sábado, 4 de fevereiro de 2012
11 de Fevereiro
"'É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão- Somos, socialmente, uma sociedade pacífica de revoltados' - Miguel Torga, Diário (17.09.1961)'"
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Os pobrezinhos
A tradição cristã prometeu o Céu aos pobres e aos ricos, o buraco de uma agulha. Este culto da pobreza foi aproveitado por certos regimes, o de Salazar é um bom exemplo, para conter a luta, por uma vida mais digna, dos povos humildes que se foram conformando com as migalhas que o destino lhes deixou. E muitos lá foram vivendo, “pobres mas honrados”, por sugestão das classes dominantes e dos pastores de um Outro Mundo. Todos, aos domingos, uns com cadeira, outros de pé, lá iam pondo a mão ao peito, uns porque se consideravam pobres mas com graças e outros porque o eram mesmo e, Deus é que sabia!
O desenvolvimento das sociedades permitiu a ascensão de alguns às classes médias, agravou e alargou as massas da pobreza mas conteve as suas vozes. O egoísmo da classe média e a sua veneração pela vida dos mais ricos geraram um silêncio cúmplice, um “não quero ver”, ao mesmo tempo que as consciências se acomodaram no “a culpa é deles”.
Recordo aqui uma poesia que ainda nos enternece e que talvez ajude a perceber porque ainda somos tão passivos com a pobreza, talvez nos ajude a perceber porque continuamos a tolerar os poderes políticos que teimam em não tocar as riquezas dos mais ricos.
Talvez eu nem precisasse desta introdução ou não devesse escrevê-la porque é comum, afinal eu era apenas para deixar esta poesia que julgo que ninguém, que por aqui lê, escreveria, que muitos recordarão porque é de história - pobre história!
« OS POBREZINHOS»
O desenvolvimento das sociedades permitiu a ascensão de alguns às classes médias, agravou e alargou as massas da pobreza mas conteve as suas vozes. O egoísmo da classe média e a sua veneração pela vida dos mais ricos geraram um silêncio cúmplice, um “não quero ver”, ao mesmo tempo que as consciências se acomodaram no “a culpa é deles”.
Recordo aqui uma poesia que ainda nos enternece e que talvez ajude a perceber porque ainda somos tão passivos com a pobreza, talvez nos ajude a perceber porque continuamos a tolerar os poderes políticos que teimam em não tocar as riquezas dos mais ricos.
Talvez eu nem precisasse desta introdução ou não devesse escrevê-la porque é comum, afinal eu era apenas para deixar esta poesia que julgo que ninguém, que por aqui lê, escreveria, que muitos recordarão porque é de história - pobre história!
« OS POBREZINHOS»
Os pobrezinhos
tão engraçadospedem esmolinha
com mil cuidados
Todos sujinhos
e tão magrinhosa linda graça
dos pobrezinhos
De porta em porta
sempre rotinhostão delicados
os pobrezinhos
Não façam mal
aos pobrezinhosDêem-lhes pão
e uns tostõezinhos
Os pobrezinhos
tão engraçadospedem esmolinha
com mil cuidados"
(no original eram Passarinhos - salvaguardo as boas intenções do autor)
Armindo Mendes de Carvalho
Por sugestão do Cid Simões, Mário Viegas a propósito.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Quarto 20
(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, o Quarto 11, o Quarto 12, o Quarto 13, o Quarto 14, o Quarto 15, o Quarto 16, o Quarto 17, o Quarto 18, o Quarto 19, este quarto não faz sentido)
Naquele dia eu não tinha ido às aulas. Sozinho em casa aproveitei para lazeirar. Desci à sala e deitei-me no divã polivalente tentando que a televisão da manhã fizesse alguma coisa pelo tédio. Batem à porta, é Virgolino! Um abração, umas palmadas de desaconchegar costelas e um frente a frente à mesa para pôr a conversa em dia!
- Trouxe-te uma lembrança! – tirou do saco de viagem um embrulho em papel pardo e mandou-mo despir. Era um boneco de cerâmica com um cacete erguido e que tinha escrito na base “Justiça de Fafe”.
- E ainda!… – sacou da carteira e contou divertido a massa que me devia.
- Está certo?!
- Não, está dinheiro a mais!
- Ora essa, puto! Em questões de nota “nunca está a mais”!
Contei-lhe da gravidez de Tânia e ouvi das boas por não ter sido eu o progenitor; falei-lhe da comprovada falta que ele fazia à Graça e recebi promessas de que, na próxima noite, eu não iria dormir com o ranger da cama do quarto do lado.
…
- A Gina está insuportável!
- Porque não lhe afinfas!?
…
- O Carlitos é bom rapaz! Às vezes, já dorme cá em casa!
- Tu é que dormes cá em casa! Acorda rapaz! Agora é tarde!
Fez um misto de movimentos de cabeça e expressões de rosto que, traduzidos, exprimiam elogios aos dotes físicos de Tânia e reprovação à minha relação com ela. Depois mudou o tema:
- Onde é que vais almoçar?
- Hoje nem me apetece ir à cantina. Vou ali à mercearia comprar dois papo-secos, umas fatias de queijo, um iogurte e já está!
- Vamos mas é almoçar fora! Hoje é por minha conta!
- Então vamos ao restaurante da Gracinha!
- Nem penses! A surpresa do reencontro pede outro local! Tenho um plano, depois conto-te.
Durante o almoço, bem regado, o Desejado contou-me o seu plano para o resto do dia. À tarde as meninas estariam em casa, apalpá-las-íamos no que toca à sua receptividade ao regresso do padrasto e, se realmente desejado, seria fácil convencê-las a participarem na surpresa à mãe amante. A mesa seria posta à grande e à francesa, eu telefonaria a Dona Graça dizendo-lhe que ia dar uma volta com as filhas e, quando esta, por volta das onze, regressasse do trabalho no restaurante, seria surpreendida com o D.Juan Virgolino, sentado à mesa, disposto a festejar, comendo e bebendo com a sua namorada, comendo e bebendo a sua amada! No entretanto, se fosse do meu acordo, eu e as enteadas iríamos ter com o Carlitos ao trabalho e, depois do fecho (que era por volta das duas da manhã), regressaríamos todos para completar o forró.
E assim foi. O Carlitos animou-se com a nossa visita, serviu-nos até querer e, até Gina e Tânia que eram pouco dadas às bebidas, se excederam. A esplanada da cervejaria animou tanto que, depois do encerramento, dados ao caso que ali nos trouxera, dois colegas do Carlitos e o patrão também se fizeram à festa prometida.
Quando entrámos em casa – éramos, portanto, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete – não estava ninguém na sala – claro!! Os “reencontrados” estavam no quarto. Ninguém comentou a sua ausência porque todos a percebemos. Gina ligou logo o som dos seus vinis, abriram-se umas cervejas, petiscou-se da mesa, eu pus-me a dançar com a Tânia, o patrão com a Gina e o Carlitos e os colegas comiam amendoins, mandavam piropos, bebiam uns golos, davam meia volta de mãos ao alto e roçando no baile e, volta e meia, batiam umas palmas.
Dona Graça desceu as escadas com o caso na cara enquanto repreendia para o cimo das mesmas:
- Oh Lino! Não venhas para aqui assim! Temos visitas!
Só eu devo ter topado que o homem vinha em cuecas e que, obediente, regressou ao quarto para se cobrir com outros preparos. E que outros preparos! Virgolino desceu as escadas, com ar mais maroto e destemido, trajando um vestido de Dona Graça. Depois da risada geral Gina aumentou o volume da aparelhagem, a festa acelerou e, no fim dum merengue de acelerar corações, a coisa acalmou e só o Virgolino continuou de pé, na pista, violando numa vassoura. De pé, também eu, mas em cima da mesa, olhos nas lâmpadas do candeeiro enquanto recitava a Ceia dos Cardeais. O embevecimento da plateia com a minha actuação foi tragicamente perturbado pelo toque da campainha e a voz:
- Polícia! Abram se faz favor!
Escaparam-se os três estranhos à casa para o quintal, Carlitos abraçado a Tânia, Gina junto ao aparelho baixando o volume, Lino naquele traje, eu, para não partir a loiça toda, sem poder descer da mesa e a Dona da casa abre a porta aos chuis que entram de rompante.
Enquanto Dona Graça dava explicações e dados para a autoridade, Virgolino lá me tirou ao colo do “palco”.
- Os senhores têm de nos acompanhar à esquadra!
A esquadra ficava logo ali, nas traseiras do mesmo quarteirão, numa moradia que apenas se distinguia das outras pelo pequeno letreiro luminoso “POLÍCIA” e o percurso seria feito, normalmente, a pé.
Com palavras mansas conseguimos livrar os menores da vergonha e só eu, ou melhor, os “trois”, fizemos companhia aos dois agentes que, por escárnio, por gozo, ou por excesso de zelo, não deixaram o Virgolino trocar de roupa e ele lá foi travestido rua além, seguido pelos olhos dos cortinados da vizinhança denunciante.
Mas como o troçado não era de torcer e nascera habituado a pagar amor com amor, quando levávamos andados cinquenta metros, ouvindo as explicações da nossa mulher aos senhores agentes, eis que lhe dá para o canto do “Viva o Sto António, Viva o S. João, Viva o 10 de Junho e…” colocando-se por detrás de mim, empurrando-me com as mãos nos ombros, tenta a marcha em fila indiana a sós comigo. Se até algumas das janelas, dos cortinados com olhos, se abriram como é que eu havia de resistir?! Colaborei. Colaborei durante os instantes que tardaram os olhos fortes de Dona Graça que nos admoestaram a nós e, felizmente, também aos polícias que se preparavam para agir em nome da ordem.
- Trouxe-te uma lembrança! – tirou do saco de viagem um embrulho em papel pardo e mandou-mo despir. Era um boneco de cerâmica com um cacete erguido e que tinha escrito na base “Justiça de Fafe”.
- E ainda!… – sacou da carteira e contou divertido a massa que me devia.
- Está certo?!
- Não, está dinheiro a mais!
- Ora essa, puto! Em questões de nota “nunca está a mais”!
Contei-lhe da gravidez de Tânia e ouvi das boas por não ter sido eu o progenitor; falei-lhe da comprovada falta que ele fazia à Graça e recebi promessas de que, na próxima noite, eu não iria dormir com o ranger da cama do quarto do lado.
…
- A Gina está insuportável!
- Porque não lhe afinfas!?
…
- O Carlitos é bom rapaz! Às vezes, já dorme cá em casa!
- Tu é que dormes cá em casa! Acorda rapaz! Agora é tarde!
Fez um misto de movimentos de cabeça e expressões de rosto que, traduzidos, exprimiam elogios aos dotes físicos de Tânia e reprovação à minha relação com ela. Depois mudou o tema:
- Onde é que vais almoçar?
- Hoje nem me apetece ir à cantina. Vou ali à mercearia comprar dois papo-secos, umas fatias de queijo, um iogurte e já está!
- Vamos mas é almoçar fora! Hoje é por minha conta!
- Então vamos ao restaurante da Gracinha!
- Nem penses! A surpresa do reencontro pede outro local! Tenho um plano, depois conto-te.
Durante o almoço, bem regado, o Desejado contou-me o seu plano para o resto do dia. À tarde as meninas estariam em casa, apalpá-las-íamos no que toca à sua receptividade ao regresso do padrasto e, se realmente desejado, seria fácil convencê-las a participarem na surpresa à mãe amante. A mesa seria posta à grande e à francesa, eu telefonaria a Dona Graça dizendo-lhe que ia dar uma volta com as filhas e, quando esta, por volta das onze, regressasse do trabalho no restaurante, seria surpreendida com o D.Juan Virgolino, sentado à mesa, disposto a festejar, comendo e bebendo com a sua namorada, comendo e bebendo a sua amada! No entretanto, se fosse do meu acordo, eu e as enteadas iríamos ter com o Carlitos ao trabalho e, depois do fecho (que era por volta das duas da manhã), regressaríamos todos para completar o forró.
E assim foi. O Carlitos animou-se com a nossa visita, serviu-nos até querer e, até Gina e Tânia que eram pouco dadas às bebidas, se excederam. A esplanada da cervejaria animou tanto que, depois do encerramento, dados ao caso que ali nos trouxera, dois colegas do Carlitos e o patrão também se fizeram à festa prometida.
Quando entrámos em casa – éramos, portanto, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete – não estava ninguém na sala – claro!! Os “reencontrados” estavam no quarto. Ninguém comentou a sua ausência porque todos a percebemos. Gina ligou logo o som dos seus vinis, abriram-se umas cervejas, petiscou-se da mesa, eu pus-me a dançar com a Tânia, o patrão com a Gina e o Carlitos e os colegas comiam amendoins, mandavam piropos, bebiam uns golos, davam meia volta de mãos ao alto e roçando no baile e, volta e meia, batiam umas palmas.
Dona Graça desceu as escadas com o caso na cara enquanto repreendia para o cimo das mesmas:
- Oh Lino! Não venhas para aqui assim! Temos visitas!
Só eu devo ter topado que o homem vinha em cuecas e que, obediente, regressou ao quarto para se cobrir com outros preparos. E que outros preparos! Virgolino desceu as escadas, com ar mais maroto e destemido, trajando um vestido de Dona Graça. Depois da risada geral Gina aumentou o volume da aparelhagem, a festa acelerou e, no fim dum merengue de acelerar corações, a coisa acalmou e só o Virgolino continuou de pé, na pista, violando numa vassoura. De pé, também eu, mas em cima da mesa, olhos nas lâmpadas do candeeiro enquanto recitava a Ceia dos Cardeais. O embevecimento da plateia com a minha actuação foi tragicamente perturbado pelo toque da campainha e a voz:
- Polícia! Abram se faz favor!
Escaparam-se os três estranhos à casa para o quintal, Carlitos abraçado a Tânia, Gina junto ao aparelho baixando o volume, Lino naquele traje, eu, para não partir a loiça toda, sem poder descer da mesa e a Dona da casa abre a porta aos chuis que entram de rompante.
Enquanto Dona Graça dava explicações e dados para a autoridade, Virgolino lá me tirou ao colo do “palco”.
- Os senhores têm de nos acompanhar à esquadra!
A esquadra ficava logo ali, nas traseiras do mesmo quarteirão, numa moradia que apenas se distinguia das outras pelo pequeno letreiro luminoso “POLÍCIA” e o percurso seria feito, normalmente, a pé.
Com palavras mansas conseguimos livrar os menores da vergonha e só eu, ou melhor, os “trois”, fizemos companhia aos dois agentes que, por escárnio, por gozo, ou por excesso de zelo, não deixaram o Virgolino trocar de roupa e ele lá foi travestido rua além, seguido pelos olhos dos cortinados da vizinhança denunciante.
Mas como o troçado não era de torcer e nascera habituado a pagar amor com amor, quando levávamos andados cinquenta metros, ouvindo as explicações da nossa mulher aos senhores agentes, eis que lhe dá para o canto do “Viva o Sto António, Viva o S. João, Viva o 10 de Junho e…” colocando-se por detrás de mim, empurrando-me com as mãos nos ombros, tenta a marcha em fila indiana a sós comigo. Se até algumas das janelas, dos cortinados com olhos, se abriram como é que eu havia de resistir?! Colaborei. Colaborei durante os instantes que tardaram os olhos fortes de Dona Graça que nos admoestaram a nós e, felizmente, também aos polícias que se preparavam para agir em nome da ordem.
(Na próxima quarta continua a haver Quarto)
sábado, 28 de janeiro de 2012
O pensador do Samambaia
Quando Egídio virou urbano, assentou praça numa grande esplanada da base de um prédio médio, num bairro com pequenas moradias. Foi lá que ganhou o hábito do galão e da torrada, do café com cheiro, da imperial com tremoços e do jornal diário. A princípio a mesa era só sua mas, com o andar do tempo, das conversas triviais, do futebol , da esquerda, da direita, dos livros, dos poetas, das histórias, dos filmes, dos discos, dos espectáculos, a mesa encheu e fez outras ao lado. Egídio fez amigos, grandes amigos que com ele na esplanada planeavam frentes de salvação nacional, negócios, sonhos mas sobretudo saídas e noitadas e, às vezes, também se estudava.
Egídio estava a crescer. O pai, agricultor, pagava-lhe a vida ali para ele ser doutor. Não poderia advinhar ou entender que já era muito mais do que isso, um homem pensador.
Com o andar dos anos os amigos começaram a partir e a casar e Egídio começou a ficar só com o Casimiro que fazia acrobacias com a bandeja. A namorada de Casimiro ganhou caminho para o quarto arrendado do Egídio e acabaram ambos por levar um enxerto de porrada.
Para evitar Casimiro e esconder os hematomas dos outros clientes da esplanada, planearam ambos arrendar um T2 num bairro do outro lado da cidade mas Egídio, pensador, não adivinhou novos amigos nem uma esplanada como aquela em que a bandeja vazia caía umas vezes pelo falhanço de uma acrobacia outras vezes porque Casimiro gostava de chamar a atenção. Dados os factos, acabaram-se as brincadeiras e se, a Casimiro não faria mossa ter uma namorada que fumava muito, que teve um deslize e que tinha muito horror aos bois e ao campo, já o pai de Egídio, camponês, nunca suportaria mulheres que fumassem e em segunda mão. Mas mais dia, menos dia, exigiria de tanta mesada, ao menos, a ponta dum canudo!
Sem curso, sem amigos e sem namorada, Egídio voltou ao pai – isto na cara?! foi um professor que me bateu! - e à terra demonstrando os seus conhecimentos de Coimbra. Ainda tentou a lavoura adquirindo um tractor em troca dos bois mais uns fundo cee. Ainda foi três meses professor de português. Ainda quase casou com uma professora de Francês.
Mas, com o andar dos anos, Egídio habitou-se à pequena esplanada de um café, que fica no largo grande da pequena aldeia e voltou a falar de coisas triviais, de futebol, da esquerda e da direita, de livros, de poetas, de histórias, de filmes, de discos e espectáculos e, se alguém lhe prolonga a atenção, saca dos grandes amigos do passado - alguns grandes senhores agora! - diz que vai fazer vida com uma brasileira, que vai montar negócio de fartura, que isto vai dar fome, que o português matou a agricultura - não amanhou, agora que se amanhe!
Enfim, um pensador!
PS: Todos nós temos uma esplanada e conhecemos um Egídio. Porque todas as vidas são grandes, só se pode falar delas em síntese, como me aconteceu agora neste texto pequeno e trivial. Hoje fui ao funeral do pai do Egídio, estive na esplanada do café da terra e diziam as bocas, que falam com espuma de cerveja, que o filho não quer é trabalhar, que tem uma grande vida e que acabará por morrer não se sabe como. Ora! Nem eu!
Pensemos: Desde quando é que pensar não é trabalho!? Desde quando é que viver não é mais do que pensar!
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Escândalo! Haja vergonha!
Subsídio de Férias e de Natal passam a chamar-se abono suplementar... mas só para alguns!
Custa a acreditar, não é?! Vem no Diário da República, 2ª série, nº14, 19 de Janeiro de 2012.
Clique na imagem para ampliar
Ponto 3- Nos meses de junho e novembro, para além da mensalidade referida, será paga outra mensalidade de 1575.00 euros, a título de abono suplementar.Custa a acreditar, não é?! Vem no Diário da República, 2ª série, nº14, 19 de Janeiro de 2012.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Quarto 19
(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, o Quarto 11, o Quarto 12, o Quarto 13, o Quarto 14, o Quarto 15, o Quarto 16, o Quarto 17, o Quarto 18, este quarto não faz sentido)
Tânia bateu à porta do meu quarto, entrou receosa, com aquela sua beleza muda entre o anjo e estátua grega, como se entrar naquele quarto não tivesse sido um hábito costumeiro. Sentou-se na cama que não era minha e eu, que estudava na minha, virei-me para ela retirando a atenção dos apontamentos. Ensopou os olhos e eu pressenti que viera para me dar a novidade que eu já sabia. Puxou a camisola para cima e exibiu a barriga. Fingi surpresa.
- Este filho podia ser teu Cabitche! Eu queria que este filho fosse teu Cabitche! Deus castigou-me por eu te castigar Cabitche! Eu amo-te Cabitche! Tanto que eu gostava que esta criança nascesse com o teu nariz Cabitche!...
De cabitche em cabitche, a minha Tânia continuou debitando chorilhos desta ordem enquanto ia intensificando o ar choroso até que o meu lado paternal me deu o tom para falar como pai dela:
- Tânia! Esse ser que aí tens é o teu futuro! Esse vai nascer com uma sorte do caraças! Vai ter uma mãe como tu e vai ter um pai que é uma jóia de pessoa, o Carlitos!
- Mas eu sempre me imaginei tua, dum homem como tu, não do Carlitos! O Carlitos é um puto!
- Então e eu? Eu sou um autêntico bebé! São os filhos que nos fazem homens e mulheres!
- Queres dizer então que já não me desejas?
- Tânia meu amor, o nosso amor existe ainda mas vai acabar por desaparecer! Todas as coisas vivas da natureza são assim! Não existem amores de pedra porque, se o fossem, então não o seriam!...
Demos um verdadeiro e prolongado beijo que terminou em estalido. Tânia saiu determinada e eu fiquei a pensar. A pensar nela, em mim, na sua gravidez, no Carlitos. Tinha escolhido a solução mais fácil e mais racional, mais de acordo com os costumes. Razões do coração, essas, estariam sempre a tempo de ser remediadas.
Ao fim da tarde fui sozinho até à esplanada da cervejaria onde trabalhava Dona Graça. Antes que eu pedisse, já estava o empregado de mesa, Carlitos, com uma imperial e uns tremoços na minha mesa.
- Esta paga a casa. Despego às sete. Entretém-te aí que já me sento aqui a beber uma contigo Cabitche!
Carlos, já desfardado, sentou-se na minha mesa com mais duas e uns camarões. O tempo, um golo, uma transferência de jogador, levaram-no até me dar a novidade que já me era velha.
- Estou fodido! A minha mãe é mulher de sacristia! Nunca vai aceitar! Vai acabar por partir com um mual todos os santos da igreja de Girabolhos que têm mais de quinhentos anos!
Ela está convencida que os santos falam e que não os ouve porque é meia surda! Já viste a minha situação João? Chego lá a casa e “mãe, vou ser pai!” E ela, “o teu pai está no lagar!”
“Não mãe, vou ter um filho!”
“ Sim Carlitos, tu és o meu filho!”
“Mãe, vou casar com uma preta!”
“Não sei se ainda há alguma preta, vai ao frigorífico e vê!”
- Estou fodido João! Parece que já estou a ver a minha mãe a entrar no número sete para conhecer a futura nora e a dar-lhe um chilique!
- Oh Carlitos, não estejas com essas fezes rapaz, fizeste um filho, és um homem! A tua mãe sabe que não és um santo, vai gostar de saber-te homem. És um tipo cheio de sorte! A Tânia!?... Uma mulher de meter inveja! De se trazer pela rua mas com muito cuidado! A Tânia!?... Fosse ela da minha idade e não te tinha calhado a ti!
(Na próxima quarta talvez ainda haja Quarto)
sábado, 21 de janeiro de 2012
Porcos dos porcos tão porcozinhos
Como pode uma mulher unir-se a um suíno? Eis a questão! Ela diz vens lindo, eu respondo sou. Ela diz és porco, eu respondo "rom!rom!" Ela diz vai para o carvalho e eu vou - gosto de falar com os carvalhos, de brincar com os bugalhos e de comer a bolota!
- Sou um porco: rom, rom!
- Meu amor és tão bom!
- Oh querida vem aqui ver se este post tem erros!
- Rom!Rom! Nunca mais aprendes que os assentos são agudos e os acentos são graves!!!
E, contudo, este blogue vai de mal a pior! Que outra coisa eu posso escrever a não ser nada!? Os outros dizem tudo! Vocês dizem tudo por mim! Está tudo dito! Só me resta marchar! E que bom que é marchar! Vou marchar sobre todas as avenidas e que ninguém me aponte um microfone a perguntar-me porque marcho! Estou convocado! Lá estarei! Não exijam que escreva sobre o molhado! Reservo-me o direito de escrever apenas sobre o amor!
- Rom! Rom! Marchas comigo?!
- Rom! Rom! Porque só do amor pode nascer outro país!
- E onde é que vamos dia 11 de Fevereiro?!
- Rom! Rom!
... e é por isto que eu amo esta mulher e agora mesmo vou comer mais uma bolota! E, como inofensivo bloguer, confesso que já não me lembro porque é que o título do poste é este: Porcos dos porcos tão porcozinhos!
Vou tentar:
- Mais difícil do que eu vir a ter uma reforma de dez mil euros, será eu vir a queixar-me de que uma reforma de dez mil euros não me chega para as despesas! Não me meto na droga nem deixo falar o porco que está dentro de mim!
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Tratem-me da saúde
A minha carteira tem cartão de condução, cartão do contribuinte, cartão de eleitor, cartão do cidadão, cartão de residente, cartão do banco, cartão de desconto, cartão de cliente, cartão de ponto, cartão jovem, cartão do sindicato, cartão da associação, cartão do clube, cartão de utente, cartão de saúde!... Eh tanta coisa que eu sou!...Serei eu um boneco de cartão?!
Depois de aparentemente ter enlouquecido, de ter perdido o emprego sem direito a subsídio, fiquei perdido! Sei bem onde tenho a carteira, desta vez não a perdi, ela é que me perdeu. A minha identidade rejeitou todos os cartões. Procuro-me e não me encontro! Já corri a estante, o quintal, os montes e vales das redondezas, a casa da Mariquinhas e, nada, não há sinais de mim! Se por acaso alguém encontrar um indivíduo com ventas de porco e pouco asseado, desnorteado sem centro, com ar desempregado, sem carteira, sem cartões, sem saúde e sem dinheiro, devo ser eu. Nesse caso, é favor contactar-me através do numero de telefone: 231 202 093.
Sem saber do meu paradeiro, dirigi-me ao Centro de Saúde. Achei muito estranho, estava tudo mudado, o balcão de atendimento, outros funcionários, etiquetas com preços por todo o lado... e atendeu-me uma senhora com um estranho soutien.
- Olhe minha senhora, eu concordo inteiramente com o princípio do ultilizador-pagador, se você fumou e contraiu cancro, se comeu muito toucinho e teve um à você, se andava na azeitona e caiu de uma oliveira, porque diabo hão-de os saudáveis pagar os seus descuidos!? Um país não pode hipotecar a sua economia na prestação de serviços de saúde a quem não se cuida ou no prolongamento da vida de quem já nada pode dar à sociedade! Mas o meu caso é diferente, eu não estou doente por culpa própria! Foram os governos e as suas sociedades anónimas que me trataram da saúde e da identidade! Agora exigo que me informem do meu paradeiro, que me localizem, que identifiquem a minha situação, que me deixem viver sem cartões e que me atribuam um subsídio para a substituição das fitas coloridas do guiador da minha bicicleta!
- O sinhô é uma meda! Não pechebe nada! Isto já não é um centlo de saúde! É uma loja de chineses!
- Ah é!? Se eu sou uma merda porque é que me comem todos os dias!? Querem cartões?!Querem identidades?! Para mim não existem chineses, nem pretos, nem brancos, nem audis, nem bicicletas! Existem apenas porcos e suinicultores!
E, dito isto, num impulso de rara lucidez, peguei num monte de cartões de embalagens que estavam atados à entrada do edifício e fugi com eles em cima do guiador da minha bicicleta.
Já estou melhor, vendi os cartões, fiz algum dinheiro com eles e ninguém viu um porco a andar de bicicleta! ...
- Ó Pistola, vou à rua ver se me encontro, tu não precisas de tabaco?! Dá-me ao menos um euro para eu pôr gasóleo na bicicleta!
- Ó Pistola, vou à rua ver se me encontro, tu não precisas de tabaco?! Dá-me ao menos um euro para eu pôr gasóleo na bicicleta!
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Quarto 18
(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, o Quarto 11, o Quarto 12, o Quarto 13, o Quarto 14, o Quarto 15, o Quarto 16, o Quarto 17, este quarto não faz sentido)
No dia seguinte à noite em que tive a companhia de Adalberta levantei-me pelas 10 horas. Dona Graça, por horário de cozinheira, ainda estava em casa. Quando saí da casa de banho, embrulhado na toalha, ela chamou-me da cozinha:
- Cabitche!? Chega aqui!... Dormiste bem com a companhia? Ainda se dorme lá para cima?
- Não! Já não está ninguém no quarto!...
- Não me digas que aquela puta abalou e nos roubou a menina?!
Fizemos um breve silêncio interrogativo e Dona Graça, sentada em pequeno-almoço, interrompeu-se em prantos.
- Deixe lá mamã emprestada, Deus escreve direito por linhas tortas! Se calhar foi melhor assim!...
- Não! Já não está ninguém no quarto!...
- Não me digas que aquela puta abalou e nos roubou a menina?!
Fizemos um breve silêncio interrogativo e Dona Graça, sentada em pequeno-almoço, interrompeu-se em prantos.
- Deixe lá mamã emprestada, Deus escreve direito por linhas tortas! Se calhar foi melhor assim!...
Continuámos com meia dúzia de voltas sobre o assunto, ela a enfileirar “puta” atrás de “puta” e “Dorinha minha menina” e “minha menina Dorinha” e eu a cobrir de amenos a pequena tragédia com o que me vinha à ideia.
- Só me faltava esta!... Sabes que mais?! A Tânia está grávida!
- Ai!...
Não sei se o “ai” foi de solidariedade, de surpresa ou dos ditos me terem batido no chão – estava sem cuecas! Em dois segundos, duzentos pensamentos mudos:
“Grávida?!... Eu?!... Carlitos?!...”
- De quase quatro meses!... Porque é que ela não me disse João?! Conheço uma mulher que faria o desmancho! Mas agora? Já viste João!... Já não é tempo!
Voltei a pensar para dentro, fiz contas:
“Eu?!... Há tão pouco tempo! Não!... Isso foi obra do Carlitos!... Por isso ele anda tão branco! Quem diria! O petiz!... Hem!?”
- João! Ajuda-me a pensar!
Dona Graça continuava a falar sem perceber que, também eu, precisava de ajuda para pensar:
“Eu?! Queres ver que Tânia me fez a folha!? Queres ver que me calha a mim?” Compus à podoa os raciocínios que me jorravam por tudo o que era cabeça e cheguei-me à anunciada futura avó que continuava sentada. Apoiei-a, apoiando uma mão no seu ombro e pairei de sabedoria:
- O mundo não acaba por começar uma vida nova! É Deus que no-la dá em troca de Dorinha!
- Tens razão João! Eles são jovens, que se amanhem! E nós cá estaremos também com o nosso amanho!
Este “eles” aconchegou-me os cujos, ainda doridos, ao sítio! “Eles”, não tinha nada a ver comigo!...“Com que então o Carlitos de Girabolhos vai ser pai?!”
- De facto eu achava Tânia um pouco estranha! Evitava quase sempre as minhas brincadeiras!...
- Eu não sou lerda! Sabia que eles se coçavam! A Tânia ia tantas vezes lá para a esplanada! O Carlitos sempre a oferecer-lhe gelados!... Topei-lhe a barriguita inchada! Até pensei que fosse disso!...
E, ao dizer isto, trocámos uns sorrisos marotos de humor só nosso.
- Só me faltava esta!... Sabes que mais?! A Tânia está grávida!
- Ai!...
Não sei se o “ai” foi de solidariedade, de surpresa ou dos ditos me terem batido no chão – estava sem cuecas! Em dois segundos, duzentos pensamentos mudos:
“Grávida?!... Eu?!... Carlitos?!...”
- De quase quatro meses!... Porque é que ela não me disse João?! Conheço uma mulher que faria o desmancho! Mas agora? Já viste João!... Já não é tempo!
Voltei a pensar para dentro, fiz contas:
“Eu?!... Há tão pouco tempo! Não!... Isso foi obra do Carlitos!... Por isso ele anda tão branco! Quem diria! O petiz!... Hem!?”
- João! Ajuda-me a pensar!
Dona Graça continuava a falar sem perceber que, também eu, precisava de ajuda para pensar:
“Eu?! Queres ver que Tânia me fez a folha!? Queres ver que me calha a mim?” Compus à podoa os raciocínios que me jorravam por tudo o que era cabeça e cheguei-me à anunciada futura avó que continuava sentada. Apoiei-a, apoiando uma mão no seu ombro e pairei de sabedoria:
- O mundo não acaba por começar uma vida nova! É Deus que no-la dá em troca de Dorinha!
- Tens razão João! Eles são jovens, que se amanhem! E nós cá estaremos também com o nosso amanho!
Este “eles” aconchegou-me os cujos, ainda doridos, ao sítio! “Eles”, não tinha nada a ver comigo!...“Com que então o Carlitos de Girabolhos vai ser pai?!”
- De facto eu achava Tânia um pouco estranha! Evitava quase sempre as minhas brincadeiras!...
- Eu não sou lerda! Sabia que eles se coçavam! A Tânia ia tantas vezes lá para a esplanada! O Carlitos sempre a oferecer-lhe gelados!... Topei-lhe a barriguita inchada! Até pensei que fosse disso!...
E, ao dizer isto, trocámos uns sorrisos marotos de humor só nosso.
Subi as escadas para o quarto. Naquele dia não me ocorreu outro tema em pensamento. Quem era eu no meio desta história? Que fazia eu naquela casa? O que me trouxera àquela cidade?... Dorinha? Adalberta?... Dona Graça?... Tânia? Tânia! Tânia!... E também Gina!.... Ah! E o curso!?...
(Na próxima quarta há mais Quarto)
domingo, 15 de janeiro de 2012
A importância da fotografia
Tenho um telemóvel mas ninguém me liga e eu também não ligo a ninguém, tenho-o apenas para dar música e tirar fotografias.
Depois de ter enlouquecido e de ter perdido o emprego, dirigi-me, como é normal nestas coisas, ao Centro de Emprego. Como é normal nestas coisas, atendeu-me uma funcionária altiva. A sua altivez podia ser medida como a soma da altivez daqueles que se cruzam comigo tratando-me como um ser com problemas mentais, subtraída da pena daqueles que me olham como um homem desempregado.
- De acordo com a nova lei, ainda que despedido por injusta causa, não tem direito ao subsídio!
Rasguei um ângulo panorâmico sobre a sala de espera e observei:
- Estas pessoas não querem é trabalhar, querem viver à custa dos impostos dos outros! Ainda bem que, finalmente, temos um governo que vai acabar com isto!
Expliquei-lhe tão bem que concordava com as recentes cortes na caridade legislativa como forma de obrigar as pessoas a aceitar incondicionalmente qualquer proposta de trabalho! Mas ela, altiva como estava, não percebeu nada! Rien!
- A senhora não está a compreender! Eu aceito ter de viver sem trabalho, só quero que as fitas do guiador da minha bicicleta atestem a minha incapacidade para trabalhar e, dessa incapacidade, resulte o meu direito ao menos a duzentos euros por mês para mim e para o carro da vizinha!
- O seu caso é igual aos outros! O senhor está mal ?! Ou está a dar-me música?!
-Oh não, estou muito bem!
Subi o som da música do Quim Barreiros que tinha em fundo no telemóvel e acompanhei:
"Ponho o carro, tiro o carro, à hora que eu quiser
Que garagem apertadinha, que doçura de mulher
Tiro cedo e ponho à noite, e às vezes à tardinha
Estou até mudando o óleo na garagem da vizinha!"
Em fim de quadra, apontei-lhe a objectiva do telemóvel e fotografei-a. Saí em passo apressado e montei a minha bicicleta de duas rodas caminhando para a casa que fica junto à da minha vizinha.
Ela deve ter ficado a pensar que eu lhe tirei a fotografia por ser tarado ou para denunciar publicamente a sua altivez. Mas não foi nada disso, eu tirei-lhe a fotografia apenas para a poder rasgar! O problema agora é que não sei como é que se podem rasgar fotografias digitais.
Parece impossível, com um processo do ex-patrão, sem emprego e sem dinheiro e sinto-me melhor! Só quem me vai lendo poderá avaliar se estou a melhorar! Eu acho que sim!
- Ó Pistola pára lá com o autoclismo!
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
É sempre bom trazer um saco com coentros
Quando deixei de trabalhar por ter enlouquecido não avisei a entidade patronal. Por muito que aparente estar curado, um tipo nunca mais fica bom dos cornos. Não prestigia a empresa ter colaboradores que vão para o trabalho em bicicletas com fitas coloridas nos punhos do guiador.
- Estás despedido!
Respondi-lhe que aceitava que um patrão, como dono do trabalho, deve poder despedir e admitir como lhe apetece. Acrescentei que concordava com todas as recentes alterações às leis do trabalho que visam aumentar a criação da riqueza. Expliquei que compreendia a generalização da flexibilidade laboral como forma de melhorar a produtividade. Agradecia-lhe até, a oportunidade que me dava de poder dar o meu contributo para ultrapassar a crise em que o país se encontra já que, pelo que ouvia na televisão, os despedimentos e o desemprego são necessários à salvação do país. Indemnizar-me?! Nem pensar! Eu apenas me sentia no direito de receber a troco de trabalho efectivo e não estava na disposição de usufruir de regalias que trouxeram as coisas a este estado.
- Não pode é ter entre os seus argumentos o facto da minha bicicleta ter fitas coloridas nos punhos do guiador!
- Tu ainda não estás bom dos cornos! Tu devias voltar para o asilo! Pelo menos lá não passas fome!
- O meu médico disse que eu devia procurar a Normalidade. Ora que eu saiba a sua mulher chama-se Saudade de Outros Tempos - que raio de nome para uma mulher! - e o senhor, dada a sua espécie, nunca pode ter dois cornos e a minha bicicleta tem duas rodas!
E dito isto, esfreguei-lhe os coentros que trazia comigo na orelha direita, comi um pedaço e fugi, sem fome, em cima das duas rodas da minha bicicleta.
Agora quem quer uma indemnização é ele, e não faz por menos: trinta mil euros! Com trinta mil carvalhos! O bocado de orelha não tinha o tamanho de uma moeda de um euro!
Não sou inimputável, mas se um bocado de orelha pode valer trinta mil euros, quanto é que vale o saco de coentros que anda sempre comigo?! É que se não fosse o caso de eu ser um homem de princípios, eu podia antes ter comido a dona Saudade e, pelo menos, não teria sentido a falta do azeite!
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Quarto 17
(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, o Quarto 11, o Quarto 12, o Quarto 13, o Quarto 14, o Quarto 15, o Quarto 16, este quarto não faz sentido)
Dorinha era já nossa há seis meses. Adalberta contou que fora para Braga fazer rua mas que não aguentava as saudades da filha e vinha buscá-la. Dona Graça não aceitava: “Dona Graça era a mãe, o João era o pai e as filhas eram as irmãs! O que a menina precisava era duma família!”
Adalberta não tinha desenvoltura para grandes argumentos e deixou transparecer pela conversa que, em troca de determinadas condições, permitiria a adopção. Prometeu que manteria contacto, que de vez em quando até podia enviar algumas lembranças e valores e rematou pedindo pernoita para uma noite.
Dona Graça desculpou-se que só tinha a cama do meu quarto, onde muitas vezes dormia também a Dorinha e que, portanto, esse assunto de dormir a noite dependeria do meu consentimento. Havia o divã da sala mas, naquela noite, estava reservado para o Carlitos que ainda não adquirira o estatuto para partilhar a cama com Tânia.
Senti-me encurralado. Que motivo que não soubesse a desculpa poderia eu apresentar para recusar o tecto a uma mulher só, pobre e desamparada? Afinal de contas eu, antes de ser homem, teria de ser humano!
Era meia tarde quando aconteceu esta conversa. Deixei a sala e fui estudar para o quarto. A pequena mesa em que estudava estava virada para a parede de modo que era contra a parede que eu estudava. Adalberta bateu à porta e pediu-me ordem para deixar ali as suas coisas. Continuei na malvada Estatística, enquanto Adalberta, na cama atrás de mim, mexia os seus parcos haveres. Pressenti que se despia, por respeito não me virei para trás, pensei – está a mudar de roupa!
- João, eu tenho de lhe pagar aquilo que tem feito pela minha filha!
- Ora essa Adalberta! Cada um faz o que pode e o que deve! -respondi sem retirar a atenção dos meus papéis. Adalberta dirigiu-se para um dos lados da mesa. Estava completamente nua. Não tinha corpo de se mirar, estava cheio pelo desmazelo, marcado pelo uso, desfeito pela ilusão. Fingi ignorá-lo. Percebi a oferta de Adalberta.
- Adalberta! Gosto da Dorinha e também ela tem feito muito por mim! A Dorinha tem a felicidade de ter uma mãe e a infelicidade de não poder viver com ela. Há coisas que não se pagam e há coisas com que não se paga.
A expressão e a pose da mulher que estava ali, de pé, a meu lado, transmitiam um caldo de emoções: não me teria feito entender completamente mas teria feito entender rejeição e ingratidão. Tinha tão pouco para me dar e, nem isso, eu aceitava.
“Estaria eu assim tão servido de mulheres? O tempo que viveu em casa nunca viu sinais de nada! Seria paneleiro? Seria fino demais para ela?” – imaginei-lhe estes pensamentos/sentimentos e continuei simulando o estudo. Sentia-me cruel por fingir ignorá-la e sentir-me-ia cruel se fosse aceitá-la.
Adalberta não tinha vida para meias medidas, gorda como era, não sei como se conseguiu enrolar por debaixo da mesa. Eu continuei a simular que estava a estudar.
Adalberta não tinha desenvoltura para grandes argumentos e deixou transparecer pela conversa que, em troca de determinadas condições, permitiria a adopção. Prometeu que manteria contacto, que de vez em quando até podia enviar algumas lembranças e valores e rematou pedindo pernoita para uma noite.
Dona Graça desculpou-se que só tinha a cama do meu quarto, onde muitas vezes dormia também a Dorinha e que, portanto, esse assunto de dormir a noite dependeria do meu consentimento. Havia o divã da sala mas, naquela noite, estava reservado para o Carlitos que ainda não adquirira o estatuto para partilhar a cama com Tânia.
Senti-me encurralado. Que motivo que não soubesse a desculpa poderia eu apresentar para recusar o tecto a uma mulher só, pobre e desamparada? Afinal de contas eu, antes de ser homem, teria de ser humano!
Era meia tarde quando aconteceu esta conversa. Deixei a sala e fui estudar para o quarto. A pequena mesa em que estudava estava virada para a parede de modo que era contra a parede que eu estudava. Adalberta bateu à porta e pediu-me ordem para deixar ali as suas coisas. Continuei na malvada Estatística, enquanto Adalberta, na cama atrás de mim, mexia os seus parcos haveres. Pressenti que se despia, por respeito não me virei para trás, pensei – está a mudar de roupa!
- João, eu tenho de lhe pagar aquilo que tem feito pela minha filha!
- Ora essa Adalberta! Cada um faz o que pode e o que deve! -respondi sem retirar a atenção dos meus papéis. Adalberta dirigiu-se para um dos lados da mesa. Estava completamente nua. Não tinha corpo de se mirar, estava cheio pelo desmazelo, marcado pelo uso, desfeito pela ilusão. Fingi ignorá-lo. Percebi a oferta de Adalberta.
- Adalberta! Gosto da Dorinha e também ela tem feito muito por mim! A Dorinha tem a felicidade de ter uma mãe e a infelicidade de não poder viver com ela. Há coisas que não se pagam e há coisas com que não se paga.
A expressão e a pose da mulher que estava ali, de pé, a meu lado, transmitiam um caldo de emoções: não me teria feito entender completamente mas teria feito entender rejeição e ingratidão. Tinha tão pouco para me dar e, nem isso, eu aceitava.
“Estaria eu assim tão servido de mulheres? O tempo que viveu em casa nunca viu sinais de nada! Seria paneleiro? Seria fino demais para ela?” – imaginei-lhe estes pensamentos/sentimentos e continuei simulando o estudo. Sentia-me cruel por fingir ignorá-la e sentir-me-ia cruel se fosse aceitá-la.
Adalberta não tinha vida para meias medidas, gorda como era, não sei como se conseguiu enrolar por debaixo da mesa. Eu continuei a simular que estava a estudar.
(Na próxima quarta há mais Quarto)
sábado, 7 de janeiro de 2012
Temos o dever de enlouquecer
Da quinta onde estou vêem-se estradas e das estradas também se vê a quinta. A quinta tem porqos e porqas, os porqos cobrem as porqas e as porqas parem leitões. A quinta está cercada por nós e por nós é tratada. O Soares dos Santos também tem uma quinta e é na minha terra. A quinta é o único dia de mercado na minha terra. A quinta só se deve meter a partir de uma certa velocidade. Vou ter alta amanhã. Não me apetece nada voltar a viver no meio de loucos apascentados por porqos. Ainda bem que têm tendência a ser cada vez menos, comem-se uns aos outros mas não parem, emigram por quem os manda, mandam-se da ponte para o rio e para a linha por desespero, mandam-se para a rua da janela dum quinto andar pelos bancos, morrem por falta de assistência num quinto andar. O meu médico quer pôr-me a andar. Hoje estou na quinta. Amanhã ando para sexta. O meu médico diz que temos o melhor primeiro ministro desde o 25 de Abril e o segundo melhor desde 28 de Maio. Até na quinta estamos nas mãos deles. Tirem-nos os feriados, os sábados e os domingos mas não nos tirem as quintas! Se um quinto fizer coisa e tal com uma quinta nasce um cinquentão?! Quinto, cinco, leitão, eu! Estão a ver?! Ah é só chalaça! Querem fumaça de pinheiro e de azevedo?!
Com que então alta à sexta?! Inimputável eu?! Se milhares de pessoas estão a morrer prematuramente por falta de assistência, governada pela insensibilidade dum porqo saudável, não será nosso dever matar o porqo!? Sim, porqo o destino de qualquer porqo saudável é morrer prematuramente!
Quero os porqos todos em cima da mesa e um feliz Natal para alguns! O quê?! Já se passou?! Quem?! O Natal ou eu?!
Estou a sair de mim! Amanhã saio da quinta. Espero que depois disso este blogue volte à normalidade porqe ao abrigo do novo acordo ortográfico o "u" não se lê e, por isso, também deve sair do porque já me sinto melhor -U!...
Legenda: E eu é que estou louco?!
- Hoje não é quinta?! Então que dia é hoje?!
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Dêem-me os parabéns!
Hoje é o dia em que o Rei faz anos! O dia de Reis!
Blogue Rei dos Leittões - há seis anos a dizer a mesma coisa!
Recebem-se parabéns e aceitam-se prendas. Venham à festa:
Bem sei que o reino já conheceu melhores dias! Tenho andado ensimesmado noutras realidades e a minha espiral blogosférica tem andado enroscada. Não sou daqueles que gasta o tempo a dizer que não tem tempo mas isto exige o seu tempo. Por outro lado sinto que há seis anos que ando a dizer a mesma coisa.
Bem sei que já foi outra a fidalguia! Uns chegaram, outros partiram, uns passaram, outros cairam, uns zangaram-se, outros fartaram-se e eu...
Ser bloguer como eu sou é muito mais que ter um blogue, é ter afinidades com outros blogues, amizades com outros bloguers, é aprender e informar-se com outros, é discutir e partilhar, é conhecer, é fixe!...
Um abraço muito especial aos que por aqui continuam a marcar presença desde os princípios: a Maria, o Zé Povinho, o Compadre Alentejano, o Maceta, o Guardião, o Salvo-Conduto, o Samuel e outros
Blogue Rei dos Leittões - há seis anos a dizer a mesma coisa!
Recebem-se parabéns e aceitam-se prendas. Venham à festa:
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Quarto 16
(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, o Quarto 11, o Quarto 12, o Quarto 13, o Quarto 14, o Quarto 15 este quarto não faz sentido)
Nos dias seguintes às lágrimas de Tânia as coisas ficaram pretas. Nos momentos em que a casa ficava só dos dois eu fazia as minhas tentativas mas as suas reacções eram de tal ordem que comecei a temê-las e a acanhar-me. Aparte essas abordagens, Tânia falava-me normalmente como se nunca tivesse existido nada entre nós. Podíamos ir juntos ao café, buscar a Dorinha à ama e até dançar na sala merenge ou rock n’roll!...
Tudo isto atormentava ainda mais o meu estado de paixão e o pior é que me ia auto-convencendo que com ela não acontecia o mesmo.
Entrementes, meteram-se umas férias no meio. Quando regressei e entrei na sala pousei o saco. Estavam apenas as duas irmãs. Tânia levantou-se de imediato, colocou os seus antebraços nos meus ombros, enchendo o meu pescoço de alegria, pousou-me um beijo em cada face e disse infantilmente, saltitando e exultando de alegria:
- Cabitche, já tenho um namorado!...
De imediato a mana Gina, que nem se levantara para me honrar e permanecia a olhar a televisão, imitou com voz ridicularizante:
- Cabitche, já tenho um namorado!....
- Tu também Ginita!? Quem é o teu? - Indaguei eu, fingindo ignorar o tom de gozo e mastigando o contentamento de que Tânia, durante a minha ausência, me sentira a falta e me assumia agora no regresso.
- O meu amor és tu meu mano branco! - Disse Gina caminhando em direcção a mim para me abraçar e me conceder um tardio mas poderoso beijo no canto da boca, como quem diz ”assim não é beijo no cesto nem de incesto, é de amiga íntima!...”
O sorriso macaco com que Tânia acompanhou o dito beijo e a intervenção da irmã deixou-me um pé atrás.
- Então não sabes? O namorado da Tânia é o Carlitos!!!
Senti a força a faltar-me nas pernas, sentei-me à mesa e as duas acompanharam-me sentando-se também. Seria normal pormos as cartas na mesa, contarmos coisas das férias e coisa e tal e foi isso que fizemos durante meia hora. As trocas de palavras e olhares entre mim e a minha recém confirmada “ex” atiravam-me para o estado de vencido. Para exibir ainda mais a sua superioridade, topando os meus suores e sem que eu pedisse, foi ao frigorífico buscar uma Sagres e despejou-a num copo que pousou à minha frente.
Quando me encontrei só, no quarto, a arrumar as coisas, comecei a pensar no Carlitos: bom rapazito, pacato e simples, viera da Beira-Alta para servir no restaurante cervejaria em que Dona Graça trabalhava. Conhecia-o bem das conversas e das borlas que nos dava na esplanada, já várias vezes tinha passado serões e até festas na casa da colega. Sempre pensei, se mais não fosse pela idade, que poderia vir a dar um belo par com Gina! Agora com Tânia?!... A sua figura trinca-espinhas não emparelhava nada com a imponência de minha menina! Mas recordando bem, quando dançava com ela, a cabecita do beirãozito quase se afogava, aconchegada entre os peitos esculpidos que acabou por me roubar! O malandreco!... Enfeitou-me bem a vida, enfeitou!...
Tudo isto atormentava ainda mais o meu estado de paixão e o pior é que me ia auto-convencendo que com ela não acontecia o mesmo.
Entrementes, meteram-se umas férias no meio. Quando regressei e entrei na sala pousei o saco. Estavam apenas as duas irmãs. Tânia levantou-se de imediato, colocou os seus antebraços nos meus ombros, enchendo o meu pescoço de alegria, pousou-me um beijo em cada face e disse infantilmente, saltitando e exultando de alegria:
- Cabitche, já tenho um namorado!...
De imediato a mana Gina, que nem se levantara para me honrar e permanecia a olhar a televisão, imitou com voz ridicularizante:
- Cabitche, já tenho um namorado!....
- Tu também Ginita!? Quem é o teu? - Indaguei eu, fingindo ignorar o tom de gozo e mastigando o contentamento de que Tânia, durante a minha ausência, me sentira a falta e me assumia agora no regresso.
- O meu amor és tu meu mano branco! - Disse Gina caminhando em direcção a mim para me abraçar e me conceder um tardio mas poderoso beijo no canto da boca, como quem diz ”assim não é beijo no cesto nem de incesto, é de amiga íntima!...”
O sorriso macaco com que Tânia acompanhou o dito beijo e a intervenção da irmã deixou-me um pé atrás.
- Então não sabes? O namorado da Tânia é o Carlitos!!!
Senti a força a faltar-me nas pernas, sentei-me à mesa e as duas acompanharam-me sentando-se também. Seria normal pormos as cartas na mesa, contarmos coisas das férias e coisa e tal e foi isso que fizemos durante meia hora. As trocas de palavras e olhares entre mim e a minha recém confirmada “ex” atiravam-me para o estado de vencido. Para exibir ainda mais a sua superioridade, topando os meus suores e sem que eu pedisse, foi ao frigorífico buscar uma Sagres e despejou-a num copo que pousou à minha frente.
Quando me encontrei só, no quarto, a arrumar as coisas, comecei a pensar no Carlitos: bom rapazito, pacato e simples, viera da Beira-Alta para servir no restaurante cervejaria em que Dona Graça trabalhava. Conhecia-o bem das conversas e das borlas que nos dava na esplanada, já várias vezes tinha passado serões e até festas na casa da colega. Sempre pensei, se mais não fosse pela idade, que poderia vir a dar um belo par com Gina! Agora com Tânia?!... A sua figura trinca-espinhas não emparelhava nada com a imponência de minha menina! Mas recordando bem, quando dançava com ela, a cabecita do beirãozito quase se afogava, aconchegada entre os peitos esculpidos que acabou por me roubar! O malandreco!... Enfeitou-me bem a vida, enfeitou!...
(Na próxima quarta há mais Quarto)
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Quarto 15
(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, o Quarto 11, o Quarto 12, o Quarto 13, o Quarto 14, este quarto não faz sentido)
E andávamos nós, já há tempo de mais, para tomar a decisão de anunciar à matriarca a paixão Tânia-João quando, uma noite, Dona Graça bateu à minha porta para escrever mais uma carta. Não tinha forma de dizer que não e lá fui, pela primeira vez sem grande entusiasmo, cumprir o papel de moço de cartas de prazer.
As últimas cartas tinham começado a tocar um certo erotismo e, com essa natureza, a confundirem-se cada vez mais com preliminares.
“…
Virgolino, estou a ver o teu coiso a bater palmas de contente, a arregalar as peles de ver as minhas mamas, a perder-se e a esvair-se na minha mina escura e a dizer moribundo:
- Ó Preta, vai-me buscar uma cerveja branca com gemada!
Virgolino volta! Estou com cio! Prometo-te que gritarei como gostas e não voltarei a dizer:
- Não! Não posso gritar! As minhas filhas e o João vão ouvir!
Quando voltar a ter-te aqui, na minha cama, vou gritar e aiar até a polícia bater à porta. E, se for necessário, abrirei a janela e direi cá para baixo:
- Só um momento! Deixem-nos acabar!
…”Não faço ideia do que Virgolino sentia ao receber estas cartas; da minha parte, sei bem o que sentia e o que me acontecia ao escrevê-las. Sabia também que o destinatário, caso soubesse do que se passava do lado emissário, compreenderia a situação das nossas necessidades – ou não tivesse ele já passado uns largos tempos na prisão – e, nem a amizade que tinha por mim nem a relação que tinha com a Gracinha seriam, por isso, melindradas. Contudo, há coisas de que mais vale não ter conhecimento e esta era uma delas.
Mal! Mal! Sentia-me eu. Dificilmente Tânia aceitaria, e não merecia, que estas brincadeiras continuassem a acontecer. Eu já só queria era que Virgolino voltasse depressa e aquelas cartas terminassem!
Um dia terminei a carta e deixei Dona Graça estendida no leito, toda oferecida. Abri a porta e saí a ouvir umas frases lascivas, mistas de provocação, compreensão, de brejeira ternura, de “vem cá!”, “vai lá!” …
A distância de portas entre os quartos quase permitia que, a um passo, ainda o pé de trás estivesse num, já o da frente entrava no outro. Estranhei a porta aberta, acendi a luz. Sobre a cama vaga para arrendar, aquela onde aconteciam sempre - vá-se lá saber porque nunca eram na minha – as práticas com Tânia, estava em pijama, ela própria, a menina dos olhos dos meus olhos, com olhos fontes que lhe inundavam o rosto dos meus olhos.
Precisava de tempo para me libertar do estado estático em que fiquei e para conseguir dizer alguma coisa. Nos escassos segundos em que tentei colocar o meu cérebro encharcado a trabalhar percebi que não havia ali espaço para palavras. Tânia concedeu-me esses segundos e levantou-se cruzando-se comigo, a caminho do seu quarto, sem me tocar e tocando-me com o seu silêncio que dizia:
- Estava aqui à tua espera para que visses as minhas lágrimas!
As últimas cartas tinham começado a tocar um certo erotismo e, com essa natureza, a confundirem-se cada vez mais com preliminares.
“…
Virgolino, estou a ver o teu coiso a bater palmas de contente, a arregalar as peles de ver as minhas mamas, a perder-se e a esvair-se na minha mina escura e a dizer moribundo:
- Ó Preta, vai-me buscar uma cerveja branca com gemada!
Virgolino volta! Estou com cio! Prometo-te que gritarei como gostas e não voltarei a dizer:
- Não! Não posso gritar! As minhas filhas e o João vão ouvir!
Quando voltar a ter-te aqui, na minha cama, vou gritar e aiar até a polícia bater à porta. E, se for necessário, abrirei a janela e direi cá para baixo:
- Só um momento! Deixem-nos acabar!
…”Não faço ideia do que Virgolino sentia ao receber estas cartas; da minha parte, sei bem o que sentia e o que me acontecia ao escrevê-las. Sabia também que o destinatário, caso soubesse do que se passava do lado emissário, compreenderia a situação das nossas necessidades – ou não tivesse ele já passado uns largos tempos na prisão – e, nem a amizade que tinha por mim nem a relação que tinha com a Gracinha seriam, por isso, melindradas. Contudo, há coisas de que mais vale não ter conhecimento e esta era uma delas.
Mal! Mal! Sentia-me eu. Dificilmente Tânia aceitaria, e não merecia, que estas brincadeiras continuassem a acontecer. Eu já só queria era que Virgolino voltasse depressa e aquelas cartas terminassem!
Um dia terminei a carta e deixei Dona Graça estendida no leito, toda oferecida. Abri a porta e saí a ouvir umas frases lascivas, mistas de provocação, compreensão, de brejeira ternura, de “vem cá!”, “vai lá!” …
A distância de portas entre os quartos quase permitia que, a um passo, ainda o pé de trás estivesse num, já o da frente entrava no outro. Estranhei a porta aberta, acendi a luz. Sobre a cama vaga para arrendar, aquela onde aconteciam sempre - vá-se lá saber porque nunca eram na minha – as práticas com Tânia, estava em pijama, ela própria, a menina dos olhos dos meus olhos, com olhos fontes que lhe inundavam o rosto dos meus olhos.
Precisava de tempo para me libertar do estado estático em que fiquei e para conseguir dizer alguma coisa. Nos escassos segundos em que tentei colocar o meu cérebro encharcado a trabalhar percebi que não havia ali espaço para palavras. Tânia concedeu-me esses segundos e levantou-se cruzando-se comigo, a caminho do seu quarto, sem me tocar e tocando-me com o seu silêncio que dizia:
- Estava aqui à tua espera para que visses as minhas lágrimas!
(Na próxima quarta há mais Quarto)
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Como será 2012?! Responda quem souber!
Que em dois mil e doze
Eu me levante todos os dias,
Que se levantem as árvores,
Que se levante a vida,
Que se levantem os mortos,
Que se levante o povo,
Que se levante o país,
Que se levantem as vozes,
Que se me levante a voz,
Que se me levante o falo
Que a falar é que a gente se entende
E que outros valores mais altos se "alevantem"!...
Que em dois mil e doze
Os juros caiam,
O petróleo caia,
O bêcêpê caia,
A sónai caia,
O governo de Miguel Relvas caia da cadeira como o Botas
E o Cavaco vá de chaimite para a Madeira
E que eu não caia, por maior que seja a bebedeira!
Se os juros caíssem talvez me sobrasse algum.
Se o bêcêpê caísse talvez a casa passasse a ser minha de facto.
Se o petróleo caísse talvez eu pudesse, no Verão, dar uma volta à praia.
Se a sónai caísse talvez eu não acordasse aos domingos com o despertador a dizer:
- Podíamos ir ao Continente! ...
Se o governo caísse eu teria novamente a oportunidade de votar e o povo de acordar!
- Acordem que em trezentos e sessenta e cinco dias pode haver um que tenha madrugada!
Porque se ninguém sabe nada do que anda a fazer, ninguém sabe o que pode acontecer!
Talvez aconteça alguma coisa para além do sobe e desce de resultados! Eh lá hoje subiu a taxa e desceu o consumo! Eh lá hoje subiu o gasóleo e desceu a gasolina! Eh lá hoje desceu o déficit e desceu a inflação! Eh lá hoje subiu o emprego e o desemprego! Em 2012 vai haver um conselho extraordinário com grandes resultados que não resultam em nada. O governo irá dar aos pobres deixando os ricos saciados e vai dar aos ricos deixando os pobres satisfeitos! O governo limpa a boca com a direita e o cu com a esquerda!...
Dois mil e doze? Doze badaladas! Doze copos! Doze euros! Estou a ter uma passagem de ano do catano!
- O quê não é hoje?! Devo estar um pouco desorientado com a orientação!
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Afinal quem é que deu à luz?!
Os magos vêm da china. Nasceu a salvação. Finalmente fez-se luz na EDP, continua a estar nas mãos do estado mas o estado é chinês! Se uma empresa pública de um país, compra uma empresa pública de outro país, podemos falar em privatização?! Eis a questão!...
sábado, 24 de dezembro de 2011
E lá vamos nós
Vamos partir. O carro já está com a carga toda: embrulhos, tachos, sacos, casacos e sem aquelas coisas que vão esquecer. Vamos para a casa fria do avô e da avó que já lá não estão. Chegados lá, há que dar a volta às coisas, limpar, retirar os pratos com veneno dos ratos, arranjar lenha, ir visitar primos e vizinhas, ir acompanhando a chegada de tios e primas. Somos muitos, mais de trinta de linha direta e seríamos mais se todos estivessem. As famílias grandes têm destas vantagens. Violas, cavaquinhos, harmónicas, ferrinhos, canções de velho Natal, velhas cantigas, fado, Adriano, Zeca, couves, batatas, bacalhau, azeite, vinho e pouco mais e a mais, só um copinho!... Houve um ano, com a matriarca ainda viva, devota, crente e serva de Nossa Senhora do Menino Jesus, que até a Grândola se cantou ao Menino. Iremos, portanto, passar um Natal impossível. Eles nunca irão mandar no nosso Natal. Mais cristão, menos cristão mas nunca deles!
(vou já! vão dar de comer ao cão! estou só a acabar de dar de comer ao blog! tirem o carro da garagem!)
A hora improvável, faremos mais uns quilómetros para a casa do outro avô e da outra avó que também já lá não estão. Outra porra! Outra porrada de gente nossa, mais outra porrada de gente que ali cai por afinidade, uma porrada de crianças experimentando brinquedos novos, brigando, gritando, abraçando, "acolando"... e a música outra...
- Olhem que eles tocam e cantam muito bem!
A hora improvável regressaremos e, na rua fria e escura onde nasci, a pergunta inevitável acontecerá:
- Levas o carro?!...
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Mensagem de Natal de Sua Majestade
Súbditos e súbditas,
O Natal não é um direito nem um dever, não é um presépio nem um acto de fé, não é comer nem comprar, não é dar nem receber, não são cartões nem luzes a apagar e a acender.
O Natal não são pais, nem mães, nem meninos, nem meninas, nem burros, nem vacas, nem perus, nem porcos, nem coelhos. O Natal não são estrelas nem ministros, nem dó nem caridade, nem mensagens de boas festas de gente que se julga dona do nosso destino – já me estou a passar! – Avé José! Avé Maria! Avé burro! Avé vaca! Avé peru! Avé bacalhau! Avé coelho! – já me estou a passar! – Pedro vai-te!... – já me estou a passar! Amor desliga-me essa porra do noticiário! Lá se foi a presente mensagem de Natal! Se calhar o Natal é tudo aquilo que eu disse que não era! Não sei o que é o Natal, é muito esquisito.
- Muda para o dois que estão a dar bonecos!
- Os chineses compraram a EDP!
"Portugueses e portuguesas,
sei que o vosso Natal não vai ser grande coisa, aproveitem! Para o ano ainda será pior: mais desemprego, mais exploração do trabalho, menos serviços, mais multas, mais taxas, mais impostos, menos democracia. E então daqui a 20 anos!...
Portugueses e portuguesas, em verdade, em verdade vos digo: isto vai ser um dos piores lugares para viver no mundo! Um conselho: vazem! desandem! emigrem!..."
Já estou passado: pareceu-me ouvir em fundo a mensagem de Natal do menino Pedro!
- Muda-me isso para a Casa dos Segredos!
Daqui a 20 anos, menino Pedro, o menino já passou à história! Sabe menino, se estudasse mais um pouco aprenderia que a história não é assim tão linear como supõem aqueles que a querem desenhar!
Só para contrariar os teus desejos vou passar um Natal do caraças e vou ter um próximo ano de luta até mais não!
Avé burros! Avé vacas! Avé porcos! Ah! Já me lembro! Eu, Rei dos Leitões, estava para deixar uma mensagem:
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Quarto 14
(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, o Quarto 11, o Quarto 12, o Quarto 13, este quarto não faz sentido)
Dorinha ficou em boas mãos. Conversámos em família a situação criada pela menina abandonada. No dia seguinte eu tinha muito que estudar e, por isso mesmo, o melhor seria faltar às aulas e, deste modo, Dorinha poderia ficar à minha guarda.
Dona Graça conseguiria umas fugas do restaurante para dar umas voltas na baixa a ver se encontrava a mãe, diligência que repetiria, sem sucesso, durante uns dias.
Dia após dia íamos ganhando a menina que raramente perguntava pela mãe Adalberta.
Participar à polícia seria muito complicado, a casa não gozava de grande credibilidade entre os agentes que frequentemente a visitavam por alegadas queixas dos vizinhos - coitados, eram incapazes de dormir sabendo que alguém se divertia por ali perto!...
Tivemos de partilhar um esquema pelos quatro, com faltas e atrasos pelo meio, enquanto não encontrávamos solução.
- Cabitche, já fiz!
E eu lá lhe passava uma nova folha com a encomenda de um desenho ganhando, com o tempo dos seus rabiscos, mais uns minutos para exercitar as equações da cadeira que tinha em mãos. Às vezes o "já fiz" era outra coisa e eu lá limpava a coisa com paternal paciência.
Com a adopção informal já assumida e os olhos da Dorinha cada vez mais dos nossos, o possível reaparecimento de Adalberta começou a ser indesejado por todos.
Dona Graça arranjou uma ama para a menina.
Tenho ainda, no coração, o salto que Dorinha dava para o meu colo, abraçando-me, de cada vez que eu aparecia à porta da senhora para a ir buscar.
A tal segunda cama, deixada vaga pelo colega de quarto, deixou-me espaço para novas oportunidades. Havia uma tarde e uma manhã em que o horário escolar das duas irmãs não coincidia. Tânia e eu começámos a aproveitar esse tempo, eu estudava, ela aproveitava umas explicações minhas nas disciplinas que eu dominava e, assim, se foi dando corpo a uma paixão. Mais do que todos os conteúdos académicos, o seu sorriso simples, frágil, branco, aberto, dado, largo, longo, de corpo inteiro, oxigenava-me a vida – até os joelhos dela chegavam a rir; os seus gestos, sons e movimentos, calmos, lentos, suaves, ondulados, macios, abertos, dados, longos, de corpo inteiro, libertavam-me toda a energia; o seu corpo inteiro não me permitia pestanejo..
O caso tomava a forma que já não justificava o segredo. Tânia tinha pressa de atirar à cara de Gina o nosso amor inteiro, de a deixar sozinha e de passar as suas roupas para o meu quarto. A mãe adorava-me, aceitaria de braços abertos.
Não sabia Tânia que, para mim, contar à mãe podia ser um bocado complicado: as cartas a Virgolino eram já raras, o telefone era mais cara a cara, mas Dona Graça quando se zangava!.... Ninguém me dizia que iria aceitar com bons fígados que o homem que a consolava algumas noites andasse a morrer de amores pela filha! Liberal e compreendedora, mas não tanto!
(Na próxima quarta há mais Quarto)
domingo, 18 de dezembro de 2011
Para acabar de vez com o Natal
Para acabar de vez com o Natal, faça-se o Natal ao fim de semana, coloquem-se portagens em todos os caminhos, subam-se os preços do bacalhau e do gasóleo, aumentem-se os impostos sobre o bolo rei e as luzes e corte-se o subsídio de Natal. Ah! E se puderem fechar uma empresa ou um centro de saúde lá no sítio, a coisa fica mais composta! É que um Natal sem desempregados ou sem doentes não tem graça! Sem pobres como podem os ricos fazer caridade para chegar ao Céu e, sem doença, como podem os santos curar os doentes?
E, para dar um ar mais deprimente, convém mudar o discurso tradicional: não se diga "feliz Natal" mas "um Natal tão feliz quanto possível" como diz o outro!
Mas faça-se o presépio: ponha-se um coelho no lugar do burro e uma gorda alemã no lugar da vaca, um cavaco com cara de zé e uma dama com ar de maria e, no lugar de Menino, um rei mago sem reino, pode ser o Gaspar.
Até os bonecos têm o seu lugar no Natal embora não percebam patavina do Natal. Eu desejo a cada um o seu Natal e desejo que cada um resguarde o seu Natal e vomite no presépio que sugiro.
Tenho 23 ovelhas - amanhã não sei porque três estão pranhas. Estão cercadas no meu casal embora à volta existam muitas propriedades ao abandono. Quando me aproximo delas, olham-me serenamente. Quando lhes deito comida, comem graciosamente. Estarei eu a fazer caridade?! Ou deveria eu cortar os arames da cerca?! Terá isto alguma coisa a ver com o Natal!? Falta-me dizer um coisa: as 23 ovelhas que eu tenho no meu casal não são minhas! Quer dizer são como as boas festas do outro: são-no tanto quanto possível!
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
Não vou nada bem
O texto que se segue serve apenas para quem não se der ao trabalho de ver o filme.
Não sei se é do outono, se é do inverno, se é dos ares, se é do vinho, se é das calças - não vou nada bem! Não sei se é da conjuntura, se é crise, se é fígado, se é de hoje, se é de ontem, se é do amanhã - não vou nada bem! Não sei se é da história, do presente, se das contas, se dos contos, se eu conto, se não conto - não vou nada bem!
Se o meu maior defeito foi ter acreditado, então eu vou continuar com esse defeito porque continuo a acreditar. Se falhei por não ter lutado tanto quanto devia, então eu vou-me redimir lutando mais.
Se eu não olhei para trás, para frente e para o lado, eu vou-te dizer pai falecido, que o teu neto e eu estamos na marcha bem acompanhados por gente de todos os lados.
Ouçam, não vou nada bem mas não estou só! Vocês também!
Então?! Vão continuar a ver televisão?! O Passos, o Durão, o inSeguro, o pequeno Napoleão, a Hitler sem saudação, sem bigode?! Vão continuar à espera?! De quê!?...
Não vou nada bem! Obrigado pela companhia!
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Estes tipos são uns cortes
De tanto cortarem a torto e a direito, estes cortes do governo, fizeram-me lembrar a história:
Estava um homem com um problema de saúde porque a pele das virilhas lhe aparecia azulada e foi ao médico.
- Meu caro senhor, a solução para a sua doença passa por lhe cortarmos um testículo.
Como ainda ficava com outro aceitou mas, feita a intervenção, o problema manteve-se.
- Meu caro senhor, lamento, mas sendo um caso de tanta gravidade, não vejo outra solução senão cortarmos-lhe o outro.
Disse adeus ao seu desempenho sexual mas teve de conformar-se perante as certezas do especialista. O pior é que, mesmo castrado, o azul na pele continuou.
- Meu caro senhor, isto é um caso de vida ou de morte, garanto-lhe que o problema ficará resolvido se lhe cortarmos o dito cujo.
Ficou de rastos mas a sua vontade de viver era tanta que aceitou ficar sem a parte que o ditara homem. E não é que o problema persistiu! A tragédia teve desfecho na conclusão final do clínico:
- Peço imensa desculpa meu caro senhor! Está visto! O problema do azul tem origem nas calças de ganga!
Estes sábios da economia, estes cortes, nunca terão humildade para reconhecer os seus erros mas já deram provas que terão descaramento para dizerem o contrário daquilo que ainda ontem diziam a pés juntos. Passos Coelho dará uma conferência de imprensa para dizer apenas:
- Afinal o problema é das calças de ganga.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Quarto 13
(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, o Quarto 11, o Quarto 12, este quarto não faz sentido)
O melhor seria mesmo eu encontrar um colega de quarto, estudante, antes que a senhoria me arranjasse para companhia alguém fora de estilo. Não seria fácil. A fama da casa já ia além do bairro e o racismo e o preconceito, naquele tempo, ainda existiam.
Jorge foi lá a casa para eu lhe emprestar uns apontamentos. Era do norte, já exercia no ramo mas faltava-lhe uma cadeira do primeiro ano para acabar o curso. Pedira dispensa de serviço para ver, se desta, conseguia o canudo de uma vez por todas. Partilharia o quarto comigo.
Eu, a mãe e as filhas estávamos na sala a ver a telenovela. O Jorge estava, como sempre, lá em cima no quarto a marrar na Física. Adalberta entrou em casa, disse um “boa noite” exausto e subiu as escadas visivelmente embriagada. Dorinha vinha com ela mas correu logo para o meu colo. Com uma troca de encolher de ombros e acenos de cabeça julgámos a mãe mulher-da-vida enquanto trocávamos com a filhota uns diálogos com graças de criança.
Passados alguns minutos ouvimos Adalberta, irritada, a falar alto ao cimo da escada:
- Deves-me cinco fodas! Deves-me cinco fodas paneleiro! Quero o dinheiro das cinco fodas picha-mole!
O interlocutor não o era porque mantinha o silêncio. Adalberta também não lhe deixava espaço para ele reagir, continuava a debitar palavras indicionárias e a atiçar a curiosidade dos ouvintes do piso de baixo.
Com que então o Jorge guardava-me segredos! Provavelmente, quando ficava em casa a sós com a Adalberta, aproveitava para molhar o prego mas pagar, está quieto!...
Dona Graça subiu a escada e pôs ordem na discussão. Adalberta teria de abandonar o quarto no dia seguinte!
Cá em baixo, imaginei com facilidade a reacção da queixosa mas era difícil ver a cara do caloteiro. As portas de ambos os quartos estariam abertas, num deles Adalberta estaria bufando sentada na cama, no outro estaria Jorge sentado à mesa, com o candeeiro aceso e os livros à frente e com cara de quê?!
Jorge, com vergonha de carneiro mal morto, também abandonaria o quarto. A situação agradava-me, sobretudo porque a cama ficaria novamente disponível para eu espalhar roupa, papéis e cassetes.
No outro dia, cada um a seu tempo, lá partiram os do mal parado fornico. Timidamente, e sem que alguém presenciasse, levaram os seus haveres e... partiram. Um pormenor: Adalberta, esqueceu-se de levar a Dorinha.
(Na próxima quarta há mais Quarto)
domingo, 11 de dezembro de 2011
Saudade
à memória de meu amigo Barros que foi e nunca se pronunciou
1
Oh! Como eu gostava de voltar à Realidade...
Tanto que eu gostava de voltar à Realidade...
- Mas como?! – Não tenho meio de transporte!
Tanto que eu gostava de visitar a campa de um tijolo,
meu amigo,
sepultado lá... na realidade!
Mas não posso, não tenho meio de transporte!
Era um bom tijolo. Chamava-se Barros,
era banco e mesa na minha pequena casa.
Um dia convidei Deus para jantar na minha pequena casa,
Barros não aguentou com a divindade e, desfez-se em pedaços
no coração da minha pequena casa.
Por isto, foi sepultado na Realidade...
2
-Não! Ninguém voltará!
Diz uma lei qualquer da “Constituição da Natureza”.
- Mas eu sou real, nasci lá!
- Real sou eu!
responde-me o rei, e eu pergunto:
- Quem mais ama a pátria que o Exilado?
e o Sol responde. O Sol responde a tudo.
É o maior amigo que tenho aqui onde estou,
no Mundo em que as estrelas do mundo real
são os candeeiros duma cidade.
1
Oh! Como eu gostava de voltar à Realidade...
Tanto que eu gostava de voltar à Realidade...
- Mas como?! – Não tenho meio de transporte!
Tanto que eu gostava de visitar a campa de um tijolo,
meu amigo,
sepultado lá... na realidade!
Mas não posso, não tenho meio de transporte!
Era um bom tijolo. Chamava-se Barros,
era banco e mesa na minha pequena casa.
Um dia convidei Deus para jantar na minha pequena casa,
Barros não aguentou com a divindade e, desfez-se em pedaços
no coração da minha pequena casa.
Por isto, foi sepultado na Realidade...
2
-Não! Ninguém voltará!
Diz uma lei qualquer da “Constituição da Natureza”.
- Mas eu sou real, nasci lá!
- Real sou eu!
responde-me o rei, e eu pergunto:
- Quem mais ama a pátria que o Exilado?
e o Sol responde. O Sol responde a tudo.
É o maior amigo que tenho aqui onde estou,
no Mundo em que as estrelas do mundo real
são os candeeiros duma cidade.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Também sei brincar com números
Foi tudo medido: foram medidas as razões e a oportunidade dos feriados, medidos os prejuízos por eles causados e as mais valias da sua extinção e, feita a avaliação, tomaram-se medidas. Não sem antes terem sido negociados - com os trabalhadores não, que não são para aqui chamados - mas com quem de direito:
o alto clero.
Esta gente quando toca a números, nunca se engana, sejam eles macro, micro ou apenas do género dois mais dois são quatro:
- Vocês acabam com a Independência e com a República e nós acabamos com o Corpo de Deus e com a Nossa Senhora da Assunção! Também podemos acabar com a Conceição mas isso só em troca da Liberdade e do Trabalho!...
Estava eu, na cama, dez da manhã, a imaginar esta conversa entre o prelado e o governanta, sem remorso de ter faltado à liturgia mas com interrogações acerca dum dia de descanso, quando este pensamento me desfez de culpas e me confortou: lá no fundo, hoje, dia 8 de Dezembro, estou a festejar o 25 de Abril e o 1º de Maio. Bom negócio!
E porque também gosto de brincar com números, os meus pensamentos prolongaram-se para cálculos que não são para a matemática de quem não se senta na mesma classe. Vejamos:
4 feriados x 8 horas = 32 horas/ano
32 horas/ano x 2 milhões de trabalhadores = 64 milhões de horas por ano
64 milhões de horas a dividir por 52 semanas de 40 horas (por posto de emprego) = mais de trinta mil desempregados ao dispor da caridade e da precariedade.
E continuei na barba:
Mais 1/2 hora de trabalho por dia; mais 2,5 por semana (não para os funcionários públicos nem para muitos empresários com pouco para fazer ou com olhos na testa), para um milhão de trabalhadores; 2,5 milhões de horas por semana; para uma semana de 40 horas equivale a 62500 postos de trabalho.
Se acrescentarmos a estas calculadíssimas medidas, a facilitação dos despedimentos, teremos de aceitar que a principal preocupação destes senhores é o desemprego!
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Quarto 12
(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, o Quarto 11, este quarto não faz sentido)
A minha relação com dona Graça era cada vez mais de confiança, ia muitas vezes aos meus conselhos e sentia necessidade de justificar, perante mim, as suas decisões e, além de tudo, era um coração aberto:
Encontrara na rua Direita, ao abandono, uma mulher angolana com uma filha de dois anos. O empecilho da criança, o rosto e o corpo pouco favorecidos, a má aparência, não lhe atraíam muitos homens ao negócio. Nem sempre conseguia dinheiro para a dormida na pensão.
Seria uma situação provisória; enquanto Adalberta não arranjasse um emprego nas limpezas e endireitasse a vida, ficaria a dormir, com a filhota, no quarto de Gina e Tânia e estas ficariam no quarto da mãe que tinha espaço a chegar.
Não fiquei muito contente com a situação, ainda mais desarmado pelo intocável coração de Dona Graça.
Adalberta não tinha horários! Chegava e partia quando calhava, no estado que calhava, quase sempre com a filha pela mão. Ao fim de algum tempo, com o à vontade que se foi gerando, começou a deixar a Dorinha à guarda de quem estivesse em casa. Chegou a bater-me à porta do quarto pedindo-me, desavergonhadamente, que lhe guardasse a filha enquanto ia tratar duns papéis no consulado. É claro que o consulado era outro. Prometia recompensar-me. Nas entrelinhas deixava perceber que poderia pagar com o corpo. Eu ficava a pensar no não-desejo, enquanto arranjava umas folhas e umas canetas para a criança se entreter e me deixar estudar.
Dorinha, de língua ainda presa, chamava-me Cabitche. Em poucos dias, toda a gente daquela casa me começou a chamar Cabitche – recordo este nome como a única alcunha da minha vida que senti colar-se-me!
A partilha da casa com Adalberta começou a desagradar-me, afinal de contas era uma puta e, era uma puta da rua Direita, daquelas que despacham uma aldeia inteira de rapazes da inspecção. Poderia tornar-se complicado se chegasse a ouvidos errados e acabava por dar argumentos à vizinhança que, frequentemente, durante a noite, telefonava para a polícia para vir ao número sete, que insinuava e fantasiava acerca do antro de pecado que não seria a nossa casa.
Chamei dona Graça ao meu quarto, sentámo-nos na beira da cama, conversámos sobre o assunto. Ela própria andava ajudando Adalberta a arranjar emprego e tudo estaria resolvido nas próximas semanas. Nessa altura pô-la-ia a andar, até porque precisava do quarto para as filhas.
- Estás com medo que a tua mamã saiba que Adalberta dorme no quarto ao lado do teu?!...
Queres que eu te ajude a escrever uma carta à mamã?...
Enquanto ironizava a minha preocupação encostou-me a cabeça aos seus peitos grandes e poderosos e começou a passar-me a mão pelo pêlo! Desta vez, tratou-me até ao fim como um menino!
Encontrara na rua Direita, ao abandono, uma mulher angolana com uma filha de dois anos. O empecilho da criança, o rosto e o corpo pouco favorecidos, a má aparência, não lhe atraíam muitos homens ao negócio. Nem sempre conseguia dinheiro para a dormida na pensão.
Seria uma situação provisória; enquanto Adalberta não arranjasse um emprego nas limpezas e endireitasse a vida, ficaria a dormir, com a filhota, no quarto de Gina e Tânia e estas ficariam no quarto da mãe que tinha espaço a chegar.
Não fiquei muito contente com a situação, ainda mais desarmado pelo intocável coração de Dona Graça.
Adalberta não tinha horários! Chegava e partia quando calhava, no estado que calhava, quase sempre com a filha pela mão. Ao fim de algum tempo, com o à vontade que se foi gerando, começou a deixar a Dorinha à guarda de quem estivesse em casa. Chegou a bater-me à porta do quarto pedindo-me, desavergonhadamente, que lhe guardasse a filha enquanto ia tratar duns papéis no consulado. É claro que o consulado era outro. Prometia recompensar-me. Nas entrelinhas deixava perceber que poderia pagar com o corpo. Eu ficava a pensar no não-desejo, enquanto arranjava umas folhas e umas canetas para a criança se entreter e me deixar estudar.
Dorinha, de língua ainda presa, chamava-me Cabitche. Em poucos dias, toda a gente daquela casa me começou a chamar Cabitche – recordo este nome como a única alcunha da minha vida que senti colar-se-me!
A partilha da casa com Adalberta começou a desagradar-me, afinal de contas era uma puta e, era uma puta da rua Direita, daquelas que despacham uma aldeia inteira de rapazes da inspecção. Poderia tornar-se complicado se chegasse a ouvidos errados e acabava por dar argumentos à vizinhança que, frequentemente, durante a noite, telefonava para a polícia para vir ao número sete, que insinuava e fantasiava acerca do antro de pecado que não seria a nossa casa.
Chamei dona Graça ao meu quarto, sentámo-nos na beira da cama, conversámos sobre o assunto. Ela própria andava ajudando Adalberta a arranjar emprego e tudo estaria resolvido nas próximas semanas. Nessa altura pô-la-ia a andar, até porque precisava do quarto para as filhas.
- Estás com medo que a tua mamã saiba que Adalberta dorme no quarto ao lado do teu?!...
Queres que eu te ajude a escrever uma carta à mamã?...
Enquanto ironizava a minha preocupação encostou-me a cabeça aos seus peitos grandes e poderosos e começou a passar-me a mão pelo pêlo! Desta vez, tratou-me até ao fim como um menino!
(Na próxima quarta há mais Quarto)
domingo, 4 de dezembro de 2011
Colheita de 62

A malta nascida em determinado ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, naturais de algures, respeitam o primeiro sábado de Dezembro num encontro a que decidiram chamar "Colheita de 62". São rapazes que cruzaram as mesmas professoras, as mesmas catequistas, o mesmo senhor prior; mancebos que se apresentaram à inspecção no Quartel de Santa Clara no mesmo dia, homens que nasceram da mesma infância e que não desistem de uma parte do que são. Às oito e trinta da manhã, no largo da Igreja, uma vez por ano lá estão, mais de vinte e menos de trinta, prontos para o pequeno almoço na taberna que resiste, enquanto aguardam a chegada da camioneta que só os mordomos do ano sabem para onde vai.
Desta vez calhou-me a mim ser mordomo e fechar a festa não me lembro a que horas. Por isso mesmo, hoje é dia de chá.
Só homens, pois então! Não temos culpa das nascidas não terem frequentado a mesma classe, não terem dado o nome para a tropa nem de usufruírem dos mesmos gostos de galhofa.
Foi mais um passeio de passear, de comer, de beber, de contar, de recordar mas sobretudo, foi um momento de voltar a ser - parece que ainda foi ontem! E foi, ontem mesmo, foi outra vez um ontem de há muitos anos. Vivas são as árvores que mantêm as raízes.
Por isso mesmo, hoje é dia de chá.
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Quarto 11
(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, o Quarto 5, o Quarto 6, o Quarto7, o Quarto 8, o Quarto 9, o Quarto 10, este quarto não faz sentido)
Quando regressei das férias grandes a casa andava sorumbática. Gina e Tânia tinham chumbado, Virgolino não dava sinais de si e dona Graça fartava-se de trabalhar para manter a casa farta. Dona Graça bem me aconselhara a arranjar um colega para partilhar o quarto, caso contrário teria de arranjar ela um novo hóspede que poderia não ser do meu agrado. Cheguei a andar com um anúncio, na minha pasta de estudante, com os dizeres “Procura-se companheiro de quarto” mas só apareceram candidatos do sexo oposto o que, nas circunstâncias, não seria possível. Uma coisa era certa, ela precisava de mais uma renda para equilibrar o orçamento!
Uma noite cheguei tarde de noitada com uns amigos e as mulheres da casa já estavam na cama. Quando entrei no quarto, surpreendeu-me um intenso cheiro no ar, um vulto dormitando na cama do lado e um saco com umas roupas à entrada. Acordou e trocámos boas noites. Era o novo hóspede, um rapaz com meia dúzia de anos a mais que eu, com barba de três dias, sem sorrisos mas sem antipatias e, seguramente, com cara de quem não era estudante nem operário.
Puxou meio corpo para fora das mantas, ajeitou o travesseiro atrás das costas e ficou sentado ao cimo da cama enquanto eu, como mais velho no aposento, ditava partilhas de roupeiro e hábitos meus. Ele, com a cabeça acenava concordâncias enquanto enrolava uma mortalha. Quando acendeu o isqueiro e deu a primeira passa o cheiro a erva denunciou-o logo.
- Queres dar uma passa?
Acedi à oferta, reconhecendo nessa partilha o gesto necessário de quem sabe que, para se empreenderem certos relacionamentos, devem existir actos simbólicos. O boi bateu o suficiente para estarmos para ali, cada qual na sua cama, a falar por uma hora. Luís era dos subúrbios do outro lado da cidade e arrendara o bar do apeadeiro. Como o trabalho lhe exigia a abertura ao primeiro comboio da manhã e os transportes urbanos não o serviam para aquela hora, optara por um quarto na proximidade.
A minha amizade com o Luís nunca passou além duns charros e do quarto. Também nunca se envolveu na vida da casa. Era um rapaz pobre, sem estudos, sem conversas por aí além. Quando a máquina de café avariou, deixou de abrir cedo o bar, dizia que o lucro estava na bica e que, sem ela, não valia a pena abrir a persiana.
Duas ou três vezes convidou-me a ir até ao bar fazer-lhe companhia, aprendi a tirar imperial e café, aprendi a aviar. Quando fechávamos o tasco já estávamos bem aviados e partíamos para outros tascos, sempre a partir.
Dona Graça conhecia o cheiro, ou não fosse nascida e criada em Lourenço Marques. Entrou no quarto, fungou o nariz e desatou:
- Em minha casa não! Suruma não!
A autoridade de dona da casa e mulher de muitas armas estatelou Luís e deixou-me sem jeito. Enquanto ordenava ao fumador o arrumar de malas, deixava umas deixas de desculpas, a mim, nobre estudante, por me ter arranjado um companheiro depravado.
Embora incomodado com a cena, agradou-me o facto da cama do lado voltar a estar livre.
Voltaria a encontrar Luís quando ia à baixa, com um banco e uma pequena mesa, profissionalmente a plastificar cartões de documentos. Os meus acompanhantes ficavam sempre muito intrigados quando se confrontavam com a minha amizade com um plastificador de cartões.
Quando regressei das férias grandes a casa andava sorumbática. Gina e Tânia tinham chumbado, Virgolino não dava sinais de si e dona Graça fartava-se de trabalhar para manter a casa farta. Dona Graça bem me aconselhara a arranjar um colega para partilhar o quarto, caso contrário teria de arranjar ela um novo hóspede que poderia não ser do meu agrado. Cheguei a andar com um anúncio, na minha pasta de estudante, com os dizeres “Procura-se companheiro de quarto” mas só apareceram candidatos do sexo oposto o que, nas circunstâncias, não seria possível. Uma coisa era certa, ela precisava de mais uma renda para equilibrar o orçamento!
Uma noite cheguei tarde de noitada com uns amigos e as mulheres da casa já estavam na cama. Quando entrei no quarto, surpreendeu-me um intenso cheiro no ar, um vulto dormitando na cama do lado e um saco com umas roupas à entrada. Acordou e trocámos boas noites. Era o novo hóspede, um rapaz com meia dúzia de anos a mais que eu, com barba de três dias, sem sorrisos mas sem antipatias e, seguramente, com cara de quem não era estudante nem operário.
Puxou meio corpo para fora das mantas, ajeitou o travesseiro atrás das costas e ficou sentado ao cimo da cama enquanto eu, como mais velho no aposento, ditava partilhas de roupeiro e hábitos meus. Ele, com a cabeça acenava concordâncias enquanto enrolava uma mortalha. Quando acendeu o isqueiro e deu a primeira passa o cheiro a erva denunciou-o logo.
- Queres dar uma passa?
Acedi à oferta, reconhecendo nessa partilha o gesto necessário de quem sabe que, para se empreenderem certos relacionamentos, devem existir actos simbólicos. O boi bateu o suficiente para estarmos para ali, cada qual na sua cama, a falar por uma hora. Luís era dos subúrbios do outro lado da cidade e arrendara o bar do apeadeiro. Como o trabalho lhe exigia a abertura ao primeiro comboio da manhã e os transportes urbanos não o serviam para aquela hora, optara por um quarto na proximidade.
A minha amizade com o Luís nunca passou além duns charros e do quarto. Também nunca se envolveu na vida da casa. Era um rapaz pobre, sem estudos, sem conversas por aí além. Quando a máquina de café avariou, deixou de abrir cedo o bar, dizia que o lucro estava na bica e que, sem ela, não valia a pena abrir a persiana.
Duas ou três vezes convidou-me a ir até ao bar fazer-lhe companhia, aprendi a tirar imperial e café, aprendi a aviar. Quando fechávamos o tasco já estávamos bem aviados e partíamos para outros tascos, sempre a partir.
Dona Graça conhecia o cheiro, ou não fosse nascida e criada em Lourenço Marques. Entrou no quarto, fungou o nariz e desatou:
- Em minha casa não! Suruma não!
A autoridade de dona da casa e mulher de muitas armas estatelou Luís e deixou-me sem jeito. Enquanto ordenava ao fumador o arrumar de malas, deixava umas deixas de desculpas, a mim, nobre estudante, por me ter arranjado um companheiro depravado.
Embora incomodado com a cena, agradou-me o facto da cama do lado voltar a estar livre.
Voltaria a encontrar Luís quando ia à baixa, com um banco e uma pequena mesa, profissionalmente a plastificar cartões de documentos. Os meus acompanhantes ficavam sempre muito intrigados quando se confrontavam com a minha amizade com um plastificador de cartões.
(Na próxima quarta há mais Quarto)
sábado, 26 de novembro de 2011
O meu problema maior é o frigorífico
Sei que vou ser pobre. Estou preparado, já o fui. Não preciso de grandes coisas. Só do básico. De comida e companheiros. Quando eu tinha poucos anos o meu pai regressou de França, não suportava não viver em família. Os meus tios de sangue e os tios de vizinhança continuaram por lá. Os meus primos e a outra putalhada tinham bicicleta, aquecedor eléctrico, lápis caran d’ache, luzes no presépio, calça de bombazina mas não tinham pai nem tantos irmãos – porque o meu pai, como dormia todas as noites com a minha mãe...!
O meu trabalho dos próximos tempos vai ser preparar os meus filhos, que nunca foram pobres, para o que aí vem! Não quero que emigrem! Só tenho uma vida, quero-a viver com eles! Quero-os fazer perceber que um governo que aconselha os nossos jovens a emigrar, não é um governo de uma nação, é o governo de uma coutada! Quero que queiram lutar cá!...
Nos próximos anos, quando já não houver salários e serviços para cortar, quando não for possível escravizar mais ou despedir para sustentar a classe governante, as suas clientelas, os seus escudos policiais e os seus cobradores de impostos, vai ser necessário cobrar mais impostos até chegar ao ponto de nós, pobres contribuintes, termos de escolher entre pagar impostos ou comer.
Nessa altura, eles irão seguir o que há pouco tempo se passou a fazer na Grécia: os impostos serão colectáveis através da factura de electricidade. Quem não pagar fica sem energia eléctrica para o frigorífico.
Em 1975, um primo meu em missão militar em Moçambique, teve a oportunidade daí recolher e despachar um conjunto de electrodomésticos e mobília, abandonado por portugueses em fuga. Distribuiu o espólio pela família e à nossa casa coube um frigorífico e três divãs. Deixámos, nós irmãos, de dormir aos pares e mudaram os hábitos alimentares em casa.
A televisão só viria mais tarde por ser indispensável à frequência do meu ano propedêutico, contra vontade do meu pai, que tinha muito orgulho em mim por ser o único da aldeia com vontades para estudar mas que não aceitava que a televisão pudesse substituir os professores.
Ora eu, que ainda não dei um passo para adaptar o meu televisor à televisão digital terrestre porque me estou nas tintas para que me cortem o sinal; eu, cujo rendimento está vulnerável aos desmandos dum governo, feito para governar para outras classes, às troikas e outras agências do capitalismo mundial; eu, que tenho casa para dormir, curral para porcos e quintal para couves – e, por isso, exposto a impostos sobre a propriedade - declaro solenemente que estou preparado para tudo, menos para ficar sem o meu frigorífico que me guarda a carne de porco e as bebidas frescas.
Se me vierem a cortar a electricidade, talvez eu faça uma sociedade com o vizinho. Fazemos uma ligação da casa dele à minha, ele paga a factura e eu dou-lhe couves e chouriço. Talvez então, com outros como eu e como ele, nós comecemos a fazer um mundo à parte, fora da lei, sem euros, mas felizes como o meu pai e a minha mãe que nunca tiveram dinheiro mas dormiam juntos e trocavam haveres com os vizinhos. Talvez comece a haver outra forma de viver, talvez comece a acontecer uma sociedade socialista dentro desta e esta acabe de uma vez por todas. Não quero este governo, não quero este caminho. Se tenho de voltar a ser pobre que seja para mudar!
(que isto não seja entendido como resignação: eu fiz greve!)
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Poema à greve
Dedico este poema, de Augusto Campos, a uma mosca anónima que me andou, todo o Grande Dia de ontem, a rodear a pocilga:
E olhe, vou-lhe confessar uma coisa: ontem fiz greve porque não me apeteceu blogar e como, dizem, não faço nada nem escrevo nada de jeito, juntei as duas e fui fazer amor! E depois, no estado em que o país está, em que a maioria das coisas dá prejuízo a funcionar, se pararem em greve, só estão a ajudar a equilibrar as contas. Imagine a energia eléctrica que não se poupou com a greve desta pocilga! Primeiro em minha casa e depois, nos lares e empregos dos inúmeros leitores! Mas a senhora, em vez de estar trabalhar no seu, andou todo o grande dia a rondar os blogues que fizeram greve ! E não me venha dizer que estou a ser demagogo! Eu estou a ser porco!
Um abraço ansioso por uma nova greve para não trabalhar e a ajudar a equilibrar as putas das contas
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
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