segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Sete Pés Catorze ou Quatorze


Subiram ambos ao quarto, largou cada um a sua mochila em sua cama, foi cada um, na sua vez, cuidar do seu banho. Já cuidados de água, inspeccionaram mutuamente o estado dos quatro pés e compararam a bolsa de fármacos de cada um. Estando nos assuntos dos corpos, haveria de chegar a vez das queixas musculares, das pomadas e das massagens e aí, o inevitável aconteceu.

(Há muito tempo que milhares de leitores esperavam este pé da história, muitos a abandonaram pela demora do acontecimento, outros a abandonarão por ela ter acontecido. Receio não ter traquejo para satisfazer as expectativas, esta história é apenas um exercício. O acto de amor a dois, a três, a sete ou a oito é íntimo e não deve ser relatado nem espreitado, a cada um a sua cama. 
- Desculpem lá a interferência do narrador mas deu-me para isto!  Vamos mas é ao acto!…Mas de pano fechado! )

Nem diferença de idades, nem ela ser casada, nem ele ser filho de quem fora! Nada, mesmo nada, poderia obrigar a pensar duas vezes. Quando não se bebe a água cristalina duma fonte que aparece no caminho, não é porque o caminhante não tenha sede, é porque não saboreia a vida.

Para que o amor exista tem de ser feito! Até à hora de jantar não se fez outra coisa! Para que tudo acontecesse naturalmente, como fazem todos os amantes que pela primeira vez se encontram, só um pé teve direito ao fruto – o mais desejoso, o mais forte, o mais atleta. Todos os pés aceitaram que Pé de Atleta, pela sua condição e pelas vontades que vinha manifestando, estaria em condições superiores de abrir caminho para que a todos calhasse a sua vez lá mais para a frente. Conformaram-se no papel de iluminar de velas a cena mas todos eles a roçar os lábios de satisfação. Água Pé até inclinava a vela para que a cera caísse no rabo do Atleta, obrigando-o, desta forma, a melhorar o passo.

Quando desceram Marie sugeriu que o seu rapaz se sentasse nos sofás da recepção e foi ao balcão fazer um telefonema para o marido. Nenhum dos Pés conseguiu perceber alguma coisa do que ela dizia mas não lhes era difícil adivinhar o teor da conversa.
- De certeza que não lhe daria notícias de um jovem com quem acabara de ter uma experiência inesquecível!

Não tirava os olhos dela como se temesse que a poderia perder agora mesmo, acometida por um impulso de arrependimento e fidelidade ou que se sumisse, puxada pelo marido, pelos cabos de comunicações, para França. Tão raros eram os casos de mulheres na sua vida e este, mais do que os outros, tinha contornos para ser mais efémero. A noite ainda era uma criança. Quem sabe se com o apertar de mãos, laços e beijos, não estaria ali, nas formas que nunca idealizara, a relação que sempre sonhou encontrar: alguém que lhe abrisse os olhos, a boca, o coração e as pernas.

A refeição foi no restaurante do hostal e foi farta de marisco grelhado e vinho branco, tudo a apontar na conta da estadia. No final deram uma volta pela noite da pequena cidade animada pela Páscoa. Chegaram até a caminhar de mãos dadas e divertiram-se a molhar os pés na água quente da fonte termal que está na base da origem do nome Caldas.

Quando regressaram ao quarto voltaram a entregar-se um ao outro – só o Pé Chato e o Pé Ante Pé não participaram - até o sono os separar já noite avançada.
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Todas as segundas feiras.
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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Porque há quem julgue que aquilo que teimam tirar-nos caiu do céu

Companheiro
quando voltarmos a ser a razão dos que nos mandam
não te esqueças de recordar que subiste comigo a avenida
sob o olhar atento daqueles que nos ignoravam
e de alma erguida

Camarada
quando a guerra voltar a ser ganha pela razão
não te esqueças do tempo que passámos entrincheirados
sob o avançar cobarde dos mais fortes
e levantados

Irmão
quando recordarmos de novo a lição de história
não esqueceremos os mares outrora navegados
e que os olhos do avô eram verdes
mesmo fechados

Amor
quando as coisas voltarem a melhorar
não te esqueças da foto que temos da manifestação
com o olhar de meter inveja aos que a não viram
nem ao coração

Filho
quando chegar a tua vez
não esquecerás honrar quem te ensinou a luta
de perseguidos, presos, assassinados
por tanto filho da puta

Ontem, só fiz greve!

NOTÍCIA DO DIA: Causa da crise é fosso entre ricos e pobres - FMI
Mas o quê?! O FMI prima pela distribuição da riqueza entre ricos e pobres?! Então que venha o FMI dos bosques! Alguma coisa me há-de calhar a mim!
- Não! O FMI está com falinhas mansas para poder vir dar um ar da sua graça! Ou então há mesmo milagres!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Diário de um Dia de Greve


Ergui-me à mesma hora dos outros dias! Não tomei banho nem fiz a barba para acrescentar gestos de protesto. Liguei o computador. Com os olhos enlameados da noite curta, fiz a espiral dos blogs costumeiros e, antes de sair dela, fechei-a ao centro. Confirmei com agrado que muitos deles estavam com a greve.

Ao pequeno-almoço, liguei a televisão: os números, sempre os números! Perguntei-me: 
- Se as adesões são sempre pouco significativas por que raio se anda sempre com a guerra dos serviços mínimos?!
E o arcebispo de Braga e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa:
"é um direito que assiste aos trabalhadores e é uma oportunidade que os portugueses têm de manifestar a sua insatisfação... um dia de greve é muito pouco. O povo português terá que se habituar a uma Democracia mais participada e mais responsável e manifestar-se não apenas nesta conjuntura mas também diante de determinadas leis que são prejudiciais para a sociedade... é hora de todos darem as mãos e do povo português não se contentar com o dia do voto. O povo terá que estar alerta e, porventura, ter uma participação mais crítica."
Decidi não ir ao café, ir-me-iam perguntar porque não fui trabalhar, porque é que era esta greve, eu iria num sorriso feito ao momento hesitar um pensamento – ainda perguntas?! – e sairia sem responder com uns bons dias de homem de boa educação!

Telefonei para o serviço. Abriu. Nem 50%!  Fui ver. Via-se bem: havia greve. Nos que furaram a greve havia vergonha e fingimento. Era um dia completamente diferente dos outros dias, era dia de greve.

Não é todos os dias nem por qualquer motivo que há uma Greve Geral – desde o 25 de Abril é a sexta e de certeza a maior.

Por tudo isto, almocei e bebi regaladamente. Não vi mais notícias e passei o resto da tarde a pensar. Que  força a desta gente que abdica de um dia do seu salário como forma de se exprimir num gesto tão simples! Que postura a daqueles que passam os dias a barafustar e não têm a pequeníssima coragem de sinalizar o seu descontentamento! Que descaramento o dos que dizem que dizem que agora é assim e ainda terá de ser pior! Que hipocrisia falar no direito à greve e nunca reconhecer o direito de a fazer! 
Pelas 16 horas bebi uma cerveja, voltei à blogosfera, bebi outra cerveja, voltei à blogosfera e estou aqui – já jantado claro - sem ter ligado à televisão, à rádio, borrifando-me para notícias da greve e de outras coisas, com a consciência do dever cumprido, consciente de ter contribuído para um futuro melhor, para uma data de registo e porque é meia-noite contente por ser Rei dos Leittões e ir colocar já este desajeitado texto algures num servidor como eu!

Não vai haver mais nenhuma greve como esta! Ninguém viveu este dia como eu!
Orgulhosamente: EU FIZ GREVE

ÚLTIMA HORA: "Governo diz que Portugal não parou"
- Pois não! Fez greve! Reclama um governo com visão!

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto

Vai começar  esta noite à meia-noite em ponto
numa fábrica, num comboio, numa estrada
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
numa escola, num hospital, num vão de escada
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
numa  empresa que vai ser encerrada
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
num país  de lama, circo e corrupção
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
para termos amanhã o futuro que se exige
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
tem na raiz a razão de dizer não
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
vê-la-emos depois reduzida a números
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um catrefa de jornalistas ao vento
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
para pedirmos contas ao nosso tempo

(adaptado de Litania para o Natal de 1967, David Mourão-Ferreira)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Sete Pés Treze

Marie regressou e voltou a dizer, agora apenas com um movimento de inclinação de cabeça: - Allons y?!
Puseram as mochilas às costas e deram-se ao passo sem falar. Sete Pés continuou a pensar de coisas banais. A natureza da relação com a sua companheira de Caminho era enriquecida pelo facto da barreira linguística não permitir a banalização da palavra.
Uma Igreja. Marie tira uma fotografia ao pórtico. Sete Pés, fazendo a ponte com os pensamentos das imagens, pensa nas palavras que tornaram banais, inconsequentes e sedativas as homílias dos padres seculares.
À saída da cidade, numa rotunda, sinais de trânsito, painéis publicitários. A poluição visual! Palavras gráficas?! Oh! Imagens gráficas!! É demais! No Caminho devemos libertar-nos dessas coisas!

Atravessada a Ponte del Burgo sobre o rio Lerez, Pé Chato começou a repetir aos seus íntimos que não teriam pés para acompanhar a experiente caminheira, levando sempre ricochete do Pé de Atleta que reafirmava a sua determinação para acertar o passo na dura prova que os esperava até Caldas de Reis. Numa coisa todos os pés estariam de acordo: “como seria bom cumprirem aquela etapa com aquela companhia!”.

O discurso continuou escasso, talvez por conveniência, diferença de língua ou simplesmente porque nenhum de ambos era de feitio de se dar à banalização das palavras. Almoçaram juntos a omnipresente sandes de xamón mas, durante a tarde, os ritmos de andamento, o aparente, conveniente ou natural desprendimento entre ambos, a independência ou os diferentes modos de construir o Caminho separaram-nos. Ou então aceite-se que, por vezes, os chatos têm razão!

Sete Pés atravessou a ponte sobre o rio Umia que marca a entrada em Caldas de Reis – a antiga Aquae Celenae, um balneário romano de águas termais afamadas - com os sete pés zaragateando nas habituais discussões, desoxigenados, fora de si, obcecados pelo fim da etapa, por um assento de paragem.

Questionando a realidade ou a alucinação, avistaram na margem do outro lado, no rés-do-chão dos prédios de quarto andar, uma enorme esplanada com gente a chupar sorvetes, a sorver bivalves e a bebericar cervejas. Nas margens do quadro, uma mulher só, numa mesa de duas cadeiras e com a mochila ao lado. Era esse o destino. A cada passo exausto, a realidade vencia a alucinação.

- Olá!
- Oito cervejas!
Pediu a francesa como se já tivesse pressentido a multiplicidade do esperado Sete Pés. Ajeitaram explicações para o caminho do dia, para o desencontro e para o encontro e bebeu-se até o prazer de beber por sede dar lugar ao prazer de beber por prazer.

Marie já tinha investigado que naquela terra não havia albergue e que teriam de procurar um hostal. O “teriam”, dito na forma “teremos”, primeira pessoa do plural, embebedou Água Pé de autoestima e satisfação. A foto dos dois em Pontevedra não seria a última, “habemos” par!
Tanto assim foi que na recepção do hostal Cruceiro, o funcionário os entendeu como um casal e assim fez preço e, entre os dois companheiros, não houve hesitações ou indagar de expressões à circunstância de uma única chave lhes ter sido entregue.
Recepção Hostal Cruceiro
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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O banquete dos natos

Só para dizer:
- Repito!

Comam-me! Morrerão de danos colesterais!
Vossas excelências não conhecem martelo-o-polidor?!

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Dias de nato e de greve

...“O que é preciso é criar desassossego. Quando começamos a criar alibís para justificar o nosso conformismo, então está tudo lixado! (...) Acho que, acima de tudo, é preciso agitar, não ficar parado, ter coragem, quer se trate de música ou de política. E nós, neste país, somos tão pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reduzidos à condição de “homenzinhos” e “mulherzinhas”. Temos é que ser gente, pá!”...

José Afonso
Entrevista realizada por Viriato Teles, In: Jornal Se7e, 27/Novembro/85


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Greve Geral na Blogosfera

No dia 24 de Novembro para além de não ir trabalhar não vou ao mercado nem ao supermercado, não vou abastecer o carro nem vou ao café, não vou plantar couves nem passear o cão.
Irei descobrir para cada passo, um pequeno gesto que contribua para o impacto da GREVE.
Durante todo o dia o blogue Rei dos Leittões apresentará o selo da imagem. Proponho que outros bloguers façam o mesmo e mobilizem outros. A blogosfera também vai parar. Faltam oito dias! Mãos à greve!
Viva a Greve Geral! Viva Portugal! 
O Post da Greve

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Sete Pés Doze

Despediram-se na meia-luz do dormitório. Ao lado, por cima e por baixo, de todos os beliches havia gente feia, talvez da penumbra, a remexer roupas, mantas e sacos de plástico. Pela cara, o que ia dormir na cama de cima devia ser o padre!... Ou a criada!
Porque não era mal-educado não se fez rogado com os seus compatriotas e acedeu a curtas e espaçadas palavras de coisas sem interesse. Já deitado e pronto para o descanso não o revoltou o facto de ter de gramar com uma dezena de orações porque acabara de receber a informação que há dois anos fizeram Tui-Porriño, o ano passado fizeram Porriño-Redondela e este ano foi a vez de fazerem Redondela-Pontevedra.

Na manhã seguinte era absolutamente necessário levantar âncora antes que aquela gente acordasse e, quem sabe, o destino não unisse os Sete Pés na partida com aquela que por aqui se fala. E assim foi, com a noite mal dormida pelo incómodo dos sonos da malta da paróquia portuguesa, levantou-se e sossegou com o facto de notar ainda os haveres de Marie lá ao fundo. Com o corpo e a tralha preparada saiu do albergue e postou-se no jardim junto à estátua do peregrino. Ao fim de um longo quarto de hora seguiu os primeiros passos da Marie a partir. Esta não se mostrou surpreendida pela sua espera e os seus bons dias e o seu aval à muda proposta de pedido de companhia estavam incluídos na primeira frase da manhã:
- Allons y?!

Com passos mudos, percorreram as ruas até ao centro da cidade. Chegados à incontornável Praça de Ferrería, tomaram o pequeno-almoço no primeiro café que encontraram aberto, deram uma volta ao Santuário da Virgem Peregrina e à Praça da Estrella onde Marie pediu a um transeunte que lhes tirasse uma foto juntos.
Água Pé ficou registado com uma expressão comovida: nunca tinha saboreado a experiência de alguém ter requerido uma fotografia na sua companhia.

Aliás, na pequena casa em que a mãe o resguardara do relento não existiam fotografias com o menino em pelota, do casório dos pais – pai incógnito não deixa registo – dos tios, dos primos, dos antepassados ou do grupo do curso de costura. Apenas uma moldura com o avô materno, algures no Brasil de onde nunca mais regressara. Quando a mãe morreu, na volta que deu pelas gavetas, Sete Pés deitou para o lixo uma em que a mãe estava numa festa fina, acompanhada por um desconhecido para o qual, provavelmente fizera serviço de acompanhante.

Pelo contrário, na casa dos Alpes de Marie, deveria existir uma galeria de fotos de recordações de família, do tetra-avô ao bebé da era digital que ainda está no ventre e já é ecografado.
Percebe-se, portanto, que para Sete Pés fosse novidade o fazer de fotografo de Marie pousando junto à estátua do albergue e que lhe desse arrepio ser fotografado ao lado dela na Praça Principal de Pontevedra.

Marie disse que ia fazer não sei o quê, talvez necessidades, e os Pés ficaram sentados num banco da praça a fazer a guarda das mochilas e a pensar acerca do registo das imagens, do tirar fotografias do Caminho, da banalização da imagem, dos casamentos em que até os noivos andam a filmar. O acto de registar momentos em máquinas cria ruído na vivência dos momentos e a artificialidade do registo trai a realidade. Mais do que a imagem, vale o olhar!...
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Todas as segundas feiras.
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sábado, 13 de novembro de 2010

Espero por Esperança


a esfera em torno de si mesma me ensina
a espera
a espera me ensina
a esperança
a esperança me ensina
uma nova espera
a nova espera me ensina de novo
a esperança na esfera
a esfera em torno de si mesma me ensina
a espera
a espera me ensina
a esperança
a esperança me ensina uma nova espera
a nova espera me ensina uma nova esperança
na esfera
a esfera em torno de si mesma me ensina
a espera
a espera me ensina
a esperança
a esperança me ensina uma nova espera
a nova espera me ensina
uma nova esperança
na esfera


Cassiano Ricardo

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Escuta Zé Povinho

Dum porco que escreve como um cão: ão.

Escuta Zé Povão
É tua a culpa do estado em que as coisas estão
Calaste 50 anos de opressão
Deste os teus filhos para guerras sem razão
Emigraste por te tirarem o pão

Tiveste medo da revolução
Foste no engodo da Europa em construção
Amotinaste-te pelo dinheiro da integração
Aceitaste abandonar a produção
Confundiste aprender com horas de formação
Quiseste ser alemão
Adormeceste com os senhores da televisão
Encantaste-te por uma moeda sem inflação
Confundiste democracia com eleição
Votaste no mais espertalhão

Não culpes o Cavaco, o Soares, o Sócrates e o Durão
Não dês o teu consentimento pela abstenção
Porque o mal que eles fazem tem o aval da tua resignação
Faz ao menos o pequeno grande gesto com o braço e com a mão
Greve Geral – manguito ou não?!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

NATO ou FMI, eis a questão!

Ah!Ah!Ah! Uma poderosíssima organização militar precisa da protecção da PSP!
A PSP precisa de blindados para se proteger de não sei quê!
Eu, que tenho medo de blindados, também gostava que a PSP me protegesse a mim!

Vão estar uns homens velhos fechados dentro de uma sala:
Vão inventar argumentos para renovarem o pacto de dominar o mundo.
Vão estar uns homens novos numa rua ao ar livre:
Vão manifestar-se por um mundo sem NATO.

A NATO nasceu para responder ao PACTO.
O PACTO nasceu para responder à NATO.
O PACTO morreu, a NATO cresceu.

A NATO é a mais forte, a mais poderosa das organizações.
A NATO nasce no Oeste, cresce no Norte e faz morte a Este.
A NATO mata por paz nas montanhas do Afeganistão.
A NATO defende a paz e decide matar no Parque da Nações.

Vai haver uma manifestação mas, de facto, a maioria das pessoas só não irá à praia porque estará mau tempo. E por falar em praia: o que tem o oceano Atlântico a ver com isto?
Receio que a PSP não perceba nada disto!
A mim bastava-me perceber se a NATO é a mesma coisa que a OTAN!
Ah!Ah!Ah! Uma poderosíssima organização militar precisa da protecção da PSP!

(Lembrei-me agora do título do texto, perdi-me no post! A minha questão inicial era:
- Quem é que afinal vem a Portugal? É a NATO ou é o FMI?
Isto é um truque novo que eu tenho, se os textos forem incoerentes ninguém me plagia)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Sete Pés Onze


Esperaria que se vestisse e aguardaria por ele lendo literatura na sala de convívio. Já averiguara a existência dum centro comercial, numa estação ferroviária, ali perto, onde teria de existir um lugar para jantarem - o centro da cidade ainda era longe.


De saída para o jantar, no jardim do albergue, Marie passou a máquina a Pé de Atleta e solicitou-lhe que lhe tirasse uma foto junto à estátua que representa um peregrino de tempos idos, com uma malga de sopa na mão, em posição mendicante, dirigindo-se a uma mulher piedosa. Enquanto a modelo tomava expressão e posição, Pé Ante Pé pensou nas diferentes eras e nos caminhantes de cada uma delas. Perguntou aos seus pares: seremos nós ainda peregrinos?!
Quando foi reconhecida a ordem de clicar, a resposta surgiu em coro com o flash:
- Somos turistas à procura do destino.
Fraco!... - pensou Pé Chato - Fraco pensamento!... E a foto?! - viu no visor – Fraca!... Pediu por isso nova pose. Enquanto Pé de Atleta procurava novo enquadramento viu Marie a ensaiar papéis com as figuras da estátua, viu Marie servindo sopa, viu Marie pedindo a sopa, viu-se no lugar do peregrino estátua, viu-as naturalmente nuas e sedutoras, viu ambas chamando por ele para que se aproximasse como se estivessem num leito. Acordou das visões quando Marie se aproximou para ver as provas e foram.

O alimento e o ambiente foram bem piores que na noite anterior em Redondela - pizza numa esplanada de centro comercial de gare?! Talvez pelo cenário, contrariamente ao que Pé de Atleta desejava, não se aprofundou a relação e acabaram a refeição como desconhecidos unidos à força pelas circunstâncias.

O diálogo de ferros quebrou de surpresa ao chegarem ao parque do albergue. Havia movimento junto à entrada e estavam estacionadas duas carrinhas. Tinham escrito nas laterais: Paróquia de Santiago de Litém.
Pé Descalço nem se esforçou pelo francês e exclamou desanimado:
- Só me faltava esta!
Marie tentou percebê-lo enquanto ele se explicava, preso ao português por exaltação:
- São de certeza dessa gente que faz o caminho alternando discursos ao telemóvel com ave-marias, com carros de apoio a cozinhar feijoadas pelo caminho, trazem cajados envernizados e usam bonés com publicidade a salsicharias ou aos USA!
Estão fartos de ir a Fátima pelas estradas nacionais, de não obterem resposta da Virgem aos seus pedidos de saúde e boa vida e, com as graças das mudanças trazidas pela CEE, descobriram que o mundo não acabava na Serra de Aire e que por cá também existem santos. No caso, S.Tiago, com muito mais currículo de milagrosas curas e satisfação de desejos.

Não fossem os factos com que se deparou quando entrou no albergue e Marie não teria compreendido patavina do que o companheiro dissera. O albergue estava cheio, pior que isso, a camarata cheia de catequistas, beatas, livros de cânticos e virgens.
- Virgens?! Oh Deus! Fujam, eu sou Filho da Puta! Como poderei eu aproximar-me da enxerga da santa que me cuida dos pés?! Lá se estragou mais uma promissora oportunidade!
E estes eram os pensamentos com que preparava a noite que se esperava triste! Bem, pelo menos não seria o ressonar de Água Pé que iria perturbar a especial zeladora! Não lhe faltariam outras ondas ruidosas ao sono por parte daquela indesejada expedição de ratas e ratos de sacristia.
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domingo, 7 de novembro de 2010

GREVEGREVEGREVEGREVEGREVE

A forma fascista como a generalidade da comunicação social tratou a grande manifestação de ontem, deve dar-nos forças para prepararmos uma Greve Geral que demonstre o país real.
Essa não a poderão calar! Bem podem dar notícia de manifestações na Grécia, greves em Paris, ou papas na Galiza! Toda a gente saberá a verdade, por experiência própria, e os poderosos donos da comunicação social e do país podem mentir à vontade que ninguém os levará a sério.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Acumuladores ou pilhas? Eis a questão!

"O Governo decidiu proibir a acumulação de pensões com salários na Função Pública".
Depois do fim do aluguer dos contadores de água, esta é uma das medidas mais emblemáticas da governação Sócrates.

A diferença entre um acumulador e uma pilha, é que o primeiro pode recarregar-se e o segundo não. Eles hão-de dar-lhe a volta, ao resto é que não!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Na ressaca do orçamento

Na ressaca do orçamento, depois de tantas horas que passámos, aqui em casa, frente à televisão, nada me ocorre.
Pelos blogues da corte:
"Toda a nossa classe política e afins (comunicação social controlada, “politólogos” e outros fazedores da opinião pública), todos eles, não se cansaram de repetir dos malefícios e demais desgraças que adviriam para o país com o inevitável agravamento dos juros da dívida pública caso não se concretizasse o acordo sobre o orçamento entre Sócrates e Passos Coelho.
Só um acordo orçamental poderia acalmar os “mercados” afiançaram-nos com o ar sério de gente entendida.
Afinal, os juros da dívida pública, ao contrário do que andaram a propagandear dias a fio, subiram hoje significativamente, alcançando os 6,19%."

"Tudo aquilo de que o País não precisa está neste orçamento!"
"Este orçamento é péssimo!"
"Em nome do interesse nacional, em nome do País, vou votar este orçamento."
Manuela Ferreira Leite "Hegel"
(não lido ou mal lido) em Anónimo SécXXI

Aparentemente esta imagem parece não ter nada a ver com o momento político mas, com um pouco de imaginação, consegue-se sempre uma relação:
(cartoons encontrados no Guardião)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Sete Pés Dez

Mas continuemos, antes que "os porquês" respondam mal e nem sequer cheguemos a Santiago.

O albergue de Pontevedra surpreendeu pela moderna arquitectura. Sete Pés foi recebido por uma responsável que já o esperava por informação da francesa que chegara primeiro.

Foram apresentados todos os espaços e equipamentos desde a cavalariça às máquinas de roupa e de cozinha, à sala solene com as paredes compostas com retratos de gente digna de retrato. A volta alongou-se com a conversa porque a senhora também era portuguesa. Viera parar a Pontevedra por casamento no Brasil e, via essa história de vida, se fizera presidente da Associação dos Amigos do Caminho Português de Santiago.

Provavelmente por método de hábito, guardou a camarata para o fim, era um espaço amplo que não fazia separação de sexos. Lá estava Marie, quase ao fundo, sentada numa das camas, a coser páginas do seu diário. Empreenderam os acenos e sorrisos da ordem enquanto a portuguesa sugeria ao recém-chegado um beliche junto à entrada:
- Pode ficar aqui, está mais perto dos lavabos! Já disse à senhora, não sei se ela percebeu alguma coisa do que eu disse - não estamos muito habituados a caminheiros que não sejam portugueses no Caminho Português - como é que a casa funciona. Amanhã de manhã aparecerá aqui alguém para fechar a porta.

Quando a anfitriã se despediu de ambos, mais uma vez, os Pés sentiram o incómodo dos obstáculos que impediam aproximação a Marie. À medida que Pé de Meia esvaziava a mochila e tratava das coisas, Pé de Atleta ia olhando para o sítio da companheira de viagem mas, à distância de sete ou oito metros, era-lhe difícil avançar com mais do que um encolher de ombros ou um mostrar de dentes. Pé Ante Pé arranhou francês, quando partiu para o banho, ensaiando demanda acerca da temperatura da água.

Pé Descalço regressou seminu e, depois de se esfregar de cremes e pomadas, sacou da agulha e da linha e pôs-se às bolhas. Quais bolhas?! Os pés estavam uma lástima!
Não existia um único Pé que demonstrasse jeito em cuidar deles.
Marie ia a passar ao fundo da cama e olhou-os com manifesta compaixão. Sem comentários, foi às suas coisas buscar umas pomadas e umas pinças e pediu autorização para fazer o tratamento. Pediu também ao enfermo que se deitasse.

Convém lembrar que os sete pés que aqui se estendem não têm, pelo menos até agora, dedos que se contem além dos dez com existência física e que, nos cuidados em exercício, a dividir por sete, não chegavam dois a cada. Nesta circunstância houve que repartir – mal! – o bem pelos pododactilos.

Água Pé estremeceu, não tinha memória de alguma vez ter sido assim tocado. Durante o trabalho de enfermagem foi também tocado por um rol de pensamentos e sensações até se esquecer de todos os pés. Ou melhor, todos os pés entraram numa espécie de transe. Pé de Vento foi o primeiro a retomar a consciência, quando se deixaram de sentir as mãos macias e se ouviu a voz de Marie. Agarrava e mirava o par de botas enquanto lhes tecia defeitos em francês. Um atrás de outro foram acordando de boca ensonada e só Pé de Meia conseguiu formular um pensamento:
- Foram tão caras!....
Para comprovar os conhecimentos técnicos que discorria, Marie voltou à sua cama e regressou com as suas botas para apontar as características que as faziam próprias para grandes caminhadas. Deu também conselhos de meias e ensinou-lhe a técnica de ir colocando jornais à volta dos pés para absorver o suor.
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