domingo, 26 de fevereiro de 2017

Mural do casamento guei


Arnaldo Matos tinha a barriga grande, o bigode farto, a trunfa a dever três cortes e o seu nome estava gravado numa placa de chapa de matrícula, exibida na parte interior do para brisas. Era, portanto, um camionista. Aliviou a ansiedade, a tensão, a tesão numa casa de luz vermelha e não se contentou com uma. Fez-se à estrada cansado na sua Scania e o cansaço ajeitou uma curva para fora de mão. Eram três da manhã, despertou, assustou-se, pareceu-lhe ver uns faróis na direção contrária,  ziguezagueou e continuou.

Jorge Coelho tinha a barriga grande, um fato clássico, um relógio de ouro e um Mercedes cinzento. Era construtor e regressava a casa, de noite alongada, não se podendo afirmar se vinha dum jantar com clientes se duma reunião com engenheiros ou duma casa de luz vermelha. Aconteceu a tragédia, ponto final, funeral! O cansaço, um pneu, um coelho, um camião fora de mão, uma distração. Embateu mortalmente contra um mural de motivação revolucionária.

Maria Luís tinha os dias muito ocupados: o café da manhã, as compras do dia, as camas e o almoço, o café do meio dia e o chá da tarde, a cabeleireira e a lida da casa e o cuidar da filha. Sim, porque o somítico do marido nunca permitiria que a esposa doméstica exigisse uma doméstica assalariada para limpar o pó e dar banho ao cão e à criança. E, dum momento para o outro, ficou viúva.

Assunção Esteves nunca fez outra coisa na vida senão trabalhar. Ou melhor, uma vez, num fim de baile, enrolou-se atrás duns arbustos com um rapaz forte e bem parecido que lhe assegurou andar a tirar a carta de pesados. Aquilo foi só um cheirinho mas ficou mãe-solteira.

 A mãe de Ana, quando se viu livre do marido finado num acidente automóvel, em circunstâncias nunca explicadas, aproveitou o seguro de vida e a boa situação financeira que ele lhe deixou para gozar a vida e começou por contratar uma criada de servir.

A mãe de Mariana, a braços com uma filha sem pai, amiga do trabalho e de ganhar dinheiro, não se fez rogada quando lhe apareceu à porta um emprego para criada de servir duma viúva bem abonada.

Ana e Mariana cresceram e brincaram juntas, desatentas das suas diferenças sociais e mutuamente carinhosas, com mães que não ligavam a homens, escaldadas para o fim para que estes se julgavam criados, para se servirem das mulheres.

Os anos passaram-se e, um dia, Ana, já formada em advocacia, disse à mãe:
- Mãe, vou casar!...
- Com quem Ana, pois se eu não te conheço homem?
- Com Mariana.
Maria Luís, conservadora por educação, já tinha, no entanto, visto muitas telenovelas para pensar modernamente e mastigar a surpresa a ponto de a poder vencer e de encarar com naturalidade as provocações encapuzadas que lhe iriam aparecer no salão da cabeleireira.

Também Mariana, já formada em sociologia, disse à mãe:
- Mãe, vou casar!...
- Com quem Mariana, pois se eu não te conheço homem?
- Com Ana.
Assunção Esteves, queimada muito jovem por entusiasmos da flor da idade, não compreendendo da memória dos seus calores como duas fêmeas se haveriam de desenrascar, engoliu a surpresa aliviada pelo conhecimento próprio de saber que a futura nora ou o genro, ou o diabo que fosse, tinha herança sobeja.

Teria a história murchado por aqui, e não nos faltam coincidências e ideias para admitir que já está por aqui sémen e óvulo suficiente para o embrião do enredo duma telenovela, se dos valores do autor não se exigisse mais, se não tivesse sempre uma razão mais profunda, mais casuística, quando o autor faz o tratamento duma ideia.

E disse Maria Luís a Assunção Esteves na presença das duas moças:
- Pois agora, já que as nossas filhas se vão unir perante Deus, ou o Diabo, posso dispensar os teus serviços de assalariada. Bem sabes que advogada ou socióloga não são ofícios que, hoje em dia, deêm para comprar leite. Eu contribuirei com a minha parte para o sustento das nubentes e tu, fazendo o que sempre fizeste nesta casa, darás a tua parte sem receberes salário.

E respondeu Assunção Esteves a Maria Luís na presença das duas moças:
- Saiba, senhora, que todo o trabalho que lhe vendi teve como fim o dia em que a minha filha se casasse. Não servirei mais.  Chegou a minha hora de ter uma criada de servir e de viver em paz na minha casa. E não pense que a minha criada me exigirá salário! Serei eu própria, serva de mim mesmo.

Refletindo sobre o texto presente, poderemos concluir que a incontinência sexual dum camionista ou um mural revolucionário, podem determinar o destino de outras pessoas sem que estas tenham conhecimento disso. Alerta-se também para a injustiça que quase todos cometeram até certa altura do texto, ao desconsiderar o autor - afinal, neste caso "mural" é com "u". E depois são as coincidências, as tais que dão cor às histórias reais ou não, as vidas que se cruzam nas estradas e nas casas asseadas, os nomes comuns coincidentes com o de figuras incomuns. 

Mural da história, aceita a morte e a vida como ela é mas nunca permitas que brinquem com o teu salário, nem brinques com porcos nem com morais e, lembra-te sempre: um mural revolucionário pode vir a determinar um casamento.

Notas do autor: sou contra o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo e de sexo diferente também; nem Ana nem Mariana tinham o apelido Mortágua.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Desabafo dum professor


Faço projectos, planos, planificações;
Sou membro de assembleias, conselhos, reuniões;
Escrevo actas, relatórios e relações;
Faço inventários, requerimentos e requisições;
Escrevo actas, faço contactos e comunicações;
Consulto ordens de serviço, circulares, normativos e legislações;
Preencho impressos, grelhas, fichas e observações;
Faço regimentos, regulamentos, projectos, planos, planificações;
Faço cópias de tudo, dossiers, arquivos e encadernações;
Participo em actividades, eventos, festividades e acções;
Faço balanços, balancetes e tiro conclusões;
Apresento, relato, critico e envolvo-me em auto-avaliações;
Defino estratégias, critérios, objectivos e consecuções;
Leio, corrijo, aprovo, releio múltiplas redacções;
Informo-me, investigo, estudo, frequento formações;
Redijo ordens, participações e autorizações;
Lavro actas, escrevo, participo em reuniões;
E mais actas, planos, projectos e avaliações;
E reuniões e reuniões e mais reuniões!...
E depois ouço,
alunos, pais, coordenadores, directores, inspectores,
observadores, secretários de estado, o ministro
e, como se não bastasse, outros professores,
e o ministro!...
Elaboro, verifico, analiso, avalio, aprovo;
Assino, rubrico, sumario, sintetizo, informo;
Averiguo, estudo, consulto, concluo,
Coisas curriculares, disciplinares, departamentais,
Educativas, pedagógicas, comportamentais,
De comunidade, de grupo, de turma, individuais,
Particulares, sigilosas, públicas, gerais,
Internas, externas, locais, nacionais,
Anuais, mensais, semanais, diárias e ainda querem mais?
- Que eu dê aulas!?...

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Carta de amor e de eutanásia

Amélia,

Espero que esta carta te vá encontrar de saúde que por cá a guerra não deixa que te dê boas notícias.

Estranharás a falta da palavra "querida" antes do teu nome mas reconhecerás certamente a caligrafia. Sou o Janardo, o amigo a quem o teu Bernardo tem ditado todas as cartas de amor que tens recebido.  Sei que também tu és uma analfabeta e peço, por isso, à interposta pessoa que faça guarda do que te vou contar e que, tal como eu sempre faço, tenha com este serviço uma fidelidade inabalável ao dito e ao lido e um voto de segredo tão sagrado como o dum padre confessor.

Bem sabes, das missivas passadas, como é a vida da tropa no inverno das trincheiras mas o Bernardo nunca te disse que, por vezes, as ânsias de sair da podridão são tantas que recebemos com alívio as ordens para uma missão de reconhecimento nas hostes ou mesmo para fazer um avanço com fogo sobre as suas linhas. No passado dia 10 de Fevereiro, eu, o Bernardo e mais dois camaradas partimos, destemidos, para uma dessas arriscadas incursões. Os boches atacaram-nos, os outros dois caíram que nem tordos, o Bernardo ficou desfeito e moribundo mas ainda com vida para me fazer um último pedido.

Eu não fiz nada que não se tenha sempre feito desde que há guerras. Também o rei Saúl, ferido pelos soldados filisteus, ordenou ao seu escudeiro que o trespassasse com a espada. Sei que há bíblias que contam que o próprio Cristo não morreu na cruz mas horas depois, por ordem piedosa de Pôncio ao centurião Longinus que foi ao Calvário e o golpeou para pôr fim à Sua agonia.  Enfim, de golpes do punhal-misericórdia está a História cheia e, se as cegas leis da Igreja ou da República não podem ver o amor com que se pode salvar um mortalmente ferido do sofrimento atroz, a luz de Deus me há-de acolher por tão heróico gesto. Se por acaso assim não for, que o inferno me tenha, que pelo menos lá não passarei o frio da Flandres. 

Amélia, somente a ti devo esta confissão. Li todas as tuas cartas para o Bernardo, escrevi todas as cartas do Bernardo para ti e de tanto ele me contar da sua amada, passei também a desejar uma mulher assim. A morte e o sofrimento nunca deveriam andar juntos mas, se assim tem de ser, que cumpramos os desejos de quem parte. Antes do estertor do nosso amigo, dias antes, no clamor da guerra, ele havia-me feito o seu penúltimo pedido: que se por acaso esta merda - ele disse mesmo, merda - o levasse desta para melhor, conhecendo-me homem de carácter igual ao seu, que eu lhe tomasse o lugar no amor perante ti. Que acto grande este, Amélia, que a igual grandeza nos obriga!

Pode-te ser difícil aceitares-me mas vou dar-te prova de como estou comprometido a resolver o triângulo amoroso: se por acaso quiseres guardar a virgindade, o que eu não acredito, para a levares até aos céus ao Bernardo, para graça do Espírito Santo estou disposto a ser meio José, o carpinteiro e na outra metade, a desenrascar-me como nas licenças aprendemos por aqui, eu e o Bernardo, com mulheres que procurem satisfação, meretrizes ou até mesmo com a mão.

Se me deres tampa, sabe que não terei qualquer remorso, como não tenho daquele tiro que foi, provavelmente, o mais certo que nesta guerra dei. 

Por fim, se hás-de aceitar, que não peças a Deus que eu não regresse à pátria, viril e inteiro, porque se tal vier a acontecer, que morra então. Se não tiver mãos para o fazer, hei-de pedir a alguém, valentes como eu não faltam nesta frente.

Agora sim, Querida
Amélia
Beijinhos do Janardo, basta quereres, teu.


Sou neto de avó solteira e o meu avô Janardo, que andou na guerra de 14, deixou-nos esta carta maravilhosa. Curiosamente, passados alguns anos, ele, que não morreu na guerra, também morreu.


Do espólio do meu avô também
(só faltava que o nome da mula fosse Amélia)

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Trump chega a Portugal numa manhã de nevoeiro


Trata-se de uma festa familiar de classe média cuja razão agora não interessa nada.

Os dois que estão em idade escolar divertem-se com um videojogo de guerra onde "vestem a farda" Delta Force num cenário nova-iorquino. 
Os dois que estão na idade liceal, um vê no tablet uma série policial passada em Los Angels e o outro delicia-se com um reality show da TV Las Vegas.
Os dois que são universitários entretêm-se mostrando um ao outro os telemóveis, com umas novas aplicações made in USA e que, estão convencidos, vão revolucionar a revolução digital.

Estes jovens são filhos de três casais, em cada um dos quais há um dos três filhos dos avós, dois homens e uma mulher e, dentro da normalidade, as duas noras e o genro. 
Porque se trata de novas gerações, os seis jovens não se separam por sexo, o mesmo não se dirá dos adultos.
As mulheres estão na cozinha, a ver na TV um talk show americano que, segundo uma, chegará rapidamente a Portugal. Excepto a avó que anda de volta dos netos a perguntar se querem coca cola e se gostaram do almoço - se não gostaram da próxima vez leva-os ao Mac Donald´s.

Os homens estão a partilhar um whiskey Jim Beam pós refeição. Excepto o avô que está sem poiso certo vagueando pela casa, parando junto das crianças a procurar atenção e tentando convencê-los para o pião, junto dos adolescentes para procurar carinho e desafiando-os para um dominó, junto dos universitários para tentar entender e recomendando-lhes uma leitura. Passa pela cozinha e mostra falsa curiosidade pelo que vêem. Vai à varanda e pergunta se não querem antes um tinto alentejano e manifesta claro desprezo pela conversa.

O genro é oficial de infantaria - ela casou bem - e fala da sua aventura no Afeganistão dando razões à intervenção americana e à NATO e elogios às armas e ao treino que eles têm. Ninguém o contradiz. Muda a conversa e o filho mais velho, que é bancário, explica a crise financeira e a inevitabilidade de adoptarmos o modelo capitalista americano. Ninguém o contradiz. Muda-se o disco e o mais novo, que é pequeno empresário, dá vivas às leis laborais da América e assegura que ficaremos na cepa torta enquanto não se acabar com os sindicatos. Ninguém o contradiz. Fechada a conversa, dirigem-se à sala e perguntam aos filhos se não querem antes ver um filme de índios e cowboys como nos bons velhos tempos. 

Todos dão pela falta do avô, procuram-no, encontram-no. Está na casa de banho a limpar o rabo a um boné que tem a bandeira americana estampada e as iniciais USA. Pergunta-se, de quem é o boné? Pode ser de todos, dele é que não é!
A avó invoca o Santo Nome de Deus em vão tal como os americanos fazem continuamente.

Poder-se-ia dizer, o velho enlouqueceu de vez. Provou-se que não quando ele disse para a família que se juntou atrás da avó, à porta da retrete:
- Ainda terei lucidez quando um dias destes assistir à eleição, com o vosso voto, dum Trump à portuguesa! Infelizmente ainda lúcido e felizmente mais que vós. 


domingo, 29 de janeiro de 2017

Texto para a gaveta


Escrever assim, como um homem que caminha sem destino; escrever só por escrever, como um homem que caminha só por gostar de andar mas que sabe que a algum lado há-de ir parar; não escrever coisa com coisa como dizem com "dizer"; escrever como a viúva que monda a vinha sabendo que os filhos só bebem cerveja. 

Talvez na curva dum parágrafo apareça uma ideia a desenvolver, uma história que contribua para fazer mais humana a humanidade. Talvez fosse mais proveitoso ler em vez de escrever, com o conhecimento de que o conhecimento só vale alguma coisa se for para mudar o mundo. Lugar comum dizer-se, que todas as palavras já foram escritas - ou foi o Almada Negreiros? - só falta dizer-se que também os livros já fazem algazarras. 

Escrever só por escrever também não tem sentido. Mas que hei-de fazer então? Os livros novos repetem as ideias e os ideais dos que já foram lidos. 
Em janeiro, na fazenda, não há nada para fazer, ainda é cedo para a poda, o gado está tratado; não vou à igreja e não gosto de futebol; já acendi a lareira; na televisão, uma série americana de fraca qualidade, um programa da tarde, de fraca qualidade, ao vivo numa cidade da província; uma mesa de esnobes conversa sabiamente das consequências da tomada de posse do novo presidente da América, sem nunca falar de índios; tal como quase toda a gente que lê por gosto, já não leio jornais; que coisa esta o tédio de domingo, ao menos que eu pudesse comer e beber uns copos mas o doutor...; ao menos que existissem por aqui pequenos para jogarmos à sardinha - era o único jogo que o meu pai jogava comigo.

Provado, portanto, que estamos perante um texto para enfiar na gaveta; um texto de escrever só por escrever para dizer nada; um texto a não ler; mas olhem que não é só para passar o tempo que o tempo sempre passa, digamos que é uma tentativa gorada de escrever alguma coisa que alguém tivesse gosto em ler. Já sei, vou fazer companhia ao gato a olhar as chamas da lareira.
- Olha, é o melhor que fazes! - disse o eventual leitor apanhado que nem um rato na discorrência da presente prosa.

Peço desculpa mas, quando comecei a escrever, tinha esperanças que algo de novo, alguma ideia, alguma fantasia me tocasse e alguma coisa interessante me assaltasse. Tenho de reconhecer que me perdi, um dia destes hei-de encontrar-me.

Para terminar peço à Nossa Senhora de Fátima que mantenha o Passos Coelho muitos anos à frente do PSD. Lembrei-me também doutra: para muita gente o pluripartidarismo é o melhor sistema desde que os partidos sejam todos iguais, mesmo que passem a vida a queixar-se disso mesmo. Se na TSU, o U é de única, só uma é pouco, devia criar-se outra, a TESA, Taxa Económica Social Absoluta.
Eu até tenho ideias, não são é valiosas. 

sábado, 21 de janeiro de 2017

Hei-de morrer

Estou a escrever
Para dizer que vou morrer
Ainda há-de haver
Em nome de Deus virgens a explodir em Telavive
Em nome da América soldados gordos a morrer em Kandahar
E em meu nome homens que não me conhecem a falar

Estou a escrever
Porque irei morrer
Ainda há-de haver
Crianças a morrer de fome em Mogadíscio
E um menino chamado Aparício
Assassinado em Janeiro no Rio

Caramba irei morrer
De frio a escrever
E ainda há-de haver
Um Portugal pobre e amordaçado
E um povo orgulhoso de lhe chamarem zé

É hei-de morrer
A escrever a mesma coisa
Com outros confortáveis blogueres de T3
Conformado por ter passado a minha vez
De despir e ter nua a verdade à minha frente
Entre operários que desceram a rua que era para subir

É hei-de morrer a rir
De mim e qualquer coisa
Hei-de partir a loiça a definhar
Com o Sol todos os dias a pôr-se e a nascer
Com a Lua aluada a crescer e a minguar
E por cá a Terra a rodar em voltas sempre iguais

Ah hei-de morrer
Se não morresse era demais
A ver as gerações passarem em mutação
E os pobres desgraçados humilhados
Sempre à espera duma tal revolução
Que sempre é vencida

Escrevam da vida escritores de secretária
Cantem o amor cantores de luminária
Que hei-de morrer a ouvi-los escrever e a cantar
Sem nunca pegarem numa palavra a atirar
Forte nos dentes dos párias que demandam
Às castas baixas o vinho sem papéis
Andam para aí uns que se dizem democratas
Abatam-nos são mentirosos e ranhosos

Hei-de morrer de baba e ranho
Num futuro igual a antanho e a dormir
Com a América Latina a sonhar
Com a Europa em obras
Com Putin entre ursas
Com Trump entre vacas
Com uma dor do caraças a moer-me o juízo

Ai a vida é desesperançada sei
Porque não há decreto que mude este mundo e este país
Não quero ter esperança nem medo
Quero, quis, quererei

Hei-de morrer
E se eu morrer de dia a seguir haverá uma noite
E se eu morrer de noite a seguir haverá um dia
E quer seja de noite ou de dia haverá uma madrugada
Em que depois se irá lutar
E depois de se lutar haverá dia ou nada
E depois da noite haverá luto ou alvorada

Olha se eu morresse
Ainda gostava de viver o que acontece
Talvez depois de eu morrer por escárnio
Alguém invente a paz o amor e a democracia

sábado, 14 de janeiro de 2017

Deprimido mas... avante!

Estou num estado de depressão pós-parto,
pari um rato,
sou uma montanha.

Subam-me nem que sejam só para aquecer,
passeiem por mim já, que comer-me a mim? não podem,
vão-me ao cume, nem que seja só para me descer,
mas não esqueçam que há montanhas que se movem.

Já rato feito nasceu o rato nado,
o safado há-de safar-se sem a mão da parideira,
o que não quer dizer que não seja envenenado
ou apanhado na primeira ratoeira.

Pari um rato e então? Há problema? Pari coisa pequena.
Sou grande, sou uma montanha, ninguém me pode abraçar?
Também ninguém me pode ter na mão! Azar o vosso!
De escrever isto já me passou a depressão!
Posso passar à frente, adiante, avante.

Foram apenas umas linhas com uns sentimentos de adolescente,
ou mais umas rimas, como a presente, a de ter visto este filme
e ficar contente:


domingo, 8 de janeiro de 2017

Nem uma palavra

Tinha-me comprometido, depois de ter escrito a "crónica duma morte anunciada" a não abrir a boca nem para uma palavra. Contudo, farto de ouvir a expressão "pai da democracia" não me contenho.
Pai da democracia? Então a democracia tem pai? Se tem pai tem de ter mãe! Quem é a mãe então? A Nossa Senhora de Fátima?

O pronunciamento dessa paternidade encerra, por si só, um conceito muito reduzido do que é ou deve ser a democracia. A democracia nasce do povo e vive do povo.


Pai da democracia!... Pai da democracia!... Pai da democracia!... Mas porquê?!....

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Crónica duma morte anunciada


Isto não é bem como um nascimento que se sabe mais dia menos dia acontecerá, isto não é bem como o Revirão em que a ansiedade explode na hora marcada,  isto não é bem como a notícia duma vitória eleitoral que as sondagens anteriormente asseguraram.

Um homem incomum, com alguma idade, está muito doente, dizem.

As televisões já têm em cima da mesa as peças montadas com as imagens de arquivo, os locutores já gravaram as verdades encomendadas, já estão convidados os comentadores para dizerem de sua justiça, já estão de piquete, com a lista de individualidades de entrevista obrigatória, os operadores que irão fazer os diretos, já se espera a gaboralice dos que fizerem o anúncio em primeira mão que distarão dos concorrentes por um unha negra.

Os jornais já têm pronta a primeira página do dia esperado e colunas escritas com antecedência, textos com espaços em branco para completar com dados clínicos, pormenores do velório, itinerário do cortejo e lugares para as fotos com legendas dos nomes de gente que de certeza vai aparecer.

A necrofilia dos media em todo o seu esplendor.

E no facebook e nos blogues é que vai ser!!! Ocasião maior para o exercício do jornalismo doméstico, para a exibição de sentimentos à altura, para o cultivo de raivas passadas, para o humor negro de anónimos e até para os foguetes de indigentes energúmenos.

É para não fazer esse papel que eu escrevo antecipadamente, agora, com todo o cuidado, incluindo o de não referir o nome do homem que, não sendo homem dos meus círculos, a sua vida ou a sua morte me merecem a mesma consideração do que as de qualquer homem comum. De qualquer forma será sempre um momento triste, pelo menos um triste espetáculo mediático já começou.

Se para Alexandre O Grande para quem não bastou o mundo, bastou um túmulo, para este que se insinua deveria bastar uma morte e não que fosse morto tantos dias.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Um bom ano é o quê?



Um presidente da república, um chefe de governo, um rei, tem por dever, obrigação e tradição o hábito de se fazer às mensagens de natal e ano novo. Também eu, monarca auto-coroado, direi de meu enfado.

Desejo a todos um bom ano, por isso, poupem-me o latim e não me exijam todos os dias os bons dias. Desejo que todas as portas a todos se abram, leiam se dizem "puxe" ou "empurre" e ajam em conformidade, desprezem as de abertura automática. Desejo que encontrem tudo aquilo que procuram, seja nos corações, na carteira ou no google.

Passem um bom revirão e não deixem de beber por conduzir, são tudo tretas! Ouvi hoje um GNR dizer que um em cada três condutores acidentados acusa álcool, para concluir que o consumo de bebidas alcoólicas está relacionado com os acidentes. Ora que eu saiba um é menor que dois o que, alinhando nessa relação a lógica, seria de concluir exactamente o contrário. Se um dia se lembrassem de associar a condução à cor dos olhos chegariam por certo à conclusão que a maioria dos acidentes se dá com pessoas de olhos castanhos?

Esta reflexão serve apenas para desejar que no novo ano não sejamos mais azucrinados com números e estatísticas parvas, da saúde ao bem estar, do trabalho à economia, da fornicação à onania.

Um bom ano é o quê?

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Esgotado o livro dos bácoros - obrigado!

É com enorme satisfação, ou imensa pena, que informo que "o bácoro que me persegue" está esgotado.


A todos os que contribuíram para isso, um obrigado. Foram mais de três meses de expediente, com idas aos correios, com entregas pessoais, de contabilidade doméstica afinada, entre expedidos, vendidos, distribuídos, oferecidos e até trocas, lá se foram todos e, por distração, quase eu ia ficando sem nenhum.

Sinceramente não esperava. Até porque não era esse o objetivo primeiro - esgotar a tiragem. Picado por próximos, decidi-me a ele um dia, papel é papel, livro é livro e, se memória futura se deseja, tenho medo que um dia os discos magnéticos, a nuvem ou o próprio blogger, sejam atacados por uma doença informática e, dum momento para outro, horas de devaneios de escrita se evaporem na atmosfera caótica da sociedade da informação.

Sabia de antemão que não seria de esperar que a fidalguia da corte, profunda conhecedora das prosas do monarca, se interessasse por aí além, que santos da casa, gordos de curiosidade, passassem pelos buracos das fechaduras, que leitores do José Rodrigues dos Santos ou do Nicholas Sparks, gente de facebooks mas não de blogues, se dessem ao trabalho de adquirir um livro de bacoradas.

Sabia também que de autores menores, as editoras não procuram os ganhos com as vendas, que serão sempre escassas em linha com a discrição da divulgação, mas usurpam o necessário lucro do bolso do próprio autor.

Sabia ainda que o que escrevo, que procuro sempre num verbo que cative quem pouco lê (quem muito lê tem mais que ler), não é nada que mereça ser de banca; que o vernáculo brejeiro e a impudência podem desagradar a culturas mais sensíveis; que o amadorismo popular aprisiona a ficção ao autobiográfico e que a autobiografia só se tolera depois da fama.

Por fim, teimoso no que é meu, avesso à exposição pública, por idiossincrasia, temeroso à microfonia, teimei que o livro só circularia em comércio clandestino ou na candonga.
E pronto, está esgotado, prometo que não falarei mais do dito que já muito ego revelei aqui por o ditar, deixo-vos apenas com três histórias que com ele se fizeram acontecer.

Da primeira vez a senhora dos correios nada estranhou, lá para a terceira ou quarta, começou a habituar-se mas, como as entregas se começassem a repetir e alguns vales de correio a levassem a perceber que se tratava de negócio, um dia, ao deparar-se com mais um despacho, largou-se com um comentário:
- Está a vender bem ao que parece!
- Desculpe, não percebi!
- O livro, só pode ser um livro que anda a vender!
- Ah! Mais ou menos! - disse eu sorrindo.
- Sabe, há pacotes que denunciam o conteúdo mas mesmo assim nos aguçam a curiosidade.
Abri a pasta e perguntei-lhe:
- Quer um? Ofereço-lho!
- Muito obrigada por me matar a curiosidade.

O meu amigo Lúcio Mouco vende velharias na feira e conhece-me por eu lhe perguntar o preço de quase tudo e não lhe comprar quase nada. Vende torneiras avariadas, lavatórios rotos, louça rachada, puxadores ferrugentos, santos partidos, vinis riscados, vende tudo, até livros velhos. Propus-lhe então, ao meu alfarrabista, a venda pública e exclusiva dum exemplar. Ele aprontou-se. É simples, rasga-se a página que tem o ano, amarrota-se um pouco, massaja-se em farinha para lhe dar pó e, como tudo, pode dar venda. E vendeu o primeiro e o segundo, julgo, ainda por lá anda entre outros no caixote da especialidade.

Não esperava que quem já me conhecesse do que escrevo me fizesse apreciações elogiosas à obra de autor de livro único ou que desconhecidos me mandassem mensagens para expressar particular agrado pelo que leram. Não tive observações especiais ao seu conteúdo mas tive ao objeto, à capa e até ao tipo de papel. Também houve um que se descaiu e largou-se  com a dita "hoje em dia qualquer um já escreve um livro". Arreliado com estas reações? Não! Acho normais, como conhecedor maior do meu papel, do meu lugar e dimensão! ...
Mas o comentário mais excêntrico, foi dum amigo, que ao ver-se em mãos com o objeto fez a sua primeira crítica de satisfação:
- É grosso!...

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

O melhor do mundo são as crianças

Quando não há natal a gente inventa-o e, muitas vezes, a fantasia sai melhor que o original.

E por falar em natal, o natal é como a cerveja, quer-se frio e em ambiente quente.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

10 mandamentos para a mesa de Natal


No caminho faremos os avisos para que este natal não seja como outros que quase acabaram à lambada entre pais e filhos, maridos e mulheres, tios e tias, sobrinhos e afins.

1- Olha que tu não dizes que estás a viver com um rapaz sem seres casada!
2- Não te metas como de costume com o teu primo por ele ter aqueles gestos!
3- Não te armas em fidalga, comes couves como os outros!
4- Livra-te de começar a cantar o Quim Barreiros quando o bacalhau chegar à mesa!
5- Não voltas a fazer aquela cara ao bolo de nozes da tua tia!
6- Se o tio começar a cantar não digas que está com os copos!
7- Se a tia te perguntar se tens facebook diz que só tens twiter porque ela não sabe o que é!
8- Se alguém perguntar quanto custou o nosso carro digam que não sabem!
9- E tu vê lá se perguntas outra vez pelo ouro dos falecidos!
10- Se a conversa virar para a política tu cala-te por favor!

Filha - Pronto, vou estar toda a noite calada.
Filho - E de futebol posso falar?
Mãe - Se eles começarem a dizer mal dos sindicatos, não me calo!
Pai - Porque não bebes uns valente copos como eu que eles já tem a carta para trazer o carro?

E pronto este Natal vai ser assim: comer,  beber, não entrar em conversas se não no essencial, está muito bom - como o fizeste?  é muito bom - onde o compraste? Felizes por obrigação, remediados por condição, pacientes porque revolucionários, cristãos culturalmente, naturalmente assim.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Só sei que nada sei e foi porque mo disseram


As frases dependem de quem as diz. A mesma frase dita por um magnata da opinião pública, da cultura, ou da mediatice, não tem o mesmo alcance se dita pelo cidadão comum. Por isso, eu, homem comum mas no entanto zé esperto, quando dito alguma sentença, mesmo sendo minha a autoria, cito sempre outrem.
Consoante o ouvinte, pode ser um filósofo grego, um frade luterano, um chefe índio, um músico americano ou até um nome que eu invento em chinês, o importante é que a mensagem fique ou pique o interlocutor.
Sócrates, o nosso, mostrou a careca quando se topou que recorria à fraca habilidade de citar outros sócrates, para passar a ideia que tinha cultura quando por portas abertas qualquer culto percebia que não lia um chavelho, que é como quem diz, lia tanto como Passos Coelho. Mas hoje em dia é assim, é chique publicar uma frase no facebook mesmo que o último livro que se tenha lido tenha sido há uns anos e o autor um sousa tavares ou um rodrigues dos santos.
Eu sei muitas frases porque tinha um avô que também as dizia e tinha uma tia que as costumava dizer, porque o padre Alcobia também disse um dia, e o Zé da Venda sabia das boas.Não sei qual deles disse "só sei que nada sei" e ninguém lhe ligou porque a frase nada tinha de especial porque dita por ele.

O significado da mesma só é levado à grande se mudar a figura que a disse para um grande filósofo ou um político - neste último caso já não interessa se é grande ou pequeno. A frase assim crua e dita, mesmo devidamente referenciada ,"só sei que nada sei", pouco ou nada me diz, mas disse-me um dia em que um filósofo comum, provavelmente depois de ter fumado uma valente cachimbada, lhe acrescentou "...e foi porque mo disseram!".
Portanto, "só sei que nada sei" já muita gente disse sem a ninguém ter ouvido. Mas "só sei que nada sei e foi porque mo disseram" é um frase que nem qualquer um diz mas que um qualquer disse, um homem como eu que, por mais frases que diga, nunca fará história.

Vem isto a propósito das profecias de Passos Coelho e de este ter dito "quase de certeza que haverá uma nova crise".

Uma frase banal que qualquer um diz, uma profecia que qualquer um pode adivinhar ou a implícita mensagem de que já não há crise? Estamos sempre em crise ó batata! A cultura da moda não são os tubérculos, é a cultura da crise

sábado, 17 de dezembro de 2016

Não há boas festas tão boas como estas


Este é o meu postal de natal, a minha foto do ano.
 O tipo do canto inferior direita parece o Passos Coelho. 
 Não sei do que é que se riem. 
Há dois figurões que não riem.
O tipo do canto inferior esquerdo não sou eu. 



sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Este Natal ofereça bácoros

O Natal dos nossos tempos cumpre-se com prendas. Quantos de nós não vivem, nesta época, angústias por não saberem o que oferecer a determinadas pessoas. Mas que prenda é que eu vou dar a esta pessoa? E depois o problema, é que é difícil resistir à aparente inevitabilidade de ir ao centro comercial e engordar com as nossas compras o grande capital.
Por acaso eu não tenho esses problemas, para mim prendas é vinho, azeite, leitão ou livros, adquiridos obrigatoriamente em mercados tradicionais ou paralelos. 

E é assim que o Rei dos Leittões vos oferece a sugestão deste Natal, assim tipo dois em um, um bácoro feito livro, o presente ideal para quem ainda anda às voltas com as últimas decisões.


O livro "o bácoro que me persegue", obra nascida das bacoradas de minha majestade, Pata Negra, pode ser adquirido de forma simples e por tuta e meia. 

Um pedido por email para reidosleittoes@gmail.com; o endereço do destinatário; 10 euros a unidade incluindo os portes de correio; pagamento no fim de recebida a encomenda na forma de "logo se vê", que é como quem diz, a combinar. 
Encomendas à ninhada tem desconto do iva.  

Isto é o que se chama matar um bácoro e dois coelhos com uma cajadada - sim, porque entenderei a vossa correspondência como uma prenda.


As profecias de Passos Coelho

Aristonidis, conde do século XVI, cujas predições continuam a provocar o assombro e a perplexidade dos mais cépticos afirmou:
"Duas nações entrarão em guerra, mas só uma vencerá."
(Os especialistas são da opinião que se trata da guerra russo-japonesa de 1904.1905 - proeza pasmosa se tivermos em conta que o prognóstico foi feito em 1540)
Woody Allen

O pobre diabo do Passos Coelho com esta não se engana e eu dispensaria o "quase":

“Quase de certeza que haverá uma nova crise” na Europa, adverte Passos Coelho - nos jornais de hoje.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Para quem gosta de ser filho, mãe não há só uma

Ontem visitei a minha mãe. Já não é a mesma que conheci quando crescia. O alpendre da avó foi com um vento, a eira do tio foi com uma enxurrada, da casa do bisavô não resta nada. E foi morrendo cada geração e ela ficou ali rapando o sol e mastigando o frio. Podia ser pior. Passa um trator com corta-mato e o tratorista acena a tudo o que mexe. A Sagrada Família ainda vai de casa em casa. Podia ser pior!... O doutor de letras restaurou a casa que herdou do pai. Isto vai! Digo que sim respeitando quem o diz mas a minha mãe não tem a mesma alegria. Os filhos tiveram mais partidas que regressos. Vem ver uns marcos e dar algum dinheiro para o andor. Deus Nosso Senhor lá sabe. A minha mãe tem a pele marcada pela ausência das sombras das árvores que o fogo levou. A minha mãe tem os cabelos despenteados pelo fim dos arados que o tempo levou. Já só a visito por ser mãe e folgo em saber que ela está para durar nem que seja só para enterrar os que vão morrendo. Outros destinos traíram-lhe o destino.
É claro que falo da minha terra-mãe que a do ventre já se foi e não viu isto. 



Dizia eu, em tempos, que quem perde as suas raízes, seca. Pois então falei a uma retro e a um camião e trouxe uma carrada de terra lá da terra e fiz um canteiro no meu quintal. Agora estou melhor! Tudo o resto são saudades e remorsos.
Eu devia ter sido pastor ou lavrador como os avós.
Mas não! Fui no engodo de que estudar é que era! Com a certeza de merda que qualquer cidade me daria mais. E olha agora, a minha terra-mãe a morrer e eu longe dela!

Toda a província padece deste mal. É bem feito em quem parte e em quem fica dizendo:
- O meu está muito bem, vive em Aveiro!
- O meu lá está para França e lá fez vida! 
- O meu neto está um homem, foi pró Dubai!
- A minha filha está tão contente desde que o filho arranjou emprego na Inglaterra!

Nas aldeias ninguém cria os filhos com projetos para que eles venham a viver nelas. Uma terra com os campos ao abandono não tem futuro. Um país que abandona as suas aldeias não tem futuro. Um Estado que fecha tudo o que é serviço público nas aldeias, não é um Estado é um bananal!

PS/ Estímulos à natalidade com distribuição de perservativos? Um governo que dizia promover  a natalidade ao mesmo tempo que acabava com o abono de família e aconselhava os seus jovens a emigrarem? D

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Peditórios de todo o país, univo-vos!

Já pedi coisas ao meu país que ele me deu. Eu também já dei coisas mas foi à pátria. Nem sempre dou quando me pedem mas não é por razões de coração, é por razões políticas. Não sou de dar por dar. 

Eu nunca tive brinquedos senão os que eu fazia ou os que o tio tocha da carpintaria, que morava ao fundo da ladeira onde eu vivia, me oferecia. Um dia, andei toda a feira agarrado à minha mãe a pedir-lhe aquela camioneta de lata que vira numa tenda, a mulher não aguentou a insistência, perdeu o amor à carteira - carvalho do chato do cachopo que nunca mais se cala! toma lá e não me chateis mais que é o primeiro e último que te dou!
Eu não emprestava a camioneta a ninguém. Se os outros cachopos se apanhassem com ela na mão era certo e sabido que a primeira coisa que lhe faziam era tirar-lhe as rodas. Nas minhas mãos aquela camioneta durou anos porque foi o primeiro e último brinquedo de compra que tive e só lhe tirava uma roda em caso de furo que fizesse parte da brincadeira.

Aquela camioneta foi conseguida com muita luta e outros meninos conhecedores da minha história conseguiram com o exemplo outras camionetas, tratores, bolas, bonecas e até trotinetes.

Quando participo em marchas de luta, levo sempre comigo uma razão de fundo de  justiça social e dou sempre pela falta de pessoas que conheço, sempre ativas em tudo o que é angariação de fundos para isto ou para aquilo. Constato depois que essa gente não está na mesma frente de combate, que o seu entendimento das razões da pobreza e das suas soluções é muito diferente da minha. 

E estou aqui eu com paninhos de azeite, a enrolar o texto para não ferir voluntariosos cidadãos que pedem para causas maiores, quando a minha vontade é registar que eu para dar não preciso de mãos de terceiros e que, acima de tudo, estou farto de Peditórios, porra!

É à entrada e à saída do emprego e lá dentro a colega irresistível, é à entrada e saída do supermercado e lá dentro o produto com a esmola incluída no preço, é na feira, é na rua, é nos semáforos, é o filho que traz umas rifas da professora de cidadania, é a funcionária da escola a vender broches/crachás para uma turma que quer ir a roma, é o cunhado que é sócio da associação columbófila, é a sogra da conferência de são vicente paulo, a vizinha bombeira, é campanha, é sorteio, é a santa de fátima, é o relógio para a igreja, é contra a fome, o cancro e a cegueira, é pelas crianças, pelas mães solteiras e pelos idosos e, sobretudo, por aqueles que não têm condições económicas para passar um natal feliz porque o natal é economia, é dinheiro, é consumo, é uma porra, o natal é uma porra!

Vamos lá então fazer um natal em que o povo vem à rua e reclama por um natal em que nunca mais seja necessário pedir! Vamos lá, porra!
Ah não! Não pode ser! O natal é de paz! Temos de nos dar bem com todos não é? O jesus é que diz!... porque o natal, mais do que uma ocasião dos mais necessitados receberem alguma coisinha, é a época em que se dá aos mais ricos a oportunidade de se redimirem, organizando peditórios e quem sabe até largarem uns cobres.

Façam como os capitalistas, concentrem a atividade, façam um império do ramo, cotem-no em bolsa - olhem a santa casa da misericórdia! - façam  um único e grande peditório porque já não há paciência para tanta caridade natalícia.

  

sábado, 3 de dezembro de 2016

35000 parece-me a mode muito

Quando um pequeno país, no mundo o mais falado, dá ao mundo a morte mais falada dos últimos anos, mesmo o mais humilde rei é tentado a falar. Falaria sem que a sua humildade se rendesse ao culto da personalidade, avesso aos que se ficam pelo verbo da simpatia, incapazes de tomar armas ou partido por causas dos povos, se lhe apetecesse. Mas é tal a algazarra, coisa que se dispensa em funerais, que se ficará por números que, mais do que caracterizarem o falecido, mais caracterizam aqueles que os usam ou inventam.

Assim, enquanto 638 tentivas de homicídio poderá ser um número utilizado por aqueles que o defendem, o  sétimo governante mais rico do mundo, será por certo uma classificação usada por aqueles que o atacam. 
Contudo, onde ficam mesmo dúvidas, se é um reconhecimento de talento ou uma forma subtil de lhe chamar putão, é quando se notícia que o Viril terá transado com 35000 mulheres. Aqui não está entre os cem mais, nem em sétimo - que às vezes é um número que convém para se levantar poeira sem ser muita - aqui o Revolucionário é o primeiro, muito à frente de Eglesias, de Zézé Camarinha ou Gengiscão. 
Fica-se muito baralhado, a proeza é argumento dos seus partidários, ou é a fraqueza das carnes que é arma de arremesso para os seus detratores?

Seja como for, 35000 parece-me a mode muito! Até o reacionário Observador, detrator  por regra de tudo o que é revolucionário, deixa a admissibilidade dos números poderem ser exagerados.

Seja como for, poucos como Fidel Castro poderão repetir a frase de Mark Twain:
- Parece-me que as notícias sobre a minha morte são manifestamente exageradas!

(O meu tio Osvaldo era comunista. Foi sempre a Cuba sem a minha tia. Agora percebo porquê.)