sexta-feira, 30 de março de 2018
Notícia de última hora: um tipo foi crucificado há 2000 anos
Tanta celebração, tanta compaixão, tanto sofrimento por um homem que foi crucificado há dois mil anos. E depois, tanto fechar de olhos. tanta cumplicidade, tanta habituação a homens e mulheres que, nos dias de hoje, são vítimas das mais variadas formas de crucificação.
Isto já para não falar dos crucificados, embora anestesiados, com as inevitabilidades do capitalismo cristão e com a indiscutível legitimidade das democracias panfletárias.
Já a história dos folares, dos ovos, das amêndoas, da ressurreição não me diz nada. Ou melhor, deixam-me culturalmente crucificado.
Pronto, vou contar uma velha anedota:
O Evaristo, fabricante de pregos, falou com uma agência de publicidade para fazer um cartaz que aumentasse as suas vendas. E levou uma sugestão:
- Os senhores podem fazer um desenho com o Nosso Senhor Jesus Cristo crucificado, ilustrado com a frase: "Pregos Evaristo, os melhores há mais de dois mil anos!".
- Meu caro Evaristo, não acha que isso pode ser um pouco ofensivo para os cristãos? Não arranja outra ideia?
- Deixem-me pensar. Então e se for o Cristo caído junto à cruz com a frase: " Se tivessem usado pregos Evaristo, não tinha acontecido nada disto"?
- Evaristo, as mensagem publicitárias devem demonstrar entusiasmo e não tragédia ou derrotismo...
- Então... que tal um Cristo a correr para a cruz com a frase: " Com pregos Evaristo não há Cristo que resista!".
Evaristo desistiu de recorrer às empresas de publicidade mas a verdade é que nem um único pregador me saberá dizer a marca do último prego que pregou. Amén!
quarta-feira, 28 de março de 2018
A cantiga é uma arma
A minha mãe não era saloia de todo. Viveu três anos em Alfama, como criada, e contou-me que uma vez foi de lá ao hospital de Santa Maria, sozinha e a pé, a uma consulta. Trouxe de Lisboa o gosto pelas marchas populares e pelo fado.
A minha mãe gostava de cantar sozinha ou acompanhada ou, se alguém a desafiava, à desgarrada.
A minha mãe mandou-me ir à fábrica levar uma "casse-cruta" ao meu pai porque o almoço tinha sido fraco. Ficou a encerar a sala porque era a altura da Páscoa e o senhor prior iria lá a casa. Ficou a cantar um fado que encantaria a vizinhança ou qualquer outro freguês que passasse no outeiro.
Desci a vereda e, a meio dela, ouvi cantar a Maria Rosa que guardava as cabras; passei pela almuinha e encantei-me com a cantiga da Maria da Quinta que colhia tomates; cheguei à ribeira e levei no ouvido a canção da Maria da Graça que lavava roupa; segui pela tapada e cantei com o eco das quadras da Maria dos Anjos que regava o milho; às primeiras casas escutei a Maria Natividade a rogar pragas no curral dos porcos; à porta da Maria da Luz só os cães ladravam. Cheguei à fábrica e o Cossa assobiava uma melodia em alta fidelidade; no canto das suas máquinas, o Torneiras entoava as suas canções brejeiras.
O meu pai mandou-me de volta e recomendou-me que fosse a cantar para enganar o medo dos cães da Maria da Luz, dos porcos da Maria Natividade, da tapada da Maria dos Anjos, das cuecas da Maria da Graça, dos colhões da Maria da Quinta, dos cabrões da Maria Rosa.
Ao entrar em casa a minha mãe continuava a moldar o seu fado.
Isto é, era normal cantar. Teria razão o Marceneiro que dizia que as gravações e a rádio iam dar cabo do fado? Hoje quem canta ou assobia - ainda há quem assobie? - uma melodia enquanto trabalha ou caminha não é visto como normal!
Para quê cantar se há quem cante por nós? Dedilham-se os botões do aparelho e ele dá-nos música.
E, já que estou em maré de me virar contra quem não canta, também não perdoo aqueles que cantam aquela palha, sem nunca transportar uma estrofe revolucionária que dê voz à voz do povo. Poetas e cantores que não encontram poesia para um protesto, que não encontram acordes para uma insatisfação, que não musicam um grito para uma revolta (rapazes do rap dou-lhes o meu carinho!).
Nem sequer se pode perdoar a cantores de maio e abril, que foram cantando e tocando cada vez melhor, grandes produções - dizem eles - tão grandes que já não cabem no salão da associação.
Puta que os pariu e ao vosso profissionalismo musical!
Já só canto no carro e no chuveiro quando estou sozinho. Que ninguém cante comigo eu ainda aguento, não suporto é que haja sempre um voz familiar a repreender-me: ó pai, cala-te! ó pai, nem na letra acertas! ó homem, as pessoas vão saber que tu és maluco!...
Não é que eu não cante bem, não tenho é voz e tenho muito medo do sucesso.
terça-feira, 27 de março de 2018
17 mil milhões de euros
Pergunta-se: se não tivesse existido essa despesa "extra", pagar-se-ia a pensionistas e funcionários aquilo que lhes é devido?
Não, o argumento da crise, do não há dinheiro, do não chega para tudo ou do não chega para todos, continuaria a fazer parte do discurso dos ministros, dos seus comandantes e dos seus serviçais!
Não, não nos comam por parvos, o desaparecimento de dinheiro da banca, a injeção de dinheiro nos bancos, a cumplicidade dos governantes com a cultura da crise, a intocabilidade do sistema financeiro, são o combustível dum sistema-monstro que tem um nome, goste-se ou não: capitalismo!
Não, não nos chamem colaboradores! Somos trabalhadores de bancos, de empresas, do estado, produzimos a riqueza, temos cabeça, boca e membros, construímos o país.
Não, nós já percebemos: para o povo nunca há dinheiro, para os banqueiros arranja-se sempre!
domingo, 25 de março de 2018
Venha um traçado de brexit com russofobia
O Meia Leca tinha uma alcunha que lhe assentava como uma luva e, de pequeno homem ou homem pequenino, outros atributos lhe cairiam como: saco de veneno, coração ao pé da boca, embusteiro, velhaco ou dançarino. Via-se em todos as feiras, arraiais e bailaricos, discussões, desordens e escaramuças.
De pé atrás observava o ambiente e o pendor dos acontecimentos e, na altura certa, cagava a sua pequena sentença ou metia o seu punho pequenino.
Quando a zaragata começava, saltitava silencioso na periferia do rodopio e, só quando o vencido já definido tombasse rendido à força maior, aparecia esquivo por entre a confusão para dar o seu pontapé ou o seu murro.
Isto, se o valentão da contenda não fosse o Enxurrada, o zaragateiro mais famoso da sua freguesia, capaz de dar sozinho a cinco ou sete duma penada. Nesse caso, ele aparecia mais notado ao lado do grandalhão, incentivando o desejado desfecho das vias de facto.
Se ao lado do Enxurrada apareciam outros golias da ribeira, subia-lhe ainda mais a coragem e podia até tomar lugar na linha de forcados, acabando sempre a pega atarantado à procura dum rabo que lhe calhasse.
O Enxurrada tinha um respeito frio, recíproco aliás, por Brutamontes, um tipo da sua laia que, nas aldeias da serra, era o rei da porrada. Cada um, no seu território, impunha o seu respeito e a rivalidade só aquecia se algum fazia das suas ou se cruzavam nas terras do sopé. Mas, como se temiam quando se mediam, normalmente os desacatos não iam além duma troca de bocas mais brejeiras acompanhadas pelos coros das respetivas companhias.
Nessas alturas o Meia Leca punha-se em bicos de pés na última fila mas ninguém dava importância à sua voz esganiçada.
Ora, assim contada a história, ninguém compreendeu porque
- tendo aparecido o cão do Marmanjo, um companheiro de armas do Enxurrada, falecido nas escadas da sua casa;
- tendo o Marmanjo concluído que provavelmente só poderia ter sido obra do Brutamontes, até porque havia fortes indícios que fora envenenado com queijo da serra fora de prazo;
- tendo o Enxurrada logo prometido que o serrano não esperaria pela demora;
- tendo todos os grandes da ribeira mostrado apoio ao Marmanjo e ditado ameaças contra a brutalidade do velho inimigo de estimação...
... o Meia Leca continuasse mudo e calado como se fosse seu hábito primeiro averiguar de que lado é que está a razão.
Vá lá, pequeno Marcelo, pequeno Costa, digam alguma coisa ou pelo menos escrevam um declaração para o pequenino Augusto Mateus ler à imprensa e o Paulo Rangel interpretar! Olhem que o caso não pode ser para menos, tentaram matar um russo em Inglaterra e "muito provavelmente" ou "há fortes indícios" que o veneno era russo!
- O traçado do vinho com gasosa tanto pode servir para diminuir o grau da bebida como para disfarçar o pique da pinga.
sábado, 24 de março de 2018
Modorra - porque é Dia Mundial da Poesia vou adormecer sobre um poema...
Acima de tudo, o que mais gosto na vida é de ter sono!...
Adoro adormecer enquanto faço a barba ou me penteio
Hoje mesmo adormeci a meio do banho
E saí de casa sem cortar as unhas de uma mão
Adormeço só de ver uma televisão
Caem-me as pálpebras quando me chateio
E já me aconteceu adormecer no seio dum orgasmo
Pasmo de sono quando falas
E balanceio a cabeça de tintas para as tuas conversas
Gosto de pousar a cabeça no ombro do passageiro do lado
Gosto de me deixar esticar no banco do jardim
Gosto de sestas
Gosto de adormecer ao anoitecer
Gosto de readormecer de madrugada
Gosto de dormir por tudo e nada
E até não me importava de adormecer eternamente
Se pudesse acordar na eterna noite
Para ver o sol, a horta, os filhos e o amor
E se a garrafa de gás já está a meio
Também gosto de adormecer com a bebedeira
Quero adormecer se tenho dores
Gosto de adormecer se estou contente
Dormir para mim é um descanso
Gosto de adormecer na minha cama
Gosto de adormecer à sombra do carvalho
Gostava de me deixar dormir descansado na calçada
Devia ser permitido dormir nas horas de trabalho
Gosto quando me bate o sono
Para mim uma boa palestra é um sedativo
Adormeci uma vez réu em tribunal no tempo da sentença
Gosto tanto de dormir que estou agora mesmo adormecendo enquanto estou escrevendo
Gosto de dormir como carago
O sono faz de mim um ser calado
Raramente digo asneiras enquanto durmo
Ressonar é o meu maior pecado
Gosto de vez em quando da claridade
Sobretudo se for para ver mulheres bonitas para as recordar enquanto sonho
Sobre o travesseiro
Sobre o corpo
Sobre tudo dormir
Dormir enquanto os poderosos falam de poder
Enquanto os poetas falam de poesia
Enquanto os engenheiros falam de pontes e os economistas de valias
Enquanto os artistas falam de arte
Que não há coisa mais entediante
Que um artista falar da própria arte
Dormir enquanto o país arde
Dormir enquanto a pátria se consome
Dormir enquanto se comem uns aos outros
E a mim não me comem
Porque como estou dormindo julgam que estou morto
Dormir enquanto falam os comentadores da TV
Sobretudo quando estes falam é absolutamente necessário
A bem das gerações vindouras
Que todo o país durma
E felizmente dorme
Neste preciso momento adormeci
-Golo!!!!
Nem isso me acorda
E estou com a sensação que me acarinham mãos macias
Durmo profundamente
Ah! Gosto também de adormecer enquanto me contam histórias
A do Capuchinho é a minha preferida
Embora eu goste de assinar João Ratão
Um dia adormeci quando me cantavam os anos
Adoro que me digam de manhã:
-Parece que ainda vens a dormir!
Adoro que me repreendam:
- Tu estás a dormir ou quê!?
Adoro que me ordenem:
- Tu vai mas é para a cama que o teu mal é sono!
Adoro ópio ou erva dormideira
Há fumo de cigarros nos meus sonhos
Espuma de cerveja em pesadelos
Cabelos de pestanas
De tudo há
E estas palavras só não têm nexo
Porque estou mais pra lá do que pra cá!
quinta-feira, 22 de março de 2018
Homenagem ao Bocage no Dia Mundial da Água
"A Água"
Meus senhores eu sou a água
que lava a cara, que lava os olhos
que lava a rata e os entrefolhos
que lava a nabiça e os agriões
que lava a piça e os colhões
que lava as damas e o que está vago
pois lava as mamas e por onde cago.
que lava a cara, que lava os olhos
que lava a rata e os entrefolhos
que lava a nabiça e os agriões
que lava a piça e os colhões
que lava as damas e o que está vago
pois lava as mamas e por onde cago.
Meus senhores aqui está a água
que rega a salsa e o rabanete
que lava a língua a quem faz minete
que lava o chibo mesmo da raspa
tira o cheiro a bacalhau rasca
que bebe o homem, que bebe o cão
que lava a cona e o berbigão.
que rega a salsa e o rabanete
que lava a língua a quem faz minete
que lava o chibo mesmo da raspa
tira o cheiro a bacalhau rasca
que bebe o homem, que bebe o cão
que lava a cona e o berbigão.
Meus senhores aqui está a água
que lava os olhos e os grelinhos
que lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes lutas
que lava sérias e lava putas
apaga o lume e o borralho
e que lava as guelras ao caralho
que lava os olhos e os grelinhos
que lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes lutas
que lava sérias e lava putas
apaga o lume e o borralho
e que lava as guelras ao caralho
Meus senhores aqui está a água
que rega rosas e manjericos
que lava o bidé, que lava penicos
tira mau cheiro das algibeiras
dá de beber ás fressureiras
lava a tromba a qualquer fantoche e
lava a boca depois de um broche.
que rega rosas e manjericos
que lava o bidé, que lava penicos
tira mau cheiro das algibeiras
dá de beber ás fressureiras
lava a tromba a qualquer fantoche e
lava a boca depois de um broche.
Bocage
segunda-feira, 19 de março de 2018
O meu pai era peixe
Não me recordo de ter visto mais de duas linhas escritas pelo meu pai. Um recado na mesa da cozinha, umas contas de bicas de pinheiros e nada mais. Via-o escrever, de mãos trémulas como as que tenho, quando parávamos ali para os lados da Venda das Raparigas e ele preenchia um folha de um livro de impressos, qualquer prática obrigatória que mais tarde viria a evoluir para os actuais discos tacográficos dos camionistas.
Quando eu tirava Bom a Matemática ouvia muitas vezes:
- Sais ao teu pai! Também era bom nos problemas!
Pelo que vi e pelo que me fizeram acreditar, vivi sempre convencido que quem escrevia as coisas bem era a mãe e que quem fazia bem as contas era o pai.
Quando o tempo de chuva e a idade de brincar me reduziam à pequena casa que era a nossa, eu vasculhava os armários e as gavetas, com esperança que a curiosidade me oferecesse alguma coisa para me entreter. Afinal de contas a casa também era minha, eu tinha o direito de saber tudo o que ela guardava.
Confesso-te agora pai que, quando a mãe propôs a compra de um fogão com forno para substituir o de dois bicos e tu disseste que não tínhamos dinheiro, eu tinha contado nesse dia as notas que estavam na caixa de sapatos e fiz as contas: aquilo dava para um fogão e para mais de meia dúzia de garrafas de gás e ainda sobrava para uma garrafa de aguardente para as constipações!
Só não entendo porque é que tu e a mãe guardaram, ainda melhor do que o dinheiro, o maço de cartas do vosso namoro que só agora, pelas sortes, encontrámos. Não chorámos, não rimos, dissemos satisfeitos um a um, talvez em coro:
- Olha que o pai escrevia mesmo bem!
Olha pai, sabes? Eu, se não houver ondas, não me afogo!
(estou à vontade para dizer estas coisas ao meu pai porque além de peixe, ele era fish|)
(estou à vontade para dizer estas coisas ao meu pai porque além de peixe, ele era fish|)
quarta-feira, 14 de março de 2018
O professor anafalbeto
O professor analfabeto está ignorantemente convencido que é um bom professor.
Ele recorre frequentemente e orgulhosamente ao seu título académico e tem dificuldade em ver o ensino para além da sua disciplina. Ele desvaloriza tudo o que é extra-curricular, tenta escapar a toda a atividade escolar fora da sala de aula e é crítico tímido e costumaz de diretivas. Mas ele não questiona com os alunos o que tem para ensinar, a pertinência do que ensina ou o modo como ensina.
O professor analfabeto não lê mais do que um vulgar analfabeto, a não ser os manuais, as redações dos seus alunos, as atas que escreve e os modelos de relatórios de autovaliação.
O professor analfabeto tem sempre razões para não se juntar aos protestos da sua classe: ou porque a greve é só um dia ou porque são três, ou porque a greve é às avaliações e devia ser aos exames, ou porque a greve é à sexta e devia ser à segunda, ou porque precisa de dar a matéria e lhe descontam um dia do mês, ou porque nem sequer tem a consciência histórica de que os direitos que tem não lhe caíram do céu.
O professor analfabeto fica muito contente quando recebe as cartas do banco que o tratam por doutor e não gosta que o identifiquem como um funcionário, desses que ganham pouco e fazem greves como os mineiros ou os operários do lixo.
O professor analfabeto diz mal dos seus alunos, da sua escola, do seu sindicato e diz com orgulho que odeia a política. Não sabe que a sua ignorância é o instrumento de que se serve a "alta política" para conduzir os seus alunos, a sua escola, a sua classe a meros instrumentos dos seus interesses maiores.
O professor analfabeto, de tão estéril, torna estéreis os seus colegas produtores, castra os seus alunos viris, torna o amanhã ontem, é um perfeito imbecil!
Não poderá ser do professor estéril que nascerá o amanhã! Amanhã a greve continua!
cuquice: qualquer semelhança com um texto de outrem é mera coincidência e este texto não é do Ricardo Araújo Pereira
quinta-feira, 8 de março de 2018
Limpeza da floresta: está instalada a confusão!
Não sei o que hei-de fazer!
Pelo que me dizem tenho de cortar metade dos pinheiros - estão bastos! Tenho ali uns à beira do caminho, ouvi dizer que também têm de ir. Tenho ali quatro oliveiras encostadas - lenha com elas!
Mas parece que nem lenha guardada posso ter!...
Parece que, de repente tudo está mal. Não sei se posso ter o limoeiro que tenho junto à casa!
Vai ter de ser cortada esta cerejeira que tenho aqui à frente que já vem do meu avô?
E o meu medronheiro que faz sombra à capoeira? E a mimosa que roça no curral? Será que está bem a minha camélia? E a figueira, a pinheira, o castanheiro e o carvalho que os parta?
Ou raio ou porra agora é que eu digo! Mais valia que isto tudo tivesse ardido o verão passado!
Desde que se tivessem salvado as casas e a gente! Talvez me tivesse calhado um lambuzo do Presidente!...
Isto é como eles quando nos mandam parar com a tratorinha ou a furgoneta, se eles quiserem têm sempre alguma coisinha com que implicar! Isto é que vai ser arrecadar dinheiro! Para os valores das multas de que falam, não sei se vão chegar as pensões que tenho até ir para o maneta!
Os que foram para o Brasil e para a França é que tiveram sorte! A esses ninguém vai chatear pela certa!
Só perde quem tem! Eu cortava o mato se tivesse força, eu cultivava a terra se valesse a pena, eu guardava cabras se as houvesse aqui!
Mas estão todos em Lisboa e eu pagava se tivesse a quem! E é em Lisboa que está o dinheiro e eu pagava se tivesse com quê! Esta gente de Lisboa, que decide e põe as leis, devia viver cá! Eles é que podiam resolver isto porque sabem como é que se resolvem as coisas!
Ou raio ou porra agora é que eu digo! Deram cabo disto tudo e agora a gente é que paga!
Com estas leis, folhetos, "diz que dizem", notícias e opiniões, está instalada a confusão!
Eu não digo nada! Não estudei para tanto!Só me apetece ir para França pró pé dos meus netos!
Ou se calhar não vale a pena, vou-me entretanto!
Não sei o que hei-de fazer! Ou raio ou porra agora é que eu digo! Está instalada a confusão!
domingo, 4 de março de 2018
Masturbação mútua
Neste blogue não há assunto tabu. Por isso hoje vamos falar de sexo. Não é assunto em que eu me sinta muito à vontade porque só tenho um sexo mas farei uma abordagem com um toque de sexólogo da revista Maria e com ares de doutor Vaz de tudo.
Bem, a masturbação mútua acontece quando:
- O presidente da junta convida o presidente da câmara. Não se gramam porque são de partidos diferentes mas, na hora do discurso, ambos elogiam mutuamente os seus feitos e o público consuma o orgasmo batendo palmas.
- O presidente da associação do rancho folclórico recebe do secretário de estado do turismo a grande medalha da ordem das medalhas. O secretário costuma ridicularizar a cultura atraiçoada e o desinteresse turístico de tanto corridinho do Algarve ou vira do Minho, o rancheiro mor costuma desancar na petulância burguesa dos governantes da nação mas, na hora, ambos se enaltecem entre si.
- O autor da tese de mestrado cita uns, que por sua vez o citam a ele e, no final da biblioteca, temos um amontoado de páginas de teses que se resumem a citações mútuas de quem não tem mais nada para dizer a não ser a mesma coisa.
- O Herman convida ao seu programa o seu amigo Goucha e o amigo Goucha convida ao seu programa o seu amigo Herman.
- O Miguel dos safaris e dos tavares, o fidalgo, o filho de alguém, elogia o ministro que fez o que ele disse e o ministro justificou o que fez pela opinião do comentador, legítimo representante dos telespetadores que o adoram.
- Só o senhor Costa é que elogiou o senhor Passos e o senhor Passos não elogiou o senhor Costa. Mas não esperem pela demora, o homem não se ficará pela onania, debaixo dos lençóis da universidade onde vai cultivar o alfobre dos seus rendimentos de ex, há-de vir a ser reitor-doutor e vir a coroar doutor honoris causa o futuro ex Costa e as televisões cobrirão o ato.
Neste país, os chamados atos públicos, redundam em prazeres de masturbação mútua! É por isso que não passam de atos de prazer! É por isso que deles não pode resultar procriação de alguma coisa!
Neste país não interessa o parceiro, podemos não gostar dele, podemos até passar a vida a dizer que nunca nos deitaríamos com ele mas, na hora, não resistimos às carícias e à excitação que nos causam, cada um a seu belo prazer. E assim vamos festejando o amor fingido, o amor que não dá frutos.
Se alguém me vier a elogiar um dia, não se espere de mim retribuição. Por bem ou por mal, por amor, amizade, desprezo ou prazer, o bajulador há-de ser - ai que me falta o verbo! - e dessa cobrição alguma luz há-de vir à praça: aborto, rebento, braço, besta, criança, desgraça, flor ou revolução!
Afinal até nem é difícil falar de sexo nem de masturbação mútua.
Bem, a masturbação mútua acontece quando:
- O presidente da junta convida o presidente da câmara. Não se gramam porque são de partidos diferentes mas, na hora do discurso, ambos elogiam mutuamente os seus feitos e o público consuma o orgasmo batendo palmas.
- O presidente da associação do rancho folclórico recebe do secretário de estado do turismo a grande medalha da ordem das medalhas. O secretário costuma ridicularizar a cultura atraiçoada e o desinteresse turístico de tanto corridinho do Algarve ou vira do Minho, o rancheiro mor costuma desancar na petulância burguesa dos governantes da nação mas, na hora, ambos se enaltecem entre si.
- O autor da tese de mestrado cita uns, que por sua vez o citam a ele e, no final da biblioteca, temos um amontoado de páginas de teses que se resumem a citações mútuas de quem não tem mais nada para dizer a não ser a mesma coisa.
- O Herman convida ao seu programa o seu amigo Goucha e o amigo Goucha convida ao seu programa o seu amigo Herman.
- O Miguel dos safaris e dos tavares, o fidalgo, o filho de alguém, elogia o ministro que fez o que ele disse e o ministro justificou o que fez pela opinião do comentador, legítimo representante dos telespetadores que o adoram.
- Só o senhor Costa é que elogiou o senhor Passos e o senhor Passos não elogiou o senhor Costa. Mas não esperem pela demora, o homem não se ficará pela onania, debaixo dos lençóis da universidade onde vai cultivar o alfobre dos seus rendimentos de ex, há-de vir a ser reitor-doutor e vir a coroar doutor honoris causa o futuro ex Costa e as televisões cobrirão o ato.
Neste país, os chamados atos públicos, redundam em prazeres de masturbação mútua! É por isso que não passam de atos de prazer! É por isso que deles não pode resultar procriação de alguma coisa!
Neste país não interessa o parceiro, podemos não gostar dele, podemos até passar a vida a dizer que nunca nos deitaríamos com ele mas, na hora, não resistimos às carícias e à excitação que nos causam, cada um a seu belo prazer. E assim vamos festejando o amor fingido, o amor que não dá frutos.
Se alguém me vier a elogiar um dia, não se espere de mim retribuição. Por bem ou por mal, por amor, amizade, desprezo ou prazer, o bajulador há-de ser - ai que me falta o verbo! - e dessa cobrição alguma luz há-de vir à praça: aborto, rebento, braço, besta, criança, desgraça, flor ou revolução!
Afinal até nem é difícil falar de sexo nem de masturbação mútua.
sexta-feira, 2 de março de 2018
Fãs dos Doors
Arménio era filho único e tinha
tudo para ter futuro. O seu pai era o único da aldeia que não sujava o fato. De
todos os putos, Arménio era o único bom na escola e o único que tinha carros
matchbox e peças lego. Já moço, era o único que tinha um blusão de cabedal.
Arménio comprou um rolo de fita isoladora branca, com a tesoura deu forma à
letra D, fez mais dois ÓS, um R e um S e colou-as nas costas do casaco preto. No
liceu todos o ficaram a conhecer e todos perguntavam o que era DOORS.
Uma amiga ofereceu-me um broche
vermelho com quatro rostos, que não eram Marx, Engels, Lenine e Mao mas que o pareciam, inspirado na
capa do L.A.Woman. O retrato entornado para casar a velha amizade de infância entre mim e o Arménio.
O Bar de Cipriano fechou cedo,
pouco passava das quatro da manhã. A caminho de casa parámos no pinhal a fumar
e a falar – só falávamos de música. Haveríamos de ter uma banda como aquela que vimos no segundo festival de Vilar de Mouros e tocaríamos o People are Strange e o Roadhouse Blues! E
tivemos: no dia seguinte a banda de Cipriano admitiu-nos.
Tivemos o palco, cercou-nos a província. Eu pus-me a estudar que nem um burro para engenheiro.
Arménio estudou que nem um cábula Psicologia. Casei-me e nem no funeral do pai
o vi.
Também não o vi dentro do caixão. Contou-me sua mãe que foi encontrado pela polícia, num quarto do Bairro Alto, morto de três dias. A mãe chorou-me que fui o único amigo que lhe conheceu e eu recordei-lhe que era o único menino que podia entrar na casa limpa para brincar com ele com os brinquedos limpos.
Também não o vi dentro do caixão. Contou-me sua mãe que foi encontrado pela polícia, num quarto do Bairro Alto, morto de três dias. A mãe chorou-me que fui o único amigo que lhe conheceu e eu recordei-lhe que era o único menino que podia entrar na casa limpa para brincar com ele com os brinquedos limpos.
Já tenho bagagem para não me comover mas fiquei incomodado por nunca te ter devolvido a cassete do Absolutely Live. Ainda estive para perguntar à tua mãe se entre os haveres do quarto do Bairro Alto estava o livro "Uma Oração Americana" de Jim Morrison que te emprestei. A minha companheira disse-me não ser o momento. Ficámos quites?! Não, eu devia-te este registo apesar de ter perdido o teu futuro.
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018
Só fumo Porto
Naquele ano, toda a turma começou a gostar de Física e Química, todos os alunos começaram a ter bons resultados e olhem que não era por favor, a malta aprendia mesmo. Um professor, como sempre houve muitos: calmo, motivador, inesquecível - um Professor.
Ficámos chocados com a notícia de que o irmão Diamantino fora nomeado provincial dos Maristas e que, por tal motivo, iria deixar de ser nosso professor. Como uma das imagens do distinto mestre era o cigarro na mão, decidimos oferecer-lhe um cinzeiro e um Porto. Desembrulhado o presente, o felizardo sacou do maço e subiu as escadas do auditório distribuindo e acendendo um cigarro a um por um. Gesto bonito. Regressou ao estrado e deu solenidade ao momento com duas ou três palavras.
Olha se fosse hoje? Seria notícia nos telejornais, seria linchado nas redes sociais e apanharia um processo tal que nunca mais voltaria a ser nem bom nem mau professor.
Vivemos tempos melhores; será melhor assim; talvez não se poder fumar no jardim seja exagero; o sal e o tabaco fazem mal; comida saborosa e cigarros suaves sabem bem; vivemos satisfeitos por podermos fazer coisas que dantes nem pensar; morremos de saudade de não poder reviver coisas que já nem ao diabo lembra; lembrou-me a mim; também por esse gesto continuo a admirar o professor irmão Diamantino; mudam-se os tempos e Camões não muda; já não sei se hei-de ir escrever um poema para o quarto ou hei-de ir fumar um cigarro para a varanda; cigarros amargos nunca deram bons versos; é preferível ficar pela física e pela química...
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018
Deus é Grande!...
E Merkel a nossa profeta.
ALEMANHA
Produção parada nas fábricas da BMW, Mercedes e Airbus.
Então, e o que dizem agora quanto aos madraços dos trabalhadores da AutoEuropa e das lutas que tanto denegriram?
«O sindicato metalúrgico IG Metall convocou greves de 24 horas até esta sexta-feira afetando 260 empresas. Estas greves são o “último aviso” alertam os representante de quase 3 milhões de trabalhadores alemães, numa ação sem precedentes desde 2003»
«Algumas das exigências que estão em causa contemplam um aumento de 8% durante 27 meses no salário dos trabalhadores assim como uma redução da carga horária semanal de trabalho de 35 horas para 28 horas durante dois anos, que os trabalhadores justificam como necessária parapoder cuidar de crianças e familiares mais velhos ou doentes, refere a "Reuters"»
Merkel já advertiu os sindicalistas: se continuarem a reivindicar, transferimos as fábricas para Palmela.
do blogue "as palavras são armas"
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018
Acordos e protocolos em frouxo clima
Estes tipos não controlam os arrumadores, os sem abrigo nem a delinquência!
Estes tipos não controlam o tráfico de droga, de influência e a corrupção!
Estes tipos não controlam o tráfico de armas, o fabrico de bombas, nem a violência!
Estes tipos não controlam a caça ilegal, o tráfego automóvel, nem a poluição!
Estes tipos não controlam a pedofilia, a violência doméstica e a prostituição!
Estes tipos não controlam as contas, o défice e a inflação!
Estes tipos não controlam a riqueza, a pobreza, o desperdício e a fome!
Estes tipos apenas controlam a sua conta bancária e o seu bom nome!
Estes tipos estão feitos com Bilderberg, a opus dei, a maçonaria, a banca e o grande capital!
Estes tipos não prestam!
E estes tipos, impotentes para controlarem alguma coisa que dê algum alívio à desgraçada Humanidade, em desplante encontros de grandeza, ousam iludir-nos de vontades e poder:
ASSINAM ACORDOS E PROTOCOLOS PELO CONTROLO DO CLIMA
O único clima que estes tipos podem controlar é o do ar condicionado que existe em tudo o que é sítio por onde gozam os seus prazeres e protocolos!
Salvemos a Humanidade, a Terra, o Planeta.
Salvemos o Mundo, a Natureza e as Estações
Mas salvemo-nos primeiro destes Senhores.
terça-feira, 30 de janeiro de 2018
Rabos
Como escrever RABO no telemóvel?
(__!__) rabo perfeito.
!__!__! rabo quadrado.
(::!::) rabo com celulite.
(__@__) rabo de quem fez sexo anal-virtual.
(__$__) rabo de prostituta de luxo.
(__*__) rabo de quem está com frio.
(__.__) rabo de quem está com muito medo.
(__?__) rabo de quem não sabe o que vem pela frente ou melhor, por trás.
( _o__) rabo pouco usado.
(__O__) rabo bastante usado.
(__+__) rabo de crente.
(_____________0____________) rabo de Margarida Martins.
(__8__) rabo de quem fez sexo anal com dupla penetração recente.
(__!.!__) rabo com nádegas afastadas para exame da próstata.
(__!o!__) rabo com nádegas afastadas após exame da próstata.
(__!O!__) rabo com nádegas afastadas após endoscopia.
(__;__) rabo com falha de limpeza após uso.
(__-__) rabo de japonesa.
(__V__) rabo de biquini.
(__Y__) rabo de fio dental.
(((__)(__))) rabo mole.
(__x__) rabo de esposa.
não fui eu que inventei
quinta-feira, 25 de janeiro de 2018
O Sábado, o Domingo e a Autoestima
Albertino Rosa e Rosa Albertina conheceram-se por coincidências onosmáticas e daí ao enamoramento e ao casamento foi uma questão de tempo. A Rosa está desempregada. O Rosa opera numa fábrica de pastilhas.
O vencimento de Albertino dá-lhes rés-vés para a renda e para o sustento e, pelo menos aparentemente, vivem harmoniosamente para quem os vê na semana de agosto que costumam passar no parque de campismo de São Bartolomeu no Barlavento.
É assim que o casal Rosa vê a harmonia das coisas: ganhar para comer, para ter onde dormir, para os transportes e tudo mais que é necessário para ter forças, saúde e dinheiro para trabalhar e, enquanto sobrar para uns dias de praia, já não se pode dizer mal.
Albertina foi despedida do Centro Paroquial local e acaba de desistir do projeto pessoal de se fazer taxista da localidade para o marido não ter de vir a fazer tantas pastilhas.
O vencimento de Albertino dá-lhes rés-vés para a renda e para o sustento e, pelo menos aparentemente, vivem harmoniosamente para quem os vê na semana de agosto que costumam passar no parque de campismo de São Bartolomeu no Barlavento.
É assim que o casal Rosa vê a harmonia das coisas: ganhar para comer, para ter onde dormir, para os transportes e tudo mais que é necessário para ter forças, saúde e dinheiro para trabalhar e, enquanto sobrar para uns dias de praia, já não se pode dizer mal.
Albertina foi despedida do Centro Paroquial local e acaba de desistir do projeto pessoal de se fazer taxista da localidade para o marido não ter de vir a fazer tantas pastilhas.
A Autoestima é uma empresa que fabrica pastilhas para os travões das rodas dos carros que não têm travões de discos. Acontece que o governo decretou que a velocidade mínima dentro das localidades fosse reduzida para 30 km/hora; os condutores passaram a travar muito mais dentro das localidades; o consumo de pastilhas de travões teve um aumento acentuado; a produção tem de aumentar consideravelmente; tendo em consideração que não há condições para aumentar os custos com o trabalho, considera-se que os trabalhadores e/ou colaboradores têm de trabalhar e/ou colaborar mais. Mais ainda? De segunda a sexta não é possível! Que se trabalhe também ao sábado!
Todos dizem a Albertino Rosa, e Rosa Albertina concorda, que se assim não for, o mais certo é a empresa se deslocalizar e ele perder o emprego. Com um argumento destes não há Albertino nem Albertina que não seja tentado à rendição.
E é aí que Rosa pensa mais longe e põe a questão:
- Então e se se mantiver o número de atropelamentos? O governo irá decretar a velocidade mínima dentro das localidades para 10km/hora, deixaremos de poder ir à missa ao domingo pedir a Deus, unidos como Ele nos uniu, trabalho e saúde para trabalhar.
Mas não é isso que faz pensar o Albertino, além de não ser judeu para ter que guardar o sábado, como cristão só vai à missa para satisfazer a mulher. O que o preocupa é que, com tanto consumo de pastilhas, os fabricantes de automóveis comecem a fazer só travões com discos! E pensa mais, que isto não vai parar e que mais do que lutar pelo que se tem, é preciso querer mais, como os que detêm os meios de produção.
É a luta de classes, carago!
sexta-feira, 19 de janeiro de 2018
Morrer tranquilamente
Antigamente morria-se por tudo e por nada, de praga, de parto, de nascença, de cornada de boi, de beber vinho em cima de melancia, de tosse, de paixão ou de doença mas nunca de cancro, de sida ou de acidente de viação. E um tipo podia morrer tranquilamente em casa rodeado da família, dos vizinhos e amigos e não ligado a tubos, sozinho num hospital cheio de gente. E quando se ia, os pequenos gatinhavam por baixo do caixão e não se chorava muito porque, no fundo, aquilo era apenas um despacho que com meia dúzia de orações se encomendava para o Céu onde, mais cedo ou mais tarde, toda a gente iria parar e gozar livre dos desgostos da criação e da colheita ou da tragédia do mau tempo que derrubou o alpendre do forno.
Quando o candidato a defunto dava em notícia, a malta ia avaliar a situação, se fosse caso para tanto faziam-se as despedidas, davam-se-lhe mais três ou quatro dias e mandava-se chamar o padre.
O meu bisavô chegou a esse ponto e, na preparação do cenário para a extrema unção, duas moças lá do sítio elevaram-se em escadotes ou na mesinha, uma de cada lado do leito, para estender e pregar um lençol branco, de enfeites ao momento, na parede da cabeceira. E não é que o maroto, deitado e no ângulo em que estava, conseguiu mirar partes que noutra condição não veria e não se conteve:
- Oh Maria, que lindas pernas as tuas!
E ainda hoje, quando a família se junta é com esta que se recorda a sua morte… ou a sua vida!
terça-feira, 16 de janeiro de 2018
Enquanto coisa proibida, bate mais
Alberto Albuquerque de Almeida nasceu em 1821, ano em que foi formalmente extinta a inquisição em Portugal. Alberto sabia que podia falar mas entendia que não valia a pena e, por isso, limitava-se a pensar que, na História, as mudanças no sentido da justiça mais cedo ou mais tarde aconteceriam com o tempo.
E fora assim que a inquisição se fora, que foram vencidos Luís XV e Napoleão e, em Portugal, se entrara no novo regime da monarquia constitucional.
Na realidade, Alberto de Albuquerque de Almeida, era um homem à frente do seu tempo mas não punha a mão nem adiantava palavra, ficava quieto à espera que as coisas acontecessem.
Religiões? Tinham os séculos contados. Deixaria de ser obrigatório ir à igreja, existiriam funerais sem padres e gente que não batizaria os recém nascidos.
Monarquia? Cairia dentro de décadas. O futuro era a república e o governo do povo, o voto e a escola seriam um direito universal.
Mulheres de calças? Pode demorar cem anos mas o conforto falará mais alto. Viria até um dia em que as mulheres teriam os mesmos direitos que os homens.
Dava-se mal com a mulher? Um dia haveria divórcio. Um amigo fora apanhado de calças na mão com outro amigo? Um dia isso haveria de ser entendido como normal. Um dia haveria de até ser permitida a poligamia, fazer sexo sem ser para procriar ou fazer o aborto duma gravidez não desejada.
O filho de Alberto Albuquerque de Almeida, Almeida, assistiu à implantação da República, à Primeira Guerra Mundial e às Aparições de Fátima sem nunca se pronunciar.
O neto de Alberto Albuquerque de Almeida, Albuquerque, assistiu à aclamação de Salazar, à Segunda Guerra Mundial, aos anos sessenta e nunca se pronunciou.
O trisneto de Alberto Albuquerque de Almeida, Alberto, achou o 25 de abril uma coisa normal e encara a religião, a república, os direitos das mulheres, o divórcio, o sexo, a liberdade, como coisas normais.
Na passada quinta feira, de manhã, tomou o pequeno almoço, acendeu um charro, ligou a TV e nem queria acreditar, a esquerda bonita que nunca foi com cachimbos de prata ou mortalhas Águia, parlamentava sobre ciência farmacêutica e queria a merda na forma de drunfos.
Alberto desatou a rir; estes tipos não sabiam o que era uma pedrada, a diferença entre fumar e tomar, entre cânhamo e boi ou entre um boi e um trator. Aquela merda não o fazia só rir, inspirava-o com pensamentos pouco parlamentares: a liberalização das drogas leves acontecerá depois de 2021, é tudo uma questão de tempo, não tinha pressa, o consumo proibido bate mais.
Na passada quinta feira, de manhã, tomou o pequeno almoço, acendeu um charro, ligou a TV e nem queria acreditar, a esquerda bonita que nunca foi com cachimbos de prata ou mortalhas Águia, parlamentava sobre ciência farmacêutica e queria a merda na forma de drunfos.
Alberto desatou a rir; estes tipos não sabiam o que era uma pedrada, a diferença entre fumar e tomar, entre cânhamo e boi ou entre um boi e um trator. Aquela merda não o fazia só rir, inspirava-o com pensamentos pouco parlamentares: a liberalização das drogas leves acontecerá depois de 2021, é tudo uma questão de tempo, não tinha pressa, o consumo proibido bate mais.
sábado, 6 de janeiro de 2018
Amanhã há tempestade
Os media não mentem só por razões políticas, por servirem a voz dos donos ou por falta de investigação sobre a verdade da notícia original. Os media mentem por dá cá aquela palha, por cliques ou por audiências.
A evolução científica e tecnológica tem permitido aperfeiçoar os métodos de previsão da meteorologia mas não ao rigor e ao pormenor que muitos serviços querem fazer parecer: o tempo daqui a um mês, às dez horas de amanhã trovoada em Albergaria dos Doze, o aviso com cores, são coisas a que já nos habituámos - às vezes acertam, outras tantas não.
Os media gostam do tema e ao menor indício dramatizam a previsão: fazem manchetes, ampliam as informações, desenvolvem notícias e o recetor iça as antenas, clica, lê e comenta com o vizinho. Isto porque está preocupado porque vai fazer uma viagem, porque espera uns amigos a quem quer mostrar a zona, porque tem de mudar o telhado, porque tem de fazer a vindima ou muita roupa para enxugar.
Enfim, o estado do tempo é uma coisa que interessa a todos. Não é por acaso que é o tema porque puxamos quando temos de inventar conversa para não dizer só bom dia.
Isto aconteceu este fim de semana, os tipos, lá prenderam os seus leitores, ouvintes, cliques na página, gostos, para grande consolo dos contadores digitais, alerta, alerta e está certo, o tempo não está por aí além mas também não era preciso exagerar tanto garantindo que vinha aí uma tempestuosa tempestade com nome e tudo.
Eu que queria festejar 25 anos, fiquei chateado. Fiquei chateado, não por o tempo não estar assim tão mau, talvez um pouco por ter adiado a festa, sobretudo, por ter clicado em tudo o que anunciava tempo, escutado com atenção os noticiários, ter acreditado na conversa do meu vizinho e afinal o céu até estar lindo.
- 25 anos eu? Eu não disse de quê! Poderia ter havido festa se não tivesse acreditado nos media que nos enganam a curiosidade por trinta moedas.
Nota: o título original era "Se disserem que amanhã há tempestade, duvidem sempre" mas como vou partilhar no facebook optei por "Amanhã há tempestade".
Nota: o título original era "Se disserem que amanhã há tempestade, duvidem sempre" mas como vou partilhar no facebook optei por "Amanhã há tempestade".
terça-feira, 2 de janeiro de 2018
Reinventar - a palavra inventada.
Inventar, se não se tratar do invento duma máquina, dum remédio ou duma solução, pode ser sinónimo de mentira, de pura ficção ou de inventona. Ora, a democracia, Portugal, os portugueses, não foram inventados; nasceram, foram nascendo ou nasceram em cada dia, de modo que não podem ser reinventados, quando muito poderiam renascer perante o reconhecimento de algum golpe fatal que lhes tivesse determinado o óbito.
Um mero discurso do calendário televisivo, habitual e obrigatório, tão rotineiro como o natal ou a passagem dos anos, obriga a uma série de discursos de política ordinária que cumpre a sua rotina com o seu comentário habitual e obrigatório ao discurso mãe do ano. Cada um encontra, na retórica, na subjetividade e na formalidade do politicamente correto do sumo presidente, uma razão que lhe dá a sua razão, a frase que vai ao encontro daquilo que tem de dizer ou escrever. A este ridículo junta-se a notória intenção da mensagem transmitida já ter siso arquitetada de modo a não dar espaço a críticas, a discordâncias ou ser ignorada, dizendo tudo sem dizer nada, não passando de mais uma banalidade da época festiva.
Até aqui nada de novo, a novidade que os jogadores da comunicação inventaram este ano foi a de sacar uma palavra e começarem a jogar com ela, a fazer dela a bola que os diverte a eles e à assistência.
Só se pode reinventar aquilo que se inventa, só pode renascer aquilo que está morto, só se deve operar quem está doente e um doente deve ter sempre uns dias de convalescença. Cheira-me, por isso, que o discurso ainda vai piorar. Não se deve dizer que este presidente se não nascesse tinha de ser inventado, deve dizer-se que este presidente nunca devia ter sido batizado, não porque a água lhe tenha feito mal à testa mas porque as prendas de natal do padrinho ainda lhe estão na cabeça.
Releio o texto e concluo: eu também era capaz de redigir a mensagem do presidente!...
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