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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Quarto 24

À medida que crescia a barriga de Tânia, crescia também a sua melancolia e a de Carlitos; à medida que evoluíam de tom as discussões entre dona Graça e Virgolino, notava-se um mau estar de relação à beira do colapso; à medida que se tornavam mais confusas as relações entre mim e Gina, tornava-se-me cada dia mais claro que chegara a hora de eu bater com a porta. Também eu andava desacorçoado, começava a perceber que estava a mais.

Pressenti a despedida quando, uma noite esvoacei pela cidade com Virgolino, esse desencaminhador, até chegar a casa com uma de caixão à cova. Num estado lastimável, encontrei-me a sós com a sanita. Sentava-me para obrar, apetecia-me vomitar, virava-me e enfiava a cabeça na sanita e apetecia-me outra vez a outra coisa… andei ali às meias voltas e nada, nem dum lado nem do outro, nada saía!

Que noite mal passada. Pela manhã regressei à casa de banho para me recompor com uma chuveirada. Fechei a porta. Longe de mim imaginar que ia ali encontrar a razão que me levaria a decidir definitivamente abandonar o número sete. Não existiria motivo mais forte que pudesse justificar a minha determinação. Corri a cortina da banheira, lá estava, o motivo, a justificação, a razão. Nada que pudesse ser explicado mas algo que ficaria para mim como um segredo. O segredo que me libertou das minhas três mulheres. Nesse momento, percebi que deveria de existir mais vida para além daquele quarto com as paredes pintadas de vermelho e buraco de fechadura em forma de coração.
A banheira com um palmo de água e, ali estendido, indiferente a todas as regras e preceitos, um bacalhau de molho.
Pensei na tão apreciada cozinha de Dona Graça, acalmei-me pelo facto de só pontualmente ter comido lá em casa mas porra, era um bacalhau!... Como português, eu tinha um grande respeito pelo bacalhau, o bacalhau, esse símbolo da alma lusa!
- Tomo banho!?... Não tomo?!... Deixo estar o bacalhau?!... Não deixo?!... Penduro-o onde?! – hesitações que me faziam lembrar a situação que vivera durante a noite com outra peça dos sanitários.
E o bacalhau? Tomar banho com o bacalhau?
Pergunto ao leitor o que fazer perante uma situação destas? - Simples: quarto 24 FIM

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Quarto 23

Quarto fechado. Hoje não há quarto. Perdi as chaves do quarto? Não, provavelmente foi Gina que as escondeu! Dificilmente as encontrarei e não sou moço de arrombar portas.
Espreito pelo buraco da fechadura em forma de coração. Vejo apenas o espelho do roupeiro. Odeio aquele espelho. A última vez que me fixei nele passei-me, eu e os meus sentidos, para o lado da imagem. Dei pelo meu físico no meio do quarto, de pernas a tremer e à minha espera. E eu, ao mesmo tempo contente por tamanha proeza e ao mesmo tempo, com pressa, com receio de não conseguir regressar. Saí da imagem do espelho ao fim de alguns instantes e fui para a cama mas não consegui dormir durante a noite com os meus pensamentos a cheirarem a naftalina.
Julgo que por detrás deste acontecimento estará o facto de alguns cigarros do Virgolino não terem marca.
Julgo que começa a transparecer, pela fluência do texto, mais um motivo pelo qual hoje o quarto está fechado.

Julgo que isto já deu o que tinha a dar! (Basta ver que os últimos parágrafos começaram por “julgo”). Esperava-se que o quarto descambasse em romance, em paixão, em sexo sobre sexo, em tragédia, em comédia, em diário, em história apaixonante – não deu nada disso e, por isso, deu nisto. Na incentivadora opinião dos estimados comentadores: foi um folhetim.

Só uma última espreitadela na história: Dona Graça era muito mais velha do que eu - tinha trinta e tal anos. Hoje, eu tenho muito mais do que isso, logo, a Graça era uma moça nova. Pena que na altura eu não tivesse idade para perceber isso.
“Oh tempo volta para trás
Dá-me tudo o que perdi
Tem pena e dá-me a vida
A vida que eu já vivi”


Isto não pode acabar assim: para a semana haverá mais quarto

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Quarto 22

A partir do dia do Quarto 21, Gina passou a dormir no meu quarto. O divã polivalente da sala não estava em condições nem tinha enquadramento para servir em permanência as pernoitas da menina. Segundo as previsões da dona da casa, mais dia, menos dia, pelo andar da carruagem, as coisas desencarrilhariam e Virgolino teria de retomar o comboio para Fafe. Aquilo não era homem para se aturar por muitos dias. Por isso, sabendo que entre mim e Gina existia um entendimento de irmandade, pedia-me encarecidamente que “compreendesse” a situação e aceitasse o incómodo em nome da relação familiar que nos unia.
Eu sabia lá se éramos irmãos!? Pelas minhas contas, nem a proponente acreditava nisso! Ela, senhora de olho, deitava a filha na cama ao lado da minha mas, certamente, que tinha alguma na fisga: “este rapaz tem futuro… pode ser que… bem conheço os seus apetites… não resiste a certas cheiros e a certas curvas…”
Enfim, Dona Graça colocava-nos aos dois no mesmo quarto, como quem põe dois passarinhos na gaiola e aguarda que estes acasalem. Isto era eu a pensar!
Na prática, Gina saíra-me muito difícil. Foi já contado de soslaio que, ocasionalmente, se geravam algumas humidades entre os dois mas, no quarto do humilde hóspede, as investidas acabavam sempre em estaladas desconfortáveis ou em ameaças de “eu vou dizer à minha mãe!”
Para animar ainda mais a luta que travávamos, por vezes, enquanto eu estudava, Gina abeirava-se-me nas costas da cadeira, fazia-me umas massagens no pescoço, enfia-me as mãos pelo peito abaixo, eu levantava-me, deitávamos sobre a cama e chegados a um certo ponto, lá estava o pobre estudante vitimizado por um dos desfechos relatados no parágrafo anterior. Outras vezes o contrário, avançava eu com as minhas mãos e os meus trejeitos mas era sempre o mesmo o fim do filme.
Para compor ainda mais a luta que travávamos, todas as noites se ouviam, dos dois quartos dos dois casais vizinhos – para quem não se lembra: Graça e Virgolino, Tânia e Carlos – a actividade de leitos que cumpriam a sua função mais nobre.
Era o “eu” mediterrânico que estava a ser posto em causa. Ninguém acreditaria, nem a minha santa mãe se o soubesse, que no meu quarto dormia uma rapariga e que eu nada! …
Pensamentos contraditórios assolavam-me o desejo e a cabeça: nem Gina era para mim nem eu para ela, para quê insistir? Mas que sentido, que razão, que destino nos fazia aos dois partilhar um quarto tão exíguo?! E depois, verdade seja dita, Gina sabia equilibrar o quotidiano com os ingredientes próprios de uma relação de irmãos.
Ultrapassou as marcas na noite em que à luz ténue do visor do rádio, já os dois em posição de adormecimento, me fez perceber, intencionalmente, que desenvolvia uns movimentos de auto-satisfação.
Levantei a cabeça como quem pergunta “mas o que é que se passa para aí?!” e recebi resposta:
- Livra-te de saíres da tua cama?!
Lá aguentei, num terrível suplício, a provocação, para ouvir no final:
- Então Cabitche, gostaste? Fez-te algum efeito?!
Fiquei calado e calado adormeci envolto em pensamentos que nem conto porque qualquer um advinhará com facilidade. Que raio de rapariga aquela! Como é de lei, a dificuldade aguçava o apetite. Quer perante os da casa que conviviam com a situação, quer junto dos amigos e familiares que nem a sonhavam, uma caldeirada de sentimentos e pensamentos absorviam o meu ego masculino: orgulho da minha pureza, vergonha da minha impotência, a Gina quase irmã, a Gina quase mulher, o gostar e o feminino, o sexo cru e o amor…
Sei que a história ficaria mais composta se contasse que numa noite mais fria a provocadora se veio enfiar na minha cama, nos meus cobertores, em mim e sem grandes surpresas lá vencemos a pureza e demos cumprimento à inadiável iniciação. Mas isso nunca chegou a acontecer. Definitivamente, repito, nem Gina era para mim nem eu para ela.
(Na próxima semana o Quarto continua)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Quarto 21

(Para perceber o que está para aqui a acontecer tem de correr os quartos precedentes)

Na esquadra apenas estavam mais dois polícias e, apesar de ignorantes em galões, percebemos rapidamente qual deles era o chefe. Sabíamos que a casa era bem conhecida entre eles, não só pelas rondas mas também pelas repetidas queixas da vizinhança, nada que não se tivesse sempre resolvido com umas chamadas de atenção. A calma e a maturidade com que Dona Graça respondia ao interrogatório, o menino bem comportado que eu, sem dificuldade, fazia aparentar, prometiam a resolução da intimidação policial. O “eu sou um pobre estudante que não estava habituado a beber” tocou, visivelmente, o tom militarizado do inquiridor. O pior é que o vestido de Verão do Virgolino convidava à graça e à graçola e não tardou que os polícias começassem a manifestar expressões de não acharem grande graça ao matulão. E, ao fim de umas trocas de gestos e palavras, passou-se toda a gente e o meu amigo acabou dentro da cela. Quando reconheceu o cenário, que lhe era tão familiar, ficou incontrolável. O tom da minha amizade e o coração de dona Graça acabaram por acalmar a demónio que se apoderara de Virgolino. Conformados os detentores e o detido, Virgolino teria de passar a noite na choça. Eu permaneceria junto dos agentes enquanto dona Graça fosse a casa buscar roupas decentes para o namorado e uns documentos.
Regressou passada meia hora. O castigado já estava calmo – não fossem os chuis aperceberem-se que estava numa situação de liberdade condicional.
- Façam favor de se apresentarem ambos, aqui, às oito da manhã. Se tudo correr como esperamos, libertaremos então o vosso amigo.
Fomos os dois abraçados rua além, divertidos com o acontecimento, temperando-o com uns comentários e gracejos, satisfeitos pelo encaminhamento do caso e dispostos a um desfecho em grande para aquela noite.
Chegados a casa, os convidados já haviam zorpilado, Tânia e Carlitos tinham a porta do quarto fechada e Gina, a quem a situação tinha tocado mais por ser mais nova, dormia na segunda cama do meu quarto.
- Quando vim cá a casa, acalmei-a e aconselhei-a a dormir no teu quarto. Esta sala está um caos, espero que não te importes! Amanhã arrumamos os despojos da festa!... Não me consigo esquecer do Virgolino! Só me apetece escrever-lhe uma carta.
Subimos a escada e entrámos ambos no quarto grande. Deu-me à mão a caneta e o bloco e começou a ditar:
Lininho, esta cama ainda cheira ao suor desta tarde. Ainda fazem ricochete, entre as paredes, os sons que juntámos…agora estás aí, enjaulado, qual pássaro feroz, qual toiro manso, a ouvir o ressonar dos teus vigilantes... faz de conta que és um gelado que eu pus no congelador… não se pode estar sempre a comer doces… agora apetece-me mais o bifinho rijo… sei que também gostas de assar o bifinho rijo mas não gostas de o comer…ainda bem, assim a nossa vida é muito mais harmoniosa…
Até amanhã meu Olá!”
A carta estendeu-se por duas ou três folhas e seria a prenda da libertação da manhã seguinte. O ditado foi interrompido a cada frase, por perguntas e risos, por festinhas e escravunços. Direi mais, desta vez o ditado foi tão vivido que não foi ditado, foi diálogo, foi risos, foi paixão, foi amor, foi poesia, foi vida, de tal forma que quando escrevia “Até amanhã meu Olá” dei pelo bifinho já tenro.
Traição?! Não! Nós pensámos permanentemente em Virgolino! Nós partilhámos com Virgolino! Nós dedicámos tudo o que escrevemos e fizemos ao Virgolino! Alguém ousará chamar traição à dignidade com que tratámos o Virgolino?!
Ah! Já sei! Dirão: mas ele não sabe! E por que haveria de saber? O melhor bem, muitas vezes, é aquele que se faz em segredo!...
Foi por Virgolino que, no dia seguinte, não fui às aulas. Às oito da manhã, com olhos de noite e carne bem, ou mal, passada, lá estávamos a recolher o nosso amigo. Dona Graça estendeu-lhe a carta mas ele não lhe deu importância e enfiou-a num bolso de trás das calças de ganga; a caminho de casa, às nossas perguntas dava respostas com uma ou duas palavras.
Entrámos na sala, tudo corria como o previsto, toda a gente dormia, era provável que desse para ocultar às meninas e ao Carlitos que o padrasto tinha passado a noite dentro. Dona Graça pôs-se a arrumar tudo e mais alguma coisa e nós, os homens, ficámos a petiscar uns restos e a abrir mais umas garrafas de cerveja. Valeu a ocasião para ouvir mais uns episódios da vida e dos sentimentos do cadastrado.
(Para a semana ainda haverá quarto)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Quarto 20

Naquele dia eu não tinha ido às aulas. Sozinho em casa aproveitei para lazeirar. Desci à sala e deitei-me no divã polivalente tentando que a televisão da manhã fizesse alguma coisa pelo tédio. Batem à porta, é Virgolino! Um abração, umas palmadas de desaconchegar costelas e um frente a frente à mesa para pôr a conversa em dia!
- Trouxe-te uma lembrança! – tirou do saco de viagem um embrulho em papel pardo e mandou-mo despir. Era um boneco de cerâmica com um cacete erguido e que tinha escrito na base “Justiça de Fafe”.
- E ainda!… – sacou da carteira e contou divertido a massa que me devia.
- Está certo?!
- Não, está dinheiro a mais!
- Ora essa, puto! Em questões de nota “nunca está a mais”!
Contei-lhe da gravidez de Tânia e ouvi das boas por não ter sido eu o progenitor; falei-lhe da comprovada falta que ele fazia à Graça e recebi promessas de que, na próxima noite, eu não iria dormir com o ranger da cama do quarto do lado.

- A Gina está insuportável!
- Porque não lhe afinfas!?

- O Carlitos é bom rapaz! Às vezes, já dorme cá em casa!
- Tu é que dormes cá em casa! Acorda rapaz! Agora é tarde!
Fez um misto de movimentos de cabeça e expressões de rosto que, traduzidos, exprimiam elogios aos dotes físicos de Tânia e reprovação à minha relação com ela. Depois mudou o tema:
- Onde é que vais almoçar?
- Hoje nem me apetece ir à cantina. Vou ali à mercearia comprar dois papo-secos, umas fatias de queijo, um iogurte e já está!
- Vamos mas é almoçar fora! Hoje é por minha conta!
- Então vamos ao restaurante da Gracinha!
- Nem penses! A surpresa do reencontro pede outro local! Tenho um plano, depois conto-te.
Durante o almoço, bem regado, o Desejado contou-me o seu plano para o resto do dia. À tarde as meninas estariam em casa, apalpá-las-íamos no que toca à sua receptividade ao regresso do padrasto e, se realmente desejado, seria fácil convencê-las a participarem na surpresa à mãe amante. A mesa seria posta à grande e à francesa, eu telefonaria a Dona Graça dizendo-lhe que ia dar uma volta com as filhas e, quando esta, por volta das onze, regressasse do trabalho no restaurante, seria surpreendida com o D.Juan Virgolino, sentado à mesa, disposto a festejar, comendo e bebendo com a sua namorada, comendo e bebendo a sua amada! No entretanto, se fosse do meu acordo, eu e as enteadas iríamos ter com o Carlitos ao trabalho e, depois do fecho (que era por volta das duas da manhã), regressaríamos todos para completar o forró.
E assim foi. O Carlitos animou-se com a nossa visita, serviu-nos até querer e, até Gina e Tânia que eram pouco dadas às bebidas, se excederam. A esplanada da cervejaria animou tanto que, depois do encerramento, dados ao caso que ali nos trouxera, dois colegas do Carlitos e o patrão também se fizeram à festa prometida.
Quando entrámos em casa – éramos, portanto, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete – não estava ninguém na sala – claro!! Os “reencontrados” estavam no quarto. Ninguém comentou a sua ausência porque todos a percebemos. Gina ligou logo o som dos seus vinis, abriram-se umas cervejas, petiscou-se da mesa, eu pus-me a dançar com a Tânia, o patrão com a Gina e o Carlitos e os colegas comiam amendoins, mandavam piropos, bebiam uns golos, davam meia volta de mãos ao alto e roçando no baile e, volta e meia, batiam umas palmas.
Dona Graça desceu as escadas com o caso na cara enquanto repreendia para o cimo das mesmas:
- Oh Lino! Não venhas para aqui assim! Temos visitas!
Só eu devo ter topado que o homem vinha em cuecas e que, obediente, regressou ao quarto para se cobrir com outros preparos. E que outros preparos! Virgolino desceu as escadas, com ar mais maroto e destemido, trajando um vestido de Dona Graça. Depois da risada geral Gina aumentou o volume da aparelhagem, a festa acelerou e, no fim dum merengue de acelerar corações, a coisa acalmou e só o Virgolino continuou de pé, na pista, violando numa vassoura. De pé, também eu, mas em cima da mesa, olhos nas lâmpadas do candeeiro enquanto recitava a Ceia dos Cardeais. O embevecimento da plateia com a minha actuação foi tragicamente perturbado pelo toque da campainha e a voz:
- Polícia! Abram se faz favor!
Escaparam-se os três estranhos à casa para o quintal, Carlitos abraçado a Tânia, Gina junto ao aparelho baixando o volume, Lino naquele traje, eu, para não partir a loiça toda, sem poder descer da mesa e a Dona da casa abre a porta aos chuis que entram de rompante.
Enquanto Dona Graça dava explicações e dados para a autoridade, Virgolino lá me tirou ao colo do “palco”.
- Os senhores têm de nos acompanhar à esquadra!
A esquadra ficava logo ali, nas traseiras do mesmo quarteirão, numa moradia que apenas se distinguia das outras pelo pequeno letreiro luminoso “POLÍCIA” e o percurso seria feito, normalmente, a pé.
Com palavras mansas conseguimos livrar os menores da vergonha e só eu, ou melhor, os “trois”, fizemos companhia aos dois agentes que, por escárnio, por gozo, ou por excesso de zelo, não deixaram o Virgolino trocar de roupa e ele lá foi travestido rua além, seguido pelos olhos dos cortinados da vizinhança denunciante.
Mas como o troçado não era de torcer e nascera habituado a pagar amor com amor, quando levávamos andados cinquenta metros, ouvindo as explicações da nossa mulher aos senhores agentes, eis que lhe dá para o canto do “Viva o Sto António, Viva o S. João, Viva o 10 de Junho e…” colocando-se por detrás de mim, empurrando-me com as mãos nos ombros, tenta a marcha em fila indiana a sós comigo. Se até algumas das janelas, dos cortinados com olhos, se abriram como é que eu havia de resistir?! Colaborei. Colaborei durante os instantes que tardaram os olhos fortes de Dona Graça que nos admoestaram a nós e, felizmente, também aos polícias que se preparavam para agir em nome da ordem.
(Na próxima quarta continua a haver Quarto)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Quarto 19

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, o Quarto 11, o Quarto 12, o Quarto 13, o Quarto 14, o Quarto 15, o Quarto 16, o Quarto 17, o Quarto 18, este quarto não faz sentido)

Tânia bateu à porta do meu quarto, entrou receosa, com aquela sua beleza muda entre o anjo e estátua grega, como se entrar naquele quarto não tivesse sido um hábito costumeiro. Sentou-se na cama que não era minha e eu, que estudava na minha, virei-me para ela retirando a atenção dos apontamentos. Ensopou os olhos e eu pressenti que viera para me dar a novidade que eu já sabia. Puxou a camisola para cima e exibiu a barriga. Fingi surpresa.
- Este filho podia ser teu Cabitche! Eu queria que este filho fosse teu Cabitche! Deus castigou-me por eu te castigar Cabitche! Eu amo-te Cabitche! Tanto que eu gostava que esta criança nascesse com o teu nariz Cabitche!...
De cabitche em cabitche, a minha Tânia continuou debitando chorilhos desta ordem enquanto ia intensificando o ar choroso até que o meu lado paternal me deu o tom para falar como pai dela:
- Tânia! Esse ser que aí tens é o teu futuro! Esse vai nascer com uma sorte do caraças! Vai ter uma mãe como tu e vai ter um pai que é uma jóia de pessoa, o Carlitos!
- Mas eu sempre me imaginei tua, dum homem como tu, não do Carlitos! O Carlitos é um puto!
- Então e eu? Eu sou um autêntico bebé! São os filhos que nos fazem homens e mulheres!
- Queres dizer então que já não me desejas?
- Tânia meu amor, o nosso amor existe ainda mas vai acabar por desaparecer! Todas as coisas vivas da natureza são assim! Não existem amores de pedra porque, se o fossem, então não o seriam!...
Demos um verdadeiro e prolongado beijo que terminou em estalido. Tânia saiu determinada e eu fiquei a pensar. A pensar nela, em mim, na sua gravidez, no Carlitos. Tinha escolhido a solução mais fácil e mais racional, mais de acordo com os costumes. Razões do coração, essas, estariam sempre a tempo de ser remediadas.

Ao fim da tarde fui sozinho até à esplanada da cervejaria onde trabalhava Dona Graça. Antes que eu pedisse, já estava o empregado de mesa, Carlitos, com uma imperial e uns tremoços na minha mesa.
- Esta paga a casa. Despego às sete. Entretém-te aí que já me sento aqui a beber uma contigo Cabitche!
Carlos, já desfardado, sentou-se na minha mesa com mais duas e uns camarões. O tempo, um golo, uma transferência de jogador, levaram-no até me dar a novidade que já me era velha.
- Estou fodido! A minha mãe é mulher de sacristia! Nunca vai aceitar! Vai acabar por partir com um mual todos os santos da igreja de Girabolhos que têm mais de quinhentos anos!
Ela está convencida que os santos falam e que não os ouve porque é meia surda! Já viste a minha situação João? Chego lá a casa e “mãe, vou ser pai!” E ela, “o teu pai está no lagar!”
“Não mãe, vou ter um filho!”
“ Sim Carlitos, tu és o meu filho!”
“Mãe, vou casar com uma preta!”
“Não sei se ainda há alguma preta, vai ao frigorífico e vê!”
- Estou fodido João! Parece que já estou a ver a minha mãe a entrar no número sete para conhecer a futura nora e a dar-lhe um chilique!
- Oh Carlitos, não estejas com essas fezes rapaz, fizeste um filho, és um homem! A tua mãe sabe que não és um santo, vai gostar de saber-te homem. És um tipo cheio de sorte! A Tânia!?... Uma mulher de meter inveja! De se trazer pela rua mas com muito cuidado! A Tânia!?... Fosse ela da minha idade e não te tinha calhado a ti!
(Na próxima quarta talvez ainda haja Quarto)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Quarto 18

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, o Quarto 11, o Quarto 12, o Quarto 13, o Quarto 14, o Quarto 15, o Quarto 16, o Quarto 17, este quarto não faz sentido)

No dia seguinte à noite em que tive a companhia de Adalberta levantei-me pelas 10 horas. Dona Graça, por horário de cozinheira, ainda estava em casa. Quando saí da casa de banho, embrulhado na toalha, ela chamou-me da cozinha:
- Cabitche!? Chega aqui!... Dormiste bem com a companhia? Ainda se dorme lá para cima?
- Não! Já não está ninguém no quarto!...
- Não me digas que aquela puta abalou e nos roubou a menina?!
Fizemos um breve silêncio interrogativo e Dona Graça, sentada em pequeno-almoço, interrompeu-se em prantos.
- Deixe lá mamã emprestada, Deus escreve direito por linhas tortas! Se calhar foi melhor assim!...
Continuámos com meia dúzia de voltas sobre o assunto, ela a enfileirar “puta” atrás de “puta” e “Dorinha minha menina” e “minha menina Dorinha” e eu a cobrir de amenos a pequena tragédia com o que me vinha à ideia.
- Só me faltava esta!... Sabes que mais?! A Tânia está grávida!
- Ai!...
Não sei se o “ai” foi de solidariedade, de surpresa ou dos ditos me terem batido no chão – estava sem cuecas! Em dois segundos, duzentos pensamentos mudos:
“Grávida?!... Eu?!... Carlitos?!...”
- De quase quatro meses!... Porque é que ela não me disse João?! Conheço uma mulher que faria o desmancho! Mas agora? Já viste João!... Já não é tempo!
Voltei a pensar para dentro, fiz contas:
“Eu?!... Há tão pouco tempo! Não!... Isso foi obra do Carlitos!... Por isso ele anda tão branco! Quem diria! O petiz!... Hem!?”
- João! Ajuda-me a pensar!
Dona Graça continuava a falar sem perceber que, também eu, precisava de ajuda para pensar:
“Eu?! Queres ver que Tânia me fez a folha!? Queres ver que me calha a mim?” Compus à podoa os raciocínios que me jorravam por tudo o que era cabeça e cheguei-me à anunciada futura avó que continuava sentada. Apoiei-a, apoiando uma mão no seu ombro e pairei de sabedoria:
- O mundo não acaba por começar uma vida nova! É Deus que no-la dá em troca de Dorinha!
- Tens razão João! Eles são jovens, que se amanhem! E nós cá estaremos também com o nosso amanho!
Este “eles” aconchegou-me os cujos, ainda doridos, ao sítio! “Eles”, não tinha nada a ver comigo!...“Com que então o Carlitos de Girabolhos vai ser pai?!”
- De facto eu achava Tânia um pouco estranha! Evitava quase sempre as minhas brincadeiras!...
- Eu não sou lerda! Sabia que eles se coçavam! A Tânia ia tantas vezes lá para a esplanada! O Carlitos sempre a oferecer-lhe gelados!... Topei-lhe a barriguita inchada! Até pensei que fosse disso!...
E, ao dizer isto, trocámos uns sorrisos marotos de humor só nosso.
Subi as escadas para o quarto. Naquele dia não me ocorreu outro tema em pensamento. Quem era eu no meio desta história? Que fazia eu naquela casa? O que me trouxera àquela cidade?... Dorinha? Adalberta?... Dona Graça?... Tânia? Tânia! Tânia!... E também Gina!.... Ah! E o curso!?...
(Na próxima quarta há mais Quarto)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Quarto 17

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, o Quarto 11, o Quarto 12, o Quarto 13, o Quarto 14, o Quarto 15, o Quarto 16, este quarto não faz sentido)


Dorinha era já nossa há seis meses. Adalberta contou que fora para Braga fazer rua mas que não aguentava as saudades da filha e vinha buscá-la. Dona Graça não aceitava: “Dona Graça era a mãe, o João era o pai e as filhas eram as irmãs! O que a menina precisava era duma família!”
Adalberta não tinha desenvoltura para grandes argumentos e deixou transparecer pela conversa que, em troca de determinadas condições, permitiria a adopção. Prometeu que manteria contacto, que de vez em quando até podia enviar algumas lembranças e valores e rematou pedindo pernoita para uma noite.
Dona Graça desculpou-se que só tinha a cama do meu quarto, onde muitas vezes dormia também a Dorinha e que, portanto, esse assunto de dormir a noite dependeria do meu consentimento. Havia o divã da sala mas, naquela noite, estava reservado para o Carlitos que ainda não adquirira o estatuto para partilhar a cama com Tânia.
Senti-me encurralado. Que motivo que não soubesse a desculpa poderia eu apresentar para recusar o tecto a uma mulher só, pobre e desamparada? Afinal de contas eu, antes de ser homem, teria de ser humano!
Era meia tarde quando aconteceu esta conversa. Deixei a sala e fui estudar para o quarto. A pequena mesa em que estudava estava virada para a parede de modo que era contra a parede que eu estudava. Adalberta bateu à porta e pediu-me ordem para deixar ali as suas coisas. Continuei na malvada Estatística, enquanto Adalberta, na cama atrás de mim, mexia os seus parcos haveres. Pressenti que se despia, por respeito não me virei para trás, pensei – está a mudar de roupa!
- João, eu tenho de lhe pagar aquilo que tem feito pela minha filha!
- Ora essa Adalberta! Cada um faz o que pode e o que deve! -respondi sem retirar a atenção dos meus papéis. Adalberta dirigiu-se para um dos lados da mesa. Estava completamente nua. Não tinha corpo de se mirar, estava cheio pelo desmazelo, marcado pelo uso, desfeito pela ilusão. Fingi ignorá-lo. Percebi a oferta de Adalberta.
- Adalberta! Gosto da Dorinha e também ela tem feito muito por mim! A Dorinha tem a felicidade de ter uma mãe e a infelicidade de não poder viver com ela. Há coisas que não se pagam e há coisas com que não se paga.
A expressão e a pose da mulher que estava ali, de pé, a meu lado, transmitiam um caldo de emoções: não me teria feito entender completamente mas teria feito entender rejeição e ingratidão. Tinha tão pouco para me dar e, nem isso, eu aceitava.
“Estaria eu assim tão servido de mulheres? O tempo que viveu em casa nunca viu sinais de nada! Seria paneleiro? Seria fino demais para ela?” – imaginei-lhe estes pensamentos/sentimentos e continuei simulando o estudo. Sentia-me cruel por fingir ignorá-la e sentir-me-ia cruel se fosse aceitá-la.
Adalberta não tinha vida para meias medidas, gorda como era, não sei como se conseguiu enrolar por debaixo da mesa. Eu continuei a simular que estava a estudar.
(Na próxima quarta há mais Quarto)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Quarto 16

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, o Quarto 11, o Quarto 12, o Quarto 13, o Quarto 14, o Quarto 15 este quarto não faz sentido)

Nos dias seguintes às lágrimas de Tânia as coisas ficaram pretas. Nos momentos em que a casa ficava só dos dois eu fazia as minhas tentativas mas as suas reacções eram de tal ordem que comecei a temê-las e a acanhar-me. Aparte essas abordagens, Tânia falava-me normalmente como se nunca tivesse existido nada entre nós. Podíamos ir juntos ao café, buscar a Dorinha à ama e até dançar na sala merenge ou rock n’roll!...
Tudo isto atormentava ainda mais o meu estado de paixão e o pior é que me ia auto-convencendo que com ela não acontecia o mesmo.

Entrementes, meteram-se umas férias no meio. Quando regressei e entrei na sala pousei o saco. Estavam apenas as duas irmãs. Tânia levantou-se de imediato, colocou os seus antebraços nos meus ombros, enchendo o meu pescoço de alegria, pousou-me um beijo em cada face e disse infantilmente, saltitando e exultando de alegria:
- Cabitche, já tenho um namorado!...
De imediato a mana Gina, que nem se levantara para me honrar e permanecia a olhar a televisão, imitou com voz ridicularizante:
- Cabitche, já tenho um namorado!....
- Tu também Ginita!? Quem é o teu? - Indaguei eu, fingindo ignorar o tom de gozo e mastigando o contentamento de que Tânia, durante a minha ausência, me sentira a falta e me assumia agora no regresso.
- O meu amor és tu meu mano branco! - Disse Gina caminhando em direcção a mim para me abraçar e me conceder um tardio mas poderoso beijo no canto da boca, como quem diz ”assim não é beijo no cesto nem de incesto, é de amiga íntima!...”
O sorriso macaco com que Tânia acompanhou o dito beijo e a intervenção da irmã deixou-me um pé atrás.
- Então não sabes? O namorado da Tânia é o Carlitos!!!
Senti a força a faltar-me nas pernas, sentei-me à mesa e as duas acompanharam-me sentando-se também. Seria normal pormos as cartas na mesa, contarmos coisas das férias e coisa e tal e foi isso que fizemos durante meia hora. As trocas de palavras e olhares entre mim e a minha recém confirmada “ex” atiravam-me para o estado de vencido. Para exibir ainda mais a sua superioridade, topando os meus suores e sem que eu pedisse, foi ao frigorífico buscar uma Sagres e despejou-a num copo que pousou à minha frente.
Quando me encontrei só, no quarto, a arrumar as coisas, comecei a pensar no Carlitos: bom rapazito, pacato e simples, viera da Beira-Alta para servir no restaurante cervejaria em que Dona Graça trabalhava. Conhecia-o bem das conversas e das borlas que nos dava na esplanada, já várias vezes tinha passado serões e até festas na casa da colega. Sempre pensei, se mais não fosse pela idade, que poderia vir a dar um belo par com Gina! Agora com Tânia?!... A sua figura trinca-espinhas não emparelhava nada com a imponência de minha menina! Mas recordando bem, quando dançava com ela, a cabecita do beirãozito quase se afogava, aconchegada entre os peitos esculpidos que acabou por me roubar! O malandreco!... Enfeitou-me bem a vida, enfeitou!...
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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Quarto 15

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, o Quarto 11, o Quarto 12, o Quarto 13, o Quarto 14, este quarto não faz sentido)
E andávamos nós, já há tempo de mais, para tomar a decisão de anunciar à matriarca a paixão Tânia-João quando, uma noite, Dona Graça bateu à minha porta para escrever mais uma carta. Não tinha forma de dizer que não e lá fui, pela primeira vez sem grande entusiasmo, cumprir o papel de moço de cartas de prazer.
As últimas cartas tinham começado a tocar um certo erotismo e, com essa natureza, a confundirem-se cada vez mais com preliminares.
“…
Virgolino, estou a ver o teu coiso a bater palmas de contente, a arregalar as peles de ver as minhas mamas, a perder-se e a esvair-se na minha mina escura e a dizer moribundo:
- Ó Preta, vai-me buscar uma cerveja branca com gemada!
Virgolino volta! Estou com cio! Prometo-te que gritarei como gostas e não voltarei a dizer:
- Não! Não posso gritar! As minhas filhas e o João vão ouvir!
Quando voltar a ter-te aqui, na minha cama, vou gritar e aiar até a polícia bater à porta. E, se for necessário, abrirei a janela e direi cá para baixo:
- Só um momento! Deixem-nos acabar!
…”
Não faço ideia do que Virgolino sentia ao receber estas cartas; da minha parte, sei bem o que sentia e o que me acontecia ao escrevê-las. Sabia também que o destinatário, caso soubesse do que se passava do lado emissário, compreenderia a situação das nossas necessidades – ou não tivesse ele já passado uns largos tempos na prisão – e, nem a amizade que tinha por mim nem a relação que tinha com a Gracinha seriam, por isso, melindradas. Contudo, há coisas de que mais vale não ter conhecimento e esta era uma delas.

Mal! Mal! Sentia-me eu. Dificilmente Tânia aceitaria, e não merecia, que estas brincadeiras continuassem a acontecer. Eu já só queria era que Virgolino voltasse depressa e aquelas cartas terminassem!
Um dia terminei a carta e deixei Dona Graça estendida no leito, toda oferecida. Abri a porta e saí a ouvir umas frases lascivas, mistas de provocação, compreensão, de brejeira ternura, de “vem cá!”, “vai lá!” …
A distância de portas entre os quartos quase permitia que, a um passo, ainda o pé de trás estivesse num, já o da frente entrava no outro. Estranhei a porta aberta, acendi a luz. Sobre a cama vaga para arrendar, aquela onde aconteciam sempre - vá-se lá saber porque nunca eram na minha – as práticas com Tânia, estava em pijama, ela própria, a menina dos olhos dos meus olhos, com olhos fontes que lhe inundavam o rosto dos meus olhos.
Precisava de tempo para me libertar do estado estático em que fiquei e para conseguir dizer alguma coisa. Nos escassos segundos em que tentei colocar o meu cérebro encharcado a trabalhar percebi que não havia ali espaço para palavras. Tânia concedeu-me esses segundos e levantou-se cruzando-se comigo, a caminho do seu quarto, sem me tocar e tocando-me com o seu silêncio que dizia:
- Estava aqui à tua espera para que visses as minhas lágrimas!
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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Quarto 14

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Dorinha ficou em boas mãos. Conversámos em família a situação criada pela menina abandonada. No dia seguinte eu tinha muito que estudar e, por isso mesmo, o melhor seria faltar às aulas e, deste modo, Dorinha poderia ficar à minha guarda.
Dona Graça conseguiria umas fugas do restaurante para dar umas voltas na baixa a ver se encontrava a mãe, diligência que repetiria, sem sucesso, durante uns dias.
Dia após dia íamos ganhando a menina que raramente perguntava pela mãe Adalberta.
Participar à polícia seria muito complicado, a casa não gozava de grande credibilidade entre os agentes que frequentemente a visitavam por alegadas queixas dos vizinhos - coitados, eram incapazes de dormir sabendo que alguém se divertia por ali perto!...
Tivemos de partilhar um esquema pelos quatro, com faltas e atrasos pelo meio, enquanto não encontrávamos solução.
- Cabitche, já fiz!
E eu lá lhe passava uma nova folha com a encomenda de um desenho ganhando, com o tempo dos seus rabiscos, mais uns minutos para exercitar as equações da cadeira que tinha em mãos. Às vezes o "já fiz" era outra coisa e eu lá limpava a coisa com paternal paciência.
Com a adopção informal já assumida e os olhos da Dorinha cada vez mais dos nossos, o possível reaparecimento de Adalberta começou a ser indesejado por todos.
Dona Graça arranjou uma ama para a menina.
Tenho ainda, no coração, o salto que Dorinha dava para o meu colo, abraçando-me, de cada vez que eu aparecia à porta da senhora para a ir buscar.

A tal segunda cama, deixada vaga pelo colega de quarto, deixou-me espaço para novas oportunidades. Havia uma tarde e uma manhã em que o horário escolar das duas irmãs não coincidia. Tânia e eu começámos a aproveitar esse tempo, eu estudava, ela aproveitava umas explicações minhas nas disciplinas que eu dominava e, assim, se foi dando corpo a uma paixão. Mais do que todos os conteúdos académicos, o seu sorriso simples, frágil, branco, aberto, dado, largo, longo, de corpo inteiro, oxigenava-me a vida – até os joelhos dela chegavam a rir; os seus gestos, sons e movimentos, calmos, lentos, suaves, ondulados, macios, abertos, dados, longos, de corpo inteiro, libertavam-me toda a energia; o seu corpo inteiro não me permitia pestanejo..

O caso tomava a forma que já não justificava o segredo. Tânia tinha pressa de atirar à cara de Gina o nosso amor inteiro, de a deixar sozinha e de passar as suas roupas para o meu quarto. A mãe adorava-me, aceitaria de braços abertos.
Não sabia Tânia que, para mim, contar à mãe podia ser um bocado complicado: as cartas a Virgolino eram já raras, o telefone era mais cara a cara, mas Dona Graça quando se zangava!.... Ninguém me dizia que iria aceitar com bons fígados que o homem que a consolava algumas noites andasse a morrer de amores pela filha! Liberal e compreendedora, mas não tanto!
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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Quarto 13

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O melhor seria mesmo eu encontrar um colega de quarto, estudante, antes que a senhoria me arranjasse para companhia alguém fora de estilo. Não seria fácil. A fama da casa já ia além do bairro e o racismo e o preconceito, naquele tempo, ainda existiam.
Jorge foi lá a casa para eu lhe emprestar uns apontamentos. Era do norte, já exercia no ramo mas faltava-lhe uma cadeira do primeiro ano para acabar o curso. Pedira dispensa de serviço para ver, se desta, conseguia o canudo de uma vez por todas. Partilharia o quarto comigo.
Eu, a mãe e as filhas estávamos na sala a ver a telenovela. O Jorge estava, como sempre, lá em cima no quarto a marrar na Física. Adalberta entrou em casa, disse um “boa noite” exausto e subiu as escadas visivelmente embriagada. Dorinha vinha com ela mas correu logo para o meu colo. Com uma troca de encolher de ombros e acenos de cabeça julgámos a mãe mulher-da-vida enquanto trocávamos com a filhota uns diálogos com graças de criança.
Passados alguns minutos ouvimos Adalberta, irritada, a falar alto ao cimo da escada:
- Deves-me cinco fodas! Deves-me cinco fodas paneleiro! Quero o dinheiro das cinco fodas picha-mole!
O interlocutor não o era porque mantinha o silêncio. Adalberta também não lhe deixava espaço para ele reagir, continuava a debitar palavras indicionárias e a atiçar a curiosidade dos ouvintes do piso de baixo.
Com que então o Jorge guardava-me segredos! Provavelmente, quando ficava em casa a sós com a Adalberta, aproveitava para molhar o prego mas pagar, está quieto!...
Dona Graça subiu a escada e pôs ordem na discussão. Adalberta teria de abandonar o quarto no dia seguinte!
Cá em baixo, imaginei com facilidade a reacção da queixosa mas era difícil ver a cara do caloteiro. As portas de ambos os quartos estariam abertas, num deles Adalberta estaria bufando sentada na cama, no outro estaria Jorge sentado à mesa, com o candeeiro aceso e os livros à frente e com cara de quê?!
Jorge, com vergonha de carneiro mal morto, também abandonaria o quarto. A situação agradava-me, sobretudo porque a cama ficaria novamente disponível para eu espalhar roupa, papéis e cassetes.
No outro dia, cada um a seu tempo, lá partiram os do mal parado fornico. Timidamente, e sem que alguém presenciasse, levaram os seus haveres e... partiram. Um pormenor: Adalberta, esqueceu-se de levar a Dorinha.
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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Quarto 12

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A minha relação com dona Graça era cada vez mais de confiança, ia muitas vezes aos meus conselhos e sentia necessidade de justificar, perante mim, as suas decisões e, além de tudo, era um coração aberto:
Encontrara na rua Direita, ao abandono, uma mulher angolana com uma filha de dois anos. O empecilho da criança, o rosto e o corpo pouco favorecidos, a má aparência, não lhe atraíam muitos homens ao negócio. Nem sempre conseguia dinheiro para a dormida na pensão.
Seria uma situação provisória; enquanto Adalberta não arranjasse um emprego nas limpezas e endireitasse a vida, ficaria a dormir, com a filhota, no quarto de Gina e Tânia e estas ficariam no quarto da mãe que tinha espaço a chegar.
Não fiquei muito contente com a situação, ainda mais desarmado pelo intocável coração de Dona Graça.
Adalberta não tinha horários! Chegava e partia quando calhava, no estado que calhava, quase sempre com a filha pela mão. Ao fim de algum tempo, com o à vontade que se foi gerando, começou a deixar a Dorinha à guarda de quem estivesse em casa. Chegou a bater-me à porta do quarto pedindo-me, desavergonhadamente, que lhe guardasse a filha enquanto ia tratar duns papéis no consulado. É claro que o consulado era outro. Prometia recompensar-me. Nas entrelinhas deixava perceber que poderia pagar com o corpo. Eu ficava a pensar no não-desejo, enquanto arranjava umas folhas e umas canetas para a criança se entreter e me deixar estudar.
Dorinha, de língua ainda presa, chamava-me Cabitche. Em poucos dias, toda a gente daquela casa me começou a chamar Cabitche – recordo este nome como a única alcunha da minha vida que senti colar-se-me!
A partilha da casa com Adalberta começou a desagradar-me, afinal de contas era uma puta e, era uma puta da rua Direita, daquelas que despacham uma aldeia inteira de rapazes da inspecção. Poderia tornar-se complicado se chegasse a ouvidos errados e acabava por dar argumentos à vizinhança que, frequentemente, durante a noite, telefonava para a polícia para vir ao número sete, que insinuava e fantasiava acerca do antro de pecado que não seria a nossa casa.
Chamei dona Graça ao meu quarto, sentámo-nos na beira da cama, conversámos sobre o assunto. Ela própria andava ajudando Adalberta a arranjar emprego e tudo estaria resolvido nas próximas semanas. Nessa altura pô-la-ia a andar, até porque precisava do quarto para as filhas.
- Estás com medo que a tua mamã saiba que Adalberta dorme no quarto ao lado do teu?!...
Queres que eu te ajude a escrever uma carta à mamã?...
Enquanto ironizava a minha preocupação encostou-me a cabeça aos seus peitos grandes e poderosos e começou a passar-me a mão pelo pêlo! Desta vez, tratou-me até ao fim como um menino!
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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Quarto 11

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Quando regressei das férias grandes a casa andava sorumbática. Gina e Tânia tinham chumbado, Virgolino não dava sinais de si e dona Graça fartava-se de trabalhar para manter a casa farta. Dona Graça bem me aconselhara a arranjar um colega para partilhar o quarto, caso contrário teria de arranjar ela um novo hóspede que poderia não ser do meu agrado. Cheguei a andar com um anúncio, na minha pasta de estudante, com os dizeres “Procura-se companheiro de quarto” mas só apareceram candidatos do sexo oposto o que, nas circunstâncias, não seria possível. Uma coisa era certa, ela precisava de mais uma renda para equilibrar o orçamento!
Uma noite cheguei tarde de noitada com uns amigos e as mulheres da casa já estavam na cama. Quando entrei no quarto, surpreendeu-me um intenso cheiro no ar, um vulto dormitando na cama do lado e um saco com umas roupas à entrada. Acordou e trocámos boas noites. Era o novo hóspede, um rapaz com meia dúzia de anos a mais que eu, com barba de três dias, sem sorrisos mas sem antipatias e, seguramente, com cara de quem não era estudante nem operário.
Puxou meio corpo para fora das mantas, ajeitou o travesseiro atrás das costas e ficou sentado ao cimo da cama enquanto eu, como mais velho no aposento, ditava partilhas de roupeiro e hábitos meus. Ele, com a cabeça acenava concordâncias enquanto enrolava uma mortalha. Quando acendeu o isqueiro e deu a primeira passa o cheiro a erva denunciou-o logo.
- Queres dar uma passa?
Acedi à oferta, reconhecendo nessa partilha o gesto necessário de quem sabe que, para se empreenderem certos relacionamentos, devem existir actos simbólicos. O boi bateu o suficiente para estarmos para ali, cada qual na sua cama, a falar por uma hora. Luís era dos subúrbios do outro lado da cidade e arrendara o bar do apeadeiro. Como o trabalho lhe exigia a abertura ao primeiro comboio da manhã e os transportes urbanos não o serviam para aquela hora, optara por um quarto na proximidade.
A minha amizade com o Luís nunca passou além duns charros e do quarto. Também nunca se envolveu na vida da casa. Era um rapaz pobre, sem estudos, sem conversas por aí além. Quando a máquina de café avariou, deixou de abrir cedo o bar, dizia que o lucro estava na bica e que, sem ela, não valia a pena abrir a persiana.
Duas ou três vezes convidou-me a ir até ao bar fazer-lhe companhia, aprendi a tirar imperial e café, aprendi a aviar. Quando fechávamos o tasco já estávamos bem aviados e partíamos para outros tascos, sempre a partir.
Dona Graça conhecia o cheiro, ou não fosse nascida e criada em Lourenço Marques. Entrou no quarto, fungou o nariz e desatou:
- Em minha casa não! Suruma não!
A autoridade de dona da casa e mulher de muitas armas estatelou Luís e deixou-me sem jeito. Enquanto ordenava ao fumador o arrumar de malas, deixava umas deixas de desculpas, a mim, nobre estudante, por me ter arranjado um companheiro depravado.
Embora incomodado com a cena, agradou-me o facto da cama do lado voltar a estar livre.
Voltaria a encontrar Luís quando ia à baixa, com um banco e uma pequena mesa, profissionalmente a plastificar cartões de documentos. Os meus acompanhantes ficavam sempre muito intrigados quando se confrontavam com a minha amizade com um plastificador de cartões.
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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Quarto 10

Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, este quarto não faz sentido)
Bem que a cama vazia do Zé Maria me dava jeito! Pousava lá roupa, papéis, servia de sofá… servia. Além disso, era a primeira vez na minha vida que experimentava um quarto só para mim.
Depois de um serão de televisão a sós com Tânia, ela subiu as escadas à minha frente e, quando chegou ao cimo, virou-se para trás, deu-me um beijo na boca, curto mas cheio. Depois entrou de recuo no seu quarto enquanto estendia na minha direcção o sorriso mais puro e perfeito que alguma vez me tinha dirigido, quando fechou a porta tive a sensação que o entalou.
Fiquei ali especado sem coragem para abrir a minha porta, que fazia canto com as outras duas. Não! Não podia insistir! Gina já dormia!... Podia bater à porta de Graça a perguntar-lhe se tinha alguma carta para escrever!... Não! Não tinha jeito!... Dei uma batida suave na porta para que Tânia compreendesse que eu ainda estava ali!
- Vai deitar-te João! Amanhã falamos!
Falar amanhã já não era mau. Mas nós falávamos todos os dias!... Entrei no quarto com pensamentos destes e por ali fiquei, entre sebentas, sem conseguir dormir. Tânia estava a dar-me a volta ao miolo. Seria paixão? Estava a entrar em terreno perigoso.
No dia seguinte faltei às aulas e fiquei sozinho em casa todo o dia a estudar. Senti a porta da rua a abrir, Tânia entrava a cantarolar – pouco dela! Passados minutos bateu-me à porta e entrou. Eu continuei de bruços na cama, com os olhos nos apontamentos como se continuasse a estudar. Ela sentou-se na outra cama e, com o lado infantil que ainda tinha, exclamou:
- Já estou de férias! Nhe! Nhe!
- Mas eu não! Agora deixa-me estudar!
- Queres que eu saia?
Dei meia volta, sentei-me na beira da minha cama e ficámos frente-a-frente em igual posição. A distância entre as duas camas permitiu que lhe agarrasse as mãos e que nos beijássemos permanecendo sentados. Saíram umas palavras de paixão, começámos a enrolar-nos e, quando já tudo acontecia, chega alguém a casa - pelos passos, Gina. Tânia arranja-se à pressa, Gina bate à porta, respondo:
- Um momento!... Volta mais tarde, tenho de estudar.
Gina abriu a porta e percebeu, percebeu e reagiu mal, reagiu mal e disse que ia contar à mãe. Explicações daqui e dacolá; que não tinha sido bem aquilo que estaria a pensar. Acabámos por andar uns dias nas mãos das pequenas chantagens de Gina.
Tânia ficou ferida. Por demais que eu tentasse gestos e oportunidades só conseguia um ou outro beijo sem vigor. Eu não tinha sorte nenhuma! Logo agora que estava apaixonado!
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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Quarto 9

Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, este quarto não faz sentido)

Com este entusiasmo à volta da mãe até me tenho esquecido das filhas. Deve notar-se que, até agora, ainda não revelei os seus nomes. De casa para fora não se conheciam amigas, amigos ou colegas às meninas. Iam para o liceu e vinham as duas a pé, sempre sozinhas. Também nunca se lhes ouvia assuntos de escola, tirando uma vez ou outra em que me pediam explicações.
As meninas reuniam todas as condições para serem discriminadas no bairro e na escola: tinham vindo de África, eram as únicas pretas num bairro branco, viviam na única casa que não estava impecavelmente arranjada – bem pelo contrário, o número 7 tinha ervas no jardim, já quase não havia vestígios de tinta nas paredes nem nas portadas degradadas - aos olhos da vizinhança, os movimentos de entrada e saída da casa eram intrigantes e, como se não bastasse, chamavam-se Gina e Tânia. Quem cumpriu o serviço militar sabe perfeitamente que Gina e Tânia eram os nomes de duas namoradas gráficas de muitos soldados – daí a conjugação dos dois nomes ser um acaso infeliz.
Gina, a mais nova, tinha um corpo de mulher feita digno de se olhar mas as feições portuguesas na cor mulata não a favoreciam muito. Andávamos os dois constantemente a brincar às agressões, às cartas nunca éramos da mesma equipa, Gina era feliz e curtia a minha presença na família.
Tânia era um espectáculo de encher olhos e secar bocas: o rosto arredondado bem africano, a pele de bronze, os sorrisos breves e felizes com dentes branquíssimos, um corpo de se lhe tirar o chapéu e depois, fizera 18 anos! 18 anos! Tânia falava apenas quando era necessário, largava-me um sorriso dos dela quando olhava para mim e nunca passávamos um pelo outro sem umas cócegazinhas.
Por vezes íamos os três, a pé, até ao restaurante-cervejaria onde trabalhava a mãe, sentávamo-nos na esplanada, elas pegavam num gelado cada uma e adoravam provocar-me a libido enquanto o comiam - riam, riam, riam uma para a outra satisfeitas por me lerem os pensamentos e por fazerem uma maldade sem fazerem nada de mal. Eu bebia duas ou três imperiais com tremoços e depois voltávamos para casa sem pagar nada - os empregados fechavam os olhos às nossas despesas porque os abriam bem às filhas da colega.
A um canto da sala havia um divã polivalente onde acabávamos, os três, as noites de filmes bons. Incapaz de acompanhar as legendas dona Graça ia para a cama. Independentemente do filme, não digo que não acontecessem umas mãos entre botões, calor, humidade – nessa altura ainda não havia ar condicionado - suspiração. Às vezes um “está quieto!”, às vezes um desejo, às vezes um “querias!”, às vezes uma carícia.
As meninas gostavam de mim, eu gostava das meninas. As meninas brincavam comigo, eu brincava com as meninas. A mãe via entre mim e as meninas, acontecesse o que acontecesse, a harmonia.
(Na próxima quarta há mais Quarto)

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Quarto 8

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, este quarto não faz sentido)

Durante a noite, durante os intervalos da discussão com o noivo, Dona Graça ia ao nosso quarto, com pomadas, gelo e paninhos quentes, para tratamento e consolo da vítima.
No dia seguinte não fui às aulas.
Ainda na cama, assisti ao fazer das malas do meu pouco próximo companheiro de quarto. Nunca chegámos a ser amigos (mijava num saco de plástico e mandava-o pela janela para o quintal só para não ir à casa de banho). Vesti-me e ajudei-o com as malas até ao táxi, apertámos a mão, franzi os olhos e encolhi os ombros; ele, marcado pela zaragata, franziu um olho e encolheu um ombro – como rapazes da mesma escola continuaríamos a ver-nos todos os dias.
À tarde, com a dona no trabalho e as meninas na escola, Virgolino foi ao meu quarto.
Fez um longo desabafo do seu fado, disse-me que ia arrumar o saco e tomar o comboio e pediu-me dinheiro emprestado. Tentei demovê-lo mas estava determinado.
Depois do abraço, viu-o partir rua abaixo a caminho da paragem do autocarro que o levaria à estação.
- Vou devolver-te o dinheiro pelo correio! Confia em mim irmão!
Chamou-me irmão, o suficiente para eu não ficar a pensar no dinheiro.
Quando Dona Graça voltou, confrontada com a partida, apenas disse:
- Foi melhor assim!
Os dias que se seguiram lá na casa foram de poucas palavras. Valeu-me o ambiente para pôr o estudo em dia.
Ao fim de quinze dias dona Graça confessou-se-me incapaz de telefonar ao Virgolino. Agora que as coisas já tinham arrefecido gostaria de falar com ele e, se mais não fosse possível, ao menos que ficassem amigos. O melhor mesmo seria escrever uma carta, disse-me ela com um sorriso “quarto maroto” e de lábios fechados.
Andei até à noite em pulgas. Entre nós os dois havia uma diferença de idades de mãe para filho, havia uma diferença de peso do dobro para metade, haviam muitas diferenças mas unia-nos, sem complexos, compromissos ou receios, o facto de não nos envergonharmos das nossas necessidades e de não negarmos o prazer.
O quarto era grande, dona Graça era enorme, de formas arredondadas, perfeitas, de cor quente e macia, orgulhava-se do seu corpo e do seu desempenho, era um mulher sexualmente dedicada. Aquilo que fazíamos os dois era amor. Não um amor construído do qual se pretende continuidade mas um amor que se fazia como o pão. Para fazer pão é preciso juntar cavacos para aquecer o forno, aquecer o forno, amassar a massa, enfornar manuseando a pá com sabedoria e, depois de feito, há que comê-lo. Em suma, fazer pão é acto de amor.
Bem vistas as coisas a peculiaridade da nossa relação residia no facto do acto só se consumar depois de escrita uma carta. Diria até que se Dona Graça não tivesse namorado inventaria um só para ter de me ditar cartas.
(Na próxima quarta há mais Quarto)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Quarto 7

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, este quarto não faz sentido)

Num fim de tarde, estávamos quatro a jogar dominó na mesa da sala, o padrasto, as duas meninas e eu, o enteado branco, quando um homem de meia-idade bate à porta:
- Por acaso não é aqui que está hospedado um estudante de engenharia de nome José Maria?
- Está! Está! – respondeu Virgolino com a antipatia que lhe era nata, ao mesmo tempo que lhe deixava espaço para ficar do lado de dentro da casa.
- Podia chamá-lo? Diga-lhe que é o pai!...
Zé Maria estava no quarto. O pai, ao que parecia, viera à cidade visitar o rapaz e verificar in loco as condições em que vivia o filhinho. As meninas gritaram em coro, duas ou três vezes, de modo a ouvir-se no piso de cima:
- Zé Maria!? Está aqui o teu papá!
Zé Maria desceu as escadas, deu dois beijos ao pai e saíram os dois para o lado de fora deixando a porta entreaberta. Continuámos o jogo com os ouvidos dispostos ao coscuvilho da conversa entre pai e filho:
- Alguma vez te faltei com o dinheiro?
- Não papá! O que me tens mandado desenrasca-me bem!
- Então porque é que andas com esses sapatos?! Então porque é que não cortas o cabelo?
- Ora essa pai! O que é que isso importa?
- Não me tinhas contado que vivias com pretas e brancos com o aspecto como o daqueles dois que estão ali dentro!
- Oh pai!...
- A partir de amanhã deixas esta casa! Podes instalar-te num hotel se quiseres! E a próxima vez que te vir quero-te com uns sapatos engraxados e cabelo cortado, ouviste? Agora vai lá acima preparar-te como um homem que vais jantar fora com o senhor teu pai!
Quando, noite adiantada, Zé Maria regressou à “espelunca”, havia baile com merengue.
O rapaz vinha de rastos com as lições do pai pelo que foi fácil aderir à paródia. Bebeu um, bebeu dois e bebeu três mas não havia maneira de o pormos a dançar. Virgolino puxou-o da cadeira, aparelhou-se a ele ao som da música e passou-lhe a mão pelo cu.
Foi uma explosão. De repente começaram os dois aos empurrões, embrulharam-se no chão ao som dos gritos das mulheres enquanto eu, impotente, tentava a paz sem entrar na guerra. Um derradeiro soco atordoou o Zé estudante.
Acalmei Virgolino enquanto dona Graça tentava socorrer a vítima com água. As meninas davam tom à cena com um coro de choro.
Acompanhei o “mais forte” até à cozinha e este sentou-se com expressões que alternavam entre a raiva e o arrependimento. Voltei à sala e ajudei o “mais fraco” a levantar-se e amparei-o na subida das escadas até ao quarto.
- A partir de amanhã não ouvirás mais o ressonar do Zé Maria! – disse-me ele enquanto se deitava doridamente sobre o divã.
- Não te precipites! Vou mas é lá abaixo buscar gelo que o teu olho parece estar a inchar!
Desci as escadas, as meninas no sofá com os olhos na televisão mas distantes dela, o casal na cozinha em acesa discussão enquanto eu me dirigi ao frigorífico.
- Calma! Calma! Isto passa! Vim buscar gelo que aquilo está a inchar!
Às minhas palavras a discussão subiu de intensidade e pôs-me a mais na cena. Restava-me sair e ir tratar do ferido.
(Na próxima quarta há mais Quarto)

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Quarto 6

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, este quarto não faz sentido)
É muito giro percorrer e conhecer a noite da cidade mas não é fácil, diria mesmo, é muito incómodo, andar num carro roubado mesmo que sob o comando dum profissional do ramo.
- São cinco da manhã ó Lino, amanhã tenho exame! Vamos para casa!
- Exame a quê? O teu fígado está como novo! Às oito da manhã o rally de Portugal passa na Lousã, temos carro, ainda tem pitrol, que queres mais? Queres conduzir tu?
- Isso é que não!... Além disso, esqueceste-te de um pormenor! - disse eu esfregando o polegar no indicador.
- És meu amigo? Confias em mim?
- Hum! Sim!
- Então vamos!
O rally começou ali. O acelerador, os travões, as curvas e o meu coração não tiveram descanso enquanto não vi a placa de localidade da Lousã. Levei sempre os pés fixados na parte vertical do chão junto ao tapete, as mãos no tablier e pensei repetidamente:
- Mãezinha nunca mais te vejo!
Chegámos e estacionámos o carro na zona da enchente. Nas ruas e nas estradas caminhavam milhares de jovens, a pé, cujos rostos denunciavam também a directa: da discoteca para o rally. A caminho da serra passámos por tascas improvisadas de português que aproveita a oportunidade sem lei: café de cafeteira, leite a sair da vaca, cervejas, tinto, bifanas, pão com manteiga, feijoada… os estômagos e a hora eram para tudo. Parámos numa que tinha muita gente à espera.
- A minha mãe ensinou-me que onde há muito freguês é porque é melhor! - disse-me o companheiro já de dedo no ar para o tasqueiro:
- Duas bifanas e duas cervejas para aqui, se faz favor!
Fiquei na retaguarda e, minutos depois, já tinha nas mãos o mata-bicho.
- Como é que pagaste?
- Não te importes! Se vier alguém atrás de nós direi: pensava que era à borla!
Subimos dois ou três quilómetros serra acima, vimos os carros a passar depressa – Michelle Mouton era a primeira – e, quando, de regresso, nos aproximámos do campo onde tínhamos o carro que não era nosso, Virgolino segredou-me:
- Temos problema! Olha a bófia! Não olhes para mais nada a não ser para as garinas!
Topei que o veículo estava debaixo de olho. Provavelmente tinham encontrado a matrícula de um carro roubado durante a noite.
- E agora?
- E agora? Há por aqui tantos! Não te atrapalhes que não vamos para casa a pé!
- Nem uma coisa nem outra! Vamos de comboio!
- Por acaso o menino bem comportado e teso quer viajar de comboio sem bilhete?
- És meu amigo? Confias em mim?
A sensibilidade do assaltante não resistiu à minha segurança e respondeu:
- Tá bem meu! Tás com aúfa? Desta vez mandas tu!
O comboio ia cheio de malta universitária. De pé, estendidos no chão, nas prateleiras da bagagem, viajavam rapazes e raparigas com ar de marrões e de ressaca de bebedeira rara. Percebi logo que dificilmente o revisor faria o seu serviço. Sentámo-nos no chão, um ao lado do outro, e adormeci com a cabeça no ombro do meu parceiro da noite inesquecível!
Não cheguei a horas de ir ao exame.
(Na próxima quarta há mais Quarto)

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Quarto 5

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, este quarto não faz sentido)
Todas as manhãs as miúdas saíam para o liceu. A mãe, a meio da manhã, ia para o trabalho no restaurante. Eu, às vezes, também ia às aulas e o Virgolino ficava todo o dia em casa a ver televisão e a emborcar cervejas.
Nas primeiras noites que dormi naquele quarto acordava duas ou três vezes, a horas certas, com o ruído dos comboios da linha da Lousã que passava mesmo ali ao lado. Com o hábito o comboio deixou de me tirar o sono, assim aconteceu também com os sons da mobília e dos corpos que se enrolavam no quarto ao lado.
Muitas vezes, durante o dia, para vencer o tédio de desempregado, Virgolino batia à porta do meu pequeno quarto, entrava com duas cervejas abertas, pousava uma sobre a sebenta e dizia:
- Rapaz, a vida não pode ser só estudar! Bebe, se queres ter força na verga!
Sentávamo-nos um em cada cama, de garrafa na mão e a trocar umas conversas. Perguntava-me das coisas que eu estudava, contava-me a sua vida e a sua terra, disse-me que esteve preso por roubar carros, afiava-me a curiosidade com detalhes das intimidades que travava com a Gracinha, pedia-me uns trocos emprestados para não me cravar mais cigarros, fazia-se o amigo que eu nunca imaginara.
Um dia, à noite, depois duma discussão com a sua Graça, que eu acompanhara pelo soalho do meu quarto de estudante, Virgolino entrou de rompante no meu quarto:
- Tenho de espairecer João, vem comigo! Contigo, talvez ela se descosa com as chaves do carro! Estou farto do cheiro a catinga desta casa!
Sem dizer não, aconcheguei os preparos de sair à rua e descemos as escadas.
- João, vocês podem ir mas vão a pé, no meu Simca é que não!
Virgolino dirigiu-se à despensa, que ficava por debaixo da escada, e saiu com um saco de plástico de supermercado, cheio de quase nada, na mão.
- Vamos João! A noite é nossa!
Como um cordeirinho inocente que acompanha o seu comandante, desci com ele o carreiro que separava o bairro da avenida. Bebemos duas imperiais rápidas na nossa cervejaria e saímos. Cinquenta metros depois, Virgolino abriu o saco que trazia no bolso de dentro do blusão enquanto dizia:
- Esta é a nossa presa! Serve?
Surpreendido com a aventura nem tive tempo para pensar ou reagir:
- Entra aí desse lado!
Disse-me ele já com as mãos nos fios por debaixo do volante para fazer a ligação directa. Aí vamos nós a abrir pelas ruas da cidade, de bar em bar, até à discoteca final!
(Na próxima quarta há mais Quarto)