Subiram ambos ao quarto, largou cada um a sua mochila em sua cama, foi cada um, na sua vez, cuidar do seu banho. Já cuidados de água, inspeccionaram mutuamente o estado dos quatro pés e compararam a bolsa de fármacos de cada um. Estando nos assuntos dos corpos, haveria de chegar a vez das queixas musculares, das pomadas e das massagens e aí, o inevitável aconteceu.
(Há muito tempo que milhares de leitores esperavam este pé da história, muitos a abandonaram pela demora do acontecimento, outros a abandonarão por ela ter acontecido. Receio não ter traquejo para satisfazer as expectativas, esta história é apenas um exercício. O acto de amor a dois, a três, a sete ou a oito é íntimo e não deve ser relatado nem espreitado, a cada um a sua cama.
- Desculpem lá a interferência do narrador mas deu-me para isto! Vamos mas é ao acto!…Mas de pano fechado! )
Nem diferença de idades, nem ela ser casada, nem ele ser filho de quem fora! Nada, mesmo nada, poderia obrigar a pensar duas vezes. Quando não se bebe a água cristalina duma fonte que aparece no caminho, não é porque o caminhante não tenha sede, é porque não saboreia a vida.
Para que o amor exista tem de ser feito! Até à hora de jantar não se fez outra coisa! Para que tudo acontecesse naturalmente, como fazem todos os amantes que pela primeira vez se encontram, só um pé teve direito ao fruto – o mais desejoso, o mais forte, o mais atleta. Todos os pés aceitaram que Pé de Atleta, pela sua condição e pelas vontades que vinha manifestando, estaria em condições superiores de abrir caminho para que a todos calhasse a sua vez lá mais para a frente. Conformaram-se no papel de iluminar de velas a cena mas todos eles a roçar os lábios de satisfação. Água Pé até inclinava a vela para que a cera caísse no rabo do Atleta, obrigando-o, desta forma, a melhorar o passo.
Quando desceram Marie sugeriu que o seu rapaz se sentasse nos sofás da recepção e foi ao balcão fazer um telefonema para o marido. Nenhum dos Pés conseguiu perceber alguma coisa do que ela dizia mas não lhes era difícil adivinhar o teor da conversa.
- De certeza que não lhe daria notícias de um jovem com quem acabara de ter uma experiência inesquecível!
Não tirava os olhos dela como se temesse que a poderia perder agora mesmo, acometida por um impulso de arrependimento e fidelidade ou que se sumisse, puxada pelo marido, pelos cabos de comunicações, para França. Tão raros eram os casos de mulheres na sua vida e este, mais do que os outros, tinha contornos para ser mais efémero. A noite ainda era uma criança. Quem sabe se com o apertar de mãos, laços e beijos, não estaria ali, nas formas que nunca idealizara, a relação que sempre sonhou encontrar: alguém que lhe abrisse os olhos, a boca, o coração e as pernas.
A refeição foi no restaurante do hostal e foi farta de marisco grelhado e vinho branco, tudo a apontar na conta da estadia. No final deram uma volta pela noite da pequena cidade animada pela Páscoa. Chegaram até a caminhar de mãos dadas e divertiram-se a molhar os pés na água quente da fonte termal que está na base da origem do nome Caldas.
Quando regressaram ao quarto voltaram a entregar-se um ao outro – só o Pé Chato e o Pé Ante Pé não participaram - até o sono os separar já noite avançada.
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Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra
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