quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Acordos e protocolos em frouxo clima


Estes tipos não controlam os arrumadores, os sem abrigo nem a delinquência!
Estes tipos não controlam o tráfico de droga, de influência e a corrupção!
Estes tipos não controlam o tráfico de armas, o fabrico de bombas, nem a violência!
Estes tipos não controlam a caça ilegal, o tráfego automóvel, nem a poluição!
Estes tipos não controlam a pedofilia, a violência doméstica e a prostituição!
Estes tipos não controlam as contas, o défice e a inflação!
Estes tipos não controlam a riqueza, a pobreza, o desperdício e a fome!

Estes tipos apenas controlam a sua conta bancária e o seu bom nome!
Estes tipos estão feitos com Bilderberg, a opus dei, a maçonaria, a banca e o grande capital!
Estes tipos não prestam!
E estes tipos, impotentes para controlarem alguma coisa que dê algum alívio à desgraçada Humanidade, em desplante encontros de grandeza, ousam iludir-nos de vontades e poder:

ASSINAM ACORDOS E PROTOCOLOS PELO CONTROLO DO CLIMA

O único clima que estes tipos podem controlar é o do ar condicionado que existe em tudo o que é sítio por onde gozam os seus prazeres e protocolos!

Salvemos a Humanidade, a Terra, o Planeta.
Salvemos o Mundo, a Natureza e as Estações
Mas salvemo-nos primeiro destes Senhores.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Rabos


Como escrever RABO no telemóvel?

(__!__) rabo perfeito.

!__!__! rabo quadrado.

(::!::) rabo com celulite.

(__@__) rabo de quem fez sexo anal-virtual.

(__$__) rabo de prostituta de luxo.

(__*__) rabo de quem está com frio.

(__.__) rabo de quem está com muito medo.

(__?__) rabo de quem não sabe o que vem pela frente ou melhor, por trás.

( _o__) rabo pouco usado.

(__O__) rabo bastante usado.

(__+__) rabo de crente.

(_____________0____________) rabo de Margarida Martins.

(__8__) rabo de quem fez sexo anal com dupla penetração recente.

(__!.!__) rabo com nádegas afastadas para exame da próstata.

(__!o!__) rabo com nádegas afastadas após exame da próstata.

(__!O!__) rabo com nádegas afastadas após endoscopia.

(__;__) rabo com falha de limpeza após uso.

(__-__) rabo de japonesa.

(__V__) rabo de biquini.

(__Y__) rabo de fio dental.

(((__)(__))) rabo mole.

(__x__) rabo de esposa.
não fui eu que inventei

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

O Sábado, o Domingo e a Autoestima

Albertino Rosa e Rosa Albertina conheceram-se por coincidências onosmáticas e daí ao enamoramento e ao casamento foi uma questão de tempo. A Rosa está desempregada. O Rosa opera numa fábrica de pastilhas.
O vencimento de Albertino dá-lhes rés-vés para a renda e para o sustento e, pelo menos aparentemente, vivem harmoniosamente para quem os vê na semana de agosto que costumam passar no parque de campismo de São Bartolomeu no Barlavento.
É assim que o casal Rosa vê a harmonia das coisas: ganhar para comer, para ter onde dormir, para os transportes e tudo mais que é necessário para ter forças, saúde e dinheiro para trabalhar e, enquanto sobrar para uns dias de praia, já não se pode dizer mal.

Albertina foi despedida do Centro Paroquial local e acaba de desistir do projeto pessoal de se fazer taxista da localidade para o marido não ter de vir a fazer tantas pastilhas.

A Autoestima é uma empresa que fabrica pastilhas para os travões das rodas dos carros que não têm travões de discos. Acontece que o governo decretou que a velocidade mínima dentro das localidades fosse reduzida para 30 km/hora; os condutores passaram a travar muito mais dentro das localidades; o consumo de pastilhas de travões teve um aumento acentuado; a produção tem de aumentar consideravelmente; tendo em consideração que não há condições para aumentar os custos com o trabalho, considera-se que os trabalhadores e/ou colaboradores têm de trabalhar e/ou colaborar mais. Mais ainda? De segunda a sexta não é possível! Que se trabalhe também ao sábado!

Todos dizem a Albertino Rosa, e Rosa Albertina concorda, que se assim não for, o mais certo é a empresa se deslocalizar e ele perder o emprego. Com um argumento destes não há Albertino nem Albertina que não seja tentado à rendição.

E é aí que Rosa pensa mais longe e põe a questão:
- Então e se se mantiver o número de atropelamentos? O governo irá decretar a velocidade mínima dentro das localidades para 10km/hora, deixaremos de poder ir à missa ao domingo pedir a Deus, unidos como Ele nos uniu,  trabalho e saúde para trabalhar.

Mas não é isso que faz pensar o Albertino, além de não ser judeu para ter que guardar o sábado, como cristão só vai à missa para satisfazer a mulher. O que o preocupa é que, com tanto consumo de pastilhas, os fabricantes de automóveis comecem a fazer só travões com discos! E pensa mais, que isto não vai parar e que mais do que lutar pelo que se tem, é preciso querer mais, como os que detêm os meios de produção.
É a luta de classes, carago!

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Morrer tranquilamente


Antigamente morria-se por tudo e por nada, de praga, de parto, de nascença, de cornada de boi, de beber vinho em cima de melancia, de tosse, de paixão ou de doença mas nunca de cancro, de sida ou de acidente de viação. E um tipo podia morrer tranquilamente em casa rodeado da família, dos vizinhos e amigos e não ligado a tubos, sozinho num hospital cheio de gente. E quando se ia, os pequenos gatinhavam por baixo do caixão e não se chorava muito porque, no fundo, aquilo era apenas um despacho que com meia dúzia de orações se encomendava para o Céu onde, mais cedo ou mais tarde, toda a gente iria parar e gozar livre dos desgostos da criação e da colheita ou da tragédia do mau tempo que derrubou o alpendre do forno.

Quando o candidato a defunto dava em notícia, a malta ia avaliar a situação, se fosse caso para tanto faziam-se as despedidas, davam-se-lhe mais três ou quatro dias e mandava-se chamar o padre.

O meu bisavô chegou a esse ponto e, na preparação do cenário para a extrema unção, duas moças lá do sítio elevaram-se em escadotes ou na mesinha, uma de cada lado do leito, para estender e pregar um lençol branco, de enfeites ao momento, na parede da cabeceira. E não é que o maroto, deitado e no ângulo em que estava, conseguiu mirar partes que noutra condição não veria e não se conteve:
- Oh Maria, que lindas pernas as tuas!
E ainda hoje, quando a família se junta é com esta que se recorda a sua morte… ou a sua vida!

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Enquanto coisa proibida, bate mais



Alberto Albuquerque de Almeida nasceu em 1821, ano em que foi formalmente extinta a inquisição em Portugal. Alberto sabia que podia falar mas entendia que não valia a pena e, por isso, limitava-se a pensar que, na História, as mudanças no sentido da justiça mais cedo ou mais tarde aconteceriam com o tempo.

E fora assim que a inquisição se fora, que foram vencidos Luís XV e Napoleão e, em Portugal, se entrara no novo regime da monarquia constitucional.

Na realidade, Alberto de Albuquerque de Almeida, era um homem à frente do seu tempo mas não punha a mão nem adiantava palavra, ficava quieto à espera que as coisas acontecessem.

Religiões? Tinham os séculos contados. Deixaria de ser obrigatório ir à igreja, existiriam funerais sem padres e gente que não batizaria os recém nascidos.
Monarquia? Cairia dentro de décadas. O futuro era a república e o governo do povo, o voto e a escola seriam um direito universal.
Mulheres de calças? Pode demorar cem anos mas o conforto falará mais alto. Viria até um dia em que as mulheres teriam os mesmos direitos que os homens.
Dava-se mal com a mulher? Um dia haveria divórcio. Um amigo fora apanhado de calças na mão com outro amigo? Um dia isso haveria de ser entendido como normal. Um dia haveria de até ser permitida a poligamia, fazer sexo sem ser para procriar ou fazer o aborto duma gravidez não desejada.

O filho de Alberto Albuquerque de Almeida, Almeida, assistiu à implantação da República, à Primeira Guerra Mundial e às Aparições de Fátima sem nunca se pronunciar. 
O neto de Alberto Albuquerque de Almeida, Albuquerque, assistiu à aclamação de Salazar, à Segunda Guerra Mundial, aos anos sessenta e nunca se pronunciou.

O trisneto de Alberto Albuquerque de Almeida, Alberto, achou o 25 de abril uma coisa normal e encara a religião, a república, os direitos das mulheres, o divórcio, o sexo, a liberdade, como coisas normais.
Na passada quinta feira, de manhã, tomou o pequeno almoço, acendeu um charro, ligou a TV e nem queria acreditar, a esquerda bonita que nunca foi com cachimbos de prata ou mortalhas Águia, parlamentava sobre ciência farmacêutica e queria a merda na forma de drunfos.

Alberto desatou a rir; estes tipos não sabiam o que era uma pedrada,  a diferença entre fumar e tomar, entre cânhamo e boi ou entre um boi e um trator. Aquela merda não o fazia só rir, inspirava-o com pensamentos pouco parlamentares: a liberalização das drogas leves acontecerá depois de  2021, é tudo uma questão de tempo, não tinha pressa, o consumo proibido bate mais.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Amanhã há tempestade


Os media não mentem só por razões políticas, por servirem a voz dos donos ou por falta de investigação sobre a verdade da notícia original. Os media mentem por dá cá aquela palha, por cliques ou por audiências.

A evolução científica e tecnológica tem permitido aperfeiçoar os métodos de previsão da meteorologia mas não ao rigor e ao pormenor que muitos serviços querem fazer parecer: o tempo daqui a um mês, às dez horas de amanhã trovoada em Albergaria dos Doze, o aviso com cores, são coisas a que já nos habituámos - às vezes acertam, outras tantas não.

Os media gostam do tema e ao menor indício dramatizam a previsão: fazem manchetes, ampliam as informações, desenvolvem notícias e o recetor iça as antenas, clica, lê e comenta com o vizinho. Isto porque está preocupado porque vai fazer uma viagem, porque espera uns amigos a quem quer mostrar a zona, porque tem de mudar o telhado, porque tem de fazer a vindima ou muita roupa para enxugar.
Enfim, o estado do tempo é uma coisa que interessa a todos. Não é por acaso que é o tema porque puxamos quando temos de inventar conversa para não dizer só bom dia.

Isto aconteceu este fim de semana, os tipos, lá prenderam os seus leitores, ouvintes, cliques na página, gostos, para grande consolo dos contadores digitais, alerta, alerta e está certo, o tempo não está por aí além mas também não era preciso exagerar tanto garantindo que vinha aí uma tempestuosa tempestade com nome e tudo.

Eu que queria festejar 25 anos, fiquei chateado. Fiquei chateado, não por o tempo não estar assim tão mau, talvez um pouco por ter adiado a festa, sobretudo, por ter clicado em tudo o que anunciava tempo, escutado com atenção os noticiários, ter acreditado na conversa do meu vizinho e afinal o céu até estar lindo.

- 25 anos eu? Eu não disse de quê! Poderia ter havido festa se não tivesse acreditado nos media que nos enganam a curiosidade por trinta moedas.

Nota: o título original era "Se disserem que amanhã há tempestade, duvidem sempre" mas como vou partilhar no facebook optei por "Amanhã há tempestade".

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Reinventar - a palavra inventada.


Inventar, se não se tratar do invento duma máquina, dum remédio ou duma solução, pode ser sinónimo de mentira, de pura ficção ou de inventona. Ora, a democracia, Portugal, os portugueses, não foram inventados; nasceram, foram nascendo ou nasceram em  cada dia, de modo que não podem ser reinventados, quando muito poderiam renascer perante o reconhecimento de algum golpe fatal que lhes tivesse determinado o óbito.

Um mero discurso do calendário televisivo, habitual e obrigatório, tão rotineiro como o natal ou a passagem dos anos, obriga a uma série de discursos de política ordinária que cumpre a sua rotina com o seu comentário habitual e obrigatório ao discurso mãe do ano. Cada um encontra, na retórica, na subjetividade e na formalidade do politicamente correto do sumo presidente, uma razão que lhe dá a sua razão, a frase que vai ao encontro daquilo que tem de dizer ou escrever. A este ridículo junta-se a notória intenção da mensagem transmitida já ter siso arquitetada de modo a não dar espaço a críticas, a discordâncias ou ser ignorada, dizendo tudo sem dizer nada, não passando de mais uma banalidade da época festiva.

Até aqui nada de novo, a novidade que os jogadores da comunicação inventaram este ano foi a de sacar uma palavra e começarem a jogar com ela, a fazer dela a bola que os diverte a eles e à assistência.

Só se pode reinventar aquilo que se inventa, só pode renascer aquilo que está morto, só se deve operar quem está doente e um doente deve ter sempre uns dias de convalescença. Cheira-me, por isso, que o discurso ainda vai piorar. Não se deve dizer que este presidente se não nascesse tinha de ser inventado, deve dizer-se que este presidente nunca devia ter sido batizado, não porque a água lhe tenha feito mal à testa mas porque as prendas de natal do padrinho ainda lhe estão na cabeça.

Releio o texto e concluo: eu também era capaz de redigir a mensagem do presidente!...

domingo, 31 de dezembro de 2017

O discurso da hérnia

Eu é que beijo,
Eu é que abraço,
Eu é que sofro como o povo,
Eu é que fui a Pedrogão,
Eu é que venço nas sondagens,
Eu é que dito os acontecimentos,
Eu é que apareço na televisão,
Eu é que sei.

Eu é que sei se as leis são boas ao más,
Eu posso vetar.
Eu é que opino se os juízes julgam bem ou não,
Eu sou de direito.
Eu é que digo como o governo deve governar,
Eu sou o mais eleito.
Eu é que dito se os professores ganham bem ou mal,
Eu sou o professor.

Eu sou frenético,
Eu sou incansável,
Eu sou omnipresente,
Eu sou incontestável;
Eu sou o desejado.
Eu sou querido,
Eu sou querido por todos,
Eu sou o Marcelo.

Cum Caetano! Eu venci a história! A mim não é qualquer hérnia  que me leva o umbigo!
Eu é que sou o presidente!
Eu sou o homem de 2017 e 2018.
Que pare o país:
A minha mensagem vai passar em todas, todas as televisões, todos se vão pronunciar sobre a minha mensagem!

E, no entanto, já todos sabemos o que vai dizer e que o que vai dizer não vai dizer nada de novo!
É assim, a vida! Vai ser assim o ano novo.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Desejo a todos que não passem em 2018 o que eu passei em 2017


Um gajo chega a uma certa idade, a uma certa altura, a um certo ponto e começa a estar-se nas tintas para as efemérides, para o calendário gregoriano, para as comemorações anuais e para as passagens de ano. Um gajo já tem idade, altura e pontos de sobra para estar farto do "faz hoje anos que", "hoje é dia de" e para as mensagens de bom carnaval, boa páscoa, boas férias, feliz aniversário e et cetera
A mim, já nem o "bom dia" me diz nada: repetitivo, obrigatório, vazio, automático, inconsciente, desnecessário - Bom dia? Porquê?
Chateia-me o passar dos dias e dos anos, até das décadas. Sou mais condescendente com o passar dos séculos e das horas. Aos minutos ligo, quando espero. Aos segundos não lhes passo cartucho.

Mas esta coisa do natal e do fim de ano, das boas festas, dos desejos, votos, do ano que passou, do ano que aí vem, da solidariedade empacotada, das homilias de conteúdo medieval, dos jantares das instituições, associações, empresas, grupos de amigos e famílias, das mensagens sms, do papa, do ministro e do presidente rebentam-me com o calendário todo! De tudo querer ser novo, nada é novidade, de tudo querer ser novidade, tudo é vulgaridade, de tudo querer ser invulgar, tudo é vulgar, o brinde, a ementa, a prenda, o verbo, o voto, o gesto, montes de mensagens gastas para nada, atiradas para janeiro, como uma macheia de grãos de areia atirada para o mar.

O ano que passou, as graças e desgraças, a personalidade do ano, o jogador do ano, o filme, a reportagem, a imagem, o acontecimento,  dão-me uma tal vontade de dizer "foda-se" que só não o digo porque tenho receio que essa seja eleita a palavra do ano. Antes vou mas é... porque não ousarão lembrar-se de eleger a cópula do ano!

Quanto ao ano que termina, apaguem esse tema dos incêndios duma vez por todas! Quanto ao ano que aí vem, apaguem-me os marcelismos na televisão que eu ainda sou do tempo das "conversas em família"!

- Estou farto! Estou mal disposto, eu? Não, não é para me gabar mas lá no meu serviço chamam-me o mal disposto!

Pronto! Venha mais um que eu ainda aguento! Entre 2018 que eu acho que ainda aguento! Vai fazer 101 anos da Revolução de Outubro, vai fazer 101 anos das Aparições de Fátima!... A gente aguenta!.... 

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

O Natal não resolve nada

O Natal não resolve nada.
Amanhã os pobres já terão comido o quilo de arroz que a leviana solidariedade lhes foi levar a casa; a casa dos pais, que receberam filhos e netos, voltará à quotidiana pasmaceira; os postais de natal irão para o papelão ou para os eliminados do gmail; o presidente da república continuará a descascar bananas para as câmaras; o campeonato de futebol voltará para a ordem do dia; tudo se continuará a não resolver com sorteios de santas casas; os suinicultores continuarão o seu trabalho porco e o Rei dos Leittões continuará a ser carne para canhão. 
Pois em verdade, em verdade vos digo, o colesterol há-de tornar-se a faca com que me desmanchastes. 

Palavra de minha majestade: em janeiro hão-de reconhecer que o natal nada resolveu.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Crónica cruel em dó maior para três irmãos pelo Natal


As aldeias desaguam nas ribeiras.
Nas margens dos campos das ribeiras ficam os casais dos dois ou três mais abastados das aldeias.

Custódio é um dos dois ou três na sua aldeia, tem parcelas por tudo o que é ribeira, monte ou charneca, de modo que se diz, na aldeia, que não há quem não tenha um talho, pinhal ou olival que não confronte com ele com dois marcos.

Naquela aldeia, em mil novecentos e sessenta e dois, Custódio é o último homem que ainda usa barrete, que tem duas juntas, mula e burro e que vive exclusivamente da terra. Ainda assim, quando a mulher faleceu, em mil novecentos e quarenta e cinco, os filhos foram para Lisboa.

Custódio não teve outro remédio senão casar-se com uma das criadas, a mais lerda, surda que nem uma vaca, que talvez por assim ser, ou por adiantada idade, ou por consanguinidade de filhos incógnitos de antepassados, não lhe deu filhos sãos como os primeiros, os três, foram, saíram com defeito de mentalidade.

Por desgosto, coincidência ou por capricho, Custódio foi a enterrar no mesmo dia de António de Oliveira Salazar, deixando os três faltados aos cuidados da também já faltada e cada vez mais mouca, segunda mulher.

Emília, a mais velha, falava, falava, falava se Deus a dava, falava de mais, falava a toda a gente das coisas que se passavam em casa, fazia correio da aldeia e até falava das suas mesntruações. Dava-se de tal modo ao desrespeito que os rapazes rudes, que a cruzavam, a demandavam a respeito:
- Emília mostra-me a tua crica! Emília, fodes? Emília para que queres a crica se não fodes?

Adriano, o do meio, era pacato, mas tinha desembaraço para tratar do gado e de toda a lavoura, nada que o livrasse da troça das gentes rudes de que era parte: provocavam-no acerca da coisa da irmã, tentavam embebedá-lo sem sucesso e, quando num grupo, a sua boina andava sempre de mão em mão.

Fernando o mais novo, aprendera a ler e a escrever. A loucura só o apoderou já adolescente, talvez por consciência tomada do lar em que nascera, talvez por atos da mãe, talvez por maldição hereditária, o que é certo é que, diferentemente dos irmãos, com ele não se brincava, era violento, rangia dentes e não ria, lia o jornal e depois rasgava-o, não permitia que o atentassem com balolices.

Um dia, zangando-se com o Adriano no meio duma lavoura, deu-lhe com a folha metálica da vara do charrueco num sobrolho, destinando-o ao hospital. A vizinhança deu asas à sua crueldade e, de sua justiça,  amarrou-o durante horas, de cabeça para baixo, a uma oliveira centenária.

(A minha mãe levava-me pela mão, íamos a passar, não teve tempo para me ocultar a tortura, o cenário ficou-me gravado para sempre e nunca mais fui o mesmo. Ainda bem que vi. Não se deve esconder tudo das crianças.)

Os meios sobrinhos de Fernando, Emília e Adriano, entregaram-nos há uns anos anos para uma Instituição Particular de Solidariedade Social. Tentaram vender a herança dos campos da ribeira, dos pinhais e olivais mas não apareceram compradores.

Um destes dias, deste Natal, fui a um funeral, Fernando, Emília e Adriano, foram os três a enterrar.
- Os três no mesmo dia?
- É verdade! Vá lá a gente saber porquê!


Por aqui, o Natal é sempre tempo de consternação. 
- E que tal leitão?
Filhos da puta|!

Natal de quem?

As coisas por aqui não estão a ficar muito famosas. O espírito natalício tem fome, devora tudo, nem que seja um porco, rei, infante, pata negra ou atravessado, vai tudo!


Imagem por via do Avinagrado

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Também a Grécia Antiga era uma democracia


Ouçam lá, o consentimento tem de ser quebrado, foram feitos presos políticos em Espanha!
Aqueles homens foram presos pelas posições políticas que defendem!
Houve eleições na Catalunha com lideres das principais forças políticas atrás das grades!
A Espanha deixou de ser uma democracia? Se fosse só isso!
As posições tomadas pelos senhores da Europa e, em particular, as declarações do senhor Costa e do comentador Marcelo dão sinais preocupantes! Esta gente enxerga-se!

É a altura de todas as forças democráticas, de todos os democratas, quebrarem o silêncio:
a chantagem capitalista de que a Catalunha está ser alvo, a manipulação informativa dos media dominantes, as declarações do senhor Costa e do comentador Marcelo não fazem adivinhar nada de bom para um sistema democrático, já de si, em acelerado apodrecimento. 

Catalunha, independente ou não, mas sem presos políticos!

sábado, 16 de dezembro de 2017

Resolvido

- Temos de fazer o presépio!... Temos de fazer o presépio!... Nhe! Nhe! Nhe! Temos de fazer o presépio!...Se vem alguém a casa!... Nhe! Nhe!Nhe! Temos de fazer o presépio!...
- Se o queres, fá-lo tu!
- Eu vou pôr a roupa na máquina e limpar a casa de banho!
- Podes ir para as compras que eu trato disso tudo!


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Com amigos destes nem sei como será o meu Natal

Há dias um amigo provocou-me comentando que, embora eu fosse dizendo que o Natal não é a minha época, que me estou nas tintas para o Natal e que dou muito pouco pelo espírito, pelas lâmpadas  e pelos desejos de Natal, todos os anos eu me esmerava na originalidade e no cuidado da minha mensagem de Boas Festas.

Tive de engolir alguma coisa mas contrapus argumentando que as minhas mensagens têm sempre uma intenção de sátira e de provocação para estimular reações da parte dos recetores.

Além disso, se ele falava do meu postal-natal-2017, deveria concordar que pouco esmero havia tido na sua conceção, já que me limitei a fazer uma pesquisa no youtube e a encontrar um clip em que um quarteto anónimo, em aparente harmonia familiar, em modo heavy-metal, chama filho da puta ao Pai Natal. Identificado com essa aversão ao barbas brancas da coca-cola, sensibilizado pela simplicidade dos autores/atores desse youtube, talvez abusando de alguns dos seus direitos,  fiz desse clip o meu Postal de Natal, partilhando-o com alguns amigos, ele incluído.

Acontece que a maior parte dos amigos a quem dei a conhecer o dito filme, feito postal de Boas Festas, nem sequer me retribuiu uma resposta seca de "boas festas para ti também" levando-me a concluir que ou me ignoraram ou ficaram pura e simplesmente desagradados com a provocação. E os que me deram troco, contornando os motivos de Natal, limitaram-se a fazer comentários pouco abonatórios ao estado de consciência do vocalista, às pantufas da guitarrista ou à qualidade da gravação.

Por tudo isso, digo, o meu amigo não tem razão e peço agora aos leitões-leitores que vejam o vídeo e digam de sua justiça, se a escolha do vosso Rei é ou não é uma boa rabanada de Natal.



segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Prá gaveta


Tendo acordado, como todos os dias, num dia assim:

Disse às pedras que poderiam ser árvores,
As pedras responderam-me que não tinham ouvidos.
Disse às árvores que se comportavam como pedras,
As árvores alegaram que as pedras não têm raízes.
Perguntei aos meus irmãos pelos nossos pais,
Eles afirmaram que não temos o mesmo apelido.
Perguntei ao vento de que lado vinha
E ele empurrou-me contra a montra da loja.
Juntei-me aos manifestantes que desciam a avenida
E os peões em trânsito tinham palas equestres.
Juntei-me ao povo que protestava na praça,
E puseram tapumes em todo o perímetro.

E depois fui para casa e liguei a TV:
Um periscópio manipulado por filhos da puta, que acabavam de ter um jantar de atum azul,  mostrava um oceano sem peixes; um filho da puta dum comentador, bem pago pelo dono, questionava  o aumento do salário mínimo em dez euros, um trabalhador duma superfície imperial agradecia ao falecido dono o quilo de arroz que lhe dera como prémio no natal.

Ao lado do televisor tenho uma foto do meu pai em fato operário. Cada vez que a olho tenho a sensação que ele está a olhar para mim.

Liguei o leitor e pus-me a ouvir o FMI, desliguei naquela parte em que o José Mário Branco começa a debitar palavrões e procurei, na estante, a Cena do Ódio do Almada Negreiros.

Adormeci a ler e a pensar que, embora, não desista de mudar o mundo, eu já só quero é que o mundo não me mude a mim.

- Almada - Negreiros?
- Xis.
- Se ao menos eu ganhesse o totobola!

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Dia das maculadas

Imaculada, rainha dos pastéis
Faz com que o vinho não se acabe nos tonéis
E a aguardente seja cada vez mais forte
Juro, beberei, beberei até à morte!


E é por isto que eu bebo e só escrevo por isso:

Os feriados só não dão gozo a quem não trabalha nos outros dias. Por isso, estou de acordo com este feriado mas não com a sua razão.

No Islão há correntes que consideram a mulher obra ou instrumento do diabo, a Cristandade idolatra a Imaculada, a Virgem, a que concebe por obra e graça do Espírito Santo, colocando-a, por esses atributos, acima ou em oposição à mulher que se mancha com o sémen. À maculada, a serva do macho, a parideira,  é-lhe vedado o acesso ao sacerdócio e o direito ao prazer sexual. 

Por isso, estou de acordo com este feriado, mas não por uma razão assim assim, que um ano é sagrado, outro ano pode não ser, dependendo da produtividade ou da sensibilidade política dos trabalhadores do alto clero.
Este dia devia ser o dia de todas as mulheres que, até aos dias de hoje, foram fodendo a velha civilização, que se deram ao prazer de ter prazer, que se estiveram nas tintas para os tabus da virgindade e bateram o Homem-de-Deus por razão e por direito, que sempre repulsaram a ideia de engravidarem dum espírito oculto, que se divertiram em estábulos, confessionários e paragens de autocarro, que estiveram por baixo, por cima, e de lado, com o namorado, com o amante ou com outras marias, que tomaram pílulas, que tiveram filhos, que amaram homens e continuam a amar, com exceção daqueles que beijam chão, paredes e sepulcros em Jerusalém.

Vivam as maculadas, as amalucadas e os malucos dos homens também!

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Para se ser feliz é preciso ser-se egoísta.


Não faltam receitas, recomendações, frases e livros para se alcançar a felicidade e, em particular, na época de Natal o termo felicidade e seus derivados são marca de comunicação até ao ponto de nos sentirmos felizes por obrigação ou deprimidos por uma felicidade obrigatória que não conseguimos experimentar.

Poderíamos andar aqui às voltas com reflexões e conceitos do que é e do que não é esse estado de espírito, trazer ao discurso a velha máxima de que a dita não depende do dinheiro, haja saúde, medir quem é mais feliz do que quem, eu sou mais feliz do que tu, colocar numa escala de avaliação objetiva, como se exige para tudo nas nossas sociedades de competição, o grau de felicidade dos indivíduos.

Mas no caso presente, o que me traz ao título, foi a declaração segura duma personagem que hoje ouvi na rádio, apresentada como solidária, altruísta, preocupada com as desigualdades sociais e com as tragédias infligidas à humanidade, com os que sofrem e com os que não têm e que, no fundo, não acrescentava nada ao que já ouvi centenas de vezes ao longo da vida, seja da parte de outros testemunhos nos media, da minha vizinha do terceiro esquerdo, dum colega de trabalho ou do padre da paróquia.

Efetivamente, a felizarda criatura, fez-me mais infeliz: como é possível um ser minimamente sensível, afirmar a plenitude da sua felicidade perante o mundo, o país ou a governação que temos. Das duas uma, ou é doida ou é uma profunda egoísta. 

A única coisa que nos pode fazer sentir menos infelizes é a luta!

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Até hoje tenho escapado!


Tanto a minha mãe como o meu pai morreram prematuramente e, obviamente, eu fiquei orfão, também prematuramente! Portanto, de morte, já tenho o meu quinhão, embora tenha de reconhecer que, verdadeiramente, conhecedor do assunto só o serei tardiamente na minha hora, que acontecerá, espero, a partir deste preciso momento, fora de tempo para falar da minha experiência pessoal.

Há três dias para cá, morreram várias pessoas em Lisboa, no Alentejo, em Trás os Montes e Trás dos Matos, que é uma aldeia que fica ali próxima de Vila Cã. Peso igualmente a morte dessas pessoas mas mais pesaria se alguma delas me fosse próxima. Não podem é acusar-me de frieza por não ir no embalo mediático de aqui del preços baixos, aqui del rock, aqui del rei,  tens de chorar votos de pesar de nomes sonantes, sonae-heróis ou punks-heroínas que me dizem ainda menos do que o senhor José, natural de Vila Cã, que eu nunca conheci e de quem nunca ouvi falar.

Na morte somos todos iguais, não é o que dizem? Pois saibam que não verti uma molécula de lágrima nem por um, nem pelo outro, embora tenha consciência que um deles fez mais pelo rock português  e deu muito menos chutos do que o outro pontapés em tudo o que é português. Se o senhor José foi dono duma mercearia, facto que desconheço, terá sido um comerciante sério e terá sempre preferido a música popular portuguesa.

Agora parlamento? Já agora panteão, não?!  Não sei se houve ou não uma coroa de flores do Rei da República, nem isso me interessa. Recordo uma cantilena que o meu pai me contava e a minha mãe me ensinava:

À morte ninguém escapa, nem o rei, nem o cura, nem o papa.
Mas hei-de escapar eu! Tenho aqui um vintém, compro uma panela, meto-me dentro dela, tapo-me muito bem! Vem a morte não me vê. Bons dias meus senhores passem todos muito bem!

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

ai eu coitado

Ai eu coitado como vivo em gram cuidado,
a represa seca,
o gado sem pasto.
Ai eu cuidado como vivo em grã coutado
a riqueza sem rasto,
os cornos sem testa.
Ai Meca, ai Jerusalém, ai Fátima,
ai manifesta vontade de ser rua.
Deus me cuide, coitado.
A virilidade de Costa de rabo na Europa,
a virilha de Marcelo nas campas do Dão.
- Nada será como dantes, diz este.
- Tudo será como eles quiserem, diz o outro.
Ai fogo, ai chuva, ai ruas,
ai as vontades da feira do mês,
vendeu-se agosto? compra-se dezembro!
vendeu-se abril? compra-se maio!
Para porquês de novembro, respostas nuas.
Está um tempo seco e frio como o orçamento.
Cuidem de mim, cuidado comigo, ai eu coitado,
sem pingo para a pinga,
rouco para o fado,
levaram-me a voz e o rendimento.
Rendo pouco.
Ai eu estou louco, ai eu estou muito mal, 
arderam os pinheiros que seriam árvores de Natal, 
foi restringida a rega dos campos de golfe.
Ai eu com mágoa vou viver para Lisboa,
Onde tudo acontece e não há fogo e há água.
Coitado de mim que estou louco.
Cuidado comigo que sou coitado.
Sou frágil e mordo.
Sou porco.

domingo, 19 de novembro de 2017

Qual Pai, qual Menino, qual Natal


O Verão quase que chega ao Natal.
Dizem todos que isto tem a ver com alterações do ambiente – ambientalistas!...
Dizem que as alterações climáticas têm a ver com a queima de combustíveis fósseis - especialistas!...
Dizem que a queima de combustíveis tem a ver com o consumo de energia – engenheiros!...
Dizem que o consumo de energia tem a ver com a sociedade de consumo – economistas!...
Dizem que o consumo desenfreado está a arruinar a vida das sociedades – sociólogos!...

Ora aí está o Natal, amigo do ambiente, das câmaras e famílias endividadas, dos pobres que nem factura de electricidade têm para pagar.

*Eh-lá luzes, anjinhos, meninos e trenós iluminados nas torres das igrejas, nas fachadas dos edifícios presidenciais, nas varandas, chaminés e centros comerciais!
*Eh-lá lojas de coisas que não valem nada, jantares de cabritos e cabras, discursos de provedoras de colares, de excessos de mesa com orações a recordar os que não têm!
*Eh-lá santa inocência de meninos grandes, de burros, de vacas e de árvores de plástico!
É tão bom lembrar-nos dos que não têm nada, nem que seja ao menos para sentirmos o orgulho de que temos tudo!
Viva o planeta sobreaquecido com luzes a apagar e a acender! Viva a falência em abundância! Viva um menino que nasceu há dois mil anos! Viva a Coca-Cola que inventou o Pai Natal! Viva o Natal!
Vivam os videntes, como eu, que advinham um bom Natal para uns e um mau Natal para outros, que já sabem que na missa do galo o padre vai dizer que o Natal deve ser todos os dias, que uns poetas de quadra vão repetir que Natal é sempre que um homem quiser, que o Costa vai prometer que vai haver um novo ano e o Marcelo vai chamar a atenção para o dever de olharmos para aqueles a quem a República tudo tirou!

Ai o meu Natal! Ai o meu Natal! Eu nem sequer devia ter escrito nada sobre o Natal porque de textos, canções, luzes e peditórios de Natal já todos estamos fartos!

(* o "eh-lá" foi plagiado duma ode qualquer do Fernando Pessoa e também não sei se o Belmiro Azevedo ainda é vivo)

sábado, 18 de novembro de 2017

Não sei se rio se seco

Pensamento:
Todos nós temos o nosso rio de criança,
um rio grande, uma ribeira, uma levada,
um rio seco, um rio de cheia, um rio com peixes
ou mesmo um rio que atravessa a cidade emparedado.
Até pode ser o rio de uma imagem, dum filme, duma história
mas todos nós temos um rio de criança.

No meu caso, o meu rio deixou-me sempre insatisfeito,
era ali, na minha aldeia, que ele se formava de dois ou três riachos.
No inverno levava água se Deus a dava
mas no verão toda a água era para o milho,
ele esquecia-se que era rio e eu também.

Na aldeia a jusante já a ribeira corria todo o ano,
as mães lavavam a roupa aos filhos
e os filhos apanhavam peixes com uma cesta.
Eu molhava-me lá com os outros meninos e acontecia-me pensar
no destino daquela água, por que terras passaria
e quanto tempo demoraria até chegar ao mar.
Penso que os outros meninos também pensavam nisso
e que todos eles, como eu, sonhavam um dia ver o mar.

Agora que somos grandes já não sentimos os rios.
O que importa é que o governo cuide dos rios,
sejam eles de água ou de povo.
Que os deixe correr e desaguar,
que os contenha, que os regule, que os aproveite.
Ah! E que nunca se esqueça de tratar do saneamento!

Intervalo de pensamento: 
O povo no tempo é como um rio no espaço.
Alguém já deve ter dito isto!...
Mas isto não:
Rio de rir
Rio das águas
Rio das ruas
e levo-as com o rio ao mar.

Continuação de pensamento:
Mas o importante é que o rio nos continue a correr na memória
e o povo fluvie e vença as margens que o comprimem.
Um poeta já deve ter falado disto!...
Mas ninguém, senão eu ou os meus primos,
retém a imagem da minha mãe e das minhas tias
a lavar no rio da minha aldeia
as tripas do porco que matámos em dezembro.

Fim de pensamento:
Não tarda aí dezembro,
o porco está vivo,
o povo está no rio,
o rio vai cheio,
a greve é em novembro,
o povo está vivo,
o porco está cheio,
há que matar o porco,
senão ele bebe o rio.

Rio! Não sei se de rir se de ser também rio!


E de quem é o nosso mar???
Isto sou eu a pensar!

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Puta que pariu os catalães

Se a história tivesse sido outra.



Não houve o 1 de Dezembro de 1640, Portugal continuou a pertencer à coroa espanhola. Não existiu o 5 de Outubro de 1910, Portugal continuou a estar dependente dum poder de matriz sanguínea.
No início dos anos 30, em alguns povos do reino de Espanha, sobretudo na Catalunha e em Portugal,  começaram a declarar-se alguns movimentos independentistas, libertários, socialistas, republicanos.

A ação desses movimentos progressistas acaba por fazer da Espanha uma república onde se manifestam as vontades de novas repúblicas e por ter um desfecho numa sangrenta guerra civil. Os republicanos são vencidos pelas forças fascistas, lideradas em Portugal pelo general Carmona e, no resto da Espanha, pelo general Franco que impõe uma república ibérica à sua medida.  Este, assumindo-se como generalíssimo, acabou por conceder um poder territorial especial ao seu parceiro de armas português. Fica, no entanto, uma mancha no mapa da sua vitória, a Catalunha resistiu ao seu poder de fogo e conseguiu constituir-se como estado independente, reconhecido por muitos estados e tolerado por Hitler, ou reservado para intervenção futura.

Nos anos 70, adivinhando a morte e o fim do seu reinado, Franco achou por seu poder, deixar a grande Espanha entregue ao rei de coroas, filho da corte a quem permitira, até então, a sobrevivência num palácio maior, da província maior, Portugal, nesses anos vigiada pelo almirante subalterno, Américo Tomás.

Embora ressuscitassem, na altura, algumas manifestações republicanas e independentistas, nas quais Portugal se destacava, fantasmas da guerra, apatias ideológicas e promessas de democracia, acabaram por viabilizar a nova monarquia e o filho do rei velho regressou ao palácio, palacianamente aclamado mas, naturalmente, sem votos.

O novo reino de Espanha preparou, entretanto, a sua  entrada na CEE e, travessuras da história, acabou por ter de reconhecer a república da Catalunha e assinar a adesão à comunidade no mesmo dia.

Nos anos 10 do novo século, Portugal, que nunca se sentira bem com a sua consciência nacional por depender de famílias castelhanas, onde as ideias republicanas sempre tiveram expressão popular, onde o direito dos povos à autodeterminação sempre foi um direito querido, entra num processo independentista e proclama unilateralemnte a sua independência. Fortemente condicionado pelo capitalismo, pelo poderio bélico da comunicação social, pelo poder Bruxelas-Madrid, vítima de chantagem generalizada, o país fica suspenso.

Em novembro de 2017, mais do que a hipocrisia dos senhores da Europa, que intercederam pela formação de novos estados da ex-Jugoslávia à ex-União Soviética, o que irrita mais os portugueses que reclamam a independência são as declarações dos governantes da Catalunha e, sem atenderem que as mesmas não traduzem necessariamente os sentimentos dos cidadãos que se fazem representar, dizem chateados:
-Puta que pariu os catalães!

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Porque se pode gostar mais de gatos do que de cães:


A coisa começou a correr bem ao homem depois de setenta e quatro: menos fiscalização, menos medo, mais liberdade,  mais esperança, revolucionaram a sua atividade de viajante e os seus negócios começaram a prosperar. 

Sabia-se que, para tal sucesso, era necessário untar as mãos a guardas fiscais, republicanos e outros mais. Sabia-se que não trabalhava com letras, nem com cheques, nem com bancos. A massa viva  guardá-la-ia onde só Deus sabia mas, quando os maços começaram a ficar grossos, temendo um diabo que os levasse, começou a dar-lhes caminho fazendo anexos, muros e escadas, latadas, portões e arruamentos, valorizando assim o seu quintal, dando trabalho a alguns e vida à terra.

Pensava numa de noite e de manhã ia falar com o pedreiro, falava a uns jovens estudantes que gostavam de ganhar algum e... mãos à obra. A mim, talvez por me achar um trinca-espinhas, por me ter por contestatário ou por não engraçar comigo, nunca me falou para fazer nada.

Sem nada para fazer, peguei na motorizada para dar uma volta e parei para apreciar os trabalhos e dar um ponto de conversa aos meus amigos. Tinham encanado a valeta com manilhas e feito o alicerce do muro entre esta e o alcatrão, alargando assim a propriedade num metro. Na justificação do homem, também o industrial do sítio fizera o mesmo com o ribeiro, ganhando mais terreno para o estaleiro da fábrica e ninguém o tinha incomodado por isso.

O muro estava praticamente acabado e, como alguns dos serventes já andassem de mãos penduradas e houvesse sobras de blocos, deu-lhes o homem o trabalho de fazerem mais duas fiadas sem cimento - pelo menos ficavam arrumados.

- Ó homem, com a massa fresca e esse peso em cima não tarda muito isso desaba tudo!
- Rapaz, eu não te falei porque já sabia que és uma caga-agoiros, some-te antes que leves uma pazada!

Não tardou nada, o muro tombou sobre a estrada e eu vi-me obrigado a rir. Antes que o homem descarregasse em mim a sua ira, sorte a minha, pára o jipe da GNR e foi com eles que ele desabafou do seu azar, enquanto a malta olhava para o bonito serviço e eu me dirigia para junto da minha motorizada.

Entretanto aproximou-se de mim um guarda e perguntou-me pelos documentos e pelo capacete.
- Mas a mota está parada, o senhor não sabe nem se é minha nem se eu me desloco nela!
- Sou testemunha que a mota é dele e que ele aqui chegou nela sem capacete! 

Para acelerar a alhada que se estava a desenrolar, o filho do homem, que havia ido ao café buscar umas cervejas para o pessoal, chega a acelerar na sua Zundap e, para animar a história, também não trazia capacete.

Bem podia eu animar ainda mais a história,  prolongar o texto com discussões fictícias mas a verdade é que, traído pela memória, pela imaginação, pelo jeito ou pela vontade, por mais voltas que dê pela tecleta (palavra criada agora mesmo da composição de teclado com caneta), não consigo desembaraçar-me da incoerência e chegar com pés e cabeça à frase final:
- Não há gatos polícias.


domingo, 29 de outubro de 2017

Isto é só a gente a imaginar


Imaginem que a nossa televisão fizesse igual cobertura daquilo que se passa em Lisboa e no resto do país, tivesse por hábito ter equipas na província a recolher notícias, a fazer entrevistas, a gravar documentários, a registar acontecimentos.

Imaginem que a nossa televisão tomava,  também como sua, a luta contra a desertificação do interior e estava no terreno denunciando o fecho de serviços, a falta de comunicações, o desordenamento territorial e divulgando as iniciativas locais, os sucessos e insucessos das suas gentes, as suas dificuldades, a sua qualidade de vida.

Imaginem que os jornalistas conheciam e sentiam empatia pelas aldeias e vilas que não fazem parte de roteiros turísticos, cujo quotidiano está bastante longe daquilo que cantam as novelas.

Certamente que, com uma televisão assim, o interior não estaria tão abandonado e, porventura, a tragédia dos incêndios não teria tido um impacto tão grande. Por isso, atirem dos vossos estúdios as culpas para tudo e para todos mas não se esqueçam de refletir sobre a vossa quota parte.

Sabe-se que o espetáculo mediático do fogo é um estímulo para os pirómanos mas as goelas das vossas objetivas não resistem. Desta vez nem isso vos chega, já enjoam os relatos de perigos e infernos, as imagens das terras queimadas, o jornalismo mórbido de que vos alimentais, também estes alinhamentos estão a dar um contributo determinante para a desertificação do interior ao amedrontarem e a assustarem, não só os que querem viver no campo, como aqueles que  querem viver com ele, conhecê-lo ou visitá-lo.

Convidei um amigo de Lisboa para vir passar um fim de semana a minha casa:
- É pá! Tenho medo dos incêndios!
- Ó pá! Não te assustes! Por aqui ardeu muito pouco!
- Pois por isso mesmo! Não podemos adiar isso para quando o problema da desertificação estiver resolvido?
Caiu a chamada.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

O adultério tem os anos contados



Trabalhei que nem um louco. Entrei no T2 exausto. Ouço sons ofegantes, suspiros, grunhidos que vêm do meu quarto.
Pensei:
Entro de rompante e armo um chinfrim? - Não, isso seria um ato pouco civilizado.
Bato à porta? -Era o que faltava!
Espreito pelo buraco da fechadura? - E se a cena me desagradar? E se a cena me agradar?
Um cigarro, isso mesmo um cigarro, o cigarro é uma vantagem que, em certas ocasiões, os fumadores têm. Dirigi-me à marquise e à janela, inspirei um cigarro bem pensado.
Ouço a porta de entrada do T2 bater. Alguns instantes depois ela disfarça a surpresa da minha presença e carrega a máquina com roupa da cama.
- Então querido, não ouviste a porta a bater quando entrei?
- Ouvi, ouvi mas não liguei! Até pensei que pudesse ser um assaltante!
- Lá estás tu com o teu humor de homem! Fazes um bifinho para o jantar?
- De boi ou de vaca?
- Credo! Lembras-me o teu pai a falar! Sempre com esse humor machista!
Arranjei um bife de porco, jantámos e fui para o computador!

Religiões vizinhas condenar-me-ão por ser  infiel e comer porco, religiões próximas dirão que sou manso por não ser touro, religiões ateístas contemporâneas chamar-me-ão porco por escrever este texto.

Publiquei um anúncio num site de classificados: "Procuro parceiro(a) para cometer adultério".
Por segurança não deixei nenhum contacto. Não sei se foi por isso que ainda não recebi nenhuma resposta ou se é pelo facto do meu desejo não se encaixar em nenhuma cultura.

Tenho um trabalho que enlouquece. Só espero que um dia não me condenem por ter enlouquecido.


domingo, 22 de outubro de 2017

A terra a quem a trabalhar


Quando Leonor voltou à terra já não era a mesma que dali partira nas raias da maioridade. Na capital deveria ter encontrado companheiro com bons abonos, emprego em boa loja ou repartição já que, aos olhos de quem a via, virara fina. Quem a vira e quem a via: óculos de sol, saltos altos, lábios e unhas pintados, permanente, colar, malinha no ante-braço, cuidada no uso da palavra com recurso a termos por ali pouco usados e, a juntar a tudo isto, conduzia ela própria um volkswagen azulinho claro. 

A meio da volta das visitas a que vinha, desceu, com os cuidados que o seu calçado e o seu jeito exigiam, a rampa de acesso à taberna da rua onde nascera, entrou e, naturalmente, toda a gente se calou para a mirar e para a ouvir.
Falou, do posto da autoridade efémera que lhe concederam, não do pedaço de vida que lhe desconheciam pela ausência mas das mudanças que notava na terra e que a surpreendiam.

- Efetivamente, estou chocada, a quantidade de silvas e ruínas que vão por este lugar além! Que desmazelo o desta gente! Hoje em dia ninguém quer trabalhar!
Foi o Zé da Venda, que por sabedoria de ofício ouvia muito mais do que falava, que a pôs no seu lugar:
- Leonor, se ainda sabes distinguir uma foice dum foice, vais ali às minha alfaias e podes começar já naquilo que herdaste dos teus pais!

Meia engasgada, abreviou as despedidas, saiu porta fora e pôs-se ao volante, deixando abafadas pelo ruído do motor algumas gargalhadas. E então não é que na primeira curva por entre o casario, de má visibilidade, diga-se, espeta uma traseirada no carro de bois do Esquim Manel. A junta aliviou a canga por instantes mas os animais nem olharam para trás. Pararam à ordem do boieiro que veio à retaguarda verificar o acidente. O capot do automóvel bem amolgado e coberto de esterco que resvalou da carga, Leonor a sair irada e de voz esganiçada, os clientes da Venda e outras vizinhanças a acudirem ao local convocados pelo estrondo e pela discussão crescente.

- Efetivamente isto não se admite! Não devia ser permitido andar com gado nesta estrada!
- Já por cá andavam muito antes de teres carro!
- Ó Esquim mas tu tens de me pagar efetivamente os estragos no carro!
- Ó cachopa, eu não tenho a carta mas sempre ouvi dizer que quem enfia por trás paga!

A discussão prolongou-se, como é normal, alargou-se ao julgamento dos outros presentes, elevaram-se alguns tons mas, fosse qual fosse o argumento ou a sentença, a todos o Esquim Manel respondia:
- É muito simples, quem enfia por trás paga!

Não tendo corrido muito bem a ida de Leonor à terra, ressabiada, nunca mais voltou mas é ainda recordada por alguns com o "enfia atrás" e "efetivamente". Ou melhor, voltou hoje, já septuagenária, numa passat conduzida por um filho, depois de ter visto na televisão a sua terra em chamas. Não conseguindo localizar as sua propriedades teve de pedir ajuda a um primo residente!
- O que isto era e o que isto é! Isto tinha de acontecer! Esta gente sempre foi muito desmazelada! E depois ninguém quer trabalhar!
- Ó prima, há já aí quem diga que o pessoal que cá vive tem de se unir e fundar uma cooperativa e que as terras abandonadas irão ser propriedade de quem a trabalha!
- Efetivamente estou a ver que também tu viraste comunista! Tu, ouve bem, ai de quem tocar naquilo que os meus paizinhos me deixaram ou que ouse mexer nos meus marcos!
- Efetivamente prima, vou dizer-te uma coisa que nunca te disse: eu quero que tu te... tu te... tu te...

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Alguém que explique ao balola do Marcelo


Alguém que explique ao professor Marcelo, presidente de todos os telespetadores, especialista em tudo, ator de afetos, que as gentes da província podem ter muitos pêlos mas não são cachorros!...  Percebem muito bem a diferença entre passar a mão pelo pêlo a um animal e dar conforto a um cidadão desamparado pelo Estado e pelos seus chefes.

Se viesse ter comigo eu faria rom rom e com certeza que ele não sujaria as mãos!..

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O Fogo que arde em Lisboa

Arde na capital uma fogueira que projeta focos de incêndio país fora. Cresce desde a tragédia de Pedrógão Grande e ganhou fulgor este fim de semana.
Os incendiários espalham teses. De que há uma máfia terrorista do fogo no país. De que o Governo deixa. De que a classe política ganha com isso. De que há interesses.
Quer-se sacrificar alguém. A Ministra? O Governo todo, se possível!
Só não se quer pensar.
O fogo que arde em Lisboa só arde em Lisboa porque só Lisboa é que não ardeu.
Aproveita-se da ignorância e da impotência. Do choque. Do horror.
O fogo que arde em Lisboa, nas redações dos principais jornais, revistas e televisões do país, propaga-se na voz de gente que já não sai de Lisboa. Que não conhece o país. Que não tem qualquer ligação ou empatia com o modo de vida rural, com as suas práticas. Mas que dirige os principais meios de comunicação do país.
E tem a ajuda dos idiotas úteis que se vieram embora das terras, do campo e hoje vivem nas capitais ou nas periferias, desprezando a vida que os seus pais e avós tiveram. Que lhes permitiu estudar, viajar, ver outros mundos e ter, hoje, uma vida com qualidade, mas em contexto urbano.
Por isso alinham nas manifestações silenciosas contra nada. Nas partilhas de vídeos virais. Por isso clamam que se faça algo, quando não querem fazer coisa nenhuma. Nem eles, nem os incendiários que eles respeitam, cujas palavras disseminam aos quatro ventos.
Os incendiários, claro, querem cabeças a rolar. São os mesmo que defenderam a entrada da Troika, as privatizações, a estabilidade do BES ou do BPN, o benefício das autoestradas, o fim do Estado Gordo, os cortes no número de funcionários públicos em escolas, hospitais, repartições de finanças ou segurança social, que viveram a expensas das PTs e hoje passeiam à conta das EDPs.
São os mesmos que escarnecem das lutas de ambientalistas e ativistas. Que se riem de quem tenta falar contra os esquemas das barragens inúteis que vão destruir os nossos rios e encarecer a fatura da eletricidade; que se riram quando houve oposição ao fecho de linhas de caminho de ferro no Tua, no Corgo, no Tâmega, por esse Alentejo fora; que se riem quando se fala em Proteção da Natureza; que acham bem que se tenha acabado com Guardas Florestais e Guarda Rios; que ignoram as lutas contra a exploração de gás natural e petróleo; que propagam os mitos da agricultura intensiva, de um Alqueva em cada esquina ou de um fábrica de pasta de papel em cada região.
São os mesmos que bloqueiam ou censuram os poucos jornalistas que se especializaram em questões de Ambiente. Que não lhes dão espaço, nem tempo para escrever. Que se riem das suas propostas e, quando os deixam trabalhar, lhes dizem que o ângulo tem de ser mais apelativo, falar de casos de sucesso, de empreendedorismo, de mudar de vida, de famílias vintage.
Por isso, ignoram os ciclos naturais, as dinâmicas agro-pastorícias e florestais. Não sabem que o fogo faz parte da vida do campo. Não sabem que o país que ainda não ardeu anda por estes dias a apanhar azeitona. E que desse ritual faz parte, muitas vezes, podar ramas e pernadas das oliveiras. E queimá-las. Ali mesmo, nos terrenos. Porque o pão já não se faz todas as semanas no forna a lenha. Porque já não há camas de animais para fazer com essas sobras. Porque muitos desses terrenos continuam a ser semi-cultivados por gente que já não mora nessas terras e lá vai apenas aos fins de semana. Ou por gente velha, abandonada ou simplesmente entregue ao seu dia-a-dia e ao que há para se fazer. E há que limpar os terrenos. Há que queimar.
Os incendiários que hoje projetam as suas farpas incandescentes pelos ecrãs não querem discutir o país.
Não querem saber se a gestão dos Parques Naturais vais ser desmantelada e entregue às Câmaras e aos mais paroquiais caciques; fazem por ignorar que todos os dias os gabinetes dos Ministérios da Agricultura e do Ambiente abrem exceções à integridade da Reserva Agrícola Nacional e da Reserva Ecológica Nacional, permitindo que se construa em todo o lado; não fiscalizam, nem investigam o trabalho da Agência Portuguesa do Ambiente ou das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional – onde mora o verdadeiro Poder do país, o que molda o território, que autoriza ou chumba todo e qualquer investimento e atividade económica fora dos núcleos urbanos, toda e qualquer exploração de recursos; não querem saber se o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas há anos que não tem vigilantes, meios ou orçamento para tratar das Áreas Protegidas; estão-se marimbando para as alterações climáticas, que não explicam, não querem explicar, nem entendem.
Os incendiários o que não querem é os seus Turismos Rurais queimados. A suas reservas de caça afetadas. Os seus caminhos para as aldeias e vilas pitorescas – de onde muitos, na verdade, são originários – cobertos de preto e cinza. Porque é desagradável.
Porque incomoda a narrativa daquelas reportagens bafientas de verão sobre as tradições do Interior: os queijinhos, os enchidinhos, o cabritinho, as senhoras de bigode, os velhos bêbedos barrigudos de samarra.
E, acima de tudo, porque obrigava a ir conhecer o país, as suas contradições, o seu analfabetismo e iliteracia, o seu atraso. Mas também as suas realizações, acima e apesar das falhas do Estado, que há muito não existe para quem vive longe do mar.
Já os idiotas úteis não querem pensar. Porque os obrigava a calarem-se antes de cuspir tudo e um par de botas nas redes sociais. E porque isso é pouco instagramável.
Obrigava a pensar se querem mesmo pagar com os seus impostos o Estado que têm exigido ao longo deste verão e outono. Se querem pagar um corpo nacional de bombeiros profissionais – o voluntariado é muito bonito, mas não chega; um Serviço Nacional de Proteção das Florestas e Rios; se aceitam financiar o Estado para que este pague a pessoas para viverem e cuidarem das nossas serras e montes, Interior fora, onde os da cidade não querem viver, nem fazer agricultura, nem cuidar das florestas, nem criar gado; se aceitam que mais Estado é igual a mais funcionários públicos; se aceitam que a propriedade intocável tem de acabar e estão dispostos a abdicar de “ter” ao abandono a sua terra, a sua casa, a courela perdida não se sabe onde, para que alguém – seja o Estado ou o vizinho – cuide dela; se aceitam que o Estado pague a reflorestação de milhares de hectares privados ardidos; se estão dispostos a perceber que este “mais Estado” custa o dinheiro que estamos a torrar numa dívida impagável. E que negar discutir a dívida e o seu pagamento é continuar em dívida. E a arder.
Acima de tudo, se estão dispostos a meter as mãos na empreitada que é construir este País. Que não poderá ser feito só pelos outros, pelos partidos, pelos políticos profissionais de sempre.
O fogo que arde em Lisboa é só fogo de vista. Quem dá para esta fogueira, não quer pensar, nem fazer. Quer fogo de artificio.
E de fogos, está o país farto. E queimado.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O próximo ministro da administração da interna é...



Por este andar o próximo ministro da administração interna só vai aguentar até à época das cheias. Isto se não houver um terramoto antes.

Por outro lado, o primeiro ministro tem agora a oportunidade de fazer com a floresta o que o Marquês de Pombal fez com Lisboa. Mas para isso, talvez fosse melhor começar por mudar a sede do governo para Vila do Rei.

domingo, 15 de outubro de 2017

Desabafo a quente e seco


A conversa incontornável do tempo a completar os "bons dias", os encontros de circunstância a aproximar vizinhanças de vidas diferentes, a salvar diálogos obrigatórios ou que apenas se desejam e, neste outono faúlhento, o fogo e o vento a pedir chuva.

Pois então que chova três dias sem parar
Que desabe o tempo
Que chova a rodos, a cântaros e a potes
Que molhe todos e não só os tolos
Que dancem a chuva, façam novenas e procissões
Águinha que Deus a dê
Que S.Pedro solte a sua incontinência
E vós, presidentes, ministros e secretários
Tirem o cavalinho da chuva
Se esta noite chover não será certamente por obra vossa.

- Ela faz cá tanta falta!
Disse-me a vizinha que sabe o que diz.