sábado, 5 de março de 2016

A luz como presente

O banco fica no centro onde todos passam quando vão à vila. Trata-se dum banco clássico de jardim, com tábuas paralelas pintadas de verde, separadas por espaços vazios paralelos de mais ou menos dois centímetros e onde normalmente as pessoas se sentam para passar tempo. Enquanto o autarca não tiver oportunidade de recorrer a um fundo para dar luz à ideia de renovar o centro, equipando-o com mobiliário urbano de design moderno, o banco manterá os seus clientes. Como estes que são as personagens que dão história ao banco e fazem esta história.


Foi lá que se conheceram. No começo, cada um na sua ponta, deixando no meio dois lugares vazios onde ninguém se sentaria. Um olhando os carros que passavam, as senhoras e crianças que passeavam, os rabos dos borrachos e as pombas que depenicavam as migalhas que a humanidade deixava cair, o outro fazendo precisamente a mesma coisa, apenas com um olhar diferente, porque ninguém vê as coisas da mesma maneira. Claro que, como observadores de banco de jardim teriam, cada um, entre as suas observações objetivas, múltiplas  reflexões e distrações subjetivas.

Com o andar dos dias, o acaso de se encontrarem ali costumeiramente aproximou-os: a cumplicidade duma troca de olhares acerca dum incidente comum com um transeunte, sabe-me dizer que horas são?,  o incontornável estado do tempo, empresta-me o jornal para ler as gordas?, o simultâneo e concordante salivar sobre um naco de mulher. Com o andar do tempo, haveriam de vir a saber um do outro, o nome, quem eram e onde moravam. O mais velho era viúvo e reformado dos correios, vivia bem porque bem abonado e mal porque sozinho, o mais novo era filho de pai solteiro e desempregado de nascença, vivia mal porque agora lhe faltava a pensão do velho, recentemente falecido e bem porque não tinha filhos nem mulher. O mais velho lia as partes do jornal que falavam das coisas que se passavam no mundo, o mais novo lia a parte do futebol e dos crimes da semana, portanto, embora lendo ambos o mesmo jornal, não viam nem viviam o mesmo mundo, apesar de partilharem o mesmo banco.

Com o andar dos dias e do tempo, eis que o mais velho começou a falar dos livros que lia, contando as histórias, enquadrando-as nos momentos históricos e falando dos autores. O mais novo, que nem dinheiro tinha para o tabaco, quanto mais para livros, ouvia com a condescendência que se tem de ter com os mais velhos; mas, com o andar dos dias, do tempo e a insistência, começava a saber de literatura mesmo sem ler, começou a interessar-se pelos livros mesmo sem os ver e começou a ter carinho e admiração por um homem que apenas conhecia de se sentar no mesmo banco de jardim.

- Que interesse tem um homem mais para lá do que para cá em continuar a ler e a aprender? Porque fala com tanta vida das coisas do mundo se não tarda outro mundo terá a sua vida? Que interesse tenho eu em ouvi-lo? Porque não sou eu como ele?...

- Hei-de trazer-te esse livro!

O mais novo sentiu-se outro quando entrou em casa com um livro debaixo do braço.

- Já leste o livro que te passei?
- Não tenho candeeiro na cama!...

Um candeeiro de presente  desarmou-o de desculpas. Fazia muito tempo que não recebia uma prenda. Tinha de ler, quanto mais não fosse, como forma de reconhecimento. Ao fim duma dúzia de meses e de livros, o mais novo entregou uma longa carta de agradecimento ao mais velho, por sinal muito bem escrita onde, entre outras coisas, manifestava o desejo de arranjar emprego numa livraria.

Passada mais uma dúzia de meses e de livros, o mais novo deixou de aparecer. Soube o mais velho, pelo jornal local, que o corpo havia sido encontrado em casa já em estado de decomposição.

- Talvez seja também esse o meu destino! – pensou.


Pensou também que tinha perdido um amigo e que não dava por perdidos os mais de mil euros que já lhe tinha emprestado. Nada que o impedisse de continuar ou de voltar a encontrar um jovem a quem pudesse dar livros depois de os ler.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Hoje é dia de Zeca

Faz hoje 29 anos, no dia 23 de Fevereiro de 1987 cumpria o serviço militar na Escola Prática de Artilharia em Vendas Novas. O camarada Nunes ouvira no rádio do balneário a notícia daquela madrugada e acordou-me com ela no regresso ao quarto: - morreu o Zeca Afonso!
Nessa manhã tomei a linha do Setil para vir à terra tratar duns assuntos urgentes: 
na janela da automotora, a paisagem desse Aquém Tejo, ditou-me esta homenagem:


amigo canto e morte
maior que o pensamento
abril não morre

por mais que novos ventos se levantem
de rumo a falsas índias
levando incautos marinheiros deste cais
abril traz sempre voz

virão mais cinco e mais
cantando sim ao dizer não
virão como tu outros iguais
fazer de maio cantiga
fazer de abril canção

amigo canto e sempre
até

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Porque hoje é Dia da Rádio

Tinha de regressar a Portugal, não suportava mais as saudades da mulher e dos dois pequeninos.
- Vou amanhã! Podes pagar o que me deves?
- Este rádio serve?

Além do fogão passámos também a ter rádio. A minha mãe era uma devota do aparelho. O rádio tem um aspecto bem francês e, na altura, o seu design dava um ar de modernidade à casa. A minha imaginação de pequenino, por vezes, punha-se a divagar sobre o que se passaria no seu interior oculto. Fartava-me de espreitar pela grelha de ventilação, parecia-me ver uns bonequitos em miniatura, insisti bastante mas nunca consegui autorização para abrir a caixa e desvendar os seus mistérios humanóides.

Era difícil a Guarda Republicana surpreender, ainda vinham a léguas a jusante, multando aqui e ali pelas duas razões de sempre - por tudo e por nada – e já um qualquer voluntário mensageiro trouxera à aldeia o “toque de esconder”. Nas tabernas, nos pátios, nas casas e em outros sítios haveria sempre alguma coisa para disfarçar ou para esconder.

- João, leva o rádio daqui, vai ao leirão de baixo e esconde-o no milheiral.
Não me recordo de haver tempo ou expressões para porquês, devo ter tido uma revelação súbita de consciência política. Quando o par de fardas armado passou à minha porta, a minha mãe fez de conta que mexia uns feijões que secavam ao sol em cima de uma manta, eu fiquei, firme e vertical, na berma do caminho, como quem assiste a um desfile militar, e era! Eles nem sequer dispensaram o olhar à minha criança.

Um rádio destes tinha de continuar, sempre vivo, no espólio da família. Há mais de quarenta anos que não se cala, os Parodiantes de Lisboa, o Badaró, o Simplesmente Maria, as canções de Abril, os noticiários do PREC e os tempos de Antena da AOC (Aliança Operária e Camponesa), o Rock em Stock, o Café Concerto, o Passageiro da Noite, a História Devida, um rádio que acompanha a história sem RAM, sem ROM, sem disco rígido, sem memória – é na ausência de memória e na sua dimensão temporal que reside a sua grandeza.

Só esta grandeza tem permitido que eu, de vez em quando, durma dentro do meu rádio afrancesado que me calhou em sortes. Costumo deitar-me no primeiro andar de amplificação, com a cabecinha radiouvinte recostada num condensador electrolítico de 15 microfarads e com os pés sobre uma resistência da ordem dos mega-ohms. Antes de me deitar desligo os terminais do altifalante e adormeço a ouvir o som directamente do transístor bipolar BC557.

Viva o meu rádio que muda de pilhas de seis em seis meses, que diz o que outros dizem, que toca todas as músicas, que é meu por herança, que não tem memória e que faz com que as pessoas pensem que quando eu falo dele é porque não tomei os comprimidos! Maluco eu? Maluco só se for pelo meu rádio!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Quem foi o idiota que me fez ir tirar um registo criminal?


É sempre assim, alguém telefona para uma tvi ou para um correio da manhã a revelar a existência dum crime, dum acidente ou dum homem que mordeu um cão, o correspondente da zona vai ao local, a notícia é repetida até cheirar mal, pede-se a opinião a um miguel sousa tavares, a um moita flores ou a um popular sobre este tipo de casos, organiza-se um prós e prós sobre o tema ou um debate com especialistas de programa da manhã, a classe política é atraída e entra no jogo, é preciso responder com programas e fundos, é preciso tomar medidas, um  deputado tem uma ideia, a assembleia vota a favor e o sindicato cala-se, porque no assunto em causa pôr em causa alguma coisa pode ser mal entendido, a lei nasce para todos, o cidadão tem de cumpri-la, dirige-se ao balcão onde se trata da papelada, paga e não bufa, desabafa durante uns tempos "só neste país!", "para que é que isto serve?", "é só para sacar dinheiro ao desgraçado!", "só burocracia!", "perdi um dia para tratar da papelada!", "filhos da puta!".

E assim surgem certificados de aplicador de produtos fitofarmacêuticos ou licenças de galinheiros válidas por apenas dois anos, licenças de condução ou inspeções automóveis caducadas, certidões de idoneidade, de nascimento ou provas de vida. Quase sempre exigências inconsequentes que arrastam papéis que dão vida aos eucaliptos, que originam faltas ao trabalho que atingem a produtividade, meios arrastados para uma ideia pobre dum fim nobre de que raramente se estudam os efeitos, que na leitura popular são só para sacar dinheiro ao desgraçado.

A Lei nº103/2015 de 24/8 exige a todos os trabalhadores que têm contactos com menores a entrega anual dum Certificado de Registo Criminal à entidade empregadora. Não li a lei, pela mesma razão que não leio as memórias da irmã Lúcia ou do Mário Soares, mas pressuponho que é dirigida a professores e funcionários de escolas públicas e privadas, motoristas de carreiras escolares, trabalhadores de lares de menores, treinadores e animadores culturais e desportivos, polícias que prestam serviços à saída das escolas, vendedores de algodão doce,etc. Diria mais, considerando certos perfis associados aos casos mais frequentemente conhecidos, é natural que haja um artigo dedicado a catequistas, padres, tios e padrastos. Diria mesmo que a lei deveria ser estendida a todos os cidadãos, já que do seu espírito se pode deduzir que em cada homem ou mulher há afinal um potencial pedófilo. 

Se isto envolver um milhão de pessoas,  a cinco euros, serão só cinco milhões de euros por ano. Nessa linha, não compreendo porque é que a medida não é de aplicação trimestral? Em três meses pode haver sempre uma tentação!

Está certo, em vez de ser a pessoa a entregar o seu registo limpo, também podia ser o tribunal a comunicar à entidade patronal o seu cadastro sujo ou o próprio pedófilo a acusar os seus desvios, mas para isso era necessário termos outro Estado e outros cidadãos. 

As televisões vão dando notícias, os "especialistas" entretêm-se com os assuntos, os deputados têm ideias, os cidadãos lamentam-se e as leis, tal como os problemas, continuam a acumular-se.

Gostaria apenas que fosse tornado público, dos milhares de certificado emitidos, em quantos constam informações que contribuam para o sucesso da finalidade pretendida.


domingo, 17 de janeiro de 2016

Passam-se os tempos, passam-se as vontades


No dia em que a estrada foi inaugurada, quando passou a caravana de carros pretos com vidros fumados, dos vizinhos que assistiram  ao acontecimento, ela foi quem mais resmungou.

“Filhos da puta” chama esta gente quando vê passar gente daquela mas ela não se ficou pela expressão maior do desabafo popular e aprofundou outras considerações.

Aiou porque tinha perdido a terra que lhe dava comer para a boca, aiou porque perdera o sossego que era o seu xanax, aiou pelo país que esbanja o nosso dinheiro em obras grandes. Quantos não se encheram à custa disto? Empregos? Eram só espanhóis escuros ou de turbante! É precisa? A mim não, que não saio daqui! Pagaram-me bem o metro quadrado, pagaram! Mas sabemos bem para o que foi! Agora se quero batatas tenho de comprar das deles e o dinheiro que me sobra não sai das suas mãos, o banco é deles!  

Mas pronto! Temos de nos conformar! O pior foi quando soube que me iam expropriar! Ficou a casa que o meu homem me deixou, podia ter sido pior!... E os dois anos de obras?! Ao menos agora acabaram-se os cilindros e o pó!

Entretanto, num instante, a idade avançou tão depressa os carros andam. Sem horta e sem quintal, as pernas começaram a entorpecer. Passou o tempo. Agora a sua vontade é que ele seja lento e se demore ao sol, de que ela faz bom proveito e diz e eu ouço:

- Eu cá digo quanto é a verdade, se não fosse a estrada isto aqui agora era uma tristeza, eu já me habituei, assim uma pessoa sempre se distrai, sento-me aqui neste banco a bronzear e a olhar para a estrada.

Passa a ambulância, os bombeiros e a brigada, passam caminhetas de gado, de eucalipto e da Renova, caravanas, altos carros e motards, apitam, ultrapassam-se e alguns acenam, olha uma velha ali a olhar pra mim, é assim a vida, que jeito me tem dado o dinheiro que eles me deram, olha eu agora a amanhar a terra dura, compro tudo no intermarché, olha eu agora aqui sozinha a olhar para as oliveiras e prós pardais, assim entretenho-me a ver os carros com pessoas dentro a passar e ouço o que eles dizem:

- Zum, brum, zum, brum, brum, bre, bre…
Ah!Ah! Você deve achar que eu estou maluca! Estou velha mas não estou doida! Isto antes de passar aqui a estrada era uma tristeza! Já viu? Se não passassem aqui os carros eu não os via! Pois é, se não passassem aqui os carros eu não os via!....

Julgo que é a primeira vez que me acontece, não consigo rematar a história e, ainda por cima o tema é recorrente - aqui e aqui. Gosto de ouvir esta mulher! Em 75 ela ainda era nova! Confessou-se ao padre uns dias antes das eleiçoes! Guarda, como é de boa católica, o seu segredo! Nunca mais votou noutros! Ela é das setas e o Marcelo também e acabou-se!

Esta história ficou assim, com princípio, meio mas sem fim! Que se lixe, não tem fim mas tem finalidade: a luta continua a ser dura camaradas! 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Aplicador de produtos fitofarmacêuticos

Tendo, de acordo com a Lei n.º 26/2013, obtido aprovação no curso de Aplicador de Produtos Fitofarmacêuticos ele, guarda noturno num lagar de azeite, com as suas novas habilitações, pode agora reforçar o seu vencimento fazendo uns biscates pelas vizinhanças.

Esta gente já entradota, que ainda cultiva o seu quinhão, já não tem visão para ler as letras miudinhas dos rótulos das embalagens nem pensão suficente para as pílulas do colesterol e da tensão, quanto mais para tirar e pagar um curso para poder livrar dois palmos de terra do escaravelho das batatas ou curar uma parreira de uvas de mesa do quintal!

E aí entra ele com os seus serviços e ganha mais algum: uma margem nos produtos que só ele pode adquirir e dez euros à hora que as mulheres já andam a cinco. Já se sabe que não pode haver publicidade, ainda há pouco uns fiscais o chatearam porque tinha um letreiro à porta a dizer “vende-se azeite”; já se sabe que não passa recibo, o trabalho é prestado como uma espécie de ajuda aos mais velhos; a divulgação será pelo boca em boca e, do resto, tratará a necessidade porque isso de bioculturas é uma treta, a química está para as plantas assim como os remédios para os seus potenciais clientes.

Só que o primeiro cliente, vizinho que andou com ele ao colo, desacorçoou-o logo. Aplicados os produtos, de acordo com os conhecimentos que aprendeu no curso, dirigiu-se à casa do casal e o dono deu-lhe à mão um copo e um naco de pão com uma fatia de queijo.

O vinho fora um amigo que lhe oferecera um garrafão, uma pinga divinal, não levou nada, nem metabissulfito, uma especialidade rara, para beber à vontade, tem quinze e meio e não embebeda. O queijo, uma prenda do sobrinho que lho trouxera da serra, divinal, uma especialidade, difícil de encontrar melhor que este.

O vinho turvo e azedo, o queijo azedo e bolarento, dado é certo, mas porque também lho deram e, ainda por cima, perante tantas interrogativas de diz lá se é bom ou não é, se nunca provaste nada assim, teve de corresponder afirmativamente e deixar no final um muito obrigado como mandam as regras da educação que lhe deram.

Ossos do novo ofício! Engoliu. Preparou a despedida para proporcionar o “então quanto é que te devo?” e ficou desarmado:

- Eu perguntava-te quanto é que era, mas tu mandavas-me logo pró caralho!


Moral da história: as regras da boa educação e as leis do governo são para se cumprir, mesmo que às vezes tenhamos de mentir dizendo bem do mau e aceitar as mentiras que as novas regras são para nos proteger, ou até acreditar que existem guardas noturnos de lagares de azeite.


(Mojmir Mihatov – Croácia)

domingo, 10 de janeiro de 2016

os dez candidatos

Há candidatos e candidatos, a comunicação social que o diga! Mas diga-se também que não é com a ajuda dela que eu vou lá!... É demasiado evidente a sua dependência e o seu propósito de ocultar informação! Se assim não fosse não passaria o tempo a tentar justificar a sua independência e a sua missão de informar.

Sei que são dez, já não é mau saber o número! Por direito, deveriam todos ter direito a igual consideração. Não é o caso no que toca a informação disponível, pelo que estou muito confuso.
No entanto, tirando uma daqui e outra dali, já sei quem são os dez.

Gosto da gravata e do mediatismo do  Paulo Morais.
Aprecio a pureza e os ideais do Edgar da Silva.
Dá-me gozo ver um tipo empreendedor e com a dureza do Henrique Neto.
Sinto prazer e afeto ao olhar para a Marisa Matias e para a sua sinceridade.
Emociona-me a lata, a laca e a fragilidade da Maria de Belém.
Admiro gente académica e que veste bem como o Sampaio da Nóvoa.
Fico contente por conhecer desconhecidos como o Jorge Cerqueira.
Entusiasma-me o sonho e a autenticidade do Tino de Rans.
Fico perplexo com as motivações do Cândido Ferreira.
Mas do que gosto mesmo,
que aprecio,
que me dá gozo e prazer,
que me emociona,
que admiro e me põe contente, 
que me entusiasma e me deixa perplexo,
é a humildade e a independência do Professor Doutor Marcelo!
Há tanto tempo que conheço o homem e nunca me tinha apercebido dessas suas qualidades!
Afinal a cobertura mediática das campanhas ainda serve para alguma coisa!

E só não voto nele, porque não estou convencido que alguém verdadeiramente humilde e independente alguma vez se lembre de se candidatar a Presidente do Reino!



domingo, 3 de janeiro de 2016

Taberna de gerações



Herdei isto do meu sogro. Na altura isto eram uns barracos arrendados. Depois o senhorio resolveu fazer este prédio e nós ficámos aqui nas traseiras com o acordo de ele nos deixar aquele túnel de passagem cá para trás. Fomos fazendo obras com o seu assentimento, cobrimos parte do pátio com estas chapas que não roubam a luz e o espaço é este. Os antigos continuam a sentir-se aqui no tempo deles, os de meia idade gostam de vir aqui e encontrar os mais velhos e os mais novos… desses eu já lhe conto!...

Abro isto sempre às oito - uns cafés prós empregados que entram às nove. Por volta das dez avio umas sandes para gente que vem à vila tratar de papéis e compras. Rente ao meio dia é que começam a chegar os mais agarrados que não aguentam até ao almoço sem um copo.

À segunda é grão com bacalhau ou bacalhau com chícharos, à terça dobrada ou mão de vaca com feijão, à quarta feijoada ou caldeirada, à quinta cozido ou chispalhada e à sexta frango assim ou assado! Ao sábado e ao domingo só por encomenda.

À tarde junta-se aí uma malta na sueca e no dominó. Ao fim da tarde os que saem do trabalho comem umas moelas ou um peixe frito e bebem uns copos. Fecho por volta das nove quando a alguns já começam a falhar as pernas.
Quando faço mais é aos dias de mercado, quando há funerais ou casamentos! Vantagens de isto ser no adro!

Acontece que há uns tempos para cá, à sexta e ao sábado vejo-me obrigado a fechar mais tarde porque comecei a ter outra clientela – os mais novos, de que lhe falei  há pouco! E se eles fazem despesa!... E não são só os rapazes! Olhe que as moças fazem sociedade com eles!

Pedem às garrafas de licor beirão, de amêndoa amarga, de gasosa ou de coca cola para traçar o vinho ou a aguardente. Não sei se a garotada vem para aqui porque acha engraçado frequentar os sítios dos mais velhos ou se vem para aqui para se embebedar de barato antes de ir para a discoteca onde uma cerveja custa mais do que cinco litros de vinho aqui.

O que é certo é que isto vem dar uma lufada ao meu negócio, que gosto de ver aqui a juventude. Que eles dizem umas caralhadas, que fazem umas festas e dão umas beijocas às raparigas que vêm com eles, é verdade! Mas o que é que hei-de fazer? Os mais velhos que tenho aqui durante o dia também as dizem e a minha mulher está sempre a ver novelas da televisão, às vezes com cenas bem piores!

Mas o que eu lhe quero contar com esta história, é que há dias me aconteceu aqui uma que trago atravessada! Então não é que dois rapazes, sim dois gajos já com barba, se estavam a lambuzar sem se importar que alguém visse!? ,

Eu vi, voltei a ver, começaram-me a crescer os azeites e a autoridade do “quem manda aqui sou eu!” O que é que eu faço? Vou lá e dou uma chapada a cada um? Vou lá e digo educadamente “ tenham paciência mas aqui não!” Chamo-lhes paneleiros e envergonho-os à frente de toda a gente?!

Perdi o raciocínio, saí de trás de balcão, cheguei à mesa e não sei o que é que disse. Dum momento para o outro dei com todos os outros a chamarem-me homofóbico!
- Paneleiro eu?! Então agora eu é que sou o paneleiro?!

Este mundo está virado do avesso! Por momentos pensei: que se lixe esta clientela! Eu também tenho que garantir os outros clientes de outras horas! Tá certo, também alguns desses, às vezes na brincadeira de mais uns copos, também apalpam o cu uns aos outros! Eu, consoante os exageros também posso chamar a atenção - mas isso é a malta a reinar! Não é a sério! Mas ali! Porra! Se eu deixo a coisa andar, qualquer dia ainda acabam a enrabar-se à minha frente! Ainda se fossem duas, nesse caso, era mau na mesma, mas eu até podia dar a volta aos meus azeites e tolerar se elas me olhassem com pedido de compreensão! Mulheres! Enfim, estariam por certo a provocar os rapazes de agora que estão mais virados para os computadores! Agora dois rapazolas com idade de ir para a tropa!?


Pergunta-me o senhor porque lhe conto isto? Porque penso que você me pode valer! É que sei que o senhor escreve aí para o jornal… Não! Não me olhe assim! Deus me livre que isto fosse notícia! Mas olhe aqui para estes letreiros e estas quadras que chamam a atenção, para certas condutas, aos clientes! Eu queria que o senhor, por palavras inteligentes e educadas, me inventasse uns ditos para eu mandar gravar num azulejo e que dissessem que por ordem da ASAE nesta casa não são permitidas paneleiragens! 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Passem bem!

Estou aqui triste e sozinho.
A minha filha disse que ia para a nazaré:
- Com este tempo?!...
O meu filho disse que ia para a madeira:
- Mas temos aí lenha para três invernos!...
A minha mulher disse que ia sair com um amigo:
- Acho normal!...
Por ser o único cá da casa que não liga ao calendário gregoriano,
estou aqui triste e sozinho.

Se alguém quiser aparecer por aqui para beber um copo, esteja à vontade.

Se não, que passem bem!

Como conheço os perigos da internet, deixo apenas as coordenadas: Latitude: 39°37´52.06"N – Longitude:   8°40´23.47"W.


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Que pedra filosofal!

Sim, já sabem, cumpri o Serviço Militar Obrigatório na casa mãe da artilharia portuguesa, a Escola Prática de Artilharia em Vendas Novas - EPA. 
De lá, guardo boas recordações - como esta.
Não sei o que é feito destes dois camaradas mas que eram dois camaradas, lá isso eram!
Esta é a melhor interpretação que conheço da Pedra Filosofal, capaz de deixar o António Gedeão de boca aberta e o Manel Freire de boca fechada.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

O homícidio do senhor Jesus


Acossado pelo espírito da homília dominical, arraigado do mais puro espírito cristão, imbuído do verdadeiro espírito natalício, o senhor Jesus saiu da igreja determinado a seguir à risca a palavra do Senhor. Coisas bíblicas como o “se tem duas túnicas…”, “um camelo passar pelo buraco duma agulha…”, “não se pode servir a Deus e ao dinheiro…” e, sobretudo, aquela do Menino ter nascido numa manjedoura, há muito tempo que atormentavam o homem e aquele domingo de dezembro apresentou-se-lhe como o dia da Revelação do Céu.

O senhor Jesus herdara e mantivera toda a vida a criação de gado do seu pai lavrador, abastado suficientemente para não deixar o filho solteiro.

Quando chegou a casa, por volta do meio dia, e disse à mulher que ia soltar as vacas, ela pensou que fosse do estábulo para a cerca. Nem lhe passou pela cabeça que fosse da cerca para fora!

Depois do almoço começaram a aparecer vozes à porta:
- Ó senhor Jesus, as suas vacas andam soltas por aí!...
- As minhas vacas são também vossas vacas, cuidem também vocês delas!

Toda a gente deu o senhor Jesus como louco ou possesso de espírito dos demónios, incluindo a mulher que pediu às pessoas que a ajudassem na recolha da manada. O senhor Jesus não foi com eles e dirigiu-se à exploração. Aí chegado e com a ajuda de Deus - no seu ponto de vista- com a ajuda do Diabo – no ponto de vista do próximo - destruiu todas as portas e cancelas que cativavam as suas cabeças.

Quando o povo e a esposa irada chegaram com as primeiras vacas, benzeram-se em nome de Deus, e a mulher rica viu-se obrigada a pedir à pobre gente para as distribuírem pelos seus pequenos currais já que ali não já não existiam condições para guardá-las.

Contente por ter levado a sua avante o senhor Jesus correu para abraçar a mulher que, como resposta, o ameaçou de morte correndo atrás dele com uma forquilha em direção à vacaria.
Assustado, o homem escondeu-se no meio da palha duma manjedoura e, enquanto ela gritava de raiva em busca dele, pensava:
- Já que carreguei toda a vida indignamente o nome Dele, que nasci em berço de ouro, que vivi que nem um padre, que morra ao menos nas condições em que Ele nasceu!

E assim foi, trespassado pelos dentes da forquilha, ali morreu na manjedoura, confortado pelos remorsos da companheira de toda a vida que, cainda em si, se fez de imediato arrependida.

A verdade histórica deveria revelar que a vaca faz parte dos presépios por esta história e não pelos acontecimentos narrados pelo evangelista, se iam de burro e foi numa estrebaria o que raio é que estava lá a fazer uma vaca!?...

- Não! Não é mau gosto! Quem assassina merece todos os nomes! Já é, é tempo da Igreja tomar uma posição e mandar retirar a vaca dos presépios.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Duas bacoradas


Para gente menos esperta não se sentir só:
Depois de Bush ter defendido o abate das florestas para acabar com os incêndios florestais, temos agora o Sarkozy a defender a pena de morte para os kamikazes.



Para gente mais inteligente que pensa diferente de gente com menos humanidade:
Os atentados de Paris terão, certamente, o efeito de levar os mais reticentes a aceitar melhor os refugiados, agora é mais fácil compreender de que fogem aquelas pessoas.


domingo, 8 de novembro de 2015

O que faz uma pessoa ser mediática?



Bom, em primeiro lugar o que faz uma pessoa ser mediática é aparecer nos media. Existirão muitas outras razões que não cabem aqui, mas para aqui chamo apenas a de "ter fluência verbal".

Clara Ferreira Alves, creio que é este o nome, uma rapariga de cabelo curto e pintado de russo, opina num programa qualquer de televisão de que não me lembro agora o nome - para o caso isso também interessa pouco e reparem que nem me dou ao trabalho de pôr o google a trabalhar para confirmar o nome exato! - e tem fluência verbal.

Direi também que li a sua crónica, " Anticomunista, obrigada", porque o título me levou mas não lhe dei, no momento, qualquer importância. Consumi o texto como um, que entre tantos, devaneiam fluentemente, levianamente, sem qualquer preocupação documental  (como eu que não me dou ao trabalho de investigar o nome do programa em que a pessoa entra), sem coerência racional, com pés mas sem cabeça , um puro exercício emocional. Tem relativamente ao meu, aqui presente, também emocional, o cuidado jornalístico de se esquivar das rimas e a vantagem de ser escrito por uma figura mediática. 

Como vêem, também sei estender texto, a dizer pouco dos factos e a publicitar o que sou.

Sou um tipo com alguma fluência textual porque leio e foi por ler, que ao ver um rol de reações ao texto da "anticomunista", me deu também para escrever. Sou, portanto, também um tipo que vai no embalo dos mídia e, pior ainda, das redes sociais.

Não querendo seguir o exemplo da visada, de escrever um texto sem dizer nada, pronto, dizendo alguma coisa, dizendo por exemplo que o José Saramago gostava mais de António Costa do que de Alberto Camus, que Álvaro Cunhal se zangou com Agustina por ela não gostar dos Esteiros,  de que fui estudar para Coimbra com medo do PREC, de que a situação política atual do país se deve à intervenção do KGB e ao presente desleixo do Mário Soares... vou direto ao assunto!

Pronto! A minha questão é a seguinte: Porque é que ao fim de tantos anos da Clara ter estudado em Coimbra só agora é que se declarou anticomunista? Porque é que raio um espaço mediático, as redes sociais, os comunistas e eu, gastamos espaço a comentar o facto da senhora, finalmente, se ter declarado anticomunista?

Tenho a resposta! A senhora recorreu tão velhacamente à sua fluência verbal para se justificar anticomunista que chega a parecer "comunista" dentro da imagem que dos comunistas parece ter! A senhora, portanto, tem medo se si própria! Não é a única! Eu também!

Pois bem, senhora de cabelo curto e russo que comenta num programa qualquer de televisão, que escreve num jornal qualquer, que faz na vida não sei o quê, que pensa não sei como nem quero saber, de agora em diante existe uma razão para eu ser comunista, é a senhora não o ser. 
Luís Neves - GPS & MEDIA

sábado, 7 de novembro de 2015

Neste últimos tempos

Nestes últimos tempos é certo a esquerda fez erros
Caíu em desmandos confusões praticou injustiças

Mas que diremos da longa tenebrosa e perita
Degradação das coisas que a direita pratica?

Que diremos do lixo do seu luxo  -- de seu
Viscoso gozo da nata da vida -- que diremos
De sua feroz ganância e fria possessão?

Que diremos de sua sábia e tácita injustiça
Que diremos de seus conluios e negócios
E do utilitário uso dos seus ócios?

Que diremos de suas máscaras alibis e pretextos
De suas fintas labirintios e contextos?

Nestes últimos tempos é certo a esquerda muita vez
Desfigurou as linhas do seu rosto

Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita
Degradação da vida que a direita pratica?

                                        Julho de 1976

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

domingo, 1 de novembro de 2015

A ceia da seita

A propósito do post anterior.

Tudo posto em pratos limpos.
- Foste tu que me roubaste o cromo de Eusébio da caderneta do campeonato de 1973.
- Eras tu que ias roubar as sobremesas à cantina!
- Foste tu que me deste a conhecer a Gina!
- Tu não estudavas nada senão os livros do major Alvega!
- E quando tu montaste uma engenhoca que quando o padre abria a porta o rádio desligava?!!

É claro que não foi só isto.
O operário que já teve um acidente que ia morrendo. O coronel que já esteve no Afeganistão a fazer nada. O funcionário público que tem dois filhos de três mulheres. O padre que o deixou de ser a tenpo de fazer filhos. O aposentado da marinha que cria porcos. O juiz que trabalha que nem um condenado. O outro de que não se sabe o paradeiro. O motorista da rodoviária. E claro, eu, aqui fotografado entre os demais. Um deles. Ou eles todos. Esta era a ceia que me faltava. Comi que nem um padre.

Primeira foto, primeiro ano e última foto, no último ano. Quem sou eu? Adivinhem porra! Nem eu sabia que era eu numa delas! Gostei tanto de me terem revelado estas fotos!

Seminaristas de Leiria 1972 - futuros padres

Seminaristas de Leiria 1977 - futuros ex-seminaristas

domingo, 25 de outubro de 2015

Antipático o raio que os parta – e aos fotógrafos também!


O fotógrafo rabeava à minha volta no pequeno estúdio, dando jeitos em suportes e projetores e na minha pessoa: gola, cabelo, cabeça, ombros e o raio que o parta, nunca mais estava tudo bem!  E, na hora do passarinho, nem ele, nem a minha mãe, me conseguiram arrancar a expressão da lei: um tipo para ficar bem na fotografia tem de arreganhar.

Foi assim e assim continou a ser em todas, conforme testemunha um quadro que tenho na sala com cartões de identidade da juventude: de estudante, da JOC, de militar, de sócio da ARCA, passageiro da CP, condutor de velocípedes e músico de cabaré.

Sou, portanto, um fulano sizudo, incapaz de responder com uma gargalhada a uma boa anedota, que só mostra os dentes se tirar a prótese. Mas gosto de ver retratos antigos. Sou também, portanto, um saudosista.

A minha primeira foto tipo-passe foi para tratar da documentação da matrícula no ensino preparatório. A minha mãe lá foi toda contente, comigo de má cara ao lado dela, e só voltou a dar um passo pelos meus estudos quando foi com o meu pai a Coimbra carregar o carro com as minhas gabardines e sebentas. Foi então que me fez a pergunta: “filho, que curso é que tiraste que as pessoas perguntam-me e eu não sei dizer?”.

Tendo iniciado o primeiro ano do ciclo nos primeiros dias de outubro só voltei a casa pelos Santos mas, para espanto meu, a minha mãe não estava. O meu pai foi comigo a Coimbra, de comboio, apanhámos um taxi para a maternidade para eu conhecer o meu primeiro irmão que não nasceu em casa e para tratar duns afetos em falta. Não pude entrar porque poderia ver mamas de mulheres e não tinha idade para isso. Chegaram as lágrimas ao meu pai quando me deixou com o porteiro, voltou passada uma hora, alegremente e com beijinhos da mãe.
- É parecido contigo!..

No início de dezembro, tendo deixado o bébé com a rapariga que a ajudava no regimento, viajou na camioneta da carreira para ver um dos seus filhos que não via há mais de dois meses.  
Manifestou tristeza e preocupação porque não me encontrou entre os outros meninos no recreio. Porque é que eu estava sozinho na sala de estudo, se ainda por cima não estava a estudar, mas a desenhar igrejas de duvidosa arquitetura?!...

Sou, portanto, pouco social. Mas enganou-se a minha mãe, não havia razões para tristeza ou preocupações, eu sentia-me muito bem ali no internato, eu gostava dos meus amigos e eles de mim e da minha cara de poucos amigos.
Eu tinha sempre alguém com quem brincar, dormíamos juntos, comíamos juntos, estudávamos juntos, rezávamos juntos, víamos livros pornográficos juntos, vinte e quatro sobre vinte e quatro horas juntos, durante cinco anos que tanto marcam a vida dos mortais – dos dez aos quinze.

Quando eu saí, só ficaram dois. Só um chegou a padre mas já não o é. Perdi-os todos de vista, voltei a ver um ou outro furtuitamente. Já lá vão quarenta anos. Este é o almoço que eu desejava há muitos anos. Fiz um esforço, investiguei, procurei contactos, consegui.
Hoje, véspera do Dia de Todos os Santos, um grupo de velhos amigos vai reunir-se. Estou em pulgas para os ver a todos, vou voltar a ser quem fui.
Sou, portanto, um camarada.

(a idade não perdoa, estão aqui a dizer-me que é para a semana!...)


domingo, 18 de outubro de 2015

Toda nua





Por motivos de ordem diversa, desavenças familiares, desintegração social, pecados mortais, golpadas no alheio e razões outras, existem pessoas que, num dado momento das suas vidas, desaparecem da comunidade onde vivem, nunca mais dando sinais de si, acabando por ser esquecidas ou, no máximo, por serem o sujeito ocasional duma conversa com um “que é feito dela?”.

Ela vagueou pelas ruas da aldeia dispersa, ora em passo normal,  ora em passo de corrida, parando aqui e acolá, fixando-se  num, fugindo de outro, parada por uns, corrida por outros, completamente desvairada ou, na fala de alguém, como uma égua louca ou como uma vaca numa largada de Alcochete. 
Completamente nua. Sem crítica que lhe se pudesse fazer ao corpo, ou não fosse uma rapariga na idade em que as formas perfeitas são a regra e tudo é bonito de ser ver, apesar da circunstância não permitir a concentração em pormenores nem provocar desejos, se não mesmo os da curiosidade ou o prazer de ser testemunha dum insólito acontecimento.

Não são para contar os comentários esperados para a cena, todos os advinham, que se ilustre a mesma apenas com esperadas reações:

A professora mandou os alunos que estavam no recreio para a sala, uma beata fez o sinal da cruz e entrou na capela, alguns taparam os olhos com os dedos mal unidos, uma mulher deu um calduço no marido, uma mãe tapou a visão do filho com o chapéu, uns riram, outros lamentaram e, no entanto, era apenas uma mulher como Deus a pôs ao mundo! Apenas com mais umas sapatilhas! Também, ninguém quereria que andasse descalça no piso com pedras e poças e bostas dos caminhos do campo!

O ato de loucura foi aparado pela residente na última casa do lugar, solteirona solitária, conhecida por mulher solidária e carinhosa, inclusive com alguns maridos insatisfeitos, que lhe deu a mão, que lhe tapou as vergonhas com o que tinha à mão, levando-a para dentro e aguardando que alguém da família viesse ao socorro.

E o pai veio. Industrial de sucesso como se apresentava no meio, proprietário do carro que por ali mais circulava, conhecedor dos afetos da casa, encetou cumplicidade com a protetora para abordar com cuidados a protegida assustada e, preparada a partida, entregou razões que, dali declaradas, iriam de boca em ouvidos e de ouvidos em boca, correndo o povoado e quebrando  a má língua do juízo popular:

Fazia dois anos que fora estudar advocacia para a cidade grande, poderia ter sido de estudar muito, poderia ser droga dura que os do 25 de abril lhe deram, poderia ter sido o diabo que a tomou, o que não havia dúvidas é de que perdera a lucidez mas nada que um bom médico, um bom corretivo ou a Santa da Ladeira não pudessem curar.

 Na sequência do episódio, já lá devem ir quarenta anos, a moça - ninguém esperaria que aqui se dissesse o nome dela -  deixou de se ver e nunca mais alguém ousou perguntar ao pai “que é feito dela?”. 

Aconteceu recentemente ser recordada, por ter sido reconhecida num canal de televisão, prestando declarações numa manifestação contra as touradas.
Boca pouco brejeira dum popular brejeiro:
- Está perdoada, pelos vistos está arrependida!


- Ou terá sido apenas a manifestação dum sonho revolucionário de pureza, duma jovem que legitimamente quis testar “porque raio a nudez perturba as pessoas?!”.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Esquerda 1- Direita 0

Ando com uma mania das parábolas, talvez inspirado pela minha formação biblíca, que me dá para isto. E logo eu, que não vou em futebóis! Mas quando está em jogo Portugal!... Pronto, talvez o título do texto pudesse ser - Portugal 1 - Alemanha 0 - mas também já não o vou emendar porque o paralelo que se pode fazer é óbvio.

Estou em frente à televisão com os meus companheiros, sem a certeza da vitória certa, sem saber se o 1-0 permite o apuramento, mas estamos contentes. Estamos contentes porque o duelo é histórico, porque a cara de pau dos sempre vitoriosos nos contenta, porque o árbito (sistematicamente vendido ao adversário) mostra os seus dois tristes cus  (o do medo e o da cara) desenvergonhados.

Quando se assiste assim a um jogo com uns companheiros, bebem-se uns copos, partilha-se a alegria.
Se a bebida for boa ou bebida com moderação, amanhã continuaremos normalmente a nossa vida.
Diz-me um dos convivas que estamos a fazer muitas misturas. Aconteça o que acontecer esta festa já ninguém nos tira. Mesmo que dê ressaca já valeu a pena. Nada que não se cure com uns caldos de galinha.

sábado, 10 de outubro de 2015

As filhas do resineiro

Entre o nascer do dia e o nascer do sol era vê-los, nos caminhos das raias dos pinhais, a penetrarem neles pelas encostas e trilhos conhecidos, até chegarem ao sítio onde, no fim de tarde anterior, tinham acabado, as três filhas, o pai e o Adriano. 
Nos tempos de outras tarefas da faina bastavam os dois homens para dar conta do recado mas, nesta fase mais intensa da campanha, em que o calor ajudava à sangria da resina, exigia-se o trabalho das mulheres para fazer a colha  e levar, à cabeça, as latas ao barril.


Distanciados uns dos outros conforme impunha a lida, para darem sinais da sua presença, para temperar o labor com alegria, elas cantavam e o Adriano assobiava, cada um do sítio do púcaro que tratava, ao passo que José Liberal, de poucas falas, limitava-se a aparecer no momento certo para gerir ou para dizer que “aquele ali já não é nosso” ou “é ali a estrema”.

Bem que o caráter do empregado o contentava, trabalhador, moço educado, comprovadamente poupado no dinheiro que lhe pagava, um genro a calhar para tomar conta duma delas e lhe dar descendência, tomar conta da exploração, matando ao mesmo tempo outros “coelhos” como o da reclamação de aumentos e o da ameaça de “pró ano já não venho”. Podia pagar-lhe mais, sabia, mas vistas as coisas de outro lado, quanto mais o futuro sogro amealhasse, mais o possível herdeiro se entusiasmaria para um acasalamento. Podia ser com a mais velha, mais calada, com a do meio, mais expedita, ou com a mais nova, mais espevitada.

Era um regalo vê-las cantar e o rapaz a assobiar mas, quando o José tentava uma abordagem camuflada sobre o assunto, Adriano parecia assobiar para o lado, revelando pouco interesse por quaisquer das três.

Até que num fim de temporada: “ti Zé qualquer dia chamam-me prá tropa!”, “ti Zé a gente nesta terra não se safa!”, “aumento-te rapaz, quanto queres mais?”, “se tu casasses, livravas-te da guerra!” e eis senão quando se percebe que Adriano se havia “despedido à francesa” conforme impunham os cuidados de quem passava a fronteira a salto.

Passados três meses teria de começar nova campanha e, em cima de lhe faltar um braço direito, vem-lhe a mais nova a dizer-se pejada, passadas mais três semanas vem-lhe a mais velha com a barriga inchada.

- Agora é que ele me tramou! Foi-se embora e…  Gaita! Já agora podia ter feito o mesmo às três! E também à mãe, eu já não digo nada!..

A mulher era apagada e não mudou de tom quando soube das filhas naquele estado e apagou-se de vez passados poucos anos. Curiosamente, José Liberal conformou-se heroicamente com o que lhe caiu à porta e lhe tocou a cara: isto da juventude andar nos matos tem destas coisas; sabia lá se as três se tinham enrolado a “desencarrrascar o pinheiro” ao desgraçado; sabia-se lá se ele partira sabendo o resultado; se tivesse sido só com uma faria cíumes nas outras duas, se tivesse vingado nas três, também era demais; as três que amanhassem a vida porque, com esta história de enganos, dificilmente lhe viriam homens; o rapaz que não regressasse porque em casa de cristã,o pecado por acaso, pode acontecer mas uma prole deve nascer dum só homem e duma só mulher.

José Liberal criou os dois netos como pai até chegar a vez deles irem também - para França não que por lá ainda deve andar o indesejado!
José Liberal foi pouco depois mas foi pró outro lado.

No almoço de angariação de fundos para o Rancho Folclórico do Pinhal Velho, lá estavam as três irmãs, já pensionistas, alegres como sempre e distintas como a vida as fez, reconhecidas e acarinhadas por todos os confraternizantes já esquecidos do escândalo, os dois filhos já com filhos e de férias, sinais de vida, da vida, do povo, dos tempos ou então apenas a lição que José Liberal deixou às suas gentes de como se encaram e ultrapassam certos problemas. 

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Porque se chama ele Marcelo?

Ora então! Hum! Hum!... Vamos lá então começar a segunda fase da campanha. Vamos começar pelo princípio: porque é que o seu primeiro nome é Marcelo?

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Parábola de quem ganhou e quem perdeu

Jesus era um homem de parábola. Eu, nascido e criado na sua imagem e semelhança, também lhe dou um jeito. Assim me defenderei quando os locutores e interlocutores do senso comum, me confrontarem com quem ganhou, com quem perdeu, com os que ganham sempre, com os que nunca perdem, com os verdadeiros vencedores.

Quando começámos o jogo da lerpa daquela noite, alguns já levavam muito dinheiro acumulado de jogos e batotas anteriores, o que lhes dava um poder maior de dominar a banca, de fazer bluff, de arriscar jogadas, de fazer de conta, de intimidar os adversários. Tudo isto somado tornava-os favoritos a somar vitórias, a cantar de galo.

E foi assim que uns começaram com 100 escudos, outros com 80 escudos, outros com 8, outros com 4 e etc. e tal.  No final do jogo os que tinham 100 ficaram com 90, os que tinham 80 com 88, os que tinham 8 ficaram com 9 e os de 4 com 8.

É claro que o poder continua dependente do primeiro que tem mais que os outros, é claro que os outros todos juntos tem mais que o primeiro e etc e tal.

Mas quem ganhou? É assim tão difícil?

sábado, 3 de outubro de 2015

Resultados Eleitorais 1976-2015

É estabilidade que querem? Então contribuam, pelo voto ou pela abstenção, para que tudo continue na mesma!
Os resultados desde 76 são na prática e praticamente sempre os mesmos. Em 1976 eu era diretor dum jornal de parede chamado Farol. Era muito novo!

.

Guardei isto até hoje. Por certo pensava que as coisas iam ser diferentes. Afinal o mapa eleitoral continua o mesmo - explicação fatal para justificar a cepa torta.

A fonte devem ter sido estes recortes do Diário de Notícias. Clica nas imagens para ampliar.




PS: Hoje morreu José Vilhena. Merece, da minha parte, muito mais que este PS. Oportunamente! Oportunamente porque procuro nunca escrever a quente!

domingo, 20 de setembro de 2015

Já nem as tascas resistem aos telemóveis

Para dar tempo ao tempo duma espera de família, entrei na tasca do Buraca, sentei-me na mesa junto à porta e, numa atitude "pessoana", pus-me a bebericar uma imperial e a mordiscar uns tremoços. Ao balcão estavam dois ou três grupos de homens a bebericar umas imperiais e a mordiscar uns tremoços. Reparei que alguns deles falavam ou estavam entretidos com os seus telemóveis. Um desconhecido retirou-se do seu grupo e, de passagem para a rua, dirigiu-me a palavra:
- Os meus amigos não falam comigo! Estão todos com o telemóvel! Estou sozinho! Olhe, vou também fazer uma telefonema! Mas vou lá fora!...
Quando voltou a entrar o homem reparou que os seus amigos continuavam todos ao telemóvel e voltou a dirigir-me a palavra:
- Porra para os gajos! Isto é que eu tenho uns amigos!? O senhor dá-me licença que me sente aqui consigo?!
E então, como não éramos conhecidos nem amigos e aquele era o assunto que nos juntava, começámos a conversar acerca do uso dos telemóveis, até eu receber uma mensagem do familiar a dizer que já estava pronto e, quase ao mesmo tempo, ele receber uma chamada, dum dos amigos que estava ao balcão, a perguntar-lhe onde é que estava. 

domingo, 30 de agosto de 2015

O Tabaréu


Não era de cá. Terá vindo uma primeira vez para uma jorna, uma segunda vez para duas e terá pernoitado. A pouco e pouco fez desta a sua terra e aqui morreu, talvez de frio, talvez do coração, talvez do vinho, talvez de doença, em gente da sua condição a razão também interessa pouco. Fez-se o que se podia, chamou-se uma ambulância - talvez ainda estivesse vivo - na morgue ninguém reclamou o morto, enterrou-se na mesma.

O Tabaréu, à falta de jeito para outras coisas, era de ofício cavador. Chamava-se o seu serviço para um talho de terra onde não entrava o charrueco, para uma casa onde ele não existia ou onde faltavam homens. O almoço a meio da manhã e o jantar ao meio dia, também estavam incluídos, a ceia já não era necessária porque, a essa hora, já o cavador caíra de bêbado e cansaço num palheiro de família amiga que lhe dispensava mais atenção e alimento nos dias em que o trabalho escasseava.

Como quem lhe falava também não tinha muita comida, mas tinha vinho e o vinho dava força, o Tabaréu acabou por se tornar um alcoólico. Com o passar dos anos foi perdendo forças e humor, as cavas foram ficando cada vez mais aldrabadas e, ainda para mais, mijava em qualquer lado sem se importar que lhe vissem a picha. 

Havia quem não desejasse a sua presença, havia quem lhe desse sopa, havia quem lhe desse vinho, havia quem se divertisse aparecendo-lhe no caminho, noite escura, envolto num lençol para se fazer passar por santa, com cúmplices com lanternas para provocar encadeamento e simular luzes do alto, com vozes doces como as do céu, com ditos assustadores para parecerem coisas do outro mundo. Crédulo como um pastorinho, ébrio que nem um cacho, o pobre desgraçado ajoelhava-se, pedia perdões aos seus falecidos, dava graças à Senhora e prometia para o dia seguinte nunca mais pegar no vinho.

Deixemos estas encenações rudes e blasfémicas e vamos ao motivo da prosa que foi no tempo em que eu ainda não era grande.´

- Vai à nossa almuinha levar esta bucha e esta pinga ao Tabaréu, fica por lá e, quando me ouvires gritar daqui, venham que é para jantar.

O homem pôs o pão à boca e foi um quarto, pôs a garrafa aos queixos e foi metade, enquanto eu olhei para um melro já me estava a passá-la e a dizer:
- Toma, o resto é para ti!

Não era muito, mas deu para ficar tonto e adormecer debaixo da oliveira grande. Quando deu por ela acordou-me aflito, foi buscar água à fontanheira, deu-me a bebê-la, molhou-me a cara, aconchegou-me, não saiu de ao pé de mim, com os seus cuidados dedicados por volta do meio dia já me senti fino - ficou estes anos todos entre nós. Parece que ainda sinto o sabor do segredo ao escutar o tom da minha mãe para a ti Etelvina:

- Aquele Tabaréu está cada vez pior, então em meio dia não conseguiu cavar metade da minha almuinha! Para a próxima que andar pra mim não lhe dou vinho!