora.


Incrível como é possível que a foto que se segue me tenha permitido banhar-me nesta infância! Recebi-a com a legenda "anda tudo à nora!" Não me ofendam! "Andar à nora" não tem nada a ver com "à procura do lugar para a fotografia"!

Dum comentário: "A Merkl disse: hoje quero dormir com o colega de sapatos castanhos! Aí o pessoal entrou em pânico e todos quiseram certificar-se que não lhes tinha saído a fava no bolo-rei. Tá visto!"

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Poesia da tia

Depois de enterrada a tia Anselma, aqui contada recentemente, vasculhando o seu magro espólio, encontrei esta poesia que justifica a sua opção pelo celibato:

há homens de bom agrado
há outros são diabo
que aparecem às mulheres
em solteiros são tão lindos
mas aqueles lábios finos
em casados são colheres

nunca são o que parece
há homem que só se conhece
zangado e das avessas
quando briga com a mulher
chama-lhe aquilo que quer
esqueceram-se as promessas

há homem que é extravagante
por vezes é um moinante
passa a vida nas tabernas
quer é beber e jogar
e a mulher ir encontrar
disposta a abrir-lhe as pernas

em novos são ciumentos
em velhos são rabugentos
triste vida negro fado
não te metas em sarilhos
que aturar marido e filhos
é porca que torce o rabo

há homem que é um fascista
por vezes é egoísta
ainda meiguinho e a rir
mostra-se um bom camarada
faz da mulher uma criada
que ali está para o servir
eu tinha uma companheira
vivia também solteira
um dia perdeu o jeito
ao fim de um mês de casada
apareceu com a cara inchada
e um braço amarrado ao peito

rapariga se és solteira
e queres morrer de velha
vê-te bem a este espelho
estás a tempo não te cases
não dês conversa a rapazes
toma se queres meu conselho

ao falar-te deste assunto
se tenho vivido muito
pois foi sempre ajuizada
cá no meu entendimento
fiz porém meu juramento
de morrer sem ser casada

seja antero ou artur
quem os tiver que os ature
sempre disse e hei-de dizer
nunca me aventurarei
e só os aturarei
se algum dia enlouquecer

quero aqui escrito deixar
mulher que pensa em casar
traz sua alegria morta
deixo-te aqui recordado
este tão velho ditado
homens nem de barro à porta

A todos aqueles que duvidaram da autenticidade da história, julgo que a forma e teor da poesia atestam que não inventei nada.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Vai amanhã a enterrar a minha tia Anselma

Património da terra, a tia Anselma, vai amanhã a enterrar. Do leito da agonia, o mesmo onde dormiu todos os seus sonos desde que se fez moça, nem uma única pernoita fora daquela cama se lhe conta, disse-me isto assim:

- Abre aí essa gaveta, julgo que está aí dinheiro que chegue para não teres de entrar para o meu enterro. Se não chegar... olha, amanha-te! Se sobrar para um ramo de flores, que seja de cravos, acho que os mereço! Sei que não és de missas, por isso, se não houver padre, descansa, não me vou levantar!

Os pequenos, na idade em que se iniciavam na palração, não tendo língua para dobrar o nome Anselma, chamavam-lhe An e, os maiores, corrigiam-nos, completando com acentuação as sílabas em falta: - ... sel-ma! Mas foi assim, como se dum acordo de gerações se tratasse, que acabou por ficar An para os mais novos e para os mais velhos, Selma.

Por condição de solteira, mais tarde solteirinha e, a partir de certa altura, por correção sua quando a referiam nestes termos, assumidamente solteirona, ficou, por herança, com a casa dos pais, meus avós.
Com o andar dos anos, o espaço outrora cheio, foi perdendo a vida, as crianças, os animais, as arcas e as pipas cheias, as vizinhanças, até ficar só ela com mais meia dúzia de velhos enviuvados, os residentes do lugar. Enquanto teve forças, virou a terra, fez a burra carregar a palha que comia, escorou as capoeiras que ameaçavam desabar, substituiu telhas partidas, regou a horta, as hortenses e sardinheiras, caiou os muros, acendeu o forno, fez a sopa e cinco almudes de pinga por ano. 

Aos sete anos, a casa era-me de tal modo familiar que eu entrava cozinha dentro, sentindo os pés pegarem-se às tábuas sebosas, fazendo vistas largas à loiça suja e o nariz estreito ao cheiro a fumo e dizia:
- Tia An, tenho fome!
Então ela arranjava-me um naco de pão com tanta marmelada como se gastava na minha casa numa semana.

Aos doze anos, a tia An solicitava préstimos meus e dava-me em troca uns trocos que me davam jeito para comprar costelas para os pardais e fitas para os punhos da bicicleta.

Aos dezoito anos, comecei a tomar consciência do modo de ser da tia An. Teria sido, mais jovem, bonita e jeitosa, ainda era bonita e jeitosa, mas o vestuário austero, o cabelo sem cuidados, o semblante geométrico, davam-lhe um ar neutro, o ar duma pessoa que nunca surpreendia,  conformada com o destino de apenas ter de trabalhar para sobreviver.

Aos vinte e quatro anos, comecei a interrogar-me acerca da filosofia de vida da tia An. Limitada ao seu quinhão rural, na missa era mulher dos lugares do fundo, não tinha rádio nem televisor, era de conversas limitadas ao essencial, nunca dando largas a assuntos banais, era generosa mas não aprofundava grandes relações e escolhera-me como seu familiar de estimação.

Aos vinte e oito anos, quando a fui convidar para o meu casamento, tivemos a conversa das nossas vidas. Agradecia o gesto, aliás meu dever, mas saberia eu que não iria, não por não ter roupa, não a envergonhava o seu fato domingueiro, não por não ter dinheiro, saberia bem que eu não lhe cobrava a presença, mas porque não lhe apetecia e sabia bem que eu não a julgava, que comprasse eu os sapatos que quisesse que ela os pagaria.

- Ora essa tia An! Trazer-lhe-ei o talão! Pena só tenho de não ter ido ao seu!
- Ó rapaz, não penses tu que não tive namorados! Dois! Um sabia bem o que ele queria e o outro o que ele queria sei eu!...
E então, dito isto,  divagou sobre si própria, a sua opção de não viver para satisfazer os caprichos ou desejos dum homem peludo e de hálito vinhateiro, de gostar de viver sozinha, da vida que levava, surpreendendo-me com uma confidência que me fez corar como se de repente se tivesse despido à minha frente:
- Homem?! Eu tenho mãos para ganhar a vida e tenho dedos para me desenrascar!

Até anteontem continuei a visitar regularmente a tia An. Acompanhava-me sempre ao carro com umas batatas ou umas cebolas, uns ovos ou umas maçãs, uma galinha ou um coelho. Falávamos à volta da lareira se fosse inverno, no sobrado se fosse verão:

Foi uma vez a Fátima, jurou para nunca mais. A Coimbra nunca foi, nem sequer para fazer uma colonoscospia. Nos anos sessenta foi uma vez numa excursão à Nazaré. Dos carros tinha medo, a televisão para ela era bruxedo, telefonar só se fosse para os bombeiros, 25 de abril, sempre! votar só uma vez e foi na foice e no martelo, às Festas do Bodo se lá te apanho lá te... e ria, ria...

A tia Anselma vai amanhã a enterrar. Tentei encontrar padre para a encomendar, não consegui mas estou confortado com o facto dela não se importar. Comigo vai estar uma meia dúzia de pessoas. Nem uma lágrima se verterá. Durante uma semana outros saberão da morte dela e é natural que dela se vá falar. Feito o orçamento da agência acho que ainda me vai sobrar algum. Daqui a uns meses aparecerão os meus primos e vai haver desentendimentos sobre montes que nada valem e montantes que deveriam existir. Daqui a uns anos ninguém saberá quem foi a última moradora, nem quem são os donos da casa dos meus avós que estará em ruínas.

Se nunca teve uma causa maior pela qual lutasse, se não era de crenças, se não deixou descendência, se não deixou obra que lhe lembre a vida, se nunca viajou, se nunca partilhou a cama para se dar ou possuir e aos costumes disse nada, o que deixou a cidadã Anselma que se diga com humanidade que valeu a pena?

Ela mesmo disse do seu leito de agonia, que foi um instante e não dois dias como é hábito dizer-se, que nem ao padre alguma vez se dobrou ao arrependimento, que foi feliz sem homem e sem outra criação que não fosse as das suas cabeças e tomates e que ficaria morta em paz sem alguém que lhe velasse a sepultura.

E eu mesmo digo, continuar-se-á a respirar o oxigénio das árvores que plantou, comer-se-ão as filhas das filhas das filhas das crias que criou, ninguém poderá assegurar que o cabrito no forno que irá comer um ano destes pelo Natal não teve como antepassado uma cabrão que ela guardou, nem eu sei quando se esvairão no ciberespaço os significados deste texto que dela fala e conta. A sua vida foi tão importante como a de milhões de servos, nobres  e eremitas que já morreram e dos quais não há uma única lembrança. A sua vida valeu tanto e tão pouco como a de qualquer um.

Serena, Anselma, património da terra, vai a enterrar amanhã.


quarta-feira, 28 de março de 2018

A cantiga é uma arma

A minha mãe não era saloia de todo. Viveu três anos em Alfama, como criada, e contou-me que uma vez foi de lá ao hospital de Santa Maria, sozinha e a pé, a uma consulta. Trouxe de Lisboa o gosto pelas marchas populares e pelo fado.
A minha mãe gostava de cantar sozinha ou acompanhada ou, se alguém a desafiava, à desgarrada.
A minha mãe mandou-me ir à fábrica levar uma "casse-cruta" ao meu pai porque o almoço tinha sido fraco. Ficou a encerar a sala porque era a altura da Páscoa e o senhor prior iria lá a casa. Ficou a cantar um fado que encantaria a vizinhança ou qualquer outro freguês que passasse no outeiro.
Desci a vereda e, a meio dela, ouvi cantar a Maria Rosa que guardava as cabras; passei pela almuinha e encantei-me com a cantiga da Maria da Quinta que colhia tomates; cheguei à ribeira e levei no ouvido a canção da Maria da Graça que lavava roupa; segui pela tapada e cantei com o eco das quadras da Maria dos Anjos que regava o milho; às primeiras casas escutei a Maria Natividade a rogar pragas no curral dos porcos; à porta da Maria da Luz só os cães ladravam. Cheguei à fábrica e o Cossa assobiava uma melodia em alta fidelidade; no canto das suas máquinas, o Torneiras entoava as suas canções brejeiras.
O meu pai mandou-me de volta e recomendou-me que fosse a cantar para enganar o medo dos cães da Maria da Luz, dos porcos da Maria Natividade, da tapada da Maria dos Anjos, das cuecas da Maria da Graça, dos colhões da Maria da Quinta, dos cabrões da Maria Rosa.
Ao entrar em casa a minha mãe continuava a moldar o seu fado.

Isto é, era normal cantar. Teria razão o Marceneiro que dizia que as gravações e a rádio iam dar cabo do fado? Hoje quem canta ou assobia - ainda há quem assobie? - uma melodia enquanto trabalha ou caminha não é visto como normal!

Para quê cantar se há quem cante por nós? Dedilham-se os botões do aparelho e ele dá-nos música.

E, já que estou em maré de me virar contra quem não canta, também não perdoo aqueles que cantam aquela palha, sem nunca transportar uma estrofe revolucionária que dê voz à voz do povo. Poetas e cantores que não encontram poesia para um protesto, que não encontram acordes para uma insatisfação, que não musicam um grito para uma revolta (rapazes do rap dou-lhes o meu carinho!).
Nem sequer se pode perdoar a cantores de maio e abril, que foram cantando e tocando cada vez melhor, grandes produções - dizem eles - tão grandes que já não cabem no salão da associação.
Puta que os pariu e ao vosso profissionalismo musical!

Já só canto no carro e no chuveiro quando estou sozinho. Que ninguém cante comigo eu ainda aguento, não suporto é que haja sempre um voz familiar a repreender-me: ó pai, cala-te! ó pai, nem na letra acertas! ó homem, as pessoas vão saber que tu és maluco!...

Não é que eu não cante bem, não tenho é voz e tenho muito medo do sucesso.

domingo, 25 de março de 2018

Venha um traçado de brexit com russofobia

O Meia Leca tinha uma alcunha que lhe assentava como uma luva e, de pequeno homem ou homem pequenino, outros atributos lhe cairiam como: saco de veneno, coração ao pé da boca, embusteiro, velhaco ou dançarino. Via-se em todos as feiras, arraiais e bailaricos, discussões, desordens e escaramuças.
De pé atrás observava o ambiente e o pendor dos acontecimentos e, na altura certa, cagava a sua pequena sentença ou metia o seu punho pequenino.

Quando a zaragata começava, saltitava silencioso na periferia do rodopio e, só quando o vencido já definido tombasse rendido à força maior, aparecia esquivo por entre a confusão para dar o seu pontapé ou o seu murro.

Isto, se o valentão da contenda não fosse o Enxurrada, o zaragateiro mais famoso da sua freguesia, capaz de dar sozinho a cinco ou sete duma penada. Nesse caso, ele aparecia mais notado ao lado do grandalhão, incentivando o desejado desfecho das vias de facto. 
Se ao lado do Enxurrada  apareciam outros golias da ribeira, subia-lhe ainda mais a coragem e podia até tomar lugar na linha de forcados, acabando sempre a pega atarantado à procura dum rabo que lhe calhasse.

O Enxurrada tinha um respeito frio, recíproco aliás, por Brutamontes, um tipo da sua laia que, nas aldeias da serra, era o rei da porrada. Cada um, no seu território, impunha o seu respeito e a rivalidade só aquecia se algum fazia das suas ou se cruzavam nas terras do sopé. Mas, como se temiam quando se mediam, normalmente os desacatos não iam além duma troca de bocas mais brejeiras acompanhadas pelos coros das respetivas companhias.

Nessas alturas o Meia Leca punha-se em bicos de pés na última fila mas ninguém dava importância à sua voz esganiçada.

Ora, assim contada a história, ninguém compreendeu porque
- tendo aparecido o cão do Marmanjo, um companheiro de armas do Enxurrada, falecido nas escadas da sua casa;
- tendo o Marmanjo concluído que provavelmente só poderia ter sido obra do Brutamontes, até porque havia fortes indícios que fora envenenado com queijo da serra fora de prazo;
- tendo o Enxurrada logo prometido que o serrano não esperaria pela demora;
- tendo todos os grandes da ribeira mostrado apoio ao Marmanjo e ditado ameaças contra a brutalidade do velho inimigo de estimação...
... o Meia Leca continuasse mudo e calado como se fosse seu hábito primeiro averiguar de que lado é que está a razão.



Vá lá, pequeno Marcelo, pequeno Costa, digam alguma coisa ou pelo menos escrevam um declaração para o pequenino Augusto Mateus ler à imprensa e o Paulo Rangel interpretar! Olhem que o caso não pode ser para menos, tentaram matar um russo em Inglaterra e "muito provavelmente" ou "há fortes indícios" que o veneno era russo!



- O traçado do vinho com gasosa tanto pode servir para diminuir o grau da bebida como para disfarçar o pique da pinga.

segunda-feira, 19 de março de 2018

O meu pai era peixe

Não me recordo de ter visto mais de duas linhas escritas pelo meu pai. Um recado na mesa da cozinha, umas contas de bicas de pinheiros e nada mais. Via-o escrever, de mãos trémulas como as que tenho, quando parávamos ali para os lados da Venda das Raparigas e ele preenchia um folha de um livro de impressos, qualquer prática obrigatória que mais tarde viria a evoluir para os actuais discos tacográficos dos camionistas.

Quando eu tirava Bom a Matemática ouvia muitas vezes:
- Sais ao teu pai! Também era bom nos problemas!

Pelo que vi e pelo que me fizeram acreditar, vivi sempre convencido que quem escrevia as coisas bem era a mãe e que quem fazia bem as contas era o pai.
Quando o tempo de chuva e a idade de brincar me reduziam à pequena casa que era a nossa, eu vasculhava os armários e as gavetas, com esperança que a curiosidade me oferecesse alguma coisa para me entreter. Afinal de contas a casa também era minha, eu tinha o direito de saber tudo o que ela guardava.

Confesso-te agora pai que, quando a mãe propôs a compra de um fogão com forno para substituir o de dois bicos e tu disseste que não tínhamos dinheiro, eu tinha contado nesse dia as notas que estavam na caixa de sapatos e fiz as contas: aquilo dava para um fogão e para mais de meia dúzia de garrafas de gás e ainda sobrava para uma garrafa de aguardente para as constipações!

Só não entendo porque é que tu e a mãe guardaram, ainda melhor do que o dinheiro, o maço de cartas do vosso namoro que só agora, pelas sortes, encontrámos. Não chorámos, não rimos, dissemos satisfeitos um a um, talvez em coro:
- Olha que o pai escrevia mesmo bem!



 Olha pai, sabes? Eu, se não houver ondas, não me afogo!
(estou à vontade para dizer estas coisas ao meu pai porque além de peixe, ele era fish|)