sábado, 30 de outubro de 2010

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

TV Porno

Confesso que nunca vi mas já acredito em tudo: 
Chama-se "Agora é que conta", passa na TVI" e é apresentado por Fátima Lopes. O programa começa com dezenas de pessoas a agitar uns papéis. Os papéis são contas por pagar. Reparações em casa, prestações do carro, contas da electricidade ou de telefone. A maioria dos concorrentes parece ter, por o que diz, muito pouca folga financeira. E a simpática Fátima, sempre pronta a ajudar em troca de umas figuras mais ou menos patéticas para o País poder acompanhar, presta-se a pagar duzentos ou trezentos euros de dívida. "Nos tempos que correm", como diz a apresentadora - e "os tempos que correm" quer sempre dizer crise -, a coisa sabe bem. No entretenimento televisivo, o grotesco é quase sempre transvestido de boas intenções.

Os concorrentes prestam-se a dar comida à boca a familiares enquanto a cadeira onde estão sentados agita, rebolam no chão dentro de espumas enormes ou tentam apanhar bolas de ping-pong no ar. Apesar da indigência absoluta do programa, nada disto é novo. O que é realmente novo são as contas por pagar transformadas num concurso "divertido".

Ao ver aquela triste imagem e a forma como as televisões conseguem transformar a tristeza em entretenimento, não consigo deixar de sentir que esta é a "beleza" do Capitalismo: tudo se vende, até as pequenas desgraças quotidianas de quem não consegue comprar o que se vende.

Houve um tempo em que gente corajosa se juntava para lutar por uma vida melhor e combater quem os queria na miséria. E ainda há muitos que não desistiram. Mas a televisão conseguiu de uma forma extraordinariamente eficaz o que os séculos de repressão nem sonharam: pôr a maioria a entreter-se com a sua própria desgraça. E o canal ainda ganha uns cobres com isso. Diz-se que esta caixa mudou o Mundo. Sim: consegue pôr tudo a render. Até as consequências da maior crise em muitas décadas.

(Entretanto a apresentadora recebe 40.000€ por mês. Foi este o valor da transferência da SIC para a TVI. Uma proposta irrecusável segundo palavras da própria.)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Sete Pés Nove


A manhã do Dia de Páscoa cresceu de sol ameno. Passada uma hora de caminho, subida uma encosta, o ar e a vista da baía de Vigo contribuiram para que cada pé tomasse os seus próprios passos.

O Caminho começava a revelar o seu lado milenar. Pé de Vento pegava com o olhar pedaços de paisagem, ramos verdes das bermas ou pedras polidas dos trilhos polidos.
Por vezes o Pé Descalço recuava à Idade Média procurando reencarnar espíritos antigos, tentando encontrar a Fé do temor dos Céus. Insistentemente, Pé de Atleta dava a volta ao facto, e ao olfacto, de Marie France por ali ter passado há poucas horas, entretinha-se procurando vestígios do seu rasto, sentia-se levado por certo magnetismo que tinha de admitir, reconfortava-se com o facto de poder gozar a solidão sem se sentir só na caminhada.

Marie era uma peregrina, entre muitas, que os galegos viam passar, que deixava efémeros “buenos dias” aqui, atrás e mais adiante, uma entre tantos os que caminham e os que caminharam para Compostela. No que a ela respeitava, Pé de Atleta quis assumir o papel de comandante de esquadrão, ela não era uma mulher que atravessava a parada dum quartel, ela, ele e os outros dele, eram, naqueles dias, os únicos donos do Caminho.

Para um caminhante crente, o encontro com Marie seria uma aparição, uma dádiva, uma provação, um sinal dos Céus, um anel de casamento. Acontece que nenhum dos pés se movia por Fé mas basicamente pela essência da função de qualquer pé: locomover os corpos que suportam.

Marie, não o escondia, escrevia um diário. Sete Pés cumpria apenas a sua condição de realizar caminho, e fazer caminho é dar passos e, contar os seus passos, ele nunca o faria, nem por interposto narrador, como aquele que no presente caso em leitura está para aqui a divagar sem rumo e sem caminho. Mas continuemos, antes que "os porquês" respondam mal e nem sequer cheguemos a Santiago.

Neste segundo dia, todos os pés se sentiam completamente peregrinos, peregrinos especiais porque incluíam na sua espiritualidade o facto de serem sete em um.
Grandes e acalorados debates fizeram os pés de fantasia, uns saudáveis, outros nem por isso. É normal que o esgotamento físico traga à flor da pele a fraqueza do espírito sobre a forma de roupa suja para lavar, as frustrações pessoais, ou os defeitos do próximo para se lhes atirarem. Num pico de cansaço, veio aos peitos dos pés a tal fraqueza e a discussão acabou a pontapé:

- Só pensas em ser primeiro! Estás com pressa ou comichão nas partes?!! Descansa que não vais morrer hoje!
- Poupadinho, só pensas em dinheiro! Olha que o Caminho não é remunerado! Hás-de morrer rico!

- Ora andas a pisar uvas e a cantar, ora andas a sopas de cavalo cansado e a variar! Ainda te perdes ou te ficas no Caminho!
- Irra que é chato! Que é que te dói agora? Desistir é morrer!
- Cala-te medricas! Vê lá se pisas merda!... Ainda morres de cuidados!
- Estás sempre a armar chinfrim! Arma mas é as velas e deixa de inventar tempestades porque podes morrer em alguma delas!...
- Pendura bolhento e mal cheiroso! Pobre nu! Hás-de morrer calçado com as meias do Pé de Meia!

E esta é apenas uma recolha feita a granel, de cada um, uma amostra, das bocas com que se mimavam entre si os pés juntos pelo destino. Valia que nos pontos de descanso vinha ao cimo a concórdia e o entendimento e os sete somados completavam o uno e indiviso, o indivíduo peregrino.

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Todas as segundas feiras. Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra

sábado, 23 de outubro de 2010

Para matar de vez o Américo Tomás

- Se vocês se portarem mal, ele castiga-vos!
Segundo o meu ângulo de visão a professora apontava para o que estava no lugar de Barrabás. O do meio, nas condições em que estava, seminu e espetado numa cruz, não conseguiria fazer mal a ninguém e o do outro lado, um velho careca, parecia o Popeye, "desmusculado" e inofensivo, em farda número 1.

Dessa visão da parede do quadro nasceu-me uma nova resposta ao "que queres ser quando fores grande?!". Para mal dos meus sonhos fiquei sempre pequeno!..
Veio o mês de Abril e vi que o velho trocou a Armada pelo Exército e começou a usar monóculo porque não via a coisa. Mas, mesmo assim, continuou a ver tão mal que se trocou consigo próprio e, vendo um pouco mais, conseguiu que depois de Abril, viesse Maio e houvesse Verão. Depois mudou de voz e começou a falar pausadamente como se todo o povo andasse na recruta. Depois ganhou bochechas e fez-se vedeta e bonacheirão. Com o andar dos anos o velho passou a andar sempre preocupado e a chorar por tudo e por nada. Por fim, o velho encheu as bochechas de bolo rei e continou a ser Américo apesar de, depois de tantos nomes, responder agora ao nome de Aníbal.

Agora é a minha vez: anti-republicano, anti-militar, boa visão, voz de cotovelo, magro, despreocupado, anti-cavaco e novo e pequenino!
Nunca me chamaram príncipe e eu fui-o! Já me chamaram rei e eu sou-o. Mas para limpar o esterco da pocilga, eu estou disposto a trocar o trono pelo berço dourado de Belém!
Levante-se o primeiro português que, enquanto a professora da primária falava, não pensou em ser Presidente da República! Eu ainda penso!

Não penses mais neles!
Escolhe o menos porco!
Só vota em Pata Negra quem se enxerga!

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O que é um loop?

Trata-se de um termo  informático para definir uma confusão criada e que não possui uma explicação concreta para solução do problema.

Diz-se que um programa "entrou em loop" quando acontece o seguinte:

O director chama a secretária e diz:
-Vanessa, querida, tenho um seminário em Bruxelas  e quero que me acompanhe. Por favor faça os preparativos para a viagem...

A secretária liga para o marido:
- João! Vou viajar para o estrangeiro com o director por uma semana, cuida-te querido!

O João liga para a amante:
- Elvira, filha. A bruxa vai viajar para o estrangeiro por uma semana, vamos estar juntos, minha princesa ...

No momento seguinte, a amante liga para casa de um puto a quem dá explicações de particulares:
- Luizinho, esta semana estou com muito trabalho e não vou poder dar-lhe as explicações....

A criança liga para o seu avô:
- Avozinho, esta semana não tenho explicações, a professora vai estar muito ocupada. Vamos passar a semana juntos?

O avô, (que é o director desta história) chama imediatamente a secretária:
Vanessa - Suspenda a viagem, vou passar a semana com o meu neto que não vejo há muito tempo, por isso não vamos participar no seminário. Cancele por favor a viagem e o hotel.

A secretária liga para o marido:
- Ouve João querido! O idiota do director mudou de ideias e acabou de cancelar a viagem.

O marido liga para a amante:
- Amorzinho, desculpe! Não podemos passar a semana juntinhos! A viagem da bruxa foi cancelada.

A amante liga para o menino a quem dá aulas particulares:
- Luizinho, alteração de planos: afinal esta semana teremos explicações como de costume.

A criança liga ao avô:
Avô! A estúpida da minha professora ligou a dizer-me que afinal terei explicações. Desculpe mas assim não poderemos ficar juntos esta semana.

O avô liga para a secretária:
Bom Vanessa - O meu neto acabou de me ligar a dizer que não vai poder ficar comigo essa semana.
Portanto dê seguimento à viagem para Bruxelas.

Entendeste agora o que é um LOOP ??
(Já conhecias? Então não lêsses!)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Só falta o orçamento do electricista

Os livros, sempre os livros.

Há três dias que não vejo a borboleta.
Receio-a nas mãos de algum general.
Mas houve quem a viu...
Mas houve quem a tocou...

Saberá ela a hora do comboio de regresso?
Sentirá ela saudades do lar?

Há três dias que não toco a borboleta.
Estará ela no monte com as minhas irmãs?
Estará na cidade com o rapaz do citroen?

Há três dias que não a vejo.
Ia à igreja perguntar se Alguém a viu
Mas tenho tanto que estudar!
Ia ao cinema ver se a via.
Mas não tenho dinheiro,
Comprei um sol para a viola.
Há três dias que não a vejo.

Entra-me um ruído pela janela.
Será um avião? Será uma borboleta?

Tocam os sinos.
Será a meia-noite? Será uma borboleta?

Não consigo dormir e tenho ponto amanhã.

(o título do post é só para a fidalguia)
A minha "cônjuga" não acredita que não me lembro das cores das asas da borboleta que deve estar relacionada com alguma paixoneta. Se fosse hoje, tentaria a rima e no lugar do "rapaz do citroen", estaria o "homem da camioneta". Concluindo: não mudei muito!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Sete Pés Oito

Entenderam-se no vinho e isso foi o mais importante.
Entender o francês, Sete Pés foi entendendo, dizer é que não conseguia quase nada. Lá se ia safando! Por exemplo, quando ela lhe disse que era casada, ele, prontamente largou um oportuno “moi non!...”.

Não se pense que o deficiente domínio do francês perturbava a gestação do predador com algum luso-complexo de inferioridade. Bem pelo contrário, à sua frente, à francesa é que faltava formação por não saber patavina da língua portuguesa. Neste assunto de línguas estrangeiras sempre o incomodara observar que muitos portugueses sentiam admiração pelos ingleses pelo facto de estes falarem inglês melhor que eles.

De qualquer forma, era agradável partilhar momentos, com alguém, com obstáculos no canal linguístico, sem intérpretes amadores pelo meio: os longos intervalos de silêncio, a preparação do que se vai dizer, as frases reduzidas ao essencial, o puxar pelas palavras da outra língua da memória, o remedeio com tentativas numa terceira língua, o inventar ou experimentar palavras novas, o recurso ao gesto ou ao objecto próximo, o desenhar na toalha de papel da mesa, o não entender nada, o finalmente perceber e, claro, o riso que o desfecho de algumas situações abria.

Já no albergue percebeu que ela não fazia intenções de caminhar com ele, que partiria, por seu hábito, muito cedo e que, assim sendo, caberia a Sete Pés a responsabilidade da entrega das chaves no local combinado.

Um “bon soir” contra uma “boa noite” e a concordância de deixarem as lâmpadas de vigia acesas formalizaram a despedida. De certeza voltariam a encontrar-se no caminho do dia seguinte, quanto mais não fosse no albergue de Pontevedra.

Sete Pés demorou a adormecer com a tormenta dos seus pés desavindos. Pé de Meia achava que por ser francesa era rica e que, por essa razão, deveria ter pago o jantar. O Pé de Atleta achava que ela podia ter sido cortejada até à cama. O Àgua Pé que a deviam ter embebedado. O Pé-Ante-Pé dizia que, com calma, ela ia lá. O Pé Chato achava-a velha. O Pé de Vento pedia que ouvissem o vento que zunia lá fora e que se calassem para dormir.
Para Pé Descalço, o descalçar das botas, o desenfiar das meias e o passá-las pelo nariz, o desdobrar o corpo sobre a enxerga, constituíam o acto solene do dia, uma espécie de oração da noite à vida. Os pensamentos que se sucediam contra a almofada, a conversa entre pés, o tempero do cansaço, davam um tal conforto que todos acordaram entre si que dormir era das melhores coisas do Caminho.

Da reunião de estado de adormecimento ficou a intenção que, dali para a frente, cada pé cumpriria o seu papel, revezados sucessivamente, de modo a não existirem atropelos de personalidade que denunciassem os sete espíritos e afastassem a hipótese dum possível estado de enamoramento.
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domingo, 17 de outubro de 2010

Desta gente, nem bom governo, nem bom orçamento.

Esta fotografia, retirada do blog "NósTemosVacasNoJardim" ilustra bem o festim com que nos andam a entreter. O malandro não quer assumir que o filho é dele!
É simples, o Passos Coelho disse que "isto" deveria ser feito e Sócrates fez. Tem sido assim ao longo dos anos e foi assim que, habilmente, o PS ocupou por completo o espaço político do PSD.

É impressionante o pensamento único que os une, a leviandade com que colocaram o país nesta situação e o descaramento com que continuam a afirmar que eles é que sabem. É como se o assassino fizesse questão de levar o caixão.

Mas mais trágico do que esta gente nos governar é um povo que sucessivamente desabafa: ou um ou outro não há alternativa; se lá estivessem outros fariam igual; são todos iguais; com o meu voto não contam eles que eu não voto; noutros paises também é assim, isto sempre foi assim...
Pior do que deixar de acreditar nos nossos governantes é deixar de acreditar no nosso povo.
Por este andar, os trabalhadores ainda vão acabar a receber o vencimento em notas de avaliação:
- Quanto é que recebeste o ano passado?
- Um Muito Bom, e tu?
- Um Excelente!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O Sotão é doido

Para que serve afinal um sotão?!... O meu rapaz, desempregado de ofício, tem-me ajudado nas arredações.
- Ó pai, que raio de carta é esta?!
- Já te disse que podes guardar para ti as Gaiolas Abertas, os manuais de guerrilha, os "Chés" e as Playboys mas tudo o que fôr manuscrito é para queimar!
(peço perdão às mentes mais sensíveis mas os sotãos ajudam a revelar quem somos, pelo que fomos, e eu não estou aqui para me esconder)

que o sangue se afogue em touradas de delírio
prefiro o anel do lírio leviano
à raiva ociosa de uma folha de papel.

ó arte louca de sevícias copulações
vende-me a múmia dolorosa do perfume!

pénis belicoso do louco
lança ejaculações de vingança
sobre a trança escabiosa do lume do passado
pranta-te à terra e ao pranto da discórdia do costume
abraça o canto prásino da harpa antiga
"porque o meu filho estava perdido
e voltou à vida".

Talvez estivesse nos meus dezasseis anos. Não faço ideia do que pretendia, de onde vinha ou onde queria chegar com isto! Tenho a certeza que para o escrever fui pescar uns termos ao dicionário! Eu não era rapaz para tamanho vocabulário! Aliás, tanto o não era que o não sou e mais certo fico porque, sabendo que a memória não apaga o significado das palavras, acabo de recorrer ao dicionário - Porto Editora - para interpretar aquilo que eu próprio, púbere, escrevi:
- escabiosa, adj, cheia de erupções semelhantes à sarna.
- prásino, adj,  de cor verde
- pénis, s.m., orgão copulador.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O homem do pladur ou o Outono

(O homem do pladur veio tirar as medidas para as obras que andamos a fazer no sotão e agarrou um papel que encontrou dobrado no chão:
- Olhe lá isto! Pode ser alguma coisa importante!...
Peguei no manuscrito e li-lho:  )

OUTONO
-E agora?! Se o concerto acabou, para onde vamos?!

as árvores despem-se para o banho
a paisagem e o tempo vestem o homem
as primeiras chuvas são o leite materno
o rio irrequieto revela sintomas de primeira gripe
de nada serve arranjar lenha no verão
de nada serve arranjar água no inverno
tantas vidas
tantos anos
tantos outonos
um filho em cada estação
todos os anos escrevo pelo outono

- Para onde vamos?! Comprei um disco de que vais gostar!
1979

(O homem do pladur camuflou um encolher de ombros e tentou disfarçar um ar de compaixão. Li-lhe o pensamento: "será que este velho maluco terá dinheiro para me pagar o serviço?")

Outros outonos: 1980, 1982, 19831988,

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Sete Pés Sete


Tal como em Tuy, existiam duas camaratas mas com uma passagem larga e sem portadas de uma para a outra, junto ao balneário. Entre afazeres logísticos, camas, banhos e passadas, Marie e Sete Pés reavistavam-se de vez em quando, podiam ver-se compelidos a uma troca de sorriso mas a timidez natural de solitários, a barreira da língua ou o simples desinteresse não proporcionavam aproximação. Antes de saírem para procurar alimento, ambos precisaram de se estender na cama para aliviar o cansaço. Sete Pés topou que ela escrevia um diário e pôs-se a pensar nela e a alimentar suposições:
- Quem seria, do onde viria, porque estava ali?... Por acaso registaria no seu diário alguma coisa acerca do seu companheiro de viagem? Que mundo, que pessoas teria deixado para estar ali?… Por certo não faria a si mesma perguntas destas e ele não passaria, para ela, de um peão que só não se ignora completamente porque se nos atravessa no caminho.

Por pensar nisso, alguém teria dado pela falta do Filho da Puta na aldeia? Julgá-lo-iam migrado, emigrado ou morto? Perderiam tempo com o seu súbito desaparecimento após a morte da mãe? Teriam comunicado à polícia? Nem sequer ao taberneiro tinha anunciado a sua partida!...

Não sabia nada da francesa que observava discretamente entre beliches. De si próprio sabia alguma coisa: que tinha séptula personalidade, que vinha da terra que o ignorava, que estava ali para realizar Caminho.
Talvez o Caminho levasse a uma amizade!... Ao menos que ela lhe pudesse dar uma olhadela nas bolhas dos pés!...

Sentiu os passos leves aproximarem-se da sua cama e percebeu, com dificuldade, que estava aberta a possibilidade de irem jantar juntos. Sete Pés apontou a sua ida aos lavabos e, quando regressou, já não a viu. Desceu as escadas e encontrou-a a mirar a exposição do hall do edifício. Entre as parcas palavras possíveis, fecharam a porta, indagaram entre si a guarda da chave e, pelas ruas afestoadas, procuraram um dos restaurantes que as senhoras do albergue lhes haviam sugerido.

Sentaram-se como um par, comeram como um par. Só na escolha da comida é que foi difícil fazerem par, ou não fosse difícil a qualquer estrangeiro fazer escolha do prato em terra alheia. Entenderam-se no vinho e isso foi o mais importante. Sete Pés conseguiu desenterrar um pouco do seu francês de escola e entender que era bombeira reformada, que era duma vila dos Alpes franceses, Chamonix, que praticava alpinismo, que não partira de Valença mas de Fátima, que já fizera o Caminho Francês também sozinha, que as suas botas já tinham cinco mil quilómetros, que não tinha filhos e que o marido passava o tempo a ver futebol na televisão, facto que a chateava e, por isso, ela saía a dar estas voltitas a pé.

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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Inesperada e surpreendente

Depois da inesperada e surpreendente candidatura de Manuel Alegre e do inesperado e supreendente apoio de gente do PS;
Depois de inesperada e surpreendentemente Mário Soares, só para chatear o velho amigo, ter criado a candidatura de Fernando Nobre com o inesperado e surprendente apoio  de gente do PS;
Depois da inesperada e surpreendente candidatura de Defensor de Moura e do inesperado e surprendente apoio de gente do PS;
Depois da inesperada e surpreendente candidatura de Francisco Lopes e do inesperado e surpreendente apoio do PCP;
Só falta mesmo a inesperada e surpreendente candidatura de Cavaco Silva com o inesperado e surpreendente apoio de toda a direita, incluindo o Mário Soares e outra gente do PS .

Pata Negra, o candidato que o povo espera! O candidato que não é apoiado por ninguém do PS!
Faz-lhes uma surpresa: Vota Pata Negra!

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Feios, porcos e maus...


Compram aos catorze a primeira gravata
com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas da limpeza após o combate.

São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem pelo faro
o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.

Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos - tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza acima de tudo.

A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.

No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.

José Miguel Silva
Movimentos no Escuro, Relógio d'Água, Lisboa, 2005.
(Via Recalcitrante)

Quem não conhecer um que me atire a primeira pedra!







terça-feira, 5 de outubro de 2010

5 de Outubro?! Isso não é o nome de uma rua de Lisboa?!

Nunca trabalhei no dia 5 de Outubro. Nunca festejei o 5 de Outubro. A rainha, que manda na república cá da casa, fez hoje anos e hoje houve festa cá à volta. Nestas circunstâncias e como futuro Rei da República não discurso mas já exijo:
1- Que Dom Duarte de Bragança se candidate à presidência;
2- Que Mário Soares não volte a dizer que é republicano e socialista;
3- Que o Senhor José Pinto de Sousa deixe de se armar em monarca absoluto;
4- Que o ministério da rua 5 de Outubro passe para a ponte 25 de Abril;
5- Que o blog Rei dos Leittões passe a chamar-se República dos Leittões.
Caso estes pontos não se cumpram entrementes e eu ganhe, como espero, as eleições, no acto de posse demitir-me-ei!
- Abaixo o Rei! Viva o Rei! Abaixo a República! Viva a República! E em qualquer dos casos, Duarte, Mário, José, Educação: Fora daqui! Tomem o próximo avião! Tomás! Brasil! Caetano! Convosco este território nunca será nem reino, nem república, será a vossa coutada!...Comigo será o campo farto de bolotas! E paro por aqui porque, com a festa, está-me a apetecer acabar de vez com a educação: José Mário Duarte, tu és um grande ca, ca, ca, ca, ca!...
Maldita gagez!... Nunca irei trabalhar enquanto não me tirarem o feriado, já faltou mais....Ainda não estou doido! Já faltou mais! Estou há cem anos a dizer a mesma coisa! Ninguém me ouve! Tudo na mesma!...
A rainha fez hoje anos e amanhã iremos viajar no mesmo avião em que viajámos há cem anos!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Sete Pés Seis

Uns tremoços?! Não! Uma refeição num restaurante de estrada perto de Porriño.. Chegados à cidade averiguaram que, contrariamente ao esperado, não havia albergue. Até Redondela ainda era uma distância do caraças, trinta e oito quilómetros para um primeiro dia era obra! A mochila já pesava muito mais do que inicialmente. Discutiram. Nem será preciso revelar os pés que queriam pernoita por ali e os que votavam pela segunda etapa. Carimbou-se a credencial na Casa Consistorial de Porriño e “à Caminho para que te quero!”

O traçado começava a oferecer ambiente para receber a energia do Caminho, para pensar na existência, no além, para olhar as coisas e os seres, para sentir o corpo, a força, a dor, para caminhar, cheirar a Galiza e até o odor de Marie France que de certeza por ali teria passado há algumas horas. Dito de outra forma, a Galiza deixava-se comer.

O pior foi quando a montanha se apresentou aos pés do rio, primeiro a aldeia com a rua íngreme, depois subir, subir, depois o planalto e lá em baixo as rias e Redondela, descer a custar tanto como subir, o fim da tarde a anunciar o anoitecer e todos os pés a rebentar pelas costuras.
O melhor foram as sandes de "xamón" e o vinho galego, o chegar e o saber que existia outro ser solitário pelo caminho.

Albergue de Redondela - fonte da foto

A chegada a Redondela aconteceu era já noite. O cansaço era já tanto que todos os Pés se ignoravam entre si, descomandados. A cidade festejava o Sábado de Aleluia. O abrigo para peregrinos ficava no centro, num edifício histórico recuperado para o efeito. Sentada no chão, à porta e com a mochila ao lado, com o perfil definido pela luz amarela da iluminação pública, uma mulher dos seus sessenta anos, cabelo curto e encanecido, estatura mediana, corpo consistente e atlético, roupagem de caminhante experiente, boca de crustáceo, sorriso sólido, bochecha rósea, claro: Marie France.

Já estava ali há horas, já alguém responsável por ali tinha passado - foram buscar as chaves. Três senhoras de fato festivo e bem parecidas apareceram na esquina, apresentaram com excepcional simpatia as instalações quase a estrear, falaram da festa, de onde se comia bem e entregaram as chaves bem como a indicação de onde, no dia seguinte, as deveriam deixar.  
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E dito isto, nisto, neste cenário, nesta circunstância, os sete pés, cada um deles, olharam-se a si próprios do artelho ao fim das unhas e pensaram, cada um deles, para si próprios, que a história deste dia sabia a pouco... assim, como os tremoços, tantas cascas e a fome sempre viva, por matar...
Isto é já só o narrador a justificar a falta de enredo... a falta de tremoços... a falta de cerveja... pois... escrevendo melhor: Até para a semana! Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra

sábado, 2 de outubro de 2010

A receita de mixórdia

Bem avisavam o velho para abandonar aquela velha receita de mixórdia que, em vez de o curar, lhe agravava a doença. O velho teimoso culpava os ventos e os ares e só dava ouvidos a curandeiros e feiticeiros. Ninguém o conseguiu convencer que o seu mal tinha origem no próprio remédio, pelo que acabou mal.

Toda a gente sabe que não vai resultar, o povo continuará com o futuro sempre adiado enquanto alguns continuarão a dançar a ronda no pinhal do rei.
Os prestigiados economistas e ex-ministros das finanças dirão que não resultou porque já foi tarde ou porque foi pouco, Sócrates dirá como sempre “é a crise” e Miguel Sousa Tavares dirá que a culpa é dos professores e todos eles continuarão a viver bem.

Entretanto, o verdadeiro governo continuará a ser de mercadores de capa negra enquanto ministros fantoches encenam, a seu mando, números e mais números. Puta que os pariu!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A Caminho de Belém

Eles fecham tudo o que é serviço público na província. E fazem-no com tal descaramento que garantem aos microfones que com o fecho desses serviços as populações ficam melhor servidas.
Dizem que os serviços fecham porque não têm condições e que nas capitais têm serviços de excelência. E dizem-no com tal descaramento que afirmam aos microfones que com o fecho desses serviços estão a combater a desertificação do interior.
Qualquer dia ainda acabam a deportar as populações para as cidades em nome da conservação da natureza e do combate à desertificação.

Pois o candidato Pata Negra pretende fomentar a deslocação das famílias das capitais para a província e, como o que está a dar é fechar, propõe o fecho imediato:
1- De todos os centros comerciais com mais que 1 dono.
2- De todos os quartéis com mais de 2 coronéis.
3- De todas as esquadras com mais de 10 polícias
4- De todos os parques com mais de 20 automóveis
5- De todos os hospitais com mais de 100 doentes.
6- De todas as escolas com mais de 200 alunos.
7- De todos as repartições com mais de 1000 clientes.
8- De todas as igrejas com mais 2000 fiéis.
9- De todos as freguesias com muitos eleitores.
10- De todas as sedes do PS que são bordéis.

A Presidência da República manter-se-á em Belém
Mas a coroa irá para Vila do Rei
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terça-feira, 28 de setembro de 2010

28 Setembro de 1974

Há quem diga que o 28 de Setembro de 74 não existiu. Há sempre quem responda com a piada primária de “claro que existiu, não houve foi 31!”

Eu era ainda muito novo e ficou-me dessa data a circunstância do nascimento dum irmão. A Ti Luísa, parteira lá da aldeia, perdera com a idade o necessário desembaraço da sua arte e, vai daí, o meu pai pediu emprestado um Fiat 600 - ou Fiat Uno, não vem ao caso - para a luz se fazer na maternidade da cidade. Só que à entrada da ponte de Santa Clara – nessa altura ainda não havia a Vasco da Gama – uma barricada do Movimento das Forças Armadas - ou de outras forças não vem ao caso - travou a marcha urgente e impediu a partida porque o proprietário do veículo tinha a bagageira equipada com uma catana belicosa. Vieram à minha mãe as dores mais fortes, julgaram que era manha e, se não chamam o alferes, o rapaz teria nascido ali no meio da operação revolucionária.
É por esta história de família que guardo o testemunho de que alguma coisa houve naquele dia.

Volvidos estes anos estou já um pouco cansado, como aliás já devem ter reparado numa ideia ou outra deste texto, mas mantenho esta vontade acesa de recordar tempos revolucionários para deixar aos novos a esperança de novas revoluções que hão-de fazer girar a história.
- Se bem me lembro o 28 de Setembro foi há 36 anos e nessa data nasceu um irmão meu. Não sei se o mais novo se o mais velho de cinco que somos. Gaita, agora é que foi! Não sei a qual deles eu devo telefonar para dar os parabéns…36 anos…eu tenho… hei-de lá chegar, não vou cometer a indelicadeza de me enganar!...