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segunda-feira, 30 de maio de 2011

40- O Caminho do Fim da Terra

Xésus Agrelo nunca se perdoará de, na condição de primeiro a encontrar os cadáveres de Marie France e Pierre Patapouf e de, no mesmo momento ter confirmado, pela falta de seus pertences, a partida inesperada de Sete Pés, ter sido o primeiro a apontá-lo como alegado homicida, acusação essa que fez de imediato no telefonema em que participou as mortes à polícia de Cee.

Quando, como resultado da autópsia, ficou provado que as vítimas teriam morrido por ingestão de cogumelos venenosos, já era tarde para dar o braço a torcer, arriscado ter de encontrar novos culpados e embaraçoso ficar-se por causa acidental. Assim sendo, não por conspiração inconsciente, mas por má consciência de que seria mais fácil culpar um forasteiro sem raízes, possesso de ciúmes, do que um merceeiro querido da terra, criou-se a tese de que o homicida havia colhido cogumelos venenosos no campo e os misturara com os comprados para consumar o crime. Ao proceder assim, o esperto, fazia também pender a suspeita sobre a casa de comércio onde tinha um calote considerável.

A justiça aceitou também, como argumento, o facto dos cogumelos serem petisco tradicional daquelas bandas, vendidos desde sempre naquele estabelecimento e de não existir relato de alguma vez terem provocado a indigestão a alguém quanto mais a morte. Estava atestada, portanto, a impossibilidade da experiência dos naturais poder falhar na colheita das espécies comestíveis.

O crime, o criminoso e as vítimas, com o passar do tempo, foram caindo no esquecimento de toda a gente menos na pesada consciência de Xésus Agrelo. A memória dos factos e a amizade com Sete Pés, avivados pelas várias visitas que fizera ao cárcere, estavam-lhe a dar cabo do sono e mais lhe deram na noite em que eu fui seu hóspede. Não admira pois que, na manhã seguinte, a pretexto de me oferecer pequeno almoço, me tenha dado lugar na sua mesa, me tenha inquirido acerca das leituras que me proporcionou, tenha desabafado sobre mim a sua inquietação e me tenha proposto um plano de acção para que a justiça fosse feita.

E, porque fartos de histórias contadas estamos todos e de abaixo assinados estamos cheios, depois de eu ter entrado, convido-o a si leitor, também a entrar na história que, a partir daqui, deixará de ser escrita para ser vivida.

O nosso plano consiste em reunir um grupo de activistas capaz de ir, daqui até à Corunha, percorrendo os Caminhos de Santiago, reclamar a libertação de Sete Pés. Sabemos como os meios de comunicação social são atraídos por este tipo de iniciativas e é quase certo que o seu impacto pode despoletar a reabertura dum processo mal contado.

Preparem a mochila e ponham-se ao Caminho. É só seguir as vieiras até encontrar esta que o filme documenta. Nas imediações da mesma existe um albergue onde estou alojado à vossa espera. Conhecer-me-eis pelas botas. Quando formos sete, partiremos. Libertai-vos!!!

segunda-feira, 23 de maio de 2011

39- O Caminho do Fim da Terra


Se este fosse um escrito vulgar de escrever para vender, daqueles em que os autores vagueiam presos às suas experiências pessoais, procurando afinidades com que os leitores se identifiquem e inventando fantasias com cenários impossíveis que surpreendam e agarrem, provavelmente esta história acabaria aqui. Acontece que estamos enfiados na descrição autêntica de factos vividos e não estamos perto do final mas ainda no começo. Isto porque agora é que vai ser, entro eu.

Quis o destino que, na sequência de uma discussão familiar por causa das canas dos feijões, eu arrumasse a trouxa e me fizesse ao Caminho. Porque do Caminho já muito sabeis de Sete Pés e Marie, deixarei apenas o registo que o fiz sozinho até chegar a Pradís e que aí cheguei, encharcado por uma valente carga de água, rente à noitinha, situação que me obrigou a procurar a sempre à mão hospitalidade dos galegos.

- Xésus Agrelo! Benvindo a Padrís!
Os mais atentos, recordarão porventura este cumprimento, no ponto em que também o nosso par aqui chegou.
- Português?! Oh lá! Lá! O único que por aqui parou, deixou má memória! Fosse eu supersticioso e não lhe daria abrigo! O caso deu naufrágio e morte, a coisa que mais temem as gentes que habitam esta costa que, não por acaso, tem o nome de Cuesta da Muerte!...

E foi da continuação deste encontro que recolhi a informação que trouxe esta história até aqui. Xésus Agrelo fez-me entrega da casa da tragédia para pernoita e deixou-me a noite, entregue a documentos que guardava do julgamento de Sete Pés, destacando destes um molho à parte de fotocópias do diário de Marie France, diário esse, cujo conteúdo já conheceis sobejamente, que outra coisa não tenho feito neste livro – se assim se pode chamar a estas postagens – senão contá-lo.

Serei, também eu, daqui para frente,  protagonista, cidadão real que não aspirando nem tendo traquejo ou expediente para ser escritor ou autor de alguma coisa, encontrou na personagem proprietária deste blogue a forma de testemunhar o caso esquecido de um português sem pátria, de um aldeão sem terra, sem família, quase sem nome, preso há sete anos na Galiza, sem ter merecido, ao menos, um dezasseisavos de uma página do Correio da Manhã.

Sete Pés estaria inocente, se não tivesse de se encontrar um culpado, teria quem o defendesse se não estivesse só, estaria em liberdade se não estivesse preso, mas continuará caminhando porque disso não se pode impedir um sonhador, nem que o amarrem.
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Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

38- O Caminho do Fim da Terra


Falaram até fartar, de coisas que não interessam à história. Comeram e beberam como abades, partilharam naturalmente dos arrumos, sem oportunidade, dos dois de que reza a história, privarem para um ajuste de contas do passado. Ao menos uma frase a dois, uma palavra, reconstruir ou completar um beijo que não fora bem dado há seis meses atrás. Nada. Muito pelo contrário, a pretexto dum dia cansativo, a mulher presente propôs cama e descaradamente decidiu, sem ouvir aquele que, nos termos presentes, era o dono da casa:
- Se não te importas, trazes as tuas coisas para a sala e dormes no sofá! Como eu e o Patapouf somos dois, justifica-se o quarto para nós!...

Desilusão, portanto, na libido de todos os Pés. Entre marido e mulher, não há lugar para mais de quatro pés!

Com todos os haveres junto ao sofá, assumiu obedientemente o seu papel. Deitou-se. Ouvia o mar, ouvia sussurros de francês, não dormia, não conseguia imaginar o amanhã, parecia ter chegado a um dia sem saída. A pouco e pouco só o mar se ouvia. A longa insónia despertou com o cantar do galo dos Agrelos. Naquela madrugada o galo cantou diferente, cantou como um clarim!
E foi assim que, silenciosamente para não dar de si, se pôs a preparar a sua mochila. Partiria, agora mesmo, para Finisterra! Chegara a hora de terminar o seu Caminho.

Quando chegou ao farol do cabo de Finisterra o mar reflectia os primeiros raios da manhã. Sete Pés, fitando o oceano, não apreciou saber e sentir que a Terra não acabava ali e invejou não ter vivido no tempo em que se acreditava nesse fim.
De qualquer modo, era conveniente aceitar que não poderia caminhar para mais além. Olhou então para trás, para terra, e sentiu vontade de fazer o Caminho de Finisterra a Oliveiroa – que não tinha conhecido - voltar até Santiago, fazer o Caminho do Norte até aos Pirinéus – não o francês que sabia pelos relatos que estava massificado - atravessar a Europa, ir por Jerusalém para o Tibete, Novosibirsk, estreito de Bering, Alasca, Califórnia, México, Andes, Terra do Fogo… Mas para quê?! Se aí chegado teria de concluir que os Caminhos da Terra não têm fim!?

De costas para o mar, os Sete Pés distribuíam entre si estes pensamentos. Remataram com uma visão panorâmica sobre todo o Continente que começava naquele promontório. O caminho que ali chegava, também dali partia e dava ligação a todos os caminhos que existiam. O melhor era dar uma volta ao farol para dar um nó na estrada.
Ia na meia volta quando avistou um jipe da guardia civil rodando na sua direcção. Ficou parado a observá-lo. O carro parou a seus pés. Apearam-se quatro militares e algemaram-no. Sem oferecer resistência e em silêncio de fim, sentiu os seus pés libertarem-se e correrem em pelotão para o abismo do cabo. Um casal de franceses havia aparecido morto em Padrís.
- O senhor está preso, acusado de homicídio!
- Ainda bem que não comi cogumelos!
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Todas as segundas feiras.
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segunda-feira, 9 de maio de 2011

37- O Caminho do Fim da Terra


Ouviu um carro parar na rua. Ouviu conversa de saudações. Seria Xésus Agrelo a cumprimentar a neta? Não seria de boa educação ir espreitar à janela. Bateram à porta.

- Eh lá! Já?! Queres ver que tenho de ir conhecer, beijar já a moçoila e atirar-lhe à vista o brilho sedutor dos meus lindos olhos?! - pensou, caminhando determinado em direcção à porta de entrada.

Puxou o trinco. Abriu. Surpresa!!!...
Os olhos embaciaram-se, engasgou, embranqueceu, apoiou-se na porta, tremeu e abanou todo ele, traído pelos pés que se enfiaram os sete, como um rabinho, entre as pernas.
Era Marie acompanhada por um homem. Outro?! Não, o “mari”!

Um a um, escorregaram das massas musculadas das pernas másculas e ocuparam o seu lugar em fila indiana para dar cumprimento aos devidos cumprimentos. Pé de Atleta à frente, em segundo Água Pé, a seguir o Descalço e o de Meia, Pé de Vento sem ordem e, por fim, Pé Ante Pé cauteloso e o Pé Chato a resmungar.
Um a um, Marie sentiu-os perante o olhar desconfiado do marido que sentiu demasiadas expressões para um cumprimento só.

Claro que era para entrar! Para comer, seria mais difícil – o frigorífico não estava muito satisfeito! Pernoitar?! É pá! Calma aí! Vamos pensar:
- Situação estranha! Situação complexa! Ela a cumprimentar sete! Os sete cumprimentando o marido! O marido a cumprimentar um! Que estranha visita esta! Que complexo encontro! Que situação embaraçosa! Que pretenderá Marie?! Uma cama com onze pés?!...

Os Pés ficaram sem jeito!
Marie disse que comprara peixe em Finisterra e que trataria do jantar! Sete Pés iria mostrar a praia a Pierre Patapouf e os vestígios do derrame do Prestige, seria uma oportunidade de se conhecerem. Enquanto isso, ela preparava as coisas e iria conversar um pouco com os Agrelos. Já agora – continuava Marie a comandar - que passassem pela mercearia e comprassem isto e aquilo e cogumelos do campo, se os houvesse! Isto porque prometera a Patapouf fazer-lhe prova do petisco que aprendera com os galegos e que só com cogumelos da Galiza se pode fazer! Seria o aperitivo ideal para o grande jantar que se advinhava. O facto de ser sabido que Sete Pés não apreciava, não importava!

- Que estranho jantar!... O casal de franceses com os cantos dos lábios a escorrer o azeite dos cogumelos! O terceiro, o séptulo, a pão com azeitonas. Ela falava para ele. Ele falando para o marido! O marido a falar para ele! Falavam os três, diga-se os nove, como se se tratasse de uma relação natural!…
Que raio de história Marie teria contado, da sua história do Caminho, ao seu marido? A verdadeira? Será que o velho é daqueles destesoados que gozam a ver a esposa chap-chap com outros? Será essa a proposta do fim do vinho?
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Todas as segundas feiras.
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segunda-feira, 2 de maio de 2011

36- O Caminho do Fim da Terra

- Vês uma mancha negra além no oceano?
Marie iniciou então o longo discurso do momento que ambos esperavam. Tudo muito bem explicado: tinha família e vida em França, era muito mais velha que ele que ainda tinha uma vida pela frente. Viver ali, assim por muito mais tempo não era vida, as verdadeiras paixões têm um tempo de duração limitado e etc... Além disso?! Sim! Teria de admitir ser tão pragmática quanto amante da boa vida: aquela mancha negra!...
- Talvez a mancha seja um sinal a dar-me a ordem de ir embora!...
- E a mim de ficar!...
- Tens muito para caminhar rapaz! Amanhã de manhã partirei para Finisterra para acabar finalmente com este Caminho! Suplico-te que, em caso algum, me sigas. Deixarei a renda paga para mais seis meses!
- Não é necessário, o trabalho que faço com Xésus Agrelo compensa bem a renda! Além disso, tenho uns bons cobres no banco em Portugal, herança da putez da minha rica mãe!
- São só seis meses! O tempo que eu poderia continuar aqui contigo!

Marie retirou-se para dentro de casa e todo o resto do dia movimentou-se tacticamente de modo a evitar o tema ou qualquer despedida. Arrumou as suas coisas num silêncio apenas quebrado com curtos diálogos sobre questões práticas: onde é que está isto? isto fica aqui! não te esqueças que isto funciona assado! Diz ao Xésus Agrelo que… e pede-lhe desculpa por não me despedir!... Se não te importas vou dormir no sofá para não te acordar quando partir!
Os pés estavam demasiado calejados para que o acontecimento lhes fizesse mossa!
- Finalmente livre!
Dissera para si quando morreu sua mãe e agora voltava a dizer a mesma coisa:
- Finalmente livre para cultivar os seus pés!

Três dias depois da partida de Marie a praia ficou negra de morte! Sete Pés foi dos primeiros a ir para o areal sofrer e fazer parte da primeira equipa de voluntários que começou ali a trabalhar. Ao fim de algum tempo foi integrado numa equipa remunerada pela Junta e aí trabalhou durante seis meses, impondo sempre uma condição: limparia crude em todo o lado desde que de lá não se avistasse o cabo de Finisterra.

- O português tem uma pancada! O home é tolo!... - Diziam os colegas.

Já a costa estava quase limpa, ou pelo menos na situação em que já não é possível limpar mais, Sete Pés experimentava o prazer de, do banco corrido, da varanda corrida das traseiras da casa, olhar o mar como se ele fosse um pouco de obra sua. Já não era o mar negro, nem a Costa da Morte, era o mar salgado e a costa da vida.

Pensou que para a sua, esta história, a continuação do diário de Marie, ter enredo para dar livro, deveria ter encontrado nas equipas de limpeza uma irmã de que a mãe nunca lhe havia falado. Ou talvez, quem sabe, a neta “vinte e teen” de Xésus Agrelo, que chegaria nestes dias do Canadá para passar umas férias com o avô, não lhe traria pés para um romance e o romance se arrastasse como um novela da tvi; e o amor se viesse a estabilizar numa vida normal que apenas interessasse a quem a vivesse!?...

Voltou a olhar o mar e falou-lhe alto como um louco:
- Não penses que esta história vai acabar aqui! Esta casa é um barco que não se dá à água mas quem aqui entrou tem de aguentar, enjoar, tresandar a sal, vomitar azul até, à falta de porto, desejar a tempestade para poder naufragar!

(pois, meu fiel leitor, se está farto atire-se à água, porque há ainda muito oceano que não passou a Padrís! – hei-de chegar ao fim, só com um leitor!)
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Todas as segundas feiras.
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segunda-feira, 25 de abril de 2011

35 - O Caminho do Fim da Terra

- Estás convencida que um dia serás famosa por isso? Para que raio escreverá uma pessoa se não for para outros lerem? Para ler só ela, só se tiver um problema grave de memória ou se gostar de se masturbar literariamente?

As considerações a propósito do diário secreto de Marie foram florindo e fizeram dele fruto apetecido, fruto proibido, aguçando a curiosidade, a ousadia, a fraqueza ou ciúme de Sete Pés. Foi Pé Ante Pé que, numa manhã em que Marie foi a Cee sozinha tratar de assuntos de banco e de compras para o dia a dia, primeiro avançou sobre a encadernação que compunha o manuscrito! Foi Pé Chato que se pôs a ler aos outros pés, em assento e acento de professora, de avó, de avô, de pai ou tia – pronto! de quem lê histórias! - num tom de desvendo, revelação, historieta, história, romance, diário, de conto… e contou…

Não seria surpresa que ali se relatassem coisas do Caminho e de coisas outras e outras pessoais e/ou banais, que se escrevem em diários de senhoras que vivem ou caminham com os seus devaneios. E até se aceitavam coisas em que os pés entravam e saíam porque da presença e companhia deles seria justo o registo.
Agora que Marie registasse a mística dos Pés, que fizesse referências a cada um e ao seu desempenho sexual e que, pelas confidências do namoro, tivesse escarrapachada esta história, que aqui se conta, até aqui, pareceu a muito!

(Sim porque esta história que andais a ler há trinta e cinco semanas é o diário adulterado, a história que Marie, apropriada das confidências do Pé Descalço, foi escrevendo e usando.
Nesta situação, a partir deste parágrafo, já não se sabe quem escreve ou conta. Por isso, o melhor é deixar tudo como anteriormente e fazer de conta que a narradora não se chama Marie e que isto não é o seu diário.)

Quando ao fim do dia Marie regressou de Cee, Pé Ante Pé, primeiro de pé atrás, depois de rodapé, pôs o pé na fossa e de pé para a mão – melhor, para a boca! - largou:
- Mas que merda é esta?!
O diário de Marie nas mãos de Sete Pés!... Marie artilhando a boca, estremecendo os lábios em pé de guerra! Os sete pés embrulhados em pose de “sempre em pé”…
Água Pé, que tinha passado a tarde a abrir e fechar o frigorífico, precipitou o questionário e meteu o pé na argola, a mão na ferida e Marie ficou ferida de ir embora.
- Violada! - nas palavras dela.

Das palavras dessa noite fez-se o caldo que azedou o lirismo do romance. Nos três dias seguintes a este episódio choveu muito, a aldeia tornou-se num enorme lamaçal, a vida forçada em casa gerou tédio e cansaço mútuo. Ouvia-se nas notícias que um petroleiro havia feito das suas nos mares altos e vivos da Galiza. Dia após notícia, o nome Prestige entrou no vocabulário quotidiano.

Mesmo assim, apesar da tempestade que se estabelecera entre os dois e na Cuesta da Morte, durante uma acalmia, encontraram espaço para se sentarem de mãos dadas, no banco corrido da varanda corrida das traseiras da casa, a olhar o mar.
- Vês uma mancha negra além no oceano?
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Todas as segundas feiras.
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segunda-feira, 18 de abril de 2011

34 - O Caminho do Fim da Terra



O local costumeiro era o banco corrido da varanda corrida virada para o mar.
Pé Ante Pé dizia:
- Vou para a varanda trabalhar!... Vou sentar-me a pensar! Sou pensador de profissão!
Marie ria e contrapunha:
- Então espera lá que eu já lá vou ter! Sou amante profissional!
E então acontecia muitas vezes que, enquanto Pé Ante Pé pensava, um ou outro pé coçava o amor.

- Aprecio num homem o humor, humildade e desinteligência!
Água Pé riu-se e limpou baba do queixo e Pé Descalço esfregou satisfeito os dedos das mãos entre os dedos dos pés e cheirou as mãos. Passaram olhares interrogativos de pé em pé como se pela primeira vez fossem levados a concluir que nenhum deles era inteligente! Marie topou as movimentações de identidade e a pretensão de encaixarem no seu trímodo de homem ideal e apontou na direcção dele:
- Mas tu és inteligente!
- Não sou nada!
- Ora, a pessoa que não se considera a si própria inteligente é porque é burra!
- Logo, não sou inteligente! Mas se isso te põe contente, também não me parece muito inteligente uma mulher que ama um burro!
- Vês és inteligente! Aliás, se não o fosses, eu já teria percebido com que pé estou a falar. Mas não, estou às escuras!
- Então acende a vela!
- Não tens piada!
- Mau! E vão duas – nem pêlo de burro, nem sentido de humor!...Também não sou humilde?!...
- Se fosses humilde, reconhecerias que és inteligente!
- Não quero mudar o mundo, quero apenas que o mundo não me mude a mim!
Os homens inteligentes criam empresas e negócios ou estudam e fazem carreira, eu não passo dum humilde órfão que está aqui a tentar fazer rir uma reformada!
- Nem todos, muitos deixam-se encantar por outras coisas da vida mas acabam por se perder no amor, no vício ou na revolta. No teu caso, receio que estejas perdido pelo amor!
- Se estou! E acabo de ser formalmente informado, que não sou correspondido!

Com o tempo a passar e estas reflexões adolescentes, não apareceu o tédio mas a paixão, o caso, começaram naturalmente a sofrer transformações.
Marie não dispensava o seu tempo diário para o seu Diário. Todas as noites, antes de ir para a cama ou já na cama, pegava na caneta e discorria. Do que escrevia nada contava e nunca deu a Sete Pés confiança para pedir relatos ou para dar espreitadelas. Aquele caderno fazia parte de uma intimidade intocável.

- Estás convencida que um dia serás famosa por isso? Para que raio escreverá uma pessoa se não for para outros lerem? Para ler só ela?! Só se tiver um problema grave de memória ou se gostar de se masturbar literariamente!...
- Masturbação literária! Vou registar essa! As pessoas que não escrevem diários vêem sempre a escrita não documental associada aos romancistas que fazem dinheiro com o que escrevem. Não compreendem que, tal como as pessoas que correm no parque não têm motivações competitivas, o fazem apenas por gosto e para manter a forma, também nós, os que cultivamos a escrita de gaveta, o fazemos apenas por prazer e exercício!
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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Trinta e Três farinha e Sete Pés


Depois da primeira manhã, na primeira tarde do primeiro dia, depois do almoço improvisado com "frutos da horta" que a esposa de Xésus Agrelo veio trazer, acharam por bem ir à mercearia da aldeia abastecer-se de mantimentos para a casa.

Na manhã do segundo dia, por proposta de Xésus Agrelo, Pé de Meia e Pé de Atleta foram com ele para a pesca de anzol junto à costa. Depois da segunda manhã, na tarde do segundo dia, Pé Descalço e Pé de Vento, foram com Marie para a praia, tomaram banho no mar revolto e frio e enrolaram-se na areia fina.



No terceiro dia, Pé Ante Pé, passou o dia com Xésus Agrelo a ajudá-lo nas coisas da lavoura. No quarto dia, Água Pé deu a volta com Xésus Agrelo pela aldeia e ficou a conhecer e a ser conhecido pelos naturais. No quinto dia, Pé Chato já achava os dias sempre iguais. Nos dias seguintes, dos três meses seguintes, repetiu-se o convívio, a pesca, a lavoura, a praia, o campo e amor que a maior parte das vezes se fazia no banco corrido da varanda com vista para o mar. Os caminheiros amantes pensavam, cada um para si, no Fim daquele estado de enamoramento mas nenhum deles ousava tocar no assunto ou falar de Finisterra. Foram várias vezes a Cee, o burgo município, umas vezes à boleia de Xésus Agrelo, outras de autocarro e até a pé, tratar de compras e outros assuntos mas pisar Finisterra nunca esteve em cima da mesa, seria o Fim. Xésus Agrelo foi-se apercebendo dessa não-vontade e  interrogou-os acerca do impedimento, tendo aceitado, com galega inteligência as suas explicações.

Sete Pés, porque não tinha família nem raízes e porque estava estava a realizar o seu projecto de vida de caminhar mundo além, poderia estar ali a vida inteira que ninguém daria pela sua falta. 
Marie, por outro lado, com a sua idade e a sua vida, já tinha contribuído para certas mudanças, dum mundo que muda sem reconhecer o contributo das marias que o mudam. E foi por ter observado  o mundo mudado que ajudou a mudar, que se sentia ali bem, num outro mundo. O seu mundo novo que se consumia à velocidade de uma vela de cera ardendo!

Quando ia a Cee fazia longos telefonemas para o marido e inventara uma explicação para o adiamento do seu regresso a França: da sua competência de bombeira reformada, com conhecimentos na área do socorrismo, surgiu-lhe a oportunidade de fazer uma temporada de voluntariado numa organização de apoio aos peregrinos do Caminho. - Mentira?!

- Eu sou sete peregrinos necessitados de especial apoio e uma mentira pode valer a pena se a razão não for pequena!
Consolava-a Sete Pés com as suas razões “pessoanas” que, frequentemente, serviam também para brincar com ela com a desmultiplicação de pés. Marie perguntava sucessivamente:

- Com que pé estou a falar?... Que pé está em cima de mim?... Que pé me está a chamar?... Ai! Ai! Todos não que me confundem!... Ai! Ai! Todos não que me derretem!..
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segunda-feira, 4 de abril de 2011

E vão Trinta e Dois Sete Pés

Já lá vai o tempo em que os escritores tinham de puxar do vocabulário e de entrelaçar as palavras para descrever paisagens, hoje é o tempo das imagens, por isso, em vez de nos perdemos por aqui a estender prosa para enquadrar o romance mais vale estender umas fotografias e passar a outro nível. Todas as imagens foram retiradas do Google Earth nos locais exactos em que se desenrola o Caminho.



Xésus Agrelo não os convidou para sua casa, preferiu ir com a mulher e com a panela da sopa, jantar a casa dos hóspedes. Era uma forma de utilizarem a sua segunda casa, de não arriscarem expor a primeira a desconhecidos, de aproveitarem a ocasião para recomendações sobre as existências e funcionalidades, de mostrar as fotos dos familiares e antepassados.

Porque a sopa partilhada arranjou espaço para muito mais, Xésus Agrelo foi buscar à casa mãe, enchidos, queijo e tudo o mais que tinha para completar a refeição, sem esquecer o vinho - o vinho faz amizades, o pão e o vinho fazem o Caminho.

No fim do serão foi motivo para brinde a decisão de ficarem por mais uns dias face ao programa de actividades que se inventou.

Na primeira manhã, Marie e Sete Pés, ficaram por ali a namorar, no banco corrido da varanda com vista para o mar, que corria o alçado da casa com vista para o mar duma ponta à outra. Pela primeira vez, Marie,  fez amor com os Sete Pés;  houve, portanto, orgia a sete para uma, ora com um pé, ora com outro:

Pé Ante Pé pensou duas vezes; Pé Chato pensou no banco; Água Pé sentiu-se entesado pela ressaca; Pé de Vento ofegou; Pé Descalço despiu-se; Pé de Meia tirou as meias e Pé de Atleta pensou: vamos a isso!

Marie parecia que tinha optado pela permanência naquele local apenas por aquele momento, queria amar aquele jovem ali!

Pé Ante Pé avançou pé ante pé sobre Marie e ela sentiu a insegurança do jovem. Pé Chato preocupou-se com a dureza do banco de madeira e Marie disse que não fazia mal. Água Pé, fora de si, largou as mãos e Marie afastou-as. Pé de Vento entrou suave; Pé Descalço – pele! Sinto pele!... Pé de Meia – Preservativos?! E Pé de Atleta assegurou o vai e vem. E no fim todos em coro cantaram: já me vim!

Marie experimentou sete orgasmos, nunca tal lhe havia acontecido, ficou intrigada e falou disso. E foi assim, no calor e na aproximação que completam os verdadeiros actos de amor, que Sete Pés se revelou e um a um, cada um dos pés de si falou, deixando Marie estupefacta com a intimidade do seu amigo íntimo.

- Tu?! Sete Pés?! Neste momento “re-vejo-te” mais com um bicho de sete cabeças! Bicho não! Pronto! Bicho-homem!

E nos dias seguintes muitas coisas contaram um ao outro de cada um deles. Sete Pés desenrolou a sua infância, apontou os seus 35 dedos dos pés, acusadores, à gente rude e cruel da aldeia, denunciou a santidade da sua falecida mãe e manifestou esperança de um dia existir igreja para a canonizar sem lhe omitir a profissão, muito pelo contrário, de a eleger padroeira das prostitutas!
- Aqueles labregos só não me pisavam porque me achavam um monte de merda!
- Deixa-te de lamechas rapazinho! Tens de ganhar auto-estima!
- Que é isso?! Isso é alguma oficina de manutenção de carros?! Auto-estima?!

E riram os dois e Marie também contou das suas e de como se tornara caminhante por não apreciar ser viajante.

- Viajar é coisa das gentes escravizadas pelo trabalho e pela carreira. Quem viaja tem sempre o pensamento no regresso, vai e vem com pressa e não tira fotografias pelo caminho mas apenas e muitas no local do seu destino. Vai de meio de transporte para ser depressa e, embora possa observar a paisagem, não a cheira, não a tacteia, não vê os répteis nem as caixas de correio nos muros das casas. Pelo contrário, nós enquanto caminhamos, falamos com as pessoas, cheiramos as plantas que se cruzam connosco, sentimos cada passo, não temos pressa de chegar e damos mais importância ao caminho do que ao destino.
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segunda-feira, 28 de março de 2011

Cum trinta e um! Sete Pés!...

- Cheguei!
- Molhado!
Pelos atrasos, provocados pelos contratempos da etapa, era ponto assente que não conseguiriam chegar naquele dia a Finisterra.
- Ainda bem! - concluiram - não temos pressa nenhuma de chegar!
Contudo, seria bom que, antes do anoitecer, conseguissem alcançar a primeira aldeia que o mapa assinalava junto ao mar e aí procurar abrigo e alimento. Foi com esse objectivo que aceleraram o andamento, sem nunca se perderem de vista um ao outro.

Era de postal o que se via, o areal da praia ao fundo, dividindo o mar dos pinhais e canaviais. Estavam numa meia encosta, a uns trezentos metros, acabavam de sair dum carreiro do mato e encontrado uma estrada asfaltada que, igualmente com mais trezentos metros, conduzia a uma aldeia que, à primeira vista, aparecia dispersa e de poucas casas. Obrigatoriamente ficariam por ali, fosse onde fosse. Aquele era o cenário ideal para se acordar. Quem diria que ainda existiam povoações com praias e sem reclames da coca-cola!?

Um tractor agrícola, vindo dos campos para a aldeia aproximou-se e, em comando automático, ambos lhe acenaram pedido de paragem. Pé Ante Pé explicou ao condutor a situação e este, sem demonstrar receios de forâneos, habituado que estava às gentes do Caminho, arretou positivamente. Largou o volante, pôs pés em terra e de voz alta, para vencer o ruído do motor, ajudou-os a subir para a carroçaria e formulou a apresentação:
- Xésus Agrelo! Benvindos a Padrís!

A casa onde parou o tractor, distanciada umas centenas de metros do aglomerado do povo, era de agricultor. Do outro lado da estrada, do lado do mar, ficava a casa que herdara dos avós. Quando calhava arrendava-a nos meses de sol a pessoas que gostavam de passar férias em praias sem reclames da coca-cola. Por uma noite não pagariam nada, se quisessem ficar mais tempo era uma questão de negociar.

A casa estava composta com  móveis e utensílios, uns que serviram os que ali fizeram família, outros que eram sobras  do herdeiro que para lá ia mudando as coisas que transbordavam da casa farta de ex-emigrante. Este, regressara à terra ainda com forças para cumprir o seu destino, outrora interrompido pela necessidade de ir aliviar as necessidades num país estrangeiro - tudo correra pelo melhor e agora era um agricultor, com descendência no Canadá, que contentamente dava continuidade à terra dos seus!

Arrendar a casa era  para si uma alegria. Vê-la habitada, ter vizinhança que admirasse o sítio, um rendimento extra, enfim!... Mas isso não vinha ao caso! Poderiam pernoitar, oferecia-lhe da sopa que a esposa prepararia para o jantar…

- E digam lá?! Esta varanda das traseiras?! Não tem uma vista magnífica sobre o mar?! Aqui, a ouvir as ondas a enrolar e a enrolar cigarros, tão perto do azul, uma pessoa nem sabe se está no mar, em terra ou… no céu!...

Todos os pés se sentiram enrolados num único pé, um pé-coxinho apoiado pela senhora Marie que se fez traduzir pelo galaico-português do companheiro:
- Em princípio ficaremos só a noite! Mas lá que apetece ficar mais tempo, disso não tenha dúvida!...

Ficados sós, parte a parte e em ideias cruzadas, deram de si a fraqueza ou a coragem, de poderem por ali ficar uns dias, para afastarem o desfecho da chegada a Finisterra, para prolongarem o tempo do Caminho, para prolongarem num lento rodopio o leve amor. Amor?! Não! Relação?! Não! Caso?! Não! Os Pés de Marie!...

Eles os dois - ou os oito, não nos esqueçamos – a casa, a varanda, o mar, a hospitalidade do agricultor – sim, iriam ficar até… até! Não importa quando! Até dar, até apetecer, até sem data predefinida, quem sabe até sempre, até!...
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Todas as segundas feiras.
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segunda-feira, 21 de março de 2011

Cum Trinta e Sete Pés! Querem sexo?!

- Cheguei!
- Molhado!
Ouviu e recebeu do meio do rio o jacto de sarcasmo da companheira e calou-se, quieto e observador, porque teria de mirar o corpo e reconhecer que ela lhe passou o pé pela inteligência:

Marie vinha com a água acima da cintura, com a camisola arregaçada até às mamas, com o cós preso aos incisivos e com a mochila à cabeça, tal qual uma camponesa transporta o feixe de erva para as coelhas. Das tais para baixo vinha nua, com a brancura da pele francesa a alegrar o caminho da corrente limpa e fria. Pé de Vento delirava de olhos içados batendo alternadamente as pálpebras entre o rosto feliz e vencedor da solução e o nu feminino vestido pelas águas transparentes. Quando, com a aproximação da margem, a diminuição da profundidade do curso começou a revelar gradualmente o corpo ao léu, todos os pés atónitos mandaram sangue para o pénis do corpo.

Marie, aos primeiros dois passos de solo enxuto e em pele gotada em escorrência, deixou o braço esquerdo sozinho a amparar a carga da cabeça e, enquanto passava pelo “chispe” atónito, passou-lhe a mão direita pelo inchaço indiscreto das calças molhadas e perguntou:
- Que é isto?!

Atónito, continuou seguindo-lhe desarmado os mais dois passos. Ela, encostou a mochila a um arbusto e retirou uma toalha para se limpar. Depois estendeu-a sobre o chão e continuou os procedimentos do aportamento.

- E tu? Estás uma lástima e ainda por cima não tens nada seco para vestir! Despe-te  enquanto eu te arranjo um fato de treino dos meus.

Pé Descalço batia os dentes de frio, Água Pé de frágil, Pé Ante Pé de atónito e os quatro restantes de tesão. Enfim! Múltiplas sensações!
Estava nu como um peixe, de pés sobre a toalha, quando Marie, ainda seminua, lhe estendeu a roupa em empréstimo. Mas não, não era tempo de vestir nem de despir, era o tempo de consumar e, ali mesmo, sobre a toalha, numa reentrância de arbustos que tocavam o rio e o trilho do caminho, juntaram o atrito das peles de galinha e aguadas dum e doutro e, sem demoras, rodaram o desejo até ao tal fim, de seu nome orgasmo, que tanto se deseja como fim, como se deseja adiado para que permaneça o prazer que o desencadeia.
Um fim, que no preciso instante em que findava, foi brindado com uns desejos de “buon pomeriggio”. Eram dum frade italiano sessentanito, já deles conhecido do Caminho e que fazia Fisterra-Múxia. O santo homem passou olhando em frente, sem olhar de curiosidade ou reprovação. Claro que dera pelos “ais” durante a aproximação, mas isso não o perturbara, antes completara a obra da criação que por ali gozava.

Abraçados e sentados sobre a toalha, a escassos metros, observaram-no de costas a reflectir sobre o seu plano de travessia. Baixou os calções?! Não! Continuou calmo e sereno sobre as águas, como um Jesus andando no Mar Morto, pé ante pé, pedra após pedra, e lá para o meio, voltou o semblante para o cenário de partida, não para ver os nus mas, pelo o olhar calmo e sereno, apenas para que lhes tirassem uma fotografia.
Não era só Marie que era inteligente. Também não era só ele, o frade,  que aceitava o equilíbrio da natureza das coisas e dos homens. Enquanto ele realizava a sua prova eles vestiram-se. Quando já preparados para partir acenaram para a outra margem, viram-no a limpar os pés e a sorrir macaco e santo:
- Adeus! Au revoir!
- Addio!
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segunda-feira, 14 de março de 2011

Vinte e nove e Sete Pés

Mais uma hora de andamento depois, aperceberam-se que iam a andar para um cabo e, chegados ao fim, desaguaram num cabo ermo sem sinais de faroleiro ou de pescadores.

Correram o caminho de regresso, dispostos a só deixar a estrada quando encontrada vieira ou povoação, já que a costa marítima recortada e a mania das bússolas mentais lhe poderiam trazer outros dissabores do género.
- Quem navega no oceano perde-se se não olhar as estrelas; quem percorre as serranias perde-se se não vir sol mas quem caminha junto ao mar nunca se perde, dizias.
- Dizes bem, dizia mas agora já não digo. Esta mania de enrolar frases bonitas e de tentar erguê-las procurando-lhes um sentido, pode desmoronar-se numa triste mentira. Junto ao mar não se caminha, passeia-se!
- Mais uma mentira!...

Desorientados e cansados, com conversas destas à mistura, acabaram por se cruzar com um carro ao qual fizeram alta, tendo sido informados da proximidade duma aldeia e do local onde reencontrariam o rumo das vieiras.
Já encaminhados cruzaram-se com ciclistas conhecidos de Negreira e Oliveiroa, caminhando no sentido inverso, que os alertaram para o facto de irem encontrar um rio, “el Castro” que, para transpor, exigiria procedimentos à medida de cada um.

Tinha para aí uma dúzia de metros de largura e mais de um de altura de caudal. Existiam umas pedras paralelepípedas para pousar os pés, espaçadas no leito de modo a permitir a travessia, de Pé Ante Pé, com água acima do artelho e abaixo do joelho. Mas foi Pé de Atleta que tomou comando.
- Os tipos assustaram-nos sem razões para isso!
- Mas eles tinham o problema das bicicletas!
Mas, à segunda pedra, ainda Marie estava em terra, sentada em relva de olhos fixos nos pés do seu rapaz, o lodo escorregadio da rocha limada pelas águas, atira com todos os pés e seus haveres para água.
Uma grande gargalhada de Marie enfurece o sinistrado. Regressa à margem de partida, fora de si e, só quando sente terra enxuta, se rende ao riso e começa a sacudir-se à volta da sentada.
- Nem sequer ousaste erguer-te em meu socorro!
- Para quê? Ainda perdia a graça!
- E agora?
- Tenta outra vez! Quando chegares à outra margem, partirei eu!
Nem pensou que, com tudo molhado, mais valia ir de pés nas pedras roladas do leito e de mochila à cabeça. Foi Pé Ante Pé, demoradamente testando a aderência a cada pedra, até chegar a terra firme para se voltar para trás vitorioso:
- Cheguei!
- Molhado!
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segunda-feira, 7 de março de 2011

28- O Caminho do Fim da Terra

Depararam com uma terra isolada, atirada contra o mar e deprimida mas naquele dia banhada pelo sol e com luz e vida. Os prédios e as ruas apresentavam texturas marcadas pelas desmesuras dos temporais da Costa da Muerte. Jovens desempregados fumavam deprimidamente num banco à beira do mar de entrada e indicaram-lhes, rindo, um restaurante com bom peixe, junto ao cais, no outro mar que se atinge ao fim de várias ruas de permeio. Depois de satisfeitos percorreram o caminho até ao Santuário de Nossa Senhora da Barca que fica ao cabo da pequena península que separa os tais dois mares, a umas centenas de metros das casas entristecidas.

No átrio do Santuário depararam com dezenas de turistas - ou devotos! Tinha sido certa a sua opção, aquele local não reunia as condições para enquadrar com a devida mística ou poesia o fim do seu Caminho.

Informados que o serviço de albergue da cidade era proporcionado no pavilhão gimnodesportivo e porque sentiam, naquele dia, sobras de energia para andar, decidiram que, mesmo que chegassem a Finisterra já noite avançada, tinham ânimo para fazer num único dia as duas etapas.

Apesar da agrura das pessoas e das construções, Múxia tem beleza humana e deixa na memória do visitante o cais com barcos e, do lado ocidental, os belos areais da praia fria.

A saída faz-se de subida para povoações dispersas dos arrabaldes. Num sítio de três ou quatro casas, num estreito de rua que as une em família, enfrentaram entre medos e cautelas uma frente de três ou quatro cães que lhes apertaram as águas. Os cães são uma constante do Caminho, presos, soltos, vadios mas quase nunca de dar a mão, parecem enviados do demónio a assustar de temores os peregrinos. E se já haviam experimentado outros encontros caninos, este era o primeiro em que viam os dentes perto. A crer em animais amaldiçoados, tem também de se acreditar na mão do Apóstolo que, em cada curva, cuida dos amigos:
- Não faças nada, caminha e olha em frente!

Passaram a prova mas pressentiram o sinal de outros problemas. Teriam já légua feita quando deram por si a caminhar para direcção incerta, já sem norte, sem sul, sem este ou oeste, sem vivalma que se visse, casa ou trilho, com desentendimentos entre os dois, se é para aqui, para ali ou para o diabo. Quando, ao fim de uma hora, encontraram uma estrada de terra batida, deitaram moeda ao ar para decidirem entre a esquerda e a direita. Uma estrada vai sempre parar a algum lado. Mais uma hora de andamento depois, aperceberam-se que iam a andar para um cabo e, chegados ao fim, desaguaram num cabo ermo sem sinais de faroleiro ou de pescadores.
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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

27- O Caminho do Fim da Terra

Madrugaram. Antes de partirem, teriam de tomar uma decisão: o Caminho tinha ali uma bifurcação, ou se partia para Múxia e se terminava a peregrinação no Cabo de Finisterra, ou se fazia o contrário e se acabava no Santuário da Nossa Senhora da Barca, em Múxia. Pelos encontros que viriam a ter pelo Caminho acabaram por perceber que foram os únicos a escolher de Oliveiroa a Múxia e dali a Finisterra. Na justificação encontrada pelos dois, o seu objectivo final era chegar ao Fim da Terra e não ir ver o casco de uma barca de pedra em que a Virgem teria navegado para aparecer a Santiago. Acrescente-se que ambos tinham conhecimentos de física suficientes para poderem duvidar dessa da barca de pedra.

Mudando de física, Sete Pés recuperou de tal forma da véspera - o amor também faz milagres - que naquele dia só lhe apetecia andar. Parecia que os pés o puxavam para a frente e, desta vez, era Marie que ficava para trás e ele que tinha de fazer as esperas junto às sombras e junto às fontes.

Espera única aconteceu quando atingiu a primeira cumeada do caminho que deu vista ao oceano. Três pés fizeram-se crianças e ficaram presos de olhar a dizer “olha o mar”, três pés olharam para trás e gritaram para Marie “mar à vista!” e o sétimo pé, Pé de Atleta, disse para consigo, este mar é um obstáculo que nos vai impedir de continuar! Caminhar sobre as águas?! – Outra vez a física!!!...
Quando Marie se aproximou ao ponto de poderem compartilhar, ficaram ali olhando como se fosse a primeira vez que viam o mar. Sentaram-se e começaram a “divanavegar”:

- Tudo o que está à volta, o céu e os campos verdes que se estendem por aí abaixo até à costa, são apenas a moldura que se esquece quando se aprecia um quadro. E o quadro é o mar, pintado vivo, com as águas obedientes ao mando do vento, brilhando em línguas de sol reflectido, o mar. Como é possível que uma massa homogénea que se observa de longe tenha tanto para contemplar?! Que força! Quanta poesia e afinal é só água e mais água eterna e igual!
- Quando eu era pequeno cheguei a ter uma ideia de negócio genial: exportar água salgada para países sem mar!
- E se tudo o que é água fosse vinho e a água tivesse o papel do vinho?! Beber vinho, tomar banho em vinho, lavar a roupa com vinho, chover vinho, rios de vinho, mar de vinhos!...
- Cala-te! Muito vinho dá enjoo!
- Mas que jeito teria uma festa com água?!
- Daqui por uma hora, por volta do meio-dia, lá estaremos, aquela povoação que se vê além, deve ser a vila piscatória de Múxia!... Calcorreemos a parte de baixo da moldura!

Aliviaram o passo para a velocidade de burro. Melhor dizendo, como se fossem os dois de burro, com o azul do céu que dividia as copas das árvores como guia, a colherem pássaros e pêros e a separarem-nos para um e outro lado dos ceirões. Isto é, separando geografia de poesia, Costa da Muerte – assim se chama o mar onde embica a linha de fuga que o burro segue como fim – de “lágrimas de Portugal”...
E depois Maria a rematar:
- C’est la mer!
- Não pisei nada nem me cheira mal!
- Ce qu’il était?
Enfim, o mar, vida e morte, paz e tempestade, poesia e transtorno, um novo capítulo no Caminho, o mar!
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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

26- O Caminho do Fim da Terra

Apontaram-lhe a porta da casa da camarata. Tinha dois pisos. No rés-do-chão chamou por Marie, em português, dando sinal da sua chegada.
- Maria!?... Maria!?... Oh Maria!?...

Ouviu a sua resposta do primeiro andar e subiu as escadas arrastando-se penosamente.
Ao vê-lo assim, a namorada aproximou-se dele, ajudou-o a apear a mochila e sugeriu-lhe que se deitasse. Enquanto o descalçava animou-o com o facto de todos os outros terem preferido acomodar-se no rés-do-chão. Tudo indicava que aquele espaço seria só para eles.

- Precisas de descansar. Eu vou lavar roupa. Tens alguma coisa para lavar?
Indicou-lhe um saco de plástico com roupa miúda no cimo da mochila e, mal ela virou costas, adormeceu. Já era noite escura quando Marie o acordou para que fosse tomar banho e se preparasse para jantar.

Do outro lado da rua ficavam a cavalariça, o refeitório e a recepção, a primeira de todos os albergues que se assemelhava a um posto de turismo. Foi também a primeira vez que teve de preencher uns impressos com dados pessoais e informações da credencial do peregrino. A voluntária de serviço comentou com agrado o facto raro de ver um português por ali. Estivessem à vontade e dessem uma volta que a marca da casa seria ela própria cozinhar um caldo galego para todos.

À volta da mesa da sala de jantar seriam uns quinze, uns quantos já conhecidos em Negreira, outros novos, a maioria viajantes solitários mas genuinamente solidários. Sete Pés, pela língua mãe, era o que melhor entendia o discurso da anfitriã que, no fim de confirmar a presença de todos, pousou servilmente a panela na mesa e falou de seu direito. Para terminar, pedia apenas que no final lavassem a loiça e limpassem a cozinha. Pagamentos, se alguém os pretendesse fazer, existia um mealheiro de barro junto ao fogão.
-Que refeição!
No final a autogestão dos arrumos funcionou e o convívio proporcionado estendeu-se para a rua em serão, com diálogos aprofundados ou difíceis, consoante os canais de interesses ou linguísticos abertos. Houve quem tocasse flauta e quem acompanhasse com la-la-las.

Pé de Meia brincou com Marie acerca do que pensariam os outros do par que faziam, se seriam mãe e filho, se freira velha com presbítero novo, se companheiros ocasionais do caminho, se amantes fugidos às regras dos comuns.
Marie repostou que não tinham de ser nada, que podiam ser isso tudo e que naquele momento não passavam de um homem e uma mulher a precisar de cama.

E por esta conversa se despediram dos demais. Tinham mais que fazer. E fizeram. Dir-se-ia que os seus companheiros de Caminho se haviam combinado entre si para reservarem aquele espaço e a respectiva janela em exclusivo para os dois. Ou não! Poderia ser apenas a mão do Apóstolo, ou do destino, a conceder graças aos dois. Deitaram-se num vai e vem de permutas e partilhas de leitos que faziam o jogo do enamoramento. Pelo toque dos corpos dir-se-ia que já não se tratava de uma aventura mas antes dum caso estudo de paixão.
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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

25- O Caminho do Fim da Terra


Foram dos primeiros a deixar o albergue. Nesta parte do território norte da Galiza a densidade populacional desce notoriamente e as raras aldeias que se atravessam cheiram a criação intensiva de gado bovino.

Ao longo do dia os ciclo-peregrinos e os supostos irmãos e irmãs, ultrapassá-los-iam com alegres saudações.

Marie France levava, quase sempre, umas centenas de metros de avanço. Essa distância adiava o desejo, sempre presente – lembre-se que só se fez amor ainda um dia e já lá vão sete e que Sete Pés era rapaz para vinte anos – e atrelava um comboio de fantasias:

Pé de Vento – naquele moinho abandonado!... Pé Chato – de meia em meia hora!... Pé Ante Pé – atrás daquela moita!... Pé de Meia – dava tudo o que tenho!... Pé de Atleta – no meio da estrada!... Pé Descalço – todos nus!... Água Pé - Na retrete do próximo café!
Mas quando Marie esperou para acertar passo, nem beijo se deu quanto mais sinais de enrolamento!
… já que Marie tinha o pé mais ligeiro, que retomasse e levasse o seu ritmo de andamento! No extremo, encontrar-se-iam no albergue de Oliveiroa.

Mal sabiam os pés que os esperava a mais dura prova de todo o Caminho! Chegaram a temer o pior, sucumbir no deserto por falta de socorro. Pelo passo de lesma e pela quantidade de gente que tinha passado, Sete Pés seria a última alma do dia neste troço.

Nunca mais se via sinal de casario que lhe desse alívio, nem ao menos o aconchego dum chão de árvore onde se pudesse deitar um bocado para retemperar. Só via bostas de vaca e estrada asfaltada e, de vez em quando, animava-se um pouco por ouvir um barulho de um tractor. Se o agricultor por ali passasse, pedir-lhe-ia boleia, fosse para onde fosse.

Quando voltou a ver gente, já estava a atravessar a Ponte sobre o rio Xallas, à entrada de Oliveiroa. Deitou-se no banco de uma paragem de autocarro. Uma mulher que o viu ali naquele estado foi buscar-lhe água. Recebido o apoio sentiu forças para vencer os dois quilómetros que o separavam do albergue. Este fica localizado num pedaço de aldeia antiga recuperado para o efeito.

Sete Pés subiu em andar e rosto esmorecidos o arruamento ladeado pelos vários edifícios de traço rural que compõem as instalações. Sentados por ali em rebates e muros estavam parte dos companheiros da noite anterior. A malta das bicicletas, essa não, não era a mesma - por questões óbvias as etapas diárias não coincidiam.

Ouviu rebentar uma salva de palmas que encorajavam a sua chegada à meta, olhou desconcentradamente para o seu público e agradeceu com um sorriso arrancado ao extremo do cansaço.

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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

24- O Caminho do Fim da Terra


Só se chega ao albergue de Negreira depois de atravessar a cidade. Por isso, jantaram primeiro num restaurante do centro e só depois pousaram para a noite. Contrariamente ao que havia acontecido no Caminho Português onde pernoitaram quase sempre sós, encontraram ali dúzia e meia de peregrinos, alemães, holandeses, franceses, italianos, nenhum português, alguns pedestres mas a maioria de bicicleta. Andavam ou estavam no exterior, na sala, na cozinha, nos balneários, nas camas ou à volta delas, pelo que demorou algum tempo até o nosso par encontrar e acomodar o seu espaço de repouso. Perante o cenário Pé Descalço desabafou para Marie:
- Não me agrada nada este ambiente, para mim mais de três pessoas é uma multidão!
- E duas pessoas? São o quê?!
- Somos nós!

- Ora! Dentro de cada um de nós existem várias pessoas! Par exemple, cette femme que te está aqui a massajar os Pés não é a mesma mulher que deixou um marido numa vila dos Alpes com o telecomando nas mãos, nem sequer é a mesma que te viu em Tuy! Foste tu que me disseste que sempre te chamaram Sete Pés, pressinto que nenhum dos teus Pés vive o mesmo Caminho. Quando trato os teus pés, seja a massajá-los, seja a cuidar das bolhas, seja a acariciá-los, tenho a estranha sensação que eles se transfiguram mudando de forma e tacto… Porque começaram eles agora a estremecer?! Tens cócegas?

O estremecimento teria tido origem numa reacção em cadeia dos sete pés! O desvendar por terceiros de um segredo da mais profunda e pessoal intimidade pode pôr em pânico o seu guardador. Para disfarçar a sua existência séptupla, Pé Descalço desatou a rir e recolheu os pés:
-Pára! Tenho cócegas!...

Parte dos albergados não revelava intenções de fé apostólica romana, salvo um italiano ou outro com ar de missão e umas francófonas com jeitos conventuais, estes com rugosidades da casa dos cinquenta além. Os restantes eram jovens “flower power”, pelo menos nos trajes e nos cheiros, em grupos de dois ou três, ou quatro, ou solitários como Sete Pés.

Mas nem Marie, nem os Pés escaparam ao ambiente de partilha e boa disposição criado com surpreendente espontaneidade. No alpendre e na sala de convívio houve bom serão com intercâmbio de experiências de caminhos e até havia quem cantasse baixinho. Toparam-se ou toleram-se uns cigarros suspeitos mas discretos e a pouco e pouco, com o avançar da hora, respeitosamente, cada qual acabou por adormecer no seu canto. As camas de Marie e Sete Pés estavam encostadas uma à outra o que permitiu que adormecessem de braços tocados, impedidos pela proximidade da vizinhança de consumarem o que quer que fosse.
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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

23- O Caminho do Fim da Terra

O autor entendeu, porque sim, por passe ou toque de escrita, mudar o título à história de “Sete Pés” para “O Caminho do Fim da Terra”. Poderá parecer apenas um capricho, uma vulgaridade mas “caminho”, “fim”, “terra”, “Caminho do Fim”, “Fim da Terra”, “Caminho do Fim da Terra”, são significados que se enfiaram na tinta do teclado.

Entretanto, há vinte e três semanas que estendo este pedaço de pacata prosa para contar apenas seis dias do Caminho – hoje é quinta feira de aleluia - de Sete Pés e Marie France. Talvez esta coisa tenha uma duração de telenovela, talvez tenha um fim súbito devido a uma entorse causada por uma pedra do Caminho. Uma coisa é certa, terá Fim.

Aproveito o aparte para reconhecer que sinto a amizade e o calor dos alguns e dos alguéns que me têm acompanhado na caminhada, particularmente daqueles que, com os seus comentários, têm dado água a Sete Pés para que ele caminhe e tenha força na verga para “acaminhar” com Marie. A revelação da vossa presença é a melhor retribuição que posso ter. Aqui não há dever, apenas prazer!
Peço desculpa pela interrupção.                                    
Pata Negra


Sete Pés nem se lembrou dos propósitos delirantes que o trouxeram ali, sentiu que vencera um Bojador sem saber que ele existia ou os seus aléns. Ao fundo da rua das Hortas, nos limites da cidade, encontraram o primeiro marco com a vieira de indicação do Caminho e tomaram a direcção, quase sem falarem.

Enquanto não desapareceu definitivamente a vista das torres da catedral, Pé de Atleta dava, de quando em vez, uns passos de costas para experimentar a sensação de as ver cada vez mais longe.

Partir de Santiago, o local onde se quis chegar, dá volta à cabeça, põe todas as coisas ao contrário, parece que se parte com a mochila desarrumada com o convencimento de que no fim do novo Caminho ela estará no estado de preparação com que primeiramente estava quando se partiu de casa para Compostela. Acredita-se que a forma física com que se chegará ao novo fim será melhor do que aquela do princípio do primeiro caminho. O espírito desconstrói-se e reconstrói-se a cada gesto ou passo, largando de si tudo o que se soltar, agarrando para si tudo o que estiver à mão. Nunca mais se é o mesmo!....

E ia Pé de Vento soprando estas idiotices quando todos sentiram que a forma física lhes falhava ao pensamento. Pé Ante Pé lembrou que, como partiram em cima do joelho, iam em jejum, sem água, dados à Providência. Numa daquelas intermináveis subidas que aparecem nos caminhos e que parecem que vão em direcção ao céu, Água Pé desfaleceu. Foi necessário Marie voltar atrás e socorrê-lo com água da sua e com chapadas se bem que, só com o boca-a-boca ele reanimou e sorriu de malandro. Ela, também marota, deu-lhe um estalo misto de carícia e castigo, de afecto e rejeição. Foi novo o facto de já não serem peregrinos independentes porque permaneceram por ali os dois, mais de meia hora, à espera que se recompusesse da fraqueza e, esse tempo teve uns beijos na testa a medir temperaturas, umas molhadelas de água na cara com uns beijitos a fechar, manifestações humanas a confirmar: estamos juntos!

Depois de dobrar o monte, este se render ao vale e o vale oferecer o rio Tambre, encontraram no lugar balnear de Ponte Maceira, a esplanada ideal para abrirem o namoro. Conversa para aqui e para acolá, olha ali, olha lá, cerveja é ideia má, que espectáculo de chá, que lugar espectacular, e já está: um poderoso beijo de sete segundos, a sete bocas, assinado no final por uma demora igual de olhar.
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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Sete Pés Vinte e Dois


Embora já ambos tivessem reconhecido que a chegada a Santiago, talvez pelo mesmo fogo com que o Espírito Santo deu a S. Tiago e aos outros apóstolos o dom de falarem várias línguas, desdobrara a língua a Sete Pés de tal forma que o seu francês já fluía com poucos tropeços, Marie não entendeu a piada. Passou-lhe o resto da sua cerveja e acelerou o passo para acenar a um táxi. Sete pés seguiu-a, com reflexões ofegantes, a comparar galegos, gauleses e portugueses, a dizer que em Sagres começava a Aventura e o Mundo, em Finisterra acabava a Terra e a Fé e em França havia a Torre Eiffel! …

Ela abriu a porta ignorando as palavras do moço. Com um sorriso de dentes estáticos e com um pé dentro do carro e o outro fora, deu-lhe um beijo. Estáticos também e perfilados, os sete pés seguiram o táxi a desaparecer, vencendo os candeeiros da avenida e deram por si com uma botelha de cerveja em cada mão, trincando, pé a pé, o rasto da passagem dos lábios húmidos da francesa pelos seus. E ali permaneceram alguns momentos, trocando dedos dos pés e a patinar:

- Voltar ao bar? Não teria sentido! Vaguear pelas ruas? Não teria sentido! Ir para o quarto e perder os sentidos?!... Quase conseguiu pensar! Rodou os pensamentos!... Conseguiu! Arrancou! De pés acelerados, depois de mais uma rua, e mais uma e outra, encontrou a entrada do prédio onde, horas antes, havia negociado uma pernoita.

Cravou o sono etilizado nos lençóis e acordou cedo com a luz da manhã e o ruído leve da cidade. A ressaca fez jorrar sentimentos soltos de arrependimento e culpa. Teria de se arrumar a si e à mochila a tempo de se anteceder à partida de Marie para lhe pedir desculpa.

- Mas vou pedir-lhe desculpa de quê?
Interrogava-se ele, num passo réptil, a caminho da Praça do Obradoiro. Mesmo que não conseguisse formalizar qualquer pedido, não cairia de desajeito ou inconveniência porque nunca é pecado repetir uma despedida.

Sentou-se junto ao Hostal dos Reis Católicos, no lugar cimeiro da rampa em que começa a Rua das Hortas e o caminho de Finisterra. Pela hora, seria improvável que Marie já tivesse partido e pela norma era obrigatório que ela passasse por ali.

Acomodou a espera, sentado no chão e recostado na mochila, até avistar a esperada a atravessar a praça de mapa na mão. Ela deu por ele a algumas dezenas de pés de distância, sorriu abertamente da surpresa, causou embaraço por não conter o passo e ao passar, alargou ainda mais o sorriso e largou a pergunta que já havia acontecido outras vezes no Caminho:
- Allons y!?
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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Sete Pés Vinte e Um


A noite transformou-se numa tertúlia de resistentes.

Pé Chato reparou que Marie já abria a boca de não perceber coisa com coisa e libertou os outros pés para prepararem o término dos assuntos políticos com os convivas. Tarde demais, remoeu-se Sete Pés. Fora traído pelo ego que o tentou e levou ao centro das atenções, não se lembrava de alguma vez ter sido centro em toda a sua vida. Fora preciso vir para tão longe dos “santos da terra”, para os santos de Compostela, para que alguém reparasse na existência do seu vulto. Só que esquecera, “não se pode servir a dois senhores!”. Enquanto se embriagara com o momento de vedeta da dança de seus pés, tinha perdido a oportunidade de acertar, fechar ou abrir contas com aquela que, ali e naquele momento, era a sua mulher.

Precipitou a despedida e saiu com Marie, cada um com uma cerveja na mão. Ela, já o dissera, iria de táxi para Monte Gozo e o caso terminaria ali.
- Assim? - Interrogou Pé de Vento.
Marie com o verbo maduro, felino e inteligente, obrigou-o a reconhecer as evidências que determinavam o fim. Os sete Pés, pouco experientes em argumentos de namoro, renderam-se, um a um e deixaram Marie moldar o epílogo.

Enquanto caminhavam pelas ruas históricas para a Avenida Figueiroa, descaminhando o passo para dar tempo ao naco de coisas que haviam de ser faladas, Marie revelou-lhe que o seu Caminho não terminava ali. Existia um prolongamento dos Caminhos de Santiago, cuja história vinha de AC. Antes dos descobrimentos marítimos, antes de para ali terem levado os restos mortais do Apóstolo, antes do Apóstolo por ai ter passado, já mortais faziam Caminho até Finisterra. Pensava-se que terminava ali a Terra, daí o nome - Fim da Terra. Melhor dizendo, o fim do que se conhecia. Chegar aí, com o desconhecimento que havia américas, índios, que a terra era redonda, com o convencimento que, para além da linha que separa o azul marinho do azul celeste, existiria um abismo, fim, Deus, trevas, Desconhecido, seria uma experiência digna de reconstituição para qualquer caminhante que tivesse recolhido no Caminho as lições dos antepassados.

Nos dias de hoje muitos são os peregrinos que, chegados a Santiago, entusiasmados no prazer de caminhar, pretendendo adiar o fim da caminhada, encontram nessa razão antiga o pretexto para continuar e só param em Finisterra. E assim seria também para ela.

Nenhum dos sete pés sentiu coragem para lhe fazer proposta de companhia mas, exceptuando Pé Chato ( não a vamos largar! – disse entre pés), todos ficaram no ar perante o dado novo que poderia haver mais estrada para andar.

Pé de Vento velejou para consigo no “e se mais mundo houvera lá chegara” e deu vela a Água Pé para soltar a sua graça:
- Nós lá em Portugal, no extremo oposto a esse, também temos um cabo desses mas não tem um nome tão significante, tem um nome de uma marca de cerveja!
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Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra.