A casa mãe da artilharia portuguesa, reside num palácio do século XVII, construído para uma pernoita de troca de rainhas com Espanha e viria a ser a embrião da agora cidade de Vendas Novas. Foi lá, que ao longo de 17 longos meses, cumpri o Serviço Militar Obrigatório. Voltei lá há uns tempos, cumpridos muitos anos de “reserva”, para um encontro de antigos camaradas ou muito mais que isso de um núcleo de Amigos.
O tempo pode ter passado por nós mas não passou a forma de nos entendermos nem tão pouco o “tu cá tu lá” desses idos anos oitenta. O que me tocou mais foi a inércia dos espaços, as mesmas portas, as mesmas cores, o mesmo cheiro. De então para cá, do lado humano, foi tal a volta, que já não existem soldados de Portimão, de Bragança e de Leiria, já ninguém se apresenta a fim de receber o seu pré, já ninguém se encharca na aguardente dos não sei quantos bares. Os militares são sobretudo mulheres.
Todo o lado humano foi profundamente alterado e reduzido mas o quartel continua lá, à espera duma guerra que nunca mais acontece, a servir um país que simplesmente o ignora e que nem sequer sabe distinguir infantaria de artilharia.
Eram os tempos de revolta e incompreensão em que eu era contra o SMO e escrevi isto:Aqueles soldados que ali vão marchando,
são artilheiros.
O símbolo da paz é, pomba!...
Os caçadores dizem: pombos!!...
Eu digo: irra que é burro!...
Brado às armas – por certo acordaste a noite de ontem
- distâncias não matam ideias!...
O comandante da unidade é um sucesso!...
Eu sou um fracasso!...Passo...
Passa. Raça. Pátria.
Passo a palavra e acerto o passo.
Aqui no aquémtejo, toda a tristeza é árida,
diferente dos olhos húmidos que conheço...
Daqueles soldados que ali vão marchando,
eu sou um deles.
Eles gostam tanto de mim
que me apertam
a mão
quando eu preciso.
Preciso sempre...
De Agosto nada quero, é vosso!
Eu e aqueles soldados que ali vão marchando
queremos ir embora.
Estamos inocentes.
Daqueles soldados que ali vão marchando,
eu sou um deles,
o mais igual aos outros, o mais subtil, o mais pacato.
E digo mais,
um homem sem esperança é um animal,
um homem sem sonho é um macaco
e eu sou um homem
que vai ali marchando
em Agosto de 1986, em Vendas Novas
















