Eu era ainda muito novo e ficou-me dessa data a circunstância do nascimento dum irmão. A Ti Luísa, parteira lá da aldeia, perdera com a idade o necessário desembaraço da sua arte e, vai daí, o meu pai pediu emprestado um Fiat 600 - ou Fiat Uno, não vem ao caso - para a luz se fazer na maternidade da cidade. Só que à entrada da ponte de Santa Clara – nessa altura ainda não havia a Vasco da Gama – uma barricada do Movimento das Forças Armadas - ou de outras forças não vem ao caso - travou a marcha urgente e impediu a partida porque o proprietário do veículo tinha a bagageira equipada com uma catana belicosa. Vieram à minha mãe as dores mais fortes, julgaram que era manha e, se não chamam o alferes, o rapaz teria nascido ali no meio da operação revolucionária.
É por esta história de família que guardo o testemunho de que alguma coisa houve naquele dia.
Volvidos estes anos estou já um pouco cansado, como aliás já devem ter reparado numa ideia ou outra deste texto, mas mantenho esta vontade acesa de recordar tempos revolucionários para deixar aos novos a esperança de novas revoluções que hão-de fazer girar a história.
- Se bem me lembro o 28 de Setembro foi há 36 anos e nessa data nasceu um irmão meu. Não sei se o mais novo se o mais velho de cinco que somos. Gaita, agora é que foi! Não sei a qual deles eu devo telefonar para dar os parabéns…36 anos…eu tenho… hei-de lá chegar, não vou cometer a indelicadeza de me enganar!...


