quinta-feira, 31 de março de 2016

Porque o primeiro património do Alentejo são as suas gentes


Por vezes uso uma boina para parecer mais velho e, dessa forma, me dar mais ao respeito. Ninguém me verá na cabeça um boné com publicidade ao Talho do Zé ou com o logotipo duma equipa de futebol americano. Também nunca uso óculos escuros; se o Criador achasse que a luz incomodava a vista, teria dado menos gás ao sol.

Mas elas, ambas, usam ambas as coisas e usam também o telemóvel para tirarem fotografias aos sítios mais que fotografados, às flores mais do que vistas e parece até que acreditam que a tecnologia já permite que o cheiro do ensopado de borrego, que se preparam para comer, chegue aos seus amigos do facebook.  Amigos, esses, que se preocupam muito com o que elas comem, que invejam a distância a que elas estão de casa e que apreciam muito a arte menor de fotografar com o telefone!

E lá entram as duas, muito animadas, pelo pórtico. No interior, hão-de admirar talhas douradas barrocamente iguais, esforçar a literacia para não decifrar nada da inscrição em baixo relevo do túmulo do conde de Arraiolos, quem sabe até trocar as mãos pelos pés para fazer o sinal da cruz frente a um santo do século dezasseis, dizer good morning a um andaluz, muita coisa hão-de fazer no monumento porque quase duas horas se perdem lá por dentro.

O meu filho que usa um chapéu de palha, como aqueles que a avó dele me comprava na feira de maio para cada estio, que o usa por mania e porque, na sua teimosia, advoga ter direito ao seu próprio estilo; o meu filho que tem dificuldades motoras e se mói muito quando pisa calçadas, que não liga patavina às coisas que encantam os turistas e que gosta é de ver passar as turistas bonitas e falar com os mais velhos que são os que melhor o entendem; o meu filho que arrasta as palavras pausadamente e fala um pouco mais alto que o normal, o que acaba por se notar muito  em locais onde se entende que se deve falar mais baixo que o normal, prefere normalmente ficar na rua comigo.

E lá vão elas, de andar leve, com a idade que as distingue, e nós, ele com o chapéu de palha e eu com a boina, ficamos ao largo, procurando um banco corrido de descanso, onde terá de estar já sentado um natural. Topam-se bem os da terra! Pode até não ser pela boina ou pela descontração! Talvez apenas pela maneira como olham ou pela forma com puxam pelo cigarro ou abanam a bengala!

A abordagem é feita assim: o da terra deve estar sentado numa ponta, o meu filho senta-se no meio e eu na outra ponta. 
O meu filho, que tem quase a idade que eu tinha quando o tive, joga muito bem comigo nas chalaças de queimar tempo: tipo, eu observo "olha aquela velha!", ele diz eu "estou a olhar para a nova!"; eu indago, "a tua mãe e a tua irmã devem ter encontrado dois espanhóis!" ele propõe, "e nós devíamos perguntar àquelas duas espanholas que ali estão se querem conhecer dois portugueses!"; eu brinco "lá vie est belle!" e ele, ensinado, completa "mais les femmes dão cabo déle!"; olho pró céu e digo "vai chover" e ele responde "vai tu!".

O companheiro natural que está sentado no mesmo banco, à primeira, olha, à segunda, sorri, e à terceira, ou porque o chapéu do meu filho lhe dá segurança, ou porque a minha boina, quase igual à sua, lhe dá confiança, também manda a sua piada e os três rimos.

Mais à frente há-de perguntar de onde é que somos - perto de Fátima! - que já lá foi ou, "que grande história essa!" e, consoante a devoção ou a opinião, lá iremos desenvolver a conversa e lá saberemos mais de si, da sua terra, dos seus e da visão que têm da história e do valor da igreja para onde elas foram e que, graças ao amigo que encontrámos, já não temos pressa nenhuma de que saiam.

Hão-de sair as duas, mais cultas e com coisas para contar aos amigos, mas não como nós que falamos com José Cavalheiro, trabalhador agrícola reformado com tuta e meia, 83 anos feitos faz três dias, antifascista, que não troca a sua terra por três lisboas e que acaba de nos convidar para ir a sua casa que se vê dali, "aquela de barra azul que tem uma botija de gás à porta!".

Uma excursão de orientais sai da igreja.
- Pai, vêm ali elas!
- Como as distingues?!
- Não têm bonés daqueles que não gostas e não usam óculos de sol!....
(Com esta observação inocente, o sacana já me deu cabo da história, que obviamente toca a ficção, ao expor uma flagrante contradição! Peço desculpa aos leitores! )
- Vossemecê gostava de ir à China?!
- E o que é que eu ia lá fazer se não sei falar chinês?
- Mas ao menos a Fátima você devia ir uma vez na vida!
- Mas isso é Meca ou quê!? Para quê, se eu não acredito em santas!
- Olha, para beber a pinga santa que o meu pai lá tem!
- É pá, mas depois a camioneta tinha de vir sempre a parar para eu mijar!...

É claro, que pelas razões expostas, não temos nenhuma foto com José Cavalheiro. Os quatro adoramos o povo alentejano, as casas,  a paisagem e o pão, o vinho sou mais eu!...

sexta-feira, 25 de março de 2016

Crucifiquem-me mas não me aleijem!


Não gosto de ver ninguém crucificado,  sinto os meus próprios pulsos a pulsar de dor. O menino e o burrinho, um jovem a aprender de carpinteiro com o padrasto de nome Zé, um homem novo de barbas louras a subir para o céu, isso eu gosto! Mas faz-me arrepios que, perante a figura de um crucificado, se ore, se implore, se dê culto, se coleccionem crucifixos e que essa cruz, tenha substituído o peixe, como símbolo da minha religião. Ao menos o peixe sempre podia aguçar o apetite!

Eu, que culturalmente sou cristão, gostava que os adoradores da dor do bom Homem e do bom Crucificado que foi Jesus, em vez do culto da imagem, lhes desse para o cumprimento da palavra que nos deu e começassem a dar, a dar, a dar, a dar tudo o que têm: aquele ex-ministro das finanças que costuma falar do aborto, aquele ex-gestor do bcp que se abotoou, o outro, o do "aguenta, aguenta", que também invocou a sua fé, aquele que fala aos domingos na tv e sabe tudo e diz que dá, o outro que é presidente da república e que também vai à missa, isto só para citar uns poucos de que nem sei o nome mas sei que muito têm.

Imaginem que esta gente, em vez de beijar os pés descalços das imagens de barro, começava a ouvir a palavra do Senhor e começava a dar, a dar, a dar... a dar tudo o que têm até ficar sem nada, isto é que ia ser uma revolução!

Mas isto vai lá! Para já o novo papa renunciou aos sapatos vermelhos e não sou daqueles que dizem que foi porque lhe davam um ar gay. Toda a gente sabe que os sapatos pretos são mais baratos que os vermelhos!

Não quero ver ninguém crucificado! Quero apenas que me dêem a minha parte, que repartam! Dizem: não se pode repartir porque não há! Vamos lá! Um cristão não engana outro! Digam-me lá onde é que foram comer ontem à noite?!


segunda-feira, 21 de março de 2016

Mais um dia mundial - desta vez é o da poesia.


Não sei porquê, nem me interessa, nem acho piada,
Mas hoje é Dia Mundial da Poesia.
Reparem que mudei de linha para parecer verso
e vou fechar com a rima "é dia".
Volto a repetir: é dia!
Hoje é dia de passear com ela
Porque é o seu dia.
Já que nunca encontro um pretexto para falar de poesia,
Já que há muitos anos que perdi o estado de poesia,

Podem não achar piada mas esta rima entrelaçada
Pode ser considerada  um sapiens da poesia.
(julgamos que o autor quis tentar um trocadilho tipo homesapiens verso poetasapiens - não sei se estão a ver?!? enfim! ao que parece não é o único que parece não ter mais nada para fazer!...)

Vou dar uma volta com ela. Com a poesia! Ainda não sei se a levarei presa por uma corda, como quem leva a vaca à fonte, ou se a levarei presa por uma trela como quem leva a cadela a defecar a monte. Ou então irei sozinho ver as árvores, os cães, as vacas e as pessoas. Talvez nesses encontros eu possa refletir acerca da forma como eu, se fosse poeta, traduziria os sentimentos em poesia.

Chega! Já disse o suficiente para assinalar o dia.
Apetece-me um verso! Mas não tenho pão em casa e um verso sem pão não tem graça!
Uma sandes de versos ia! Uma poetisa ia!
Não vou a lado nenhum com esta prosa!
Vou beber um copo para embebedar a poesia! Talvez com vinho ela vença a timidez!
Chega! Não tem graça!

sábado, 19 de março de 2016

Talvez por ser 19 de Março

"- Filho, isto a partir dos quarenta é um instante! Foi um instante enquanto te criaste!
Pois é pai! Não sei se nesses lado por onde andas o tempo existe! Por aqui continua a haver muita falta dele e, o que há, é escorregadio e foge-nos das mãos!

Parece que foi ontem e foi há meia dúzia de anos, porque sinto exactamente a mesma coisa, porque é mais fácil, vou repetir o post - perdão aos leitões, digo leitores, habituais! Até tenho tempo mas estou com preguiça!
Esta imagem serve também para provar que, desta vez, os tipos do Google não foram muito originais!

Regressavas de França de vez. Os carros não tinham caminho para chegar à nossa porta mas a mãe sentiu o táxi parar ao fundo da ladeira e largou alegria quando me anunciou:
- É o pai que chegou João, vai esperá-lo!
É a primeira memória que guardo de ti e talvez da vida! Eu, escondido debaixo da figueira, a ver-te subir, de mala na mão, cada vez mais perto, a timidez a consumir-me o desejo e a coragem de correr para um homem alto e com bigode!... Acocorei-me por detrás do carro de bois que o ti Manel tinha estacionado à porta dele e vi-te a passar, por entre um dos dois buracos da roda de madeira, sem dares por mim!... Vi-te beijar a mãe e logo a seguir perguntar:
- E o João?!
E a mãe a descobrir-me e a apontar:
- Olha ali!
E tu, largando a mala e a correr para este, então fedelho, envergonhado e a levares-me ao colo e a mãe a dizer-me, tal como a ouço ainda agora:
- Não chores João! Já tens pai!

Depois seguiram-se anos e uma casa cheia de filhos até que, com dois meses de reforma recebidos…

Mas, nem era disto que eu queria falar agora! Eu queria recordar-te de que como, apesar de mortais, nós, os da nossa linhagem, somos duros!
Ensinaste-me a decorar a data em que a avó nasceu porque me a recordavas sempre que passávamos a Alenquer - havia uma fábrica que se avistava longe e que tinha esse ano registado em letras garrafais numa empena. Ainda hoje esse ano me serve de referência para me localizar melhor na história: “100 anos antes da minha avó nascer”, “50 anos antes da minha avó nascer”, “quando a minha avó nasceu”, “quando a minha avó tinha dez anos”…
A avó Gracinda nasceu em 1888, casou com 14 anos e tinha seis filhos quando veio a pneumónica – levou-lhos todos! A avó Gracinda não tomou anti depressivos! Teve mais sete! Não havia cama para todos? À medida que iam crescendo iam sendo alojados no palheiro! Não havia mesa para todos? Punham a tigela em cima dos joelhos à lareira! Não havia comida para todos? Paciência! Deus prometia dias melhores!

Quando eu saí de casa, com dez anos, a avó deu-me 50 escudos! É o último gesto que recordo dela!
Pois lembrei-me disto pai! De te presentear a falar da tua mãe! Se hoje receber algum presente vão ter que me ouvir a falar de ti!

domingo, 13 de março de 2016

Não adianta partir mais pedra aqui


Antes das pedras chegarem à calçada, depois das máquinas grandes arrancarem ao coração da serra grandes blocos, existem homens que, com  martelos grandes e pequenos, formam um a um os paralelepípedos que pisamos. É vê-los à sombra dum chapéu de praia em alguns sítios de Reguengos da Serra, era vê-los ganhar muito dinheiro ainda há poucos anos.

Um deles teve um filho que, de sempre o acompanhar e de outros jeitos, lhe deu para com escôparos, ponteiros e outras máquinas começar, de pequenino, a mondar a pedra e a dar-lhe formas vivas.

Quando, de liceu pronto, manifestou à mesa o desejo de ir para belas artes - o pai, "ainda se fosse para médico, advogado ou engenheiro!"; a mãe "ainda se fosse para padre! mas está bem! deixemo-lo tentar a sua vontade!" - lá foi ele com a curta rédea-mesada para a escola superior.

Ainda estudante, haveria de montar oficina no estábulo abandonado do avô e conseguir até vender alguns trabalhos, fazer orgulho à mãe, "meu filho vai ser artista!", e pôr o pai de pé atrás, "com tanta massa gasta e rebarbadoras estragadas, mais valia ele começar a pensar em desistir dos estudos e fazer-se à serra que isto é duro mas ainda vai sendo seguro para sustento!".

E a contradição entre o casal teve seguimento quando foi inaugurado, no largo da capela, um monumento em pedra que consistia num paralelepípedo de dois de altura, por meio e meio de base, com uma gravação em baixo relevo de dedicatória às gentes de Reguengos que já partiram. Em contraponto, conseguiu então o jovem, em fim de curso, receber autorização do presidente da junta para, no largo da sua rua, enquadrar uma escultura ilustrativa do homem que faz as pedras para a calçada. A mãe pediu o aval de toda a vizinhança e o pai justificou-se a todos: "aquilo não tem jeito nenhum mas o que é que um homem há-de fazer?!".

Embora sem o entusiasmo da populaça a obra lá ficou e, já formado, o artista não teve outra sugestão senão ir criar para outro lado. E fez sucesso! Os seus trabalhos começaram a ser apreciados e bem pagos e o seu nome a constar em publicações da especialidade; a mãe-raiz a  atirar "vês?!vês?!", o pai-tronco a render-se ao peso dos frutos que sempre subestimou; os santos da terra a resistirem ao seu reconhecimento, a evitarem o assunto nas conversas e a fingirem ignorar.

Viraram-se todos os silêncios e juízos quando foi notícia e o primeiro nome, seguido do apelido de raízes locais, foi pronunciado no telejornal como autor da estátua que o presidente da república recém-empossado encomendara para homenagear o seu antecessor.

E, assim vista a inauguração na televisão, com o tirar do pano e os aplausos, com nome do escultor a passar em rodapé, o filho da terra ganhou então valor! Programou-se até um jantar de homenagem quando ele fosse lá pelo Natal.

Nas imagens podiam ver-se a cara de babado do esculpido a pensar "sou estátua!", o olhar do sucessor a acenar-lhe "ideia minha! sou porreiro" e os devotos presentes a salvarem o vazio da cerimónia com o dever das palmas. 

Mas eis que passados dias, ou porque certos comendadores tivessem recolhido informações de que o autor da obra não jogava no mesmo baralho, ou porque certos comentadores assegurassem que não jogava com o baralho todo, ou porque certa imprensa humorística tivesse dito que a escultura parecia uma múmia em acentuado estado de petrificação, ou porque toda a gente viu dois presidentes nus, ou porque os verdadeiros artistas estão condenados a serem incompreendidos pelo grosso dos seus contemporâneos, gerou-se um rebuliço fenomenal de opiniões e o monumento desapareceu do fundo da avenida. Se foi mandado retirar ou foi roubado, ninguém se esforçou por apurar, ninguém quis prestar declarações e os jornalistas do regime escolheram a discrição.

Mas em Reguendos foi mais do que falado. Quando em dezembro, o filho da terra voltou à serra amada, o seu monumento de estimação, do largo da sua rua, vandalizado, era um monte de pedras, boas para reciclar para calçada.

No entanto, ele continuou o seu caminho e a sua arte, nunca mais deu mostras do seu trabalho aos aldeões e passou a recusar  todos os prémios e medalhas. Num dia histórico para a freguesia, o presidente da junta convidou o presidente da república para conhecer e promover as pedras por que a terra devia ser conhecida. Cortou-se uma fita, bateram-se palmas. Falou-se dele, ele não estava, parece que estava na festa de aniversário dum amigo de infância! Apagaram-se umas velas, beberam-se uns copos e falou-se da Arte, o Artista e a Sociedade.


terça-feira, 8 de março de 2016

8 de março - dia de Portugal

Dedico àquela que foi encarregada pelo médico de me vigiar um sinal nas costas.
desenho de Álvaro Cunhal

No dia do Pai , lembro-me dos que não têm pai.
No dia da Mãe, lembro-me dos que não têm mãe.
No dia da Mulher, lembro-me dos homens.
No dia dos Animais, lembro-me dos homens.
No dia da Árvore, lembro-me dos homens e dos ninhos.
No dia da Água, lembro-me do vinho.
No dia Sem Carros, lembro-me dos cavalos.
No dia do Não Fumador, lembro-me de fumar.
No dia do Consumidor, lembro-me do Intermarché.
No dia da Europa, lembro-me de África.
No dia de Portugal, lembro-me dos que não são portugueses.
No dia de Camões, lembro-me de Bocage.
No dia da Liberdade, lembro-me da prisão.
No dia do Trabalhador, lembro-me dos desempregados.
No dia da Defesa, lembro-me dos meus dezoito aninhos.
No dia das Mentiras, lembro-me do Cavaco.
No dia de Todos os Santos, lembro-me de todo o povo.
No dia de Natal, lembro-me do Ano Novo.
No dia da República, lembro-me do Rei.
No dia de Reis, lembro-me do Rei dos Leitões
No dia dos namorados, lembro-me dos que não têm namorada.
Mas a verdade é que geralmente não me lembro de nada.
A não ser quando tenho comichão mas costas:
- Ó amor chega aqui!
- Só se me disseres que dia é hoje!...
- Terça-feira!
- Dia de Portugal!...
Qual dos dois o melhor!... A idade não perdoa!

segunda-feira, 7 de março de 2016

Ó como as tomadas de posse são ridículas!


Todas as tomadas de posse são ridículas mas não são ridículas como as cartas de amor.
As cartas de amor são,porque expectáveis, comuns e de redondos vocábulos, mas podem ser úteis e são um gesto informal de submissão e de humildade perante alguém a quem se deseja dar prova escrita de abertura a um compromisso romântico.
As tomadas de posse são momentos onde a palavra inócua pretende ditar o subjetivo, onde o protocolo exige o fato da autoridade e da vaidade, onde a assinatura é um mero gesto fotográfico a assinalar um compromisso vão sobre um cargo, dito pesado,mas que apenas alivia o seu sujeito.

Todas as cartas de amor que já escrevi, e que nunca releria, já devem ser cinza e de certeza que nunca nunca foram agrafadas. Pelo contrário, há-de constar num livro de atas da assembleia da minha freguesia de nascença, a assinatura trémula do dia em que tomei posse de mandato como seu membro, ata essa que nunca relerei porque marca um ato absolutamente muito mais ridículo do que aquela madrugada em que escrevi a primeira declaração de amor, que por mero ou feliz acaso ou sorte, não foi correspondido.

A tomada de posse desta quarta será ridícula, por valor próprio, histórico e mediático. Lá acertará o passo para a mesa, o empossado, pegará na caneta e assinará numa caligrafia segura e sobre juramento o seu compromisso de cumprir e fazer cumprir a constituição, centenas de flashs iluminarão o seu ego, e discursará em termos vagos, coisas vagas que não acordarão o menino Jesus.

Na televisões comentadores tirarão a carne dos ossos da declaração, momento histórico ó, será declarado um novo ciclo, cavaco é para esquecer, marcelo promete, a cor da gravata, o retrato, a pose, o futuro...
Ridículo, sem paixão, pretenso, inócuo, folclore de palácio, apenas mais um, ironicamente melhor que o antecessor, culto, simpático, popular e tudo como dantes no quartel de abrantes. Marcelismo?!
Tudo tão ridículo,

sábado, 5 de março de 2016

A luz como presente

O banco fica no centro onde todos passam quando vão à vila. Trata-se dum banco clássico de jardim, com tábuas paralelas pintadas de verde, separadas por espaços vazios paralelos de mais ou menos dois centímetros e onde normalmente as pessoas se sentam para passar tempo. Enquanto o autarca não tiver oportunidade de recorrer a um fundo para dar luz à ideia de renovar o centro, equipando-o com mobiliário urbano de design moderno, o banco manterá os seus clientes. Como estes que são as personagens que dão história ao banco e fazem esta história.


Foi lá que se conheceram. No começo, cada um na sua ponta, deixando no meio dois lugares vazios onde ninguém se sentaria. Um olhando os carros que passavam, as senhoras e crianças que passeavam, os rabos dos borrachos e as pombas que depenicavam as migalhas que a humanidade deixava cair, o outro fazendo precisamente a mesma coisa, apenas com um olhar diferente, porque ninguém vê as coisas da mesma maneira. Claro que, como observadores de banco de jardim teriam, cada um, entre as suas observações objetivas, múltiplas  reflexões e distrações subjetivas.

Com o andar dos dias, o acaso de se encontrarem ali costumeiramente aproximou-os: a cumplicidade duma troca de olhares acerca dum incidente comum com um transeunte, sabe-me dizer que horas são?,  o incontornável estado do tempo, empresta-me o jornal para ler as gordas?, o simultâneo e concordante salivar sobre um naco de mulher. Com o andar do tempo, haveriam de vir a saber um do outro, o nome, quem eram e onde moravam. O mais velho era viúvo e reformado dos correios, vivia bem porque bem abonado e mal porque sozinho, o mais novo era filho de pai solteiro e desempregado de nascença, vivia mal porque agora lhe faltava a pensão do velho, recentemente falecido e bem porque não tinha filhos nem mulher. O mais velho lia as partes do jornal que falavam das coisas que se passavam no mundo, o mais novo lia a parte do futebol e dos crimes da semana, portanto, embora lendo ambos o mesmo jornal, não viam nem viviam o mesmo mundo, apesar de partilharem o mesmo banco.

Com o andar dos dias e do tempo, eis que o mais velho começou a falar dos livros que lia, contando as histórias, enquadrando-as nos momentos históricos e falando dos autores. O mais novo, que nem dinheiro tinha para o tabaco, quanto mais para livros, ouvia com a condescendência que se tem de ter com os mais velhos; mas, com o andar dos dias, do tempo e a insistência, começava a saber de literatura mesmo sem ler, começou a interessar-se pelos livros mesmo sem os ver e começou a ter carinho e admiração por um homem que apenas conhecia de se sentar no mesmo banco de jardim.

- Que interesse tem um homem mais para lá do que para cá em continuar a ler e a aprender? Porque fala com tanta vida das coisas do mundo se não tarda outro mundo terá a sua vida? Que interesse tenho eu em ouvi-lo? Porque não sou eu como ele?...

- Hei-de trazer-te esse livro!

O mais novo sentiu-se outro quando entrou em casa com um livro debaixo do braço.

- Já leste o livro que te passei?
- Não tenho candeeiro na cama!...

Um candeeiro de presente  desarmou-o de desculpas. Fazia muito tempo que não recebia uma prenda. Tinha de ler, quanto mais não fosse, como forma de reconhecimento. Ao fim duma dúzia de meses e de livros, o mais novo entregou uma longa carta de agradecimento ao mais velho, por sinal muito bem escrita onde, entre outras coisas, manifestava o desejo de arranjar emprego numa livraria.

Passada mais uma dúzia de meses e de livros, o mais novo deixou de aparecer. Soube o mais velho, pelo jornal local, que o corpo havia sido encontrado em casa já em estado de decomposição.

- Talvez seja também esse o meu destino! – pensou.


Pensou também que tinha perdido um amigo e que não dava por perdidos os mais de mil euros que já lhe tinha emprestado. Nada que o impedisse de continuar ou de voltar a encontrar um jovem a quem pudesse dar livros depois de os ler.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Hoje é dia de Zeca

Faz hoje 29 anos, no dia 23 de Fevereiro de 1987 cumpria o serviço militar na Escola Prática de Artilharia em Vendas Novas. O camarada Nunes ouvira no rádio do balneário a notícia daquela madrugada e acordou-me com ela no regresso ao quarto: - morreu o Zeca Afonso!
Nessa manhã tomei a linha do Setil para vir à terra tratar duns assuntos urgentes: 
na janela da automotora, a paisagem desse Aquém Tejo, ditou-me esta homenagem:


amigo canto e morte
maior que o pensamento
abril não morre

por mais que novos ventos se levantem
de rumo a falsas índias
levando incautos marinheiros deste cais
abril traz sempre voz

virão mais cinco e mais
cantando sim ao dizer não
virão como tu outros iguais
fazer de maio cantiga
fazer de abril canção

amigo canto e sempre
até

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Porque hoje é Dia da Rádio

Tinha de regressar a Portugal, não suportava mais as saudades da mulher e dos dois pequeninos.
- Vou amanhã! Podes pagar o que me deves?
- Este rádio serve?

Além do fogão passámos também a ter rádio. A minha mãe era uma devota do aparelho. O rádio tem um aspecto bem francês e, na altura, o seu design dava um ar de modernidade à casa. A minha imaginação de pequenino, por vezes, punha-se a divagar sobre o que se passaria no seu interior oculto. Fartava-me de espreitar pela grelha de ventilação, parecia-me ver uns bonequitos em miniatura, insisti bastante mas nunca consegui autorização para abrir a caixa e desvendar os seus mistérios humanóides.

Era difícil a Guarda Republicana surpreender, ainda vinham a léguas a jusante, multando aqui e ali pelas duas razões de sempre - por tudo e por nada – e já um qualquer voluntário mensageiro trouxera à aldeia o “toque de esconder”. Nas tabernas, nos pátios, nas casas e em outros sítios haveria sempre alguma coisa para disfarçar ou para esconder.

- João, leva o rádio daqui, vai ao leirão de baixo e esconde-o no milheiral.
Não me recordo de haver tempo ou expressões para porquês, devo ter tido uma revelação súbita de consciência política. Quando o par de fardas armado passou à minha porta, a minha mãe fez de conta que mexia uns feijões que secavam ao sol em cima de uma manta, eu fiquei, firme e vertical, na berma do caminho, como quem assiste a um desfile militar, e era! Eles nem sequer dispensaram o olhar à minha criança.

Um rádio destes tinha de continuar, sempre vivo, no espólio da família. Há mais de quarenta anos que não se cala, os Parodiantes de Lisboa, o Badaró, o Simplesmente Maria, as canções de Abril, os noticiários do PREC e os tempos de Antena da AOC (Aliança Operária e Camponesa), o Rock em Stock, o Café Concerto, o Passageiro da Noite, a História Devida, um rádio que acompanha a história sem RAM, sem ROM, sem disco rígido, sem memória – é na ausência de memória e na sua dimensão temporal que reside a sua grandeza.

Só esta grandeza tem permitido que eu, de vez em quando, durma dentro do meu rádio afrancesado que me calhou em sortes. Costumo deitar-me no primeiro andar de amplificação, com a cabecinha radiouvinte recostada num condensador electrolítico de 15 microfarads e com os pés sobre uma resistência da ordem dos mega-ohms. Antes de me deitar desligo os terminais do altifalante e adormeço a ouvir o som directamente do transístor bipolar BC557.

Viva o meu rádio que muda de pilhas de seis em seis meses, que diz o que outros dizem, que toca todas as músicas, que é meu por herança, que não tem memória e que faz com que as pessoas pensem que quando eu falo dele é porque não tomei os comprimidos! Maluco eu? Maluco só se for pelo meu rádio!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Quem foi o idiota que me fez ir tirar um registo criminal?


É sempre assim, alguém telefona para uma tvi ou para um correio da manhã a revelar a existência dum crime, dum acidente ou dum homem que mordeu um cão, o correspondente da zona vai ao local, a notícia é repetida até cheirar mal, pede-se a opinião a um miguel sousa tavares, a um moita flores ou a um popular sobre este tipo de casos, organiza-se um prós e prós sobre o tema ou um debate com especialistas de programa da manhã, a classe política é atraída e entra no jogo, é preciso responder com programas e fundos, é preciso tomar medidas, um  deputado tem uma ideia, a assembleia vota a favor e o sindicato cala-se, porque no assunto em causa pôr em causa alguma coisa pode ser mal entendido, a lei nasce para todos, o cidadão tem de cumpri-la, dirige-se ao balcão onde se trata da papelada, paga e não bufa, desabafa durante uns tempos "só neste país!", "para que é que isto serve?", "é só para sacar dinheiro ao desgraçado!", "só burocracia!", "perdi um dia para tratar da papelada!", "filhos da puta!".

E assim surgem certificados de aplicador de produtos fitofarmacêuticos ou licenças de galinheiros válidas por apenas dois anos, licenças de condução ou inspeções automóveis caducadas, certidões de idoneidade, de nascimento ou provas de vida. Quase sempre exigências inconsequentes que arrastam papéis que dão vida aos eucaliptos, que originam faltas ao trabalho que atingem a produtividade, meios arrastados para uma ideia pobre dum fim nobre de que raramente se estudam os efeitos, que na leitura popular são só para sacar dinheiro ao desgraçado.

A Lei nº103/2015 de 24/8 exige a todos os trabalhadores que têm contactos com menores a entrega anual dum Certificado de Registo Criminal à entidade empregadora. Não li a lei, pela mesma razão que não leio as memórias da irmã Lúcia ou do Mário Soares, mas pressuponho que é dirigida a professores e funcionários de escolas públicas e privadas, motoristas de carreiras escolares, trabalhadores de lares de menores, treinadores e animadores culturais e desportivos, polícias que prestam serviços à saída das escolas, vendedores de algodão doce,etc. Diria mais, considerando certos perfis associados aos casos mais frequentemente conhecidos, é natural que haja um artigo dedicado a catequistas, padres, tios e padrastos. Diria mesmo que a lei deveria ser estendida a todos os cidadãos, já que do seu espírito se pode deduzir que em cada homem ou mulher há afinal um potencial pedófilo. 

Se isto envolver um milhão de pessoas,  a cinco euros, serão só cinco milhões de euros por ano. Nessa linha, não compreendo porque é que a medida não é de aplicação trimestral? Em três meses pode haver sempre uma tentação!

Está certo, em vez de ser a pessoa a entregar o seu registo limpo, também podia ser o tribunal a comunicar à entidade patronal o seu cadastro sujo ou o próprio pedófilo a acusar os seus desvios, mas para isso era necessário termos outro Estado e outros cidadãos. 

As televisões vão dando notícias, os "especialistas" entretêm-se com os assuntos, os deputados têm ideias, os cidadãos lamentam-se e as leis, tal como os problemas, continuam a acumular-se.

Gostaria apenas que fosse tornado público, dos milhares de certificado emitidos, em quantos constam informações que contribuam para o sucesso da finalidade pretendida.


domingo, 17 de janeiro de 2016

Passam-se os tempos, passam-se as vontades


No dia em que a estrada foi inaugurada, quando passou a caravana de carros pretos com vidros fumados, dos vizinhos que assistiram  ao acontecimento, ela foi quem mais resmungou.

“Filhos da puta” chama esta gente quando vê passar gente daquela mas ela não se ficou pela expressão maior do desabafo popular e aprofundou outras considerações.

Aiou porque tinha perdido a terra que lhe dava comer para a boca, aiou porque perdera o sossego que era o seu xanax, aiou pelo país que esbanja o nosso dinheiro em obras grandes. Quantos não se encheram à custa disto? Empregos? Eram só espanhóis escuros ou de turbante! É precisa? A mim não, que não saio daqui! Pagaram-me bem o metro quadrado, pagaram! Mas sabemos bem para o que foi! Agora se quero batatas tenho de comprar das deles e o dinheiro que me sobra não sai das suas mãos, o banco é deles!  

Mas pronto! Temos de nos conformar! O pior foi quando soube que me iam expropriar! Ficou a casa que o meu homem me deixou, podia ter sido pior!... E os dois anos de obras?! Ao menos agora acabaram-se os cilindros e o pó!

Entretanto, num instante, a idade avançou tão depressa os carros andam. Sem horta e sem quintal, as pernas começaram a entorpecer. Passou o tempo. Agora a sua vontade é que ele seja lento e se demore ao sol, de que ela faz bom proveito e diz e eu ouço:

- Eu cá digo quanto é a verdade, se não fosse a estrada isto aqui agora era uma tristeza, eu já me habituei, assim uma pessoa sempre se distrai, sento-me aqui neste banco a bronzear e a olhar para a estrada.

Passa a ambulância, os bombeiros e a brigada, passam caminhetas de gado, de eucalipto e da Renova, caravanas, altos carros e motards, apitam, ultrapassam-se e alguns acenam, olha uma velha ali a olhar pra mim, é assim a vida, que jeito me tem dado o dinheiro que eles me deram, olha eu agora a amanhar a terra dura, compro tudo no intermarché, olha eu agora aqui sozinha a olhar para as oliveiras e prós pardais, assim entretenho-me a ver os carros com pessoas dentro a passar e ouço o que eles dizem:

- Zum, brum, zum, brum, brum, bre, bre…
Ah!Ah! Você deve achar que eu estou maluca! Estou velha mas não estou doida! Isto antes de passar aqui a estrada era uma tristeza! Já viu? Se não passassem aqui os carros eu não os via! Pois é, se não passassem aqui os carros eu não os via!....

Julgo que é a primeira vez que me acontece, não consigo rematar a história e, ainda por cima o tema é recorrente - aqui e aqui. Gosto de ouvir esta mulher! Em 75 ela ainda era nova! Confessou-se ao padre uns dias antes das eleiçoes! Guarda, como é de boa católica, o seu segredo! Nunca mais votou noutros! Ela é das setas e o Marcelo também e acabou-se!

Esta história ficou assim, com princípio, meio mas sem fim! Que se lixe, não tem fim mas tem finalidade: a luta continua a ser dura camaradas! 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Aplicador de produtos fitofarmacêuticos

Tendo, de acordo com a Lei n.º 26/2013, obtido aprovação no curso de Aplicador de Produtos Fitofarmacêuticos ele, guarda noturno num lagar de azeite, com as suas novas habilitações, pode agora reforçar o seu vencimento fazendo uns biscates pelas vizinhanças.

Esta gente já entradota, que ainda cultiva o seu quinhão, já não tem visão para ler as letras miudinhas dos rótulos das embalagens nem pensão suficente para as pílulas do colesterol e da tensão, quanto mais para tirar e pagar um curso para poder livrar dois palmos de terra do escaravelho das batatas ou curar uma parreira de uvas de mesa do quintal!

E aí entra ele com os seus serviços e ganha mais algum: uma margem nos produtos que só ele pode adquirir e dez euros à hora que as mulheres já andam a cinco. Já se sabe que não pode haver publicidade, ainda há pouco uns fiscais o chatearam porque tinha um letreiro à porta a dizer “vende-se azeite”; já se sabe que não passa recibo, o trabalho é prestado como uma espécie de ajuda aos mais velhos; a divulgação será pelo boca em boca e, do resto, tratará a necessidade porque isso de bioculturas é uma treta, a química está para as plantas assim como os remédios para os seus potenciais clientes.

Só que o primeiro cliente, vizinho que andou com ele ao colo, desacorçoou-o logo. Aplicados os produtos, de acordo com os conhecimentos que aprendeu no curso, dirigiu-se à casa do casal e o dono deu-lhe à mão um copo e um naco de pão com uma fatia de queijo.

O vinho fora um amigo que lhe oferecera um garrafão, uma pinga divinal, não levou nada, nem metabissulfito, uma especialidade rara, para beber à vontade, tem quinze e meio e não embebeda. O queijo, uma prenda do sobrinho que lho trouxera da serra, divinal, uma especialidade, difícil de encontrar melhor que este.

O vinho turvo e azedo, o queijo azedo e bolarento, dado é certo, mas porque também lho deram e, ainda por cima, perante tantas interrogativas de diz lá se é bom ou não é, se nunca provaste nada assim, teve de corresponder afirmativamente e deixar no final um muito obrigado como mandam as regras da educação que lhe deram.

Ossos do novo ofício! Engoliu. Preparou a despedida para proporcionar o “então quanto é que te devo?” e ficou desarmado:

- Eu perguntava-te quanto é que era, mas tu mandavas-me logo pró caralho!


Moral da história: as regras da boa educação e as leis do governo são para se cumprir, mesmo que às vezes tenhamos de mentir dizendo bem do mau e aceitar as mentiras que as novas regras são para nos proteger, ou até acreditar que existem guardas noturnos de lagares de azeite.


(Mojmir Mihatov – Croácia)

domingo, 10 de janeiro de 2016

os dez candidatos

Há candidatos e candidatos, a comunicação social que o diga! Mas diga-se também que não é com a ajuda dela que eu vou lá!... É demasiado evidente a sua dependência e o seu propósito de ocultar informação! Se assim não fosse não passaria o tempo a tentar justificar a sua independência e a sua missão de informar.

Sei que são dez, já não é mau saber o número! Por direito, deveriam todos ter direito a igual consideração. Não é o caso no que toca a informação disponível, pelo que estou muito confuso.
No entanto, tirando uma daqui e outra dali, já sei quem são os dez.

Gosto da gravata e do mediatismo do  Paulo Morais.
Aprecio a pureza e os ideais do Edgar da Silva.
Dá-me gozo ver um tipo empreendedor e com a dureza do Henrique Neto.
Sinto prazer e afeto ao olhar para a Marisa Matias e para a sua sinceridade.
Emociona-me a lata, a laca e a fragilidade da Maria de Belém.
Admiro gente académica e que veste bem como o Sampaio da Nóvoa.
Fico contente por conhecer desconhecidos como o Jorge Cerqueira.
Entusiasma-me o sonho e a autenticidade do Tino de Rans.
Fico perplexo com as motivações do Cândido Ferreira.
Mas do que gosto mesmo,
que aprecio,
que me dá gozo e prazer,
que me emociona,
que admiro e me põe contente, 
que me entusiasma e me deixa perplexo,
é a humildade e a independência do Professor Doutor Marcelo!
Há tanto tempo que conheço o homem e nunca me tinha apercebido dessas suas qualidades!
Afinal a cobertura mediática das campanhas ainda serve para alguma coisa!

E só não voto nele, porque não estou convencido que alguém verdadeiramente humilde e independente alguma vez se lembre de se candidatar a Presidente do Reino!



domingo, 3 de janeiro de 2016

Taberna de gerações



Herdei isto do meu sogro. Na altura isto eram uns barracos arrendados. Depois o senhorio resolveu fazer este prédio e nós ficámos aqui nas traseiras com o acordo de ele nos deixar aquele túnel de passagem cá para trás. Fomos fazendo obras com o seu assentimento, cobrimos parte do pátio com estas chapas que não roubam a luz e o espaço é este. Os antigos continuam a sentir-se aqui no tempo deles, os de meia idade gostam de vir aqui e encontrar os mais velhos e os mais novos… desses eu já lhe conto!...

Abro isto sempre às oito - uns cafés prós empregados que entram às nove. Por volta das dez avio umas sandes para gente que vem à vila tratar de papéis e compras. Rente ao meio dia é que começam a chegar os mais agarrados que não aguentam até ao almoço sem um copo.

À segunda é grão com bacalhau ou bacalhau com chícharos, à terça dobrada ou mão de vaca com feijão, à quarta feijoada ou caldeirada, à quinta cozido ou chispalhada e à sexta frango assim ou assado! Ao sábado e ao domingo só por encomenda.

À tarde junta-se aí uma malta na sueca e no dominó. Ao fim da tarde os que saem do trabalho comem umas moelas ou um peixe frito e bebem uns copos. Fecho por volta das nove quando a alguns já começam a falhar as pernas.
Quando faço mais é aos dias de mercado, quando há funerais ou casamentos! Vantagens de isto ser no adro!

Acontece que há uns tempos para cá, à sexta e ao sábado vejo-me obrigado a fechar mais tarde porque comecei a ter outra clientela – os mais novos, de que lhe falei  há pouco! E se eles fazem despesa!... E não são só os rapazes! Olhe que as moças fazem sociedade com eles!

Pedem às garrafas de licor beirão, de amêndoa amarga, de gasosa ou de coca cola para traçar o vinho ou a aguardente. Não sei se a garotada vem para aqui porque acha engraçado frequentar os sítios dos mais velhos ou se vem para aqui para se embebedar de barato antes de ir para a discoteca onde uma cerveja custa mais do que cinco litros de vinho aqui.

O que é certo é que isto vem dar uma lufada ao meu negócio, que gosto de ver aqui a juventude. Que eles dizem umas caralhadas, que fazem umas festas e dão umas beijocas às raparigas que vêm com eles, é verdade! Mas o que é que hei-de fazer? Os mais velhos que tenho aqui durante o dia também as dizem e a minha mulher está sempre a ver novelas da televisão, às vezes com cenas bem piores!

Mas o que eu lhe quero contar com esta história, é que há dias me aconteceu aqui uma que trago atravessada! Então não é que dois rapazes, sim dois gajos já com barba, se estavam a lambuzar sem se importar que alguém visse!? ,

Eu vi, voltei a ver, começaram-me a crescer os azeites e a autoridade do “quem manda aqui sou eu!” O que é que eu faço? Vou lá e dou uma chapada a cada um? Vou lá e digo educadamente “ tenham paciência mas aqui não!” Chamo-lhes paneleiros e envergonho-os à frente de toda a gente?!

Perdi o raciocínio, saí de trás de balcão, cheguei à mesa e não sei o que é que disse. Dum momento para o outro dei com todos os outros a chamarem-me homofóbico!
- Paneleiro eu?! Então agora eu é que sou o paneleiro?!

Este mundo está virado do avesso! Por momentos pensei: que se lixe esta clientela! Eu também tenho que garantir os outros clientes de outras horas! Tá certo, também alguns desses, às vezes na brincadeira de mais uns copos, também apalpam o cu uns aos outros! Eu, consoante os exageros também posso chamar a atenção - mas isso é a malta a reinar! Não é a sério! Mas ali! Porra! Se eu deixo a coisa andar, qualquer dia ainda acabam a enrabar-se à minha frente! Ainda se fossem duas, nesse caso, era mau na mesma, mas eu até podia dar a volta aos meus azeites e tolerar se elas me olhassem com pedido de compreensão! Mulheres! Enfim, estariam por certo a provocar os rapazes de agora que estão mais virados para os computadores! Agora dois rapazolas com idade de ir para a tropa!?


Pergunta-me o senhor porque lhe conto isto? Porque penso que você me pode valer! É que sei que o senhor escreve aí para o jornal… Não! Não me olhe assim! Deus me livre que isto fosse notícia! Mas olhe aqui para estes letreiros e estas quadras que chamam a atenção, para certas condutas, aos clientes! Eu queria que o senhor, por palavras inteligentes e educadas, me inventasse uns ditos para eu mandar gravar num azulejo e que dissessem que por ordem da ASAE nesta casa não são permitidas paneleiragens! 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Passem bem!

Estou aqui triste e sozinho.
A minha filha disse que ia para a nazaré:
- Com este tempo?!...
O meu filho disse que ia para a madeira:
- Mas temos aí lenha para três invernos!...
A minha mulher disse que ia sair com um amigo:
- Acho normal!...
Por ser o único cá da casa que não liga ao calendário gregoriano,
estou aqui triste e sozinho.

Se alguém quiser aparecer por aqui para beber um copo, esteja à vontade.

Se não, que passem bem!

Como conheço os perigos da internet, deixo apenas as coordenadas: Latitude: 39°37´52.06"N – Longitude:   8°40´23.47"W.


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Que pedra filosofal!

Sim, já sabem, cumpri o Serviço Militar Obrigatório na casa mãe da artilharia portuguesa, a Escola Prática de Artilharia em Vendas Novas - EPA. 
De lá, guardo boas recordações - como esta.
Não sei o que é feito destes dois camaradas mas que eram dois camaradas, lá isso eram!
Esta é a melhor interpretação que conheço da Pedra Filosofal, capaz de deixar o António Gedeão de boca aberta e o Manel Freire de boca fechada.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

O homícidio do senhor Jesus


Acossado pelo espírito da homília dominical, arraigado do mais puro espírito cristão, imbuído do verdadeiro espírito natalício, o senhor Jesus saiu da igreja determinado a seguir à risca a palavra do Senhor. Coisas bíblicas como o “se tem duas túnicas…”, “um camelo passar pelo buraco duma agulha…”, “não se pode servir a Deus e ao dinheiro…” e, sobretudo, aquela do Menino ter nascido numa manjedoura, há muito tempo que atormentavam o homem e aquele domingo de dezembro apresentou-se-lhe como o dia da Revelação do Céu.

O senhor Jesus herdara e mantivera toda a vida a criação de gado do seu pai lavrador, abastado suficientemente para não deixar o filho solteiro.

Quando chegou a casa, por volta do meio dia, e disse à mulher que ia soltar as vacas, ela pensou que fosse do estábulo para a cerca. Nem lhe passou pela cabeça que fosse da cerca para fora!

Depois do almoço começaram a aparecer vozes à porta:
- Ó senhor Jesus, as suas vacas andam soltas por aí!...
- As minhas vacas são também vossas vacas, cuidem também vocês delas!

Toda a gente deu o senhor Jesus como louco ou possesso de espírito dos demónios, incluindo a mulher que pediu às pessoas que a ajudassem na recolha da manada. O senhor Jesus não foi com eles e dirigiu-se à exploração. Aí chegado e com a ajuda de Deus - no seu ponto de vista- com a ajuda do Diabo – no ponto de vista do próximo - destruiu todas as portas e cancelas que cativavam as suas cabeças.

Quando o povo e a esposa irada chegaram com as primeiras vacas, benzeram-se em nome de Deus, e a mulher rica viu-se obrigada a pedir à pobre gente para as distribuírem pelos seus pequenos currais já que ali não já não existiam condições para guardá-las.

Contente por ter levado a sua avante o senhor Jesus correu para abraçar a mulher que, como resposta, o ameaçou de morte correndo atrás dele com uma forquilha em direção à vacaria.
Assustado, o homem escondeu-se no meio da palha duma manjedoura e, enquanto ela gritava de raiva em busca dele, pensava:
- Já que carreguei toda a vida indignamente o nome Dele, que nasci em berço de ouro, que vivi que nem um padre, que morra ao menos nas condições em que Ele nasceu!

E assim foi, trespassado pelos dentes da forquilha, ali morreu na manjedoura, confortado pelos remorsos da companheira de toda a vida que, cainda em si, se fez de imediato arrependida.

A verdade histórica deveria revelar que a vaca faz parte dos presépios por esta história e não pelos acontecimentos narrados pelo evangelista, se iam de burro e foi numa estrebaria o que raio é que estava lá a fazer uma vaca!?...

- Não! Não é mau gosto! Quem assassina merece todos os nomes! Já é, é tempo da Igreja tomar uma posição e mandar retirar a vaca dos presépios.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Duas bacoradas


Para gente menos esperta não se sentir só:
Depois de Bush ter defendido o abate das florestas para acabar com os incêndios florestais, temos agora o Sarkozy a defender a pena de morte para os kamikazes.



Para gente mais inteligente que pensa diferente de gente com menos humanidade:
Os atentados de Paris terão, certamente, o efeito de levar os mais reticentes a aceitar melhor os refugiados, agora é mais fácil compreender de que fogem aquelas pessoas.


domingo, 8 de novembro de 2015

O que faz uma pessoa ser mediática?



Bom, em primeiro lugar o que faz uma pessoa ser mediática é aparecer nos media. Existirão muitas outras razões que não cabem aqui, mas para aqui chamo apenas a de "ter fluência verbal".

Clara Ferreira Alves, creio que é este o nome, uma rapariga de cabelo curto e pintado de russo, opina num programa qualquer de televisão de que não me lembro agora o nome - para o caso isso também interessa pouco e reparem que nem me dou ao trabalho de pôr o google a trabalhar para confirmar o nome exato! - e tem fluência verbal.

Direi também que li a sua crónica, " Anticomunista, obrigada", porque o título me levou mas não lhe dei, no momento, qualquer importância. Consumi o texto como um, que entre tantos, devaneiam fluentemente, levianamente, sem qualquer preocupação documental  (como eu que não me dou ao trabalho de investigar o nome do programa em que a pessoa entra), sem coerência racional, com pés mas sem cabeça , um puro exercício emocional. Tem relativamente ao meu, aqui presente, também emocional, o cuidado jornalístico de se esquivar das rimas e a vantagem de ser escrito por uma figura mediática. 

Como vêem, também sei estender texto, a dizer pouco dos factos e a publicitar o que sou.

Sou um tipo com alguma fluência textual porque leio e foi por ler, que ao ver um rol de reações ao texto da "anticomunista", me deu também para escrever. Sou, portanto, também um tipo que vai no embalo dos mídia e, pior ainda, das redes sociais.

Não querendo seguir o exemplo da visada, de escrever um texto sem dizer nada, pronto, dizendo alguma coisa, dizendo por exemplo que o José Saramago gostava mais de António Costa do que de Alberto Camus, que Álvaro Cunhal se zangou com Agustina por ela não gostar dos Esteiros,  de que fui estudar para Coimbra com medo do PREC, de que a situação política atual do país se deve à intervenção do KGB e ao presente desleixo do Mário Soares... vou direto ao assunto!

Pronto! A minha questão é a seguinte: Porque é que ao fim de tantos anos da Clara ter estudado em Coimbra só agora é que se declarou anticomunista? Porque é que raio um espaço mediático, as redes sociais, os comunistas e eu, gastamos espaço a comentar o facto da senhora, finalmente, se ter declarado anticomunista?

Tenho a resposta! A senhora recorreu tão velhacamente à sua fluência verbal para se justificar anticomunista que chega a parecer "comunista" dentro da imagem que dos comunistas parece ter! A senhora, portanto, tem medo se si própria! Não é a única! Eu também!

Pois bem, senhora de cabelo curto e russo que comenta num programa qualquer de televisão, que escreve num jornal qualquer, que faz na vida não sei o quê, que pensa não sei como nem quero saber, de agora em diante existe uma razão para eu ser comunista, é a senhora não o ser. 
Luís Neves - GPS & MEDIA

sábado, 7 de novembro de 2015

Neste últimos tempos

Nestes últimos tempos é certo a esquerda fez erros
Caíu em desmandos confusões praticou injustiças

Mas que diremos da longa tenebrosa e perita
Degradação das coisas que a direita pratica?

Que diremos do lixo do seu luxo  -- de seu
Viscoso gozo da nata da vida -- que diremos
De sua feroz ganância e fria possessão?

Que diremos de sua sábia e tácita injustiça
Que diremos de seus conluios e negócios
E do utilitário uso dos seus ócios?

Que diremos de suas máscaras alibis e pretextos
De suas fintas labirintios e contextos?

Nestes últimos tempos é certo a esquerda muita vez
Desfigurou as linhas do seu rosto

Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita
Degradação da vida que a direita pratica?

                                        Julho de 1976

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

domingo, 1 de novembro de 2015

A ceia da seita

A propósito do post anterior.

Tudo posto em pratos limpos.
- Foste tu que me roubaste o cromo de Eusébio da caderneta do campeonato de 1973.
- Eras tu que ias roubar as sobremesas à cantina!
- Foste tu que me deste a conhecer a Gina!
- Tu não estudavas nada senão os livros do major Alvega!
- E quando tu montaste uma engenhoca que quando o padre abria a porta o rádio desligava?!!

É claro que não foi só isto.
O operário que já teve um acidente que ia morrendo. O coronel que já esteve no Afeganistão a fazer nada. O funcionário público que tem dois filhos de três mulheres. O padre que o deixou de ser a tenpo de fazer filhos. O aposentado da marinha que cria porcos. O juiz que trabalha que nem um condenado. O outro de que não se sabe o paradeiro. O motorista da rodoviária. E claro, eu, aqui fotografado entre os demais. Um deles. Ou eles todos. Esta era a ceia que me faltava. Comi que nem um padre.

Primeira foto, primeiro ano e última foto, no último ano. Quem sou eu? Adivinhem porra! Nem eu sabia que era eu numa delas! Gostei tanto de me terem revelado estas fotos!

Seminaristas de Leiria 1972 - futuros padres

Seminaristas de Leiria 1977 - futuros ex-seminaristas