terça-feira, 28 de setembro de 2010

28 Setembro de 1974

Há quem diga que o 28 de Setembro de 74 não existiu. Há sempre quem responda com a piada primária de “claro que existiu, não houve foi 31!”

Eu era ainda muito novo e ficou-me dessa data a circunstância do nascimento dum irmão. A Ti Luísa, parteira lá da aldeia, perdera com a idade o necessário desembaraço da sua arte e, vai daí, o meu pai pediu emprestado um Fiat 600 - ou Fiat Uno, não vem ao caso - para a luz se fazer na maternidade da cidade. Só que à entrada da ponte de Santa Clara – nessa altura ainda não havia a Vasco da Gama – uma barricada do Movimento das Forças Armadas - ou de outras forças não vem ao caso - travou a marcha urgente e impediu a partida porque o proprietário do veículo tinha a bagageira equipada com uma catana belicosa. Vieram à minha mãe as dores mais fortes, julgaram que era manha e, se não chamam o alferes, o rapaz teria nascido ali no meio da operação revolucionária.
É por esta história de família que guardo o testemunho de que alguma coisa houve naquele dia.

Volvidos estes anos estou já um pouco cansado, como aliás já devem ter reparado numa ideia ou outra deste texto, mas mantenho esta vontade acesa de recordar tempos revolucionários para deixar aos novos a esperança de novas revoluções que hão-de fazer girar a história.
- Se bem me lembro o 28 de Setembro foi há 36 anos e nessa data nasceu um irmão meu. Não sei se o mais novo se o mais velho de cinco que somos. Gaita, agora é que foi! Não sei a qual deles eu devo telefonar para dar os parabéns…36 anos…eu tenho… hei-de lá chegar, não vou cometer a indelicadeza de me enganar!...

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Sete Pés Cinco

Quando chegou ao albergue percebeu que a nova companheira já estava deitada. Enrolou-se no saco cama preocupado com o facto de poder ressonar e incomodar. Não viria a pregar olho, os ruídos da festa e a ansiedade da caminhada não o permitiram.

Seriam seis da madrugada quando pressentiu a partida da francesa. Sentiu-se feliz e aliviado por poder preparar-se em solidão. Com a trouxa pronta, desceu as escadas e sentou-se cerimoniosamente à secretária para assinar o livro de registo e carimbar a credencial de peregrino. Escreveu, como viria a escrever em todos os livros do Caminho, o nome dos Sete Pés, sem qualquer outra referência a não ser a da nacionalidade de origem. Fixou o nome que o precedia na lista: Marie France.

A cidade estava ainda deserta e denunciava a noite de festejos, quando os sete pés de Sete Pés se fizeram ao Caminho. O Pé de Meia, o Pé Chato e o Água Pé queixavam-se do pequeno almoço e do preço. O Pé de Atleta e o Pé de Vento pareciam cavalos a galopar pelos campos. O Pé Descalço e o Pé-Ante-Pé mediam cada passo e apontavam as vieiras estampadas em azulejos que indicavam o Caminho de Santiago.


Ainda não havia uma légua de caminho e já o Água Pé e o Pé Chato reclamavam por uma paragem onde o corpo fosse recompensado. Uma mercearia de aldeia apareceu na hora certa, uma sandes de “xamón” e uma “cerveza” prepararam os pezinhos para atravessar a monotonia do longo Polígono Industrial Las Gándaras. Não era aquilo que se esperava do mítico caminho, os pés começaram a desentender-se e armaram um pé de vento por causa dos diferentes ritmos de andamento.
Ao fim da estrada que serve o complexo industrial, um complexo de nós encontra a auto-estrada e a carretera nº550 que servem a Galiza de alto a baixo. Entre as poeiras, os ruídos e os rails, sobranceira a um viaduto e isolada, uma casa de rés-do-chão a duas águas, uma taberna quase portuguesa e uma mulher quase minhota a aviar, resistem. O cenário pôs de acordo os sete pés e, ali mesmo, no silêncio do corpo a que pertencem, entre perguntas e respostas circunstanciais com a taberneira, ditaram regras e sentenças uns aos outros.
Saíram de acordo quanto ao facto que seria de bom viajante ir recolhendo informações, expressões e alimento, parando em todas as tabernas que aparecessem pelo Caminho. Não era só o Água Pé que gostava de tabernas, todos os pés gostavam, não porque gostassem de vinho mas porque das recordações de infância, a taberna lá do sítio que não gostara de engolir o facto da Puta ter dado à luz um filho, era o único local público onde Sete Pés pudera aprender e exercitar um pouco de vida social. A mãe mandava-o ir comprar tabaco, fósforos ou uma lata de atum e ele lá ia preparado para as graçolas dos fregueses e para reagir às suas tentativas de tirar nabos da púcara acerca das andanças da mandatária da compra. Por vezes, aviado e com troco, saía de corrida sem dar troco às provocações. Outras vezes dava-se ao jogo e elaborava inteligentes respostas e mentiras.
Para além de razões saudosistas, encantava-o também o romantismo, a austeridade e a humildade das tabernas: o calor do vinho, gerador de conversas, discussões, desgarradas e às vezes também de zaragatas; o balcão cheio de manchas que nunca era pintado, dois ou três bancos mochos, três ou quatro fregueses, quatro ou cinco pipos e cinco ou seis produtos - vinho, tabaco, fósforos, latas de conserva, amendoins, castanha pelada e pouco mais. Aos Domingos também havia tremoços.
- Por pensar nisso, já se comiam uns tremoços!...

__________________________________________________
Na próxima semana há mais. Pode ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Obras no sotão

Há sempre uma folha dobrada num livro que não se abre há muitos anos:
Nos tempos que correm
I
Estou lúcido demais para gritar.
O sangue dói demais
Porque é feito de maravilhas e desastres
que os olhos, sempre os olhos, forçam a entrar

Versos?! – Versos não,
que já passou o tempo em que tudo foi dito,
de modo que, NOS TEMPOS QUE CORREM,
não convém falar

II
Se dentro de três dias a Virgem não me aparecer no olival,
faço-me sapo,
fumo um mar de charutos
e rebento...
-Olé! Pelo menos foi o que me disse o Presidente quando lhe contei
não haver grito nem voz,
nem deus que me contente!...
Percebo muito pouco da vida para entender as palavras dum homem do Poder
mas o senhor Presidente não me ia enganar!
-Não restam dúvidas! Estou tramado! Três dias de vida meu Deus!
Só porque nasci ontem e, entretanto, perdi o norte à minha origem!

- Errar é humano! (diz-se que os astronautas não podem errar)
Mas errar por essas ruas e encontrar um panfleto:
PROCURA-SE BICICLETA DE CORRIDA CINZENTA MGR-12-85
entrar em casa,
pôr-se em pelota,
não encontrar o sofá,
ficar desesperado,
fechar-se no quarto de banho,
esconder a chave,
escrever este texto,
dormir no banheiro,
acordar afogado,
sair pela janela,
apresentar-se ao trabalho,
- não é humano, aconteceu-me a mim! (logo eu sou um psiconauta)

“-alucinado!...
não há virgens,
não há reencarnações
e, embora existam sapos que incham,
não rebentam!...

muda de casa,
compra um chapéu,
faz-te um homem,
NOS TEMPOS QUE CORREM
os poetas têm que parar,
e cura-te! cura-te, que a vida são três dias!”

- disse-me isto, o Sol...
acendi um charuto e pensei para comigo:
estou são e sóbrio...
estou quase “O HOMEM IDEAL”...
MGR-12-85

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Limpando o sotão

- Esta sebenta vai para o lixo mas este papel fica:

Os vencidos da vida
Os olhos vermelhos, pequenos e distantes
-espelho baço.
As mulheres frágeis, vazias e amantes
-que estimulam.
O passo dos homens de sucesso e elegantes.
- Que importa o resto?! Frias e mundanas são todas as coisas!

Os campos, verdes, grandes e gigantes
- o horizonte.
As ceifeiras cantando canções dantes
- ecoando.
Os dentes dos poderosos e importantes
- os servidos.
Tu, a outra, o outro e a puta desta vida.
A porta da traição é o escape dos vencidos.

Quero todos os campos cobertos de videiras!
Quero tudo com vinho.
oitentas

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Sete Pés Quatro


Albergue de Tuy
Era Sexta-Feira Santa e em Tuy havia festa.
- Estranho, festejarem o dia do calvário!...
Entrou na catedral românico-gótica e procurou informações acerca do albergue. Era logo ali nas traseiras. A porta secular estava entreaberta. Entrou. Chamou por gente até aparecer do alto da escadaria que subia do hall para o primeiro andar, uma mulher a responder em francês. Sete Pés dizia pouco mais do que “oui”, “non”, “bonjour” e “mademoiselle”. Recordava com saudade a Violeta, a professora da preparatória que apresentara as personagens da família Dupont e seu cão Patapouf. Tirara o quinto ano! Na altura foi um grande feito para um filha da puta como ele mas era frustrante ter de admitir que não conseguia construir uma frase com meia dúzia de vocábulos e relembrar a superioridade de sua mãe no domínio do francês, ela cuja aprendizagem se deve ter iniciado na cama com turistas e emigrantes, no meio de simulações de satisfação sexual a dizer Oh Non! Oh Non! Oh Non! Oh Oui! Oh Oui! Oh Oui!

A francesa era também peregrina e fez entender que já estava instalada desde a tarde e que não vira sinais de existirem funcionários no alojamento. Esclarecido, subiu as escadas percebendo que a mulher desaparecera para a camarata feminina e que ele teria de tomar lugar na dos homens. Os dois espaços estavam separados por uma divisória que não chegava ao tecto sendo possível escutar, de um para o outro lado, os movimentos que se passavam em ambos. Não existiam sinais de outros peregrinos e as instalações respiravam austeridade, asseio, bom gosto e hospitalidade. Um duche de água quente animou o caminhante. Se encontrasse sempre aquelas condições pelo caminho seriam excedidas as suas expectativas.

Quando saiu para jantar não viu a tal senhora. Veio a encontrá-la nas ruas da cidade velha, atoladas de povo em festa. Trocaram apenas um breve e deferente cumprimento. Jantou bem, deu uma volta digestiva e regressou ao albergue.

No dia seguinte a sua forma seria posta à prova e era aconselhável deitar cedo. Caminharia triste e fechado? Caminharia alegre e aberto? Andaria devagar e pesado? Andaria depressa e ligeiro? Concluíra, em tempos, da observação das pessoas, que a forma como cada um anda em determinada andança é função da vida com que se dá a primeira passada do dia. No seu caso, possesso de sete vidas, esse espírito variava consoante o pé que andava e só se manteria constante se algum dos sete se impusesse aos restantes e tomasse o comando, o que era raro na democracia interior que cultivava. O Caminho era de todos os pés e, como tal, seria de esperar variações de humor continuadas.

Quando chegou ao albergue percebeu que a nova companheira já estava deitada. Enrolou-se no saco cama preocupado com o facto de poder ressonar e incomodar. Não viria a pregar olho, os ruídos da festa e a ansiedade da caminhada não o permitiram.
 
No seguimento do Sete Pés Três e para continuar no Sete Pés Cinco.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Andamos a fazer obras no sotão

Do Rio que, como a vida, passa…

A ti que escondes a poderosa beleza das crianças
E manténs o prazer de subir ao cume das montanhas:

Afinal não chega a ser o rio que nos separa
Nem a mesa da tua sala de jantar…
Talvez o mar, talvez a tua trança…
Ou o meu eu de desgraça,
Esta forma tão sem graça de aqui estar!
Sei lá! Que importa?!
Se a ferida não cessa de sangrar
E o meu cais tem sempre naus à porta para atracar!....
Algumas vêm do fim do oceano e partem enquanto sonho…
Outras vêm do sul e quando eu falo, vão!...
É certo, também há as do sol,
Trazem o ventre e o coração ao léu…
Ficam umas horas e vão com os pescadores
E eu fico olhando o rio… a barra… o céu…

Contigo foi diferente:
Eu parti de Sagres à aventura
E temo o fim das tardes de Lisboa, das noites de Verão…
Talvez o oceano, o sul, o sol nos desencontre…
Eu ficarei com a noite.
- E o Rio?!
1983

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Bombeiros estão bem dotados

Neste tempo de vindimas, das minhas histórias do Água Pé e companhia, dos caminhos da Galiza, estou em estado blogodepressivo de modo que só me apetece rir!
O autarca da Coruña Carlos Gonzalés-Garcés Santiso dá um bom exemplo aos nossos: riam-se!


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Sete Pés Três

E assim, ganharam vida e existência sete vidas na forma de sete pés: Pé de Meia, Pé de Atleta, Água Pé, Pé Chato, Pé Ante Pé, Pé de Vento e Pé Descalço.

Agora que a mãe se finara e lhe deixara liberdade para caminhar, Sete Pés poderia deixar a terra que não gostara de sua mãe, que não gostou de o ver nascer, que não lhe perdoou o facto de não ter pai. A falecida cuidara de Sete Pés e, neste particular, do Pé de Meia, facto que lhe permitiria sobreviver durante uns largos tempos sem preocupações financeiras se, como era de sua condição, gastasse massa apenas no essencial.

Os sete pés reuniram-se numa espécie de concílio e determinaram o Caminho. Porque teria de ser tomada uma direcção, porque deveria existir uma razão, embora pouco católicos, encontraram na seguinte premissa uma boa justificação:
“- Nunca será peregrino ou caminhante o cristão que não for a Santiago de Compostela a pé!”
E foi assim que a assembleia fez caminho de pé posto e determinou esse destino! Cada pé daria os seus passos, cada pé teria as suas motivações para caminhar, entre outras: Pé de Meia iria para gozar rendimentos, Pé de Atleta por desporto, Água Pé para tascas, Pé Chato para se chatear com os outros pés, Pé Ante Pé por temor ao Altíssimo, Pé de Vento para recolher a energia do caminho e Pé Descalço para fazer turismo e ouvir canções galegas.

Pé de Meia esclareceu os seus pares sobre a herança que a mãe puta juntara e encarregou-se de fazer um estudo económico; Pé de Atleta faria a preparação física; Pé de Vento trataria da lista de vestuário; Pé Descalço dos artigos de higiene; Pé Ante Pé dos artigos de farmácia; Pé Chato e Água Pé fariam não sei o quê.

Com os pés no estribo entenderam que não seria “caminhar” andar nas estradas portuguesas e tomaram o comboio até ao Minho.
Era fim de tarde quando poisaram pés em Valença. A mochila às costas denunciava o peregrino e, já na avenida que desce para o rio, um carro parou e o condutor perguntou se era preciso alguma coisa. Que não, mas mesmo assim o homem apresentou-se como padre José Maria, pároco dali, foi ao porta-bagagem e retirou uma oferta que constava de um guia do Caminho Português de Santiago e de um folheto com salmos e orações. Deu algumas indicações, alguns conselhos e a sua bênção e partiu com ar satisfeito de quem serviu.

Satisfeito também seguiu Sete Pés até à ponte de Gustavo Eiffel. Viu o edifício abandonado da antiga fronteira atenuar-lhe os receios de, pela primeira vez na vida, entrar num país estrangeiro.
- Um país estrangeiro, não é bem assim! - Interiorizara. A Galiza é quase Portugal, da língua e de outras coisas.

Começou a pisar o passeio pedonal da ponte já noite escura, rendendo cada passo a cada um dos pés e ouvindo, de cada um, um som diferente da trepidação dos ferros mal aparelhados. Os seus passos eram o cumprimento de todos os seus desejos, pensava:
- Que mais poderá desejar um homem na vida além de caminhar?!
__________________________________________________
Já houve Sete Pés Um, Sete Pés Dois e para a semana haverá Sete Pés Quatro.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Sete Pés Dois


Não admira, portanto, que Sete Pés nunca tivesse tido afeição pelas pessoas. A mãe andava por lá na Vida e na Volta durante grande parte do dia ou da noite. A casa era pequena e sem condições e Sete Pés passava o tempo a vadiar pelas redondezas sem um amigo que lhe desse troco, sem um adulto que o tratasse por menino. Diriam os pais aos filhos “tu foge dele!”, diriam as comadres às comadres “à minha porta não pára ele!”…

Na escola foi sempre enjeitado mas aprendia razoavelmente. Com o tempo, as pessoas deixaram de o considerar perigoso e começaram a tolerá-lo da mesma forma que se toleram os cães sem dono. Quando entrou na adolescência começou a refugiar-se na música e, com catorze anos, conhecia tudo o que era música rock desde os anos sessenta até à sua época. Ouvia noite fora as estações de rádio que passavam das suas músicas e gravava cassetes estéreo a mono para duplicar a sua capacidade de armazenamento. Estes gostos e conhecimentos ainda lhe trouxeram um ou outro laivo de amizade mas Sete Pés não fora formado para valorizar o convívio ou a amizade. Além da música passava o tempo a caminhar. Adorava andar pelos campos a pensar e a observar tudo o que havia e não havia. Quando frequentou a escola da vila, que distava quinze quilómetros, muitas vezes aconteceu dispensar o comboio e regressar a casa a pé e, se por acaso, pelo caminho, alguém lhe oferecesse boleia, recusava-a. Ia a Fátima a pé sem ser por Fé e chegava a ir ver concertos de rock à cidade maior também à pata.

Tinha consciência de que este gosto lhe viera do facto de ter encarnado a alcunha “Sete Pés”. Aliás, ainda não teria dez anos quando se auto convenceu de que tinha mesmo sete pés embora, fisicamente, a realidade só revelasse dois a quem o via. Entendia que os seus Sete Pés constituíam uma entidade extra-física, tipo mistério da Santíssima Trindade mas, em vez de três, com sete em um ou do tipo do diabo configurado nos sete demónios do inferno.

A fantasia foi-se desenvolvendo no seu espírito e, com os anos, a sua imaginação de caminhante solitário foi criando na sua mente sete personalidades distintas que conversavam e discutiam entre si, que debatiam e determinavam a vida do ser uno vísivel Sete Pés.

E assim, ganharam vida e existência sete vidas na forma de sete pés:
Pé de Meia,
Pé de Atleta,
Água Pé,
Pé Chato,
Pé Ante Pé,
Pé de Vento
Pé Descalço.
__________________________________________________
Na semana passada houve Sete Pés Um e para a semana haverá Sete Pés Três.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Leitão à sexta

Embora um pouco discreto e cabisbaixo o Rei continua determinado em focinhar nas cercas da república. Há sempre assunto, quando a alma não é pequena, pode é não haver tempo se se anda sem pachorra e pachorrento. Fiquemos por aqui.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Canção de Setembro

Arraial Popular e Verão

Quem são os deuses a quem se dirigem os foguetes que rasgam o ceú
Quem foram os homens que rasgaram o véu da mulher-a-dias

Canção de Setembro tentando ainda o vinho velho
pelas suas histórias, pelas suas alegrias

Desgraça de viúvos desencantados
que entregam seus cabelos à desordem
Partem os filhos homens à espera do ano de regresso
Lá para o meio da vida quando os filhos a tiverem no começo

o meu piano está coberto de poeira
e cria flores
e queria esperança e graça

a Este são dores
as cores da nossa casa

No Inverno de Paris ouvir-se-ão as melodias do Verão de cá
(a todos os conterrâneos emigrantes lá)

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Sete Pés Um

O Caminho do Fim da Terra

Sete Pés assistiu ao enterro da mãe acompanhado pelo coveiro, pelo cangalheiro e pelo ajudante. Recebeu os sentimentos do trio com a expressão melancólica com que sempre viveu e desceu sozinho e em paz, entre o mármore das campas, arcanjos e epitáfios, até à saída do cemitério. Engoliu, soluçando, pensamentos que se desfiavam e emaranhavam desde o dia em que nascera até às pazadas de terra que ainda ouvia ecoar.

Finalmente desapertara-se o seu único laço parental, entregue a mãe, sentia-se livre para enfrentar o mundo e a vida. Adorava a solidão, não gostava do lar nem do trabalho, adorava correr mundo, amava a liberdade da aldeia mas detestava os preconceitos dos aldeões que o detestavam por ser filho de quem era.

De pequeno, recordava os tempos em que os conterrâneos o corriam à pedrada e o tratavam por Filho da Puta. Como ele fugia com desembaraço e porque, a certa altura, talvez tivessem achado demasiado cruel a alcunha, começaram a chamar-lhe o Sete Pés. Certo é que a sua presença não era desejada à porta de ninguém. Enquanto cresceu, Sete Pés foi percebendo que, apesar de frequentemente ouvir chamar filho da puta a muita gente, o seu caso era mais sério, ele não era um filho da puta qualquer, a sua mãe era mesmo puta de ofício. Ora, nada mais trágico do que um menino tomar consciência de que é filho duma puta e, ainda por cima, ser conhecido e tratado por Filho da Puta.

Não seria só pela mãe que era corrido; por vezes tinha fome e roubava fruta. Uma vez roubou um par de calçado, facto que lhe valeu a fama de larápio. Aquelas sapatilhas estavam mesmo a pedi-las: as duas, lado a lado, no arrebate da casa a apanhar sol, com ar de quem não entrou para tomar ar e não sujar o chão finório, a olharem para os seus bonitos pés descalços e zás, toca a correr a sete pés, rua abaixo. Quando encontrou um local recatado para as experimentar teve um laivo de consciência e deixou-as ali mesmo:
- Gaita para os meios pequenos, não as posso usar, o dono vai reconhecê-las!
Alguém o viu correr com elas na mão - uma aldeia pode parecer deserta mas existem sempre olhos vigilantes por detrás dos postigos, dos muros, das moitas ou das ovelhas – e Sete Pés acabou por ser julgado por todos os que tiveram conhecimento do ilícito e castigado pela acentuação do desprezo que por nascença lhe moviam.
__________________________________________________
Depois do Quarto, da Fábrica e do fracasso da história que não consegui acabar porque não encontrei título, proponho-me a mais um folhetim. Desta vez irei até ao fim, custe o que custar. Todas as segundas! para a semana há o dois.
Abaixo os romancistas, a literatura e o desporto de competição! Isto é apenas para ver se encolho a barriga! 

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Leitão à sexta

Está visto que a coisa anda mal e que não tenho coisa para escrever, por isso, fui rebuscar um leitão de 2008. E viva a porca!
Férias? Nunca passei férias! O tempo das férias levei-o sempre a amanhar o milho do Vale Grande, a roçar mato para a vaca, a tirar o esterco ao porco!... Ouvi Agosto sobre Agosto, de emigrantes e migrantes, mil e um palpites acerca da altura exacta da torre Eiffel e contemplei a cultura dos que sabem os nomes das muitas ruas e avenidas de Lisboa.
Se dum lado me ficou a ideia que a tal torre deve ser mesmo muito alta, do outro ficou-me a resposta que se dava à desgarrada quando se perguntava quantas as ruas da cidade maior: "Quantas ruas tem Lisboa / eu te vou “ispelicar” / tem metade ao comprido / outras tantas a atravessar"
Neste vai e vem de uns e no ficar sempre por cá de outros, ganharam-se muitas palavras novas e perderam-se as nossas. Apareceram muitas máquinas novas e desapareceram as noras e os burros. E fiquei eu, até um dia destes, contente por as coisas terem evoluído ao ponto de eu ter um blogue e de nele escrever sobre nada, por tudo e por nada, e à sexta...

Esta coisa de escrever é como dormir. Dorme-se sempre sobre alguma coisa: sobre a enxerga, sobre o chão, no sofá, ou sobre a amada... escreve-se sobre a mesa, sobre o papel, nas costas de outro, sobre porcos... mas nunca sobre nada! A não ser que escrever sobre... Não, hoje não vou falar de Sócrates!...


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Uma ternura de notícia para uma pessoa que não está bem

"O dispositivo de combate a fogos no Gerês actuou para proteger pessoas e bens"
Ao autor da frase desculpa-se! É ministro de Sócrates! Mas que dizer da comunicação social que lhe dá destaque?!
Vou voltar a escrever a frase para meditar mais sobre o seu conteúdo:
"O dispositivo de combate a fogos no Gerês actuou para proteger pessoas e bens"

Variantes da notícia:
Dispositivo protegeu sempre pessoas e bens
"O dispositivo reagiu protegendo sempre o essencial, pessoas e bens"
Gerês: primeira missão era «proteger pessoas e bens»
"A nossa principal preocupação é salvar pessoas e bens e tudo correu bem nesse sentido"
"A nossa primeira preocupação quando é um fogo florestal é salvar pessoas e bens."

Para a desgraça não ser tão grande deveríamos ter também um dispositivo de combate que actuasse para proteger as coisas que não são bens, nem pessoas ou talvez ter um ministro que estivesse bem.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O Povo e o Fogo

Ai que arde tudo! Ai que arde tudo!
Olhem-me além aquelas chamas!
Ai credo tanto fumo! Se não houvesse vento!...
Olhem-me aquelas casas e cabanas lá ao fundo!
Não sei se irão a tempo! Está um tempo quente como brasas!
Olhem-me aquela gente! Isto é o fim do Mundo!
Ai que aflição! Não sei que diga mais!...
Olha os bombeiros! Uhhh! Olha o avião! Brrum!
Ardem pinheiros, pinhas e pinhais!
Salve-se quem puder! Salve-nos Deus!
O Estado devia de... Deviam os bombeiros...
Isto devia de ir à televisão!
Olha o avião! Brrum! Um carro de bombeiros! Uhhh!
Ai credo tanto fumo! O prejuízo que aí vai!
As oliveiras que ardem nunca mais dão azeite!
Coitados dos pinheiros! Faltam bombeiros! Uhhh!
Dêem-lhes água! Coitados oh! Dêem-lhes leite!
Isto é o Inferno! O Sol desapareceu!
Olhem-me os céus! Ai Deus!
Ai que arde tudo! - Ardeu.

O senhor ministro, no princípio de Agosto, elogiava a eficiência e dizia que a área ardida era inferior à do ano passado. Em meados de Agosto o senhor ministro garantia eficácia e afirmava que a área ardida era inferior à de dois mil e três. Em finais de Agosto o senhor ministro reconhece que nunca ardeu tanto mas que também nunca as condições foram tão adversas, congratulando-se com a eficácia das medidas do seu ministério, assegurando a inocência do primeiro ministro e registando a preocupação do senhor presidente da república! Em Outubro o senhor ministro acabará a dizer: a Rússia teve mais área ardida!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Pata Negra em Filme

Enquanto a Tristíssima Trindade, o sham pum três em um, os três dos três tristes partidos socialistas portugueses, o PS Triste Alegre, o PS Nobre Soares e o PS Defensor de Sócrates, se degladiam na invenção da Tetratíssima Tetraindade, um andor com três tristes rosas enfiadas num Cavaco, Pata Negra de Megafone em Punho anuncia:
- Ainda a Procissão Vai Nu Adro!
Porque calou a comunicação social este filme?!
O filme, sucesso em Cannes e proibido, fala do Rei dos Leittões, Alegre em terra onde os Porcos não se comem, Nobre em terra onde os Porcos são Reis, Defensor de Moura, Barrancos e Olivença e que, se mais fita e crença houvesse, enfiava aos três um Cavaco no buraco de onde vem merda!
Merda de País! Vota Pata Negra! Porque nem todos os porcos são iguais!...
Isto não é montagem:


quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Ainda bem que não há fogos

A Rússia está a ser assolada por grandes incêndios e Vladimir Putin tem aparecido no terreno a reconhecer a gravidade da situação, a ineficácia dos meios de combate e o apoio às populações afectadas. Ainda bem que por cá não há incêndios de grande gravidade, graças à eficácia das medidas tomadas, e as populações não precisam de apoio porque assim o primeiro ministro não precisa de aparecer.

Alguma comunicação social, em vez de passar reportagens da Rússia, passa reportagens de pequenos focos de incêndio em Portugal mas a verdade virá sempre ao de cima e, com as primeiras chuvas, o primeiro ministro virá à televisão dizer que todos os focos estão extintos e que a área ardida foi bem menor que o ano passado nem que, para existir alguma verdade ao de cima, tenha de se referir apenas às Berlengas.

Rematará o seu discurso assim:
“Fica agora evidente para todos os portugueses de boa fé a enormidade das calúnias, das falsidades e das injustiças que sobre os incêndios foram insistentemente repetidas durante os últimos meses, muitas vezes com um único objectivo: o de me atacarem politicamente e pessoalmente”.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O traçado da IC

(da explicação da imagem da postagem anterior)
- Os gajos explicaram-me, isto é o Ponto de Encontro 736. Se algum gajo se aleijar tem de ser trazido para aqui porque é aqui que vem ter a ambulância!

Tó Zé, o esclarecedor, nasceu aqui, cresceu aqui, aqui aprendeu a tratar do gado, do pasto, da vinha e do vinho. Nunca desenvolveu sonhos de sair daqui, nem mesmo quando, há quinze anos, a asfaltagem da estrada permitiu que aqui chegasse o primeiro automóvel. Com a estrada asfaltada um tipo adoutorado, amante do sossego, comprou aqui um terreno e fez uma casa. Tó Zé e a mãe viúva aprenderam a ter vizinhança e cuidam dela como uma horta. Não há muros entre os dois lares que se completam harmoniosamente com conhecimentos, haveres, gatos, galinhas e copos.

Tó Zé, amante do gado, da terra dura e do sítio com vista para um pedaço de Portugal, herdou uma parcela e comprou outra. Nelas estabeleceu a sua criação de gado bovino e caprino. A coisa não dava para muito mas dava para viver intensamente as alegrias e chatices da sua vocação de pequenino.

E não é que o raio do traçado da estrada lhe acertou ao comprido na propriedade, atirando uma borda de nada para a metade que vai ficar do lado de lá e quatro metros quadrados - quatro metros quadrados, reza a escritura já lavrada - na metade que fica do lado da casa da mãe?!
- Antes queria que tivessem feito aqui um rio! Pelo menos podia comprar um barco para atravessar com a tratorinha para o outro lado! Já viste? Fiquei sem nada! Para que porra quero eu o cheque? Nem dá para ir ao Brasil buscar uma brasileira! Vamos mas é beber um copo que este ano ainda há vinho! Para o ano, nem isso!

Chegaram hoje as máquinas, começaram a tombar árvores quase tão impiedosamente  como os homens que riscaram no mapa a estrada a passar por aqui. São dias trágicos. Dizem que a IC vem desenvolver não sei quê em nome de não sei que progresso, que vem de não sei onde e vai sei lá para  onde, que custa não sei quanto, pago por não sei quem e que tem de estar pronta antes que chova!
- Já viste a minha vida!? Eu já tinha ouvido falar de icês mas nem sequer sabia que eram estradas! Traçado de IC!? Pensei que era alguma marca de gasosa! Como não gosto de estragar o vinho, gosto dele simples, pensei que não era nada comigo! Afinal traçaram-me foi do mapa a mim! E já me disseram que são estradas tão boas que nem podem andar nelas as tratorinhas!... É assim a vida do "home" pobre!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Ponto de Encontro

Esta vida está cheia de símbolos e sinais. Alguém foi colocar este a 30 metros da minha porta, ao fim do beco em que vivo. Alguém me é capaz de explicar o que é que isto significa?!

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Sondagens só para alguns

Depois dum fim-de-semana agitado por arraiais de campanha, eis-me a falar dos outros.

Segundo a sondagem TSF/Diário Económico:

Cavaco – 67%; Alegre – 20%; Nobre 10%; Moura 0,7%. Tais resultados significam que neste momento os candidatos de direita totalizam 97.7% das intenções de voto. Restam 2,3%  para o tradicional candidato comunista, para o Garcia Pereira, para o D.Duarte, para D.Pata Negra e para brancos e nulos?!
Estas sondagens não são sérias nem isentas. Se propuserem às pessoas escolher entre quatro melões, elas escolherão aquele cuja casca lhes for mais familiar. Mas se lhes derem a oportunidade de escolher entre quatro melões e um porco, obviamente que escolherão o porco. A não ser que sejam talibans e, nesse caso, acabarão por ser bombardeados pela aviação norte-americana.

Estes quatro são apenas as quatro patas da mesma porca. Eu sou o porco. Vou cobri-la. Não permitas que limitem as tuas escolhas.
Pata Negra, um presidente só para alguns.