quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Quarto 17

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, o Quarto 11, o Quarto 12, o Quarto 13, o Quarto 14, o Quarto 15, o Quarto 16, este quarto não faz sentido)


Dorinha era já nossa há seis meses. Adalberta contou que fora para Braga fazer rua mas que não aguentava as saudades da filha e vinha buscá-la. Dona Graça não aceitava: “Dona Graça era a mãe, o João era o pai e as filhas eram as irmãs! O que a menina precisava era duma família!”
Adalberta não tinha desenvoltura para grandes argumentos e deixou transparecer pela conversa que, em troca de determinadas condições, permitiria a adopção. Prometeu que manteria contacto, que de vez em quando até podia enviar algumas lembranças e valores e rematou pedindo pernoita para uma noite.
Dona Graça desculpou-se que só tinha a cama do meu quarto, onde muitas vezes dormia também a Dorinha e que, portanto, esse assunto de dormir a noite dependeria do meu consentimento. Havia o divã da sala mas, naquela noite, estava reservado para o Carlitos que ainda não adquirira o estatuto para partilhar a cama com Tânia.
Senti-me encurralado. Que motivo que não soubesse a desculpa poderia eu apresentar para recusar o tecto a uma mulher só, pobre e desamparada? Afinal de contas eu, antes de ser homem, teria de ser humano!
Era meia tarde quando aconteceu esta conversa. Deixei a sala e fui estudar para o quarto. A pequena mesa em que estudava estava virada para a parede de modo que era contra a parede que eu estudava. Adalberta bateu à porta e pediu-me ordem para deixar ali as suas coisas. Continuei na malvada Estatística, enquanto Adalberta, na cama atrás de mim, mexia os seus parcos haveres. Pressenti que se despia, por respeito não me virei para trás, pensei – está a mudar de roupa!
- João, eu tenho de lhe pagar aquilo que tem feito pela minha filha!
- Ora essa Adalberta! Cada um faz o que pode e o que deve! -respondi sem retirar a atenção dos meus papéis. Adalberta dirigiu-se para um dos lados da mesa. Estava completamente nua. Não tinha corpo de se mirar, estava cheio pelo desmazelo, marcado pelo uso, desfeito pela ilusão. Fingi ignorá-lo. Percebi a oferta de Adalberta.
- Adalberta! Gosto da Dorinha e também ela tem feito muito por mim! A Dorinha tem a felicidade de ter uma mãe e a infelicidade de não poder viver com ela. Há coisas que não se pagam e há coisas com que não se paga.
A expressão e a pose da mulher que estava ali, de pé, a meu lado, transmitiam um caldo de emoções: não me teria feito entender completamente mas teria feito entender rejeição e ingratidão. Tinha tão pouco para me dar e, nem isso, eu aceitava.
“Estaria eu assim tão servido de mulheres? O tempo que viveu em casa nunca viu sinais de nada! Seria paneleiro? Seria fino demais para ela?” – imaginei-lhe estes pensamentos/sentimentos e continuei simulando o estudo. Sentia-me cruel por fingir ignorá-la e sentir-me-ia cruel se fosse aceitá-la.
Adalberta não tinha vida para meias medidas, gorda como era, não sei como se conseguiu enrolar por debaixo da mesa. Eu continuei a simular que estava a estudar.
(Na próxima quarta há mais Quarto)

sábado, 7 de janeiro de 2012

Temos o dever de enlouquecer

Da quinta onde estou vêem-se estradas e das estradas também se vê a quinta. A quinta tem porqos e  porqas, os porqos cobrem as porqas e as porqas parem leitões. A quinta está cercada por nós e por nós é tratada. O Soares dos Santos também tem uma quinta e é na minha terra. A quinta é o único dia de mercado na minha terra. A quinta só se deve meter a partir de uma certa velocidade. Vou ter alta amanhã. Não me apetece nada voltar a viver no meio de loucos apascentados por porqos. Ainda bem que têm tendência a ser cada vez menos, comem-se uns aos outros mas não parem, emigram por quem os manda, mandam-se da ponte para o rio e para a linha por desespero, mandam-se para a rua da janela dum quinto andar pelos bancos, morrem por falta de assistência num quinto andar. O meu médico quer pôr-me a andar. Hoje estou na quinta. Amanhã ando para sexta. O meu médico diz que temos o melhor primeiro ministro desde o 25 de Abril e o segundo melhor desde 28 de Maio. Até na quinta estamos nas mãos deles. Tirem-nos os feriados, os sábados e os domingos mas não nos tirem as quintas! Se um quinto fizer coisa e tal com uma quinta  nasce um cinquentão?! Quinto, cinco, leitão, eu! Estão a ver?! Ah é só chalaça! Querem fumaça de pinheiro e de azevedo?!
Com que então alta à sexta?! Inimputável eu?! Se milhares de pessoas estão a morrer prematuramente por falta de assistência, governada pela insensibilidade dum porqo saudável, não será nosso dever matar o porqo!? Sim, porqo o destino de qualquer porqo saudável é morrer prematuramente!
Quero os porqos todos em cima da mesa e um feliz Natal para alguns! O quê?! Já se passou?! Quem?! O Natal ou eu?!
Estou a sair de mim! Amanhã saio da quinta. Espero que depois disso este blogue volte à normalidade porqe ao abrigo do novo acordo ortográfico o "u" não se lê e, por isso, também deve sair do porque já me sinto melhor -U!...
Legenda: E eu é que estou louco?!
- Hoje não é quinta?! Então que dia é hoje?!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Dêem-me os parabéns!

Hoje é o dia em que o Rei faz anos! O dia de Reis!

Bem sei que o reino já conheceu melhores dias! Tenho andado ensimesmado noutras realidades e a minha espiral blogosférica tem andado enroscada. Não sou daqueles que gasta o tempo a dizer que não tem tempo mas isto exige o seu tempo. Por outro lado sinto que há seis anos que ando a dizer a mesma coisa.
Bem sei que já foi outra a fidalguia! Uns chegaram, outros partiram, uns passaram, outros cairam, uns zangaram-se, outros fartaram-se e eu...
Ser bloguer como eu sou é muito mais que ter um blogue, é ter afinidades com outros blogues, amizades com outros bloguers, é aprender e informar-se com outros, é discutir e partilhar, é conhecer, é fixe!...
Um abraço muito especial aos que por aqui continuam a marcar presença  desde os princípios: a Maria, o Zé Povinho, o Compadre Alentejano, o Maceta, o Guardião, o Salvo-Conduto, o Samuel e outros

Blogue Rei dos Leittões - há seis anos a dizer a mesma coisa!
Recebem-se parabéns e aceitam-se prendas. Venham à festa:

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Quarto 16

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, o Quarto 11, o Quarto 12, o Quarto 13, o Quarto 14, o Quarto 15 este quarto não faz sentido)

Nos dias seguintes às lágrimas de Tânia as coisas ficaram pretas. Nos momentos em que a casa ficava só dos dois eu fazia as minhas tentativas mas as suas reacções eram de tal ordem que comecei a temê-las e a acanhar-me. Aparte essas abordagens, Tânia falava-me normalmente como se nunca tivesse existido nada entre nós. Podíamos ir juntos ao café, buscar a Dorinha à ama e até dançar na sala merenge ou rock n’roll!...
Tudo isto atormentava ainda mais o meu estado de paixão e o pior é que me ia auto-convencendo que com ela não acontecia o mesmo.

Entrementes, meteram-se umas férias no meio. Quando regressei e entrei na sala pousei o saco. Estavam apenas as duas irmãs. Tânia levantou-se de imediato, colocou os seus antebraços nos meus ombros, enchendo o meu pescoço de alegria, pousou-me um beijo em cada face e disse infantilmente, saltitando e exultando de alegria:
- Cabitche, já tenho um namorado!...
De imediato a mana Gina, que nem se levantara para me honrar e permanecia a olhar a televisão, imitou com voz ridicularizante:
- Cabitche, já tenho um namorado!....
- Tu também Ginita!? Quem é o teu? - Indaguei eu, fingindo ignorar o tom de gozo e mastigando o contentamento de que Tânia, durante a minha ausência, me sentira a falta e me assumia agora no regresso.
- O meu amor és tu meu mano branco! - Disse Gina caminhando em direcção a mim para me abraçar e me conceder um tardio mas poderoso beijo no canto da boca, como quem diz ”assim não é beijo no cesto nem de incesto, é de amiga íntima!...”
O sorriso macaco com que Tânia acompanhou o dito beijo e a intervenção da irmã deixou-me um pé atrás.
- Então não sabes? O namorado da Tânia é o Carlitos!!!
Senti a força a faltar-me nas pernas, sentei-me à mesa e as duas acompanharam-me sentando-se também. Seria normal pormos as cartas na mesa, contarmos coisas das férias e coisa e tal e foi isso que fizemos durante meia hora. As trocas de palavras e olhares entre mim e a minha recém confirmada “ex” atiravam-me para o estado de vencido. Para exibir ainda mais a sua superioridade, topando os meus suores e sem que eu pedisse, foi ao frigorífico buscar uma Sagres e despejou-a num copo que pousou à minha frente.
Quando me encontrei só, no quarto, a arrumar as coisas, comecei a pensar no Carlitos: bom rapazito, pacato e simples, viera da Beira-Alta para servir no restaurante cervejaria em que Dona Graça trabalhava. Conhecia-o bem das conversas e das borlas que nos dava na esplanada, já várias vezes tinha passado serões e até festas na casa da colega. Sempre pensei, se mais não fosse pela idade, que poderia vir a dar um belo par com Gina! Agora com Tânia?!... A sua figura trinca-espinhas não emparelhava nada com a imponência de minha menina! Mas recordando bem, quando dançava com ela, a cabecita do beirãozito quase se afogava, aconchegada entre os peitos esculpidos que acabou por me roubar! O malandreco!... Enfeitou-me bem a vida, enfeitou!...
(Na próxima quarta há mais Quarto)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Quarto 15

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, o Quarto 11, o Quarto 12, o Quarto 13, o Quarto 14, este quarto não faz sentido)
E andávamos nós, já há tempo de mais, para tomar a decisão de anunciar à matriarca a paixão Tânia-João quando, uma noite, Dona Graça bateu à minha porta para escrever mais uma carta. Não tinha forma de dizer que não e lá fui, pela primeira vez sem grande entusiasmo, cumprir o papel de moço de cartas de prazer.
As últimas cartas tinham começado a tocar um certo erotismo e, com essa natureza, a confundirem-se cada vez mais com preliminares.
“…
Virgolino, estou a ver o teu coiso a bater palmas de contente, a arregalar as peles de ver as minhas mamas, a perder-se e a esvair-se na minha mina escura e a dizer moribundo:
- Ó Preta, vai-me buscar uma cerveja branca com gemada!
Virgolino volta! Estou com cio! Prometo-te que gritarei como gostas e não voltarei a dizer:
- Não! Não posso gritar! As minhas filhas e o João vão ouvir!
Quando voltar a ter-te aqui, na minha cama, vou gritar e aiar até a polícia bater à porta. E, se for necessário, abrirei a janela e direi cá para baixo:
- Só um momento! Deixem-nos acabar!
…”
Não faço ideia do que Virgolino sentia ao receber estas cartas; da minha parte, sei bem o que sentia e o que me acontecia ao escrevê-las. Sabia também que o destinatário, caso soubesse do que se passava do lado emissário, compreenderia a situação das nossas necessidades – ou não tivesse ele já passado uns largos tempos na prisão – e, nem a amizade que tinha por mim nem a relação que tinha com a Gracinha seriam, por isso, melindradas. Contudo, há coisas de que mais vale não ter conhecimento e esta era uma delas.

Mal! Mal! Sentia-me eu. Dificilmente Tânia aceitaria, e não merecia, que estas brincadeiras continuassem a acontecer. Eu já só queria era que Virgolino voltasse depressa e aquelas cartas terminassem!
Um dia terminei a carta e deixei Dona Graça estendida no leito, toda oferecida. Abri a porta e saí a ouvir umas frases lascivas, mistas de provocação, compreensão, de brejeira ternura, de “vem cá!”, “vai lá!” …
A distância de portas entre os quartos quase permitia que, a um passo, ainda o pé de trás estivesse num, já o da frente entrava no outro. Estranhei a porta aberta, acendi a luz. Sobre a cama vaga para arrendar, aquela onde aconteciam sempre - vá-se lá saber porque nunca eram na minha – as práticas com Tânia, estava em pijama, ela própria, a menina dos olhos dos meus olhos, com olhos fontes que lhe inundavam o rosto dos meus olhos.
Precisava de tempo para me libertar do estado estático em que fiquei e para conseguir dizer alguma coisa. Nos escassos segundos em que tentei colocar o meu cérebro encharcado a trabalhar percebi que não havia ali espaço para palavras. Tânia concedeu-me esses segundos e levantou-se cruzando-se comigo, a caminho do seu quarto, sem me tocar e tocando-me com o seu silêncio que dizia:
- Estava aqui à tua espera para que visses as minhas lágrimas!
(Na próxima quarta há mais Quarto)

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Como será 2012?! Responda quem souber!

Que em dois mil e doze
Eu me levante todos os dias,
Que se levantem as árvores,
Que se levante a vida,
Que se levantem os mortos,
Que se levante o povo,
Que se levante o país,
Que se levantem as vozes,
Que se me levante a voz,
Que se me levante o falo
Que a falar é que a gente se entende
E que outros valores mais altos se "alevantem"!...

Que em dois mil e doze
Os juros caiam,
O petróleo caia,
O bêcêpê caia,
A sónai caia,
O governo de Miguel Relvas caia da cadeira como o Botas
E o Cavaco vá de chaimite para a Madeira
E que eu não caia, por maior que seja a bebedeira!

Se os juros caíssem talvez me sobrasse algum.
Se o bêcêpê caísse talvez a casa passasse a ser minha de facto.
Se o petróleo caísse talvez eu pudesse, no Verão, dar uma volta à praia.
Se a sónai caísse talvez eu não acordasse aos domingos com o despertador a dizer:
- Podíamos ir ao Continente! ...
Se o governo caísse eu teria novamente a oportunidade de votar e o povo de acordar!
- Acordem que em trezentos e sessenta e cinco dias pode haver um que tenha madrugada!
Porque se ninguém sabe nada do que anda a fazer, ninguém sabe o que pode acontecer!

Talvez aconteça alguma coisa para além do sobe e desce de resultados! Eh lá hoje subiu a taxa e desceu o consumo! Eh lá hoje subiu o gasóleo e desceu a gasolina! Eh lá hoje desceu o déficit e  desceu a inflação! Eh lá hoje subiu o emprego e o desemprego! Em 2012 vai haver um conselho extraordinário com grandes resultados que não resultam em nada. O governo irá dar aos pobres deixando os ricos saciados e vai dar aos ricos deixando os pobres satisfeitos! O governo limpa a boca com a direita e o cu com a esquerda!...

Dois mil e doze? Doze badaladas! Doze copos! Doze euros! Estou a ter uma passagem de ano do catano!
- O quê não é hoje?! Devo estar um pouco desorientado com a orientação!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Afinal quem é que deu à luz?!

Os magos vêm da china. Nasceu a salvação. Finalmente fez-se luz na EDP, continua a estar nas mãos do estado mas o estado é chinês! Se uma empresa pública de um país, compra uma empresa pública de outro país, podemos falar em privatização?! Eis a questão!... 

sábado, 24 de dezembro de 2011

E lá vamos nós


Vamos partir. O carro já está com a carga toda: embrulhos, tachos, sacos, casacos e sem aquelas coisas que vão esquecer. Vamos para a casa fria do avô e da avó que já lá não estão. Chegados lá, há que dar a volta às coisas, limpar, retirar os pratos com veneno dos ratos, arranjar lenha, ir visitar primos e vizinhas, ir acompanhando a chegada de tios e primas. Somos muitos, mais de trinta de linha direta e seríamos mais se todos estivessem.  As famílias grandes têm destas vantagens. Violas, cavaquinhos, harmónicas, ferrinhos, canções de velho Natal, velhas cantigas, fado, Adriano, Zeca, couves, batatas, bacalhau, azeite, vinho e pouco mais e a mais, só um copinho!... Houve um ano, com a matriarca ainda viva, devota, crente e serva de Nossa Senhora do Menino Jesus, que até a Grândola se cantou ao Menino. Iremos, portanto, passar um Natal impossível. Eles nunca irão mandar no nosso Natal. Mais cristão, menos cristão mas nunca deles!
(vou já! vão dar de comer ao cão! estou só a acabar de dar de comer ao blog! tirem o carro da garagem!)
A hora improvável, faremos mais uns quilómetros para a casa do outro avô e da outra avó que também já lá não estão. Outra porra! Outra porrada de gente nossa, mais outra porrada de gente que ali cai por afinidade, uma porrada de crianças experimentando brinquedos novos, brigando, gritando, abraçando, "acolando"... e a música outra...
- Olhem que eles tocam e cantam muito bem!
A hora improvável regressaremos e, na rua fria e escura onde nasci, a pergunta inevitável acontecerá:
- Levas o carro?!...

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Mensagem de Natal de Sua Majestade

Súbditos e súbditas,
O Natal não é um direito nem um dever, não é um presépio nem um acto de fé, não é comer nem comprar, não é dar nem receber, não são cartões nem luzes a apagar e a acender.

O Natal não são pais, nem mães, nem meninos, nem meninas, nem burros, nem vacas, nem perus, nem porcos, nem coelhos. O Natal não são estrelas nem ministros, nem dó nem caridade, nem mensagens de boas festas de gente que se julga dona do nosso destino – já me estou a passar! – Avé José! Avé Maria! Avé burro! Avé vaca! Avé peru! Avé bacalhau! Avé coelho! – já me estou a passar! – Pedro vai-te!... – já me estou a passar! Amor desliga-me essa porra do noticiário! Lá se foi a presente mensagem de Natal! Se calhar o Natal é tudo aquilo que eu disse que não era! Não sei o que é o Natal, é muito esquisito. 
- Muda para o dois que estão a dar bonecos!
- Os chineses compraram a EDP!

"Portugueses e portuguesas,
sei que o vosso Natal não vai ser grande coisa, aproveitem! Para o ano ainda será pior: mais desemprego, mais exploração do trabalho, menos serviços, mais multas, mais taxas, mais impostos, menos democracia. E então daqui a 20 anos!...
Portugueses e portuguesas, em verdade, em verdade vos digo: isto vai ser um dos piores lugares para viver no mundo! Um conselho: vazem! desandem! emigrem!..."

Já estou passado: pareceu-me ouvir em fundo a mensagem de Natal do menino Pedro!
- Muda-me isso para a Casa dos Segredos!
Daqui a 20 anos, menino Pedro, o menino já passou à história! Sabe menino, se estudasse mais um pouco aprenderia que a história não é assim tão linear como supõem aqueles que a querem desenhar!
Só para contrariar os teus desejos vou passar um Natal do caraças e vou ter um próximo ano de luta até mais não!
Avé burros! Avé vacas! Avé porcos! Ah! Já me lembro! Eu, Rei dos Leitões, estava para deixar uma mensagem:

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Quarto 14

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, o Quarto 11, o Quarto 12, o Quarto 13, este quarto não faz sentido)

Dorinha ficou em boas mãos. Conversámos em família a situação criada pela menina abandonada. No dia seguinte eu tinha muito que estudar e, por isso mesmo, o melhor seria faltar às aulas e, deste modo, Dorinha poderia ficar à minha guarda.
Dona Graça conseguiria umas fugas do restaurante para dar umas voltas na baixa a ver se encontrava a mãe, diligência que repetiria, sem sucesso, durante uns dias.
Dia após dia íamos ganhando a menina que raramente perguntava pela mãe Adalberta.
Participar à polícia seria muito complicado, a casa não gozava de grande credibilidade entre os agentes que frequentemente a visitavam por alegadas queixas dos vizinhos - coitados, eram incapazes de dormir sabendo que alguém se divertia por ali perto!...
Tivemos de partilhar um esquema pelos quatro, com faltas e atrasos pelo meio, enquanto não encontrávamos solução.
- Cabitche, já fiz!
E eu lá lhe passava uma nova folha com a encomenda de um desenho ganhando, com o tempo dos seus rabiscos, mais uns minutos para exercitar as equações da cadeira que tinha em mãos. Às vezes o "já fiz" era outra coisa e eu lá limpava a coisa com paternal paciência.
Com a adopção informal já assumida e os olhos da Dorinha cada vez mais dos nossos, o possível reaparecimento de Adalberta começou a ser indesejado por todos.
Dona Graça arranjou uma ama para a menina.
Tenho ainda, no coração, o salto que Dorinha dava para o meu colo, abraçando-me, de cada vez que eu aparecia à porta da senhora para a ir buscar.

A tal segunda cama, deixada vaga pelo colega de quarto, deixou-me espaço para novas oportunidades. Havia uma tarde e uma manhã em que o horário escolar das duas irmãs não coincidia. Tânia e eu começámos a aproveitar esse tempo, eu estudava, ela aproveitava umas explicações minhas nas disciplinas que eu dominava e, assim, se foi dando corpo a uma paixão. Mais do que todos os conteúdos académicos, o seu sorriso simples, frágil, branco, aberto, dado, largo, longo, de corpo inteiro, oxigenava-me a vida – até os joelhos dela chegavam a rir; os seus gestos, sons e movimentos, calmos, lentos, suaves, ondulados, macios, abertos, dados, longos, de corpo inteiro, libertavam-me toda a energia; o seu corpo inteiro não me permitia pestanejo..

O caso tomava a forma que já não justificava o segredo. Tânia tinha pressa de atirar à cara de Gina o nosso amor inteiro, de a deixar sozinha e de passar as suas roupas para o meu quarto. A mãe adorava-me, aceitaria de braços abertos.
Não sabia Tânia que, para mim, contar à mãe podia ser um bocado complicado: as cartas a Virgolino eram já raras, o telefone era mais cara a cara, mas Dona Graça quando se zangava!.... Ninguém me dizia que iria aceitar com bons fígados que o homem que a consolava algumas noites andasse a morrer de amores pela filha! Liberal e compreendedora, mas não tanto!
(Na próxima quarta há mais Quarto)

domingo, 18 de dezembro de 2011

Para acabar de vez com o Natal

Para acabar de vez com o Natal, faça-se o Natal ao fim de semana, coloquem-se portagens em todos os caminhos, subam-se os preços do bacalhau e do gasóleo, aumentem-se os impostos sobre o bolo rei e as luzes e corte-se o subsídio de Natal. Ah! E se puderem fechar uma empresa ou um centro de saúde lá no sítio, a coisa fica mais composta! É que um Natal sem desempregados ou sem doentes não tem graça! Sem pobres como podem os ricos fazer caridade para chegar ao Céu e, sem doença, como podem os santos curar os doentes?
E, para dar um ar mais deprimente, convém mudar o discurso tradicional: não se diga "feliz Natal" mas "um Natal tão feliz quanto possível" como diz o outro!
Mas faça-se o presépio: ponha-se um coelho no lugar do burro e uma gorda alemã no lugar da vaca, um cavaco com cara de zé e uma dama com ar de maria e, no lugar de Menino, um rei mago sem reino, pode ser o Gaspar.
Até os bonecos têm o seu lugar no Natal embora não percebam patavina do Natal. Eu desejo a cada um o seu Natal e desejo que cada um resguarde o seu Natal e vomite no presépio que sugiro.

Tenho 23 ovelhas - amanhã não sei porque três estão pranhas. Estão cercadas no meu casal embora à volta existam muitas propriedades ao abandono. Quando me aproximo delas, olham-me serenamente. Quando lhes deito comida, comem graciosamente. Estarei eu a fazer caridade?! Ou deveria eu cortar os arames da cerca?! Terá isto alguma coisa a ver com o Natal!? Falta-me dizer um coisa: as 23 ovelhas que eu tenho no meu casal não são minhas! Quer dizer são como as boas festas do outro: são-no tanto quanto possível!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Não vou nada bem


O texto que se segue serve apenas para quem não se der ao trabalho de ver o filme.

Não sei se é do outono, se é do inverno, se é dos ares, se é do vinho, se é das calças - não vou nada bem! Não sei se é da conjuntura, se é crise, se é fígado, se é de hoje, se é de ontem, se é do amanhã - não vou nada bem! Não sei se é da história, do presente, se das contas, se dos contos, se eu conto, se não conto - não vou nada bem!
Se o meu maior defeito foi ter acreditado, então eu vou continuar com esse defeito porque continuo a acreditar. Se falhei por não ter lutado tanto quanto devia, então eu vou-me redimir lutando mais.
Se eu não olhei para trás, para frente e para o lado, eu vou-te dizer pai falecido, que o teu neto e eu estamos na marcha bem acompanhados por gente de todos os lados.
Ouçam, não vou nada bem mas não estou só! Vocês também!
Então?! Vão continuar a ver televisão?! O Passos, o Durão, o inSeguro, o pequeno Napoleão, a Hitler sem saudação, sem bigode?! Vão continuar à espera?! De quê!?...
Não vou nada bem! Obrigado pela companhia!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Estes tipos são uns cortes

De tanto cortarem a torto e a direito, estes cortes do governo, fizeram-me lembrar a história:

Estava um homem com um problema de saúde porque a pele das virilhas lhe aparecia azulada e foi ao médico. 
- Meu caro senhor, a solução para a sua doença passa por lhe cortarmos um testículo.
Como ainda ficava com outro aceitou mas, feita a intervenção, o problema manteve-se.
- Meu caro senhor, lamento, mas sendo um caso de tanta gravidade, não vejo outra solução senão cortarmos-lhe o outro.
Disse adeus ao seu desempenho sexual mas teve de conformar-se perante as certezas do especialista. O pior é que, mesmo castrado, o azul na pele continuou.
- Meu caro senhor, isto é um caso de vida ou de morte, garanto-lhe que o problema ficará resolvido se lhe cortarmos o dito cujo.
Ficou de rastos mas a sua vontade de viver era tanta que aceitou ficar sem a parte que o ditara homem. E não é que o problema persistiu! A tragédia teve desfecho na conclusão final do clínico:
- Peço imensa desculpa meu caro senhor! Está visto! O problema do azul tem origem nas calças de ganga!

Estes sábios da economia, estes cortes, nunca terão humildade para reconhecer os seus erros mas já deram provas que terão descaramento para dizerem o contrário daquilo que ainda ontem diziam a pés juntos. Passos Coelho dará uma conferência de imprensa para dizer apenas:
- Afinal o problema é das calças de ganga.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Quarto 13

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, o Quarto 11, o Quarto 12, este quarto não faz sentido)

O melhor seria mesmo eu encontrar um colega de quarto, estudante, antes que a senhoria me arranjasse para companhia alguém fora de estilo. Não seria fácil. A fama da casa já ia além do bairro e o racismo e o preconceito, naquele tempo, ainda existiam.
Jorge foi lá a casa para eu lhe emprestar uns apontamentos. Era do norte, já exercia no ramo mas faltava-lhe uma cadeira do primeiro ano para acabar o curso. Pedira dispensa de serviço para ver, se desta, conseguia o canudo de uma vez por todas. Partilharia o quarto comigo.
Eu, a mãe e as filhas estávamos na sala a ver a telenovela. O Jorge estava, como sempre, lá em cima no quarto a marrar na Física. Adalberta entrou em casa, disse um “boa noite” exausto e subiu as escadas visivelmente embriagada. Dorinha vinha com ela mas correu logo para o meu colo. Com uma troca de encolher de ombros e acenos de cabeça julgámos a mãe mulher-da-vida enquanto trocávamos com a filhota uns diálogos com graças de criança.
Passados alguns minutos ouvimos Adalberta, irritada, a falar alto ao cimo da escada:
- Deves-me cinco fodas! Deves-me cinco fodas paneleiro! Quero o dinheiro das cinco fodas picha-mole!
O interlocutor não o era porque mantinha o silêncio. Adalberta também não lhe deixava espaço para ele reagir, continuava a debitar palavras indicionárias e a atiçar a curiosidade dos ouvintes do piso de baixo.
Com que então o Jorge guardava-me segredos! Provavelmente, quando ficava em casa a sós com a Adalberta, aproveitava para molhar o prego mas pagar, está quieto!...
Dona Graça subiu a escada e pôs ordem na discussão. Adalberta teria de abandonar o quarto no dia seguinte!
Cá em baixo, imaginei com facilidade a reacção da queixosa mas era difícil ver a cara do caloteiro. As portas de ambos os quartos estariam abertas, num deles Adalberta estaria bufando sentada na cama, no outro estaria Jorge sentado à mesa, com o candeeiro aceso e os livros à frente e com cara de quê?!
Jorge, com vergonha de carneiro mal morto, também abandonaria o quarto. A situação agradava-me, sobretudo porque a cama ficaria novamente disponível para eu espalhar roupa, papéis e cassetes.
No outro dia, cada um a seu tempo, lá partiram os do mal parado fornico. Timidamente, e sem que alguém presenciasse, levaram os seus haveres e... partiram. Um pormenor: Adalberta, esqueceu-se de levar a Dorinha.
(Na próxima quarta há mais Quarto)

domingo, 11 de dezembro de 2011

Saudade

à memória de meu amigo Barros que foi e nunca se pronunciou

1
Oh! Como eu gostava de voltar à Realidade...
Tanto que eu gostava de voltar à Realidade...
- Mas como?! – Não tenho meio de transporte!
Tanto que eu gostava de visitar a campa de um tijolo,
meu amigo,
sepultado lá... na realidade!
Mas não posso, não tenho meio de transporte!

Era um bom tijolo. Chamava-se Barros,
era banco e mesa na minha pequena casa.
Um dia convidei Deus para jantar na minha pequena casa,
Barros não aguentou com a divindade e, desfez-se em pedaços
no coração da minha pequena casa.
Por isto, foi sepultado na Realidade...
2
-Não! Ninguém voltará!
Diz uma lei qualquer da “Constituição da Natureza”.
- Mas eu sou real, nasci lá!
- Real sou eu!
responde-me o rei, e eu pergunto:
- Quem mais ama a pátria que o Exilado?
e o Sol responde. O Sol responde a tudo.
É o maior amigo que tenho aqui onde estou,
no Mundo em que as estrelas do mundo real
são os candeeiros duma cidade.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Também sei brincar com números

Foi tudo medido: foram medidas as razões e a oportunidade dos feriados, medidos os prejuízos por eles causados e as mais valias da sua extinção e, feita a avaliação, tomaram-se medidas. Não sem antes terem sido negociados - com os trabalhadores não, que não são para aqui chamados  - mas com quem de direito:
o alto clero.
Esta gente quando toca a números, nunca se engana, sejam eles macro, micro ou apenas do género dois mais dois  são quatro:
- Vocês acabam com a Independência e com a República e nós acabamos com o Corpo de Deus e com a Nossa Senhora da Assunção! Também podemos acabar com a Conceição mas isso só em troca da Liberdade e do Trabalho!...
Estava eu, na cama, dez da manhã, a imaginar esta conversa entre o prelado e o governanta, sem remorso de ter faltado à liturgia mas com interrogações acerca dum dia de descanso, quando este pensamento me desfez de culpas e me confortou: lá no fundo, hoje, dia 8 de Dezembro, estou a festejar o 25 de Abril e o 1º de Maio. Bom negócio!

E porque também gosto de brincar com números, os meus pensamentos prolongaram-se para cálculos que não são para a matemática de quem não se senta na mesma classe. Vejamos:
4 feriados x 8 horas = 32 horas/ano
32 horas/ano x 2 milhões de trabalhadores = 64 milhões de horas por ano
64 milhões de horas a dividir por 52 semanas de 40 horas (por posto de emprego) = mais de trinta mil desempregados ao dispor da caridade e da precariedade.

E continuei na barba:
Mais 1/2 hora de trabalho por dia; mais 2,5 por semana (não para os funcionários públicos nem para muitos empresários com pouco para fazer ou com olhos na testa), para um milhão de trabalhadores; 2,5 milhões de horas por semana; para uma semana de 40 horas equivale a 62500 postos de trabalho.

Se acrescentarmos a estas calculadíssimas medidas, a facilitação dos despedimentos, teremos de aceitar que a principal preocupação destes senhores é o desemprego!

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Quarto 12

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, o Quarto 11, este quarto não faz sentido)
A minha relação com dona Graça era cada vez mais de confiança, ia muitas vezes aos meus conselhos e sentia necessidade de justificar, perante mim, as suas decisões e, além de tudo, era um coração aberto:
Encontrara na rua Direita, ao abandono, uma mulher angolana com uma filha de dois anos. O empecilho da criança, o rosto e o corpo pouco favorecidos, a má aparência, não lhe atraíam muitos homens ao negócio. Nem sempre conseguia dinheiro para a dormida na pensão.
Seria uma situação provisória; enquanto Adalberta não arranjasse um emprego nas limpezas e endireitasse a vida, ficaria a dormir, com a filhota, no quarto de Gina e Tânia e estas ficariam no quarto da mãe que tinha espaço a chegar.
Não fiquei muito contente com a situação, ainda mais desarmado pelo intocável coração de Dona Graça.
Adalberta não tinha horários! Chegava e partia quando calhava, no estado que calhava, quase sempre com a filha pela mão. Ao fim de algum tempo, com o à vontade que se foi gerando, começou a deixar a Dorinha à guarda de quem estivesse em casa. Chegou a bater-me à porta do quarto pedindo-me, desavergonhadamente, que lhe guardasse a filha enquanto ia tratar duns papéis no consulado. É claro que o consulado era outro. Prometia recompensar-me. Nas entrelinhas deixava perceber que poderia pagar com o corpo. Eu ficava a pensar no não-desejo, enquanto arranjava umas folhas e umas canetas para a criança se entreter e me deixar estudar.
Dorinha, de língua ainda presa, chamava-me Cabitche. Em poucos dias, toda a gente daquela casa me começou a chamar Cabitche – recordo este nome como a única alcunha da minha vida que senti colar-se-me!
A partilha da casa com Adalberta começou a desagradar-me, afinal de contas era uma puta e, era uma puta da rua Direita, daquelas que despacham uma aldeia inteira de rapazes da inspecção. Poderia tornar-se complicado se chegasse a ouvidos errados e acabava por dar argumentos à vizinhança que, frequentemente, durante a noite, telefonava para a polícia para vir ao número sete, que insinuava e fantasiava acerca do antro de pecado que não seria a nossa casa.
Chamei dona Graça ao meu quarto, sentámo-nos na beira da cama, conversámos sobre o assunto. Ela própria andava ajudando Adalberta a arranjar emprego e tudo estaria resolvido nas próximas semanas. Nessa altura pô-la-ia a andar, até porque precisava do quarto para as filhas.
- Estás com medo que a tua mamã saiba que Adalberta dorme no quarto ao lado do teu?!...
Queres que eu te ajude a escrever uma carta à mamã?...
Enquanto ironizava a minha preocupação encostou-me a cabeça aos seus peitos grandes e poderosos e começou a passar-me a mão pelo pêlo! Desta vez, tratou-me até ao fim como um menino!
(Na próxima quarta há mais Quarto)

domingo, 4 de dezembro de 2011

Colheita de 62


A malta nascida em determinado ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, naturais de algures, respeitam o primeiro sábado de Dezembro num encontro a que decidiram chamar "Colheita de 62".  São rapazes que cruzaram as mesmas professoras, as mesmas catequistas, o mesmo senhor prior; mancebos que se apresentaram à inspecção no Quartel de Santa Clara no mesmo dia, homens que nasceram da mesma infância e que não desistem de uma parte do que são. Às oito e trinta da manhã, no largo da Igreja, uma vez por ano lá estão, mais de vinte e menos de trinta, prontos para o pequeno almoço na taberna que resiste, enquanto aguardam a chegada da camioneta que só os mordomos do ano sabem para onde vai.
Desta vez calhou-me a mim ser mordomo e fechar a festa não me lembro a que horas. Por isso mesmo, hoje é dia de chá.

Só homens, pois então! Não temos culpa das nascidas não terem frequentado a mesma classe, não terem dado o nome para a tropa nem de usufruírem dos mesmos gostos de galhofa.

Foi mais um passeio de passear, de comer, de beber, de contar, de recordar mas sobretudo, foi um momento de voltar a ser - parece que ainda foi ontem! E foi, ontem mesmo, foi outra vez um ontem de há muitos anos. Vivas são as árvores que mantêm as raízes.
Por isso mesmo, hoje é dia de chá.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Quarto 11

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, este quarto não faz sentido)
Quando regressei das férias grandes a casa andava sorumbática. Gina e Tânia tinham chumbado, Virgolino não dava sinais de si e dona Graça fartava-se de trabalhar para manter a casa farta. Dona Graça bem me aconselhara a arranjar um colega para partilhar o quarto, caso contrário teria de arranjar ela um novo hóspede que poderia não ser do meu agrado. Cheguei a andar com um anúncio, na minha pasta de estudante, com os dizeres “Procura-se companheiro de quarto” mas só apareceram candidatos do sexo oposto o que, nas circunstâncias, não seria possível. Uma coisa era certa, ela precisava de mais uma renda para equilibrar o orçamento!
Uma noite cheguei tarde de noitada com uns amigos e as mulheres da casa já estavam na cama. Quando entrei no quarto, surpreendeu-me um intenso cheiro no ar, um vulto dormitando na cama do lado e um saco com umas roupas à entrada. Acordou e trocámos boas noites. Era o novo hóspede, um rapaz com meia dúzia de anos a mais que eu, com barba de três dias, sem sorrisos mas sem antipatias e, seguramente, com cara de quem não era estudante nem operário.
Puxou meio corpo para fora das mantas, ajeitou o travesseiro atrás das costas e ficou sentado ao cimo da cama enquanto eu, como mais velho no aposento, ditava partilhas de roupeiro e hábitos meus. Ele, com a cabeça acenava concordâncias enquanto enrolava uma mortalha. Quando acendeu o isqueiro e deu a primeira passa o cheiro a erva denunciou-o logo.
- Queres dar uma passa?
Acedi à oferta, reconhecendo nessa partilha o gesto necessário de quem sabe que, para se empreenderem certos relacionamentos, devem existir actos simbólicos. O boi bateu o suficiente para estarmos para ali, cada qual na sua cama, a falar por uma hora. Luís era dos subúrbios do outro lado da cidade e arrendara o bar do apeadeiro. Como o trabalho lhe exigia a abertura ao primeiro comboio da manhã e os transportes urbanos não o serviam para aquela hora, optara por um quarto na proximidade.
A minha amizade com o Luís nunca passou além duns charros e do quarto. Também nunca se envolveu na vida da casa. Era um rapaz pobre, sem estudos, sem conversas por aí além. Quando a máquina de café avariou, deixou de abrir cedo o bar, dizia que o lucro estava na bica e que, sem ela, não valia a pena abrir a persiana.
Duas ou três vezes convidou-me a ir até ao bar fazer-lhe companhia, aprendi a tirar imperial e café, aprendi a aviar. Quando fechávamos o tasco já estávamos bem aviados e partíamos para outros tascos, sempre a partir.
Dona Graça conhecia o cheiro, ou não fosse nascida e criada em Lourenço Marques. Entrou no quarto, fungou o nariz e desatou:
- Em minha casa não! Suruma não!
A autoridade de dona da casa e mulher de muitas armas estatelou Luís e deixou-me sem jeito. Enquanto ordenava ao fumador o arrumar de malas, deixava umas deixas de desculpas, a mim, nobre estudante, por me ter arranjado um companheiro depravado.
Embora incomodado com a cena, agradou-me o facto da cama do lado voltar a estar livre.
Voltaria a encontrar Luís quando ia à baixa, com um banco e uma pequena mesa, profissionalmente a plastificar cartões de documentos. Os meus acompanhantes ficavam sempre muito intrigados quando se confrontavam com a minha amizade com um plastificador de cartões.
(Na próxima quarta há mais Quarto)

sábado, 26 de novembro de 2011

O meu problema maior é o frigorífico

Sei que vou ser pobre. Estou preparado, já o fui. Não preciso de grandes coisas. Só do básico. De comida e companheiros. Quando eu tinha poucos anos o meu pai regressou de França, não suportava não viver em família. Os meus tios de sangue e os tios de vizinhança continuaram por lá. Os meus primos e a outra putalhada tinham bicicleta, aquecedor eléctrico, lápis caran d’ache, luzes no presépio, calça de bombazina mas não tinham pai nem tantos irmãos – porque o meu pai, como dormia todas as noites com a minha mãe...!

O meu trabalho dos próximos tempos vai ser preparar os meus filhos, que nunca foram pobres, para o que aí vem! Não quero que emigrem! Só tenho uma vida, quero-a viver com eles! Quero-os fazer perceber que um governo que aconselha os nossos jovens a emigrar, não é um governo de uma nação, é o governo de uma coutada! Quero que queiram lutar cá!...

Nos próximos anos, quando já não houver salários e serviços para cortar, quando não for possível escravizar mais ou despedir para sustentar a classe governante, as suas clientelas, os seus escudos policiais e os seus cobradores de impostos, vai ser necessário cobrar mais impostos até chegar ao ponto de nós, pobres contribuintes, termos de escolher entre pagar impostos ou comer.

Nessa altura, eles irão seguir o que há pouco tempo se passou a fazer na Grécia: os impostos serão colectáveis através da factura de electricidade. Quem não pagar fica sem energia eléctrica para o frigorífico.

Em 1975, um primo meu em missão militar em Moçambique, teve a oportunidade daí recolher e despachar um conjunto de electrodomésticos e mobília, abandonado por portugueses em fuga. Distribuiu o espólio pela família e à nossa casa coube um frigorífico e três divãs. Deixámos, nós irmãos, de dormir aos pares e mudaram os hábitos alimentares em casa.

A televisão só viria mais tarde por ser indispensável à frequência do meu ano propedêutico, contra vontade do meu pai, que tinha muito orgulho em mim por ser o único da aldeia com vontades para estudar mas que não aceitava que a televisão pudesse substituir os professores.

Ora eu, que ainda não dei um passo para adaptar o meu televisor à televisão digital terrestre porque me estou nas tintas para que me cortem o sinal; eu, cujo rendimento está vulnerável aos desmandos dum governo, feito para governar para outras classes, às troikas e outras agências do capitalismo mundial; eu, que tenho casa para dormir, curral para porcos e quintal para couves – e, por isso, exposto a impostos sobre a propriedade - declaro solenemente que estou preparado para tudo, menos para ficar sem o meu frigorífico que me guarda a carne de porco e as bebidas frescas.

Se me vierem a cortar a electricidade, talvez eu faça uma sociedade com o vizinho. Fazemos uma ligação da casa dele à minha, ele paga a factura e eu dou-lhe couves e chouriço. Talvez então, com outros como eu e como ele, nós comecemos a fazer um mundo à parte, fora da lei, sem euros, mas felizes como o meu pai e a minha mãe que nunca tiveram dinheiro mas dormiam juntos e trocavam haveres com os vizinhos. Talvez comece a haver outra forma de viver, talvez comece a acontecer uma sociedade socialista dentro desta e esta acabe de uma vez por todas. Não quero este governo, não quero este caminho. Se tenho de voltar a ser pobre que seja para mudar!
(que isto não seja entendido como resignação: eu fiz greve!)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Poema à greve

Dedico este poema, de Augusto Campos, a uma mosca anónima que me andou, todo o Grande Dia de ontem, a rodear a pocilga:


 E olhe, vou-lhe confessar uma coisa: ontem fiz greve porque não me apeteceu blogar e como, dizem, não faço nada nem escrevo nada de jeito, juntei as duas e fui fazer amor! E depois, no estado em que o país está, em que a maioria das coisas dá prejuízo a funcionar, se pararem em greve, só estão a ajudar a equilibrar as contas. Imagine a energia eléctrica que não se poupou com a greve desta pocilga! Primeiro em minha casa e depois, nos lares e empregos dos inúmeros leitores! Mas a senhora, em vez de estar  trabalhar no seu, andou todo o grande dia a rondar os blogues que fizeram greve ! E não me venha dizer que estou a ser demagogo! Eu estou a ser porco!
Um abraço ansioso por uma nova greve para não trabalhar e a ajudar a equilibrar as putas das contas

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Como será amanhã

Quarto 10

Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, este quarto não faz sentido)
Bem que a cama vazia do Zé Maria me dava jeito! Pousava lá roupa, papéis, servia de sofá… servia. Além disso, era a primeira vez na minha vida que experimentava um quarto só para mim.
Depois de um serão de televisão a sós com Tânia, ela subiu as escadas à minha frente e, quando chegou ao cimo, virou-se para trás, deu-me um beijo na boca, curto mas cheio. Depois entrou de recuo no seu quarto enquanto estendia na minha direcção o sorriso mais puro e perfeito que alguma vez me tinha dirigido, quando fechou a porta tive a sensação que o entalou.
Fiquei ali especado sem coragem para abrir a minha porta, que fazia canto com as outras duas. Não! Não podia insistir! Gina já dormia!... Podia bater à porta de Graça a perguntar-lhe se tinha alguma carta para escrever!... Não! Não tinha jeito!... Dei uma batida suave na porta para que Tânia compreendesse que eu ainda estava ali!
- Vai deitar-te João! Amanhã falamos!
Falar amanhã já não era mau. Mas nós falávamos todos os dias!... Entrei no quarto com pensamentos destes e por ali fiquei, entre sebentas, sem conseguir dormir. Tânia estava a dar-me a volta ao miolo. Seria paixão? Estava a entrar em terreno perigoso.
No dia seguinte faltei às aulas e fiquei sozinho em casa todo o dia a estudar. Senti a porta da rua a abrir, Tânia entrava a cantarolar – pouco dela! Passados minutos bateu-me à porta e entrou. Eu continuei de bruços na cama, com os olhos nos apontamentos como se continuasse a estudar. Ela sentou-se na outra cama e, com o lado infantil que ainda tinha, exclamou:
- Já estou de férias! Nhe! Nhe!
- Mas eu não! Agora deixa-me estudar!
- Queres que eu saia?
Dei meia volta, sentei-me na beira da minha cama e ficámos frente-a-frente em igual posição. A distância entre as duas camas permitiu que lhe agarrasse as mãos e que nos beijássemos permanecendo sentados. Saíram umas palavras de paixão, começámos a enrolar-nos e, quando já tudo acontecia, chega alguém a casa - pelos passos, Gina. Tânia arranja-se à pressa, Gina bate à porta, respondo:
- Um momento!... Volta mais tarde, tenho de estudar.
Gina abriu a porta e percebeu, percebeu e reagiu mal, reagiu mal e disse que ia contar à mãe. Explicações daqui e dacolá; que não tinha sido bem aquilo que estaria a pensar. Acabámos por andar uns dias nas mãos das pequenas chantagens de Gina.
Tânia ficou ferida. Por demais que eu tentasse gestos e oportunidades só conseguia um ou outro beijo sem vigor. Eu não tinha sorte nenhuma! Logo agora que estava apaixonado!
(Na próxima quarta há mais Quarto)

domingo, 20 de novembro de 2011

Pode quem não tem emprego fazer greve?!

Greve é a cessação colectiva e voluntária do trabalho realizada por trabalhadores. Por extensão, pode referir-se à cessação colectiva e voluntária de quaisquer actividades, remuneradas ou não, para protestar contra algo. 

A palavra origina-se do francês grève, com o mesmo sentido, proveniente da Place de Grève, em Paris, na margem do Sena, outrora lugar de embarque e desembarque de navios e depois, local das reuniões de desempregados e operários insatisfeitos com as condições de trabalho. O termo grève significa, originalmente, "terreno plano composto de cascalho ou areia à margem do mar ou do rio", onde se acumulavam inúmeros gravetos. Daí o nome da praça e o surgimento etimológico do vocábulo, usado pela primeira vez no final do século XVIII.
(Wikipédia)
Protesto - eis a essência da greve! Greve - eis uma forma legal de protestar colectivamente! Colectivamente - eis uma razão que dá à Greve a força de ser a forma de protesto por excelência.
Podem existir outras, eu estarei lá e nem sequer estarei preocupado com a legalidade! Exigirei apenas que expressem força e união.

Numa greve geral eu não exijo de mim apenas a perda de um dia de salário, um dia sem trabalho:
Quero a companhia da senhora do bar e, por isso, não vou ao café.
Quero a companhia da mulher do pão e, por isso, vou comer torradas.
Quero a companhia da rapariga da tabacaria e, por isso, não compro o jornal.
Quero a companhia da rapariguinha feirante e, por isso, não vou a mercado.
Quero a companhia da menina da caixa e, por isso, não vou ao supermercado.
Quero a companhia da professora e, por isso, não vou levar os filhos à escola. 
Quero a companhia da enfermeira e, por isso, não vou tratar das feridas. 
Quero a companhia da médica e, por isso, não vou estar doente.
Quero a companhia da dactilógrafa e, por isso, não vou à repartição.
Quero a companhia da mulher operária para estar com ela.
Quero a companhia dessas mulheres
E dos seus homens.
Nós os dois estaremos por casa, esperamos a vossa companhia.
Nem sequer vamos querer saber de notícias da greve porque jornalista que fale nesse dia não nos merece crédito.

Todos podem fazer greve, razões não faltam, formas não faltam, haja vontade!

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Contra as receitas em grego

Companheiros de outras paragens, de outras margens e de fozes dos grandes rios.
Aqui Cavaco Silva teve setenta e sete por cento dos votos - tantas as que Cristo disse para perdoar - e o PSD ultrapassou os sessenta. Porque é terra de pedreiros e de pedra, de carpinteiros e de madeira, de construtores e de tratores, do chão que já deu uvas, a crise tem um tom diferente de doer porque ainda ontem o sol raiava nas piscinas e agora nem há culturas para regar.
Mas de tanto a água benta molhar a mão direita não se pense que por aqui, como por toda a parte, não se diz apenas: venha outro salazar!
Não!
Também se diz venha outro abril, a culpa é dos amigos de cavaco,  ai face oculta, a culpa é de todos os governos, das agências, do euro, da merkel, da euromanha, do sistema. 
(A culpa nunca é de quem os elegeu ou os calou, de quem os elegerá novamente e a seguir os negará.) 
E então dizem-me, para calar a conversa:
- São todos iguais! Devíamos fazer como se faz na Grécia!
- Se ao menos fizessem greve dia 24 para serem diferentes entre tantos iguais!

Mas não! Só o governo acredita que já estamos às portas de Atenas! Assim se compreende que em tempos de cortes e despedimentos tenha surgido ontem notícia de que vão ser admitidos mais 1000 efectivos para as forças de segurança.

Dia 24 vou para a porta do meu serviço mas não entro. À cautela vou levar o meu cão, Loukanikos!
Ele não é como os meus colegas! Não diz só ão!ão! Também morde!

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Quarto 9

Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, este quarto não faz sentido)

Com este entusiasmo à volta da mãe até me tenho esquecido das filhas. Deve notar-se que, até agora, ainda não revelei os seus nomes. De casa para fora não se conheciam amigas, amigos ou colegas às meninas. Iam para o liceu e vinham as duas a pé, sempre sozinhas. Também nunca se lhes ouvia assuntos de escola, tirando uma vez ou outra em que me pediam explicações.
As meninas reuniam todas as condições para serem discriminadas no bairro e na escola: tinham vindo de África, eram as únicas pretas num bairro branco, viviam na única casa que não estava impecavelmente arranjada – bem pelo contrário, o número 7 tinha ervas no jardim, já quase não havia vestígios de tinta nas paredes nem nas portadas degradadas - aos olhos da vizinhança, os movimentos de entrada e saída da casa eram intrigantes e, como se não bastasse, chamavam-se Gina e Tânia. Quem cumpriu o serviço militar sabe perfeitamente que Gina e Tânia eram os nomes de duas namoradas gráficas de muitos soldados – daí a conjugação dos dois nomes ser um acaso infeliz.
Gina, a mais nova, tinha um corpo de mulher feita digno de se olhar mas as feições portuguesas na cor mulata não a favoreciam muito. Andávamos os dois constantemente a brincar às agressões, às cartas nunca éramos da mesma equipa, Gina era feliz e curtia a minha presença na família.
Tânia era um espectáculo de encher olhos e secar bocas: o rosto arredondado bem africano, a pele de bronze, os sorrisos breves e felizes com dentes branquíssimos, um corpo de se lhe tirar o chapéu e depois, fizera 18 anos! 18 anos! Tânia falava apenas quando era necessário, largava-me um sorriso dos dela quando olhava para mim e nunca passávamos um pelo outro sem umas cócegazinhas.
Por vezes íamos os três, a pé, até ao restaurante-cervejaria onde trabalhava a mãe, sentávamo-nos na esplanada, elas pegavam num gelado cada uma e adoravam provocar-me a libido enquanto o comiam - riam, riam, riam uma para a outra satisfeitas por me lerem os pensamentos e por fazerem uma maldade sem fazerem nada de mal. Eu bebia duas ou três imperiais com tremoços e depois voltávamos para casa sem pagar nada - os empregados fechavam os olhos às nossas despesas porque os abriam bem às filhas da colega.
A um canto da sala havia um divã polivalente onde acabávamos, os três, as noites de filmes bons. Incapaz de acompanhar as legendas dona Graça ia para a cama. Independentemente do filme, não digo que não acontecessem umas mãos entre botões, calor, humidade – nessa altura ainda não havia ar condicionado - suspiração. Às vezes um “está quieto!”, às vezes um desejo, às vezes um “querias!”, às vezes uma carícia.
As meninas gostavam de mim, eu gostava das meninas. As meninas brincavam comigo, eu brincava com as meninas. A mãe via entre mim e as meninas, acontecesse o que acontecesse, a harmonia.
(Na próxima quarta há mais Quarto)

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A culpa vai ser dos comunistas


O Gaspar está gasto. Então não sabe que essa já está gasta?! Já passou de moda! Já não pega!
O rapaz rebobinou a cassete?! O bode da herança dos colegas do governo anterior, a cabra da crise financeira internacional, a lei laboral, a constituição socialista já não chegam?! Prevendo o mau resultado das suas contas mal feitas, já está a atirar antecipadamente as culpas para o ruído das manifestações (sem expressão, nas suas futuras palavras), para as greves de elevada expressão (com muito pouca adesão, nas esperadas palavras dos seus) e já acusou o PCP e ao BE de serem os promotores de um eventual fracasso do programa de resgate financeiro?!

Senhor Gaspar:
Tal como agradece, num gesto verbal de eternecedora convergência, a oposição "violenta e construtiva" do proverbial PS, acorde também e perceba que a democracia não se esgota nas opiniões dos iguais e vai mesmo além do PCP ou do BE - há muito mais gente que discorda! Os seus preconceitos é que não o deixam ver mais longe!
Por eu lhe dizer que o seu orçamento vai ser um fracasso, não me venha dizer que a culpa é minha!... Lá estarei dia 12 e dia 2x12 para ver se me ouve e corrige as asneiras que só podem levar ao fracasso!
Um abraço deste que de si nada espera

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Quarto 8

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, este quarto não faz sentido)

Durante a noite, durante os intervalos da discussão com o noivo, Dona Graça ia ao nosso quarto, com pomadas, gelo e paninhos quentes, para tratamento e consolo da vítima.
No dia seguinte não fui às aulas.
Ainda na cama, assisti ao fazer das malas do meu pouco próximo companheiro de quarto. Nunca chegámos a ser amigos (mijava num saco de plástico e mandava-o pela janela para o quintal só para não ir à casa de banho). Vesti-me e ajudei-o com as malas até ao táxi, apertámos a mão, franzi os olhos e encolhi os ombros; ele, marcado pela zaragata, franziu um olho e encolheu um ombro – como rapazes da mesma escola continuaríamos a ver-nos todos os dias.
À tarde, com a dona no trabalho e as meninas na escola, Virgolino foi ao meu quarto.
Fez um longo desabafo do seu fado, disse-me que ia arrumar o saco e tomar o comboio e pediu-me dinheiro emprestado. Tentei demovê-lo mas estava determinado.
Depois do abraço, viu-o partir rua abaixo a caminho da paragem do autocarro que o levaria à estação.
- Vou devolver-te o dinheiro pelo correio! Confia em mim irmão!
Chamou-me irmão, o suficiente para eu não ficar a pensar no dinheiro.
Quando Dona Graça voltou, confrontada com a partida, apenas disse:
- Foi melhor assim!
Os dias que se seguiram lá na casa foram de poucas palavras. Valeu-me o ambiente para pôr o estudo em dia.
Ao fim de quinze dias dona Graça confessou-se-me incapaz de telefonar ao Virgolino. Agora que as coisas já tinham arrefecido gostaria de falar com ele e, se mais não fosse possível, ao menos que ficassem amigos. O melhor mesmo seria escrever uma carta, disse-me ela com um sorriso “quarto maroto” e de lábios fechados.
Andei até à noite em pulgas. Entre nós os dois havia uma diferença de idades de mãe para filho, havia uma diferença de peso do dobro para metade, haviam muitas diferenças mas unia-nos, sem complexos, compromissos ou receios, o facto de não nos envergonharmos das nossas necessidades e de não negarmos o prazer.
O quarto era grande, dona Graça era enorme, de formas arredondadas, perfeitas, de cor quente e macia, orgulhava-se do seu corpo e do seu desempenho, era um mulher sexualmente dedicada. Aquilo que fazíamos os dois era amor. Não um amor construído do qual se pretende continuidade mas um amor que se fazia como o pão. Para fazer pão é preciso juntar cavacos para aquecer o forno, aquecer o forno, amassar a massa, enfornar manuseando a pá com sabedoria e, depois de feito, há que comê-lo. Em suma, fazer pão é acto de amor.
Bem vistas as coisas a peculiaridade da nossa relação residia no facto do acto só se consumar depois de escrita uma carta. Diria até que se Dona Graça não tivesse namorado inventaria um só para ter de me ditar cartas.
(Na próxima quarta há mais Quarto)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Um negócio seguro

A pessoa a quem eu conseguiria vender um carro:
- Eu compro-lhe o carro e o senhor dá-me um tapete para o pendura!
- Mas o senhor acha que o carro não vale o dinheiro que peço sem os tapetes?!
- O carro é muito mau  e não vale o dinheiro nem com os tapetes mas, por uma questão de honra, eu compro-lhe o carro!
- Então o senhor compra-me o carro por este preço mesmo que eu não lhe dê o tapete do pendura!?
- O senhor pode pedir o preço que quiser que eu, por uma questão de honra, compro-lhe o carro de qualquer forma mas, de qualquer maneira, o senhor tem de me dar um tapete para o pendura!
- Podemos, portanto, fazer já o contrato: como é que o senhor se chama?
- António José Seguro.
(isto porque hoje vi, sem querer, uma entrevista sem honra nem glória)

domingo, 6 de novembro de 2011

A Euromanha

A malta do Carvalhal nunca se deu com a malta do Sobral! Isto é uma coisa já muito antiga, mais velha do que a república. Se calhar sempre existiu! Eles tinham a mania que eles é que tinham o azeite e eles é que tocavam o sino. A igreja era lá, o regedor era lá, tudo o que se fazia, fosse coreto, fonte ou cemitério era lá. Até que um dia, antes do Carmona, parece-me, a malta do Carvalhal mexeu-se, fez-se a freguesia e mandámos os do Sobral para o carvalho. Mas a rivalidade continuou sempre, tanto que você não encontra aqui uma única mulher ou homem, casado com homem ou mulher de lá de baixo. Tivemos direito a isto e mais aquilo, fez-se esta igreja, tivemos padre… agora, há uns anos para cá, o padre daqui é o mesmo do Sobral mas, lá está, os bispos são mais espertos do que os ministros, o padre é o mesmo mas continua a haver duas paróquias! Deus me livre de ter de ir à missa ao Sobral!

Agora dizem que temos de pertencer ao Sobral! Está mal, não percebem nada disto! Dizem que é para poupar! Poupar o quê?! Caralho. O presidente da junta recebe uma bagatela que não lhe cobre as despesas que faz com o carro dele, a junta não tem ninguém empregado, se se faz uma obra ou outra é porque o povo precisa e, de uma forma ou de outra, tem de ser feita! Dizem que a malta fica melhor servida! Tá-se mesmo a ver! Atão não ficamos! Ficamos é sem nada! Estes gajos não percebem que a gente não quer a junta para se abotoar como eles fazem? A gente quer a junta porque é uma maneira da gente se ajuntar e discutir os nossos problemas e a maneira dos resolver!

O que mais custa é que estes filhos dum cabrão tenham cara pra dizer que isto melhora a democracia e a gente não tenha uma palavra a dizer! Democracia do caralho a deles que eles é que decidem e a gente come e cala!

Imaginem que os gajos da euromanha, ou lá como é que se chama essa porra da cee, acham que é muito caro haver tantos estados e vêm com a cantiga que se tem de poupar, com a velha desculpa esfarrapada que os portugueses ficam mais bem servidos e resolvem que Portugal pertença a Espanha?! Tá a ver o que eles nos tão a fazer?! É isso! Querem acabar com isto?! Talvez a gente também acabe com eles! Eles não dizem que a gente acaba, não há extinções! Eles, espertos da política, dizem que nos vamos fundir! Ora que se vão fundir eles que a nós não nos fundem como eles julgam!

Cabrões do caralho! Vão lá mandar para a terra deles! A freguesia está aqui muito bem e daqui não sai!

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Hei-de morrer

Estou a escrever
Para dizer que vou morrer
Ainda há-de haver
Em nome de Deus virgens a explodir em Telavive
Em nome da América soldados gordos a morrer em Kandahar
E em meu nome homens que não me conhecem a falar

Estou a escrever
Porque irei morrer
Ainda há-de haver
Crianças a morrer de fome em Mogadíscio
E um menino chamado Aparício
Assassinado em Janeiro no Rio

Caramba irei morrer
De frio a escrever
E ainda há-de haver
Um Portugal pobre e amordaçado
Um povo orgulhoso de lhe chamarem zé

É hei-de morrer
A escrever a mesma coisa
Com outros confortáveis blogueres de T3
Conformado por ter passado a minha vez
De despir e ter nua a verdade à minha frente
Entre operários que desceram a rua que era para subir

É hei-de morrer a rir
De mim e qualquer coisa
Hei-de partir a loiça a definhar
Com o Sol todos os dias a pôr-se e a nascer
Com a Lua aluada a crescer e a minguar
E por cá a Terra a rodar em voltas sempre iguais

Ah hei-de morrer
Se não morresse era demais
A ver as gerações passarem em mutação
E os pobres desgraçados humilhados
Sempre à espera duma tal revolução
Que sempre é vencida

Escrevam da vida escritores de secretária
Que hei-de morrer a ouvi-los escrever
Sem nunca pegarem numa palavra a atirar
Para tirar os dentes aos párias que demandam
Às castas baixas o vinho sem papéis
Andam para aí uns que se dizem democratas
Abatam-nos são mentirosos e ranhosos

Hei-de morrer de baba e ranho
Num futuro igual a antanho e a dormir
Com a América Latina a sonhar
Com a Europa em obras
Com Putin entre ursas
Com Bush entre vacas
Com uma qualquer peça de caça a moer-me o juízo

Ai a vida é desesperançada
Porque não há nada que mude este mundo e este país
Quis quero quererei

Hei-de morrer
E se eu morrer de dia a seguir haverá uma noite
E se eu morrer de noite a seguir haverá um dia
E quer seja de noite ou de dia haverá uma madrugada
Em que depois se irá lutar
E depois de se lutar haverá dia ou nada
E depois da noite haverá luto ou alvorada

Olha se eu morresse
Ainda gostava de viver o que acontece
Talvez depois de eu morrer por escárnio
Alguém invente a paz o amor e a democracia

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Quarto 7

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, este quarto não faz sentido)

Num fim de tarde, estávamos quatro a jogar dominó na mesa da sala, o padrasto, as duas meninas e eu, o enteado branco, quando um homem de meia-idade bate à porta:
- Por acaso não é aqui que está hospedado um estudante de engenharia de nome José Maria?
- Está! Está! – respondeu Virgolino com a antipatia que lhe era nata, ao mesmo tempo que lhe deixava espaço para ficar do lado de dentro da casa.
- Podia chamá-lo? Diga-lhe que é o pai!...
Zé Maria estava no quarto. O pai, ao que parecia, viera à cidade visitar o rapaz e verificar in loco as condições em que vivia o filhinho. As meninas gritaram em coro, duas ou três vezes, de modo a ouvir-se no piso de cima:
- Zé Maria!? Está aqui o teu papá!
Zé Maria desceu as escadas, deu dois beijos ao pai e saíram os dois para o lado de fora deixando a porta entreaberta. Continuámos o jogo com os ouvidos dispostos ao coscuvilho da conversa entre pai e filho:
- Alguma vez te faltei com o dinheiro?
- Não papá! O que me tens mandado desenrasca-me bem!
- Então porque é que andas com esses sapatos?! Então porque é que não cortas o cabelo?
- Ora essa pai! O que é que isso importa?
- Não me tinhas contado que vivias com pretas e brancos com o aspecto como o daqueles dois que estão ali dentro!
- Oh pai!...
- A partir de amanhã deixas esta casa! Podes instalar-te num hotel se quiseres! E a próxima vez que te vir quero-te com uns sapatos engraxados e cabelo cortado, ouviste? Agora vai lá acima preparar-te como um homem que vais jantar fora com o senhor teu pai!
Quando, noite adiantada, Zé Maria regressou à “espelunca”, havia baile com merengue.
O rapaz vinha de rastos com as lições do pai pelo que foi fácil aderir à paródia. Bebeu um, bebeu dois e bebeu três mas não havia maneira de o pormos a dançar. Virgolino puxou-o da cadeira, aparelhou-se a ele ao som da música e passou-lhe a mão pelo cu.
Foi uma explosão. De repente começaram os dois aos empurrões, embrulharam-se no chão ao som dos gritos das mulheres enquanto eu, impotente, tentava a paz sem entrar na guerra. Um derradeiro soco atordoou o Zé estudante.
Acalmei Virgolino enquanto dona Graça tentava socorrer a vítima com água. As meninas davam tom à cena com um coro de choro.
Acompanhei o “mais forte” até à cozinha e este sentou-se com expressões que alternavam entre a raiva e o arrependimento. Voltei à sala e ajudei o “mais fraco” a levantar-se e amparei-o na subida das escadas até ao quarto.
- A partir de amanhã não ouvirás mais o ressonar do Zé Maria! – disse-me ele enquanto se deitava doridamente sobre o divã.
- Não te precipites! Vou mas é lá abaixo buscar gelo que o teu olho parece estar a inchar!
Desci as escadas, as meninas no sofá com os olhos na televisão mas distantes dela, o casal na cozinha em acesa discussão enquanto eu me dirigi ao frigorífico.
- Calma! Calma! Isto passa! Vim buscar gelo que aquilo está a inchar!
Às minhas palavras a discussão subiu de intensidade e pôs-me a mais na cena. Restava-me sair e ir tratar do ferido.
(Na próxima quarta há mais Quarto)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Emigre quem puder

Deve ser o primeiro governo do mundo que pede aos seus jovens para emigrar. É o "salve-se quem puder" das vozes de comando. Os velhos e as crianças, mais vulneráveis, não terão outro remédio senão ficar. E como as crianças de hoje serão jovens amanhã, o caminho que estes senhores desejam é transformar este país numa gigantesca aldeia do interior.

Emigrem vocês asnos do poder! Vazem! A mais, só vós! Precisamos de jovens, velhos e crianças! De vossas excelências apenas precisamos que desapareçam! Saiam do vosso posto de conforto! Aqui posto de comando! Desandem!
E já que não podem sentir a crise ou o país, fujam pelo rasto do vosso património financeiro para as terras francas do vosso contentamento.

A criatura já disse isto há mais de 24 horas e ainda não foi demitida?! Com que então os jovens desempregados devem sair do seu conforto?!

sábado, 29 de outubro de 2011

As vacas não se chamam pelo nome mas os bois sim

O rei D.Carlos adorava a caça, Salazar as botas, as pantufas e a criada, Eanes a mulher, Soares, abanar o cu de avião, Sampaio os buracos do golfe e Cavaco, adora vacas. E, de repente, toda a gente está com o presidente a falar das vacas, como se estivesse implícíta uma vontade de voltar às índias, um assomo de virilidade de velhos murchos, a falta de coragem para chamar os bois pelos nomes, a irresponsabilidade de esquecer os porcos e o Rei dos Leittões.
Não gosto de vacas nem de anónimos porque não têm nome mas um anónimo deixou-me este comentário no post anterior e eu sinto-me na obrigação de o pôr no cocho:

"Anda um gajo ensimesmado com esta merda toda, eu que já tenho idade mais que suficiente e com um invejável curriculum de salazarismo, guerra colonial, 25 de Abril sempre ou de vez em quando, 25 de Novembro o caralho, fmi´s, Soares, Cavacos mais toda a corja infecta que saltou da latrina mal o carcanhol das europas entrou por Vilar Formoso aos turbilhões, eu, que a esta hora poderia e deveria como tantos outros estar a gozar de uma choruda reforma antecipada ou na reserva territorial por incapacidade intelectual, ando aqui a chatear-me com políticos e economistas ranhosos, que se isto fosse um lugar frequentado por gente com algum pingo de vergonha nas ventas e coluna vertebral de aço inox, nunca teriam passado da junta de freguesia de santa pachacha de assobio ou da contabilidade da única mercearia de Algodres de Baixo.

Como sou masoquista, vou vendo ouvindo e lendo as escarradelas dos ilustres comentadores que poluem o éter, cada qual com a sua solução mágica para arrumar de vez a crise, tipo tira agora o coelho da cartola que já vais ver como é que te vão ao traseiro.

E como sou, na opinião de tão desbragadas criaturas, um dos muitos milhões de responsáveis que andaram a viver acima das suas possibilidades, pergunto se esse porventura meu pecado foi assim tão grave que tenha agora de levar com o inferno, o purgatório e o Vítor Gaspar em cima como castigo e penitência.

Por isso peço desculpa por ter comprado uma casinha a crédito quando os bancos andavam a oferecer empréstimos ao desbarato, ter comprado um carrito de merda a suaves prestações mensais aproveitando uma promoção da treta que a marca oferecia, ter trocado o meu velho televisor por um Lcd pago em 10 vezes sem juros, ter comprado um frigorífico novo quando o velho deu o peido-mestre, e isto só para citar o mais relevante.

Pois, sou culpado da crise, e o que deveria ter feito era ter entrado para um partido do arco do poder, militado na jota, aparecer, qual emplastro, ao lado do líder, atirar umas bojardas para a comunicação social e ganhar um lugar de deputado, secretário de estado ou até de ministro, com algumas alcavalas pelo meio em administrações de empresas públicas, público-privadas e bancos da treta, somando meia-dúzia de pés de meia em negócios de alto valor acrescentado na minha conta bancária na Suiça, e vivendo à grande e à francesa em moradias de luxo rodeado de veículos topo de gama e putas de todas as cores, feitios e sexos.

Tem muita razão a senhora Merkl em exigir-me o pagamento de dívidas que eu nunca tive, especialmente aquelas contraídas com a aquisição de coisas que a senhora me obrigou a comprar, têm muita razão os que apontam o dedo à minha exagerada despesa com o SNS, principalmente quando fiquei doente, e o meu abuso das instituições de ensino, pois deveria ter permanecido alegre e analfabeto evitando gastos inúteis ao estado.

Para quem andou tantos anos a levar com crises em cheio nos cornos, embora com alguns muito pequenos intervalos respiráveis, mais crise menos crise pouco importa a quem já está malhadiço, calejado e habituado. No fim vamos todos voltar à terra e ao mar como quer o sr. presidente, que é onde está o nosso futuro.

Enterrados bem fundo ou a nadar junto à costa até os tubarões darem conta do que ainda sobrar.

Ainda bem que somos governados por gente tão inteligente e preocupada com o nosso bem-estar."
 
Anónimo, como as vacas e não como os bois.

(bem me parecia, este Anónimo trazia água no bico, pesquisei e encontrei o autor do texto no blog baba de safio - a César o que é de César - nota em 1/11/11)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A Salvação está na Terra ou no Céu?

 Nos últimos dias têm surgido uma série de velhas notícias que, de vez em quando, saem das profundezas da terra para animar a malta: é gás no Algarve, é petróleo em Peniche, é ouro no Alentejo, é água de Colónia natural em S.Pedro do Sul! Enfim, coisas que podem trazer-nos a salvação da economia mas que podem também trazer-nos o perigo de bombardeamentos da NATO.
É claro que o governo, com receio que isso acabe com a crise, já acautelou que os tesouros serão explorados por franceses, ingleses, americanos e outros amigos e que a água de Colónia é dos alemães. Mas, nunca se sabe, às duas por três, não agrada aos amigos das onças o modo como o Coelho lida com os tumultos ou o Cavaco com as vacas e, vai daí, resolvem atirar bombas de salvação do céu, cobrando-nos, obviamente, os custos do foguetório em gás, petróleo e ouro.

Os amigos de hoje podem ser os inimigos de amanhã.