Vai-te rir pró carvalho!
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Estou pascoado de todo
A mim ninguém me come! Sobretudo hoje, sexta feira santa! Não comam porco, comam coelho! Este blogue está pregado a uma cruz! Há-de ressuscitar um dia destes! Tenham paciência! O Rei há-de voltar! Não se deixem comer pelo coelho! Boa Páscoa a toda a fidalguia!
quarta-feira, 28 de março de 2012
O meu primeiro acto subversivo
76, o país acabava de comer a fome de si próprio. Para evitar os manuais escolares saídos da revolução, os padres e irmãos, lentes liceais, ditavam aulas de apontamentos infindáveis.
100 folhas A5 X 10 disciplinas X 14 alunos – 14000 folhas de conhecimento.
Já há alguns meses que, sob o meu entusiasmo liderante, a turma vinha assentando pormenores - a vingança servir-se-ia assim: no final do ano lectivo, realizadas as provas, faríamos de cada folha um barco de papel.
E assim fizemos durante um dia inteiro. Secretamente, dobrámos, redobrámos e acondicionámos a força naval. No dia seguinte avançámos sobre o rio e, num trabalho de horas, lançámos, uma a uma, cada embarcação ao destino da corrente. O efeito pretendido era que a enorme frota surpreendesse os transeuntes do centro da cidade, no troço onde as margens desaparecem amuralhadas para mostrar ao rio o poder do povo e fosse até, quem sabe, notícia da Voz do Domingo.
Cumprido o ritual da partida, num sítio onde o rio ainda era rio de margens verdes, corremos por aí abaixo, até à ponte da imagem dos postais, para apreciar o efeito e o resultado de tão grandioso feito, quer nas pessoas, quer no curso fluvial.
Demorou algum tempo até que chegassem os primeiros e, quando veio o grosso, contabilizámos o efeito do grande feito. A idade e o contentamento deram para uns saltos e uns agitamentos que não disfarçaram a autoria. Um velho que passeava e compreendeu, largou um riso; duas ou três crianças juntaram-se-nos; dois ou três peões sorriram.
Não rendido, um de nós ainda disse “devíamos ter feito antes um telefonema anónimo para o jornal!”
A partir daqui todos os meus actos subversivos foram secretos e consequentes - ou não tivesse eu aprendido com os espaços mentais que deixei livres por tanto conhecimento que deitei ao rio - lamentando apenas a perda daquele que, por ser mais valoroso, acabou por desaguar no oceano.
segunda-feira, 26 de março de 2012
No outro lado da luta
Este cartaz da JSD é porco, por isso o trago aqui. Pretende fazer passar a imagem que a juventude não tem direitos porque a geração mais velha os adquiriu para si; que se houver flexibilidade laboral os mais novos, porque mais novos, serão mais empreendedores e darão lugar aos velhos que só estão a ocupar lugar; que existirão oportunidades de emprego para os mais novos se os mais velhos forem para o desemprego. Novas soluções?! Não, nova ofensiva dos que estão do outro lado da luta!
Também porca a ideia de utilizarem na imagem os megafones, como se a sua voz também se ouvisse na avenida da liberdade e não, onde os seus velhos a amplificam exaustivamente - a televisão é deles, a rua é nossa! Os nossos direitos não são nossos, são de todos! A JSD é só de alguns.
domingo, 25 de março de 2012
sábado, 24 de março de 2012
O bilhete
Aos treze-catorze, duas ou três vezes por Verão, conseguíamos reunir as devidas autorizações familiares para irmos, de bicicleta, fazer os quarenta e tal quilómetros, de ida e volta, à nascente do Alviela, um dia de banhocas, sandes de atum com não mais que vinte escudos a cada um. Já mais crescidos e com rendimentos de biscate, com idêntica frequência, começámos a tomar o comboio para a Figueira. Fazíamos praia na esplanada da Sagres esbanjando em canecas e bivalves todos os valores líquidos do nosso suor, mandando umas bocas uns aos outros, uns piropos a quem merecia e, assim, nos divertíamos rudemente – nas apreciações que, por vezes, se topavam de alguns observadores não passávamos de um rapazes grosseirões e inofensivos de Trás dos Matos.
Foi num dos regressos destes dias que, depois de apearmos na estação das nossas bandas, a história se enredou.
Era norma da CP ter um funcionário à porta da estação a recolher os bilhetes dos passageiros. Por nenhuma razão, nem me dei ao trabalho de pôr a mão ao bolso e passei descontraído, entre a leva, sem entregar o meu bilhete. Aguardava cá fora quando me apercebi que havia bronca no cais entre os meus e o ferroviário de serviço. Voltei a passar a porta que dava para o cais para me inteirar das razões do chinfrim. O Gaio, rodeado pelo grupo, dizia: “ouça meu caro senhor, já lhe disse que não tenho o meu bilhete!”
- Nesse caso terá de pagar!
- Mas eu tirei bilhete só que não o tenho!
Fez-se-me logo a luz fácil.
- É meu amigo, viajámos juntos, fui eu que guardei os bilhetes, o bilhete dele está aqui!
Disse eu exibindo o meu bilhete, satisfeito por ter resolvido o problema com uma impunível mentira. Mas o Gaio tinha problemas.
- Não! Não! Não se acredite no meu amigo! Ele está a mentir-lhe! Esse bilhete não é o meu é o dele!
Risada geral, eu tentando arranjar uma cara de reacção, o ferroviário, multiplicando expressões de rosto começou a debitar sentenças enquanto o Gaio, repetidamente, afiançava a minha mentira. Estava o imbróglio montado não tardando, com o aquecimento, o final com fuga em debandada.
Só eu, do grupo, armado em rapaz sério e sereno, fiquei por ali tentando acalmar esfarrapadamente o zeloso funcionário, valeu-me o feito a toutiçada que parece que ainda hoje sinto, nunca tendo conseguido apurar para mim próprio se foi merecida ou imerecida.
Ainda hoje, quando a malta se junta, episódios semelhantes podem acontecer, juntos conseguimos ser ainda crianças, rapazes grosseirões – Vá lá! Reprovem-nos!...
Foi num dos regressos destes dias que, depois de apearmos na estação das nossas bandas, a história se enredou.
Era norma da CP ter um funcionário à porta da estação a recolher os bilhetes dos passageiros. Por nenhuma razão, nem me dei ao trabalho de pôr a mão ao bolso e passei descontraído, entre a leva, sem entregar o meu bilhete. Aguardava cá fora quando me apercebi que havia bronca no cais entre os meus e o ferroviário de serviço. Voltei a passar a porta que dava para o cais para me inteirar das razões do chinfrim. O Gaio, rodeado pelo grupo, dizia: “ouça meu caro senhor, já lhe disse que não tenho o meu bilhete!”
- Nesse caso terá de pagar!
- Mas eu tirei bilhete só que não o tenho!
Fez-se-me logo a luz fácil.
- É meu amigo, viajámos juntos, fui eu que guardei os bilhetes, o bilhete dele está aqui!
Disse eu exibindo o meu bilhete, satisfeito por ter resolvido o problema com uma impunível mentira. Mas o Gaio tinha problemas.
- Não! Não! Não se acredite no meu amigo! Ele está a mentir-lhe! Esse bilhete não é o meu é o dele!
Risada geral, eu tentando arranjar uma cara de reacção, o ferroviário, multiplicando expressões de rosto começou a debitar sentenças enquanto o Gaio, repetidamente, afiançava a minha mentira. Estava o imbróglio montado não tardando, com o aquecimento, o final com fuga em debandada.
Só eu, do grupo, armado em rapaz sério e sereno, fiquei por ali tentando acalmar esfarrapadamente o zeloso funcionário, valeu-me o feito a toutiçada que parece que ainda hoje sinto, nunca tendo conseguido apurar para mim próprio se foi merecida ou imerecida.
Ainda hoje, quando a malta se junta, episódios semelhantes podem acontecer, juntos conseguimos ser ainda crianças, rapazes grosseirões – Vá lá! Reprovem-nos!...
quinta-feira, 22 de março de 2012
quarta-feira, 21 de março de 2012
Esta semana tem dias
Na segunda feira foi Dia do Pai, ofereceram-me um pacote de sementes de arce japonês. O governo não disse nada e eu disse:
- Estes gajos sabem lá quem é o pai!
Na terça feira foi o primeiro dia de primavera e eu plantei as sementes de arce japonês. O governo não disse nada e eu disse:
- Estes gajos sabem lá o que é a primavera!
Hoje é quarta feira e constatou-se que o aumento de impostos fez descer a receita e os cortes orçamentais aumentaram a despesa. O governo não vê as coisas assim e eu disse:
- Estes gajos sabem lá o que andam a fazer!
Amanhã é quinta feira e não vou trabalhar porque há uma greve geral e o governo não vai dizer nada e eu direi:
- Estes gajos fingem não perceber mas percebem!
Na sexta feira vão ser comentadas fracas adesões e contabilizados inúmeros prejuízos e o governo vai dizer que a greve é um direito em democracia e eu vou dizer:
- Olha-me estes gajos a falarem de direitos e democracia!
No sábado vou a um comício e no domingo não vou à missa. A salvação só poderá vir da luta, não cairá do céu.
Podeis levar-me o salário, o pão, a dignidade mas honrarei sempre o exílio do meu pai e não desistirei da esperança numa nova primavera. Hoje trabalhei, amanhã vou fazer greve, depois de amanhã voltarei a trabalhar, no fim de semana irei estar com os meus amigos, companheiros, camaradas que a luta é feita de dias pequenos.
- Pai, olha a prenda que eu te dei!... Pai, olha o sol da primavera!... Pai, não quero ver o telejornal!... Pai, o que é uma greve?... Pai, sexta feira é último dia de aulas! ... Pai, onde vamos este fim de semana?
- Estes gajos não percebem nada do que é ter filhos a crescer!
domingo, 18 de março de 2012
Meu pai era peixe
Não me recordo de ter visto mais de duas linhas escritas pelo meu pai. Um recado na mesa da cozinha, umas contas de bicas de pinheiros e nada mais. Via-o escrever, de mãos trémulas como as que tenho, quando parávamos ali para os lados da Venda das Raparigas e ele preenchia um folha de um livro de impressos, qualquer prática obrigatória que mais tarde viria a evoluir para os actuais discos tacográficos dos camionistas.
Quando eu tirava Bom a Matemática dizia-se lá em casa, ou o próprio ou a mãe:
- Sais ao teu pai! Também era bom nos problemas!
Pelo que vi e pelo que me fizeram acreditar, vivi sempre convencido que quem escrevia as coisas bem era a mãe e que quem fazia bem as contas era o pai.
Quando o tempo de chuva e a idade de brincar me reduziam à pequena casa que era a nossa, eu vasculhava os armários e as gavetas, com esperança que a curiosidade me oferecesse alguma coisa para me entreter. Afinal de contas a casa também era minha, eu tinha o direito de saber tudo o que ela guardava.
Confesso-te agora pai que, quando a mãe propôs a compra de um fogão com forno para substituir o de dois bicos e tu disseste que não tínhamos dinheiro, eu tinha contado nesse dia as notas que estavam na caixa de sapatos e fiz as contas: aquilo dava para um fogão e para mais de meia dúzia de garrafas de gás e ainda sobrava para uma garrafa de aguardente para as constipações!
Só não entendo porque é que tu e a mãe guardaram, ainda melhor do que o dinheiro, o maço de cartas do vosso namoro que só agora, pelas sortes, encontrámos. Não chorámos, não rimos, dissemos satisfeitos um a um, talvez em coro:
- Olha que o pai escrevia mesmo bem!
- Olha pai, sabes? Eu, se não houver ondas, não me afogo!
(estou à vontade para dizer estas coisas ao meu pai porque além de peixe, ele era fish|)
(estou à vontade para dizer estas coisas ao meu pai porque além de peixe, ele era fish|)
sábado, 17 de março de 2012
Arranjem-me um poema
Arranjem-me um poema, pode não ter rima, pode não ter métrica, pode ser de amor, pode ser do mar, pode ser do rio, arranjem-me um poema, pode ter sentido, não ter sentimento, pode ser da vida, pode ser do tempo, arranjem-me um poema nunca antes lido, que não tenha dono, que não tenha autor, que seja poema - inédito: tenho uma multa para pagar nas finanças, estou desempregado, não tenho móveis nem imóveis, pretendo apresentar valor em poemas, os bons amigos conhecem-se quando precisamos de versos, por certo o cobrador terá competências para converter poemas em valores, agora a sério, arranjem-me um poema, arranjei emprego como declamador mas o empresário não se quer sujeitar a direitos de autor e exige-me... inédito: arranjem-me um poema, é o meu dia de amanhã que está na mesa, preciso da poesia para comer, agora a sério, sou estudante do décimo segundo ano e a minha professora de português exige-me - inédito: quer o poema para domingo, arranjem-me um poema, pode não ter rima, pode não ter métrica, só tem que ter versos, agora a sério, amanhã vou participar num chá, uns levam bolos, outros levam tremoços, uns levam discos, outros levam livros, uns levam vinho, outros levam a namorada e eu comprometi-me a levar os óculos e um poema - inédito: se ninguém me arranjar um poema vou levar o meu gato - acham que os meus amigos vão aceitar?!
- que tem a dizer disto o meu amigo ciclomotor?! se alguém ler isto fará sentido aqui a palavra ciclomotor?!
quinta-feira, 15 de março de 2012
Para rir
Telefono regularmente para a PT a regatear a minha assinatura. Se não consigo de manso os meus intentos, passo à história:
- Minha senhora, se eu fôr à feira e comprar umas calças por 20 euros e a seguir me encontrar com um amigo que comprou umas exactamente iguais na mesma tenda por 15 euros...
- O senhor fica chateado!...
- Sim! Fico chateado porque o meu amigo foi mais esperto do que eu mas não reclamo! É normal! Faz parte da feira!
- E onde é que o senhor quer chegar?
- Mas se a seguir o meu amigo me contar que, exactamente pelos mesmos serviços que a PT lhe vende, paga muito menos que eu, eu fico pior que estragado e faço este telefonema de reclamação.
Se a conversa não resultar eu passo à ameaça de mudar de operadora?! Já não, porque no exagero da exaltação já obtive a resposta de "então mude" e sei bem que quem muda de moleiro não muda de ladrão!
Ameaço a senhora com a gravação da conversa, com a sua difusão nas redes sociais, e explico-lhe o que é ética de empresa e passo da ética ao palavrão e então a senhora:
- Compreendo a sua exaltação, nós vamos analisar o seu caso e contacta-lo-emos!
O que me revolta na ética da Sonae, são aquelas campanhas de arredondamentos, do rico belmiro fazer caridade com a mão dos seus pobres clientes, em que eu pergunto ao caixa quantas horas trabalha e quanto ganha e antes dele responder puxo dum euro e digo "se fôr para si, tudo bem!".
Quanto à ética da EDP, se precisarem de saber qual é, perguntem ao Catroga.
porque surgiu hoje esta notícia? que instituto de investigação é esse que mede ética? quem manda nisto tudo? admitamos que tudo isto é verdade - o que pensar do mundo?
sábado, 10 de março de 2012
Salvé ó blogosfera
A evolução trouxe-nos a roda, a máquina a vapor e o transístor. A informação teve a pedra, a imprensa e a internet. A democracia perece no voto, acontece agora na blogosfera!
O voto é determinado em função de técnicas de propaganda, de preconceitos, de impulsos de crença, aplauso ou rejeição.
Ler e escrever na blogosfera é um acto de cidadania acessível a muitos. Do voto ao acto de estar presente no ciberespaço vai um salto histórico que determinará profundas alterações políticas e sociais. Elas estão aí, podemos conhecer todas as opiniões e não só aquelas que os meios de comunicação nos querem mostrar, podemos cantar com todos os poetas e não só com aqueles que respeitam a gramática e a moral, podemos manifestar a nossa achega e não nos limitarmos à singeleza do boletim de voto.
Na blogosfera gritam agora vozes historicamente silenciadas, viajam diariamente os que acordaram do tédio das leituras do romance do pivot ou da televisão feita à medida de compulsivas audiências.
Tomara que não acordem os atingidos e que não descubram desejadas censuras electrónicas. Nós aqui estamos, nem de lá nem de cá, aqui!
Confesso que me dão um gozo incrível a fluidez destas andanças! Todos os dias descubro novos blogs, inocentes e desinteressantes, de clique em clique encontro blogs de registo e de eleição! Sempre que posso escrevo coisas inocentes e desinteressantes que para mim, contudo, não o são!
Aqui estou, abrindo a mão, levantando o dedo, distinguindo o dedo médio, apontando o dedo, deixando uma impressão!
Serve este post como satisfação devida a alguns amigos, de andar a gozar da liberdade de não me apetecer postar, nem ler, tenho andado de volta das batatas, das cebolas e dos leitões... voltarei em força quando me apetecer! Viva a liberdade! Viva a democracia! E que abram muitas vagas de Filosofia em Paris!
quarta-feira, 7 de março de 2012
Há homens que não têm jeito nenhum para as mulheres
Em 1953 todos aqueles vales estavam rodeados de floresta, todas as propriedades eram limitadas por regatos, todos os campos eram cultivados. Nas imediações dos milheirais existiam sempre represas rodeadas de salgueiros, carvalhos e outros arvoredos. Era para aí que as mães mandavam os filhos brincar à hora do calor. Mesmo quando estes começavam a ganhar corpo para agarrar na enxada, naquela idade em que não se é uma coisa nem outra, ao fim duma leira de canseira, haveria sempre uma voz com mais poderes que mandava:
- Vão lá agora brincar um bocadito!
Foi no cumprimento duma dessas ordens que os dois se viram a sós num daqueles recantos sombrios onde sempre brincaram. Passou a concha da mão pela água da represa e atirou sobre o corpo que começava a ser outro.
- Ai! Molhaste-me a mama!
- Molhei!? Ora mostra!
Abriu a blusa lentamente e exibiu com legítima vaidade só uma das duas. Não adianta descrever o que foi visto, toda a gente já viu! Enfim, a perfeição como ela se revela no corpo de qualquer rapariga, salvaguardando que a perfeição é sempre relativa e que não interessa aqui particularizar esse conceito aos olhos de quem viu. Aquela visão, aquele seio, vi-lo-ia a perseguir em toda a vida.
Quando, já barbado, deu pelo pai fugido para o Brasil, a irmã mais velha a dar lareira a um homem casado e a mãe, conformada, agarrada a todas as alfaias, determinou-se a dar caminho ao sonho e emigrou para a Austrália. Veio duas vezes curtas, a última em 78, visitar a mãe mas, por vergonha, medo, mania ou por acaso, não se encontrou com a irmã nem correu o povoado a rever velhas relações.
Voltava agora com 74 anos, com duas malas, num táxi que tacteou lentamente a estrada asfaltada coberta de folhedos, entre silvados e a paisagem cruel dos campos ao abandono: a primeira casa do vale, abandonada, depois, frente a frente, duas com poucos sinais de vida, mais à frente ”uma casa estilo maison com janelas à la fenetre”, residência de férias pela aparência, um pouco mais adiante uma outra em ruínas e, ao fundo, a casa do seu destino.
- Foi aqui que eu nasci!
- Não me diga que vai ficar aqui?!
Anotou o número de telefone do taxista e despediu-se. Olhou, apreciou, sentiu saudade, alegria, tristeza, reviveu. À parte as ervas, as silvas e as teias, tudo deveria estar como a sua mãe deixou quando morreu, fazia poucos anos.
A irmã, que pelo remetente da carta fazia vida lá para o norte, reclamara a sua presença para arrumar partilhas. Ele poderia até ficar definitivamente. Em terras de poucas mulheres havia feito vida apenas com mulheres da vida - diga-se que vira muitos mas nunca mais vira um igual ao da represa - não fizera família e bem que, como homem livre e aventureiro, lhe poderia dar para viver ali o resto dos seus dias.
Perguntava a si próprio o que ganhara em sair dali. Poderia pagar a sua longa ausência à memória da sua mãe, voltando a cultivar os campos, reconstruindo a casa e os anexos, restaurando ferramentas e utensílios – afinal de contas, em tudo o que via, sentia a presença e a energia dela.
Deu volta ao pátio e à casa e arrombou a porta apodrecida. Foi duro entrar, foi duro olhar cada prateleira, cada objecto e a lareira ainda com as cinzas da última fogueira. Já esperava não encontrar condições para pernoitar. Precavera-se com equipamento de campista para os primeiros dias. Antes de dar mais tempo a recordações, a projectos e trabalhos de limpeza teria de arranjar terreiro e montar a tenda. Estava agachado na preparação das estacas quando ouviu um carro de mão.
Aproximou-se. Depois dos primeiros instantes de reconhecimento, surpreenderam-se mutuamente. Cumprimentaram-se. Fizeram a conversa da ocasião. Estou eu, viúva, e a minha cunhada mas lá em baixo no lugar ainda vive muita gente!
- Por aqui passam-se os dias, as horas não. Ao menos hoje vai lá comer a casa. Alguma sopa se há-de arranjar!
Durante a ceia as duas mulheres não pararam de contar e fazer perguntas. Acabariam por ficar só os dois na despedida e, ao levantar-se, o evitável aconteceu: um copo de água despejou-se na blusa negra de Rosalina.
- Mostra-me a outra!
- Mostra-me a outra!
- Júlio!!!
Para quem nunca teve jeito para abordar mulheres, teria sido apenas mais um estalo. Aconteceu que o mesmo não criou desculpas, nem ressentimentos mas apenas uns pares de gargalhadas, sinal que ambos ainda estavam a tempo de poder começar. Quando se dirigiu à porta e olhou para trás para dizer boa noite, viu exibir-se a blusa entreaberta e sentiu de novo a juventude.
- Ainda bem que não me pediste para te mostrar a mesma!
Joaquina já devia estar a dormir. Mesmo que espreitasse pela janela nunca iria acreditar no que veria, os dois num beijo.
- Não te desejo pela perfeição, o teu sorriso é e será sempre belo nem que te caiam os dentes!
domingo, 4 de março de 2012
quinta-feira, 1 de março de 2012
DEMOlição do conceito de poesia
Porque estou farto de crise; porque, como realeza, me apetece sair da realidade; porque a corte precisa da cultura do banal; porque um comentador do reino ousou, há duas ou três mensagens atrás, desafiar a intocabilidade do Rei sem sequer usar o devido trato de Majestade; porque me apetece falar de poesia; porque sim - declaro aberta a discussão palaciana súbdita ao tema: "o que é poesia?"
Comecei os meus estudos de poesia na análise académica das poesias de amor, escárnio e maldizer dos meus pares medievais e pergunto: aquelas bacoradas do Dinis são poesia?!
Andei de desafio em desgarrada nos montes e tabernas dos poetas populares e pergunto: fazer rimas, é poesia?!
Vivi a poesia do amor de mãe, do canto das aves, das árvores e dos vales, das pessoas bonitas e pergunto:
será a natureza poesia ou vice-versa?!
Estudei os ditos "grandes poetas" portugueses e estrangeiros e fiz deles companhia de cabeceira, cantei, chorei, amei, enlouqueci com eles. De os entender nos seus múltiplos entendimentos, desmultipliquei-me e desentendi-me, desentenderam-me, dei comigo perdido no meio de todas as palavras e de nenhumas sensações, rejeitado pelo senso comum de maus leitores.
Por isso não me peçam definições de poesia, não me ditem regras, não me digam o que é e o que não é. A poesia é tudo e não é nada! Quereis poetas dos livros, comprai-os! Quereis poetas do povo, ide às tabernas! Quereis sentir o canto da natureza, saí da cidade! Quereis sentir as ruas versejando, saí do campo! Quereis conhecer o maior poeta de todos os tempos, embora não reconhecido por ninguém, leiam-me!
Na tropa eu tive a alcunha d" O poeta". Parece que ainda ouço as palmas do pelotão quando acabei de recitar este poema no jantar da passagem a pronto:
"Estive na cidade dos homens azuis,
fica no céu. Aquilo é que são homens!
Mas eu não os vi, porque, o céu também é azul.
Gostava de lá voltar com todo o respeito
que tenho pelo meu namorado
mas, o respeito que tenho pelo meu namorado,
recusa-se a ir a pé!
Foi por isso que roubei uma bicicleta a um empregado da câmara municipal,
fui presa, ainda não percebi porquê!
Os homens azuis são como eu nunca os vi,
são como o meu namorado...
(poema oferecido pela minha namorada ao seu namorado)"
Cuidado com os homens que são dados como poetas pelos soldados!
Este é o melhor poema que fiz em toda a minha vida! E, se este não fôr o melhor poema que leram em toda a vossa vida, vós estais do lado errado da poesia! Se para vós, isto nem sequer é poesia, então meus caros, vós sois lúcidos demais para a alma do poeta! Nem no epitáfio merecereis um verso meu!
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Quarto 24
À medida que crescia a barriga de Tânia, crescia também a sua melancolia e a de Carlitos; à medida que evoluíam de tom as discussões entre dona Graça e Virgolino, notava-se um mau estar de relação à beira do colapso; à medida que se tornavam mais confusas as relações entre mim e Gina, tornava-se-me cada dia mais claro que chegara a hora de eu bater com a porta. Também eu andava desacorçoado, começava a perceber que estava a mais.
Pressenti a despedida quando, uma noite esvoacei pela cidade com Virgolino, esse desencaminhador, até chegar a casa com uma de caixão à cova. Num estado lastimável, encontrei-me a sós com a sanita. Sentava-me para obrar, apetecia-me vomitar, virava-me e enfiava a cabeça na sanita e apetecia-me outra vez a outra coisa… andei ali às meias voltas e nada, nem dum lado nem do outro, nada saía!
Que noite mal passada. Pela manhã regressei à casa de banho para me recompor com uma chuveirada. Fechei a porta. Longe de mim imaginar que ia ali encontrar a razão que me levaria a decidir definitivamente abandonar o número sete. Não existiria motivo mais forte que pudesse justificar a minha determinação. Corri a cortina da banheira, lá estava, o motivo, a justificação, a razão. Nada que pudesse ser explicado mas algo que ficaria para mim como um segredo. O segredo que me libertou das minhas três mulheres. Nesse momento, percebi que deveria de existir mais vida para além daquele quarto com as paredes pintadas de vermelho e buraco de fechadura em forma de coração.
A banheira com um palmo de água e, ali estendido, indiferente a todas as regras e preceitos, um bacalhau de molho.
Pensei na tão apreciada cozinha de Dona Graça, acalmei-me pelo facto de só pontualmente ter comido lá em casa mas porra, era um bacalhau!... Como português, eu tinha um grande respeito pelo bacalhau, o bacalhau, esse símbolo da alma lusa!
- Tomo banho!?... Não tomo?!... Deixo estar o bacalhau?!... Não deixo?!... Penduro-o onde?! – hesitações que me faziam lembrar a situação que vivera durante a noite com outra peça dos sanitários.
E o bacalhau? Tomar banho com o bacalhau?
Pergunto ao leitor o que fazer perante uma situação destas? - Simples: quarto 24 FIM
Pressenti a despedida quando, uma noite esvoacei pela cidade com Virgolino, esse desencaminhador, até chegar a casa com uma de caixão à cova. Num estado lastimável, encontrei-me a sós com a sanita. Sentava-me para obrar, apetecia-me vomitar, virava-me e enfiava a cabeça na sanita e apetecia-me outra vez a outra coisa… andei ali às meias voltas e nada, nem dum lado nem do outro, nada saía!
Que noite mal passada. Pela manhã regressei à casa de banho para me recompor com uma chuveirada. Fechei a porta. Longe de mim imaginar que ia ali encontrar a razão que me levaria a decidir definitivamente abandonar o número sete. Não existiria motivo mais forte que pudesse justificar a minha determinação. Corri a cortina da banheira, lá estava, o motivo, a justificação, a razão. Nada que pudesse ser explicado mas algo que ficaria para mim como um segredo. O segredo que me libertou das minhas três mulheres. Nesse momento, percebi que deveria de existir mais vida para além daquele quarto com as paredes pintadas de vermelho e buraco de fechadura em forma de coração.
A banheira com um palmo de água e, ali estendido, indiferente a todas as regras e preceitos, um bacalhau de molho.
Pensei na tão apreciada cozinha de Dona Graça, acalmei-me pelo facto de só pontualmente ter comido lá em casa mas porra, era um bacalhau!... Como português, eu tinha um grande respeito pelo bacalhau, o bacalhau, esse símbolo da alma lusa!
- Tomo banho!?... Não tomo?!... Deixo estar o bacalhau?!... Não deixo?!... Penduro-o onde?! – hesitações que me faziam lembrar a situação que vivera durante a noite com outra peça dos sanitários.
E o bacalhau? Tomar banho com o bacalhau?
Pergunto ao leitor o que fazer perante uma situação destas? - Simples: quarto 24 FIM
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Gato por leitão
Falemos de gatos. Tenho encontrado com frequência blogues com fotos e mimos de gatos e gatas. Gosto de engatar na actualidade. A minha vizinha tem sete gatos que vagueiam entre a sua casa e a minha, de modo que nós já desistimos de reclamar propriedade aos gatos, são cá do sítio e pronto! Além de não incomodarem vão dando conta das cobras e dos ratos, respeitando o leitão e o cão que, por uma razão que só os pequenos sabem, se chama Gato - é um nome estranho para um cão mas nestas coisas de baptismos de animais é natural que sejam as crianças a escolherem os nomes!...
Lembro-me de ser jovem e sonhar com uma casa na floresta que fosse protegida por centenas de gatos. O destino acabou por me trazer aos porcos mas continuo a não resistir à felinidade da vida, das coisas e das pessoas.
“Poema de amor ” - ou de adolescência?! e pronto (digo) porco...
adoradores de cabrões seduziram a minha vara
nem moscas, nem pombas escaparam à ira do animal homem
acarinhei duros toucinhos
reflecti grandes projectos
fui vento velando sobre todas as famílias
eu majestático sentado em tronco d’oiro
à minha direita a serpente
à minha esquerda a gata
ainda hoje a serpente dança num bar no oriente
e a gata vagueia pelos muros da cidade
a serpente morrerá na guerra
a gata será atropelada
ainda hoje um mercador de capa negra
vive obcecado pelo poesia do indecente
como se o rosnar do tambor
ditasse a serenidade do combate
como se o calor vagabundo
matasse a nostalgia da noite
a serpente transporta os seus soldados
a gata agasalha a sua mente
(deixaste-me só...
nas mãos da serpente
deixaste-me apenas...
miando a inteligência das tuas palavras)
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Discurso cruel
Dizem que temos de trabalhar mais e despediram-me?!
Mas vou ter um gestor por minha conta:
Segundo percebo, isto vai ser assim: eu estou desempregado mas dou emprego a um gestor, depois arranjo emprego como gestor do meu ex-gestor que, entretanto, perdeu o emprego porque eu deixei de ser desempregado e assim sucessivamente enquanto nenhum dos dois emigrar para o Canadá.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Entrevista com Zeca Afonso
"O problema é que os direitos formais têm cada vez menos conteúdo prático. As liberdades formais não servem para nada se não tiverem consequências no dia a dia das pessoas. Teoricamente não há censura, não existe repressão policial ao nível da política, pode-se portanto falar, escrever, etc. Mas os mecanismos de coerção e discriminação permanecem. Mais subtis, mais pulverizados, mas permanecem. O que não quer dizer que eu não preferia a democracia formal ao fascismo, é evidente. Mas no fundo a liberdade é antes de mais nada a liberdade de se viver melhor. Por isso a liberdade para o doutor Mário Soares é uma coisa e para o tipo que está sem salários ou sem emprego ou sem casa é outra. Em quase toda a região de Setúbal há fome, mulheres casadas e raparigas prostituem-se para comer. Que sentido faz falar a estas pessoas da liberdade da democracia? Claro, há uma data de gente que vive melhor do que antes do 25 de Abril, mas à custa de clientelismos partidários e favores políticos que não afirmam propriamente os trunfos dum regime. (…)"
A entrevista na íntegra em: http://livratemundo.blogspot.com/
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Quarto 23
(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, o Quarto 11, o Quarto 12, o Quarto 13, o Quarto 14, o Quarto 15, o Quarto 16, o Quarto 17, o Quarto 18, o Quarto 19, o Quarto 20, o Quarto 21, o Quarto22, este quarto não faz sentido)
Quarto fechado. Hoje não há quarto. Perdi as chaves do quarto? Não, provavelmente foi Gina que as escondeu! Dificilmente as encontrarei e não sou moço de arrombar portas.
Espreito pelo buraco da fechadura em forma de coração. Vejo apenas o espelho do roupeiro. Odeio aquele espelho. A última vez que me fixei nele passei-me, eu e os meus sentidos, para o lado da imagem. Dei pelo meu físico no meio do quarto, de pernas a tremer e à minha espera. E eu, ao mesmo tempo contente por tamanha proeza e ao mesmo tempo, com pressa, com receio de não conseguir regressar. Saí da imagem do espelho ao fim de alguns instantes e fui para a cama mas não consegui dormir durante a noite com os meus pensamentos a cheirarem a naftalina.
Julgo que por detrás deste acontecimento estará o facto de alguns cigarros do Virgolino não terem marca.
Julgo que começa a transparecer, pela fluência do texto, mais um motivo pelo qual hoje o quarto está fechado.
Espreito pelo buraco da fechadura em forma de coração. Vejo apenas o espelho do roupeiro. Odeio aquele espelho. A última vez que me fixei nele passei-me, eu e os meus sentidos, para o lado da imagem. Dei pelo meu físico no meio do quarto, de pernas a tremer e à minha espera. E eu, ao mesmo tempo contente por tamanha proeza e ao mesmo tempo, com pressa, com receio de não conseguir regressar. Saí da imagem do espelho ao fim de alguns instantes e fui para a cama mas não consegui dormir durante a noite com os meus pensamentos a cheirarem a naftalina.
Julgo que por detrás deste acontecimento estará o facto de alguns cigarros do Virgolino não terem marca.
Julgo que começa a transparecer, pela fluência do texto, mais um motivo pelo qual hoje o quarto está fechado.
Julgo que isto já deu o que tinha a dar! (Basta ver que os últimos parágrafos começaram por “julgo”). Esperava-se que o quarto descambasse em romance, em paixão, em sexo sobre sexo, em tragédia, em comédia, em diário, em história apaixonante – não deu nada disso e, por isso, deu nisto. Na incentivadora opinião dos estimados comentadores: foi um folhetim.
Só uma última espreitadela na história: Dona Graça era muito mais velha do que eu - tinha trinta e tal anos. Hoje, eu tenho muito mais do que isso, logo, a Graça era uma moça nova. Pena que na altura eu não tivesse idade para perceber isso.
“Oh tempo volta para trás
Dá-me tudo o que perdi
Tem pena e dá-me a vida
A vida que eu já vivi”
Isto não pode acabar assim: para a semana haverá mais quarto
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