quarta-feira, 7 de março de 2012

Há homens que não têm jeito nenhum para as mulheres

Em 1953 todos aqueles vales estavam rodeados de floresta, todas as propriedades eram limitadas por regatos, todos os campos eram cultivados. Nas imediações dos milheirais existiam sempre represas rodeadas de salgueiros, carvalhos e outros arvoredos. Era para aí que as mães mandavam os filhos brincar à hora do calor. Mesmo quando estes começavam a ganhar corpo para agarrar na enxada, naquela idade em que não se é uma coisa nem outra, ao fim duma leira de canseira, haveria sempre uma voz com mais poderes que mandava:
 - Vão lá agora brincar um bocadito!

Foi no cumprimento duma dessas ordens que os dois se viram a sós num daqueles recantos sombrios onde sempre brincaram. Passou a concha da mão pela água da represa e atirou sobre o corpo que começava a ser outro.
- Ai! Molhaste-me a mama!
- Molhei!? Ora mostra!

Abriu a blusa lentamente e exibiu com legítima vaidade só uma das duas. Não adianta descrever o que foi visto, toda a gente já viu! Enfim, a perfeição como ela se revela no corpo de qualquer rapariga, salvaguardando que a perfeição é sempre relativa e que não interessa aqui particularizar esse conceito aos olhos de quem viu. Aquela visão, aquele seio, vi-lo-ia a perseguir em toda a vida.

Quando, já barbado, deu pelo pai fugido para o Brasil, a irmã mais velha a dar lareira a um homem casado e a mãe, conformada, agarrada a todas as alfaias, determinou-se a dar caminho ao sonho e emigrou para a Austrália. Veio duas vezes curtas, a última em 78, visitar a mãe mas, por vergonha, medo, mania ou por acaso, não se encontrou com a irmã nem correu o povoado a rever velhas relações.

Voltava agora com 74 anos, com duas malas, num táxi que tacteou lentamente a estrada asfaltada coberta de folhedos, entre silvados e a paisagem cruel dos campos ao abandono: a primeira casa do vale, abandonada, depois, frente a frente, duas com poucos sinais de vida, mais à frente ”uma casa estilo maison com janelas à la fenetre”, residência de férias pela aparência, um pouco mais adiante uma outra em ruínas e, ao fundo, a casa do seu destino.
- Foi aqui que eu nasci!
- Não me diga que vai ficar aqui?!
Anotou o número de telefone do taxista e despediu-se. Olhou, apreciou, sentiu saudade, alegria, tristeza, reviveu. À parte as ervas, as silvas e as teias, tudo deveria estar como a sua mãe deixou quando morreu, fazia poucos anos.
A irmã, que pelo remetente da carta fazia vida lá para o norte, reclamara a sua presença para arrumar partilhas. Ele poderia até ficar definitivamente. Em terras de poucas mulheres havia feito vida apenas com mulheres da vida - diga-se que vira muitos mas nunca mais vira um igual ao da represa - não fizera família e bem que, como homem livre e aventureiro, lhe poderia dar para viver ali o resto dos seus dias.
Perguntava a si próprio o que ganhara em sair dali. Poderia pagar a sua longa ausência à memória da sua mãe, voltando a cultivar os campos, reconstruindo a casa e os anexos, restaurando ferramentas e utensílios – afinal de contas, em tudo o que via, sentia a presença e a energia dela.

Deu volta ao pátio e à casa e arrombou a porta apodrecida. Foi duro entrar, foi duro olhar cada prateleira, cada objecto e a lareira ainda com as cinzas da última fogueira. Já esperava não encontrar condições para pernoitar. Precavera-se com equipamento de campista para os primeiros dias. Antes de dar mais tempo a recordações, a projectos e trabalhos de limpeza teria de arranjar terreiro e montar a tenda. Estava agachado na preparação das estacas quando ouviu um carro de mão.
Aproximou-se. Depois dos primeiros instantes de reconhecimento, surpreenderam-se mutuamente. Cumprimentaram-se. Fizeram a conversa da ocasião. Estou eu, viúva, e a minha cunhada mas lá em baixo no lugar ainda vive muita gente!
- Por aqui passam-se os dias, as horas não. Ao menos hoje vai lá comer a casa. Alguma sopa se há-de arranjar!

Durante a ceia as duas mulheres não pararam de contar e fazer perguntas. Acabariam por ficar só os dois na despedida e, ao levantar-se, o evitável aconteceu: um copo de água despejou-se na blusa negra de Rosalina.
- Mostra-me a outra!
- Júlio!!!
Para quem nunca teve jeito para abordar mulheres, teria sido apenas mais um estalo. Aconteceu que o mesmo não criou desculpas, nem ressentimentos mas apenas uns pares de gargalhadas, sinal que ambos ainda estavam a tempo de poder começar. Quando se dirigiu à porta e olhou para trás para dizer boa noite, viu exibir-se a blusa entreaberta e sentiu de novo a juventude.
- Ainda bem que não me pediste para te mostrar a mesma!
Joaquina já devia estar a dormir. Mesmo que espreitasse pela janela nunca iria acreditar no que veria, os dois num beijo.
- Não te desejo pela perfeição, o teu sorriso é e será sempre belo nem que te caiam os dentes!

quinta-feira, 1 de março de 2012

DEMOlição do conceito de poesia

Porque estou farto de crise; porque, como realeza, me apetece sair da realidade; porque a corte precisa da cultura do banal; porque um comentador do reino ousou, há duas ou três mensagens atrás, desafiar a intocabilidade do Rei sem sequer usar o devido trato de Majestade; porque me apetece falar de poesia; porque sim - declaro aberta a discussão palaciana súbdita ao tema: "o que é poesia?"

Comecei os meus estudos de poesia na análise académica das poesias de amor, escárnio e maldizer dos meus pares medievais e pergunto: aquelas bacoradas do Dinis são poesia?!
Andei de desafio em desgarrada nos montes e tabernas dos poetas populares e pergunto: fazer rimas, é poesia?!
Vivi a poesia do amor de mãe, do canto das aves, das árvores e dos vales, das pessoas bonitas e pergunto:
será a natureza poesia ou vice-versa?!
Estudei os ditos "grandes poetas" portugueses e estrangeiros e fiz deles companhia de cabeceira, cantei, chorei, amei, enlouqueci com eles. De os entender nos seus múltiplos entendimentos, desmultipliquei-me e desentendi-me, desentenderam-me, dei comigo perdido no meio de todas as palavras e de nenhumas sensações, rejeitado pelo senso comum de maus leitores.
Por isso não me peçam definições de poesia, não me ditem regras, não me digam o que é e o que não é. A poesia é tudo e não é nada! Quereis poetas dos livros, comprai-os! Quereis poetas do povo, ide às tabernas! Quereis sentir o canto da natureza, saí da cidade! Quereis sentir as ruas versejando, saí do campo! Quereis conhecer o maior poeta de todos os tempos, embora não reconhecido por ninguém, leiam-me!

Na tropa eu tive a alcunha d" O poeta". Parece que ainda ouço as palmas do pelotão quando acabei de recitar este poema no jantar da passagem a pronto:

"Estive na cidade dos homens azuis,
fica no céu. Aquilo é que são homens!
Mas eu não os vi, porque, o céu também é azul.

Gostava de lá voltar com todo o respeito
que tenho pelo meu namorado
mas, o respeito que tenho pelo meu namorado,
recusa-se a ir a pé!
Foi por isso que roubei uma bicicleta a um empregado da câmara municipal,
fui presa, ainda não percebi porquê!

Os homens azuis são como eu nunca os vi,
são como o meu namorado...

(poema oferecido pela minha namorada ao seu namorado)"

Cuidado com os homens que são dados como poetas pelos soldados!
Este é o melhor poema que fiz em toda a minha vida! E, se este não fôr o melhor poema que leram em toda a vossa vida, vós estais do lado errado da poesia! Se para vós, isto nem sequer é poesia, então meus caros, vós sois lúcidos demais para a alma do poeta! Nem no epitáfio merecereis um verso meu! 

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Quarto 24

À medida que crescia a barriga de Tânia, crescia também a sua melancolia e a de Carlitos; à medida que evoluíam de tom as discussões entre dona Graça e Virgolino, notava-se um mau estar de relação à beira do colapso; à medida que se tornavam mais confusas as relações entre mim e Gina, tornava-se-me cada dia mais claro que chegara a hora de eu bater com a porta. Também eu andava desacorçoado, começava a perceber que estava a mais.

Pressenti a despedida quando, uma noite esvoacei pela cidade com Virgolino, esse desencaminhador, até chegar a casa com uma de caixão à cova. Num estado lastimável, encontrei-me a sós com a sanita. Sentava-me para obrar, apetecia-me vomitar, virava-me e enfiava a cabeça na sanita e apetecia-me outra vez a outra coisa… andei ali às meias voltas e nada, nem dum lado nem do outro, nada saía!

Que noite mal passada. Pela manhã regressei à casa de banho para me recompor com uma chuveirada. Fechei a porta. Longe de mim imaginar que ia ali encontrar a razão que me levaria a decidir definitivamente abandonar o número sete. Não existiria motivo mais forte que pudesse justificar a minha determinação. Corri a cortina da banheira, lá estava, o motivo, a justificação, a razão. Nada que pudesse ser explicado mas algo que ficaria para mim como um segredo. O segredo que me libertou das minhas três mulheres. Nesse momento, percebi que deveria de existir mais vida para além daquele quarto com as paredes pintadas de vermelho e buraco de fechadura em forma de coração.
A banheira com um palmo de água e, ali estendido, indiferente a todas as regras e preceitos, um bacalhau de molho.
Pensei na tão apreciada cozinha de Dona Graça, acalmei-me pelo facto de só pontualmente ter comido lá em casa mas porra, era um bacalhau!... Como português, eu tinha um grande respeito pelo bacalhau, o bacalhau, esse símbolo da alma lusa!
- Tomo banho!?... Não tomo?!... Deixo estar o bacalhau?!... Não deixo?!... Penduro-o onde?! – hesitações que me faziam lembrar a situação que vivera durante a noite com outra peça dos sanitários.
E o bacalhau? Tomar banho com o bacalhau?
Pergunto ao leitor o que fazer perante uma situação destas? - Simples: quarto 24 FIM

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Gato por leitão

Falemos de gatos. Tenho encontrado com frequência blogues com fotos e mimos de gatos e gatas. Gosto de engatar na actualidade. A minha vizinha tem sete gatos que vagueiam entre a sua casa e a minha, de modo que nós já desistimos de reclamar propriedade aos gatos, são cá do sítio e pronto! Além de não incomodarem vão dando conta das cobras e dos ratos, respeitando o leitão e o cão que, por uma razão que só os pequenos sabem, se chama Gato - é um nome estranho para um cão mas nestas coisas de baptismos de animais é natural que sejam as crianças a escolherem os nomes!...

Lembro-me de ser jovem e sonhar com uma casa na floresta que fosse protegida por centenas de gatos. O destino acabou por me trazer aos porcos mas continuo a não resistir à felinidade da vida, das coisas e das pessoas.

“Poema de amor ” - ou de adolescência?! e pronto (digo) porco...

adoradores de cabrões seduziram a minha vara
nem moscas, nem pombas escaparam à ira do animal homem
acarinhei duros toucinhos
reflecti grandes projectos
fui vento velando sobre todas as famílias

eu majestático sentado em tronco d’oiro
à minha direita a serpente
à minha esquerda a gata

ainda hoje a serpente dança num bar no oriente
e a gata vagueia pelos muros da cidade

a serpente morrerá na guerra
a gata será atropelada

ainda hoje um mercador de capa negra
vive obcecado pelo poesia do indecente
como se o rosnar do tambor
ditasse a serenidade do combate
como se o calor vagabundo
matasse a nostalgia da noite

a serpente transporta os seus soldados
a gata agasalha a sua mente

(deixaste-me só...
nas mãos da serpente
deixaste-me apenas...
miando a inteligência das tuas palavras)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Discurso cruel

Dizem que temos de trabalhar mais e despediram-me?!

Mas vou ter um gestor por minha conta:
Segundo percebo, isto vai ser assim:  eu estou desempregado mas dou emprego a um gestor, depois arranjo emprego como gestor do meu ex-gestor que, entretanto, perdeu o emprego porque eu deixei de ser desempregado e assim sucessivamente enquanto nenhum dos dois emigrar para o Canadá.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Entrevista com Zeca Afonso



"O problema é que os direitos formais têm cada vez menos conteúdo prático. As liberdades formais não servem para nada se não tiverem consequências no dia a dia das pessoas. Teoricamente não há censura, não existe repressão policial ao nível da política, pode-se portanto falar, escrever, etc. Mas os mecanismos de coerção e discriminação permanecem. Mais subtis, mais pulverizados, mas permanecem. O que não quer dizer que eu não preferia a democracia formal ao fascismo, é evidente. Mas no fundo a liberdade é antes de mais nada a liberdade de se viver melhor. Por isso a liberdade para o doutor Mário Soares é uma coisa e para o tipo que está sem salários ou sem emprego ou sem casa é outra. Em quase toda a região de Setúbal há fome, mulheres casadas e raparigas prostituem-se para comer. Que sentido faz falar a estas pessoas da liberdade da democracia? Claro, há uma data de gente que vive melhor do que antes do 25 de Abril, mas à custa de clientelismos partidários e favores políticos que não afirmam propriamente os trunfos dum regime. (…)"
A entrevista na íntegra em: http://livratemundo.blogspot.com/

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Quarto 23

Quarto fechado. Hoje não há quarto. Perdi as chaves do quarto? Não, provavelmente foi Gina que as escondeu! Dificilmente as encontrarei e não sou moço de arrombar portas.
Espreito pelo buraco da fechadura em forma de coração. Vejo apenas o espelho do roupeiro. Odeio aquele espelho. A última vez que me fixei nele passei-me, eu e os meus sentidos, para o lado da imagem. Dei pelo meu físico no meio do quarto, de pernas a tremer e à minha espera. E eu, ao mesmo tempo contente por tamanha proeza e ao mesmo tempo, com pressa, com receio de não conseguir regressar. Saí da imagem do espelho ao fim de alguns instantes e fui para a cama mas não consegui dormir durante a noite com os meus pensamentos a cheirarem a naftalina.
Julgo que por detrás deste acontecimento estará o facto de alguns cigarros do Virgolino não terem marca.
Julgo que começa a transparecer, pela fluência do texto, mais um motivo pelo qual hoje o quarto está fechado.

Julgo que isto já deu o que tinha a dar! (Basta ver que os últimos parágrafos começaram por “julgo”). Esperava-se que o quarto descambasse em romance, em paixão, em sexo sobre sexo, em tragédia, em comédia, em diário, em história apaixonante – não deu nada disso e, por isso, deu nisto. Na incentivadora opinião dos estimados comentadores: foi um folhetim.

Só uma última espreitadela na história: Dona Graça era muito mais velha do que eu - tinha trinta e tal anos. Hoje, eu tenho muito mais do que isso, logo, a Graça era uma moça nova. Pena que na altura eu não tivesse idade para perceber isso.
“Oh tempo volta para trás
Dá-me tudo o que perdi
Tem pena e dá-me a vida
A vida que eu já vivi”


Isto não pode acabar assim: para a semana haverá mais quarto

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Alguém que explique ao Cavaco como é que se fazem os bébés

Crescei e multiplicai-vos. Multiplicai-vos e enchei a Terra. Foi por estas e por outros que abandonei o seminário! A convicção com que acatava o evangelho e as regras de obediência que a doutrina me ditava, fizeram-me abandonar os votos de celibato e castidade! A mancebia completou o desejo e trouxe com ela algumas interrogações:
- Porque não cumpriam os padres pregadores a ordem bíblica? Porque não deixou Cristo descendência? "Ouve o que eu digo e não olhes para o que eu faço", não era ditame suficiente para me convencer mas acabei por compreender, conhecendo eu bem o trato dos homens dos altares, que os mesmos não teriam muito jeito para criar. Por outro lado nos tempos do Outro, o JC, deveria ser claro para os mortais, que mais umas almas no planeta animariam a evolução da espécie.

Estamos agora no século XXI e a palavra de ordem continua a ser a mesma: "têm de fazer mais filhos!" E pasme-se, no planeta hiperpovoado, agora sim, a razão não poderia ser mais esfarrapada, hipócrita e egoísta: "são necessários novos contribuintes para sustentar o sistema da segurança social!"
De tempos a tempos, lá vem um "mosfet" com funções de governança, clamar ou anunciar medidas de apoio à maternidade e à paternidade. Na conferência ‘Nascer em Portugal’, Cavaco Silva convidou vários cientistas a apontarem soluções para que nasçam mais bebés. Eu explicava-lhe senhor Silva, como se fazem os bébés, mas como não temos a mesma educação, receio chocá-lo com a descrição dos actos em consequência dos quais aparecem novos portugueses! Pronto, isto é por "coisa e tal" como diz o meu puto!

Escárnio dos escárnios, estes senhores insistem na sua preocupação social, ao mesmo tempo que anunciam a inevitabilidade do fim daquilo a que ousaram chamar estado social; ao mesmo tempo em que assassinam os direitos que trabalhadores e famílias fizeram registar em décadas de luta; ao mesmo tempo em que legislam para penalizar a mãe ou o pai que falta ao trabalho para cuidar da saúde dos seus filhos; ao mesmo tempo em que desmancham abril qual porco em dia de matança, vêm com uma mão no microfone anunciar dar, aquilo que tiram com a outra.
Ninguém faz um filho por razões políticas mas pode usar-se um preservativo por razões sociais.
- Filho, vou fazer-te mas aos dezoito anos brasil contigo!?
- Filho, vou ter-te mas terás de crescer numa república sobre a presidência do senhor silva!?
- Filho, vou criar-te mas não poderás contar com um país que estima os seus filhos?! 
Ninguém pensa nisto quando decide a vida! Senhor Cavaco, os filhos não se fazem por regra de decreto nem se criam como os seus bem abonados afilhados! Os filhos, regra geral, nascem de desejos de dois e não por desejos de terceiros da silva ou promessas de mantos de pêlo de coelhos!
Creia, não vai ser pelo país que criásteis que vai deixar de ser bom nascer em Portugal! Nós vamos continuar a nascer mas não pelos seus estímulos! O senhor Silva é um anti-afrodisíaco! Isto para não utilizar uma linguagem mais portuguesa: "o senhor tira-nos tesão!"
... mas ainda sobra muita para a vossa impotência!

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Três males e um só remédio

Não é só o mal de estarem a dar cabo da economia nacional, alguns deles são suficientemente estúpidos para acreditarem que as coisas se resolvem assim. Não é só o mal de estarem a atirar milhares de portugueses para a pobreza, alguns deles são suficientemente insensíveis para resolverem a sua consciência com umas sopas. O mal, é que muitos deles, parecem agir com um certo ressentimento histórico, como se tivessem prometido ao avô que tanto sofreu com o 25 de abril:
- Um dia iremos recompor este país!...
Essa recomposição, formalizada em iniciativas políticas sempre dirigidas  aos direitos (privilégios e regalias -chamam-lhes eles com descaramento)  dos mais pobres, acontece encoberta pela ideologia da crise.
As vítimas perguntam ao fim da notícia de cada medida:
- Mas o que é que isto vai resolver?!
Falta-lhes perceber que isto não é só uma questão de políticas, há uma geração, filha de gente que adorou o Estado Novo, que está a ajustar contas com a revolução de abril. Perante estes factos, só há um remédio:
luta de classes!
Não, não são fascistas! São menos do que isso!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Nada cabrão

Nada me ocorre
Nada me tem
Nada me inspira
Nada me vem
Nada me leva
Nada me vai
Nada me educa
Nada me instrói
Ai que me dói
Estou muito mal
Crise nos ossos, na figadeira
Crise nos cornos, intestinal
Crise no cu, hemorroidal
Crise de diarreia
Crise financeira
Crise europeia
Crise nacional
Crise de emprego
Ai se eu te pego
Eu te devoro
Às vezes choro
Às vezes rio
Às vezes imploro
Às vezes vou
Ás vezes venho
Por vezes vou ao bar da Associação e digo sou
Eu que vos ouço a dizer que devia ser assim e assado
Eu que vos ouço a dizer que se devia salvar o estado
de abril que está ser roubado
E a malta acha que se deve revoltar
Mas nem sequer um passo de marcha
Nem ao menos um minuto de greve
Dizem que tem de haver revolução
Em cima de nós não
Cavaco é um cabrão
Que foi aqui chamado só por causa da rima
Tem um ar terno de parvo espertalhão
Este governo dói-me
Tanta estupidez, tanta resignação
Tanta afronta, tanto conformismo
Nada me dói, nada me pega
Ninguém me instrói
Há gritos na rua

Nada ela nua – pronto, estraguei o texto todo!
Não, ainda tenho mais um rima:
Lua

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Quarto 22

A partir do dia do Quarto 21, Gina passou a dormir no meu quarto. O divã polivalente da sala não estava em condições nem tinha enquadramento para servir em permanência as pernoitas da menina. Segundo as previsões da dona da casa, mais dia, menos dia, pelo andar da carruagem, as coisas desencarrilhariam e Virgolino teria de retomar o comboio para Fafe. Aquilo não era homem para se aturar por muitos dias. Por isso, sabendo que entre mim e Gina existia um entendimento de irmandade, pedia-me encarecidamente que “compreendesse” a situação e aceitasse o incómodo em nome da relação familiar que nos unia.
Eu sabia lá se éramos irmãos!? Pelas minhas contas, nem a proponente acreditava nisso! Ela, senhora de olho, deitava a filha na cama ao lado da minha mas, certamente, que tinha alguma na fisga: “este rapaz tem futuro… pode ser que… bem conheço os seus apetites… não resiste a certas cheiros e a certas curvas…”
Enfim, Dona Graça colocava-nos aos dois no mesmo quarto, como quem põe dois passarinhos na gaiola e aguarda que estes acasalem. Isto era eu a pensar!
Na prática, Gina saíra-me muito difícil. Foi já contado de soslaio que, ocasionalmente, se geravam algumas humidades entre os dois mas, no quarto do humilde hóspede, as investidas acabavam sempre em estaladas desconfortáveis ou em ameaças de “eu vou dizer à minha mãe!”
Para animar ainda mais a luta que travávamos, por vezes, enquanto eu estudava, Gina abeirava-se-me nas costas da cadeira, fazia-me umas massagens no pescoço, enfia-me as mãos pelo peito abaixo, eu levantava-me, deitávamos sobre a cama e chegados a um certo ponto, lá estava o pobre estudante vitimizado por um dos desfechos relatados no parágrafo anterior. Outras vezes o contrário, avançava eu com as minhas mãos e os meus trejeitos mas era sempre o mesmo o fim do filme.
Para compor ainda mais a luta que travávamos, todas as noites se ouviam, dos dois quartos dos dois casais vizinhos – para quem não se lembra: Graça e Virgolino, Tânia e Carlos – a actividade de leitos que cumpriam a sua função mais nobre.
Era o “eu” mediterrânico que estava a ser posto em causa. Ninguém acreditaria, nem a minha santa mãe se o soubesse, que no meu quarto dormia uma rapariga e que eu nada! …
Pensamentos contraditórios assolavam-me o desejo e a cabeça: nem Gina era para mim nem eu para ela, para quê insistir? Mas que sentido, que razão, que destino nos fazia aos dois partilhar um quarto tão exíguo?! E depois, verdade seja dita, Gina sabia equilibrar o quotidiano com os ingredientes próprios de uma relação de irmãos.
Ultrapassou as marcas na noite em que à luz ténue do visor do rádio, já os dois em posição de adormecimento, me fez perceber, intencionalmente, que desenvolvia uns movimentos de auto-satisfação.
Levantei a cabeça como quem pergunta “mas o que é que se passa para aí?!” e recebi resposta:
- Livra-te de saíres da tua cama?!
Lá aguentei, num terrível suplício, a provocação, para ouvir no final:
- Então Cabitche, gostaste? Fez-te algum efeito?!
Fiquei calado e calado adormeci envolto em pensamentos que nem conto porque qualquer um advinhará com facilidade. Que raio de rapariga aquela! Como é de lei, a dificuldade aguçava o apetite. Quer perante os da casa que conviviam com a situação, quer junto dos amigos e familiares que nem a sonhavam, uma caldeirada de sentimentos e pensamentos absorviam o meu ego masculino: orgulho da minha pureza, vergonha da minha impotência, a Gina quase irmã, a Gina quase mulher, o gostar e o feminino, o sexo cru e o amor…
Sei que a história ficaria mais composta se contasse que numa noite mais fria a provocadora se veio enfiar na minha cama, nos meus cobertores, em mim e sem grandes surpresas lá vencemos a pureza e demos cumprimento à inadiável iniciação. Mas isso nunca chegou a acontecer. Definitivamente, repito, nem Gina era para mim nem eu para ela.
(Na próxima semana o Quarto continua)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Fui e não te vi

Fui e não te vi porque eram muitos iguais a ti e a mim. Com certeza, se fossemos só os dois nos teríamos encontrado. Fui e não te vi porque não pudeste ir. Com certeza se pudesses terias ido e terias estado comigo. Fui e não te vi porque não te apeteceu ir. Com certeza que nunca irás perceber que estas coisas não vão por apetite. Fui e não te vi porque não estás para aí virado. Com certeza que já percebi que faz parte da minha luta acordar a tua consciência. Fui e não te vi porque estás do outro lado. Com certeza que ambos já percebemos que estamos nos lados opostos do campo de batalha.
Ir com muitos pés. Ver com muitos olhos. Sentir com muitos nervos. Lutar com muitos outros. Há lá coisa mais bonita de não nos sentirmos sós entre tantos iguais e encontrar um amigo que não se vê há tanto tempo?!

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Filha da puta da padeira

Quando eu reclamei que o pão tinha aumentado e me tinham cortado o vencimento, respondeu-me ela:
- Dê graças a Deus por ter emprego!
Quando eu me queixei por ter sido despedido e o pão ter subido, deu-me a resposta:
- Dê graças a Deus por ter saúde!
Quando eu chorei pela minha depressão e lamentei o preço do pão, consolou-me assim:
- Dê graças a Deus por estar vivo!
E perguntei então:
- E o que é que Deus me dá em troca?!
E não é que a puta da padeira, que parece mais nova que a mãe, e ainda por cima vende pão, me diz:
- Olhe! Coma bolota e não deixe que lhe cortem os carvalhos!
Ainda bem que os tenho! Mas não se têm desenvolvido muito porque apanham a sombra dos tomates e pepinos.

Que triste filme

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Ó classe média põe os pés no terreiro


Parece que a classe média está em apuros. Parece que está perdida! Que não encontra a sua consciência. Parece que este ano é difícil ir ao Algarve.
Chegaram a aceitar que o ensino podia não ser gratuito porque tinham dinheiro para pagar! Pensaram que a saúde publica era coisa de velhos e nunca exigiram pediatra no serviço de saúde porque tinham dinheiro para pagar! Gastaram um horror de dinheiro no dentista porque tinham dinheiro para pagar!
- Porque devo eu contribuir com os meus impostos para os transportes públicos se vou no meu carro para o emprego?!
Ressalve-se, ganharam alguma consciência ambiental, lamentaram os incêndios florestais e habituaram-se a ir levar o lixo ao ecoponto.
Também no que toca a política internacional estiveram contra Saddam e contra o Bush e acompanharam tudo do sofá.
Deixaram de votar. - São todos iguais! São todos uns corruptos! Eu vivo razoavelmente! Nada vai mudar! Isso de votar é coisa de quem pensa que isto muda! Mas para que raio isto havia de mudar!?
- Votar em quem?! PS?! PSD?! Um dos dois há-de ganhar e nenhum deles me há-de levar a casa com aquecimento, o carro cinzento, a playstation do puto nem o emprego onde sou muito bom nos objectivos!
Quando as coisas começaram a piorar, pensaram.
- Sócrates? Coelho? Isto é a crise internacional! Menos cem euros daqui, mais irs dali, eu aguento! Eles vão resolver isto! Pois se eles estão a fazer tudo o que os sábios da economia e os empresários de sucesso dizem! Isto vai passar!
Mas, entretanto, parece que isto não vai parar!
- Não é filho?! Já se nota! Parece que os direitos conquistados pelos teus pais estão a desaparecer na cartola do coelho! Parece que está a ser difícil pagares o crédito da carrinha e explicares aos teus filhos que o dinheiro não nasce na caixa multibanco! Já não tens a certeza se para o ano terás emprego, por isso tens de estimar o teu patrão! Nada de ondas!
- Talvez os sindicatos sejam importantes! ... – começas a pensar!
- Mas essa coisa de greves é coisa de maquinistas! ...
- Manifestar-me eu?! Não sou nenhum operário! E também, o que é que isso vale?! Nem sequer dá na televisão!

Tenho as mesmas dúvidas que tu! Entretanto, convenci-te a ir! Tenho os mesmo problemas que tu! Convenci-te a acreditar! Fomos! Vamos! A alegria de sentirmos que não estamos sós! A força de sentir a força que temos e a que podemos ter!
Lindo! Vai valer a pena! Põe os pés na terra em que nasceste! Vem cá atrás para tomarmos balanço e irmos todos juntos!

São deles os hotéis e os aviões.
São nossos as ruas e autocarros.
Saíste do sofá, vamos vencer!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Quarto 21

(Para perceber o que está para aqui a acontecer tem de correr os quartos precedentes)

Na esquadra apenas estavam mais dois polícias e, apesar de ignorantes em galões, percebemos rapidamente qual deles era o chefe. Sabíamos que a casa era bem conhecida entre eles, não só pelas rondas mas também pelas repetidas queixas da vizinhança, nada que não se tivesse sempre resolvido com umas chamadas de atenção. A calma e a maturidade com que Dona Graça respondia ao interrogatório, o menino bem comportado que eu, sem dificuldade, fazia aparentar, prometiam a resolução da intimidação policial. O “eu sou um pobre estudante que não estava habituado a beber” tocou, visivelmente, o tom militarizado do inquiridor. O pior é que o vestido de Verão do Virgolino convidava à graça e à graçola e não tardou que os polícias começassem a manifestar expressões de não acharem grande graça ao matulão. E, ao fim de umas trocas de gestos e palavras, passou-se toda a gente e o meu amigo acabou dentro da cela. Quando reconheceu o cenário, que lhe era tão familiar, ficou incontrolável. O tom da minha amizade e o coração de dona Graça acabaram por acalmar a demónio que se apoderara de Virgolino. Conformados os detentores e o detido, Virgolino teria de passar a noite na choça. Eu permaneceria junto dos agentes enquanto dona Graça fosse a casa buscar roupas decentes para o namorado e uns documentos.
Regressou passada meia hora. O castigado já estava calmo – não fossem os chuis aperceberem-se que estava numa situação de liberdade condicional.
- Façam favor de se apresentarem ambos, aqui, às oito da manhã. Se tudo correr como esperamos, libertaremos então o vosso amigo.
Fomos os dois abraçados rua além, divertidos com o acontecimento, temperando-o com uns comentários e gracejos, satisfeitos pelo encaminhamento do caso e dispostos a um desfecho em grande para aquela noite.
Chegados a casa, os convidados já haviam zorpilado, Tânia e Carlitos tinham a porta do quarto fechada e Gina, a quem a situação tinha tocado mais por ser mais nova, dormia na segunda cama do meu quarto.
- Quando vim cá a casa, acalmei-a e aconselhei-a a dormir no teu quarto. Esta sala está um caos, espero que não te importes! Amanhã arrumamos os despojos da festa!... Não me consigo esquecer do Virgolino! Só me apetece escrever-lhe uma carta.
Subimos a escada e entrámos ambos no quarto grande. Deu-me à mão a caneta e o bloco e começou a ditar:
Lininho, esta cama ainda cheira ao suor desta tarde. Ainda fazem ricochete, entre as paredes, os sons que juntámos…agora estás aí, enjaulado, qual pássaro feroz, qual toiro manso, a ouvir o ressonar dos teus vigilantes... faz de conta que és um gelado que eu pus no congelador… não se pode estar sempre a comer doces… agora apetece-me mais o bifinho rijo… sei que também gostas de assar o bifinho rijo mas não gostas de o comer…ainda bem, assim a nossa vida é muito mais harmoniosa…
Até amanhã meu Olá!”
A carta estendeu-se por duas ou três folhas e seria a prenda da libertação da manhã seguinte. O ditado foi interrompido a cada frase, por perguntas e risos, por festinhas e escravunços. Direi mais, desta vez o ditado foi tão vivido que não foi ditado, foi diálogo, foi risos, foi paixão, foi amor, foi poesia, foi vida, de tal forma que quando escrevia “Até amanhã meu Olá” dei pelo bifinho já tenro.
Traição?! Não! Nós pensámos permanentemente em Virgolino! Nós partilhámos com Virgolino! Nós dedicámos tudo o que escrevemos e fizemos ao Virgolino! Alguém ousará chamar traição à dignidade com que tratámos o Virgolino?!
Ah! Já sei! Dirão: mas ele não sabe! E por que haveria de saber? O melhor bem, muitas vezes, é aquele que se faz em segredo!...
Foi por Virgolino que, no dia seguinte, não fui às aulas. Às oito da manhã, com olhos de noite e carne bem, ou mal, passada, lá estávamos a recolher o nosso amigo. Dona Graça estendeu-lhe a carta mas ele não lhe deu importância e enfiou-a num bolso de trás das calças de ganga; a caminho de casa, às nossas perguntas dava respostas com uma ou duas palavras.
Entrámos na sala, tudo corria como o previsto, toda a gente dormia, era provável que desse para ocultar às meninas e ao Carlitos que o padrasto tinha passado a noite dentro. Dona Graça pôs-se a arrumar tudo e mais alguma coisa e nós, os homens, ficámos a petiscar uns restos e a abrir mais umas garrafas de cerveja. Valeu a ocasião para ouvir mais uns episódios da vida e dos sentimentos do cadastrado.
(Para a semana ainda haverá quarto)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Enquanto houver estrada

Era a última coisa que esperava que me acontecesse. Um tipo encontra um sítio bonito para viver e um puto engenheiro decide que é por aí que irá passar a estrada. Decidem então que o vale será cortado e cheio numa altura de dezoito metros. É muita terra, é muita pedra que tem de vir da serra para fazer a altura de um prédio de seis andares. Os primeiros andaram um ano, eram lá de cima de Viana. Ganhámos amizade com o do cilindro, com o da giratória, com o do catrapilo e com mais dois ou três dos camions. Quem anda perto da casa do Zé Luis tem de vir à adega dele e eles até levavam algum porque nas terras do verde, maduro é coisa rara e então palhete!... Faziam turnos para assegurar 24 horas de barulho. Dizia-me o Zé Luis:
- Isto é bom porque dá emprego à malta e negócio ao país. Já contabilizei: de dois em dois minutos descarrega um!...
De tanto trabalharem a empresa foi à falência e depois veio outra e outra e todas se enterraram no buraco do amaldiçoado vale. Mas há quinze dias a coisa mudou de cor. Todas as máquinas e camions são de cor laranja. Outra forma de trabalhar. Noites?! Está quieto! Hora de almoço com espaço para sesta.
- Que é isto? - Perguntei ao meu vizinho Zé Luis, criador de gado, apreciador de vinho e serrador.
- Ainda não reparaste?! São tudo matrículas espanholas, falam espanhol, dizem que onde eles se metem resolvem tudo num instante! Só vão trabalhar nos nossos trezentos metros. Os outros nunca mais daqui saíam! Agora é que isto vai! Pró verão tem de estar pronta! Ainda não falei com eles porque não sei falar com eles!
- Vamos lá! Eu sei dizer Buenas Tardes! Enche o jarro! Eu levo os copos!
Soubemos: trazem comida de Espanha para comer durante a semana, dormem em contentores, têm um camion cisterna que vai a Espanha buscar gasóleo para as máquinas e não gostam do nosso vinho! E veio de lá o meu amigo Zé Luis a rogar pragas a todos os espanhóis, a dar-me conhecimento que os de Viana foram para Angola e a reconhecer que isto não mexe com a economia do país! Mas lá no seu íntimo, o que o revoltava mesmo era o facto de não terem gostado do nosso vinho!
- Deixa lá! No dia em que isto abrir vamos os dois meter gasóleo a Espanha e comer uma caldeirada à Nazaré. Se não for para isso, para que raio nos deram cabo do vale?