- Tu não és o organista que tocas descalço?!
O interlocutor era, pelo todo, filho de emigrantes que viera ao novo Agosto e que se abeirara da minha mesa de café pela hospitalidade que ela sempre emanava. Circunspectos ficaram também os meus companheiros de rodada, pela humildade do desconhecido que mandara vir mais uma, pela história do “eu descalçadinho” e, ainda mais, pela prova fotográfica que, depois de volta e meia à rua e ao carro, o fã ali trouxe. Passaram de mão e mão as fotos, provocando gargalhadas, o “olha aqui!”, o “lembras-te desta?”, o “que é feito desta?”, olha a Gibson! Porque diabo trocaram vocês a Gibson pela Fender e porque diabo estavas tu a tocar descalço?!
Tinha acontecido só naquele dia. Eu calçava os meus ténis brancos “sanjo” de verão, sujos e rotos, não sei se por desleixo, penúria, estilo, marca, mania ou ideologia – talvez fosse por estas coisas todas juntas! Eu tocava sentado e entretido e, na boca do palco, vieram sentar-se umas miúdas que trocavam os olhares entre o baile, entre si e para mim. Os meus pés, que eu não via porque estavam sob os teclados, estavam a escassos centímetros dos rabos das moças. Eram, de certeza, de Lisboa e andavam por ali a passar as férias grandes, bem vestidas, asseadas, divertidas, dentes brancos de sorrisos de fazer estremecer qualquer artista de província que arranhasse rhythm and blues e rock'n'roll. Eu não tinha vergonha, muito pelo contrário, sentia até orgulho dos meus ténis mas, naquele momento, senti-me traído por eles, eles não estavam à altura do que a coisa prometia. O fim-de-série era sempre ao fim de três ou quatro músicas, para a banda descansar, o bar trabalhar e a malta trocar as necessárias palavras. Fui atrás das colunas e descalcei-me. Actuei e andei o resto da noite descalço, fiquei nas fotos da noite descalço, as miúdas não conheceram os meus ténis sanjo mas também não me recordo de terem sido seduzidas pelos meus pés descalços. Mas também não são as meninas de Lisboa que vem aqui à história, a história pretende apenas revelar que estivemos muito perto do sucesso: um desconhecido, fotografias, a marca descalço…
Entrei em caminhos perigosos / a ficção começou a confundir-se com a realidade / entrei em caminhos perigosos / os velhos amigos e amigas que cruzam esta história não me deram autorização para tanto / estão demasiado perto de mim para que os dispa / estão demasiado perto de mim para que lhes vista outra roupa / receio que a história tenha falido / por minha culpa, minha tão grande culpa / deixo ainda um vídeo do princípio - de quando ainda não recebíamos um chavo / depois logo se vê / não gosto de deixar as coisas a meio mas nem por isso deixo de apreciar as capelas imperfeitas do mosteiro da Batalha sobretudo pelo facto de elas nunca terem sido concluídas / este blogue há-de um dia encontrar um rumo... e se não encontrar, que se lixe!
Entrei em caminhos perigosos / a ficção começou a confundir-se com a realidade / entrei em caminhos perigosos / os velhos amigos e amigas que cruzam esta história não me deram autorização para tanto / estão demasiado perto de mim para que os dispa / estão demasiado perto de mim para que lhes vista outra roupa / receio que a história tenha falido / por minha culpa, minha tão grande culpa / deixo ainda um vídeo do princípio - de quando ainda não recebíamos um chavo / depois logo se vê / não gosto de deixar as coisas a meio mas nem por isso deixo de apreciar as capelas imperfeitas do mosteiro da Batalha sobretudo pelo facto de elas nunca terem sido concluídas / este blogue há-de um dia encontrar um rumo... e se não encontrar, que se lixe!



