domingo, 10 de janeiro de 2016

os dez candidatos

Há candidatos e candidatos, a comunicação social que o diga! Mas diga-se também que não é com a ajuda dela que eu vou lá!... É demasiado evidente a sua dependência e o seu propósito de ocultar informação! Se assim não fosse não passaria o tempo a tentar justificar a sua independência e a sua missão de informar.

Sei que são dez, já não é mau saber o número! Por direito, deveriam todos ter direito a igual consideração. Não é o caso no que toca a informação disponível, pelo que estou muito confuso.
No entanto, tirando uma daqui e outra dali, já sei quem são os dez.

Gosto da gravata e do mediatismo do  Paulo Morais.
Aprecio a pureza e os ideais do Edgar da Silva.
Dá-me gozo ver um tipo empreendedor e com a dureza do Henrique Neto.
Sinto prazer e afeto ao olhar para a Marisa Matias e para a sua sinceridade.
Emociona-me a lata, a laca e a fragilidade da Maria de Belém.
Admiro gente académica e que veste bem como o Sampaio da Nóvoa.
Fico contente por conhecer desconhecidos como o Jorge Cerqueira.
Entusiasma-me o sonho e a autenticidade do Tino de Rans.
Fico perplexo com as motivações do Cândido Ferreira.
Mas do que gosto mesmo,
que aprecio,
que me dá gozo e prazer,
que me emociona,
que admiro e me põe contente, 
que me entusiasma e me deixa perplexo,
é a humildade e a independência do Professor Doutor Marcelo!
Há tanto tempo que conheço o homem e nunca me tinha apercebido dessas suas qualidades!
Afinal a cobertura mediática das campanhas ainda serve para alguma coisa!

E só não voto nele, porque não estou convencido que alguém verdadeiramente humilde e independente alguma vez se lembre de se candidatar a Presidente do Reino!



domingo, 3 de janeiro de 2016

Taberna de gerações



Herdei isto do meu sogro. Na altura isto eram uns barracos arrendados. Depois o senhorio resolveu fazer este prédio e nós ficámos aqui nas traseiras com o acordo de ele nos deixar aquele túnel de passagem cá para trás. Fomos fazendo obras com o seu assentimento, cobrimos parte do pátio com estas chapas que não roubam a luz e o espaço é este. Os antigos continuam a sentir-se aqui no tempo deles, os de meia idade gostam de vir aqui e encontrar os mais velhos e os mais novos… desses eu já lhe conto!...

Abro isto sempre às oito - uns cafés prós empregados que entram às nove. Por volta das dez avio umas sandes para gente que vem à vila tratar de papéis e compras. Rente ao meio dia é que começam a chegar os mais agarrados que não aguentam até ao almoço sem um copo.

À segunda é grão com bacalhau ou bacalhau com chícharos, à terça dobrada ou mão de vaca com feijão, à quarta feijoada ou caldeirada, à quinta cozido ou chispalhada e à sexta frango assim ou assado! Ao sábado e ao domingo só por encomenda.

À tarde junta-se aí uma malta na sueca e no dominó. Ao fim da tarde os que saem do trabalho comem umas moelas ou um peixe frito e bebem uns copos. Fecho por volta das nove quando a alguns já começam a falhar as pernas.
Quando faço mais é aos dias de mercado, quando há funerais ou casamentos! Vantagens de isto ser no adro!

Acontece que há uns tempos para cá, à sexta e ao sábado vejo-me obrigado a fechar mais tarde porque comecei a ter outra clientela – os mais novos, de que lhe falei  há pouco! E se eles fazem despesa!... E não são só os rapazes! Olhe que as moças fazem sociedade com eles!

Pedem às garrafas de licor beirão, de amêndoa amarga, de gasosa ou de coca cola para traçar o vinho ou a aguardente. Não sei se a garotada vem para aqui porque acha engraçado frequentar os sítios dos mais velhos ou se vem para aqui para se embebedar de barato antes de ir para a discoteca onde uma cerveja custa mais do que cinco litros de vinho aqui.

O que é certo é que isto vem dar uma lufada ao meu negócio, que gosto de ver aqui a juventude. Que eles dizem umas caralhadas, que fazem umas festas e dão umas beijocas às raparigas que vêm com eles, é verdade! Mas o que é que hei-de fazer? Os mais velhos que tenho aqui durante o dia também as dizem e a minha mulher está sempre a ver novelas da televisão, às vezes com cenas bem piores!

Mas o que eu lhe quero contar com esta história, é que há dias me aconteceu aqui uma que trago atravessada! Então não é que dois rapazes, sim dois gajos já com barba, se estavam a lambuzar sem se importar que alguém visse!? ,

Eu vi, voltei a ver, começaram-me a crescer os azeites e a autoridade do “quem manda aqui sou eu!” O que é que eu faço? Vou lá e dou uma chapada a cada um? Vou lá e digo educadamente “ tenham paciência mas aqui não!” Chamo-lhes paneleiros e envergonho-os à frente de toda a gente?!

Perdi o raciocínio, saí de trás de balcão, cheguei à mesa e não sei o que é que disse. Dum momento para o outro dei com todos os outros a chamarem-me homofóbico!
- Paneleiro eu?! Então agora eu é que sou o paneleiro?!

Este mundo está virado do avesso! Por momentos pensei: que se lixe esta clientela! Eu também tenho que garantir os outros clientes de outras horas! Tá certo, também alguns desses, às vezes na brincadeira de mais uns copos, também apalpam o cu uns aos outros! Eu, consoante os exageros também posso chamar a atenção - mas isso é a malta a reinar! Não é a sério! Mas ali! Porra! Se eu deixo a coisa andar, qualquer dia ainda acabam a enrabar-se à minha frente! Ainda se fossem duas, nesse caso, era mau na mesma, mas eu até podia dar a volta aos meus azeites e tolerar se elas me olhassem com pedido de compreensão! Mulheres! Enfim, estariam por certo a provocar os rapazes de agora que estão mais virados para os computadores! Agora dois rapazolas com idade de ir para a tropa!?


Pergunta-me o senhor porque lhe conto isto? Porque penso que você me pode valer! É que sei que o senhor escreve aí para o jornal… Não! Não me olhe assim! Deus me livre que isto fosse notícia! Mas olhe aqui para estes letreiros e estas quadras que chamam a atenção, para certas condutas, aos clientes! Eu queria que o senhor, por palavras inteligentes e educadas, me inventasse uns ditos para eu mandar gravar num azulejo e que dissessem que por ordem da ASAE nesta casa não são permitidas paneleiragens! 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Passem bem!

Estou aqui triste e sozinho.
A minha filha disse que ia para a nazaré:
- Com este tempo?!...
O meu filho disse que ia para a madeira:
- Mas temos aí lenha para três invernos!...
A minha mulher disse que ia sair com um amigo:
- Acho normal!...
Por ser o único cá da casa que não liga ao calendário gregoriano,
estou aqui triste e sozinho.

Se alguém quiser aparecer por aqui para beber um copo, esteja à vontade.

Se não, que passem bem!

Como conheço os perigos da internet, deixo apenas as coordenadas: Latitude: 39°37´52.06"N – Longitude:   8°40´23.47"W.


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Que pedra filosofal!

Sim, já sabem, cumpri o Serviço Militar Obrigatório na casa mãe da artilharia portuguesa, a Escola Prática de Artilharia em Vendas Novas - EPA. 
De lá, guardo boas recordações - como esta.
Não sei o que é feito destes dois camaradas mas que eram dois camaradas, lá isso eram!
Esta é a melhor interpretação que conheço da Pedra Filosofal, capaz de deixar o António Gedeão de boca aberta e o Manel Freire de boca fechada.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

O homícidio do senhor Jesus


Acossado pelo espírito da homília dominical, arraigado do mais puro espírito cristão, imbuído do verdadeiro espírito natalício, o senhor Jesus saiu da igreja determinado a seguir à risca a palavra do Senhor. Coisas bíblicas como o “se tem duas túnicas…”, “um camelo passar pelo buraco duma agulha…”, “não se pode servir a Deus e ao dinheiro…” e, sobretudo, aquela do Menino ter nascido numa manjedoura, há muito tempo que atormentavam o homem e aquele domingo de dezembro apresentou-se-lhe como o dia da Revelação do Céu.

O senhor Jesus herdara e mantivera toda a vida a criação de gado do seu pai lavrador, abastado suficientemente para não deixar o filho solteiro.

Quando chegou a casa, por volta do meio dia, e disse à mulher que ia soltar as vacas, ela pensou que fosse do estábulo para a cerca. Nem lhe passou pela cabeça que fosse da cerca para fora!

Depois do almoço começaram a aparecer vozes à porta:
- Ó senhor Jesus, as suas vacas andam soltas por aí!...
- As minhas vacas são também vossas vacas, cuidem também vocês delas!

Toda a gente deu o senhor Jesus como louco ou possesso de espírito dos demónios, incluindo a mulher que pediu às pessoas que a ajudassem na recolha da manada. O senhor Jesus não foi com eles e dirigiu-se à exploração. Aí chegado e com a ajuda de Deus - no seu ponto de vista- com a ajuda do Diabo – no ponto de vista do próximo - destruiu todas as portas e cancelas que cativavam as suas cabeças.

Quando o povo e a esposa irada chegaram com as primeiras vacas, benzeram-se em nome de Deus, e a mulher rica viu-se obrigada a pedir à pobre gente para as distribuírem pelos seus pequenos currais já que ali não já não existiam condições para guardá-las.

Contente por ter levado a sua avante o senhor Jesus correu para abraçar a mulher que, como resposta, o ameaçou de morte correndo atrás dele com uma forquilha em direção à vacaria.
Assustado, o homem escondeu-se no meio da palha duma manjedoura e, enquanto ela gritava de raiva em busca dele, pensava:
- Já que carreguei toda a vida indignamente o nome Dele, que nasci em berço de ouro, que vivi que nem um padre, que morra ao menos nas condições em que Ele nasceu!

E assim foi, trespassado pelos dentes da forquilha, ali morreu na manjedoura, confortado pelos remorsos da companheira de toda a vida que, cainda em si, se fez de imediato arrependida.

A verdade histórica deveria revelar que a vaca faz parte dos presépios por esta história e não pelos acontecimentos narrados pelo evangelista, se iam de burro e foi numa estrebaria o que raio é que estava lá a fazer uma vaca!?...

- Não! Não é mau gosto! Quem assassina merece todos os nomes! Já é, é tempo da Igreja tomar uma posição e mandar retirar a vaca dos presépios.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Duas bacoradas


Para gente menos esperta não se sentir só:
Depois de Bush ter defendido o abate das florestas para acabar com os incêndios florestais, temos agora o Sarkozy a defender a pena de morte para os kamikazes.



Para gente mais inteligente que pensa diferente de gente com menos humanidade:
Os atentados de Paris terão, certamente, o efeito de levar os mais reticentes a aceitar melhor os refugiados, agora é mais fácil compreender de que fogem aquelas pessoas.


domingo, 8 de novembro de 2015

O que faz uma pessoa ser mediática?



Bom, em primeiro lugar o que faz uma pessoa ser mediática é aparecer nos media. Existirão muitas outras razões que não cabem aqui, mas para aqui chamo apenas a de "ter fluência verbal".

Clara Ferreira Alves, creio que é este o nome, uma rapariga de cabelo curto e pintado de russo, opina num programa qualquer de televisão de que não me lembro agora o nome - para o caso isso também interessa pouco e reparem que nem me dou ao trabalho de pôr o google a trabalhar para confirmar o nome exato! - e tem fluência verbal.

Direi também que li a sua crónica, " Anticomunista, obrigada", porque o título me levou mas não lhe dei, no momento, qualquer importância. Consumi o texto como um, que entre tantos, devaneiam fluentemente, levianamente, sem qualquer preocupação documental  (como eu que não me dou ao trabalho de investigar o nome do programa em que a pessoa entra), sem coerência racional, com pés mas sem cabeça , um puro exercício emocional. Tem relativamente ao meu, aqui presente, também emocional, o cuidado jornalístico de se esquivar das rimas e a vantagem de ser escrito por uma figura mediática. 

Como vêem, também sei estender texto, a dizer pouco dos factos e a publicitar o que sou.

Sou um tipo com alguma fluência textual porque leio e foi por ler, que ao ver um rol de reações ao texto da "anticomunista", me deu também para escrever. Sou, portanto, também um tipo que vai no embalo dos mídia e, pior ainda, das redes sociais.

Não querendo seguir o exemplo da visada, de escrever um texto sem dizer nada, pronto, dizendo alguma coisa, dizendo por exemplo que o José Saramago gostava mais de António Costa do que de Alberto Camus, que Álvaro Cunhal se zangou com Agustina por ela não gostar dos Esteiros,  de que fui estudar para Coimbra com medo do PREC, de que a situação política atual do país se deve à intervenção do KGB e ao presente desleixo do Mário Soares... vou direto ao assunto!

Pronto! A minha questão é a seguinte: Porque é que ao fim de tantos anos da Clara ter estudado em Coimbra só agora é que se declarou anticomunista? Porque é que raio um espaço mediático, as redes sociais, os comunistas e eu, gastamos espaço a comentar o facto da senhora, finalmente, se ter declarado anticomunista?

Tenho a resposta! A senhora recorreu tão velhacamente à sua fluência verbal para se justificar anticomunista que chega a parecer "comunista" dentro da imagem que dos comunistas parece ter! A senhora, portanto, tem medo se si própria! Não é a única! Eu também!

Pois bem, senhora de cabelo curto e russo que comenta num programa qualquer de televisão, que escreve num jornal qualquer, que faz na vida não sei o quê, que pensa não sei como nem quero saber, de agora em diante existe uma razão para eu ser comunista, é a senhora não o ser. 
Luís Neves - GPS & MEDIA

sábado, 7 de novembro de 2015

Neste últimos tempos

Nestes últimos tempos é certo a esquerda fez erros
Caíu em desmandos confusões praticou injustiças

Mas que diremos da longa tenebrosa e perita
Degradação das coisas que a direita pratica?

Que diremos do lixo do seu luxo  -- de seu
Viscoso gozo da nata da vida -- que diremos
De sua feroz ganância e fria possessão?

Que diremos de sua sábia e tácita injustiça
Que diremos de seus conluios e negócios
E do utilitário uso dos seus ócios?

Que diremos de suas máscaras alibis e pretextos
De suas fintas labirintios e contextos?

Nestes últimos tempos é certo a esquerda muita vez
Desfigurou as linhas do seu rosto

Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita
Degradação da vida que a direita pratica?

                                        Julho de 1976

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

domingo, 1 de novembro de 2015

A ceia da seita

A propósito do post anterior.

Tudo posto em pratos limpos.
- Foste tu que me roubaste o cromo de Eusébio da caderneta do campeonato de 1973.
- Eras tu que ias roubar as sobremesas à cantina!
- Foste tu que me deste a conhecer a Gina!
- Tu não estudavas nada senão os livros do major Alvega!
- E quando tu montaste uma engenhoca que quando o padre abria a porta o rádio desligava?!!

É claro que não foi só isto.
O operário que já teve um acidente que ia morrendo. O coronel que já esteve no Afeganistão a fazer nada. O funcionário público que tem dois filhos de três mulheres. O padre que o deixou de ser a tenpo de fazer filhos. O aposentado da marinha que cria porcos. O juiz que trabalha que nem um condenado. O outro de que não se sabe o paradeiro. O motorista da rodoviária. E claro, eu, aqui fotografado entre os demais. Um deles. Ou eles todos. Esta era a ceia que me faltava. Comi que nem um padre.

Primeira foto, primeiro ano e última foto, no último ano. Quem sou eu? Adivinhem porra! Nem eu sabia que era eu numa delas! Gostei tanto de me terem revelado estas fotos!

Seminaristas de Leiria 1972 - futuros padres

Seminaristas de Leiria 1977 - futuros ex-seminaristas

domingo, 25 de outubro de 2015

Antipático o raio que os parta – e aos fotógrafos também!


O fotógrafo rabeava à minha volta no pequeno estúdio, dando jeitos em suportes e projetores e na minha pessoa: gola, cabelo, cabeça, ombros e o raio que o parta, nunca mais estava tudo bem!  E, na hora do passarinho, nem ele, nem a minha mãe, me conseguiram arrancar a expressão da lei: um tipo para ficar bem na fotografia tem de arreganhar.

Foi assim e assim continou a ser em todas, conforme testemunha um quadro que tenho na sala com cartões de identidade da juventude: de estudante, da JOC, de militar, de sócio da ARCA, passageiro da CP, condutor de velocípedes e músico de cabaré.

Sou, portanto, um fulano sizudo, incapaz de responder com uma gargalhada a uma boa anedota, que só mostra os dentes se tirar a prótese. Mas gosto de ver retratos antigos. Sou também, portanto, um saudosista.

A minha primeira foto tipo-passe foi para tratar da documentação da matrícula no ensino preparatório. A minha mãe lá foi toda contente, comigo de má cara ao lado dela, e só voltou a dar um passo pelos meus estudos quando foi com o meu pai a Coimbra carregar o carro com as minhas gabardines e sebentas. Foi então que me fez a pergunta: “filho, que curso é que tiraste que as pessoas perguntam-me e eu não sei dizer?”.

Tendo iniciado o primeiro ano do ciclo nos primeiros dias de outubro só voltei a casa pelos Santos mas, para espanto meu, a minha mãe não estava. O meu pai foi comigo a Coimbra, de comboio, apanhámos um taxi para a maternidade para eu conhecer o meu primeiro irmão que não nasceu em casa e para tratar duns afetos em falta. Não pude entrar porque poderia ver mamas de mulheres e não tinha idade para isso. Chegaram as lágrimas ao meu pai quando me deixou com o porteiro, voltou passada uma hora, alegremente e com beijinhos da mãe.
- É parecido contigo!..

No início de dezembro, tendo deixado o bébé com a rapariga que a ajudava no regimento, viajou na camioneta da carreira para ver um dos seus filhos que não via há mais de dois meses.  
Manifestou tristeza e preocupação porque não me encontrou entre os outros meninos no recreio. Porque é que eu estava sozinho na sala de estudo, se ainda por cima não estava a estudar, mas a desenhar igrejas de duvidosa arquitetura?!...

Sou, portanto, pouco social. Mas enganou-se a minha mãe, não havia razões para tristeza ou preocupações, eu sentia-me muito bem ali no internato, eu gostava dos meus amigos e eles de mim e da minha cara de poucos amigos.
Eu tinha sempre alguém com quem brincar, dormíamos juntos, comíamos juntos, estudávamos juntos, rezávamos juntos, víamos livros pornográficos juntos, vinte e quatro sobre vinte e quatro horas juntos, durante cinco anos que tanto marcam a vida dos mortais – dos dez aos quinze.

Quando eu saí, só ficaram dois. Só um chegou a padre mas já não o é. Perdi-os todos de vista, voltei a ver um ou outro furtuitamente. Já lá vão quarenta anos. Este é o almoço que eu desejava há muitos anos. Fiz um esforço, investiguei, procurei contactos, consegui.
Hoje, véspera do Dia de Todos os Santos, um grupo de velhos amigos vai reunir-se. Estou em pulgas para os ver a todos, vou voltar a ser quem fui.
Sou, portanto, um camarada.

(a idade não perdoa, estão aqui a dizer-me que é para a semana!...)


domingo, 18 de outubro de 2015

Toda nua





Por motivos de ordem diversa, desavenças familiares, desintegração social, pecados mortais, golpadas no alheio e razões outras, existem pessoas que, num dado momento das suas vidas, desaparecem da comunidade onde vivem, nunca mais dando sinais de si, acabando por ser esquecidas ou, no máximo, por serem o sujeito ocasional duma conversa com um “que é feito dela?”.

Ela vagueou pelas ruas da aldeia dispersa, ora em passo normal,  ora em passo de corrida, parando aqui e acolá, fixando-se  num, fugindo de outro, parada por uns, corrida por outros, completamente desvairada ou, na fala de alguém, como uma égua louca ou como uma vaca numa largada de Alcochete. 
Completamente nua. Sem crítica que lhe se pudesse fazer ao corpo, ou não fosse uma rapariga na idade em que as formas perfeitas são a regra e tudo é bonito de ser ver, apesar da circunstância não permitir a concentração em pormenores nem provocar desejos, se não mesmo os da curiosidade ou o prazer de ser testemunha dum insólito acontecimento.

Não são para contar os comentários esperados para a cena, todos os advinham, que se ilustre a mesma apenas com esperadas reações:

A professora mandou os alunos que estavam no recreio para a sala, uma beata fez o sinal da cruz e entrou na capela, alguns taparam os olhos com os dedos mal unidos, uma mulher deu um calduço no marido, uma mãe tapou a visão do filho com o chapéu, uns riram, outros lamentaram e, no entanto, era apenas uma mulher como Deus a pôs ao mundo! Apenas com mais umas sapatilhas! Também, ninguém quereria que andasse descalça no piso com pedras e poças e bostas dos caminhos do campo!

O ato de loucura foi aparado pela residente na última casa do lugar, solteirona solitária, conhecida por mulher solidária e carinhosa, inclusive com alguns maridos insatisfeitos, que lhe deu a mão, que lhe tapou as vergonhas com o que tinha à mão, levando-a para dentro e aguardando que alguém da família viesse ao socorro.

E o pai veio. Industrial de sucesso como se apresentava no meio, proprietário do carro que por ali mais circulava, conhecedor dos afetos da casa, encetou cumplicidade com a protetora para abordar com cuidados a protegida assustada e, preparada a partida, entregou razões que, dali declaradas, iriam de boca em ouvidos e de ouvidos em boca, correndo o povoado e quebrando  a má língua do juízo popular:

Fazia dois anos que fora estudar advocacia para a cidade grande, poderia ter sido de estudar muito, poderia ser droga dura que os do 25 de abril lhe deram, poderia ter sido o diabo que a tomou, o que não havia dúvidas é de que perdera a lucidez mas nada que um bom médico, um bom corretivo ou a Santa da Ladeira não pudessem curar.

 Na sequência do episódio, já lá devem ir quarenta anos, a moça - ninguém esperaria que aqui se dissesse o nome dela -  deixou de se ver e nunca mais alguém ousou perguntar ao pai “que é feito dela?”. 

Aconteceu recentemente ser recordada, por ter sido reconhecida num canal de televisão, prestando declarações numa manifestação contra as touradas.
Boca pouco brejeira dum popular brejeiro:
- Está perdoada, pelos vistos está arrependida!


- Ou terá sido apenas a manifestação dum sonho revolucionário de pureza, duma jovem que legitimamente quis testar “porque raio a nudez perturba as pessoas?!”.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Esquerda 1- Direita 0

Ando com uma mania das parábolas, talvez inspirado pela minha formação biblíca, que me dá para isto. E logo eu, que não vou em futebóis! Mas quando está em jogo Portugal!... Pronto, talvez o título do texto pudesse ser - Portugal 1 - Alemanha 0 - mas também já não o vou emendar porque o paralelo que se pode fazer é óbvio.

Estou em frente à televisão com os meus companheiros, sem a certeza da vitória certa, sem saber se o 1-0 permite o apuramento, mas estamos contentes. Estamos contentes porque o duelo é histórico, porque a cara de pau dos sempre vitoriosos nos contenta, porque o árbito (sistematicamente vendido ao adversário) mostra os seus dois tristes cus  (o do medo e o da cara) desenvergonhados.

Quando se assiste assim a um jogo com uns companheiros, bebem-se uns copos, partilha-se a alegria.
Se a bebida for boa ou bebida com moderação, amanhã continuaremos normalmente a nossa vida.
Diz-me um dos convivas que estamos a fazer muitas misturas. Aconteça o que acontecer esta festa já ninguém nos tira. Mesmo que dê ressaca já valeu a pena. Nada que não se cure com uns caldos de galinha.

sábado, 10 de outubro de 2015

As filhas do resineiro

Entre o nascer do dia e o nascer do sol era vê-los, nos caminhos das raias dos pinhais, a penetrarem neles pelas encostas e trilhos conhecidos, até chegarem ao sítio onde, no fim de tarde anterior, tinham acabado, as três filhas, o pai e o Adriano. 
Nos tempos de outras tarefas da faina bastavam os dois homens para dar conta do recado mas, nesta fase mais intensa da campanha, em que o calor ajudava à sangria da resina, exigia-se o trabalho das mulheres para fazer a colha  e levar, à cabeça, as latas ao barril.


Distanciados uns dos outros conforme impunha a lida, para darem sinais da sua presença, para temperar o labor com alegria, elas cantavam e o Adriano assobiava, cada um do sítio do púcaro que tratava, ao passo que José Liberal, de poucas falas, limitava-se a aparecer no momento certo para gerir ou para dizer que “aquele ali já não é nosso” ou “é ali a estrema”.

Bem que o caráter do empregado o contentava, trabalhador, moço educado, comprovadamente poupado no dinheiro que lhe pagava, um genro a calhar para tomar conta duma delas e lhe dar descendência, tomar conta da exploração, matando ao mesmo tempo outros “coelhos” como o da reclamação de aumentos e o da ameaça de “pró ano já não venho”. Podia pagar-lhe mais, sabia, mas vistas as coisas de outro lado, quanto mais o futuro sogro amealhasse, mais o possível herdeiro se entusiasmaria para um acasalamento. Podia ser com a mais velha, mais calada, com a do meio, mais expedita, ou com a mais nova, mais espevitada.

Era um regalo vê-las cantar e o rapaz a assobiar mas, quando o José tentava uma abordagem camuflada sobre o assunto, Adriano parecia assobiar para o lado, revelando pouco interesse por quaisquer das três.

Até que num fim de temporada: “ti Zé qualquer dia chamam-me prá tropa!”, “ti Zé a gente nesta terra não se safa!”, “aumento-te rapaz, quanto queres mais?”, “se tu casasses, livravas-te da guerra!” e eis senão quando se percebe que Adriano se havia “despedido à francesa” conforme impunham os cuidados de quem passava a fronteira a salto.

Passados três meses teria de começar nova campanha e, em cima de lhe faltar um braço direito, vem-lhe a mais nova a dizer-se pejada, passadas mais três semanas vem-lhe a mais velha com a barriga inchada.

- Agora é que ele me tramou! Foi-se embora e…  Gaita! Já agora podia ter feito o mesmo às três! E também à mãe, eu já não digo nada!..

A mulher era apagada e não mudou de tom quando soube das filhas naquele estado e apagou-se de vez passados poucos anos. Curiosamente, José Liberal conformou-se heroicamente com o que lhe caiu à porta e lhe tocou a cara: isto da juventude andar nos matos tem destas coisas; sabia lá se as três se tinham enrolado a “desencarrrascar o pinheiro” ao desgraçado; sabia-se lá se ele partira sabendo o resultado; se tivesse sido só com uma faria cíumes nas outras duas, se tivesse vingado nas três, também era demais; as três que amanhassem a vida porque, com esta história de enganos, dificilmente lhe viriam homens; o rapaz que não regressasse porque em casa de cristã,o pecado por acaso, pode acontecer mas uma prole deve nascer dum só homem e duma só mulher.

José Liberal criou os dois netos como pai até chegar a vez deles irem também - para França não que por lá ainda deve andar o indesejado!
José Liberal foi pouco depois mas foi pró outro lado.

No almoço de angariação de fundos para o Rancho Folclórico do Pinhal Velho, lá estavam as três irmãs, já pensionistas, alegres como sempre e distintas como a vida as fez, reconhecidas e acarinhadas por todos os confraternizantes já esquecidos do escândalo, os dois filhos já com filhos e de férias, sinais de vida, da vida, do povo, dos tempos ou então apenas a lição que José Liberal deixou às suas gentes de como se encaram e ultrapassam certos problemas. 

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Porque se chama ele Marcelo?

Ora então! Hum! Hum!... Vamos lá então começar a segunda fase da campanha. Vamos começar pelo princípio: porque é que o seu primeiro nome é Marcelo?

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Parábola de quem ganhou e quem perdeu

Jesus era um homem de parábola. Eu, nascido e criado na sua imagem e semelhança, também lhe dou um jeito. Assim me defenderei quando os locutores e interlocutores do senso comum, me confrontarem com quem ganhou, com quem perdeu, com os que ganham sempre, com os que nunca perdem, com os verdadeiros vencedores.

Quando começámos o jogo da lerpa daquela noite, alguns já levavam muito dinheiro acumulado de jogos e batotas anteriores, o que lhes dava um poder maior de dominar a banca, de fazer bluff, de arriscar jogadas, de fazer de conta, de intimidar os adversários. Tudo isto somado tornava-os favoritos a somar vitórias, a cantar de galo.

E foi assim que uns começaram com 100 escudos, outros com 80 escudos, outros com 8, outros com 4 e etc. e tal.  No final do jogo os que tinham 100 ficaram com 90, os que tinham 80 com 88, os que tinham 8 ficaram com 9 e os de 4 com 8.

É claro que o poder continua dependente do primeiro que tem mais que os outros, é claro que os outros todos juntos tem mais que o primeiro e etc e tal.

Mas quem ganhou? É assim tão difícil?

sábado, 3 de outubro de 2015

Resultados Eleitorais 1976-2015

É estabilidade que querem? Então contribuam, pelo voto ou pela abstenção, para que tudo continue na mesma!
Os resultados desde 76 são na prática e praticamente sempre os mesmos. Em 1976 eu era diretor dum jornal de parede chamado Farol. Era muito novo!

.

Guardei isto até hoje. Por certo pensava que as coisas iam ser diferentes. Afinal o mapa eleitoral continua o mesmo - explicação fatal para justificar a cepa torta.

A fonte devem ter sido estes recortes do Diário de Notícias. Clica nas imagens para ampliar.




PS: Hoje morreu José Vilhena. Merece, da minha parte, muito mais que este PS. Oportunamente! Oportunamente porque procuro nunca escrever a quente!

domingo, 20 de setembro de 2015

Já nem as tascas resistem aos telemóveis

Para dar tempo ao tempo duma espera de família, entrei na tasca do Buraca, sentei-me na mesa junto à porta e, numa atitude "pessoana", pus-me a bebericar uma imperial e a mordiscar uns tremoços. Ao balcão estavam dois ou três grupos de homens a bebericar umas imperiais e a mordiscar uns tremoços. Reparei que alguns deles falavam ou estavam entretidos com os seus telemóveis. Um desconhecido retirou-se do seu grupo e, de passagem para a rua, dirigiu-me a palavra:
- Os meus amigos não falam comigo! Estão todos com o telemóvel! Estou sozinho! Olhe, vou também fazer uma telefonema! Mas vou lá fora!...
Quando voltou a entrar o homem reparou que os seus amigos continuavam todos ao telemóvel e voltou a dirigir-me a palavra:
- Porra para os gajos! Isto é que eu tenho uns amigos!? O senhor dá-me licença que me sente aqui consigo?!
E então, como não éramos conhecidos nem amigos e aquele era o assunto que nos juntava, começámos a conversar acerca do uso dos telemóveis, até eu receber uma mensagem do familiar a dizer que já estava pronto e, quase ao mesmo tempo, ele receber uma chamada, dum dos amigos que estava ao balcão, a perguntar-lhe onde é que estava. 

domingo, 30 de agosto de 2015

O Tabaréu


Não era de cá. Terá vindo uma primeira vez para uma jorna, uma segunda vez para duas e terá pernoitado. A pouco e pouco fez desta a sua terra e aqui morreu, talvez de frio, talvez do coração, talvez do vinho, talvez de doença, em gente da sua condição a razão também interessa pouco. Fez-se o que se podia, chamou-se uma ambulância - talvez ainda estivesse vivo - na morgue ninguém reclamou o morto, enterrou-se na mesma.

O Tabaréu, à falta de jeito para outras coisas, era de ofício cavador. Chamava-se o seu serviço para um talho de terra onde não entrava o charrueco, para uma casa onde ele não existia ou onde faltavam homens. O almoço a meio da manhã e o jantar ao meio dia, também estavam incluídos, a ceia já não era necessária porque, a essa hora, já o cavador caíra de bêbado e cansaço num palheiro de família amiga que lhe dispensava mais atenção e alimento nos dias em que o trabalho escasseava.

Como quem lhe falava também não tinha muita comida, mas tinha vinho e o vinho dava força, o Tabaréu acabou por se tornar um alcoólico. Com o passar dos anos foi perdendo forças e humor, as cavas foram ficando cada vez mais aldrabadas e, ainda para mais, mijava em qualquer lado sem se importar que lhe vissem a picha. 

Havia quem não desejasse a sua presença, havia quem lhe desse sopa, havia quem lhe desse vinho, havia quem se divertisse aparecendo-lhe no caminho, noite escura, envolto num lençol para se fazer passar por santa, com cúmplices com lanternas para provocar encadeamento e simular luzes do alto, com vozes doces como as do céu, com ditos assustadores para parecerem coisas do outro mundo. Crédulo como um pastorinho, ébrio que nem um cacho, o pobre desgraçado ajoelhava-se, pedia perdões aos seus falecidos, dava graças à Senhora e prometia para o dia seguinte nunca mais pegar no vinho.

Deixemos estas encenações rudes e blasfémicas e vamos ao motivo da prosa que foi no tempo em que eu ainda não era grande.´

- Vai à nossa almuinha levar esta bucha e esta pinga ao Tabaréu, fica por lá e, quando me ouvires gritar daqui, venham que é para jantar.

O homem pôs o pão à boca e foi um quarto, pôs a garrafa aos queixos e foi metade, enquanto eu olhei para um melro já me estava a passá-la e a dizer:
- Toma, o resto é para ti!

Não era muito, mas deu para ficar tonto e adormecer debaixo da oliveira grande. Quando deu por ela acordou-me aflito, foi buscar água à fontanheira, deu-me a bebê-la, molhou-me a cara, aconchegou-me, não saiu de ao pé de mim, com os seus cuidados dedicados por volta do meio dia já me senti fino - ficou estes anos todos entre nós. Parece que ainda sinto o sabor do segredo ao escutar o tom da minha mãe para a ti Etelvina:

- Aquele Tabaréu está cada vez pior, então em meio dia não conseguiu cavar metade da minha almuinha! Para a próxima que andar pra mim não lhe dou vinho!

sábado, 4 de julho de 2015

Desliguem os televisores

Olhando o poderio bélico-financeiro com que as elites capitalistas estão a atacar a Grécia, olhando as massas que dormem nas praias e gritam nos estádios, olhando o enxame de filhos da puta que enche as televisões, digo-vos amigos, companheiros e camaradas, não é tempo de avançar mas sim de abrir trincheiras, não é tempo de ir com os outros mas sim dos convidar, e não mudem de canal para  os não ouvir porque irão certamente ver uma série americana.

Leiam a história antiga, a média, a moderna, a recente e a de agora. A irmã grega está nas mãos da fera, o irmão tuga dorme nos olhos da serpente, os nossos filhos esperam que os ensinemos a ler. Abramos trincheiras nas nossas biblotecas, enchamos de água o mar para acabar com as praias e termos mais peixe, liguemos o autoclismo e desliguem os televisores - eu já parti o meu com uma mini Sagres.

Foi só para dar de comer ao blogue. A minha vida profissional, familiar e social não me tem dado espaço para pensar escrevendo. Leio, tenho lido. A blogosfera amiga está entrincheirada. Se levanto a cabeça, ainda levo um tiro do inimigo. Amigos, companheiros e camaradas, um dia destes vou arranjar tempo, tenho as armas limpas, formaremos secções, pelotões e companhias porque afinal daqui nos conhecemos. Viva a corte! Viva a fidalguia! Viva o povo! Abaixo a burguesia!

terça-feira, 30 de junho de 2015

Boda-se!

Um quarteirão de anos de comunhão de matrimónio e alguma delapidação de património. Ao fim de tanto tempo, contam-se pelos dedos das mãos as vezes que lhe bati e, se lhe fui infiel, não foram muitas vezes. Dois filhos legítimos! Um par! Um casalinho!... Um mercedes de 1990, uma motoenxada, um esquentador inteligente, lâmpadas económicas em todas as divisões de casa, além dum blogue e outras coisas mais.
Bem pode ela festejar bodas de prata! Se eu tivesse nascido mulher também casava com um homem como eu. 
- E quanto a ela?!
- Bom ela!... portanto ela!... Ela é uma mulher como as outras!... Muitas vezes distingo-a por um sinal que tem na cara!... Há apenas uma coisa para a qual ainda não encontrei explicação: não me vi, não me vejo e não me consigo ver com outra!...

O resto do que se passou hoje fica entre o casal real.




sexta-feira, 26 de junho de 2015

Há quem diga que ele ainda é vivo


Não dava nada para a escola. Não aprendia nada na escola! Não andava a fazer nada na escola!...

E, no entanto, o irmão mais velho era muito inteligente, a irmã mais velha era muito esperta, ambos saindo aos seus. Mas ele, talvez por ter nascido sem ser desejado nem esperado, com a mãe a caminho dos cinquenta, já fazendo as noites com o macho sem atender às luas, aos períodos ou ao “tira antes”, nasceu assim, mal vingado e com uma falha.

Ao fim de três anos não passava do nome, do dois mais dois são quatro, duma dúzia são doze e do Tejo é o maior rio de Portugal.

- Uma falha é pouco!
Retorquiu ao pai e na presença do aluno, a professora Palmira.

O homem pensou: eu nem sequer andei na escola e tenho-me safado, ele ainda é novo e há-de aprender a ir à lenha, a juntar palha e a andar com o burro - amanhã já não vem!

Libertar-se-ia da troça dos colegas, daquela crueldade infantil que todos já sofremos, exercemos ou, pelo menos, presenciámos. O pior de todos era o Júlio das Moitas. O pobre rapaz aguentava dele as torturas mais porcas, as insinuações mais sujas, as piores humilhações e respondia baixinho:
- Um dia talvez te fodas!...

Mesmo passados anos de ter saído da escola, quando o via, o carrasco exercitava provocações ordinárias acerca da coisa da irmã dele, da autosuficiência sexual dele, ou mesmo chamando-lhe a atenção para que olhasse: que o travão da carroça ia travado, que tinha perdido uma roda ou que a coisa do burro estava de fora.
Ele, ingénuo, olhava para verificar, para logo a seguir reparar no gozão de riso rude, e dizia para si mesmo:
- Um dia talvez te fodas!...

Até que num certo ano, num certo dia, de tanto ser esticada, a corda partiu:
- Então não é que fodi a tua irmã e ela tem a coisa a atravessar!

Ele, filho de boa gente, pensou baixinho: tenho de foder este gajo!

Júlio das Moitas vivia numa casa, nas traseiras da qual, num patamar mais alto, passava a linha de comboio.  Se eu fizer descarrilar o comboio, ela tombará pela encosta abaixo, cairá sobre a casa e adeus Júlio. Como eles andam a substituir os carris e há muitos soltos nas bordas, eu vou lá de noite, atravesso um deles sobre a linha, vem o comboio e… 
E pensado, assim fez.

Gorada a tragédia pensada porque descoberta a tempo.
Descoberto o autor ao fim de dois passos da investigação.
Foi preso e transferido mais tarde para o Júlio de Matos para passar o resto dos seus dias.

Júlio das Moitas morreu pouco tempo depois da tentativa de homícidio, quando, sentado no carro do seu burro, atravessava a passagem de nível sem guarda. Conta-se que, durante muitos anos, uma cruz com uma tabuleta de madeira assinalou o local: aqui morreu Júlio das Moitas, solteiro, deixando desflorada uma mulher dez anos mais velha.

É claro que deve ser mentira o texto da inscrição como também o poderá ser parte da história que passou pelas teias de ofício do narrador. Verdade é, porque me contou o meu pai, que foi sempre homem de verdade e pouco dado a fantasias que, quando o juiz perguntou ao réu como conseguira sozinho mover o carril para o atravessar na linha, este terá respondido seco e frio:

- Fui eu, o diabo e a tranca!

terça-feira, 23 de junho de 2015

Discurso de Péricles aos Atenienses

Deixai-os em treino permanente
Como se a vida fosse apenas exercício
Atenas ama o vinho e a poesia
E Esparta o sacrifício
Que nos acusem de vida fácil e leviandade
Que digam que não sabemos guardar segredo
Nem combater
Em Atenas reina a liberdade
E em Esparta o medo
A nossa força é a diferença
Não são precisas provações nem disciplina
Atenas vive como quer e como gosta
Porque a nossa coragem não se aprende não se ensina
A nossa é de nascença
E não imposta
Deixai-os pois dizer que vão vencer
Eles fogem da vida por temor da morte
Nós vamos para a morte por amor da vida
E enquanto Esparta só combate por dever
Nós iremos lutar com alegria
Por isso Atenas não será vencida
Manuel Alegre ( poema do livro Chegar Aqui, de 1984)
Nota suína: eu tenho a infelicidade natural de não gostar de Manuel Alegre mas gosto de poesia e isso basta-me. 

sábado, 20 de junho de 2015

A tradição das amêndoas da Páscoa

Era já tradição do longo priorado do prior Formiga, nos modos, nos tempos e locais habituais, recordados em avisos do final da missa, fazer a distribuição de amêndoas às crianças. Ao nosso lugar calhava, por costume, o sábado da pascoela e o cabeço Leitão, local ermo e de mato alto mas onde o “carocha” subia.

Chegado o carro, depois da espera ansiosa, o padre abria o saco que trazia no banco do pendura e a canalha tomava posição de olhos erguidos como os das galinhas quando se lhe dá milho. Não, não se fazia fila.  Ele atirava macheias delas para o meio do mato, tão longe quanto os seus lanços conseguissem, e ficava divertido a observar a perícia de cada um e a avaliar quem apanhava mais. Quem tinha bolsos fazia por enchê-los, quem os tinha rotos, alargava as meias para as juntar, quem não tinha meias, sentia-as como pedras nos sapatos e o Torto, que nem sapatos tinha, picou-se.

O Chiquito, não foi na brincadeira e ficou com uma saca vazia na mão ao lado do lançador.
- Porque não fazes como os outros, meu menino?! Julgas-te mais do que eles?! Vê-se bem de quem és filho! Vê-se bem que vens ensinado pelo teu pai!

O silêncio de homem do Chiquito foi interrompido pelos gritos do Torto.
- Piquei-me! Ai! Ai! Piquei-me! Ai que me dói! Ai o meu rico pé! Ai o meu pézinho que me faz tanta falta!...

A gritadeira de dor mobilizou todos para junto da vítima, incluindo o padre que, como é natural, dirigiu o socorro.  Todos, menos o Chiquito que - tal como havia sido previamente combinado – aproveitando a distração geral, passou pelo lugar do pendura, atestou em segundos a sua saca e despareceu discretamente sem dizer aqui vou eu.

- Isso não é nada rapaz! Tens é de pensar em trabalhar para arranjares dinheiro para uns sapatos!

O padre partiu sem dar pelo roubo e os outros ficaram espantados a olhar para o Torto que desatou a rir a bandeiras despregadas.  

Francisco dos Santos, conhecido por não ir a missa nem à confissão, mas respeitado por direito próprio, tinha estabelecimento aberto onde vendia copos e dava tremoços. Naquele sábado também ofereceu amêndoas.

Não tardou muito que a marosca do Torto com o Chiquito corresse o povo e, inevitável, fosse parar aos ouvidos do prior, alegadamente pela fieldade de Albinito, pretenso santinho, candidato a seminarista.

A ira do clérigo subiu mais alto quando se apercebeu que não podia aplicar o castigo da ex-comunhão por o taberneiro já estar mais que excomungado, restando-lhe como vingança proibir o Chiquito de ir à catequese, coisa que o pai nunca tinha feito por aquele respeito que o fazia ser uma pessoa respeitada por todos. Por todos, menos pelo padre, que teve de engolir em seco a troça do povo que não considerava roubo uma partida.

No dia 20 de Junho de 1974, Albino, quase padre, tendo tomado partido por causas revolucionárias, abandonou o seminário. Chegado à terra, dirigiu-se à taberna de Franscico Santos e pousou um saco de dez quilos de amêndoas em cima do balcão.

- Parece que tenho uma dívida aqui há muitos anos!...

- Aceito por respeito meu rapaz! Mas para bebermos os dois um copo parecem-me mais indicados uns tremoços!... Que pena tenho de não termos aqui um "kodak" para mandar uma fotografia deste momento para França! Aquilo é que o meu Chico ia gostar!...

domingo, 14 de junho de 2015

Início da aulas - 7 de outubro

No tempo em que existiam as férias grandes a gente chegava a outubro cheios de desejos de escola. Eram três meses em que tudo se fazia, desde tomar banho nos tanques dos quintais, de ler, de trabalhar, a uma primeira experiência sexual. Se por acaso, em setembro, já não coubéssemos em casa, éramos enviados para casa da avó para aprendermos o que era o campo e brincarmos com os primos da aldeia ou, noutro sentido, íamos para casa dos primos da cidade para sabermos o que eram semáforos e brincarmos com as primas asseadas.

Hoje em dia o desejo do primeiro dia de aulas nem chega a ser sentido. Os jovens nem chegam a descansar do cheiro a escola. As férias do verão estão reduzidas ao tempo mínimo para as escolas poderem fechar e abrir o ano letivo.
Há escola a mais e família a menos nos tempos das nossas crianças e jovens?! Nem todos pensam assim, o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, Albino Almeida, perdão, Jorge Ascensão, defendeu que as aulas deveriam ser interrompidas apenas durante um mês por ano

Respeite ao menos o Natal senhor Jorge!

domingo, 31 de maio de 2015

6 de Junho - Dia da mãe

- Acorda João! Vais perder os 3 como eleitor! O pai já votou antes da missa enquanto eu fui comprar sardinhas! Disse que eu podia ir depois do almoço contigo, que nos emprestava a mota! Levanta-te filho do diabo! São três da tarde! O pai já foi para o café jogar às cartas e deixou-te a mota!
Cumprido o dever e o direito e já em casa, a mais de 500 m  da mesa:
- Sei que não são coisas que se perguntem mas como estamos entre mãe e filho e foi a tua primeira vez,  em quem votaste João?
- ....
- Cruzes canhoto filho! Não digas isso a ninguém! Ai se o teu pai sabe! Bem dizia ele que era má política dar-te a liberdade de não ires à missa! Se as pessoas sabem? Já viste João o que vão dizer de nós!?...

Passados 10 anos:
- Acorda João! Hoje é dia de eleições! O pai diz que já não vai votar! Já foi para o café jogar às cartas mas deixou-te as chaves do carro para tu me levares aos votos. Ou tu também já não votas?!
- Eu voto sempre, tenho pena é que não votes como eu!
- Aí é que tu enganas! Por vezes os filhos também nos ensinam algumas coisas! A partir de agora voto sempre nos teus! Não digas é ao pai nem a ninguém! Fica um segredo nosso!

Passados tantos anos, Deus pela morte, tirou o direito de voto à minha mãe - a lei da vida! Só tenho pena de não lhe ter explicado que muito antes de eu, surpreendentemente, a ter levado a votar assim, já ela me tinha ensinado, naturalmente, a votar do mesmo modo.


sexta-feira, 29 de maio de 2015

Isto tinha de dar merda

"Merda"- a palavra mais versátil da língua. Quem nunca disse "merda" a despropósito da essência da própria substância que atire a primeira pedra. Dizemos "merda" por duas razões: por tudo e por nada.

ORIENTAÇAO GEOGRAFICA: -Vai à merda!...
ADJECTIVO QUALITATIVO: -Tu és uma merda!
MOMENTO DE CEPTISMO: -Não acredito em merda nenhuma!!
DESEJO DE VINGANÇA: -Vou fazê-lo em merda!
ACIDENTE: -Já fizeste merda!
EFEITO VISUAL: -Só vejo merda!
SENSAÇÃO OLFACTIVA: -Cheira-me a merda...
DÚVIDA NA DESPEDIDA: -Porque é que não vais à merda?
MOMENTO DE SURPRESA:-Merda!!!
SENSAÇAO GUSTATIVA: -Não comas esta merda!
DESEJO DE ÂNIMO: -Anda mais rápido com essa merda!!
SITUAÇAO DE DESORDEM: -Isto está uma merda!
REJEIÇÃO: -Não quero essa merda!
DESCOBRIR O PARADEIRO DE ALGO: -Nao sei onde está aquela merda!
INTERJEIÇAO COMUM: -Mas que merda!!
COMPARAÇAO: -É tudo a mesma merda!!
SAIR DO TRABALHO: -Vou-me embora desta merda!!
Chego a casa: a televisão só dá merda, os comentadores só falam de merda, o governo é uma merda, o  primeiro ministro é um cara de merda, com gente desta isto só podia dar merda.
Um amigo telefona-me e diz-me: tu sempre fostes um merdas, tu tens de fazer como os outros e cagar nesta merda.
A conversa do meu amigo deixou-me na merda. Deito-me na merda. Cheira-me a merda. Estou outra vez com um problema nos esgotos. Fecho a porta da retrete e enfio a cabeça debaixo das mantas. Uma lufada de mau cheiro. Lembro-me que ao almoço comi uma couvada.
Levanto-me e escrevo este post de merda. Espero que compreendam esta merda. Ao monarca da pocilga desculpa-se qualquer merda.

(adulterado por mim, depois de adulterado por outros, provavelmente embrionado por autor adúltero)