quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Estes tipos são uns cortes

De tanto cortarem a torto e a direito, estes cortes do governo, fizeram-me lembrar a história:

Estava um homem com um problema de saúde porque a pele das virilhas lhe aparecia azulada e foi ao médico. 
- Meu caro senhor, a solução para a sua doença passa por lhe cortarmos um testículo.
Como ainda ficava com outro aceitou mas, feita a intervenção, o problema manteve-se.
- Meu caro senhor, lamento, mas sendo um caso de tanta gravidade, não vejo outra solução senão cortarmos-lhe o outro.
Disse adeus ao seu desempenho sexual mas teve de conformar-se perante as certezas do especialista. O pior é que, mesmo castrado, o azul na pele continuou.
- Meu caro senhor, isto é um caso de vida ou de morte, garanto-lhe que o problema ficará resolvido se lhe cortarmos o dito cujo.
Ficou de rastos mas a sua vontade de viver era tanta que aceitou ficar sem a parte que o ditara homem. E não é que o problema persistiu! A tragédia teve desfecho na conclusão final do clínico:
- Peço imensa desculpa meu caro senhor! Está visto! O problema do azul tem origem nas calças de ganga!

Estes sábios da economia, estes cortes, nunca terão humildade para reconhecer os seus erros mas já deram provas que terão descaramento para dizerem o contrário daquilo que ainda ontem diziam a pés juntos. Passos Coelho dará uma conferência de imprensa para dizer apenas:
- Afinal o problema é das calças de ganga.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Quarto 13

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, o Quarto 11, o Quarto 12, este quarto não faz sentido)

O melhor seria mesmo eu encontrar um colega de quarto, estudante, antes que a senhoria me arranjasse para companhia alguém fora de estilo. Não seria fácil. A fama da casa já ia além do bairro e o racismo e o preconceito, naquele tempo, ainda existiam.
Jorge foi lá a casa para eu lhe emprestar uns apontamentos. Era do norte, já exercia no ramo mas faltava-lhe uma cadeira do primeiro ano para acabar o curso. Pedira dispensa de serviço para ver, se desta, conseguia o canudo de uma vez por todas. Partilharia o quarto comigo.
Eu, a mãe e as filhas estávamos na sala a ver a telenovela. O Jorge estava, como sempre, lá em cima no quarto a marrar na Física. Adalberta entrou em casa, disse um “boa noite” exausto e subiu as escadas visivelmente embriagada. Dorinha vinha com ela mas correu logo para o meu colo. Com uma troca de encolher de ombros e acenos de cabeça julgámos a mãe mulher-da-vida enquanto trocávamos com a filhota uns diálogos com graças de criança.
Passados alguns minutos ouvimos Adalberta, irritada, a falar alto ao cimo da escada:
- Deves-me cinco fodas! Deves-me cinco fodas paneleiro! Quero o dinheiro das cinco fodas picha-mole!
O interlocutor não o era porque mantinha o silêncio. Adalberta também não lhe deixava espaço para ele reagir, continuava a debitar palavras indicionárias e a atiçar a curiosidade dos ouvintes do piso de baixo.
Com que então o Jorge guardava-me segredos! Provavelmente, quando ficava em casa a sós com a Adalberta, aproveitava para molhar o prego mas pagar, está quieto!...
Dona Graça subiu a escada e pôs ordem na discussão. Adalberta teria de abandonar o quarto no dia seguinte!
Cá em baixo, imaginei com facilidade a reacção da queixosa mas era difícil ver a cara do caloteiro. As portas de ambos os quartos estariam abertas, num deles Adalberta estaria bufando sentada na cama, no outro estaria Jorge sentado à mesa, com o candeeiro aceso e os livros à frente e com cara de quê?!
Jorge, com vergonha de carneiro mal morto, também abandonaria o quarto. A situação agradava-me, sobretudo porque a cama ficaria novamente disponível para eu espalhar roupa, papéis e cassetes.
No outro dia, cada um a seu tempo, lá partiram os do mal parado fornico. Timidamente, e sem que alguém presenciasse, levaram os seus haveres e... partiram. Um pormenor: Adalberta, esqueceu-se de levar a Dorinha.
(Na próxima quarta há mais Quarto)

domingo, 11 de dezembro de 2011

Saudade

à memória de meu amigo Barros que foi e nunca se pronunciou

1
Oh! Como eu gostava de voltar à Realidade...
Tanto que eu gostava de voltar à Realidade...
- Mas como?! – Não tenho meio de transporte!
Tanto que eu gostava de visitar a campa de um tijolo,
meu amigo,
sepultado lá... na realidade!
Mas não posso, não tenho meio de transporte!

Era um bom tijolo. Chamava-se Barros,
era banco e mesa na minha pequena casa.
Um dia convidei Deus para jantar na minha pequena casa,
Barros não aguentou com a divindade e, desfez-se em pedaços
no coração da minha pequena casa.
Por isto, foi sepultado na Realidade...
2
-Não! Ninguém voltará!
Diz uma lei qualquer da “Constituição da Natureza”.
- Mas eu sou real, nasci lá!
- Real sou eu!
responde-me o rei, e eu pergunto:
- Quem mais ama a pátria que o Exilado?
e o Sol responde. O Sol responde a tudo.
É o maior amigo que tenho aqui onde estou,
no Mundo em que as estrelas do mundo real
são os candeeiros duma cidade.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Também sei brincar com números

Foi tudo medido: foram medidas as razões e a oportunidade dos feriados, medidos os prejuízos por eles causados e as mais valias da sua extinção e, feita a avaliação, tomaram-se medidas. Não sem antes terem sido negociados - com os trabalhadores não, que não são para aqui chamados  - mas com quem de direito:
o alto clero.
Esta gente quando toca a números, nunca se engana, sejam eles macro, micro ou apenas do género dois mais dois  são quatro:
- Vocês acabam com a Independência e com a República e nós acabamos com o Corpo de Deus e com a Nossa Senhora da Assunção! Também podemos acabar com a Conceição mas isso só em troca da Liberdade e do Trabalho!...
Estava eu, na cama, dez da manhã, a imaginar esta conversa entre o prelado e o governanta, sem remorso de ter faltado à liturgia mas com interrogações acerca dum dia de descanso, quando este pensamento me desfez de culpas e me confortou: lá no fundo, hoje, dia 8 de Dezembro, estou a festejar o 25 de Abril e o 1º de Maio. Bom negócio!

E porque também gosto de brincar com números, os meus pensamentos prolongaram-se para cálculos que não são para a matemática de quem não se senta na mesma classe. Vejamos:
4 feriados x 8 horas = 32 horas/ano
32 horas/ano x 2 milhões de trabalhadores = 64 milhões de horas por ano
64 milhões de horas a dividir por 52 semanas de 40 horas (por posto de emprego) = mais de trinta mil desempregados ao dispor da caridade e da precariedade.

E continuei na barba:
Mais 1/2 hora de trabalho por dia; mais 2,5 por semana (não para os funcionários públicos nem para muitos empresários com pouco para fazer ou com olhos na testa), para um milhão de trabalhadores; 2,5 milhões de horas por semana; para uma semana de 40 horas equivale a 62500 postos de trabalho.

Se acrescentarmos a estas calculadíssimas medidas, a facilitação dos despedimentos, teremos de aceitar que a principal preocupação destes senhores é o desemprego!

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Quarto 12

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, o Quarto 11, este quarto não faz sentido)
A minha relação com dona Graça era cada vez mais de confiança, ia muitas vezes aos meus conselhos e sentia necessidade de justificar, perante mim, as suas decisões e, além de tudo, era um coração aberto:
Encontrara na rua Direita, ao abandono, uma mulher angolana com uma filha de dois anos. O empecilho da criança, o rosto e o corpo pouco favorecidos, a má aparência, não lhe atraíam muitos homens ao negócio. Nem sempre conseguia dinheiro para a dormida na pensão.
Seria uma situação provisória; enquanto Adalberta não arranjasse um emprego nas limpezas e endireitasse a vida, ficaria a dormir, com a filhota, no quarto de Gina e Tânia e estas ficariam no quarto da mãe que tinha espaço a chegar.
Não fiquei muito contente com a situação, ainda mais desarmado pelo intocável coração de Dona Graça.
Adalberta não tinha horários! Chegava e partia quando calhava, no estado que calhava, quase sempre com a filha pela mão. Ao fim de algum tempo, com o à vontade que se foi gerando, começou a deixar a Dorinha à guarda de quem estivesse em casa. Chegou a bater-me à porta do quarto pedindo-me, desavergonhadamente, que lhe guardasse a filha enquanto ia tratar duns papéis no consulado. É claro que o consulado era outro. Prometia recompensar-me. Nas entrelinhas deixava perceber que poderia pagar com o corpo. Eu ficava a pensar no não-desejo, enquanto arranjava umas folhas e umas canetas para a criança se entreter e me deixar estudar.
Dorinha, de língua ainda presa, chamava-me Cabitche. Em poucos dias, toda a gente daquela casa me começou a chamar Cabitche – recordo este nome como a única alcunha da minha vida que senti colar-se-me!
A partilha da casa com Adalberta começou a desagradar-me, afinal de contas era uma puta e, era uma puta da rua Direita, daquelas que despacham uma aldeia inteira de rapazes da inspecção. Poderia tornar-se complicado se chegasse a ouvidos errados e acabava por dar argumentos à vizinhança que, frequentemente, durante a noite, telefonava para a polícia para vir ao número sete, que insinuava e fantasiava acerca do antro de pecado que não seria a nossa casa.
Chamei dona Graça ao meu quarto, sentámo-nos na beira da cama, conversámos sobre o assunto. Ela própria andava ajudando Adalberta a arranjar emprego e tudo estaria resolvido nas próximas semanas. Nessa altura pô-la-ia a andar, até porque precisava do quarto para as filhas.
- Estás com medo que a tua mamã saiba que Adalberta dorme no quarto ao lado do teu?!...
Queres que eu te ajude a escrever uma carta à mamã?...
Enquanto ironizava a minha preocupação encostou-me a cabeça aos seus peitos grandes e poderosos e começou a passar-me a mão pelo pêlo! Desta vez, tratou-me até ao fim como um menino!
(Na próxima quarta há mais Quarto)

domingo, 4 de dezembro de 2011

Colheita de 62


A malta nascida em determinado ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, naturais de algures, respeitam o primeiro sábado de Dezembro num encontro a que decidiram chamar "Colheita de 62".  São rapazes que cruzaram as mesmas professoras, as mesmas catequistas, o mesmo senhor prior; mancebos que se apresentaram à inspecção no Quartel de Santa Clara no mesmo dia, homens que nasceram da mesma infância e que não desistem de uma parte do que são. Às oito e trinta da manhã, no largo da Igreja, uma vez por ano lá estão, mais de vinte e menos de trinta, prontos para o pequeno almoço na taberna que resiste, enquanto aguardam a chegada da camioneta que só os mordomos do ano sabem para onde vai.
Desta vez calhou-me a mim ser mordomo e fechar a festa não me lembro a que horas. Por isso mesmo, hoje é dia de chá.

Só homens, pois então! Não temos culpa das nascidas não terem frequentado a mesma classe, não terem dado o nome para a tropa nem de usufruírem dos mesmos gostos de galhofa.

Foi mais um passeio de passear, de comer, de beber, de contar, de recordar mas sobretudo, foi um momento de voltar a ser - parece que ainda foi ontem! E foi, ontem mesmo, foi outra vez um ontem de há muitos anos. Vivas são as árvores que mantêm as raízes.
Por isso mesmo, hoje é dia de chá.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Quarto 11

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, este quarto não faz sentido)
Quando regressei das férias grandes a casa andava sorumbática. Gina e Tânia tinham chumbado, Virgolino não dava sinais de si e dona Graça fartava-se de trabalhar para manter a casa farta. Dona Graça bem me aconselhara a arranjar um colega para partilhar o quarto, caso contrário teria de arranjar ela um novo hóspede que poderia não ser do meu agrado. Cheguei a andar com um anúncio, na minha pasta de estudante, com os dizeres “Procura-se companheiro de quarto” mas só apareceram candidatos do sexo oposto o que, nas circunstâncias, não seria possível. Uma coisa era certa, ela precisava de mais uma renda para equilibrar o orçamento!
Uma noite cheguei tarde de noitada com uns amigos e as mulheres da casa já estavam na cama. Quando entrei no quarto, surpreendeu-me um intenso cheiro no ar, um vulto dormitando na cama do lado e um saco com umas roupas à entrada. Acordou e trocámos boas noites. Era o novo hóspede, um rapaz com meia dúzia de anos a mais que eu, com barba de três dias, sem sorrisos mas sem antipatias e, seguramente, com cara de quem não era estudante nem operário.
Puxou meio corpo para fora das mantas, ajeitou o travesseiro atrás das costas e ficou sentado ao cimo da cama enquanto eu, como mais velho no aposento, ditava partilhas de roupeiro e hábitos meus. Ele, com a cabeça acenava concordâncias enquanto enrolava uma mortalha. Quando acendeu o isqueiro e deu a primeira passa o cheiro a erva denunciou-o logo.
- Queres dar uma passa?
Acedi à oferta, reconhecendo nessa partilha o gesto necessário de quem sabe que, para se empreenderem certos relacionamentos, devem existir actos simbólicos. O boi bateu o suficiente para estarmos para ali, cada qual na sua cama, a falar por uma hora. Luís era dos subúrbios do outro lado da cidade e arrendara o bar do apeadeiro. Como o trabalho lhe exigia a abertura ao primeiro comboio da manhã e os transportes urbanos não o serviam para aquela hora, optara por um quarto na proximidade.
A minha amizade com o Luís nunca passou além duns charros e do quarto. Também nunca se envolveu na vida da casa. Era um rapaz pobre, sem estudos, sem conversas por aí além. Quando a máquina de café avariou, deixou de abrir cedo o bar, dizia que o lucro estava na bica e que, sem ela, não valia a pena abrir a persiana.
Duas ou três vezes convidou-me a ir até ao bar fazer-lhe companhia, aprendi a tirar imperial e café, aprendi a aviar. Quando fechávamos o tasco já estávamos bem aviados e partíamos para outros tascos, sempre a partir.
Dona Graça conhecia o cheiro, ou não fosse nascida e criada em Lourenço Marques. Entrou no quarto, fungou o nariz e desatou:
- Em minha casa não! Suruma não!
A autoridade de dona da casa e mulher de muitas armas estatelou Luís e deixou-me sem jeito. Enquanto ordenava ao fumador o arrumar de malas, deixava umas deixas de desculpas, a mim, nobre estudante, por me ter arranjado um companheiro depravado.
Embora incomodado com a cena, agradou-me o facto da cama do lado voltar a estar livre.
Voltaria a encontrar Luís quando ia à baixa, com um banco e uma pequena mesa, profissionalmente a plastificar cartões de documentos. Os meus acompanhantes ficavam sempre muito intrigados quando se confrontavam com a minha amizade com um plastificador de cartões.
(Na próxima quarta há mais Quarto)

sábado, 26 de novembro de 2011

O meu problema maior é o frigorífico

Sei que vou ser pobre. Estou preparado, já o fui. Não preciso de grandes coisas. Só do básico. De comida e companheiros. Quando eu tinha poucos anos o meu pai regressou de França, não suportava não viver em família. Os meus tios de sangue e os tios de vizinhança continuaram por lá. Os meus primos e a outra putalhada tinham bicicleta, aquecedor eléctrico, lápis caran d’ache, luzes no presépio, calça de bombazina mas não tinham pai nem tantos irmãos – porque o meu pai, como dormia todas as noites com a minha mãe...!

O meu trabalho dos próximos tempos vai ser preparar os meus filhos, que nunca foram pobres, para o que aí vem! Não quero que emigrem! Só tenho uma vida, quero-a viver com eles! Quero-os fazer perceber que um governo que aconselha os nossos jovens a emigrar, não é um governo de uma nação, é o governo de uma coutada! Quero que queiram lutar cá!...

Nos próximos anos, quando já não houver salários e serviços para cortar, quando não for possível escravizar mais ou despedir para sustentar a classe governante, as suas clientelas, os seus escudos policiais e os seus cobradores de impostos, vai ser necessário cobrar mais impostos até chegar ao ponto de nós, pobres contribuintes, termos de escolher entre pagar impostos ou comer.

Nessa altura, eles irão seguir o que há pouco tempo se passou a fazer na Grécia: os impostos serão colectáveis através da factura de electricidade. Quem não pagar fica sem energia eléctrica para o frigorífico.

Em 1975, um primo meu em missão militar em Moçambique, teve a oportunidade daí recolher e despachar um conjunto de electrodomésticos e mobília, abandonado por portugueses em fuga. Distribuiu o espólio pela família e à nossa casa coube um frigorífico e três divãs. Deixámos, nós irmãos, de dormir aos pares e mudaram os hábitos alimentares em casa.

A televisão só viria mais tarde por ser indispensável à frequência do meu ano propedêutico, contra vontade do meu pai, que tinha muito orgulho em mim por ser o único da aldeia com vontades para estudar mas que não aceitava que a televisão pudesse substituir os professores.

Ora eu, que ainda não dei um passo para adaptar o meu televisor à televisão digital terrestre porque me estou nas tintas para que me cortem o sinal; eu, cujo rendimento está vulnerável aos desmandos dum governo, feito para governar para outras classes, às troikas e outras agências do capitalismo mundial; eu, que tenho casa para dormir, curral para porcos e quintal para couves – e, por isso, exposto a impostos sobre a propriedade - declaro solenemente que estou preparado para tudo, menos para ficar sem o meu frigorífico que me guarda a carne de porco e as bebidas frescas.

Se me vierem a cortar a electricidade, talvez eu faça uma sociedade com o vizinho. Fazemos uma ligação da casa dele à minha, ele paga a factura e eu dou-lhe couves e chouriço. Talvez então, com outros como eu e como ele, nós comecemos a fazer um mundo à parte, fora da lei, sem euros, mas felizes como o meu pai e a minha mãe que nunca tiveram dinheiro mas dormiam juntos e trocavam haveres com os vizinhos. Talvez comece a haver outra forma de viver, talvez comece a acontecer uma sociedade socialista dentro desta e esta acabe de uma vez por todas. Não quero este governo, não quero este caminho. Se tenho de voltar a ser pobre que seja para mudar!
(que isto não seja entendido como resignação: eu fiz greve!)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Poema à greve

Dedico este poema, de Augusto Campos, a uma mosca anónima que me andou, todo o Grande Dia de ontem, a rodear a pocilga:


 E olhe, vou-lhe confessar uma coisa: ontem fiz greve porque não me apeteceu blogar e como, dizem, não faço nada nem escrevo nada de jeito, juntei as duas e fui fazer amor! E depois, no estado em que o país está, em que a maioria das coisas dá prejuízo a funcionar, se pararem em greve, só estão a ajudar a equilibrar as contas. Imagine a energia eléctrica que não se poupou com a greve desta pocilga! Primeiro em minha casa e depois, nos lares e empregos dos inúmeros leitores! Mas a senhora, em vez de estar  trabalhar no seu, andou todo o grande dia a rondar os blogues que fizeram greve ! E não me venha dizer que estou a ser demagogo! Eu estou a ser porco!
Um abraço ansioso por uma nova greve para não trabalhar e a ajudar a equilibrar as putas das contas

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Como será amanhã

Quarto 10

Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, este quarto não faz sentido)
Bem que a cama vazia do Zé Maria me dava jeito! Pousava lá roupa, papéis, servia de sofá… servia. Além disso, era a primeira vez na minha vida que experimentava um quarto só para mim.
Depois de um serão de televisão a sós com Tânia, ela subiu as escadas à minha frente e, quando chegou ao cimo, virou-se para trás, deu-me um beijo na boca, curto mas cheio. Depois entrou de recuo no seu quarto enquanto estendia na minha direcção o sorriso mais puro e perfeito que alguma vez me tinha dirigido, quando fechou a porta tive a sensação que o entalou.
Fiquei ali especado sem coragem para abrir a minha porta, que fazia canto com as outras duas. Não! Não podia insistir! Gina já dormia!... Podia bater à porta de Graça a perguntar-lhe se tinha alguma carta para escrever!... Não! Não tinha jeito!... Dei uma batida suave na porta para que Tânia compreendesse que eu ainda estava ali!
- Vai deitar-te João! Amanhã falamos!
Falar amanhã já não era mau. Mas nós falávamos todos os dias!... Entrei no quarto com pensamentos destes e por ali fiquei, entre sebentas, sem conseguir dormir. Tânia estava a dar-me a volta ao miolo. Seria paixão? Estava a entrar em terreno perigoso.
No dia seguinte faltei às aulas e fiquei sozinho em casa todo o dia a estudar. Senti a porta da rua a abrir, Tânia entrava a cantarolar – pouco dela! Passados minutos bateu-me à porta e entrou. Eu continuei de bruços na cama, com os olhos nos apontamentos como se continuasse a estudar. Ela sentou-se na outra cama e, com o lado infantil que ainda tinha, exclamou:
- Já estou de férias! Nhe! Nhe!
- Mas eu não! Agora deixa-me estudar!
- Queres que eu saia?
Dei meia volta, sentei-me na beira da minha cama e ficámos frente-a-frente em igual posição. A distância entre as duas camas permitiu que lhe agarrasse as mãos e que nos beijássemos permanecendo sentados. Saíram umas palavras de paixão, começámos a enrolar-nos e, quando já tudo acontecia, chega alguém a casa - pelos passos, Gina. Tânia arranja-se à pressa, Gina bate à porta, respondo:
- Um momento!... Volta mais tarde, tenho de estudar.
Gina abriu a porta e percebeu, percebeu e reagiu mal, reagiu mal e disse que ia contar à mãe. Explicações daqui e dacolá; que não tinha sido bem aquilo que estaria a pensar. Acabámos por andar uns dias nas mãos das pequenas chantagens de Gina.
Tânia ficou ferida. Por demais que eu tentasse gestos e oportunidades só conseguia um ou outro beijo sem vigor. Eu não tinha sorte nenhuma! Logo agora que estava apaixonado!
(Na próxima quarta há mais Quarto)

domingo, 20 de novembro de 2011

Pode quem não tem emprego fazer greve?!

Greve é a cessação colectiva e voluntária do trabalho realizada por trabalhadores. Por extensão, pode referir-se à cessação colectiva e voluntária de quaisquer actividades, remuneradas ou não, para protestar contra algo. 

A palavra origina-se do francês grève, com o mesmo sentido, proveniente da Place de Grève, em Paris, na margem do Sena, outrora lugar de embarque e desembarque de navios e depois, local das reuniões de desempregados e operários insatisfeitos com as condições de trabalho. O termo grève significa, originalmente, "terreno plano composto de cascalho ou areia à margem do mar ou do rio", onde se acumulavam inúmeros gravetos. Daí o nome da praça e o surgimento etimológico do vocábulo, usado pela primeira vez no final do século XVIII.
(Wikipédia)
Protesto - eis a essência da greve! Greve - eis uma forma legal de protestar colectivamente! Colectivamente - eis uma razão que dá à Greve a força de ser a forma de protesto por excelência.
Podem existir outras, eu estarei lá e nem sequer estarei preocupado com a legalidade! Exigirei apenas que expressem força e união.

Numa greve geral eu não exijo de mim apenas a perda de um dia de salário, um dia sem trabalho:
Quero a companhia da senhora do bar e, por isso, não vou ao café.
Quero a companhia da mulher do pão e, por isso, vou comer torradas.
Quero a companhia da rapariga da tabacaria e, por isso, não compro o jornal.
Quero a companhia da rapariguinha feirante e, por isso, não vou a mercado.
Quero a companhia da menina da caixa e, por isso, não vou ao supermercado.
Quero a companhia da professora e, por isso, não vou levar os filhos à escola. 
Quero a companhia da enfermeira e, por isso, não vou tratar das feridas. 
Quero a companhia da médica e, por isso, não vou estar doente.
Quero a companhia da dactilógrafa e, por isso, não vou à repartição.
Quero a companhia da mulher operária para estar com ela.
Quero a companhia dessas mulheres
E dos seus homens.
Nós os dois estaremos por casa, esperamos a vossa companhia.
Nem sequer vamos querer saber de notícias da greve porque jornalista que fale nesse dia não nos merece crédito.

Todos podem fazer greve, razões não faltam, formas não faltam, haja vontade!

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Contra as receitas em grego

Companheiros de outras paragens, de outras margens e de fozes dos grandes rios.
Aqui Cavaco Silva teve setenta e sete por cento dos votos - tantas as que Cristo disse para perdoar - e o PSD ultrapassou os sessenta. Porque é terra de pedreiros e de pedra, de carpinteiros e de madeira, de construtores e de tratores, do chão que já deu uvas, a crise tem um tom diferente de doer porque ainda ontem o sol raiava nas piscinas e agora nem há culturas para regar.
Mas de tanto a água benta molhar a mão direita não se pense que por aqui, como por toda a parte, não se diz apenas: venha outro salazar!
Não!
Também se diz venha outro abril, a culpa é dos amigos de cavaco,  ai face oculta, a culpa é de todos os governos, das agências, do euro, da merkel, da euromanha, do sistema. 
(A culpa nunca é de quem os elegeu ou os calou, de quem os elegerá novamente e a seguir os negará.) 
E então dizem-me, para calar a conversa:
- São todos iguais! Devíamos fazer como se faz na Grécia!
- Se ao menos fizessem greve dia 24 para serem diferentes entre tantos iguais!

Mas não! Só o governo acredita que já estamos às portas de Atenas! Assim se compreende que em tempos de cortes e despedimentos tenha surgido ontem notícia de que vão ser admitidos mais 1000 efectivos para as forças de segurança.

Dia 24 vou para a porta do meu serviço mas não entro. À cautela vou levar o meu cão, Loukanikos!
Ele não é como os meus colegas! Não diz só ão!ão! Também morde!

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Quarto 9

Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, este quarto não faz sentido)

Com este entusiasmo à volta da mãe até me tenho esquecido das filhas. Deve notar-se que, até agora, ainda não revelei os seus nomes. De casa para fora não se conheciam amigas, amigos ou colegas às meninas. Iam para o liceu e vinham as duas a pé, sempre sozinhas. Também nunca se lhes ouvia assuntos de escola, tirando uma vez ou outra em que me pediam explicações.
As meninas reuniam todas as condições para serem discriminadas no bairro e na escola: tinham vindo de África, eram as únicas pretas num bairro branco, viviam na única casa que não estava impecavelmente arranjada – bem pelo contrário, o número 7 tinha ervas no jardim, já quase não havia vestígios de tinta nas paredes nem nas portadas degradadas - aos olhos da vizinhança, os movimentos de entrada e saída da casa eram intrigantes e, como se não bastasse, chamavam-se Gina e Tânia. Quem cumpriu o serviço militar sabe perfeitamente que Gina e Tânia eram os nomes de duas namoradas gráficas de muitos soldados – daí a conjugação dos dois nomes ser um acaso infeliz.
Gina, a mais nova, tinha um corpo de mulher feita digno de se olhar mas as feições portuguesas na cor mulata não a favoreciam muito. Andávamos os dois constantemente a brincar às agressões, às cartas nunca éramos da mesma equipa, Gina era feliz e curtia a minha presença na família.
Tânia era um espectáculo de encher olhos e secar bocas: o rosto arredondado bem africano, a pele de bronze, os sorrisos breves e felizes com dentes branquíssimos, um corpo de se lhe tirar o chapéu e depois, fizera 18 anos! 18 anos! Tânia falava apenas quando era necessário, largava-me um sorriso dos dela quando olhava para mim e nunca passávamos um pelo outro sem umas cócegazinhas.
Por vezes íamos os três, a pé, até ao restaurante-cervejaria onde trabalhava a mãe, sentávamo-nos na esplanada, elas pegavam num gelado cada uma e adoravam provocar-me a libido enquanto o comiam - riam, riam, riam uma para a outra satisfeitas por me lerem os pensamentos e por fazerem uma maldade sem fazerem nada de mal. Eu bebia duas ou três imperiais com tremoços e depois voltávamos para casa sem pagar nada - os empregados fechavam os olhos às nossas despesas porque os abriam bem às filhas da colega.
A um canto da sala havia um divã polivalente onde acabávamos, os três, as noites de filmes bons. Incapaz de acompanhar as legendas dona Graça ia para a cama. Independentemente do filme, não digo que não acontecessem umas mãos entre botões, calor, humidade – nessa altura ainda não havia ar condicionado - suspiração. Às vezes um “está quieto!”, às vezes um desejo, às vezes um “querias!”, às vezes uma carícia.
As meninas gostavam de mim, eu gostava das meninas. As meninas brincavam comigo, eu brincava com as meninas. A mãe via entre mim e as meninas, acontecesse o que acontecesse, a harmonia.
(Na próxima quarta há mais Quarto)

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A culpa vai ser dos comunistas


O Gaspar está gasto. Então não sabe que essa já está gasta?! Já passou de moda! Já não pega!
O rapaz rebobinou a cassete?! O bode da herança dos colegas do governo anterior, a cabra da crise financeira internacional, a lei laboral, a constituição socialista já não chegam?! Prevendo o mau resultado das suas contas mal feitas, já está a atirar antecipadamente as culpas para o ruído das manifestações (sem expressão, nas suas futuras palavras), para as greves de elevada expressão (com muito pouca adesão, nas esperadas palavras dos seus) e já acusou o PCP e ao BE de serem os promotores de um eventual fracasso do programa de resgate financeiro?!

Senhor Gaspar:
Tal como agradece, num gesto verbal de eternecedora convergência, a oposição "violenta e construtiva" do proverbial PS, acorde também e perceba que a democracia não se esgota nas opiniões dos iguais e vai mesmo além do PCP ou do BE - há muito mais gente que discorda! Os seus preconceitos é que não o deixam ver mais longe!
Por eu lhe dizer que o seu orçamento vai ser um fracasso, não me venha dizer que a culpa é minha!... Lá estarei dia 12 e dia 2x12 para ver se me ouve e corrige as asneiras que só podem levar ao fracasso!
Um abraço deste que de si nada espera

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Quarto 8

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, este quarto não faz sentido)

Durante a noite, durante os intervalos da discussão com o noivo, Dona Graça ia ao nosso quarto, com pomadas, gelo e paninhos quentes, para tratamento e consolo da vítima.
No dia seguinte não fui às aulas.
Ainda na cama, assisti ao fazer das malas do meu pouco próximo companheiro de quarto. Nunca chegámos a ser amigos (mijava num saco de plástico e mandava-o pela janela para o quintal só para não ir à casa de banho). Vesti-me e ajudei-o com as malas até ao táxi, apertámos a mão, franzi os olhos e encolhi os ombros; ele, marcado pela zaragata, franziu um olho e encolheu um ombro – como rapazes da mesma escola continuaríamos a ver-nos todos os dias.
À tarde, com a dona no trabalho e as meninas na escola, Virgolino foi ao meu quarto.
Fez um longo desabafo do seu fado, disse-me que ia arrumar o saco e tomar o comboio e pediu-me dinheiro emprestado. Tentei demovê-lo mas estava determinado.
Depois do abraço, viu-o partir rua abaixo a caminho da paragem do autocarro que o levaria à estação.
- Vou devolver-te o dinheiro pelo correio! Confia em mim irmão!
Chamou-me irmão, o suficiente para eu não ficar a pensar no dinheiro.
Quando Dona Graça voltou, confrontada com a partida, apenas disse:
- Foi melhor assim!
Os dias que se seguiram lá na casa foram de poucas palavras. Valeu-me o ambiente para pôr o estudo em dia.
Ao fim de quinze dias dona Graça confessou-se-me incapaz de telefonar ao Virgolino. Agora que as coisas já tinham arrefecido gostaria de falar com ele e, se mais não fosse possível, ao menos que ficassem amigos. O melhor mesmo seria escrever uma carta, disse-me ela com um sorriso “quarto maroto” e de lábios fechados.
Andei até à noite em pulgas. Entre nós os dois havia uma diferença de idades de mãe para filho, havia uma diferença de peso do dobro para metade, haviam muitas diferenças mas unia-nos, sem complexos, compromissos ou receios, o facto de não nos envergonharmos das nossas necessidades e de não negarmos o prazer.
O quarto era grande, dona Graça era enorme, de formas arredondadas, perfeitas, de cor quente e macia, orgulhava-se do seu corpo e do seu desempenho, era um mulher sexualmente dedicada. Aquilo que fazíamos os dois era amor. Não um amor construído do qual se pretende continuidade mas um amor que se fazia como o pão. Para fazer pão é preciso juntar cavacos para aquecer o forno, aquecer o forno, amassar a massa, enfornar manuseando a pá com sabedoria e, depois de feito, há que comê-lo. Em suma, fazer pão é acto de amor.
Bem vistas as coisas a peculiaridade da nossa relação residia no facto do acto só se consumar depois de escrita uma carta. Diria até que se Dona Graça não tivesse namorado inventaria um só para ter de me ditar cartas.
(Na próxima quarta há mais Quarto)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Um negócio seguro

A pessoa a quem eu conseguiria vender um carro:
- Eu compro-lhe o carro e o senhor dá-me um tapete para o pendura!
- Mas o senhor acha que o carro não vale o dinheiro que peço sem os tapetes?!
- O carro é muito mau  e não vale o dinheiro nem com os tapetes mas, por uma questão de honra, eu compro-lhe o carro!
- Então o senhor compra-me o carro por este preço mesmo que eu não lhe dê o tapete do pendura!?
- O senhor pode pedir o preço que quiser que eu, por uma questão de honra, compro-lhe o carro de qualquer forma mas, de qualquer maneira, o senhor tem de me dar um tapete para o pendura!
- Podemos, portanto, fazer já o contrato: como é que o senhor se chama?
- António José Seguro.
(isto porque hoje vi, sem querer, uma entrevista sem honra nem glória)

domingo, 6 de novembro de 2011

A Euromanha

A malta do Carvalhal nunca se deu com a malta do Sobral! Isto é uma coisa já muito antiga, mais velha do que a república. Se calhar sempre existiu! Eles tinham a mania que eles é que tinham o azeite e eles é que tocavam o sino. A igreja era lá, o regedor era lá, tudo o que se fazia, fosse coreto, fonte ou cemitério era lá. Até que um dia, antes do Carmona, parece-me, a malta do Carvalhal mexeu-se, fez-se a freguesia e mandámos os do Sobral para o carvalho. Mas a rivalidade continuou sempre, tanto que você não encontra aqui uma única mulher ou homem, casado com homem ou mulher de lá de baixo. Tivemos direito a isto e mais aquilo, fez-se esta igreja, tivemos padre… agora, há uns anos para cá, o padre daqui é o mesmo do Sobral mas, lá está, os bispos são mais espertos do que os ministros, o padre é o mesmo mas continua a haver duas paróquias! Deus me livre de ter de ir à missa ao Sobral!

Agora dizem que temos de pertencer ao Sobral! Está mal, não percebem nada disto! Dizem que é para poupar! Poupar o quê?! Caralho. O presidente da junta recebe uma bagatela que não lhe cobre as despesas que faz com o carro dele, a junta não tem ninguém empregado, se se faz uma obra ou outra é porque o povo precisa e, de uma forma ou de outra, tem de ser feita! Dizem que a malta fica melhor servida! Tá-se mesmo a ver! Atão não ficamos! Ficamos é sem nada! Estes gajos não percebem que a gente não quer a junta para se abotoar como eles fazem? A gente quer a junta porque é uma maneira da gente se ajuntar e discutir os nossos problemas e a maneira dos resolver!

O que mais custa é que estes filhos dum cabrão tenham cara pra dizer que isto melhora a democracia e a gente não tenha uma palavra a dizer! Democracia do caralho a deles que eles é que decidem e a gente come e cala!

Imaginem que os gajos da euromanha, ou lá como é que se chama essa porra da cee, acham que é muito caro haver tantos estados e vêm com a cantiga que se tem de poupar, com a velha desculpa esfarrapada que os portugueses ficam mais bem servidos e resolvem que Portugal pertença a Espanha?! Tá a ver o que eles nos tão a fazer?! É isso! Querem acabar com isto?! Talvez a gente também acabe com eles! Eles não dizem que a gente acaba, não há extinções! Eles, espertos da política, dizem que nos vamos fundir! Ora que se vão fundir eles que a nós não nos fundem como eles julgam!

Cabrões do caralho! Vão lá mandar para a terra deles! A freguesia está aqui muito bem e daqui não sai!

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Hei-de morrer

Estou a escrever
Para dizer que vou morrer
Ainda há-de haver
Em nome de Deus virgens a explodir em Telavive
Em nome da América soldados gordos a morrer em Kandahar
E em meu nome homens que não me conhecem a falar

Estou a escrever
Porque irei morrer
Ainda há-de haver
Crianças a morrer de fome em Mogadíscio
E um menino chamado Aparício
Assassinado em Janeiro no Rio

Caramba irei morrer
De frio a escrever
E ainda há-de haver
Um Portugal pobre e amordaçado
Um povo orgulhoso de lhe chamarem zé

É hei-de morrer
A escrever a mesma coisa
Com outros confortáveis blogueres de T3
Conformado por ter passado a minha vez
De despir e ter nua a verdade à minha frente
Entre operários que desceram a rua que era para subir

É hei-de morrer a rir
De mim e qualquer coisa
Hei-de partir a loiça a definhar
Com o Sol todos os dias a pôr-se e a nascer
Com a Lua aluada a crescer e a minguar
E por cá a Terra a rodar em voltas sempre iguais

Ah hei-de morrer
Se não morresse era demais
A ver as gerações passarem em mutação
E os pobres desgraçados humilhados
Sempre à espera duma tal revolução
Que sempre é vencida

Escrevam da vida escritores de secretária
Que hei-de morrer a ouvi-los escrever
Sem nunca pegarem numa palavra a atirar
Para tirar os dentes aos párias que demandam
Às castas baixas o vinho sem papéis
Andam para aí uns que se dizem democratas
Abatam-nos são mentirosos e ranhosos

Hei-de morrer de baba e ranho
Num futuro igual a antanho e a dormir
Com a América Latina a sonhar
Com a Europa em obras
Com Putin entre ursas
Com Bush entre vacas
Com uma qualquer peça de caça a moer-me o juízo

Ai a vida é desesperançada
Porque não há nada que mude este mundo e este país
Quis quero quererei

Hei-de morrer
E se eu morrer de dia a seguir haverá uma noite
E se eu morrer de noite a seguir haverá um dia
E quer seja de noite ou de dia haverá uma madrugada
Em que depois se irá lutar
E depois de se lutar haverá dia ou nada
E depois da noite haverá luto ou alvorada

Olha se eu morresse
Ainda gostava de viver o que acontece
Talvez depois de eu morrer por escárnio
Alguém invente a paz o amor e a democracia

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Quarto 7

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, este quarto não faz sentido)

Num fim de tarde, estávamos quatro a jogar dominó na mesa da sala, o padrasto, as duas meninas e eu, o enteado branco, quando um homem de meia-idade bate à porta:
- Por acaso não é aqui que está hospedado um estudante de engenharia de nome José Maria?
- Está! Está! – respondeu Virgolino com a antipatia que lhe era nata, ao mesmo tempo que lhe deixava espaço para ficar do lado de dentro da casa.
- Podia chamá-lo? Diga-lhe que é o pai!...
Zé Maria estava no quarto. O pai, ao que parecia, viera à cidade visitar o rapaz e verificar in loco as condições em que vivia o filhinho. As meninas gritaram em coro, duas ou três vezes, de modo a ouvir-se no piso de cima:
- Zé Maria!? Está aqui o teu papá!
Zé Maria desceu as escadas, deu dois beijos ao pai e saíram os dois para o lado de fora deixando a porta entreaberta. Continuámos o jogo com os ouvidos dispostos ao coscuvilho da conversa entre pai e filho:
- Alguma vez te faltei com o dinheiro?
- Não papá! O que me tens mandado desenrasca-me bem!
- Então porque é que andas com esses sapatos?! Então porque é que não cortas o cabelo?
- Ora essa pai! O que é que isso importa?
- Não me tinhas contado que vivias com pretas e brancos com o aspecto como o daqueles dois que estão ali dentro!
- Oh pai!...
- A partir de amanhã deixas esta casa! Podes instalar-te num hotel se quiseres! E a próxima vez que te vir quero-te com uns sapatos engraxados e cabelo cortado, ouviste? Agora vai lá acima preparar-te como um homem que vais jantar fora com o senhor teu pai!
Quando, noite adiantada, Zé Maria regressou à “espelunca”, havia baile com merengue.
O rapaz vinha de rastos com as lições do pai pelo que foi fácil aderir à paródia. Bebeu um, bebeu dois e bebeu três mas não havia maneira de o pormos a dançar. Virgolino puxou-o da cadeira, aparelhou-se a ele ao som da música e passou-lhe a mão pelo cu.
Foi uma explosão. De repente começaram os dois aos empurrões, embrulharam-se no chão ao som dos gritos das mulheres enquanto eu, impotente, tentava a paz sem entrar na guerra. Um derradeiro soco atordoou o Zé estudante.
Acalmei Virgolino enquanto dona Graça tentava socorrer a vítima com água. As meninas davam tom à cena com um coro de choro.
Acompanhei o “mais forte” até à cozinha e este sentou-se com expressões que alternavam entre a raiva e o arrependimento. Voltei à sala e ajudei o “mais fraco” a levantar-se e amparei-o na subida das escadas até ao quarto.
- A partir de amanhã não ouvirás mais o ressonar do Zé Maria! – disse-me ele enquanto se deitava doridamente sobre o divã.
- Não te precipites! Vou mas é lá abaixo buscar gelo que o teu olho parece estar a inchar!
Desci as escadas, as meninas no sofá com os olhos na televisão mas distantes dela, o casal na cozinha em acesa discussão enquanto eu me dirigi ao frigorífico.
- Calma! Calma! Isto passa! Vim buscar gelo que aquilo está a inchar!
Às minhas palavras a discussão subiu de intensidade e pôs-me a mais na cena. Restava-me sair e ir tratar do ferido.
(Na próxima quarta há mais Quarto)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Emigre quem puder

Deve ser o primeiro governo do mundo que pede aos seus jovens para emigrar. É o "salve-se quem puder" das vozes de comando. Os velhos e as crianças, mais vulneráveis, não terão outro remédio senão ficar. E como as crianças de hoje serão jovens amanhã, o caminho que estes senhores desejam é transformar este país numa gigantesca aldeia do interior.

Emigrem vocês asnos do poder! Vazem! A mais, só vós! Precisamos de jovens, velhos e crianças! De vossas excelências apenas precisamos que desapareçam! Saiam do vosso posto de conforto! Aqui posto de comando! Desandem!
E já que não podem sentir a crise ou o país, fujam pelo rasto do vosso património financeiro para as terras francas do vosso contentamento.

A criatura já disse isto há mais de 24 horas e ainda não foi demitida?! Com que então os jovens desempregados devem sair do seu conforto?!

sábado, 29 de outubro de 2011

As vacas não se chamam pelo nome mas os bois sim

O rei D.Carlos adorava a caça, Salazar as botas, as pantufas e a criada, Eanes a mulher, Soares, abanar o cu de avião, Sampaio os buracos do golfe e Cavaco, adora vacas. E, de repente, toda a gente está com o presidente a falar das vacas, como se estivesse implícíta uma vontade de voltar às índias, um assomo de virilidade de velhos murchos, a falta de coragem para chamar os bois pelos nomes, a irresponsabilidade de esquecer os porcos e o Rei dos Leittões.
Não gosto de vacas nem de anónimos porque não têm nome mas um anónimo deixou-me este comentário no post anterior e eu sinto-me na obrigação de o pôr no cocho:

"Anda um gajo ensimesmado com esta merda toda, eu que já tenho idade mais que suficiente e com um invejável curriculum de salazarismo, guerra colonial, 25 de Abril sempre ou de vez em quando, 25 de Novembro o caralho, fmi´s, Soares, Cavacos mais toda a corja infecta que saltou da latrina mal o carcanhol das europas entrou por Vilar Formoso aos turbilhões, eu, que a esta hora poderia e deveria como tantos outros estar a gozar de uma choruda reforma antecipada ou na reserva territorial por incapacidade intelectual, ando aqui a chatear-me com políticos e economistas ranhosos, que se isto fosse um lugar frequentado por gente com algum pingo de vergonha nas ventas e coluna vertebral de aço inox, nunca teriam passado da junta de freguesia de santa pachacha de assobio ou da contabilidade da única mercearia de Algodres de Baixo.

Como sou masoquista, vou vendo ouvindo e lendo as escarradelas dos ilustres comentadores que poluem o éter, cada qual com a sua solução mágica para arrumar de vez a crise, tipo tira agora o coelho da cartola que já vais ver como é que te vão ao traseiro.

E como sou, na opinião de tão desbragadas criaturas, um dos muitos milhões de responsáveis que andaram a viver acima das suas possibilidades, pergunto se esse porventura meu pecado foi assim tão grave que tenha agora de levar com o inferno, o purgatório e o Vítor Gaspar em cima como castigo e penitência.

Por isso peço desculpa por ter comprado uma casinha a crédito quando os bancos andavam a oferecer empréstimos ao desbarato, ter comprado um carrito de merda a suaves prestações mensais aproveitando uma promoção da treta que a marca oferecia, ter trocado o meu velho televisor por um Lcd pago em 10 vezes sem juros, ter comprado um frigorífico novo quando o velho deu o peido-mestre, e isto só para citar o mais relevante.

Pois, sou culpado da crise, e o que deveria ter feito era ter entrado para um partido do arco do poder, militado na jota, aparecer, qual emplastro, ao lado do líder, atirar umas bojardas para a comunicação social e ganhar um lugar de deputado, secretário de estado ou até de ministro, com algumas alcavalas pelo meio em administrações de empresas públicas, público-privadas e bancos da treta, somando meia-dúzia de pés de meia em negócios de alto valor acrescentado na minha conta bancária na Suiça, e vivendo à grande e à francesa em moradias de luxo rodeado de veículos topo de gama e putas de todas as cores, feitios e sexos.

Tem muita razão a senhora Merkl em exigir-me o pagamento de dívidas que eu nunca tive, especialmente aquelas contraídas com a aquisição de coisas que a senhora me obrigou a comprar, têm muita razão os que apontam o dedo à minha exagerada despesa com o SNS, principalmente quando fiquei doente, e o meu abuso das instituições de ensino, pois deveria ter permanecido alegre e analfabeto evitando gastos inúteis ao estado.

Para quem andou tantos anos a levar com crises em cheio nos cornos, embora com alguns muito pequenos intervalos respiráveis, mais crise menos crise pouco importa a quem já está malhadiço, calejado e habituado. No fim vamos todos voltar à terra e ao mar como quer o sr. presidente, que é onde está o nosso futuro.

Enterrados bem fundo ou a nadar junto à costa até os tubarões darem conta do que ainda sobrar.

Ainda bem que somos governados por gente tão inteligente e preocupada com o nosso bem-estar."
 
Anónimo, como as vacas e não como os bois.

(bem me parecia, este Anónimo trazia água no bico, pesquisei e encontrei o autor do texto no blog baba de safio - a César o que é de César - nota em 1/11/11)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A Salvação está na Terra ou no Céu?

 Nos últimos dias têm surgido uma série de velhas notícias que, de vez em quando, saem das profundezas da terra para animar a malta: é gás no Algarve, é petróleo em Peniche, é ouro no Alentejo, é água de Colónia natural em S.Pedro do Sul! Enfim, coisas que podem trazer-nos a salvação da economia mas que podem também trazer-nos o perigo de bombardeamentos da NATO.
É claro que o governo, com receio que isso acabe com a crise, já acautelou que os tesouros serão explorados por franceses, ingleses, americanos e outros amigos e que a água de Colónia é dos alemães. Mas, nunca se sabe, às duas por três, não agrada aos amigos das onças o modo como o Coelho lida com os tumultos ou o Cavaco com as vacas e, vai daí, resolvem atirar bombas de salvação do céu, cobrando-nos, obviamente, os custos do foguetório em gás, petróleo e ouro.

Os amigos de hoje podem ser os inimigos de amanhã.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Quarto 6

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, este quarto não faz sentido)
É muito giro percorrer e conhecer a noite da cidade mas não é fácil, diria mesmo, é muito incómodo, andar num carro roubado mesmo que sob o comando dum profissional do ramo.
- São cinco da manhã ó Lino, amanhã tenho exame! Vamos para casa!
- Exame a quê? O teu fígado está como novo! Às oito da manhã o rally de Portugal passa na Lousã, temos carro, ainda tem pitrol, que queres mais? Queres conduzir tu?
- Isso é que não!... Além disso, esqueceste-te de um pormenor! - disse eu esfregando o polegar no indicador.
- És meu amigo? Confias em mim?
- Hum! Sim!
- Então vamos!
O rally começou ali. O acelerador, os travões, as curvas e o meu coração não tiveram descanso enquanto não vi a placa de localidade da Lousã. Levei sempre os pés fixados na parte vertical do chão junto ao tapete, as mãos no tablier e pensei repetidamente:
- Mãezinha nunca mais te vejo!
Chegámos e estacionámos o carro na zona da enchente. Nas ruas e nas estradas caminhavam milhares de jovens, a pé, cujos rostos denunciavam também a directa: da discoteca para o rally. A caminho da serra passámos por tascas improvisadas de português que aproveita a oportunidade sem lei: café de cafeteira, leite a sair da vaca, cervejas, tinto, bifanas, pão com manteiga, feijoada… os estômagos e a hora eram para tudo. Parámos numa que tinha muita gente à espera.
- A minha mãe ensinou-me que onde há muito freguês é porque é melhor! - disse-me o companheiro já de dedo no ar para o tasqueiro:
- Duas bifanas e duas cervejas para aqui, se faz favor!
Fiquei na retaguarda e, minutos depois, já tinha nas mãos o mata-bicho.
- Como é que pagaste?
- Não te importes! Se vier alguém atrás de nós direi: pensava que era à borla!
Subimos dois ou três quilómetros serra acima, vimos os carros a passar depressa – Michelle Mouton era a primeira – e, quando, de regresso, nos aproximámos do campo onde tínhamos o carro que não era nosso, Virgolino segredou-me:
- Temos problema! Olha a bófia! Não olhes para mais nada a não ser para as garinas!
Topei que o veículo estava debaixo de olho. Provavelmente tinham encontrado a matrícula de um carro roubado durante a noite.
- E agora?
- E agora? Há por aqui tantos! Não te atrapalhes que não vamos para casa a pé!
- Nem uma coisa nem outra! Vamos de comboio!
- Por acaso o menino bem comportado e teso quer viajar de comboio sem bilhete?
- És meu amigo? Confias em mim?
A sensibilidade do assaltante não resistiu à minha segurança e respondeu:
- Tá bem meu! Tás com aúfa? Desta vez mandas tu!
O comboio ia cheio de malta universitária. De pé, estendidos no chão, nas prateleiras da bagagem, viajavam rapazes e raparigas com ar de marrões e de ressaca de bebedeira rara. Percebi logo que dificilmente o revisor faria o seu serviço. Sentámo-nos no chão, um ao lado do outro, e adormeci com a cabeça no ombro do meu parceiro da noite inesquecível!
Não cheguei a horas de ir ao exame.
(Na próxima quarta há mais Quarto)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

O Silva das Vacas

Algumas das reminiscências da minha escola primária têm a ver com vacas. Porque a D.ª Albertina, a professora, uma mulher escalavrada e seca, mais mirrada que uva-passa, tinha um inexplicável fascínio por
vacas. Primavera e vacas.
De forma que, ora mandava fazer redacções sobre a primavera, ora se fixava na temática da vaca. A vaca era, assim, um assunto predilecto e de desenvolvimento obrigatório, o que, pela sua recorrência, se tornava insuportavelmente repetitivo.

Um dia, o Zeca da Maria “gorda”, farto de escrever que a vaca era um mamífero vertebrado, quadrúpede ruminante e muito amigo do homem a quem ajudava no trabalho e a quem fornecia leite e carne, blá, blá, blá, decidiu, num verdadeiro impulso de rebelião criativa, explicar a coisa de outra forma. E, se bem me lembro ainda, escreveu mais ou menos isto:

“A vaca, tal como alguns homens, tem quatro patas, duas à frente, duas atrás, duas à direita e duas à esquerda. A vaca é um animal cercado de pêlos por todos os lados, ao contrário da península que só não é cercada por um. O rabo da vaca não lhe serve para extrair o leite, mas para enxotar as moscas e espalhar a bosta. Na cabeça, a vaca tem dois cornos pequenos e lá dentro tem mioleira, que o meu pai diz que faz muito bem à inteligência e, por não comer mioleira, é que o padre é burro como um tamanco.

Diz o meu pai e eu concordo, porque, na doutrina, me obriga a saber umas merdas de que não percebo nada como as bem-aventuranças. A vaca dá leite por fora e carne por dentro, embora agora as vacas já nãofaçam tanta falta, porque foi descoberto o leite em pó. A vaca é um animal triste todo o ano, excepto no dia em que vai ao boi, disse-me o pai do Valdemar “pauzinho”, que é dono do boi onde vão todas as vacas da freguesia.

Um dia perguntei ao meu pai o que era isso da vaca ir ao boi e levei logo um estalo no focinho. O meu pai também diz que a mulher do regedor é uma vaca e eu também não entendi. Mas, escarmentado, já nem lhe perguntei se ela também ia ao boi.”

Foi assim. Escusado será dizer que a D.ª Albertina, pouco dada a brincadeiras criativas, afinfou no pobre do Zeca um enxerto de porrada a sério. Mas acabou definitivamente com a vaca como tema de redacção.

Recordei-me desta história da D.ª Albertina e da vaca do Zeca da Maria “gorda”, ao ler que Cavaco Silva, presidente da República desta vacaria indígena, em visita oficial ao Açores, saiu-se a certa altura com esta pérola vacum:

“Ontem eu reparava no sorriso das vacas, estavam satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar verdejante”!

Este homem, que se deixou rodear, no governo, pelo que viria a ser a maior corja de gatunos que Portugal politicamente produziu; este homem, inculto e ignorante, cuja cabeça é comparada metaforicamente ao sexo dos anjos; este político manhoso que sentiu necessidade de afirmar publicamente que tem de nascer duas vezes quem seja mais honesto que ele; este “cagarola” que foi humilhado por João Jardim e ficou calado; este homem que, desgraçadamente, foi eleito presidente da República de Portugal, no momento em que a miséria e a fome grassam pelo país, em que o desemprego se torna incontrolável, em que os pobres são miseravelmente espoliados a cada dia que passa, este homem, dizia, não tem mais nada para nos mostrar senão o fascínio pelo “sorriso das vacas”, satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar verdejante”!

Satisfeitíssimas, as vacas?! Logo agora, em tempos de inseminação artificial, em que as desgraçadas já nem sequer dispõem da felicidade de “ir ao boi”, ao menos uma vez cada ano!

Noticiava há dias o Expresso que, há mais ou menos um ano e aquando de uma visita a uma exploração agrícola no âmbito do Roteiro da Juventude, Cavaco se confessou “surpreendidíssimo por ver que as vacas, umas atrás das outras, se encostavam ao robô e se sentiam deliciadas enquanto ele, durante seis ou sete minutos, realizava a ordenha”!

Como se fosse possível alguma vaca poder sentir-se deliciada ao passar seis ou sete minutos com um robô a espremer-lhe as tetas!! Não sei se o fascínio de Cavaco por vacas terá ou não uma explicação freudiana. É possível. Porque este homem deve julgar-se o capataz de uma imensa vacaria, metáfora de um país chamado Portugal, onde há meia-dúzia de “vacas sagradas”, essas sim com direito a atendimento personalizado pelo “boi”, enquanto as outras são inexoravelmente “ordenhadas”! Sugadas sem piedade, até que das tetas não escorra mais nada e delas não reste senão peles penduradas, mirradas e sem proveito.

A este “Américo Tomás do século XXI” chamou um dia João Jardim, o “sr. Silva”. Depreciativamente, conforme entendimento generalizado. Creio que não. Porque este homem deveria ser simplesmente “o Silva”. O Silva das vacas. Presidente da República de Portugal. Desgraçadamente.

Luís Manuel Cunha in «Jornal de Barcelos», 5 de Outubro, 2011.

domingo, 23 de outubro de 2011

Roubar para comer não é pecado

E tinha passado só um mês; e éramos ainda putos da aldeia de cada um; e sentíamos a falta dos campos e das árvores; e nos prédios da cidade não havia fruta para roubar; e eis que me surgiu o primeiro diferendo com os padres que me queriam formar para eu ser como eles. 
Tínhamos acabado de agradecer ao Senhor o jantar e o padre de serviço estendeu mais umas palavras:
- Amigos, soube hoje que dois de vós cometeram um acto indigno de quem é temente a Deus. Espero que se redimam e que se confessem, o mais rapidamente possível, a fim de ficarem em paz com o Senhor.
- Não é nada comigo!... - pensei.
Já com a malta a sair do refeitório ouvi dum camarada :
- Está a chamar-te a ti e ao Bastos!
...
- Venham comigo!
Atravessámos a cozinha, descemos pelo elevador até à penumbra da cave, passámos pela zona das caldeiras, corremos o corredor até à garagem. O padre à frente, atrás eu e o Bastos trocando expressões interrogativas. A que prestimosa tarefa nos chamaria o padre? O passeio começou a perder graça quando nos mandou entrar no Mini. Eu sentei-me no banco traseiro e o Bastos no pendura. Eu ia de olho na mão das mudanças, sempre a topar se ela se arriscava na perninha do meu amigo, só um motivo desses, ou pior, poderia justificar tão enigmático convite nocturno a moços tão pacatos como nós.
- Sabem que os meninos que cometem actos feios devem ser castigados?

Mau! Mau! Afinal fizemos merda! Foi a merda do Gomes que bufou! Só pode ter sido isso! À medida que a coisa ia azedando ia ficando mais clara. O caso era o seguinte:

No caminho para a escola vimos estacionada uma camioneta carregada de grades de tangerinas, tirámos duas cada um e o Gomes disse que não queria. Nunca me passou pela cabeça que aquilo era “um acto indigno”, logo a mim que nasci a roubar fruta das quintas e quintais, protegido pela astúcia e pela lei de que “roubar para comer não é pecado”.
- É normal, em comunidade, se alguém rouba alguma coisa a alguém deve ser punido por isso!

A meio da Calçada do Bravo cortámos à direita. De tantos em tantos quilómetros o condutor largava uma boca do género dessa aí atrás, sem nunca se ter referido a nós os dois e sem nunca questionar o nosso silêncio ou olhar para apreciar o nosso ar acagaçado. O Bastos nunca se virou para trás mas sentia-se a comunhão de pensamentos.

A que espécie de castigo nos levava o padre justiçoso? Seria aquele o caminho para a prisão das crianças? Nem nos deixou despedir da malta! E quando os nossos pais soubessem da detenção?

Mais um corte à direita, Martinela, nunca ouvi falar em tal terra, é uma aldeia, tem uma capela, parámos.
- Hoje trago aqui uns rapazes lá do seminário para ajudar à missa.
Tremia com as galhetas, sempre à espera que caíssem no altar. Temia estar a pensar noutra coisa no momento do toque da sineta mas, ajudar à missa, era uma penitência adequada ao “acto indigno”.

No final do Santo Sacrifício algumas pessoas vieram dar umas moedas aos acólitos. Regressámos à cidade, durante o caminho não se ouviu palavra. O caso foi encerrado. Nunca mais mostrei os dentes ao padre e comecei a gostar ainda mais de tangerinas. Passados tantos anos gostava de encontrar o padre para lhe atirar à cara as crises de fígado que tenho por abusar de tangerinas.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Tenho no sotão a minha construção

"Clamação do Soro"
A rotação do planeta faz-nos tontos e translúcidos.
Dormimos o Sol e as estrelas
Na canção do relógio de pêndulo.
Perdem-se os que amam.
Reina a bondade
E os cavalos da nobreza tornaram-se selvagens.
E vós?!
Pedi que chorássemos – gargalhásteis!
Achais tardio o escarro bandeira
Na face do dominador?
Não acreditais no poder dos nossos excrementos?
Só com chicotes se expulsarão os vendilhões do Templo!
Ah! Os cornos dos bodes de comando!
Não tarda que sobre eles cavalguemos!
Não tarda os calcaremos!
Assobiar-vos-emos então, povo louco e insensato! – O triunfo.
Acenar-vos-emos então raça perversa e tortuosa! – A vitória.
Saciar-vos-eis
Das delícias da vida e dos tesouros que o Sol amadurece.
- Destruída será a magnificência dos poderosos!
Grita um filho.
1981- por aí

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Quarto 5

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, este quarto não faz sentido)
Todas as manhãs as miúdas saíam para o liceu. A mãe, a meio da manhã, ia para o trabalho no restaurante. Eu, às vezes, também ia às aulas e o Virgolino ficava todo o dia em casa a ver televisão e a emborcar cervejas.
Nas primeiras noites que dormi naquele quarto acordava duas ou três vezes, a horas certas, com o ruído dos comboios da linha da Lousã que passava mesmo ali ao lado. Com o hábito o comboio deixou de me tirar o sono, assim aconteceu também com os sons da mobília e dos corpos que se enrolavam no quarto ao lado.
Muitas vezes, durante o dia, para vencer o tédio de desempregado, Virgolino batia à porta do meu pequeno quarto, entrava com duas cervejas abertas, pousava uma sobre a sebenta e dizia:
- Rapaz, a vida não pode ser só estudar! Bebe, se queres ter força na verga!
Sentávamo-nos um em cada cama, de garrafa na mão e a trocar umas conversas. Perguntava-me das coisas que eu estudava, contava-me a sua vida e a sua terra, disse-me que esteve preso por roubar carros, afiava-me a curiosidade com detalhes das intimidades que travava com a Gracinha, pedia-me uns trocos emprestados para não me cravar mais cigarros, fazia-se o amigo que eu nunca imaginara.
Um dia, à noite, depois duma discussão com a sua Graça, que eu acompanhara pelo soalho do meu quarto de estudante, Virgolino entrou de rompante no meu quarto:
- Tenho de espairecer João, vem comigo! Contigo, talvez ela se descosa com as chaves do carro! Estou farto do cheiro a catinga desta casa!
Sem dizer não, aconcheguei os preparos de sair à rua e descemos as escadas.
- João, vocês podem ir mas vão a pé, no meu Simca é que não!
Virgolino dirigiu-se à despensa, que ficava por debaixo da escada, e saiu com um saco de plástico de supermercado, cheio de quase nada, na mão.
- Vamos João! A noite é nossa!
Como um cordeirinho inocente que acompanha o seu comandante, desci com ele o carreiro que separava o bairro da avenida. Bebemos duas imperiais rápidas na nossa cervejaria e saímos. Cinquenta metros depois, Virgolino abriu o saco que trazia no bolso de dentro do blusão enquanto dizia:
- Esta é a nossa presa! Serve?
Surpreendido com a aventura nem tive tempo para pensar ou reagir:
- Entra aí desse lado!
Disse-me ele já com as mãos nos fios por debaixo do volante para fazer a ligação directa. Aí vamos nós a abrir pelas ruas da cidade, de bar em bar, até à discoteca final!
(Na próxima quarta há mais Quarto)

sábado, 15 de outubro de 2011

O pagador

Num banco do jardim, em frente ao lago, está um velho sentado à espera do Outono. É um reformado. Vive às minhas custas, portanto!... E, no entanto, o velho não paga nada por ali estar. Mas devia pagar! Não pensem que se trata de um daqueles bancos antigos de tábuas horizontais, pintadas de vermelho e com perfil de ésse invertido! Não! É um banco com “design à l’époque”, sem encosto, tipo banca de matança de porco, todo ao fundo FEDER!... Para estes bancos, deviam existir banquímetros para dar cobro ao inquestionável pensamento do utilizador-pagador.
Não pensem que o velho está ali a fazer alguma coisa. Está só a pensar.
Eu penso que nunca me irei sentar naquele banco. Porque obra de FEDER o hei-de estar a pagar?!
Eu penso nas folhas a cair. Devia de me ser descontado o tempo em que da janela do meu emprego eu vejo as folhas cair.
E era só, vou perguntar ao velho se tem nome e se sabe quando vem o Outono.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Temos de mobilizar o país

Numa coisa estou de acordo com Passos Coelho: "Temos de mobilizar o país". Não estaremos é a falar da mesma mobilização!

Se o principal problema é o desemprego e se para criar emprego a solução é:
- Facilitar os despedimentos.
- Aumentar o horário de trabalho.
- Alargar a idade de reforma.
Então temos mesmo de nos mobilizar porque das duas uma: ou são parvos ou têm-nos como tal.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Quarto 4

(Se não leu o Quarto 1 nem o Quarto 2, nem o Quarto 3, este quarto não faz sentido)

Por volta do meio-dia, desci as escadas para tratar da higiene da manhã. A família do Norte estava já de partida. Virgolino ficava, claro! Com a cara e o abotoamento do pijama testemunhando a noitada passada entre excessos, despedi-me e, por motivos óbvios, fui o único que não os acompanhou à rua. Segundos depois, a solteirinha de Fafe voltou a entrar a porta entreaberta, com ar de quem se justificou por esquecimento de pequeno pertence, abeira-se-me na entrada da casa de banho e, assim, sem mais nem menos e sem palavra alguma, espeta-me um beijo na boca como quem diz: também estou com hálito de ressaca, saindo de imediato, com o ar apressado com que entrou. Andei todo o dia com um sabor de boca, não sabendo se era meu se dela, contente por mim e descontente por ela, descontente comigo e contente por ela e sabendo que aquilo não fora caso para esquecer nem para lembrar.

Na noite seguinte não consegui estudar nem dormir, os sons que vinham do quarto grande eram de tal frequência e intensidade que ora me incomodavam, ora me faziam encostar os ouvidos à parede. Não que tivesse ciúmes ou inveja mas porra! Um homem não é de pau!
Dona graça era um poço sem fundo no que toca aos prazeres da carne, absorvia todas as lavas sem nunca se encher. Virgolino desinchava da abstinência do período em que cumpriu a pena. Por duas vezes ouvi os passos da amante descer as escadas e, minutos depois, os mesmos passos subindo, acompanhados pelo ritmo do que imaginei ser o som duma colher batendo numa tigela a fazer gemadas, talvez uma cerveja a acompanhar e não só, uma vez ouvi mesmo o tiro da rolha de uma garrafa de espumante e o tilintar de copos.
Deitei-me várias vezes com a cabeça debaixo das mantas mas dormir está quieto! Poderia até ser sinal de desrespeito e desprezo adormecer perante um acontecimento oculto que não podia ver mas do qual, de certa forma, eu fazia parte. Levantava-me, sentava-me frente à mesa de estudo tentando estudar álgebra mas nem uma simples matriz conseguia inverter nem que fosse durante os, cada vez mais frequentes, intervalos de silêncio.
Apesar de tudo sentia-me contente pelos dois e, curiosamente, não me afectava o facto de, possivelmente, não existirem mais cartas para escrever - a não ser que o Virgolino pusesse outra vez a boca na botija e fosse cumprir mais uns meses!...
Claro que, nos meses anteriores, cheguei a imaginar-me companheiro de uma negra, com duas enteadonas mulatas, a passear na baixa, ou melhor, se calhar isso até chegou a acontecer sem eu dar por isso! De qualquer forma Dona Graça era bem mais velha que eu, mais responsável nas grandes opções da vida e, se optou pelo Virgolino, não deve ter sido só por qualidades de performance sexual! Aliás, eu também lhe dava um jeito, ou não estivesse no vigor dos meus vinte e um anos.
Zé Maria deve ter chegado de madrugada. No dia seguinte faltei às aulas.
(Na próxima quarta há mais Quarto)

domingo, 9 de outubro de 2011

Procuro FIAT 600

E, numa tarde de Domingo outonada, lá foram os pais entregar o filho ao clero, acompanhados de uma tia-avó celibatária, octogenária avançada, ex-regente de ensino e poupada, virgem de todos os santos e que, pela causa deles, apostou em investir na vocação do sobrinho querido que era eu. Fomos num FIAT 600, não tão velho como ela mas muito velho, emprestado sem favor por um primo mais abastado que fazia plena confiança nas mãos do meu pai, ou não tivesse sido ele, chofer de ofício, quem lhe dera a sua primeira lição de condução.
A viagem foi um suplício. A velha à frente, pendurada, a tecer cuidados à estrada, a dar-me recados e recomendações, a contar histórias e avé-marias e a minha mãe, atrás, com uma toalha a zelar-me pelos vómitos que me provocavam as curvas e o cheiro a gasolina.
A verdade é que só ela falava, os outros dois deveriam ir pensando em coisas que também, no meu enjoo, pensava:
- Como vou aguentar viver fora de casa sem a minha casa, sem o meu casal, sem o meu ribeiro, sem poder armar as minhas costelas, sem o meu cão, sem os meus amigos, sem as minhas primas, sem o meu irmão? Será que vou aguentar as saudades? Será que me vou largar a chorar no momento da separação?

Mas não! A minha mãe arrumou-me as coisas no armário, fez-me a cama, disse o que tinha a dizer. O meu pai e a tia observaram, encantados, as modernas instalações e trocaram impressões com gentes e meninos de outras terras que estavam ao mesmo.
No final, acompanhei-os à portaria e voltei para junto dos outros meninos que nem um homem! Nem uma lágrima!

Então e os 650$00?! Não me esqueci! Nunca me esquecerei! Por pressão do prior junto da reitoria a mensalidade desceu 50$00. Por pressão do prior junto da tia-avó beata, esta amadrinhava os santos estudos do jovem parente a troco dumas intercessões sacerdotais junto do Altíssimo.

- Se a tua tia ajuda, a conversa é outra! Nesse caso, ainda que nos exija à mesma muito esforço, penso que conseguiremos!... Não nos podemos esquecer que ter um filho formado é sempre um bom investimento!
- Esqueceste que para chegar a padre é preciso estudar muitos anos e a velha não dura muito!
- Pode não durar muito mas tem dentes de ouro!

(esta história de domingo começou com uma coisa que se me meteu na cabeça, comprar um jipe usado, 650$00 e, para a semana, se houver sol, continua)

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Nem todos são iguais

Votações na Assembleia da República - 23 de Setembro de 2011
VOTAÇÃO NA GENERALIDADE

1. Projecto de Lei n.º 44/XII/1.ª (PCP) – Determina a aplicação extraordinária de uma taxa efectiva de IRC de 25% ao sector bancário, financeiro e grandes grupos económicos (Altera o Código do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Colectivas, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 442-B/88, de 30 de Novembro);

Rejeitado
Favor – PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD, PS e CDS-PP

2. Projecto de Lei n.º 45/XII/1.ª (PCP) – Tributação adicional sobre a aquisição e a detenção de automóveis de luxo, iates e aeronaves (13.ª alteração à Lei n.º 22-A/2007, de 29 de Junho, que aprovou o Código do Imposto sobre Veículos – ISV – e o Código do Imposto Único de Circulação – IUC);

Rejeitado
Favor – PS, PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD e CDS-PP

3. Projecto de Lei n.º 46/XII/1.ª (PCP) – Tributa as mais-valias mobiliárias realizadas por Sociedades Gestoras de Participações Sociais (SGPS), Sociedades de Capital de Risco (SCR), Fundos de Investimento, Fundos de Capital de Risco, Fundos de Investimento Imobiliário em Recursos Florestais, Entidades não Residentes e Investidores de Capital de Risco (ICR) – (Altera o Estatuto dos Benefícios Fiscais, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 215/89, de 1 de Julho);

Rejeitado
Favor – PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD, PS e CDS-PP

4. Projecto de Lei n.º 47/XII/1.ª (PCP) – Cria uma nova taxa aplicável às transacções financeiras realizadas no mercado de valores mobiliários;

Rejeitado
Favor – PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD, PS e CDS-PP

5. Projecto de Lei n.º 48/XII/1.ª (PCP) – Cria uma sobretaxa extraordinária em sede de IRC (Alteração ao Código do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Colectivas, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 442-B/88, de 30 de Novembro);

Rejeitado
Favor – PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD e CDS-PP
Abstenção – PS

6. Projecto de Lei n.º 49/XII/1.ª (PCP) – Fixa em 21,5% a taxa aplicável em sede de IRS às mais-valias mobiliárias (Altera o Código do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 442-A/88, de 30 de Novembro);

Rejeitado
Favor – PS, PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD e CDS-PP

7. Projecto de Lei n.º 50/XII/1.ª (PCP) – Cria um novo escalão para rendimentos colectáveis acima de 175000 euros e tributa de forma extraordinária dividendos e juros de capital (Altera o Código do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 442-A/88, de 30 de Novembro);

Rejeitado
Favor – PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD, PS e CDS-PP

8. Projecto de Lei n.º 51/XII/1.ª (PCP) – Tributação adicional do património imobiliário de luxo (Alteração ao Decreto-Lei n.º 287/2003, de 12 de Novembro, que aprovou o Código do Imposto sobre Transacções Onerosas – IMT – e o Código do Imposto Municipal sobre Imóveis – IMI);

Rejeitado
Favor – PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD e CDS-PP
Abstenção – PS

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