quinta-feira, 17 de maio de 2012

Cá nos vamos aguentando


Se os baixos salários, os impostos altos, o trabalho precário e a economia controlada por interesses privados fossem a solução para a crise, a crise nunca teria chegado a Portugal. Mais: Portugal seria o país mais desenvolvido e próspero da Europa.

Se fosse na inovação tecnológica que estivesse o futuro ? e a salvação ? de Portugal, e estando o país atascado em telemóveis, computadores (sem esquecer os Magalhães), IPODs, IPADs, internet e cliques a torto-e-a-direito, certamente que teria aumentado a produção de carne, cereais, fruta, legumes, aço, leite, sapatos, camisolas, componentes electrónicos, agulhas e alfinetes. E o peixe pescado por nós seria a nossa principal fonte de proteínas. Um enter e nasce a bezerra; dois cliques e cresce o trigo; um copy and paste e apanha-se um cardume. E seria sempre a aviar.

Se aumentar os impostos correspondesse a arrecadar mais receita fiscal, o Estado estaria rico. Ora, se o Estado, depois de ter aumentado brutalmente os impostos, está a arrecadar menos 5,8% em relação ao que se verificava há um ano, é porque alguém chamado Vítor não percebe nada disto. Ou finge que não percebe.

Se os bancos, que são os principais responsáveis pela dívida externa portuguesa ? e não o Estado, como gostam de fazer crer ?, já que se financiaram no estrangeiro para, por sua vez, financiarem a compra de casa própria pelos portugueses, se alambazaram ao avaliar as casas e a aplicar os seus vorazes spreads, que resolvam, então, a bolha imobiliária que está a rebentar-lhe nas mãos. Para não sermos todos nós, outra vez, a cobrir os riscos do negócio bancário. Que é privado, como sabemos. Ou privados serão, apenas, os lucros?

Se, após cinco anos numa empresa, um trabalhador português apenas recebe 34% (cerca de um terço) do que um alemão recebe quando perde o emprego, e 46,9% (menos de metade) do que recebe um espanhol, está mesmo a ver-se que só quando a indemnização for zero é que Portugal passará a ser um país desenvolvido e próspero. Calma, que está quase.

Posto isto, recordemos Miguel Torga. Há cinquenta e um anos, afirmou:

É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão. Somos, socialmente, uma sociedade pacífica de revoltados.

Se isto foi dito há mais de 50 anos, em plena ditadura (a tal longa noite fascista, que durou 48 anos), e serve que nem luva nos dias que correm, será que vivemos, há 38 anos, uma longa noite? democrática? E que ainda seremos capazes de aguentar mais dez?
Se não fôssemos tão mansos, o que é que gostaríamos de ser? 

 Crónica do João Carlos Pereira lida nas ?Provocações? da Rádio Baía em 16/05/2012.

Embora não os aguente, cá me vou aguentando como posso. Um abraço a todos os fiéis leitores que continuam a aguentar-me.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Diário da beira da estrada


Tanta gente que aqui passa a viajar. Não nos vemos. Eu sei que eles vão e eles sabem que eu estou. Que penso eu deles? Pensarão eles em quem vive nesta casa?
Sou agora outro homem. Puseram na minha aldeia o ruído da cidade.
Aquele vai cá numa brasa!
Isso é que aquele leva uma velocidade!
Está cara a gasolina!
Olha um deles numa limusina!
Isso é que aquele leva uma carrada!
Olha lá vai a brigada!
Outra vez o INEM!
Ganda BM!
Ganda camião!
Que irão a pensar? Para onde irão? 
Aquele deve de ir de férias para norte!
Aquele deve de ir buscar porcos ao oeste!
Olha a sorte que me deste querido progresso:
A minha aldeia ferida num país em retrocesso.
Se os pássaros sobreviverem, também hei-de sobreviver. 
Só não posso garantir se continuarei a cantar e a escrever.
Para onde irá aquele? Aquele andará a fazer o quê?
Não anda a fazer nada! Anda só a chatear as gentes da beira da estrada!
Puta é a icê! Nunca está calada!

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Desemprego surpreendente

- Portugal tem de ser mais competitivo.
- A competividade é maior se forem menores os custos do trabalho. 
- Quanto mais desempregados existirem, mais barata é a mão de obra.
- Facilitando os despedimentos, aumenta o emprego.
É assim que eles pensam. E, no entanto, ninguém questiona que, quando eles se dizem surpreendidos com os números do desemprego, estão a querer dizer que esperavam que eles fossem ainda maiores.

Não contaram com o surto de emigração?!
- Quem não está contente, emigre.
- A emigração é uma mais valia para o país.
 Meus caros, não se pode querer tudo! Queriam emigração? Agora não têm o desemprego que desejavam!

Já sou recorrente nesta mas tenho de a repetir:
A ideia central desta corja que sobreviveu ao fim do Estado Novo e que faz agora o seu voo de abutre é:
Quanto pior viverem as pessoas melhor vive o seu país.



domingo, 6 de maio de 2012

Mães há muitas

Enquanto os nossos pais faziam o" sol a sol" por conta dum patrão, as nossas mães tratavam da comida, da roupa, da horta, da seara, da eira, do celeiro, das compras, das vendas, do ror de cabeças de gado, da catrefa de filhos, de tudo. Quando nos perguntavam a profissão da mãe, nós respondíamos: doméstica.
A minha era uma mulher sabida da vida porque ficou orfã de pai aos quatro anos e de mãe aos nove e os irmãos fugiram para o Brasil. A tua era uma mulher sabida da vida porque ficou orfã de mãe aos três dias e o pai desapareceu para o Brasil. De tão iguais que eram na vida, na sorte, na prole, na sabedoria e na humildade, talvez, sem sabermos, nos tenham unido para que tu fosses a mãe dos meus filhos.
Só que agora os tempos são outros: sou eu que faço tudo e tu só fazes compras e conversas com as amigas.
"- Mas que merda de história vem a ser esta?!"
- Não escrevas o que eu não disse, eu perguntei: "mas o que é isto?!"
- Pois, mas isto é uma técnica que agora eu utilizo para evitar que outras pessoas utilizem as minhas histórias. Se eu escrever "merda" ou coisa parecida, a história fica borrada e já ninguém se vai servir dela ou apreciá-la como "bonita!...". Não gosto que adjectivem as coisas com "bonita!...". Penso sempre que se estão a referir a ti!
- Bonito!
- Cala-te mãe! O blogue é meu e eu é que mando nele!
- Estás bonito, estás!
- Hoje é dia da mãe?!

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Doce 1º de Maio

Por  estranha coincidência o local de concentração para o desfile foi à saída dum Pingo Doce. O povo que saía com os carrinhos de compras entrecruzava-se com o povo que envergava bandeiras e cartazes. O povo que passava com as compras esboçava satisfação de ter realizado bom negócio e o povo que se preparava para a marcha mostrava-se satisfeito por ver a manifestação composta. Pareciam ignorar-se mutuamente como se de dois povos diferentes se tratasse.
"Dê-me licença senhor!"; "Deixa passar a senhora camarada!"; "Viste! Ganhámos duzentos euros!... Estes estão a manifestar-se para quê!?..."; " Já somos mais de mil!... Parece que há ali uma grande promoção no Pingo Doce!..."
Chegou mais polícia, pensámos que era pelo facto dos manifestantes ultrapassarem os números previstos. Mas, afinal, entraram para o centro comercial - um desentendimento entre clientes do supermercado.
O desfile partiu deixando espaço livre aos carrinhos de compras. Só soubemos que o grande acontecimento do dia tinha sido a promoção do Pingo Doce e não as manifestações que ocorreram por todo o país, quando nos contaram já em casa. 
Mandem  lixar o Soares dos Santos, querem ouvir a nossa história?
Estávamos já no autocarro de regresso. O "marcamos às seis para sair às seis e meia" fora um mau prenúncio: falta sempre alguém; há gente que não se importa de fazer esperar os outros; podem ter-se perdido; se calhar não sabem que é aqui; isto é o que mais me irrita nestas coisas; faz parte; falta sempre alguém...
Faltava eu: contei os passageiros que estavam no exterior do autocarro em rodas de espera, contei os lugares vazios e fui ter com o chefe de viatura que também estava lá fora.
- Ouve lá! Mas para arrancar não faltam só vocês?!
Entraram. Afinal, há mais de um quarto de hora que estávamos todos, só que ninguém quis acreditar.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Meu Maio


Amanhã é o dia em que todos os trabalhadores devem unir-se e demonstrar a sua força.

A todos
Que saíram às ruas
De corpo-máquina cansado,
A todos
Que imploram feriado
Às costas que a terra extenua –
Primeiro de Maio!
O primeiro dos Maios!
Saudai-o enquanto harmonizamos voz em canto
Meu mundo, em primaveras,
Derrete a neve com sol gaio.
Sou operário –
Este é o meu maio!
Sou camponês – Este é o meu mês.
Sou ferro –
Eis o maio que eu quero!
Sou terra –
O maio é minha era!
Vladimir Maiakovski

domingo, 29 de abril de 2012

Cortaram-me a televisão

Podiam cortar-me a água, a luz, o telefone, a barba, nunca pensei é que me pudessem cortar a televisão! E atenção que não foi por falta de pagamento. Sabemos que se não pagarmos a taxa cortam-nos a energia eléctrica!

Ontem, porque foi sábado e chovia, liguei o televisor. Chuva no ecrã. Não dava. Fui com ela ao técnico. Riu-se a antenas despregadas.
- Então não sabe?! Tem de comprar TDT!
- TNT?! Pois!... Fazer explodir o velho para comprar um novo!...
- Não homem! Então não tem visto a publicidade?!
- Qual publicidade qual carapuça! Não ligo a propaganda e, a televisão, só a ligo quando estou com insónias!...

Estupefacto pela minha ignorância explicou-me tudo: técnica digital, técnico de instalação, cem euros...
- Cem quê?!... Vou informar-me melhor!...

E lá fui. Alta definição o raio que os parta! Alto negócio:
Umas coroas para os instaladores porque precisam de viver; um negócio para os vendedores porque precisam de vender; muitas encomendas para os fabricantes porque precisam de produzir; um grande negócio para a PT porque precisa de dar grande vida aos accionistas mas... e o governo?!... sujeita um povo inteiro, reformados com duzentos euros mensais de rendimento, a esta despesa?!... Não! O governo é, para já, o principal beneficiado com o fim das emissões analógicas de televisão, já que encaixou 270 milhões de euros (mais 84 milhões de IVA por negócio de venda de equipamentos) com o leilão para atribuir as frequências que vão ficar libertas às operadoras de telemóvel. Estas, por sua vez, pagam mas irão beneficiar  de mais serviços de banda larga móvel que são actualmente o seu principal negócio. Isto é, só o zé é que se lixa!

Ora eu, porque pago mensalmente a taxa de audiovisuais, porque me estou nas tintas para a alta definição, porque mentalmente sou mais analógico do que digital, queria reclamar mas, como nestes assuntos não são reconhecidos direitos ao cidadão, como neste país as taxas se confundem com impostos e se pagam quer se seja utilizador ou não, não tenho outra solução: pago, não bufo e, porque não me rendo, vou deixar de ter televisão!
- Sabem para que me faz falta a televisão?! Para adormecer!

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Uma história sem piada



No jardim do Cardal existe um lago circular com uma estátua ao meio, não me lembro se com um peixe a deitar água pela boca, se com um menino a mijar. O lago é rodeado por um passeio com várias ramificações e limitado por um conjunto de colunas de pedra que formam uma pérgula que dá caminho às trepadeiras.
Nós passávamos ali todos os dias a caminho de outros cantos do jardim, com os livros de filosofia e química debaixo do braço e, todos os dias, estava um velho sentado no mesmo banco. Tive intenções de um dia falar com aquele velho mas nunca o cheguei a fazer. Não me lembro se o velho olhava para nós, para o jornal ou para a estátua.

Passou um grupo de jovens de mochila às costas e telemóvel na mão, um deles sorriu-me. 
A esta distância não consigo ver se está um peixe a deitar água pela boca ou um menino a mijar, quanto mais ler um jornal! 
Porra! Mijei-me todo! Provavelmente achei piada a alguma coisa que me passou pela cabeça! O pior é que já não me lembro da piada nem se algum dia passei por este lago e tive intenções de falar com um velho que estava aqui sentado! Não importa! Se não falei então, falo agora! Isto de um tipo falar sozinho dá nestas histórias.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Onde é que eu estava no 25 de Abril

Gosto desta fotografia. Infelizmente não consigo identificar o autor mas identifico-me por completo na personagem: poderia ser eu, senão sou mesmo, esta criança - a idade, a estatura, o porte, a vestimenta, o olhar, o pensamento e aquela parede à minha frente.

No caso que recordo, e só isto me prova que esta criança não sou eu, a pichagem tinha escrito:

O 1º DE MAIO É VERMELHO. O 25 de Abril tinha sido há oito dias e nós, putos do ciclo, ao fim de uma semana, já estávamos politicamente informados da razão porque não tínhamos tido aulas no dia anterior, tratava-se de um feriado que era proibido e que festejava o Dia do Trabalhador.

No Terreiro, em Leiria, havia um muro alto e branco e sobre ele pintaram com letras grandes e vermelhas a frase: O 1º DE MAIO É VERMELHO.

Eu e os meus camaradas, que regressávamos da escola, nunca tínhamos visto nada assim - escrever na parede?! Para quê?! E depois a frase parecia não ter sentido algum! Sim, ontem foi 1º de Maio, o tal feriado novo! Mas vermelho porquê?! Desde quando é que um dia tem cor?! Ainda por cima vermelho! Porque não preto, cinzento, verde, amarelo?!

É por esta história que eu sinto esta fotografia. Daí a meia dúzia de dias, as paredes pintadas deixaram de ser novidade e o país ficou colorido. Anos mais tarde, adolescente com gavetas de "escrivanças", eu assumia o gosto que os outros já reprovavam:

"Já não gosto das casas bem caiadas porque só falam delas. Gosto mais das paredes da propaganda
porque falam comigo quando passo por elas.
Ouçam só a algazarra que elas erguem:
- hoje há isto! – amanhã há aquilo!
- este é este! – este é aquilo!
- isto é isto! – isto é aquilo!

Só o poeta leva para casa a tinta macabra,
Só o poeta leu o que lá não estava,
E também o poeta levou uma palavra:
- VOTA EM MIM!

Uma rua é um livro,
Em cada folha, um dia diferente,
Em cada frase, um verso dizente
E uma parede por fora é de toda a gente!"

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Sabem o que é um paquímetro?

Reforma Curricular anual acaba com a Educação Tecnológica. A reforma do ano que vem acabará com a Educação Moral e Religiosa?!

Para se ter futuro num país de diplomados é indispensável  saber a forma resolvente, saber que o Carlos Maia tinha uma relação incestuosa com a irmã, o nome das peças do microscópio, que a pequena área de um campo de basquete tem de ter três por três e saber, pelo menos, dizer "assim seja" em hebraico e "sim" em inglês. Num país que compra tudo feito não tem interesse distinguir um martelo dum paquímetro, até porque essas coisas nos apartamentos provocam manchetes no Correio da Manhã:
- Atirou martelo contra o televisor quando o professor dizia "mais grave que os despedimentos é não haver emprego".
- Marido fere mulher quando lhe media o dedo mindinho com um paquímetro.

Para que raio queria ele saber a medida do dedo mindinho? Ainda bem que eu sei o que é um martelo!
Estou a ser porco!? Não, não tenho nenhum problema de Educação, estou só a lembrar-me duma porca! Sabem o que é?! E um paquímetro?! Não, não é aquela coisa onde se põem moedas para o estacionamento!

sábado, 14 de abril de 2012

Descubra as diferenças

Diferença: já não bebem água.
Semelhança: os três, de baixo e de cima, parecem ser os mesmos, o que está a agarrar o telefone é que, pelo punho da camisa, parece ser outro. Será?
Imagem recebida por e-mail

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Espírito Santo e os Pink Floyd

Preparou o carro, a bagagem e a família para a viagem. O carro era o grande investimento da sua vida, o cumprimento de um sonho comum. O passeio seria o primeiro da família em automóvel e o destino o cumprimento de uma promessa antiga.

Quando jovem, fora de comboio três temporadas fazer rancho para a faina do arroz. Sentira o cheiro do suor dos trabalhadores que, com ele, faziam a faina do arroz. Sentira o cheiro do dinheiro do banqueiro Espírito Santo nas lamas da faina do arroz. Ao fim de tantos anos, voltar à herdade da Comporta, era o pagamento de uma dívida que tinha com a sua memória, uma obrigação de testemunho que devia ao filho, uma aventura que lhe poderia facultar o prazer de reencontrar velhos amigos que ficaram sadinos.

Em troca das velhas histórias que fez ouvir durante a viagem, teve de gramar com as músicas do filho que explorava a novidade do gravador de cassetes. Em cada trinta quilómetros a cassete  pirata era virada ou substituída: Atom Heart Mother - Pink Floyd; Close to the Edge – Yes; Deja Vu - Crosby, Stills, Nash and Young; Rattus Norvegicus - Stranglers.

Chegados, tiveram casa porque Carminda Rego reconheceu o velho amigo e o velho amigo reconheceu Carminda Rego. “Tu a certa altura desapareceste!...”;“Fui presa!...”; “Isto ainda é do Espírito Santo?”; “ Isto agora é nosso, companheiro! Foi nacionalizado!…”

De regresso à terra contente de rever e de cumprir, orgulhoso do comportamento da família e do carro calhou dizer “ eu posso não voltar mais, mas este carro...”

Preparou o carro, a bagagem e a família para a viagem. O carro fora o grande investimento da vida de seu pai. Estimara-o após a sua morte e por ele se fez sócio do Automóvel Clube de Portugal. Este era o tempo de voltar com ele a Comporta, de poder voltar a ouvir as velhas cassetes, de fazer transferir, via pai, memórias de avô para neto.

Entusiasmaram-se com a aventura de ir tão longe no velho carro, gramaram ouvir as velhas cassetes, encheram-se de histórias de arroz e alojaram-se no aldeamento Casas da Comporta. Não encontraram sinais de Carminda Rego mas viram o poder do Espírito Santo.
Regressaram hoje a casa, de comboio.
- Pai! Não penses mais nisso! Já estava tão velho!
- Estou velho demais para me preocupar com o carro! Já nem me lembro da marca dele! Eu estou aqui é a pensar no que é que o Mistério da Santíssima Trindade tem a ver com o regresso do Espírito Santo à Comporta!...
- Pai!...
- Filho!...
E dito isto benzeu-se em voz alta e pensou que era Abril.

(A Herdade da Comporta é a maior herdade privada existente em Portugal)

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Estou pascoado de todo

A mim ninguém me come! Sobretudo hoje, sexta feira santa! Não comam porco, comam coelho!  Este blogue está pregado a uma cruz! Há-de ressuscitar um dia destes! Tenham paciência! O Rei há-de voltar! Não se deixem comer pelo coelho! Boa Páscoa a toda a fidalguia!


Vai-te rir pró carvalho!

quarta-feira, 28 de março de 2012

O meu primeiro acto subversivo

76, o país acabava de comer a fome de si próprio. Para evitar os manuais escolares saídos da revolução, os padres e irmãos, lentes liceais, ditavam aulas de apontamentos infindáveis.
100 folhas A5 X 10 disciplinas X 14 alunos – 14000 folhas de conhecimento.
Já há alguns meses que, sob o meu entusiasmo liderante, a turma vinha assentando pormenores - a vingança servir-se-ia assim: no final do ano lectivo, realizadas as provas, faríamos de cada folha um barco de papel.
E assim fizemos durante um dia inteiro. Secretamente, dobrámos, redobrámos e acondicionámos a força naval. No dia seguinte avançámos sobre o rio e, num trabalho de horas, lançámos, uma a uma, cada embarcação ao destino da corrente. O efeito pretendido era que a enorme frota surpreendesse os transeuntes do centro da cidade, no troço onde as margens desaparecem amuralhadas para mostrar ao rio o poder do povo e fosse até, quem sabe, notícia da Voz do Domingo.
Cumprido o ritual da partida, num sítio onde o rio ainda era rio de margens verdes, corremos por aí abaixo, até à ponte da imagem dos postais, para apreciar o efeito e o resultado de tão grandioso feito, quer nas pessoas, quer no curso fluvial.
Demorou algum tempo até que chegassem os primeiros e, quando veio o grosso, contabilizámos o efeito do grande feito. A idade e o contentamento deram para uns saltos e uns agitamentos que não disfarçaram a autoria. Um velho que passeava e compreendeu, largou um riso; duas ou três crianças juntaram-se-nos; dois ou três peões sorriram.
Não rendido, um de nós ainda disse “devíamos ter feito antes um telefonema anónimo para o jornal!”
A partir daqui todos os meus actos subversivos foram secretos e consequentes - ou não tivesse eu aprendido com os espaços mentais que deixei livres por tanto conhecimento que deitei ao rio - lamentando apenas a perda daquele que, por ser mais valoroso, acabou por desaguar no oceano.
da história "Todas as manhãs"

segunda-feira, 26 de março de 2012

No outro lado da luta

Este cartaz da JSD é porco, por isso o trago aqui. Pretende fazer passar a imagem que a juventude não tem direitos porque a geração mais velha os adquiriu para si; que se houver flexibilidade laboral os mais novos, porque mais novos, serão mais empreendedores e darão lugar aos velhos que só estão a ocupar lugar; que existirão oportunidades de emprego para os mais novos se os mais velhos forem para o desemprego. Novas soluções?! Não, nova ofensiva dos que estão do outro lado da luta!
Também porca a ideia de utilizarem na imagem os megafones, como se a sua voz também se ouvisse na avenida da liberdade e não, onde os seus velhos a amplificam exaustivamente - a televisão é deles, a rua é nossa! Os nossos direitos não são nossos, são de todos! A JSD é só de alguns.

sábado, 24 de março de 2012

O bilhete

Aos treze-catorze, duas ou três vezes por Verão, conseguíamos reunir as devidas autorizações familiares para irmos, de bicicleta, fazer os quarenta e tal quilómetros, de ida e volta, à nascente do Alviela, um dia de banhocas, sandes de atum com não mais que vinte escudos a cada um. Já mais crescidos e com rendimentos de biscate, com idêntica frequência, começámos a tomar o comboio para a Figueira. Fazíamos praia na esplanada da Sagres esbanjando em canecas e bivalves todos os valores líquidos do nosso suor, mandando umas bocas uns aos outros, uns piropos a quem merecia e, assim, nos divertíamos rudemente – nas apreciações que, por vezes, se topavam de alguns observadores não passávamos de um rapazes grosseirões e inofensivos de Trás dos Matos.
Foi num dos regressos destes dias que, depois de apearmos na estação das nossas bandas, a história se enredou.
Era norma da CP ter um funcionário à porta da estação a recolher os bilhetes dos passageiros. Por nenhuma razão, nem me dei ao trabalho de pôr a mão ao bolso e passei descontraído, entre a leva, sem entregar o meu bilhete. Aguardava cá fora quando me apercebi que havia bronca no cais entre os meus e o ferroviário de serviço. Voltei a passar a porta que dava para o cais para me inteirar das razões do chinfrim. O Gaio, rodeado pelo grupo, dizia: “ouça meu caro senhor, já lhe disse que não tenho o meu bilhete!”
- Nesse caso terá de pagar!
- Mas eu tirei bilhete só que não o tenho!
Fez-se-me logo a luz fácil.
- É meu amigo, viajámos juntos, fui eu que guardei os bilhetes, o bilhete dele está aqui!
Disse eu exibindo o meu bilhete, satisfeito por ter resolvido o problema com uma impunível mentira. Mas o Gaio tinha problemas.
- Não! Não! Não se acredite no meu amigo! Ele está a mentir-lhe! Esse bilhete não é o meu é o dele!
Risada geral, eu tentando arranjar uma cara de reacção, o ferroviário, multiplicando expressões de rosto começou a debitar sentenças enquanto o Gaio, repetidamente, afiançava a minha mentira. Estava o imbróglio montado não tardando, com o aquecimento, o final com fuga em debandada.
Só eu, do grupo, armado em rapaz sério e sereno, fiquei por ali tentando acalmar esfarrapadamente o zeloso funcionário, valeu-me o feito a toutiçada que parece que ainda hoje sinto, nunca tendo conseguido apurar para mim próprio se foi merecida ou imerecida.
Ainda hoje, quando a malta se junta, episódios semelhantes podem acontecer, juntos conseguimos ser ainda crianças, rapazes grosseirões – Vá lá! Reprovem-nos!...