Por volta do meio-dia, desci as escadas para tratar da higiene da manhã. A família do Norte estava já de partida. Virgolino ficava, claro! Com a cara e o abotoamento do pijama testemunhando a noitada passada entre excessos, despedi-me e, por motivos óbvios, fui o único que não os acompanhou à rua. Segundos depois, a solteirinha de Fafe voltou a entrar a porta entreaberta, com ar de quem se justificou por esquecimento de pequeno pertence, abeira-se-me na entrada da casa de banho e, assim, sem mais nem menos e sem palavra alguma, espeta-me um beijo na boca como quem diz: também estou com hálito de ressaca, saindo de imediato, com o ar apressado com que entrou. Andei todo o dia com um sabor de boca, não sabendo se era meu se dela, contente por mim e descontente por ela, descontente comigo e contente por ela e sabendo que aquilo não fora caso para esquecer nem para lembrar.
Na noite seguinte não consegui estudar nem dormir, os sons que vinham do quarto grande eram de tal frequência e intensidade que ora me incomodavam, ora me faziam encostar os ouvidos à parede. Não que tivesse ciúmes ou inveja mas porra! Um homem não é de pau!
Dona graça era um poço sem fundo no que toca aos prazeres da carne, absorvia todas as lavas sem nunca se encher. Virgolino desinchava da abstinência do período em que cumpriu a pena. Por duas vezes ouvi os passos da amante descer as escadas e, minutos depois, os mesmos passos subindo, acompanhados pelo ritmo do que imaginei ser o som duma colher batendo numa tigela a fazer gemadas, talvez uma cerveja a acompanhar e não só, uma vez ouvi mesmo o tiro da rolha de uma garrafa de espumante e o tilintar de copos.
Deitei-me várias vezes com a cabeça debaixo das mantas mas dormir está quieto! Poderia até ser sinal de desrespeito e desprezo adormecer perante um acontecimento oculto que não podia ver mas do qual, de certa forma, eu fazia parte. Levantava-me, sentava-me frente à mesa de estudo tentando estudar álgebra mas nem uma simples matriz conseguia inverter nem que fosse durante os, cada vez mais frequentes, intervalos de silêncio.
Apesar de tudo sentia-me contente pelos dois e, curiosamente, não me afectava o facto de, possivelmente, não existirem mais cartas para escrever - a não ser que o Virgolino pusesse outra vez a boca na botija e fosse cumprir mais uns meses!...
Claro que, nos meses anteriores, cheguei a imaginar-me companheiro de uma negra, com duas enteadonas mulatas, a passear na baixa, ou melhor, se calhar isso até chegou a acontecer sem eu dar por isso! De qualquer forma Dona Graça era bem mais velha que eu, mais responsável nas grandes opções da vida e, se optou pelo Virgolino, não deve ter sido só por qualidades de performance sexual! Aliás, eu também lhe dava um jeito, ou não estivesse no vigor dos meus vinte e um anos.
Zé Maria deve ter chegado de madrugada. No dia seguinte faltei às aulas.
(Na próxima quarta há mais Quarto)