sábado, 18 de fevereiro de 2012

Três males e um só remédio

Não é só o mal de estarem a dar cabo da economia nacional, alguns deles são suficientemente estúpidos para acreditarem que as coisas se resolvem assim. Não é só o mal de estarem a atirar milhares de portugueses para a pobreza, alguns deles são suficientemente insensíveis para resolverem a sua consciência com umas sopas. O mal, é que muitos deles, parecem agir com um certo ressentimento histórico, como se tivessem prometido ao avô que tanto sofreu com o 25 de abril:
- Um dia iremos recompor este país!...
Essa recomposição, formalizada em iniciativas políticas sempre dirigidas  aos direitos (privilégios e regalias -chamam-lhes eles com descaramento)  dos mais pobres, acontece encoberta pela ideologia da crise.
As vítimas perguntam ao fim da notícia de cada medida:
- Mas o que é que isto vai resolver?!
Falta-lhes perceber que isto não é só uma questão de políticas, há uma geração, filha de gente que adorou o Estado Novo, que está a ajustar contas com a revolução de abril. Perante estes factos, só há um remédio:
luta de classes!
Não, não são fascistas! São menos do que isso!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Nada cabrão

Nada me ocorre
Nada me tem
Nada me inspira
Nada me vem
Nada me leva
Nada me vai
Nada me educa
Nada me instrói
Ai que me dói
Estou muito mal
Crise nos ossos, na figadeira
Crise nos cornos, intestinal
Crise no cu, hemorroidal
Crise de diarreia
Crise financeira
Crise europeia
Crise nacional
Crise de emprego
Ai se eu te pego
Eu te devoro
Às vezes choro
Às vezes rio
Às vezes imploro
Às vezes vou
Ás vezes venho
Por vezes vou ao bar da Associação e digo sou
Eu que vos ouço a dizer que devia ser assim e assado
Eu que vos ouço a dizer que se devia salvar o estado
de abril que está ser roubado
E a malta acha que se deve revoltar
Mas nem sequer um passo de marcha
Nem ao menos um minuto de greve
Dizem que tem de haver revolução
Em cima de nós não
Cavaco é um cabrão
Que foi aqui chamado só por causa da rima
Tem um ar terno de parvo espertalhão
Este governo dói-me
Tanta estupidez, tanta resignação
Tanta afronta, tanto conformismo
Nada me dói, nada me pega
Ninguém me instrói
Há gritos na rua

Nada ela nua – pronto, estraguei o texto todo!
Não, ainda tenho mais um rima:
Lua

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Quarto 22

A partir do dia do Quarto 21, Gina passou a dormir no meu quarto. O divã polivalente da sala não estava em condições nem tinha enquadramento para servir em permanência as pernoitas da menina. Segundo as previsões da dona da casa, mais dia, menos dia, pelo andar da carruagem, as coisas desencarrilhariam e Virgolino teria de retomar o comboio para Fafe. Aquilo não era homem para se aturar por muitos dias. Por isso, sabendo que entre mim e Gina existia um entendimento de irmandade, pedia-me encarecidamente que “compreendesse” a situação e aceitasse o incómodo em nome da relação familiar que nos unia.
Eu sabia lá se éramos irmãos!? Pelas minhas contas, nem a proponente acreditava nisso! Ela, senhora de olho, deitava a filha na cama ao lado da minha mas, certamente, que tinha alguma na fisga: “este rapaz tem futuro… pode ser que… bem conheço os seus apetites… não resiste a certas cheiros e a certas curvas…”
Enfim, Dona Graça colocava-nos aos dois no mesmo quarto, como quem põe dois passarinhos na gaiola e aguarda que estes acasalem. Isto era eu a pensar!
Na prática, Gina saíra-me muito difícil. Foi já contado de soslaio que, ocasionalmente, se geravam algumas humidades entre os dois mas, no quarto do humilde hóspede, as investidas acabavam sempre em estaladas desconfortáveis ou em ameaças de “eu vou dizer à minha mãe!”
Para animar ainda mais a luta que travávamos, por vezes, enquanto eu estudava, Gina abeirava-se-me nas costas da cadeira, fazia-me umas massagens no pescoço, enfia-me as mãos pelo peito abaixo, eu levantava-me, deitávamos sobre a cama e chegados a um certo ponto, lá estava o pobre estudante vitimizado por um dos desfechos relatados no parágrafo anterior. Outras vezes o contrário, avançava eu com as minhas mãos e os meus trejeitos mas era sempre o mesmo o fim do filme.
Para compor ainda mais a luta que travávamos, todas as noites se ouviam, dos dois quartos dos dois casais vizinhos – para quem não se lembra: Graça e Virgolino, Tânia e Carlos – a actividade de leitos que cumpriam a sua função mais nobre.
Era o “eu” mediterrânico que estava a ser posto em causa. Ninguém acreditaria, nem a minha santa mãe se o soubesse, que no meu quarto dormia uma rapariga e que eu nada! …
Pensamentos contraditórios assolavam-me o desejo e a cabeça: nem Gina era para mim nem eu para ela, para quê insistir? Mas que sentido, que razão, que destino nos fazia aos dois partilhar um quarto tão exíguo?! E depois, verdade seja dita, Gina sabia equilibrar o quotidiano com os ingredientes próprios de uma relação de irmãos.
Ultrapassou as marcas na noite em que à luz ténue do visor do rádio, já os dois em posição de adormecimento, me fez perceber, intencionalmente, que desenvolvia uns movimentos de auto-satisfação.
Levantei a cabeça como quem pergunta “mas o que é que se passa para aí?!” e recebi resposta:
- Livra-te de saíres da tua cama?!
Lá aguentei, num terrível suplício, a provocação, para ouvir no final:
- Então Cabitche, gostaste? Fez-te algum efeito?!
Fiquei calado e calado adormeci envolto em pensamentos que nem conto porque qualquer um advinhará com facilidade. Que raio de rapariga aquela! Como é de lei, a dificuldade aguçava o apetite. Quer perante os da casa que conviviam com a situação, quer junto dos amigos e familiares que nem a sonhavam, uma caldeirada de sentimentos e pensamentos absorviam o meu ego masculino: orgulho da minha pureza, vergonha da minha impotência, a Gina quase irmã, a Gina quase mulher, o gostar e o feminino, o sexo cru e o amor…
Sei que a história ficaria mais composta se contasse que numa noite mais fria a provocadora se veio enfiar na minha cama, nos meus cobertores, em mim e sem grandes surpresas lá vencemos a pureza e demos cumprimento à inadiável iniciação. Mas isso nunca chegou a acontecer. Definitivamente, repito, nem Gina era para mim nem eu para ela.
(Na próxima semana o Quarto continua)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Fui e não te vi

Fui e não te vi porque eram muitos iguais a ti e a mim. Com certeza, se fossemos só os dois nos teríamos encontrado. Fui e não te vi porque não pudeste ir. Com certeza se pudesses terias ido e terias estado comigo. Fui e não te vi porque não te apeteceu ir. Com certeza que nunca irás perceber que estas coisas não vão por apetite. Fui e não te vi porque não estás para aí virado. Com certeza que já percebi que faz parte da minha luta acordar a tua consciência. Fui e não te vi porque estás do outro lado. Com certeza que ambos já percebemos que estamos nos lados opostos do campo de batalha.
Ir com muitos pés. Ver com muitos olhos. Sentir com muitos nervos. Lutar com muitos outros. Há lá coisa mais bonita de não nos sentirmos sós entre tantos iguais e encontrar um amigo que não se vê há tanto tempo?!

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Filha da puta da padeira

Quando eu reclamei que o pão tinha aumentado e me tinham cortado o vencimento, respondeu-me ela:
- Dê graças a Deus por ter emprego!
Quando eu me queixei por ter sido despedido e o pão ter subido, deu-me a resposta:
- Dê graças a Deus por ter saúde!
Quando eu chorei pela minha depressão e lamentei o preço do pão, consolou-me assim:
- Dê graças a Deus por estar vivo!
E perguntei então:
- E o que é que Deus me dá em troca?!
E não é que a puta da padeira, que parece mais nova que a mãe, e ainda por cima vende pão, me diz:
- Olhe! Coma bolota e não deixe que lhe cortem os carvalhos!
Ainda bem que os tenho! Mas não se têm desenvolvido muito porque apanham a sombra dos tomates e pepinos.

Que triste filme

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Ó classe média põe os pés no terreiro


Parece que a classe média está em apuros. Parece que está perdida! Que não encontra a sua consciência. Parece que este ano é difícil ir ao Algarve.
Chegaram a aceitar que o ensino podia não ser gratuito porque tinham dinheiro para pagar! Pensaram que a saúde publica era coisa de velhos e nunca exigiram pediatra no serviço de saúde porque tinham dinheiro para pagar! Gastaram um horror de dinheiro no dentista porque tinham dinheiro para pagar!
- Porque devo eu contribuir com os meus impostos para os transportes públicos se vou no meu carro para o emprego?!
Ressalve-se, ganharam alguma consciência ambiental, lamentaram os incêndios florestais e habituaram-se a ir levar o lixo ao ecoponto.
Também no que toca a política internacional estiveram contra Saddam e contra o Bush e acompanharam tudo do sofá.
Deixaram de votar. - São todos iguais! São todos uns corruptos! Eu vivo razoavelmente! Nada vai mudar! Isso de votar é coisa de quem pensa que isto muda! Mas para que raio isto havia de mudar!?
- Votar em quem?! PS?! PSD?! Um dos dois há-de ganhar e nenhum deles me há-de levar a casa com aquecimento, o carro cinzento, a playstation do puto nem o emprego onde sou muito bom nos objectivos!
Quando as coisas começaram a piorar, pensaram.
- Sócrates? Coelho? Isto é a crise internacional! Menos cem euros daqui, mais irs dali, eu aguento! Eles vão resolver isto! Pois se eles estão a fazer tudo o que os sábios da economia e os empresários de sucesso dizem! Isto vai passar!
Mas, entretanto, parece que isto não vai parar!
- Não é filho?! Já se nota! Parece que os direitos conquistados pelos teus pais estão a desaparecer na cartola do coelho! Parece que está a ser difícil pagares o crédito da carrinha e explicares aos teus filhos que o dinheiro não nasce na caixa multibanco! Já não tens a certeza se para o ano terás emprego, por isso tens de estimar o teu patrão! Nada de ondas!
- Talvez os sindicatos sejam importantes! ... – começas a pensar!
- Mas essa coisa de greves é coisa de maquinistas! ...
- Manifestar-me eu?! Não sou nenhum operário! E também, o que é que isso vale?! Nem sequer dá na televisão!

Tenho as mesmas dúvidas que tu! Entretanto, convenci-te a ir! Tenho os mesmo problemas que tu! Convenci-te a acreditar! Fomos! Vamos! A alegria de sentirmos que não estamos sós! A força de sentir a força que temos e a que podemos ter!
Lindo! Vai valer a pena! Põe os pés na terra em que nasceste! Vem cá atrás para tomarmos balanço e irmos todos juntos!

São deles os hotéis e os aviões.
São nossos as ruas e autocarros.
Saíste do sofá, vamos vencer!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Quarto 21

(Para perceber o que está para aqui a acontecer tem de correr os quartos precedentes)

Na esquadra apenas estavam mais dois polícias e, apesar de ignorantes em galões, percebemos rapidamente qual deles era o chefe. Sabíamos que a casa era bem conhecida entre eles, não só pelas rondas mas também pelas repetidas queixas da vizinhança, nada que não se tivesse sempre resolvido com umas chamadas de atenção. A calma e a maturidade com que Dona Graça respondia ao interrogatório, o menino bem comportado que eu, sem dificuldade, fazia aparentar, prometiam a resolução da intimidação policial. O “eu sou um pobre estudante que não estava habituado a beber” tocou, visivelmente, o tom militarizado do inquiridor. O pior é que o vestido de Verão do Virgolino convidava à graça e à graçola e não tardou que os polícias começassem a manifestar expressões de não acharem grande graça ao matulão. E, ao fim de umas trocas de gestos e palavras, passou-se toda a gente e o meu amigo acabou dentro da cela. Quando reconheceu o cenário, que lhe era tão familiar, ficou incontrolável. O tom da minha amizade e o coração de dona Graça acabaram por acalmar a demónio que se apoderara de Virgolino. Conformados os detentores e o detido, Virgolino teria de passar a noite na choça. Eu permaneceria junto dos agentes enquanto dona Graça fosse a casa buscar roupas decentes para o namorado e uns documentos.
Regressou passada meia hora. O castigado já estava calmo – não fossem os chuis aperceberem-se que estava numa situação de liberdade condicional.
- Façam favor de se apresentarem ambos, aqui, às oito da manhã. Se tudo correr como esperamos, libertaremos então o vosso amigo.
Fomos os dois abraçados rua além, divertidos com o acontecimento, temperando-o com uns comentários e gracejos, satisfeitos pelo encaminhamento do caso e dispostos a um desfecho em grande para aquela noite.
Chegados a casa, os convidados já haviam zorpilado, Tânia e Carlitos tinham a porta do quarto fechada e Gina, a quem a situação tinha tocado mais por ser mais nova, dormia na segunda cama do meu quarto.
- Quando vim cá a casa, acalmei-a e aconselhei-a a dormir no teu quarto. Esta sala está um caos, espero que não te importes! Amanhã arrumamos os despojos da festa!... Não me consigo esquecer do Virgolino! Só me apetece escrever-lhe uma carta.
Subimos a escada e entrámos ambos no quarto grande. Deu-me à mão a caneta e o bloco e começou a ditar:
Lininho, esta cama ainda cheira ao suor desta tarde. Ainda fazem ricochete, entre as paredes, os sons que juntámos…agora estás aí, enjaulado, qual pássaro feroz, qual toiro manso, a ouvir o ressonar dos teus vigilantes... faz de conta que és um gelado que eu pus no congelador… não se pode estar sempre a comer doces… agora apetece-me mais o bifinho rijo… sei que também gostas de assar o bifinho rijo mas não gostas de o comer…ainda bem, assim a nossa vida é muito mais harmoniosa…
Até amanhã meu Olá!”
A carta estendeu-se por duas ou três folhas e seria a prenda da libertação da manhã seguinte. O ditado foi interrompido a cada frase, por perguntas e risos, por festinhas e escravunços. Direi mais, desta vez o ditado foi tão vivido que não foi ditado, foi diálogo, foi risos, foi paixão, foi amor, foi poesia, foi vida, de tal forma que quando escrevia “Até amanhã meu Olá” dei pelo bifinho já tenro.
Traição?! Não! Nós pensámos permanentemente em Virgolino! Nós partilhámos com Virgolino! Nós dedicámos tudo o que escrevemos e fizemos ao Virgolino! Alguém ousará chamar traição à dignidade com que tratámos o Virgolino?!
Ah! Já sei! Dirão: mas ele não sabe! E por que haveria de saber? O melhor bem, muitas vezes, é aquele que se faz em segredo!...
Foi por Virgolino que, no dia seguinte, não fui às aulas. Às oito da manhã, com olhos de noite e carne bem, ou mal, passada, lá estávamos a recolher o nosso amigo. Dona Graça estendeu-lhe a carta mas ele não lhe deu importância e enfiou-a num bolso de trás das calças de ganga; a caminho de casa, às nossas perguntas dava respostas com uma ou duas palavras.
Entrámos na sala, tudo corria como o previsto, toda a gente dormia, era provável que desse para ocultar às meninas e ao Carlitos que o padrasto tinha passado a noite dentro. Dona Graça pôs-se a arrumar tudo e mais alguma coisa e nós, os homens, ficámos a petiscar uns restos e a abrir mais umas garrafas de cerveja. Valeu a ocasião para ouvir mais uns episódios da vida e dos sentimentos do cadastrado.
(Para a semana ainda haverá quarto)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Enquanto houver estrada

Era a última coisa que esperava que me acontecesse. Um tipo encontra um sítio bonito para viver e um puto engenheiro decide que é por aí que irá passar a estrada. Decidem então que o vale será cortado e cheio numa altura de dezoito metros. É muita terra, é muita pedra que tem de vir da serra para fazer a altura de um prédio de seis andares. Os primeiros andaram um ano, eram lá de cima de Viana. Ganhámos amizade com o do cilindro, com o da giratória, com o do catrapilo e com mais dois ou três dos camions. Quem anda perto da casa do Zé Luis tem de vir à adega dele e eles até levavam algum porque nas terras do verde, maduro é coisa rara e então palhete!... Faziam turnos para assegurar 24 horas de barulho. Dizia-me o Zé Luis:
- Isto é bom porque dá emprego à malta e negócio ao país. Já contabilizei: de dois em dois minutos descarrega um!...
De tanto trabalharem a empresa foi à falência e depois veio outra e outra e todas se enterraram no buraco do amaldiçoado vale. Mas há quinze dias a coisa mudou de cor. Todas as máquinas e camions são de cor laranja. Outra forma de trabalhar. Noites?! Está quieto! Hora de almoço com espaço para sesta.
- Que é isto? - Perguntei ao meu vizinho Zé Luis, criador de gado, apreciador de vinho e serrador.
- Ainda não reparaste?! São tudo matrículas espanholas, falam espanhol, dizem que onde eles se metem resolvem tudo num instante! Só vão trabalhar nos nossos trezentos metros. Os outros nunca mais daqui saíam! Agora é que isto vai! Pró verão tem de estar pronta! Ainda não falei com eles porque não sei falar com eles!
- Vamos lá! Eu sei dizer Buenas Tardes! Enche o jarro! Eu levo os copos!
Soubemos: trazem comida de Espanha para comer durante a semana, dormem em contentores, têm um camion cisterna que vai a Espanha buscar gasóleo para as máquinas e não gostam do nosso vinho! E veio de lá o meu amigo Zé Luis a rogar pragas a todos os espanhóis, a dar-me conhecimento que os de Viana foram para Angola e a reconhecer que isto não mexe com a economia do país! Mas lá no seu íntimo, o que o revoltava mesmo era o facto de não terem gostado do nosso vinho!
- Deixa lá! No dia em que isto abrir vamos os dois meter gasóleo a Espanha e comer uma caldeirada à Nazaré. Se não for para isso, para que raio nos deram cabo do vale?

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Três tristes sortes

Um está preso, outro desaparecido e outro com dificuldades económicas.
sugerido por e-mail

sábado, 4 de fevereiro de 2012

11 de Fevereiro

"'É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão- Somos, socialmente, uma sociedade pacífica de revoltados' - Miguel Torga, Diário (17.09.1961)'"

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Os pobrezinhos

A tradição cristã prometeu o Céu aos pobres e aos ricos, o buraco de uma agulha. Este culto da pobreza foi aproveitado por certos regimes, o de Salazar é um bom exemplo, para conter a luta, por uma vida mais digna, dos povos humildes que se foram conformando com as migalhas que o destino lhes deixou. E muitos lá foram vivendo, “pobres mas honrados”, por sugestão das classes dominantes e dos pastores de um Outro Mundo. Todos, aos domingos, uns com cadeira, outros de pé, lá iam pondo a mão ao peito, uns porque se consideravam pobres mas com graças e outros porque o eram mesmo e, Deus é que sabia!
O desenvolvimento das sociedades permitiu a ascensão de alguns às classes médias, agravou e alargou as massas da pobreza mas conteve as suas vozes. O egoísmo da classe média e a sua veneração pela vida dos mais ricos geraram um silêncio cúmplice, um “não quero ver”, ao mesmo tempo que as consciências se acomodaram no “a culpa é deles”.
Recordo aqui uma poesia que ainda nos enternece e que talvez ajude a perceber porque ainda somos tão passivos com a pobreza, talvez nos ajude a perceber porque continuamos a tolerar os poderes políticos que teimam em não tocar as riquezas dos mais ricos.
Talvez eu nem precisasse desta introdução ou não devesse escrevê-la porque é comum, afinal eu era apenas para deixar esta poesia que julgo que ninguém, que por aqui lê, escreveria, que muitos recordarão porque é de história - pobre história!

« OS POBREZINHOS»

Os pobrezinhos
tão engraçados
pedem esmolinha
com mil cuidados

Todos sujinhos
e tão magrinhos
a linda graça
dos pobrezinhos

De porta em porta
sempre rotinhos
tão delicados
os pobrezinhos

Não façam mal
aos pobrezinhos
Dêem-lhes pão
e uns tostõezinhos

Os pobrezinhos
tão engraçados
pedem esmolinha
com mil cuidados"


(no original eram Passarinhos - salvaguardo as boas intenções do autor)
Armindo Mendes de Carvalho
Por sugestão do Cid Simões, Mário Viegas a propósito.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Quarto 20

Naquele dia eu não tinha ido às aulas. Sozinho em casa aproveitei para lazeirar. Desci à sala e deitei-me no divã polivalente tentando que a televisão da manhã fizesse alguma coisa pelo tédio. Batem à porta, é Virgolino! Um abração, umas palmadas de desaconchegar costelas e um frente a frente à mesa para pôr a conversa em dia!
- Trouxe-te uma lembrança! – tirou do saco de viagem um embrulho em papel pardo e mandou-mo despir. Era um boneco de cerâmica com um cacete erguido e que tinha escrito na base “Justiça de Fafe”.
- E ainda!… – sacou da carteira e contou divertido a massa que me devia.
- Está certo?!
- Não, está dinheiro a mais!
- Ora essa, puto! Em questões de nota “nunca está a mais”!
Contei-lhe da gravidez de Tânia e ouvi das boas por não ter sido eu o progenitor; falei-lhe da comprovada falta que ele fazia à Graça e recebi promessas de que, na próxima noite, eu não iria dormir com o ranger da cama do quarto do lado.

- A Gina está insuportável!
- Porque não lhe afinfas!?

- O Carlitos é bom rapaz! Às vezes, já dorme cá em casa!
- Tu é que dormes cá em casa! Acorda rapaz! Agora é tarde!
Fez um misto de movimentos de cabeça e expressões de rosto que, traduzidos, exprimiam elogios aos dotes físicos de Tânia e reprovação à minha relação com ela. Depois mudou o tema:
- Onde é que vais almoçar?
- Hoje nem me apetece ir à cantina. Vou ali à mercearia comprar dois papo-secos, umas fatias de queijo, um iogurte e já está!
- Vamos mas é almoçar fora! Hoje é por minha conta!
- Então vamos ao restaurante da Gracinha!
- Nem penses! A surpresa do reencontro pede outro local! Tenho um plano, depois conto-te.
Durante o almoço, bem regado, o Desejado contou-me o seu plano para o resto do dia. À tarde as meninas estariam em casa, apalpá-las-íamos no que toca à sua receptividade ao regresso do padrasto e, se realmente desejado, seria fácil convencê-las a participarem na surpresa à mãe amante. A mesa seria posta à grande e à francesa, eu telefonaria a Dona Graça dizendo-lhe que ia dar uma volta com as filhas e, quando esta, por volta das onze, regressasse do trabalho no restaurante, seria surpreendida com o D.Juan Virgolino, sentado à mesa, disposto a festejar, comendo e bebendo com a sua namorada, comendo e bebendo a sua amada! No entretanto, se fosse do meu acordo, eu e as enteadas iríamos ter com o Carlitos ao trabalho e, depois do fecho (que era por volta das duas da manhã), regressaríamos todos para completar o forró.
E assim foi. O Carlitos animou-se com a nossa visita, serviu-nos até querer e, até Gina e Tânia que eram pouco dadas às bebidas, se excederam. A esplanada da cervejaria animou tanto que, depois do encerramento, dados ao caso que ali nos trouxera, dois colegas do Carlitos e o patrão também se fizeram à festa prometida.
Quando entrámos em casa – éramos, portanto, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete – não estava ninguém na sala – claro!! Os “reencontrados” estavam no quarto. Ninguém comentou a sua ausência porque todos a percebemos. Gina ligou logo o som dos seus vinis, abriram-se umas cervejas, petiscou-se da mesa, eu pus-me a dançar com a Tânia, o patrão com a Gina e o Carlitos e os colegas comiam amendoins, mandavam piropos, bebiam uns golos, davam meia volta de mãos ao alto e roçando no baile e, volta e meia, batiam umas palmas.
Dona Graça desceu as escadas com o caso na cara enquanto repreendia para o cimo das mesmas:
- Oh Lino! Não venhas para aqui assim! Temos visitas!
Só eu devo ter topado que o homem vinha em cuecas e que, obediente, regressou ao quarto para se cobrir com outros preparos. E que outros preparos! Virgolino desceu as escadas, com ar mais maroto e destemido, trajando um vestido de Dona Graça. Depois da risada geral Gina aumentou o volume da aparelhagem, a festa acelerou e, no fim dum merengue de acelerar corações, a coisa acalmou e só o Virgolino continuou de pé, na pista, violando numa vassoura. De pé, também eu, mas em cima da mesa, olhos nas lâmpadas do candeeiro enquanto recitava a Ceia dos Cardeais. O embevecimento da plateia com a minha actuação foi tragicamente perturbado pelo toque da campainha e a voz:
- Polícia! Abram se faz favor!
Escaparam-se os três estranhos à casa para o quintal, Carlitos abraçado a Tânia, Gina junto ao aparelho baixando o volume, Lino naquele traje, eu, para não partir a loiça toda, sem poder descer da mesa e a Dona da casa abre a porta aos chuis que entram de rompante.
Enquanto Dona Graça dava explicações e dados para a autoridade, Virgolino lá me tirou ao colo do “palco”.
- Os senhores têm de nos acompanhar à esquadra!
A esquadra ficava logo ali, nas traseiras do mesmo quarteirão, numa moradia que apenas se distinguia das outras pelo pequeno letreiro luminoso “POLÍCIA” e o percurso seria feito, normalmente, a pé.
Com palavras mansas conseguimos livrar os menores da vergonha e só eu, ou melhor, os “trois”, fizemos companhia aos dois agentes que, por escárnio, por gozo, ou por excesso de zelo, não deixaram o Virgolino trocar de roupa e ele lá foi travestido rua além, seguido pelos olhos dos cortinados da vizinhança denunciante.
Mas como o troçado não era de torcer e nascera habituado a pagar amor com amor, quando levávamos andados cinquenta metros, ouvindo as explicações da nossa mulher aos senhores agentes, eis que lhe dá para o canto do “Viva o Sto António, Viva o S. João, Viva o 10 de Junho e…” colocando-se por detrás de mim, empurrando-me com as mãos nos ombros, tenta a marcha em fila indiana a sós comigo. Se até algumas das janelas, dos cortinados com olhos, se abriram como é que eu havia de resistir?! Colaborei. Colaborei durante os instantes que tardaram os olhos fortes de Dona Graça que nos admoestaram a nós e, felizmente, também aos polícias que se preparavam para agir em nome da ordem.
(Na próxima quarta continua a haver Quarto)

sábado, 28 de janeiro de 2012

O pensador do Samambaia

Quando Egídio virou urbano, assentou praça numa grande esplanada da base de um prédio médio, num bairro com pequenas moradias. Foi lá que ganhou o hábito do galão e da torrada, do café com cheiro, da imperial com tremoços e do jornal diário. A princípio a mesa era só sua mas, com o andar do tempo, das conversas triviais, do futebol , da esquerda, da direita, dos livros, dos poetas, das histórias, dos filmes, dos discos, dos espectáculos, a mesa encheu e fez outras ao lado. Egídio fez amigos, grandes amigos que com ele na esplanada planeavam frentes de salvação nacional, negócios, sonhos mas sobretudo saídas e noitadas e, às vezes, também se estudava.

Egídio estava a crescer. O pai, agricultor, pagava-lhe a vida ali para ele ser doutor. Não poderia advinhar ou entender que já era muito mais do que isso, um homem pensador.

Com o andar dos anos os amigos começaram a partir e a casar e Egídio começou a ficar só com o Casimiro que fazia acrobacias com a bandeja. A namorada de Casimiro ganhou caminho para o quarto arrendado do Egídio e acabaram ambos por levar um enxerto de porrada.

Para evitar Casimiro e esconder os hematomas dos outros clientes da esplanada, planearam ambos arrendar um T2 num bairro do outro lado da cidade mas Egídio, pensador, não adivinhou novos amigos nem uma esplanada como aquela em que a bandeja vazia caía umas vezes pelo falhanço de uma acrobacia outras vezes porque Casimiro gostava de chamar a atenção. Dados os factos, acabaram-se as brincadeiras e se, a Casimiro não faria mossa ter uma namorada que fumava muito, que teve um deslize e que tinha muito horror aos bois e ao campo, já o pai de Egídio, camponês, nunca suportaria mulheres que fumassem e em segunda mão. Mas mais dia, menos dia, exigiria de tanta mesada, ao menos, a ponta dum canudo!

Sem curso, sem amigos e sem namorada, Egídio voltou ao pai – isto na cara?! foi um professor que me bateu! - e à terra demonstrando os seus conhecimentos de Coimbra. Ainda tentou a lavoura adquirindo um tractor em troca dos bois mais uns fundo cee. Ainda foi três meses professor de português. Ainda quase casou com uma professora de Francês.

Mas, com o andar dos anos, Egídio habitou-se à pequena esplanada de um café, que fica no largo grande da pequena aldeia e voltou a falar de coisas triviais, de futebol, da esquerda e da direita, de livros, de poetas, de histórias, de filmes, de discos e espectáculos e, se alguém lhe prolonga a atenção, saca dos grandes amigos do passado - alguns grandes senhores agora! - diz que vai fazer vida com uma brasileira, que vai montar negócio de fartura, que isto vai dar fome, que o português matou a agricultura - não amanhou, agora que se amanhe!

Enfim, um pensador! 
PS: Todos nós temos uma esplanada e conhecemos um Egídio. Porque todas as vidas são grandes, só se pode falar delas em síntese, como me aconteceu agora neste texto pequeno e trivial. Hoje fui ao funeral do pai do Egídio, estive na esplanada do café da terra e diziam as bocas, que falam com espuma de cerveja, que o filho não quer é trabalhar, que tem uma grande vida e que acabará por morrer não se sabe como. Ora! Nem eu!
Pensemos: Desde quando é que pensar não é trabalho!? Desde quando é que viver não é mais do que pensar!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Escândalo! Haja vergonha!

Subsídio de Férias e de Natal passam a chamar-se abono suplementar... mas só para alguns!
Clique na imagem para ampliar
Ponto 3- Nos meses de junho e novembro, para além da mensalidade referida, será paga outra mensalidade de 1575.00 euros, a título de abono suplementar.
Custa a acreditar, não é?! Vem no Diário da República, 2ª série, nº14, 19 de Janeiro de 2012.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Quarto 19

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, o Quarto 11, o Quarto 12, o Quarto 13, o Quarto 14, o Quarto 15, o Quarto 16, o Quarto 17, o Quarto 18, este quarto não faz sentido)

Tânia bateu à porta do meu quarto, entrou receosa, com aquela sua beleza muda entre o anjo e estátua grega, como se entrar naquele quarto não tivesse sido um hábito costumeiro. Sentou-se na cama que não era minha e eu, que estudava na minha, virei-me para ela retirando a atenção dos apontamentos. Ensopou os olhos e eu pressenti que viera para me dar a novidade que eu já sabia. Puxou a camisola para cima e exibiu a barriga. Fingi surpresa.
- Este filho podia ser teu Cabitche! Eu queria que este filho fosse teu Cabitche! Deus castigou-me por eu te castigar Cabitche! Eu amo-te Cabitche! Tanto que eu gostava que esta criança nascesse com o teu nariz Cabitche!...
De cabitche em cabitche, a minha Tânia continuou debitando chorilhos desta ordem enquanto ia intensificando o ar choroso até que o meu lado paternal me deu o tom para falar como pai dela:
- Tânia! Esse ser que aí tens é o teu futuro! Esse vai nascer com uma sorte do caraças! Vai ter uma mãe como tu e vai ter um pai que é uma jóia de pessoa, o Carlitos!
- Mas eu sempre me imaginei tua, dum homem como tu, não do Carlitos! O Carlitos é um puto!
- Então e eu? Eu sou um autêntico bebé! São os filhos que nos fazem homens e mulheres!
- Queres dizer então que já não me desejas?
- Tânia meu amor, o nosso amor existe ainda mas vai acabar por desaparecer! Todas as coisas vivas da natureza são assim! Não existem amores de pedra porque, se o fossem, então não o seriam!...
Demos um verdadeiro e prolongado beijo que terminou em estalido. Tânia saiu determinada e eu fiquei a pensar. A pensar nela, em mim, na sua gravidez, no Carlitos. Tinha escolhido a solução mais fácil e mais racional, mais de acordo com os costumes. Razões do coração, essas, estariam sempre a tempo de ser remediadas.

Ao fim da tarde fui sozinho até à esplanada da cervejaria onde trabalhava Dona Graça. Antes que eu pedisse, já estava o empregado de mesa, Carlitos, com uma imperial e uns tremoços na minha mesa.
- Esta paga a casa. Despego às sete. Entretém-te aí que já me sento aqui a beber uma contigo Cabitche!
Carlos, já desfardado, sentou-se na minha mesa com mais duas e uns camarões. O tempo, um golo, uma transferência de jogador, levaram-no até me dar a novidade que já me era velha.
- Estou fodido! A minha mãe é mulher de sacristia! Nunca vai aceitar! Vai acabar por partir com um mual todos os santos da igreja de Girabolhos que têm mais de quinhentos anos!
Ela está convencida que os santos falam e que não os ouve porque é meia surda! Já viste a minha situação João? Chego lá a casa e “mãe, vou ser pai!” E ela, “o teu pai está no lagar!”
“Não mãe, vou ter um filho!”
“ Sim Carlitos, tu és o meu filho!”
“Mãe, vou casar com uma preta!”
“Não sei se ainda há alguma preta, vai ao frigorífico e vê!”
- Estou fodido João! Parece que já estou a ver a minha mãe a entrar no número sete para conhecer a futura nora e a dar-lhe um chilique!
- Oh Carlitos, não estejas com essas fezes rapaz, fizeste um filho, és um homem! A tua mãe sabe que não és um santo, vai gostar de saber-te homem. És um tipo cheio de sorte! A Tânia!?... Uma mulher de meter inveja! De se trazer pela rua mas com muito cuidado! A Tânia!?... Fosse ela da minha idade e não te tinha calhado a ti!
(Na próxima quarta talvez ainda haja Quarto)

sábado, 21 de janeiro de 2012

Porcos dos porcos tão porcozinhos

Já faz uns anos que encontrei a minha amada, eu procurava bolota na estrada e ela estava deitada à sombra dum carvalho, disse-lhe "rom!rom!" e ela apontou-me o carvalho como quem me manda pra lá, eu respondi-lhe "rom!rom!" e ela amandou-me uma mancheia de bolotas, a seara calou-se e só se ouviu o roçar dos nossos narizes unindo para sempre os nossos dois ventrículos esquerdos. Hoje ela diz que eu não lhe ligo nada e que passo a vida nos blogs! Não compreende que eu ando por aqui a ganhar a vida. Esta é já uma parte da minha vida. Depois do terço à lareira e das histórias do arco da velha, da rádio nacional, da TV do Bonanza, da Gabriela, da Cornélia e do 1,2,3, dos Marcelos, Tavares e Metelos, da Fátima Lopes e de todos os ex-ministros das finanças, eu fugi com os meus serões para aqui, sou um bloguer, ah!ah! sou um bloguer - a palavra bloguer é nova e, por isso, cada um a escreve como quiser - ah! ah! sou um bloguer!

Como pode uma mulher unir-se a um suíno? Eis a questão! Ela diz vens lindo, eu respondo sou. Ela diz és porco, eu respondo "rom!rom!" Ela diz vai para o carvalho e eu vou - gosto de falar com os carvalhos, de brincar com os bugalhos e de comer a bolota!
- Sou um porco: rom, rom!
- Meu amor és tão bom!
- Oh querida vem aqui ver se este post tem erros!
- Rom!Rom! Nunca mais aprendes que os assentos são agudos e os acentos são graves!!!

E, contudo, este blogue vai de mal a pior! Que outra coisa eu posso escrever a não ser nada!? Os outros dizem tudo! Vocês dizem tudo por mim! Está tudo dito! Só me resta marchar! E que bom que é marchar! Vou marchar sobre todas as avenidas e que ninguém me aponte um microfone a perguntar-me porque marcho! Estou convocado! Lá estarei! Não exijam que escreva sobre o molhado! Reservo-me o direito de escrever apenas sobre o amor!
- Rom! Rom! Marchas comigo?!
- Rom! Rom! Porque só do amor pode nascer outro país!
- E onde é que vamos dia 11 de Fevereiro?!
- Rom! Rom!
... e é por isto que eu amo esta mulher e agora mesmo vou comer mais uma bolota! E, como inofensivo bloguer, confesso que já não me lembro porque é que o título do poste é este: Porcos dos porcos tão porcozinhos!
Vou tentar:
- Mais difícil do que eu vir a ter uma reforma de dez mil euros, será eu vir a queixar-me de que uma reforma de dez mil euros não me chega para as despesas! Não me meto na droga nem deixo falar o porco que está dentro de mim!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Tratem-me da saúde

A minha carteira tem cartão de condução, cartão do contribuinte,  cartão de eleitor, cartão do cidadão,  cartão de residente, cartão do banco, cartão de desconto, cartão de cliente, cartão de ponto, cartão jovem, cartão do sindicato, cartão da associação, cartão do clube, cartão de utente, cartão de saúde!... Eh tanta coisa que eu sou!...Serei eu um boneco de cartão?!
Depois de aparentemente ter enlouquecido, de ter perdido o emprego sem direito a subsídio, fiquei perdido! Sei bem onde tenho a carteira, desta vez não a perdi, ela é que me perdeu. A minha identidade rejeitou todos os cartões. Procuro-me e não me encontro! Já corri a estante, o quintal, os montes e vales das redondezas, a casa da Mariquinhas e, nada, não há sinais de mim! Se por acaso alguém encontrar um indivíduo com ventas de porco e pouco asseado, desnorteado sem centro, com ar desempregado, sem carteira, sem cartões, sem saúde e sem dinheiro, devo ser eu. Nesse caso, é favor contactar-me através do numero de telefone: 231 202 093.

Sem saber do meu paradeiro, dirigi-me ao Centro de Saúde. Achei muito estranho, estava tudo mudado, o balcão de atendimento, outros funcionários, etiquetas com preços por todo o lado... e atendeu-me uma senhora com um estranho soutien.
- Olhe minha senhora, eu concordo inteiramente com o princípio do ultilizador-pagador, se você fumou e contraiu cancro, se comeu muito toucinho e teve um à você, se andava na azeitona e caiu de uma oliveira, porque diabo hão-de os saudáveis pagar os seus descuidos!?  Um país não pode hipotecar a sua economia na prestação de serviços de saúde a quem não se cuida ou no prolongamento da vida de quem já nada pode dar à sociedade! Mas o meu caso é diferente, eu não estou doente por culpa própria! Foram os governos e as suas sociedades anónimas que me trataram da saúde e da identidade! Agora exigo que me informem do meu paradeiro, que me localizem, que identifiquem a minha situação, que me deixem viver sem cartões e que me atribuam um subsídio para a substituição das fitas coloridas do guiador da minha bicicleta!
- O sinhô é uma meda! Não pechebe nada! Isto  já não é um centlo de saúde! É uma loja de chineses!
- Ah é!? Se eu sou uma merda porque é que me comem todos os dias!? Querem cartões?!Querem identidades?! Para mim não existem chineses, nem pretos, nem brancos, nem audis, nem bicicletas! Existem apenas porcos e suinicultores!
E, dito isto, num impulso de rara lucidez, peguei num monte de cartões de embalagens que estavam atados à entrada do edifício e fugi com eles em cima do guiador da minha bicicleta.
Já estou melhor, vendi os cartões, fiz algum dinheiro com eles e ninguém viu um porco a andar de bicicleta! ...
- Ó Pistola, vou à rua ver se me encontro, tu não precisas de tabaco?! Dá-me ao menos um euro para eu pôr gasóleo na bicicleta!

...atendeu-me uma senhora com um estranho soutien.