quarta-feira, 6 de junho de 2012

Um sinal de esperança

Sócrates chegou ao poder camuflado de socialista e preparou o terreno para que a direita, em que militou na juventude, faça presentemente o seu trabalho. Um gesto de entrega total a um ideal que, sabia de antemão, lhe iria custar a carreira política. Se o PSD honrar os seus mártires fazer-lhe-á um dia justiça na galeria dos seus heróis.

Mas ninguém sabe se outros infiltrados não estarão agora mesmo a fazer trabalho idêntico e um dia as coisas mudem no sentido inverso. Não sou eu que digo - transcrevo:

"Instruído e calejado pelas vitórias e revezes o povo português estancará a actual ofensiva reaccionária, fará de novo tremer o punhado de vendidos que ensombram o futuro da pátria e criará, com a sua luta, novas condições democráticas e revolucionárias que permitirão o avanço de Portugal para a liberdade e o socialismo."

Isto é, esta é uma das razões porque acredito que a educação pública pode vir a ter o papel que lhe compete na sociedade. Aparentemente pode parecer que estou a delirar mas eu acredito na coerência dos homens que cresceram movidos por ideais e, quem disse isto em 1977, então com 25 anos, é actualmente ministro da educação e não tem nada aspecto de vira-casacas. Ele lá sabe o que anda a fazer. Não tarda revela-se e vinga o plano Sócrates.
 A transcrição é da página 135 deste livro:

Obrigado Nuno Crato, tiraste-me as palavras da boca!

terça-feira, 5 de junho de 2012

Ei-los que partem


Cinco quartos, quatro quartos de banho, três salas, duas cozinhas, uma churrasqueira, varandas, muros e mais janelas – grande como os sonhos. Ao lado, uma casa de duas águas cujo alçado principal deixa adivinhar o interior. Frente a uma das duas janelas, num banco de pau marcado por estios e invernos, está sentado um homem, marcado pela idade, com a mesma vontade de falar que outros homens e mulheres da sua idade que sentam em lugares idênticos.

- Há dez anos atrás ele tirava mais de duzentos contos por mês nas obras. Comprou um carro novo e pensou em fazer a casa para ver se arranjava mulher. Agora a coisa virou para o torto e teve de ir, os bancos não perdoam! ...

Conheço bem ambos. Do pai, foi minha mãe que me falou em tempos, quando na idade das perguntas a interroguei sobre a alcunha do Mato Grosso. Foi para o Brasil novinho e sozinho e voltou três anos depois tísico e teso que nem um carapau. Não o quiseram para a tropa e os pais arranjaram-lhe uma alcofa que o veio a safar.
Ela tinha muitas vinhas mas também bebia muito vinho, por isso e por casar com ele ficou-lhe a matar o nome da Grossa. Foi-se cedo e deixou o viúvo atado com o cachopo que, talvez pela vida e morte da mãe, demorou a tomar corpo e a falar direito. Na escola chamávamos-lhe o Tó Espinhas.

Quando saí do carro para cumprimentar o Ti Mato Grosso ele estava a pensar no filho. Imaginava-o a desembarcar do navio no porto de Luxemburgo. Imaginava-o num país tão grande como o Brasil a julgar pela gente da terra que para lá está. Imaginava-o a arranhar no francês e a arranjar mulher. Via-o a regressar contente num valente carro e com a situação resolvida. Via-o a regressar de mãos a abanar como ele regressou do Brasil. Via-o sempre e era dele que gostava sempre de falar.

- Tu é que estás bem na vida! Quando ele andava contigo na escola, eu dizia-lhe sempre “estuda como o João! junta-te com o João! olha para o João!” … não quis e agora olha! Só gostava que ele cá estivesse quando eu morrer!...

- As coisas não são bem assim Ti Mato Grosso! Sabe que também estou seriamente a pensar em emigrar! Quem sabe o seu Tó ainda me vá arranjar para lá trabalho.

sábado, 2 de junho de 2012

Dum país sem saúde


Dum país sem saúde
Nos dias em que fecham empresas, escolas,  aldeias, freguesias, tribunais, lojas, correios, centros de saúde e hospitais…
E pasme-se: tudo é fechado para melhor servir as populações.
Que ninguém chore, que em cada mão se abra um gesto que devolva ao povo o que é seu
E este, hoje, é o meu:

Queres-me teu.
Esperas que eu me dobre para te sentares.
Queres-me ver de mão estendida ao fundo da tua rua.
Esperas que as minhas lágrimas inspirem os teus pintores.
Queres-me servo.
Pois fica sabendo que me terás em todas os desfiles, marchas e batalhas,
Em todas as assembleias, protestos e lutas.

Queres-me eunuco.
Esperas que eu sirva de motivo à tua caridade.
Queres ver-me chorar por falta de pão.
Esperas ver-me implorar ao teu poder.
Pois fica sabendo que não chorarei por perder o direito ao trabalho, à saúde e à educação,
À justiça, à casa ou a eletricidade.
Estarei sempre com os outros trabalhadores em luta.
Terei sempre a minha dignidade nem que um cancro me leve à porta do hospital e os teus colaboradores perguntem “tem seguro?!”
Terei sempre uma palavra: filhos da puta!

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Não sei se sou italiano ou irlandês

Porque na mensagem anterior só tive direito a um comentário o qual, ainda por cima, reprova a minha decisão de reproduzir as imagens, redimo-me com a reprodução desta imagem única de autor que não consigo identificar.
O que nos move:

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Duma violência extrema

Todo o cuidado é pouco quando se reproduzem imagens destas. Hesitei antes de decidir a sua reprodução.
Muitas vezes conhecer  a realidade dói. Muitas vezes ocultar a realidade é preferível. Dói-me vê-la, quero partilhá-la. Talvez assim possamos lutar juntos contra ela. Hoje é no Brasil, amanhã pode ser em Portugal.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Puta da Conjuntura


Sinto-me sem pachorra para "postar". A culpa é da Conjuntura! A Conjuntura é tão...tão... que não tem adjectivação que se lhe  adjective. Vivo com a Conjuntura desde que me fiz ser, pessoa, cidadão. Nunca vi a Conjuntura como agora: vive em Cascais e no Intendente; é secretária do governo e trabalha na caixa do Continente; é formada em letras e não sabe escrever; acusa 0,0 no balão e tem uma adega; tem um Jaguar e deve a conta do pão; constrói a pobreza e exalta o patrão; cultiva os humildes e gaba-lhes a inveja; compra roupa de marca e põe esmola na Igreja...
A minha relação com a Conjuntura é para toda a Vida - assim seja! Sou um Corno da Conjuntura! Fui traído pela Conjuntura! Não me resta outra saída senão viver o resto dos meus dias com a Conjuntura! Puta da Conjuntura! Puta que pariu a Conjuntura!

« E agora estou perdido!
Devo parar?
- Não, se páras, estás perdido.» (Goethe: Poemas.)»

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Faça um manguito, está a ser observado.



Com tanta gente a observar, quem é que trabalha?

Observatório do medicamento e dos produtos da saúde
Observatório nacional de saúde
Observatório português dos sistemas de saúde
Observatório da vida nas escolas
Observatório do ordenamento do território
Observatório do comércio
Observatório da imigração
Observatório das famílias e das políticas de família
Observatório permanente da juventude
Observatório nacional da droga e toxicodependência
Observatório europeu da droga e toxicodependência
Observatório geopolítico das drogas
Observatório do ambiente
Observatório das ciências e tecnologias
Observatório(s) do turismo (há 'n'!)
Observatório para a igualdade de oportunidades [ e o das Desigualdades?]
Observatório da imprensa
Observatório das ciências e do ensino superior
Observatório dos [trajectos dos] estudantes do ensino superior
Observatório da qualidade em serviços de informação e conhecimento
Observatório da comunicação
Observatório das actividades culturais
Observatório local da Guarda
Observatório(s) de inserção profissional
Observatório do emprego e formação profissional
Observatório nacional dos recursos humanos
Observatório regional de Leiria
Observatório permanente do ensino secundário
Observatório permanente das escolas (acrescentado à lista original)
Observatório permanente da justiça [portuguesa]
Observatório estatístico de Oeiras
Observatório da criação de empresas
Observatório Mcom
Observatório têxtil
Observatório da neologia do português
Observatório de segurança [, criminalidade organizada e terrorismo]
Observatório da segurança humana (acrescentado à lista original)
Observatório do desenvolvimento do Alentejo
Observatório de cheias
Observatório de secas (acrescentado à lista original)
Observatório da sociedade de informação
Observatório da inovação e conhecimento
Observatório da qualidade em serviços de informação e conhecimento
Observatório das regiões em reestruturação
Observatório das artes e tradições
Observatório de festas e património
Observatório dos apoios educativos
Observatório da globalização
Observatório do endividamento dos consumidores
Observatório do sul Europeu
Observatório europeu das relações profissionais
Observatório transfronteiriço Espanha-Portugal
Observatório europeu do racismo e xenofobia
Observatório dos territórios rurais
Observatório dos mercados agrícolas [e das importações agro-alimentares]
Observatório virtual da astrofísica
Observatório nacional dos sistemas multimunicipais e municipais
Observatório da segurança rodoviária
Observatório das prisões portuguesas
Observatório nacional dos diabetes
Observatório de políticas de educação e de contextos educativos
Observatório ibérico do acompanhamento do problema da degradação dos povoamentos de sobreiro e azinheira
Observatório estatístico
Observatório dos tarifários e das telecomunicações
Observatório da natureza
Observatório qualidade
Observatório da literatura e da literacia
Observatório da inteligência económica
Observatório para a integração de pessoas com deficiência
Observatório da competitividade e qualidade de vida
Observatório nacional das profissões de desporto
Observatório das ciências do 1º ciclo
Observatório nacional da dança
Observatório da língua portuguesa
Observatório de entradas na vida activa
Observatório europeu do sul
Observatório de biologia e sociedade
Observatório sobre o racismo e intolerância
Observatório permanente das organizações escolares
Observatório médico
Observatório solar e heliosférico
Observatório do sistema de aviação civil
Observatório da cidadania
Observatório da segurança nas profissões
Observatório da comunicação local
Observatório jornalismo electrónico e multimédia
Observatório urbano do eixo atlântico
Observatório robótico
Observatório permanente da segurança do Porto
Observatório do fogo
Observatório da comunicação (Obercom)
Observatório da qualidade do ar
Observatório do centro de pensamento de política internacional
Observatório ambiental de teledetecção atmosférica e comunicações aeroespaciais
Observatório europeu das PME
Observatório da restauração
Observatório de Timor Leste
Observatório de reumatologia [doenças reumáticas?]
Observatório da censura
Observatório do design
Observatório da economia mundial
Observatório do mercado de arroz
Observatório da DGV
Observatório de neologismos do português europeu
Observatório para a educação sexual
Observatório para a reabilitação urbana
Observatório para a gestão de áreas protegidas
Observatório europeu da sismologia
Observatório nacional das doenças reumáticas
Observatório da caça
Observatório da habitação
Observatório do emprego em portugal
Observatório Alzheimer
Observatório magnético de Coimbra
 E ainda:
Observatório sobre crises e alternativas
Observatório do risco
Observatório para a política da diversidade cultural e religiosa na europa do sul
Observatório sobre género e violência armada
Observatório das políticas de educação e formação
Observatórios sortidos na área da saúde (o "baptismo" deste é meu)- http://www.portaldasaude.pt/portal/servicos/pesquisa/resultados?q=observat%C3%B3rio
http://espectadorinteressado.blogspot.pt/2012/05/observando-os-observatorios.html#more

Incrédulo, ainda ainda googlei - existe tudo!

domingo, 20 de maio de 2012

Quem tem um patrão tem tudo


Por favor senhor Coelho não me despeça que preciso de ganhar a vida!
Sim, pode baixar-me o salário - a crise quando toca, toca a todos! …
Sim, posso trabalhar mais umas horas – temos de baixar os custos do trabalho! …
Mas por favor senhor Coelho não me despeça!

Eu sei que exagerei, fui dois anos seguidos para a praia, fui à Galiza numa excursão de tachos. Como se não bastasse, pedi dinheiro ao banco, meti-me num apartamento e comprei um carro alemão.

Tenho contas a pagar, por favor senhor Coelho não me despeça!
Lá em casa já tenho dois no desemprego e já não tenho força para emigrar.
O filho estudou não sei para quê, a mãe fez uma greve e veio para a rua.
Tenho de sustentar aquela gente senhor Coelho! ….
Prometo que não vou em sindicatos e que venho trabalhar no 1º de Maio.
Mas por favor senhor Coelho, não me despeça!

Sim senhor Coelho! Este governo é muito bom!
Este era o único país da Europa onde não se trabalhava no 1ºde Dezembro!
A Inglaterra por exemplo, não festeja o dia da República! ...
Sim senhor Coelho, vivemos acima das nossas possibilidades!
A malta estava cheia de regalias! As greves é que deram cabo disto tudo!

Este governo é muito competente Senhor Coelho!
A malta queria médicos à borla e escola para os filhos sem pagar!
Mas por favor senhor Coelho não me despeça!
A vida está má para os pobres mas os ricos também têm dificuldades!
Por favor senhor Coelho não me despeça!
Quer que eu dê umas voltas a ver por onde anda a sua mulher?
Com certeza Senhor Coelho! Eu faço tudo desde que não me despeça! ...
Quer dar umas voltas comigo?!
Aí paras Coelho!

Espero sinceramente que chegue a altura em que o povo diga não!
Entretanto, segundo as sondagens, os partidos que nos trouxeram até aqui continuam a liderar as intenções de voto.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Novíssimas oportunidades

Foi Sócrates que abriu o caminho aos passos que Passos dá. Passos acaba com as Novas Oportunidades, ordena a transferência em massa dos professores envolvidos para a iniciativa Novíssimas Oportunidades. Se nas primeiras o mote era "se não estudaste em novo, ao menos estuda em velho", nas segundas é "se não tens emprego, inventa-o".
... mas como há gente com mais imaginação e talento que eu, não resisti em publicar aqui um excerto do dum texto lido no Nós Temos Vacas no Jardim:

mas como há gente com mais imaginação e talento pelo que eu não resisti em publicar aqui um excerto do texto do Ricardo Araújo Pereira, sobretudo depois de muitos já lhe gritarem aos ouvidos, "Passos Ladrão, o teu lugar é na prisão".
"Sigamos o exemplo de Passos Coelho e descortinemos oportunidades em todas as desgraças. Porquê ficar apenas pelo desemprego? Os acidentes rodoviários são uma oportunidade para trocar de carro. Os incêndios são uma oportunidade para organizar uma grande churrascada com amigos. As cheias são uma oportunidade para fazer um passeio de barco bem romântico. E a cadeia é uma oportunidade para descansar e descobrir novas sensações no duche".




quinta-feira, 17 de maio de 2012

Cá nos vamos aguentando


Se os baixos salários, os impostos altos, o trabalho precário e a economia controlada por interesses privados fossem a solução para a crise, a crise nunca teria chegado a Portugal. Mais: Portugal seria o país mais desenvolvido e próspero da Europa.

Se fosse na inovação tecnológica que estivesse o futuro ? e a salvação ? de Portugal, e estando o país atascado em telemóveis, computadores (sem esquecer os Magalhães), IPODs, IPADs, internet e cliques a torto-e-a-direito, certamente que teria aumentado a produção de carne, cereais, fruta, legumes, aço, leite, sapatos, camisolas, componentes electrónicos, agulhas e alfinetes. E o peixe pescado por nós seria a nossa principal fonte de proteínas. Um enter e nasce a bezerra; dois cliques e cresce o trigo; um copy and paste e apanha-se um cardume. E seria sempre a aviar.

Se aumentar os impostos correspondesse a arrecadar mais receita fiscal, o Estado estaria rico. Ora, se o Estado, depois de ter aumentado brutalmente os impostos, está a arrecadar menos 5,8% em relação ao que se verificava há um ano, é porque alguém chamado Vítor não percebe nada disto. Ou finge que não percebe.

Se os bancos, que são os principais responsáveis pela dívida externa portuguesa ? e não o Estado, como gostam de fazer crer ?, já que se financiaram no estrangeiro para, por sua vez, financiarem a compra de casa própria pelos portugueses, se alambazaram ao avaliar as casas e a aplicar os seus vorazes spreads, que resolvam, então, a bolha imobiliária que está a rebentar-lhe nas mãos. Para não sermos todos nós, outra vez, a cobrir os riscos do negócio bancário. Que é privado, como sabemos. Ou privados serão, apenas, os lucros?

Se, após cinco anos numa empresa, um trabalhador português apenas recebe 34% (cerca de um terço) do que um alemão recebe quando perde o emprego, e 46,9% (menos de metade) do que recebe um espanhol, está mesmo a ver-se que só quando a indemnização for zero é que Portugal passará a ser um país desenvolvido e próspero. Calma, que está quase.

Posto isto, recordemos Miguel Torga. Há cinquenta e um anos, afirmou:

É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão. Somos, socialmente, uma sociedade pacífica de revoltados.

Se isto foi dito há mais de 50 anos, em plena ditadura (a tal longa noite fascista, que durou 48 anos), e serve que nem luva nos dias que correm, será que vivemos, há 38 anos, uma longa noite? democrática? E que ainda seremos capazes de aguentar mais dez?
Se não fôssemos tão mansos, o que é que gostaríamos de ser? 

 Crónica do João Carlos Pereira lida nas ?Provocações? da Rádio Baía em 16/05/2012.

Embora não os aguente, cá me vou aguentando como posso. Um abraço a todos os fiéis leitores que continuam a aguentar-me.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Diário da beira da estrada


Tanta gente que aqui passa a viajar. Não nos vemos. Eu sei que eles vão e eles sabem que eu estou. Que penso eu deles? Pensarão eles em quem vive nesta casa?
Sou agora outro homem. Puseram na minha aldeia o ruído da cidade.
Aquele vai cá numa brasa!
Isso é que aquele leva uma velocidade!
Está cara a gasolina!
Olha um deles numa limusina!
Isso é que aquele leva uma carrada!
Olha lá vai a brigada!
Outra vez o INEM!
Ganda BM!
Ganda camião!
Que irão a pensar? Para onde irão? 
Aquele deve de ir de férias para norte!
Aquele deve de ir buscar porcos ao oeste!
Olha a sorte que me deste querido progresso:
A minha aldeia ferida num país em retrocesso.
Se os pássaros sobreviverem, também hei-de sobreviver. 
Só não posso garantir se continuarei a cantar e a escrever.
Para onde irá aquele? Aquele andará a fazer o quê?
Não anda a fazer nada! Anda só a chatear as gentes da beira da estrada!
Puta é a icê! Nunca está calada!

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Desemprego surpreendente

- Portugal tem de ser mais competitivo.
- A competividade é maior se forem menores os custos do trabalho. 
- Quanto mais desempregados existirem, mais barata é a mão de obra.
- Facilitando os despedimentos, aumenta o emprego.
É assim que eles pensam. E, no entanto, ninguém questiona que, quando eles se dizem surpreendidos com os números do desemprego, estão a querer dizer que esperavam que eles fossem ainda maiores.

Não contaram com o surto de emigração?!
- Quem não está contente, emigre.
- A emigração é uma mais valia para o país.
 Meus caros, não se pode querer tudo! Queriam emigração? Agora não têm o desemprego que desejavam!

Já sou recorrente nesta mas tenho de a repetir:
A ideia central desta corja que sobreviveu ao fim do Estado Novo e que faz agora o seu voo de abutre é:
Quanto pior viverem as pessoas melhor vive o seu país.



domingo, 6 de maio de 2012

Mães há muitas

Enquanto os nossos pais faziam o" sol a sol" por conta dum patrão, as nossas mães tratavam da comida, da roupa, da horta, da seara, da eira, do celeiro, das compras, das vendas, do ror de cabeças de gado, da catrefa de filhos, de tudo. Quando nos perguntavam a profissão da mãe, nós respondíamos: doméstica.
A minha era uma mulher sabida da vida porque ficou orfã de pai aos quatro anos e de mãe aos nove e os irmãos fugiram para o Brasil. A tua era uma mulher sabida da vida porque ficou orfã de mãe aos três dias e o pai desapareceu para o Brasil. De tão iguais que eram na vida, na sorte, na prole, na sabedoria e na humildade, talvez, sem sabermos, nos tenham unido para que tu fosses a mãe dos meus filhos.
Só que agora os tempos são outros: sou eu que faço tudo e tu só fazes compras e conversas com as amigas.
"- Mas que merda de história vem a ser esta?!"
- Não escrevas o que eu não disse, eu perguntei: "mas o que é isto?!"
- Pois, mas isto é uma técnica que agora eu utilizo para evitar que outras pessoas utilizem as minhas histórias. Se eu escrever "merda" ou coisa parecida, a história fica borrada e já ninguém se vai servir dela ou apreciá-la como "bonita!...". Não gosto que adjectivem as coisas com "bonita!...". Penso sempre que se estão a referir a ti!
- Bonito!
- Cala-te mãe! O blogue é meu e eu é que mando nele!
- Estás bonito, estás!
- Hoje é dia da mãe?!

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Doce 1º de Maio

Por  estranha coincidência o local de concentração para o desfile foi à saída dum Pingo Doce. O povo que saía com os carrinhos de compras entrecruzava-se com o povo que envergava bandeiras e cartazes. O povo que passava com as compras esboçava satisfação de ter realizado bom negócio e o povo que se preparava para a marcha mostrava-se satisfeito por ver a manifestação composta. Pareciam ignorar-se mutuamente como se de dois povos diferentes se tratasse.
"Dê-me licença senhor!"; "Deixa passar a senhora camarada!"; "Viste! Ganhámos duzentos euros!... Estes estão a manifestar-se para quê!?..."; " Já somos mais de mil!... Parece que há ali uma grande promoção no Pingo Doce!..."
Chegou mais polícia, pensámos que era pelo facto dos manifestantes ultrapassarem os números previstos. Mas, afinal, entraram para o centro comercial - um desentendimento entre clientes do supermercado.
O desfile partiu deixando espaço livre aos carrinhos de compras. Só soubemos que o grande acontecimento do dia tinha sido a promoção do Pingo Doce e não as manifestações que ocorreram por todo o país, quando nos contaram já em casa. 
Mandem  lixar o Soares dos Santos, querem ouvir a nossa história?
Estávamos já no autocarro de regresso. O "marcamos às seis para sair às seis e meia" fora um mau prenúncio: falta sempre alguém; há gente que não se importa de fazer esperar os outros; podem ter-se perdido; se calhar não sabem que é aqui; isto é o que mais me irrita nestas coisas; faz parte; falta sempre alguém...
Faltava eu: contei os passageiros que estavam no exterior do autocarro em rodas de espera, contei os lugares vazios e fui ter com o chefe de viatura que também estava lá fora.
- Ouve lá! Mas para arrancar não faltam só vocês?!
Entraram. Afinal, há mais de um quarto de hora que estávamos todos, só que ninguém quis acreditar.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Meu Maio


Amanhã é o dia em que todos os trabalhadores devem unir-se e demonstrar a sua força.

A todos
Que saíram às ruas
De corpo-máquina cansado,
A todos
Que imploram feriado
Às costas que a terra extenua –
Primeiro de Maio!
O primeiro dos Maios!
Saudai-o enquanto harmonizamos voz em canto
Meu mundo, em primaveras,
Derrete a neve com sol gaio.
Sou operário –
Este é o meu maio!
Sou camponês – Este é o meu mês.
Sou ferro –
Eis o maio que eu quero!
Sou terra –
O maio é minha era!
Vladimir Maiakovski

domingo, 29 de abril de 2012

Cortaram-me a televisão

Podiam cortar-me a água, a luz, o telefone, a barba, nunca pensei é que me pudessem cortar a televisão! E atenção que não foi por falta de pagamento. Sabemos que se não pagarmos a taxa cortam-nos a energia eléctrica!

Ontem, porque foi sábado e chovia, liguei o televisor. Chuva no ecrã. Não dava. Fui com ela ao técnico. Riu-se a antenas despregadas.
- Então não sabe?! Tem de comprar TDT!
- TNT?! Pois!... Fazer explodir o velho para comprar um novo!...
- Não homem! Então não tem visto a publicidade?!
- Qual publicidade qual carapuça! Não ligo a propaganda e, a televisão, só a ligo quando estou com insónias!...

Estupefacto pela minha ignorância explicou-me tudo: técnica digital, técnico de instalação, cem euros...
- Cem quê?!... Vou informar-me melhor!...

E lá fui. Alta definição o raio que os parta! Alto negócio:
Umas coroas para os instaladores porque precisam de viver; um negócio para os vendedores porque precisam de vender; muitas encomendas para os fabricantes porque precisam de produzir; um grande negócio para a PT porque precisa de dar grande vida aos accionistas mas... e o governo?!... sujeita um povo inteiro, reformados com duzentos euros mensais de rendimento, a esta despesa?!... Não! O governo é, para já, o principal beneficiado com o fim das emissões analógicas de televisão, já que encaixou 270 milhões de euros (mais 84 milhões de IVA por negócio de venda de equipamentos) com o leilão para atribuir as frequências que vão ficar libertas às operadoras de telemóvel. Estas, por sua vez, pagam mas irão beneficiar  de mais serviços de banda larga móvel que são actualmente o seu principal negócio. Isto é, só o zé é que se lixa!

Ora eu, porque pago mensalmente a taxa de audiovisuais, porque me estou nas tintas para a alta definição, porque mentalmente sou mais analógico do que digital, queria reclamar mas, como nestes assuntos não são reconhecidos direitos ao cidadão, como neste país as taxas se confundem com impostos e se pagam quer se seja utilizador ou não, não tenho outra solução: pago, não bufo e, porque não me rendo, vou deixar de ter televisão!
- Sabem para que me faz falta a televisão?! Para adormecer!

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Uma história sem piada



No jardim do Cardal existe um lago circular com uma estátua ao meio, não me lembro se com um peixe a deitar água pela boca, se com um menino a mijar. O lago é rodeado por um passeio com várias ramificações e limitado por um conjunto de colunas de pedra que formam uma pérgula que dá caminho às trepadeiras.
Nós passávamos ali todos os dias a caminho de outros cantos do jardim, com os livros de filosofia e química debaixo do braço e, todos os dias, estava um velho sentado no mesmo banco. Tive intenções de um dia falar com aquele velho mas nunca o cheguei a fazer. Não me lembro se o velho olhava para nós, para o jornal ou para a estátua.

Passou um grupo de jovens de mochila às costas e telemóvel na mão, um deles sorriu-me. 
A esta distância não consigo ver se está um peixe a deitar água pela boca ou um menino a mijar, quanto mais ler um jornal! 
Porra! Mijei-me todo! Provavelmente achei piada a alguma coisa que me passou pela cabeça! O pior é que já não me lembro da piada nem se algum dia passei por este lago e tive intenções de falar com um velho que estava aqui sentado! Não importa! Se não falei então, falo agora! Isto de um tipo falar sozinho dá nestas histórias.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Onde é que eu estava no 25 de Abril

Gosto desta fotografia. Infelizmente não consigo identificar o autor mas identifico-me por completo na personagem: poderia ser eu, senão sou mesmo, esta criança - a idade, a estatura, o porte, a vestimenta, o olhar, o pensamento e aquela parede à minha frente.

No caso que recordo, e só isto me prova que esta criança não sou eu, a pichagem tinha escrito:

O 1º DE MAIO É VERMELHO. O 25 de Abril tinha sido há oito dias e nós, putos do ciclo, ao fim de uma semana, já estávamos politicamente informados da razão porque não tínhamos tido aulas no dia anterior, tratava-se de um feriado que era proibido e que festejava o Dia do Trabalhador.

No Terreiro, em Leiria, havia um muro alto e branco e sobre ele pintaram com letras grandes e vermelhas a frase: O 1º DE MAIO É VERMELHO.

Eu e os meus camaradas, que regressávamos da escola, nunca tínhamos visto nada assim - escrever na parede?! Para quê?! E depois a frase parecia não ter sentido algum! Sim, ontem foi 1º de Maio, o tal feriado novo! Mas vermelho porquê?! Desde quando é que um dia tem cor?! Ainda por cima vermelho! Porque não preto, cinzento, verde, amarelo?!

É por esta história que eu sinto esta fotografia. Daí a meia dúzia de dias, as paredes pintadas deixaram de ser novidade e o país ficou colorido. Anos mais tarde, adolescente com gavetas de "escrivanças", eu assumia o gosto que os outros já reprovavam:

"Já não gosto das casas bem caiadas porque só falam delas. Gosto mais das paredes da propaganda
porque falam comigo quando passo por elas.
Ouçam só a algazarra que elas erguem:
- hoje há isto! – amanhã há aquilo!
- este é este! – este é aquilo!
- isto é isto! – isto é aquilo!

Só o poeta leva para casa a tinta macabra,
Só o poeta leu o que lá não estava,
E também o poeta levou uma palavra:
- VOTA EM MIM!

Uma rua é um livro,
Em cada folha, um dia diferente,
Em cada frase, um verso dizente
E uma parede por fora é de toda a gente!"

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Sabem o que é um paquímetro?

Reforma Curricular anual acaba com a Educação Tecnológica. A reforma do ano que vem acabará com a Educação Moral e Religiosa?!

Para se ter futuro num país de diplomados é indispensável  saber a forma resolvente, saber que o Carlos Maia tinha uma relação incestuosa com a irmã, o nome das peças do microscópio, que a pequena área de um campo de basquete tem de ter três por três e saber, pelo menos, dizer "assim seja" em hebraico e "sim" em inglês. Num país que compra tudo feito não tem interesse distinguir um martelo dum paquímetro, até porque essas coisas nos apartamentos provocam manchetes no Correio da Manhã:
- Atirou martelo contra o televisor quando o professor dizia "mais grave que os despedimentos é não haver emprego".
- Marido fere mulher quando lhe media o dedo mindinho com um paquímetro.

Para que raio queria ele saber a medida do dedo mindinho? Ainda bem que eu sei o que é um martelo!
Estou a ser porco!? Não, não tenho nenhum problema de Educação, estou só a lembrar-me duma porca! Sabem o que é?! E um paquímetro?! Não, não é aquela coisa onde se põem moedas para o estacionamento!