Muitas vezes conhecer a realidade dói. Muitas vezes ocultar a realidade é preferível. Dói-me vê-la, quero partilhá-la. Talvez assim possamos lutar juntos contra ela. Hoje é no Brasil, amanhã pode ser em Portugal.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Duma violência extrema
Todo o cuidado é pouco quando se reproduzem imagens destas. Hesitei antes de decidir a sua reprodução.
Muitas vezes conhecer a realidade dói. Muitas vezes ocultar a realidade é preferível. Dói-me vê-la, quero partilhá-la. Talvez assim possamos lutar juntos contra ela. Hoje é no Brasil, amanhã pode ser em Portugal.
Muitas vezes conhecer a realidade dói. Muitas vezes ocultar a realidade é preferível. Dói-me vê-la, quero partilhá-la. Talvez assim possamos lutar juntos contra ela. Hoje é no Brasil, amanhã pode ser em Portugal.
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Puta da Conjuntura
Sinto-me sem pachorra para "postar". A culpa é da
Conjuntura! A Conjuntura é tão...tão... que não tem adjectivação que se lhe adjective. Vivo com a Conjuntura desde que me fiz ser, pessoa, cidadão. Nunca vi a
Conjuntura como agora: vive em Cascais e no Intendente; é secretária do governo
e trabalha na caixa do Continente; é formada em letras e não sabe escrever;
acusa 0,0 no balão e tem uma adega; tem um Jaguar e deve a conta do
pão; constrói a pobreza e exalta o patrão; cultiva os humildes e gaba-lhes a
inveja; compra roupa de marca e põe esmola na Igreja...
A minha relação com a Conjuntura é para toda a Vida - assim seja! Sou um Corno da Conjuntura! Fui traído pela Conjuntura! Não me resta outra saída senão viver o resto dos meus dias com a Conjuntura! Puta da Conjuntura! Puta que pariu a Conjuntura!
« E agora estou perdido!
Devo parar?
- Não, se páras, estás perdido.» (Goethe: Poemas.)»
A minha relação com a Conjuntura é para toda a Vida - assim seja! Sou um Corno da Conjuntura! Fui traído pela Conjuntura! Não me resta outra saída senão viver o resto dos meus dias com a Conjuntura! Puta da Conjuntura! Puta que pariu a Conjuntura!
« E agora estou perdido!
Devo parar?
- Não, se páras, estás perdido.» (Goethe: Poemas.)»
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Faça um manguito, está a ser observado.
Com tanta gente a observar, quem é que trabalha?
Observatório do medicamento e dos produtos da saúde
Observatório nacional de saúde
Observatório português dos sistemas de saúde
Observatório da vida nas escolas
Observatório do ordenamento do território
Observatório do comércio
Observatório da imigração
Observatório das famílias e das políticas de família
Observatório permanente da juventude
Observatório nacional da droga e toxicodependência
Observatório europeu da droga e toxicodependência
Observatório geopolítico das drogas
Observatório do ambiente
Observatório das ciências e tecnologias
Observatório(s) do turismo (há 'n'!)
Observatório para a igualdade de oportunidades [ e o das Desigualdades?]
Observatório da imprensa
Observatório das ciências e do ensino superior
Observatório dos [trajectos dos] estudantes do ensino superior
Observatório da qualidade em serviços de informação e conhecimento
Observatório da comunicação
Observatório das actividades culturais
Observatório local da Guarda
Observatório(s) de inserção profissional
Observatório do emprego e formação profissional
Observatório nacional dos recursos humanos
Observatório regional de Leiria
Observatório permanente do ensino secundário
Observatório permanente das escolas (acrescentado à lista original)
Observatório permanente da justiça [portuguesa]
Observatório estatístico de Oeiras
Observatório da criação de empresas
Observatório Mcom
Observatório têxtil
Observatório da neologia do português
Observatório de segurança [, criminalidade organizada e terrorismo]
Observatório da segurança humana (acrescentado à lista original)
Observatório do desenvolvimento do Alentejo
Observatório de cheias
Observatório de secas (acrescentado à lista original)
Observatório da sociedade de informação
Observatório da inovação e conhecimento
Observatório da qualidade em serviços de informação e conhecimento
Observatório das regiões em reestruturação
Observatório das artes e tradições
Observatório de festas e património
Observatório dos apoios educativos
Observatório da globalização
Observatório do endividamento dos consumidores
Observatório do sul Europeu
Observatório europeu das relações profissionais
Observatório transfronteiriço Espanha-Portugal
Observatório europeu do racismo e xenofobia
Observatório dos territórios rurais
Observatório dos mercados agrícolas [e das importações agro-alimentares]
Observatório virtual da astrofísica
Observatório nacional dos sistemas multimunicipais e municipais
Observatório da segurança rodoviária
Observatório das prisões portuguesas
Observatório nacional dos diabetes
Observatório de políticas de educação e de contextos educativos
Observatório ibérico do acompanhamento do problema da degradação dos povoamentos de sobreiro e azinheira
Observatório estatístico
Observatório dos tarifários e das telecomunicações
Observatório da natureza
Observatório qualidade
Observatório da literatura e da literacia
Observatório da inteligência económica
Observatório para a integração de pessoas com deficiência
Observatório da competitividade e qualidade de vida
Observatório nacional das profissões de desporto
Observatório das ciências do 1º ciclo
Observatório nacional da dança
Observatório da língua portuguesa
Observatório de entradas na vida activa
Observatório europeu do sul
Observatório de biologia e sociedade
Observatório sobre o racismo e intolerância
Observatório permanente das organizações escolares
Observatório médico
Observatório solar e heliosférico
Observatório do sistema de aviação civil
Observatório da cidadania
Observatório da segurança nas profissões
Observatório da comunicação local
Observatório jornalismo electrónico e multimédia
Observatório urbano do eixo atlântico
Observatório robótico
Observatório permanente da segurança do Porto
Observatório do fogo
Observatório da comunicação (Obercom)
Observatório da qualidade do ar
Observatório do centro de pensamento de política internacional
Observatório ambiental de teledetecção atmosférica e comunicações aeroespaciais
Observatório europeu das PME
Observatório da restauração
Observatório de Timor Leste
Observatório de reumatologia [doenças reumáticas?]
Observatório da censura
Observatório do design
Observatório da economia mundial
Observatório do mercado de arroz
Observatório da DGV
Observatório de neologismos do português europeu
Observatório para a educação sexual
Observatório para a reabilitação urbana
Observatório para a gestão de áreas protegidas
Observatório europeu da sismologia
Observatório nacional das doenças reumáticas
Observatório da caça
Observatório da habitação
Observatório do emprego em portugal
Observatório Alzheimer
Observatório magnético de Coimbra
E ainda:
Observatório sobre crises e alternativas
Observatório do risco
Observatório para a política da diversidade cultural e religiosa na europa do sul
Observatório sobre género e violência armada
Observatório das políticas de educação e formação
Observatórios sortidos na área da saúde (o "baptismo" deste é meu)- http://www.portaldasaude.pt/portal/servicos/pesquisa/resultados?q=observat%C3%B3rio
http://espectadorinteressado.blogspot.pt/2012/05/observando-os-observatorios.html#more
Observatório sobre crises e alternativas
Observatório do risco
Observatório para a política da diversidade cultural e religiosa na europa do sul
Observatório sobre género e violência armada
Observatório das políticas de educação e formação
Observatórios sortidos na área da saúde (o "baptismo" deste é meu)- http://www.portaldasaude.pt/portal/servicos/pesquisa/resultados?q=observat%C3%B3rio
http://espectadorinteressado.blogspot.pt/2012/05/observando-os-observatorios.html#more
Incrédulo, ainda ainda googlei - existe tudo!
domingo, 20 de maio de 2012
Quem tem um patrão tem tudo
Por favor senhor Coelho não me despeça que preciso de ganhar
a vida!
Sim, pode baixar-me o salário - a crise quando toca, toca a
todos! …
Sim, posso trabalhar mais umas horas – temos de baixar os
custos do trabalho! …
Mas por favor senhor Coelho não me despeça!
Eu sei que exagerei, fui dois anos seguidos para a praia, fui
à Galiza numa excursão de tachos. Como se não bastasse, pedi dinheiro ao banco,
meti-me num apartamento e comprei um carro alemão.
Tenho contas a pagar, por favor senhor Coelho não me
despeça!
Lá em casa já tenho dois no desemprego e já não tenho força
para emigrar.
O filho estudou não sei para quê, a mãe fez uma greve e veio
para a rua.
Tenho de sustentar aquela gente senhor Coelho! ….
Prometo que não
vou em sindicatos e que venho trabalhar no 1º de Maio.
Mas por favor
senhor Coelho, não me despeça!
Sim senhor Coelho!
Este governo é muito bom!
Este era o único país
da Europa onde não se trabalhava no 1ºde Dezembro!
A Inglaterra por exemplo,
não festeja o dia da República! ...
Sim senhor Coelho,
vivemos acima das nossas possibilidades!
A malta estava
cheia de regalias! As greves é que deram cabo disto tudo!
Este governo é
muito competente Senhor Coelho!
A malta queria
médicos à borla e escola para os filhos sem pagar!
Mas por favor
senhor Coelho não me despeça!
A vida está má
para os pobres mas os ricos também têm dificuldades!
Por favor senhor Coelho
não me despeça!
Quer que eu dê umas voltas a ver por onde anda a sua mulher?
Com certeza Senhor
Coelho! Eu faço tudo desde que não me despeça! ...
Quer dar umas
voltas comigo?!
Aí paras Coelho!
Espero sinceramente
que chegue a altura em que o povo diga não!
Entretanto, segundo
as sondagens, os partidos que nos trouxeram até aqui continuam a liderar as
intenções de voto.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Novíssimas oportunidades
Foi Sócrates que abriu o caminho aos passos que Passos dá. Passos acaba com as Novas Oportunidades, ordena a transferência em massa dos professores envolvidos para a iniciativa Novíssimas Oportunidades. Se nas primeiras o mote era "se não estudaste em novo, ao menos estuda em velho", nas segundas é "se não tens emprego, inventa-o".
... mas como há gente com mais imaginação e talento que eu, não resisti em publicar aqui um excerto do dum texto lido no Nós Temos Vacas no Jardim:
mas como há gente com mais imaginação e talento pelo que eu não resisti em publicar aqui um excerto do texto do Ricardo Araújo Pereira, sobretudo depois de muitos já lhe gritarem aos ouvidos, "Passos Ladrão, o teu lugar é na prisão".
"Sigamos o exemplo de Passos Coelho e descortinemos oportunidades em todas as desgraças. Porquê ficar apenas pelo desemprego? Os acidentes rodoviários são uma oportunidade para trocar de carro. Os incêndios são uma oportunidade para organizar uma grande churrascada com amigos. As cheias são uma oportunidade para fazer um passeio de barco bem romântico. E a cadeia é uma oportunidade para descansar e descobrir novas sensações no duche".
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Cá nos vamos aguentando
Se os baixos salários, os impostos altos,
o trabalho precário e a economia controlada por interesses privados fossem a
solução para a crise, a crise nunca teria chegado a Portugal. Mais: Portugal
seria o país mais desenvolvido e próspero da Europa.
Se fosse na inovação tecnológica que
estivesse o futuro ? e a salvação ? de Portugal, e estando o país atascado em
telemóveis, computadores (sem esquecer os Magalhães), IPODs, IPADs,
internet e cliques a torto-e-a-direito, certamente que teria aumentado a
produção de carne, cereais, fruta, legumes, aço, leite, sapatos, camisolas,
componentes electrónicos, agulhas e alfinetes. E o peixe pescado por nós seria a
nossa principal fonte de proteínas. Um enter e nasce a bezerra; dois
cliques e cresce o trigo; um copy and paste e apanha-se um
cardume. E seria sempre a aviar.
Se aumentar os impostos correspondesse a
arrecadar mais receita fiscal, o Estado estaria rico. Ora, se o Estado, depois
de ter aumentado brutalmente os impostos, está a arrecadar menos 5,8% em relação
ao que se verificava há um ano, é porque alguém chamado Vítor não percebe nada
disto. Ou finge que não percebe.
Se os bancos, que são os principais
responsáveis pela dívida externa portuguesa ? e não o Estado, como gostam de
fazer crer ?, já que se financiaram no estrangeiro para, por sua vez,
financiarem a compra de casa própria pelos portugueses, se alambazaram ao
avaliar as casas e a aplicar os seus vorazes spreads, que resolvam,
então, a bolha imobiliária que está a rebentar-lhe nas mãos. Para não sermos
todos nós, outra vez, a cobrir os riscos do negócio bancário. Que é privado,
como sabemos. Ou privados serão, apenas, os lucros?
Se, após cinco anos numa empresa, um
trabalhador português apenas recebe 34% (cerca de um terço) do que um alemão
recebe quando perde o emprego, e 46,9% (menos de metade) do que recebe um
espanhol, está mesmo a ver-se que só quando a indemnização for zero é que
Portugal passará a ser um país desenvolvido e próspero. Calma, que está
quase.
Posto isto,
recordemos Miguel Torga. Há cinquenta e um anos,
afirmou:
É um
fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado,
come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Falta-lhe o romantismo
cívico da agressão. Somos, socialmente, uma sociedade pacífica de
revoltados.
Se isto foi dito há mais de 50 anos, em
plena ditadura (a tal longa noite fascista, que durou 48 anos), e serve que nem
luva nos dias que correm, será que vivemos, há 38 anos, uma longa noite?
democrática? E que ainda seremos capazes de aguentar mais
dez?
Se não fôssemos tão mansos, o que é que
gostaríamos de ser?
Embora não os aguente, cá me vou aguentando como posso. Um abraço a todos os fiéis leitores que continuam a aguentar-me.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Diário da beira da estrada
Tanta gente que aqui passa a viajar. Não nos vemos. Eu sei que eles vão e eles sabem que eu
estou. Que penso eu deles? Pensarão eles em quem vive nesta
casa?
Sou agora outro homem. Puseram na minha aldeia o ruído da
cidade.
Aquele vai cá numa brasa!
Isso é que aquele leva uma velocidade!
Está cara a gasolina!
Olha um deles numa limusina!
Isso é que aquele leva uma carrada!
Olha lá vai a brigada!
Outra vez o INEM!
Ganda BM!
Ganda camião!
Que irão a pensar? Para onde irão?
Aquele deve de ir de férias para norte!
Aquele deve de ir buscar porcos ao oeste!
Olha a sorte que me deste querido progresso:
A minha aldeia ferida num país em retrocesso.
Se os pássaros sobreviverem, também hei-de sobreviver.
Só
não posso garantir se continuarei a cantar e a escrever.
Para onde irá aquele? Aquele andará a fazer o quê?
Não anda a fazer nada! Anda só a chatear as gentes da beira da estrada!
Puta é a icê! Nunca está calada!
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Desemprego surpreendente
- Portugal tem de ser mais competitivo.
- A competividade é maior se forem menores os custos do trabalho.
- Quanto mais desempregados existirem, mais barata é a mão de obra.
- Facilitando os despedimentos, aumenta o emprego.
É assim que eles pensam. E, no entanto, ninguém questiona que, quando eles se dizem surpreendidos com os números do desemprego, estão a querer dizer que esperavam que eles fossem ainda maiores.
Não contaram com o surto de emigração?!
- Quem não está contente, emigre.
- A emigração é uma mais valia para o país.
Meus caros, não se pode querer tudo! Queriam emigração? Agora não têm o desemprego que desejavam!
Já sou recorrente nesta mas tenho de a repetir:
A ideia central desta corja que sobreviveu ao fim do Estado Novo e que faz agora o seu voo de abutre é:
Quanto pior viverem as pessoas melhor vive o seu país.
- A competividade é maior se forem menores os custos do trabalho.
- Quanto mais desempregados existirem, mais barata é a mão de obra.
- Facilitando os despedimentos, aumenta o emprego.
É assim que eles pensam. E, no entanto, ninguém questiona que, quando eles se dizem surpreendidos com os números do desemprego, estão a querer dizer que esperavam que eles fossem ainda maiores.
Não contaram com o surto de emigração?!
- Quem não está contente, emigre.
- A emigração é uma mais valia para o país.
Meus caros, não se pode querer tudo! Queriam emigração? Agora não têm o desemprego que desejavam!
Já sou recorrente nesta mas tenho de a repetir:
A ideia central desta corja que sobreviveu ao fim do Estado Novo e que faz agora o seu voo de abutre é:
Quanto pior viverem as pessoas melhor vive o seu país.
domingo, 6 de maio de 2012
Mães há muitas
Enquanto os nossos pais faziam o" sol a sol" por conta dum patrão, as nossas mães tratavam da comida, da roupa, da horta, da seara, da eira, do celeiro, das compras, das vendas, do ror de cabeças de gado, da catrefa de filhos, de tudo. Quando nos perguntavam a profissão da mãe, nós respondíamos: doméstica.
A minha era uma mulher sabida da vida porque ficou orfã de pai aos quatro anos e de mãe aos nove e os irmãos fugiram para o Brasil. A tua era uma mulher sabida da vida porque ficou orfã de mãe aos três dias e o pai desapareceu para o Brasil. De tão iguais que eram na vida, na sorte, na prole, na sabedoria e na humildade, talvez, sem sabermos, nos tenham unido para que tu fosses a mãe dos meus filhos.
Só que agora os tempos são outros: sou eu que faço tudo e tu só fazes compras e conversas com as amigas.
"- Mas que merda de história vem a ser esta?!"
- Não escrevas o que eu não disse, eu perguntei: "mas o que é isto?!"
- Pois, mas isto é uma técnica que agora eu utilizo para evitar que outras pessoas utilizem as minhas histórias. Se eu escrever "merda" ou coisa parecida, a história fica borrada e já ninguém se vai servir dela ou apreciá-la como "bonita!...". Não gosto que adjectivem as coisas com "bonita!...". Penso sempre que se estão a referir a ti!
- Bonito!
- Cala-te mãe! O blogue é meu e eu é que mando nele!
- Estás bonito, estás!
- Hoje é dia da mãe?!
A minha era uma mulher sabida da vida porque ficou orfã de pai aos quatro anos e de mãe aos nove e os irmãos fugiram para o Brasil. A tua era uma mulher sabida da vida porque ficou orfã de mãe aos três dias e o pai desapareceu para o Brasil. De tão iguais que eram na vida, na sorte, na prole, na sabedoria e na humildade, talvez, sem sabermos, nos tenham unido para que tu fosses a mãe dos meus filhos.
Só que agora os tempos são outros: sou eu que faço tudo e tu só fazes compras e conversas com as amigas.
"- Mas que merda de história vem a ser esta?!"
- Não escrevas o que eu não disse, eu perguntei: "mas o que é isto?!"
- Pois, mas isto é uma técnica que agora eu utilizo para evitar que outras pessoas utilizem as minhas histórias. Se eu escrever "merda" ou coisa parecida, a história fica borrada e já ninguém se vai servir dela ou apreciá-la como "bonita!...". Não gosto que adjectivem as coisas com "bonita!...". Penso sempre que se estão a referir a ti!
- Bonito!
- Cala-te mãe! O blogue é meu e eu é que mando nele!
- Estás bonito, estás!
- Hoje é dia da mãe?!
sexta-feira, 4 de maio de 2012
Doce 1º de Maio
Por estranha coincidência o local de concentração para o desfile foi à saída dum Pingo Doce. O povo que saía com os carrinhos de compras entrecruzava-se com o povo que envergava bandeiras e cartazes. O povo que passava com as compras esboçava satisfação de ter realizado bom negócio e o povo que se preparava para a marcha mostrava-se satisfeito por ver a manifestação composta. Pareciam ignorar-se mutuamente como se de dois povos diferentes se tratasse.
"Dê-me licença senhor!"; "Deixa passar a senhora camarada!"; "Viste! Ganhámos duzentos euros!... Estes estão a manifestar-se para quê!?..."; " Já somos mais de mil!... Parece que há ali uma grande promoção no Pingo Doce!..."
Chegou mais polícia, pensámos que era pelo facto dos manifestantes ultrapassarem os números previstos. Mas, afinal, entraram para o centro comercial - um desentendimento entre clientes do supermercado.
O desfile partiu deixando espaço livre aos carrinhos de compras. Só soubemos que o grande acontecimento do dia tinha sido a promoção do Pingo Doce e não as manifestações que ocorreram por todo o país, quando nos contaram já em casa.
Mandem lixar o Soares dos Santos, querem ouvir a nossa história?
Estávamos já no autocarro de regresso. O "marcamos às seis para sair às seis e meia" fora um mau prenúncio: falta sempre alguém; há gente que não se importa de fazer esperar os outros; podem ter-se perdido; se calhar não sabem que é aqui; isto é o que mais me irrita nestas coisas; faz parte; falta sempre alguém...
Faltava eu: contei os passageiros que estavam no exterior do autocarro em rodas de espera, contei os lugares vazios e fui ter com o chefe de viatura que também estava lá fora.
- Ouve lá! Mas para arrancar não faltam só vocês?!
Entraram. Afinal, há mais de um quarto de hora que estávamos todos, só que ninguém quis acreditar.
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Meu Maio
Amanhã é o dia em que todos os trabalhadores devem unir-se e demonstrar a sua força.
Que saíram às ruas
De corpo-máquina cansado,
A todos
Que imploram feriado
Às costas que a terra extenua –
Primeiro de Maio!
O primeiro dos Maios!
Saudai-o enquanto harmonizamos voz em canto
Meu mundo, em primaveras,
Derrete a neve com sol gaio.
Sou operário –
Este é o meu maio!
Sou camponês – Este é o meu mês.
Sou ferro –
Eis o maio que eu quero!
Sou terra –
O maio é minha era!
Vladimir Maiakovski
domingo, 29 de abril de 2012
Cortaram-me a televisão
Podiam cortar-me a água, a luz, o telefone, a barba, nunca pensei é que me pudessem cortar a televisão! E atenção que não foi por falta de pagamento. Sabemos que se não pagarmos a taxa cortam-nos a energia eléctrica!
Ontem, porque foi sábado e chovia, liguei o televisor. Chuva no ecrã. Não dava. Fui com ela ao técnico. Riu-se a antenas despregadas.
- Então não sabe?! Tem de comprar TDT!
- TNT?! Pois!... Fazer explodir o velho para comprar um novo!...
- Não homem! Então não tem visto a publicidade?!
- Qual publicidade qual carapuça! Não ligo a propaganda e, a televisão, só a ligo quando estou com insónias!...
Estupefacto pela minha ignorância explicou-me tudo: técnica digital, técnico de instalação, cem euros...
- Cem quê?!... Vou informar-me melhor!...
E lá fui. Alta definição o raio que os parta! Alto negócio:
Umas coroas para os instaladores porque precisam de viver; um negócio para os vendedores porque precisam de vender; muitas encomendas para os fabricantes porque precisam de produzir; um grande negócio para a PT porque precisa de dar grande vida aos accionistas mas... e o governo?!... sujeita um povo inteiro, reformados com duzentos euros mensais de rendimento, a esta despesa?!... Não! O governo é, para já, o principal beneficiado com o fim das
emissões analógicas de televisão, já que encaixou 270 milhões de euros (mais 84 milhões de IVA por negócio de venda de equipamentos) com o
leilão para atribuir as frequências que vão ficar libertas às operadoras de telemóvel. Estas, por sua vez, pagam mas irão beneficiar de mais serviços de banda larga móvel que são actualmente o seu principal negócio. Isto é, só o zé é que se lixa!
Ora eu, porque pago mensalmente a taxa de audiovisuais, porque me estou nas tintas para a alta definição, porque mentalmente sou mais analógico do que digital, queria reclamar mas, como nestes assuntos não são reconhecidos direitos ao cidadão, como neste país as taxas se confundem com impostos e se pagam quer se seja utilizador ou não, não tenho outra solução: pago, não bufo e, porque não me rendo, vou deixar de ter televisão!
- Sabem para que me faz falta a televisão?! Para adormecer!
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Uma história sem piada
No jardim do Cardal existe um lago circular com uma estátua
ao meio, não me lembro se com um peixe a deitar água pela boca, se com um
menino a mijar. O lago é rodeado por um passeio com várias ramificações e
limitado por um conjunto de colunas de pedra que formam uma pérgula que dá caminho às trepadeiras.
Nós passávamos ali todos os dias a caminho de outros cantos
do jardim, com os livros de filosofia e química debaixo do braço e, todos os
dias, estava um velho sentado no mesmo banco. Tive intenções de um dia falar com
aquele velho mas nunca o cheguei a fazer. Não me lembro se o velho olhava para
nós, para o jornal ou para a estátua.
Passou um grupo de jovens de mochila às costas e telemóvel na
mão, um deles sorriu-me.
A esta distância não consigo
ver se está um peixe a deitar água pela boca ou um menino a mijar, quanto mais ler um jornal!
Porra!
Mijei-me todo! Provavelmente achei piada a alguma coisa que me passou pela
cabeça! O pior é que já não me lembro da piada nem se algum dia passei por este
lago e tive intenções de falar com um velho que estava aqui sentado! Não
importa! Se não falei então, falo agora! Isto de um tipo falar sozinho dá
nestas histórias.
terça-feira, 24 de abril de 2012
Onde é que eu estava no 25 de Abril
No caso que recordo, e só isto me prova que esta criança não sou eu, a pichagem tinha escrito:
O 1º DE MAIO É VERMELHO. O 25 de Abril tinha sido há oito dias e nós, putos do ciclo, ao fim de uma semana, já estávamos politicamente informados da razão porque não tínhamos tido aulas no dia anterior, tratava-se de um feriado que era proibido e que festejava o Dia do Trabalhador.
No Terreiro, em Leiria, havia um muro alto e branco e sobre ele pintaram com letras grandes e vermelhas a frase: O 1º DE MAIO É VERMELHO.
Eu e os meus camaradas, que regressávamos da escola, nunca tínhamos visto nada assim - escrever na parede?! Para quê?! E depois a frase parecia não ter sentido algum! Sim, ontem foi 1º de Maio, o tal feriado novo! Mas vermelho porquê?! Desde quando é que um dia tem cor?! Ainda por cima vermelho! Porque não preto, cinzento, verde, amarelo?!
É por esta história que eu sinto esta fotografia. Daí a meia dúzia de dias, as paredes pintadas deixaram de ser novidade e o país ficou colorido. Anos mais tarde, adolescente com gavetas de "escrivanças", eu assumia o gosto que os outros já reprovavam:
"Já não gosto das casas bem caiadas porque só falam delas. Gosto mais das paredes da propaganda
porque falam comigo quando passo por elas.
Ouçam só a algazarra que elas erguem:
- hoje há isto! – amanhã há aquilo!
- este é este! – este é aquilo!
- isto é isto! – isto é aquilo!
Só o poeta leva para casa a tinta macabra,
Só o poeta leu o que lá não estava,
E também o poeta levou uma palavra:
- VOTA EM MIM!
Uma rua é um livro,
Em cada folha, um dia diferente,
Em cada frase, um verso dizente
E uma parede por fora é de toda a gente!"
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segunda-feira, 23 de abril de 2012
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Sabem o que é um paquímetro?
Reforma Curricular anual acaba com a Educação Tecnológica. A reforma do ano que vem acabará com a Educação Moral e Religiosa?!
Para se ter futuro num país de diplomados é indispensável saber a forma resolvente, saber que o Carlos Maia tinha uma relação incestuosa com a irmã, o nome das peças do microscópio, que a pequena área de um campo de basquete tem de ter três por três e saber, pelo menos, dizer "assim seja" em hebraico e "sim" em inglês. Num país que compra tudo feito não tem interesse distinguir um martelo dum paquímetro, até porque essas coisas nos apartamentos provocam manchetes no Correio da Manhã:
- Atirou martelo contra o televisor quando o professor dizia "mais grave que os despedimentos é não haver emprego".
- Marido fere mulher quando lhe media o dedo mindinho com um paquímetro.
Para que raio queria ele saber a medida do dedo mindinho? Ainda bem que eu sei o que é um martelo!
Estou a ser porco!? Não, não tenho nenhum problema de Educação, estou só a lembrar-me duma porca! Sabem o que é?! E um paquímetro?! Não, não é aquela coisa onde se põem moedas para o estacionamento!
domingo, 15 de abril de 2012
sábado, 14 de abril de 2012
Descubra as diferenças
Diferença: já não bebem água.
Semelhança: os três, de baixo e de cima, parecem ser os mesmos, o que está a agarrar o telefone é que, pelo punho da camisa, parece ser outro. Será?
Semelhança: os três, de baixo e de cima, parecem ser os mesmos, o que está a agarrar o telefone é que, pelo punho da camisa, parece ser outro. Será?
Imagem recebida por e-mail
quinta-feira, 12 de abril de 2012
O Espírito Santo e os Pink Floyd
Preparou o carro, a bagagem e a família para a viagem. O carro era o grande investimento da sua vida, o cumprimento de um sonho comum. O passeio seria o primeiro da família em automóvel e o destino o cumprimento de uma promessa antiga.
Quando jovem, fora de comboio três temporadas fazer rancho para a faina do arroz. Sentira o cheiro do suor dos trabalhadores que, com ele, faziam a faina do arroz. Sentira o cheiro do dinheiro do banqueiro Espírito Santo nas lamas da faina do arroz. Ao fim de tantos anos, voltar à herdade da Comporta, era o pagamento de uma dívida que tinha com a sua memória, uma obrigação de testemunho que devia ao filho, uma aventura que lhe poderia facultar o prazer de reencontrar velhos amigos que ficaram sadinos.
Em troca das velhas histórias que fez ouvir durante a viagem, teve de gramar com as músicas do filho que explorava a novidade do gravador de cassetes. Em cada trinta quilómetros a cassete pirata era virada ou substituída: Atom Heart Mother - Pink Floyd; Close to the Edge – Yes; Deja Vu - Crosby, Stills, Nash and Young; Rattus Norvegicus - Stranglers.
Chegados, tiveram casa porque Carminda Rego reconheceu o velho amigo e o velho amigo reconheceu Carminda Rego. “Tu a certa altura desapareceste!...”;“Fui presa!...”; “Isto ainda é do Espírito Santo?”; “ Isto agora é nosso, companheiro! Foi nacionalizado!…”
De regresso à terra contente de rever e de cumprir, orgulhoso do comportamento da família e do carro calhou dizer “ eu posso não voltar mais, mas este carro...”
Preparou o carro, a bagagem e a família para a viagem. O carro fora o grande investimento da vida de seu pai. Estimara-o após a sua morte e por ele se fez sócio do Automóvel Clube de Portugal. Este era o tempo de voltar com ele a Comporta, de poder voltar a ouvir as velhas cassetes, de fazer transferir, via pai, memórias de avô para neto.
Entusiasmaram-se com a aventura de ir tão longe no velho carro, gramaram ouvir as velhas cassetes, encheram-se de histórias de arroz e alojaram-se no aldeamento Casas da Comporta. Não encontraram sinais de Carminda Rego mas viram o poder do Espírito Santo.
- Pai! Não penses mais nisso! Já estava tão velho!
- Estou velho demais para me preocupar com o carro! Já nem me lembro da marca dele! Eu estou aqui é a pensar no que é que o Mistério da Santíssima Trindade tem a ver com o regresso do Espírito Santo à Comporta!...
- Pai!...
- Filho!...
E dito isto benzeu-se em voz alta e pensou que era Abril.
(A Herdade da Comporta é a maior herdade privada existente em Portugal)
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Estou pascoado de todo
A mim ninguém me come! Sobretudo hoje, sexta feira santa! Não comam porco, comam coelho! Este blogue está pregado a uma cruz! Há-de ressuscitar um dia destes! Tenham paciência! O Rei há-de voltar! Não se deixem comer pelo coelho! Boa Páscoa a toda a fidalguia!
Vai-te rir pró carvalho!
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