quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Não quero 2011

Que semana mais morta esta em que vos falo! Nada de novo! Já nem reagimos às más notícias, aos políticos maus, aos maus candidatos, aos maus tempos, ao mau tempo! E de tantos males que nos infligem, que nos prometem, que nos anunciam em nome da merda do futuro, já perdemos a capacidade de acreditar nas boas coisas, nas pessoas boas, nos bons momentos e no poder da chuva!
Qual Serviço Nacional de Saúde?! Qual mensagens de Boas Festas?! Qual crise? Quais tempestades? Eu acredito nas coisas boas da vida, conheço muito boa gente, tenho passado uns bons almoços com a malta amiga e tenho a cisterna cheia!... Bem vistas as coisas até preferia que 2011 não chegasse mais! Quanto mais não seja para o Presidente da República não dar a mensagem de ano novo!...
Eis a minha mensagem:

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Sete Pés Dezoito

Só ao fim de duas horas se conseguiu entrar no albergue, tomar banho e fazer descanso.
A última etapa da Via Lunar começou numa manhã de intenso nevoeiro. Pelo meio do percurso viria a chuva. Pé de Atleta discursou:
- Para a prova do Caminho ser completa, tem de haver molha! Uma peregrinação sem chuva não tem comunicação com o Céu, é um simples passeio ou uma prova de atletismo! Diz-se que Santiago de Compostela é o bacio da Espanha! Aqui temos o desafio!

Caminhar debaixo da capa impermeável, sob a chuva, foi duro mas, concordantes com a opinião de Pé de Atleta, o facto foi aceite por todos os pares como necessário ao cumprimento da peregrinação. Água Pé, apoiado pelo Pé Chato, apresentou a sua proposta alternativa recorrente de paragem no próximo estabelecimento.
- É pá, isto é só uma mijadela ciumenta do S.Pedro! S.Tiago quer que a malta ajude o comércio galego, paremos na próxima tasca até que a chuva pare!
E repetiu o seu ditado preferido:
- Com pão e vinho se faz o Caminho!

Mas não, Santiago estava já demasiado próximo para poder deter os pés mais ansiosos. Já não era só o chegar e abraçar o Santo, era também chegar e poder vir a encontrar e abraçar Marie France.

O avistar de Santiago e das torres da catedral de Compostela tocando o céu, acontece no cimo do Monte Agro de Monteiros. Pé Ante Pé interrogou-se acerca do número de ordem que lhe cabia entre todos os vivos e os já mortos que já tinham tido, daquele local, aquela visão.

Cheira a Santiago? Não! Os subúrbios da cidade interrompem o espírito do Caminho, a sucessão de prédios, de urbanizações infelizes, de viadutos e rotundas, as vieiras, camufladas pela poluição visual, perturbaram e desorientaram Sete Pés fazendo-o desesperar pelo desejado encontro da Porta da Faxeira, local por onde entra o pessoal do Caminho Português.

Aí entrados, um encharcado, outro cansado, o outro desoxigenado, um esgotado, outro chateado, o outro esfolado e o outro com sede, já nem se sentiam pés nem nada. As pessoas que enchiam as ruas do centro histórico e as portas das lojas, esvaiam-se em silhuetas de pré-desmaio, todos os rostos pareciam mirar o vulto que chegava, uns pareciam aplaudir, outros largar compaixão, outros escárnio, outros roubar, outros oferecer, outros pisar, outros amparar - a fachada sul da Catedral devolveu alguma lucidez. Entrou em curva larga e errante na Praça do Obradoiro, agachou a sua pequenez de caras para a imagem, conhecida dos postais e gravuras da Catedral! Um flash de memória percorreu os séculos e multiplicou os momentos de todas as almas que já haviam experimentado a sensação: chegar ali depois de tantos passos com dois pés. Sete Pés sentiu orgulho de si, era o primeiro a chegar ali com sete pés!
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Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Deixem-me, por favor, uma mensagem de Natal!

Legenda: Deixe a sua mensagem de Natal na ranhura!
Legenda: Este ano, jantamos o que há em casa.

Legenda: A cada porco o seu Natal (ditado popular)

Natal? Sininhos? Anjinhos? Peru? Azevias? Amor?… Ganda tanga! A malta quer é amor e BOAS FESTAS no corpo todo!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Não dou votos de Natal a quem der votos ao Cavaco

Nunca na vida escrevi sobre o natal
Nem me lembro sequer de trazer para casa uma redacção sobre o natal
E continuo a não conseguir escrever sobre o natal
Para mim o natal não tem de bem mais que a páscoa ou o carnaval
Mas também não tem mais de mal
Para mim essas coisas são simplesmente o natal, a páscoa e o carnaval
Não escrevo sobre eles porque também não escrevo sobre muitas outras coisas
As únicas coisas sobre as quais gosto de escrever
E sobre as quais vale a pena e escrever
É sobre o a primavera, o verão, o outono, o inverno
Dependo muito mais desse tempo do que dos tempos do calendário católico
Dependo muito mais desse tempo do que do tempo cronológico
Até porque não sei quando vou morrer e se vou ter enterro católico
Mas sei que vou morrer numa estação
Por falar em estação
Também nunca escrevi sobre comboios
(A propósito o meu filme do ano
é o Pare Escute e Olhe do Jorge Pelicano)
Deixei também de escrever sobre o papel
(A propósito preciso de um computador novo este noel)
O Pai Natal deste ano é ao contrário
em vez de dar, tira
e chama-se Teixeira
Deixei também de escrever sobre política
E se não escrevo sobre os votos da minha candidatura à presidência da república
Também não escrevo sobre os votos de natal
É evidente que toda a gente me deseja um bom natal
E que eu desejo um bom natal a toda a gente
Vou ver TV
Vai dar agora o tempo para amanhã!
Amanhã vai começar o inverno!
Que em vez de cair neve, caia o governo!
Apaguei o texto daqui para a frente

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Sete Pés Dezassete

Dali para a frente o Caminho faz-se por uma meia encosta coberta de arvoredo, que oculta o rio Valga lá ao fundo. Sabe-se do rio porque se ouve a sua voz, também ele a caminho duma foz onde outro rio o há-de levar ao oceano que lhe chamará um figo.
Entrou em Padrón, junto às margens do rio Sar, por onde teria entrado a barca que trouxe o corpo do Apóstolo, até desaguar num enorme parque com carrosséis, tendas e tendinhas. Também ali se festejava a Páscoa e, pelo aspecto do recinto, em grande.

Atravessou o rio e procurou a famosa fonte do Carmo, localizada aos pés do Monte Gregório, para banhar os pés. Todos os pés nadaram ao seu modo, louvando no chapinho o fim da dura etapa. Pé de Atleta pisou a meta, Pé de Meia contabilizou o percurso, Pé Ante Pé pensou no do dia seguinte, Pé Descalço sentiu as bolhas, Pé Chato disse-se farto, Água Pé propôs “uma tasca” e Pé de Vento reclamou “quero o abrigo dum albergue!”.

Porque Pé de Vento, na qualidade de último a falar, melhor falou e porque nestas coisas era o que melhor levava a vela ao seu moinho, todos seguiram de vela a ordem e subiram o monte. A meia encosta encontraram o albergue, discreto e integrado na zona histórica do Convento do Carmo. Na porta estava um número de telefone para contactar o hospedeiro.

Subindo uma escadaria aproveitaram para visitar a igreja do convento que tem sete fantásticos altares de arte barroca, tão diversos na estética e no desenho que a cada pé, segundo a sua natureza, coube uma imagem para encaixar a sua prece: Pé de Atleta correu para o mais dinâmico, Pé de Meia contemplou o mais dourado, Pé Ante Pé procurou o mais sólido, Pé Descalço reteve-se no com mais nus, Pé Chato entreteve-se no mais barroco, Água Pé no da última Ceia e Pé de Vento, porque lhe sobrou o que tinha o Omnipresente com os pés pregados, deu meia volta pelos outros todos e lembrou:
- Nenhuma das coroas desses santos quietos tem o número de telefone! “Vou à sacristia
e... já vim”
e não encontrei almas da terra, o melhor é descermos à cidade para encontrar um telefone público, antes que seja tarde e ninguém nos venha abrir a porta.

Só ao fim de duas horas se conseguiu entrar no albergue, tomar banho e fazer descanso.
À noite provaram-se os famosos pimentos de Padrón, Pé de Vento e Pé de Atleta vaguearam pela grande festa e todos, no fecho da volta, acabaram a assistir a um espectáculo de sevilhanas. Pensou-se como, afinal de contas, apesar da Andaluzia ficar mais perto de Portugal do que da Galiza, era mais normal encontrar ali aquele género de música e dança do que no seu país. A Espanha existe, concluíram.
Surpresa das surpresas, Pé De Vento, com olhinhos de moço gaiteiro, engatou, ou foi engatado, e não dormiu sozinho no albergue impondo arredo aos outros pés. Na manhã seguinte não estava um bilhetinho afectuoso, como aquele que a francesa deixara em Caldas, mas constatava-se apenas a falta de alguns pertences.
- Mais um sinal!
Rezou Pé Ante Pé. E Pé de Meia:
- O relógio que se lixe, é um objecto que não faz falta nenhuma a um caminhante mas o corta-unhas!...
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Todas as segundas feiras.
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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Filha da puta da máquina


Em Junho eu postava isto:
Os senhores podem portajar,
as estradas, os carreiros e as pontes,
as fontes, os rios e as praias,
os campos, as manadas e os estrumeiros,
as saias da vossa mãe e o cu dos vossos santos tios.

Podem portarjar também senhores,
os castelos, os túmulos e os museus
as igrejas, os túmulos e os mausoléus,
os hospícios, os hospitais e os parques,
as hortas, os tomates e os ceús.

Ponham portagens em todos os carreiros,
nas "ás", nas "bês" e nas "icês",
para vespas, cavalos e ovelhas.
Mas não me acabem com os portageiros,
nem me ponham chips nas orelhas.

É que eu gosto da oralidade de dizer e ouvir "bom dia" durante a viagem
e, só para isso, vale a pena encontrar uma portagem.

E hoje aconteceu-me isto:
Fui surpreendido com uma máquina no lugar onde, ainda há pouco dias, estava uma pessoa de carne e osso que me falava. E não é que a puta da máquina começou também a falar comigo: enfie o título... meta o cartão... cartão mal introduzido... e eu às aranhas com a bicha que estava atrás de mim...
Estava eu quase para sair do carro a desapertar as calças e a perguntar ameaçador:
- Queres que te enfie, te meta e te introduza o quê?!
E eis senão quando se abre a cancela enquanto a puta da máquina, já saciada, diz:
- Pagamento efectuado, obrigado e boa viagem!
- E tu vai à merda!...
A puta da máquina até pode ser muito educada mas se fosse o portageiro ter-me-ia respondido.
E perguntam vocês porque não saí de calças na mão:
- Por causa da bicha que estava atrás! Sabem como são as bichas!...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sete Pés Dezasseis


À saída de Caldas deixou de ver as vieiras que indicam o Caminho e andou perdido até ao meio-dia, altura em que teve um encontro ensombrado de espiritualidade. O cenário foi o mosteiro de Santa Maria de Carracedo, um átrio de terra batida coberto de erva daninha, um trilho largo para a porta principal fechada testemunhando a frequência de fiéis e Pé Descalço sentado num muro de pedras, cuidando os pés físicos enquanto Pé de Meia matutava na direcção do Caminho. Em direcção aos Pés andou um vulto padre, velho de andar e de batina ruça. Chegado a poucos pés, parou e, permanecendo parado e em silêncio, fixou o olhar no olhar de Sete Pés. Às “boas tardes”, às expressões faciais de simpatias e às questões da direcção do Caminho certo, respondeu nada. Os Pés indagaram entre si para saírem do aperto do momento: é uma alucinação derivada do cansaço, é uma visão, é uma aparição, fugimos, pede-lhe um copo, dá-lhe a esmola e o velho tem mal de Alzheimer.

A cara branca, fria e congelada inclinou-se levemente para permitir o movimento trôpego da mão até à algibeira da batina e, quando a retirou, o braço apontado ficou a um escasso braço da face das sete caras pálidas do alvo Sete Pés. Na extremidade do braço, uma mão branca, de rugas mimadas, semiaberta e trémula falava pelos dedos:
- Achei isto, é teu?!
No primeiro instante pareceu um terço de rezar mas, concentrando o olhar, foi reconhecida de imediato a pulseira de missangas de Marie France.

Impulsivamente, reconhecendo a propriedade, Pé de Meia agarrou receoso o pechisbeque das mãos do pobre clérigo com palavras e ginástica de agradecimento sem qualquer sinal de retribuo.
O padre, sem largar palavra, virou costas partindo por entre as folhagens para as traseiras do templo assombrado. Pé de Meia esfregou o colar nas mãos, confuso, rejeitando a crença que o encontro tinha sido um sinal do Alto. De pés na terra, o facto de se tratar de um objecto de Marie era a prova de que tinha reencontrado o Caminho. Nas fachadas ou nas imediações do monumento haveria de estar cravada uma vieira. E estava.

Dali para a frente o Caminho faz-se por uma meia encosta coberta de arvoredo, que oculta o rio Valga lá ao fundo. Sabe-se do rio porque se ouve a sua voz, também ele a caminho duma foz onde outro rio o há-de levar ao oceano que lhe chamará um figo.

Pé Descalço não deixava de sentir em cada encalço, em cada folha ou cavaco que pisava, em cada cheiro ou regato que experimentava que também os sentidos de Marie recolheram as mesmas sensações e ouviram o mesmo rio.
Sacou do bolso a pulseira de missangas de Marie e passou os dedos por todas as bolinhas, uma a uma, rendendo a cada  uma avé-Marie. Terminado o rosário pensou nela: andou!
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Todas as segundas feiras.
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sábado, 11 de dezembro de 2010

Movimento anti-popota

Recebi por e-mail, apoio e divulgo:

1 - O governo espalha a fome e a miséria
2 - Os espertos, como a SONAE, organizam movimentos de caridadezinha, pelos quais põem os parolos a arrotar
3 - Ganham um balúrdio com o negócio
4 - E ainda ficam com a fama de beneméritos

MOVIMENTO ANTI-POPOTA, LEOPOLDINA E ARREDONDAMENTOS!!!
É extraordinário como é fácil fazer grande caridade com o dinheiro dos outros!!!
Pedem-nos "apenas" dois euros e fazem-nos o favor de doar um para a caridade.
Claro que quem aparece a doar no final vários milhares são os donos dos grandes
armazéns ... com o nosso dinheiro!!
Reparem no que diz o site de um desses supermercados: "Nestes últimos três anos
conseguimos angariar (...) um montante superior a um milhão de euros, " ....
Extraordinário realmente, sobretudo se pensarmos que esse milhão de euros foi
automaticamente deduzido dos impostos desta empresa .... como se fosse dinheiro
deles e não nosso.
Se querem dar para caridade dêem directamente ... ou se eu vos pedir vocês dão-me
a mim para eu poder doar?! Então porque dão aos Modelos, Continentes e Wortens?
Eles têm obrigação e responsabilidade social a cumprir!

Pata Negra acrescenta:
- Comecem por praticar a caridade para com os desgraçados e explorados trabalhadores dos Continentes, Modelos e afins.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Mais um Puto apanhado na rede

Depois do Pai Natal ser agarrado por um dos epicentros do capitalismo, a coca-cola, é agora a vez do Menino cair nas malhas da rede.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A minha terra natal

O Inverno pode chegar ao Verão.
O Verão pode chegar ao Natal.
Dizem que isto pode estar relacionado com alterações climáticas.
Dizem que as alterações climáticas podem ter a ver com a queima de combustíveis fósseis.
Dizem que a queima de combustíveis se deve ao consumo de energia.
Dizem que o consumo de energia tem a ver com a sociedade de consumo.
Dizem que o consumo esgota a vida da Terra.

Ora aí está o Natal, amigo do ambiente, das câmaras e famílias endividadas, dos pobres que nem factura de electricidade têm para pagar.
*Eh-lá luzes, anjinhos, meninos e trenós iluminados nas torres das igrejas, nas fachadas dos edifícios presidenciais, nos reclames dos espaços comerciais, nas varandas e chaminés!
*Eh-lá lojas de coisas que não valem nada, jantares de cabritos e cabras, discursos de provedoras de colares, de excessos de mesa com orações a recordar os que não têm!
*Eh-lá santa inocência de meninos grandes, de burros, de vacas e de árvores de plástico!
É tão bom lembrar-nos dos que não têm nada, nem que seja ao menos para sentirmos o orgulho de termos tudo!
Viva o planeta sobreaquecido com luzes a apagar e a acender! Viva a falência em abundância! Viva um menino que nasceu há dois mil anos! Viva o Pai Natal da coca-cola! Vivam os arredondamentos do benemérito azevedo! Viva o Natal!
Vivam os videntes, como eu, que advinham um bom Natal para uns e um mau Natal para outros, que já sabem que na missa do galo o padre vai dizer que o Natal deve ser todos os dias, que uns poetas de quadra vão repetir que Natal é sempre que um homem quiser, que o Sócrates vai prometer que vai haver um novo ano e o Cavaco vai dizer que está muito preocupado e que quer voltar a ser eleito para continuar a dizer que anda muito preocupado.
Ai o meu Natal! Ai o meu Natal!... é só de mim que ando desnatalizado!...

(* o "eh-lá" foi plagiado duma ode qualquer do Fernando Pessoa e continuo a gostar de recorrer a títulos que não têm nada a ver)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Sete Pés Quinze

Quando regressaram ao quarto voltaram a entregar-se um ao outro até o sono os separar já noite avançada.
Quando a luz do dia seguinte acordou, Pé de Atleta questionou a memória para averiguar se teria existido sonho ou caso. Fora caso. A confirmá-lo, como é normal nestes casos, um bilhete breve na mesinha atestava a casualidade do encontro e dava-lhe com os pés:

“Boa vida! Talvez voltemos a encontrar-nos no Caminho. Não vou pernoitar em Padrón, conto chegar hoje mesmo a Santiago - um beijo dos de ontem”.

Pé de Atleta conformou-se com o desfecho. Era de facto um caso com todas as características para acabar assim. Poderia partir apressadamente para evitar o fim mas não era homem de se insinuar ou perseguir alguém. Os seus caminhos eram obrigatoriamente distintos e tudo não passara de uma brincadeira da mão do Apóstolo. Mesmo que quisesse, seria muito difícil apanhá-la; o Pé Chato e o Água Pé rebentariam em protestos além de que ela tinha um passo de égua sem albarda, uma mochila mais leve, vestuário e equipamentos que lhe permitiam outra velocidade. Sabia de Ante Pé que uma aventura nunca se repete.

Ela tinha uma meta, a Catedral, os Sete Pés apenas tinham caminho para andar, viver assim a vida, sem querer chegar a lado algum. Estava posta de parte a hipótese de voltar à terra que não gostou de o ver nascer e não se via condicionado por nenhum destino. No horizonte próximo, segundo as contas de Pé de Meia, a herança da mãe dava para muitas sopas.

- Que mais poderá desejar um homem na vida além de caminhar?!
Perguntava ele tantas vezes, quando o Caminho se dava, nos monumentos, nas aldeias, nas ruelas, nas montanhas, nos vales, nos rios, nas plantas, nos animais, nas pessoas, na luz, no nevoeiro ou apenas no calor de uma mulher francesa e serena.

Foi com estes espíritos que calmamente se fez a preparação para a etapa de terça-feira da Páscoa. Pé de Meia tomou calmamente o pequeno-almoço e, ao dirigir-se à recepção, foi confrontado com o facto de estar tudo pago. Carimbada a credencial de peregrino, Pé de Vento amarrou a mochila e percorreu sem pressas as ruas do Caminho. Pé Descalço desceu as escadas da fonte termal, molhou as mãos e recordou o duelo de salpicos de água que ali foi travado no dia anterior com a “fugitiva”. Umas ruas à frente, Pé Ante Pé reteve-se observador de um mercado vivo junto à ponte medieval sobre o rio Bermaña e tentou recuar uns séculos.

Recuar no tempo foi um exercício que Pé Ante Pé experimentou durante todo o Caminho, os vestígios da estrada romana número XIX, as igrejas, as pontes, os cruzeiros e outras marcas do passado levavam-no a tempos diferentes, fantasia que ele, desde muito pequeno costumava experimentar.

Recordou a foto de Marie em Pontevedra junto à estátua do peregrino. Nem todos os peregrinos de outros tempos fariam o Caminho com ascetismo, existiriam nobres que cumpririam a devoção a cavalo, acompanhados de criados e outras comodidades. A evolução histórica no caminho da igualdade traria ao Caminho um peregrino novo, no qual eles e Marie se identificavam, distintos pela sua origem social, lateralmente cristãos, mas sem cultivar a pobreza nem a abastança.
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Todas as segundas feiras.
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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Não gosto da vossa Europa

Não gosto da vossa Europa. Este é o título. Gostarei de uma Europa que não seque as raízes do meu milho que é só nosso.


- Cuida da burra João mas não vás para ao pé do poço!
Dizia minha mãe antes de desaparecer, descalça, pelo milheiral adentro para, com os calcanhares e a sachola, encaminhar a água à raiz de cada pé de espiga. E eu ficava ali, seguindo as voltas da burra emprestada p´lo mê ti Adelino, vendada e amarrada à nora, repetindo voltas sempre iguais, cumprindo com os seus círculos o sucesso da próxima colheita. E eu andava por ali, também às voltas, seguindo solidário as suas voltas, caçando borboletas, contando os alcatruzes a cada despejo, seguindo os caminhos da água até esta desaparecer pela sombra fechada do milho que escondia a minha mãe. Impossível repetirem-se esses cheiros, essas águas, esse verde; nem a vida me permitirá chegar aos calcanhares do mê ti Adelino - dificilmente conseguirei um dia ter uma burra!
Mas sou bem herdado na parte que toca a ter passado. Usufruí dessa riqueza de partilhar com a burra o verde do milho, o som da água, a sombra da latada que completava o poço e toda a engenharia da secular nora.

Incrível como é possível que a foto que se segue me tenha permitido banhar-me nesta infância! Recebi-a com a legenda "anda tudo à nora!" Não me ofendam! "Andar à nora" não tem nada a ver com "à procura do lugar para a fotografia"!
Dum comentário: "A Merkl disse: hoje quero dormir com o colega de sapatos castanhos! Aí o pessoal entrou em pânico e todos quiseram certificar-se que não lhes tinha saído a fava no bolo-rei. Tá visto!"

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Sete Pés Catorze ou Quatorze


Subiram ambos ao quarto, largou cada um a sua mochila em sua cama, foi cada um, na sua vez, cuidar do seu banho. Já cuidados de água, inspeccionaram mutuamente o estado dos quatro pés e compararam a bolsa de fármacos de cada um. Estando nos assuntos dos corpos, haveria de chegar a vez das queixas musculares, das pomadas e das massagens e aí, o inevitável aconteceu.

(Há muito tempo que milhares de leitores esperavam este pé da história, muitos a abandonaram pela demora do acontecimento, outros a abandonarão por ela ter acontecido. Receio não ter traquejo para satisfazer as expectativas, esta história é apenas um exercício. O acto de amor a dois, a três, a sete ou a oito é íntimo e não deve ser relatado nem espreitado, a cada um a sua cama. 
- Desculpem lá a interferência do narrador mas deu-me para isto!  Vamos mas é ao acto!…Mas de pano fechado! )

Nem diferença de idades, nem ela ser casada, nem ele ser filho de quem fora! Nada, mesmo nada, poderia obrigar a pensar duas vezes. Quando não se bebe a água cristalina duma fonte que aparece no caminho, não é porque o caminhante não tenha sede, é porque não saboreia a vida.

Para que o amor exista tem de ser feito! Até à hora de jantar não se fez outra coisa! Para que tudo acontecesse naturalmente, como fazem todos os amantes que pela primeira vez se encontram, só um pé teve direito ao fruto – o mais desejoso, o mais forte, o mais atleta. Todos os pés aceitaram que Pé de Atleta, pela sua condição e pelas vontades que vinha manifestando, estaria em condições superiores de abrir caminho para que a todos calhasse a sua vez lá mais para a frente. Conformaram-se no papel de iluminar de velas a cena mas todos eles a roçar os lábios de satisfação. Água Pé até inclinava a vela para que a cera caísse no rabo do Atleta, obrigando-o, desta forma, a melhorar o passo.

Quando desceram Marie sugeriu que o seu rapaz se sentasse nos sofás da recepção e foi ao balcão fazer um telefonema para o marido. Nenhum dos Pés conseguiu perceber alguma coisa do que ela dizia mas não lhes era difícil adivinhar o teor da conversa.
- De certeza que não lhe daria notícias de um jovem com quem acabara de ter uma experiência inesquecível!

Não tirava os olhos dela como se temesse que a poderia perder agora mesmo, acometida por um impulso de arrependimento e fidelidade ou que se sumisse, puxada pelo marido, pelos cabos de comunicações, para França. Tão raros eram os casos de mulheres na sua vida e este, mais do que os outros, tinha contornos para ser mais efémero. A noite ainda era uma criança. Quem sabe se com o apertar de mãos, laços e beijos, não estaria ali, nas formas que nunca idealizara, a relação que sempre sonhou encontrar: alguém que lhe abrisse os olhos, a boca, o coração e as pernas.

A refeição foi no restaurante do hostal e foi farta de marisco grelhado e vinho branco, tudo a apontar na conta da estadia. No final deram uma volta pela noite da pequena cidade animada pela Páscoa. Chegaram até a caminhar de mãos dadas e divertiram-se a molhar os pés na água quente da fonte termal que está na base da origem do nome Caldas.

Quando regressaram ao quarto voltaram a entregar-se um ao outro – só o Pé Chato e o Pé Ante Pé não participaram - até o sono os separar já noite avançada.
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Todas as segundas feiras.
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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Porque há quem julgue que aquilo que teimam tirar-nos caiu do céu

Companheiro
quando voltarmos a ser a razão dos que nos mandam
não te esqueças de recordar que subiste comigo a avenida
sob o olhar atento daqueles que nos ignoravam
e de alma erguida

Camarada
quando a guerra voltar a ser ganha pela razão
não te esqueças do tempo que passámos entrincheirados
sob o avançar cobarde dos mais fortes
e levantados

Irmão
quando recordarmos de novo a lição de história
não esqueceremos os mares outrora navegados
e que os olhos do avô eram verdes
mesmo fechados

Amor
quando as coisas voltarem a melhorar
não te esqueças da foto que temos da manifestação
com o olhar de meter inveja aos que a não viram
nem ao coração

Filho
quando chegar a tua vez
não esquecerás honrar quem te ensinou a luta
de perseguidos, presos, assassinados
por tanto filho da puta

Ontem, só fiz greve!

NOTÍCIA DO DIA: Causa da crise é fosso entre ricos e pobres - FMI
Mas o quê?! O FMI prima pela distribuição da riqueza entre ricos e pobres?! Então que venha o FMI dos bosques! Alguma coisa me há-de calhar a mim!
- Não! O FMI está com falinhas mansas para poder vir dar um ar da sua graça! Ou então há mesmo milagres!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Diário de um Dia de Greve


Ergui-me à mesma hora dos outros dias! Não tomei banho nem fiz a barba para acrescentar gestos de protesto. Liguei o computador. Com os olhos enlameados da noite curta, fiz a espiral dos blogs costumeiros e, antes de sair dela, fechei-a ao centro. Confirmei com agrado que muitos deles estavam com a greve.

Ao pequeno-almoço, liguei a televisão: os números, sempre os números! Perguntei-me: 
- Se as adesões são sempre pouco significativas por que raio se anda sempre com a guerra dos serviços mínimos?!
E o arcebispo de Braga e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa:
"é um direito que assiste aos trabalhadores e é uma oportunidade que os portugueses têm de manifestar a sua insatisfação... um dia de greve é muito pouco. O povo português terá que se habituar a uma Democracia mais participada e mais responsável e manifestar-se não apenas nesta conjuntura mas também diante de determinadas leis que são prejudiciais para a sociedade... é hora de todos darem as mãos e do povo português não se contentar com o dia do voto. O povo terá que estar alerta e, porventura, ter uma participação mais crítica."
Decidi não ir ao café, ir-me-iam perguntar porque não fui trabalhar, porque é que era esta greve, eu iria num sorriso feito ao momento hesitar um pensamento – ainda perguntas?! – e sairia sem responder com uns bons dias de homem de boa educação!

Telefonei para o serviço. Abriu. Nem 50%!  Fui ver. Via-se bem: havia greve. Nos que furaram a greve havia vergonha e fingimento. Era um dia completamente diferente dos outros dias, era dia de greve.

Não é todos os dias nem por qualquer motivo que há uma Greve Geral – desde o 25 de Abril é a sexta e de certeza a maior.

Por tudo isto, almocei e bebi regaladamente. Não vi mais notícias e passei o resto da tarde a pensar. Que  força a desta gente que abdica de um dia do seu salário como forma de se exprimir num gesto tão simples! Que postura a daqueles que passam os dias a barafustar e não têm a pequeníssima coragem de sinalizar o seu descontentamento! Que descaramento o dos que dizem que dizem que agora é assim e ainda terá de ser pior! Que hipocrisia falar no direito à greve e nunca reconhecer o direito de a fazer! 
Pelas 16 horas bebi uma cerveja, voltei à blogosfera, bebi outra cerveja, voltei à blogosfera e estou aqui – já jantado claro - sem ter ligado à televisão, à rádio, borrifando-me para notícias da greve e de outras coisas, com a consciência do dever cumprido, consciente de ter contribuído para um futuro melhor, para uma data de registo e porque é meia-noite contente por ser Rei dos Leittões e ir colocar já este desajeitado texto algures num servidor como eu!

Não vai haver mais nenhuma greve como esta! Ninguém viveu este dia como eu!
Orgulhosamente: EU FIZ GREVE

ÚLTIMA HORA: "Governo diz que Portugal não parou"
- Pois não! Fez greve! Reclama um governo com visão!

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto

Vai começar  esta noite à meia-noite em ponto
numa fábrica, num comboio, numa estrada
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
numa escola, num hospital, num vão de escada
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
numa  empresa que vai ser encerrada
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
num país  de lama, circo e corrupção
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
para termos amanhã o futuro que se exige
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
tem na raiz a razão de dizer não
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
vê-la-emos depois reduzida a números
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um catrefa de jornalistas ao vento
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
para pedirmos contas ao nosso tempo

(adaptado de Litania para o Natal de 1967, David Mourão-Ferreira)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Sete Pés Treze

Marie regressou e voltou a dizer, agora apenas com um movimento de inclinação de cabeça: - Allons y?!
Puseram as mochilas às costas e deram-se ao passo sem falar. Sete Pés continuou a pensar de coisas banais. A natureza da relação com a sua companheira de Caminho era enriquecida pelo facto da barreira linguística não permitir a banalização da palavra.
Uma Igreja. Marie tira uma fotografia ao pórtico. Sete Pés, fazendo a ponte com os pensamentos das imagens, pensa nas palavras que tornaram banais, inconsequentes e sedativas as homílias dos padres seculares.
À saída da cidade, numa rotunda, sinais de trânsito, painéis publicitários. A poluição visual! Palavras gráficas?! Oh! Imagens gráficas!! É demais! No Caminho devemos libertar-nos dessas coisas!

Atravessada a Ponte del Burgo sobre o rio Lerez, Pé Chato começou a repetir aos seus íntimos que não teriam pés para acompanhar a experiente caminheira, levando sempre ricochete do Pé de Atleta que reafirmava a sua determinação para acertar o passo na dura prova que os esperava até Caldas de Reis. Numa coisa todos os pés estariam de acordo: “como seria bom cumprirem aquela etapa com aquela companhia!”.

O discurso continuou escasso, talvez por conveniência, diferença de língua ou simplesmente porque nenhum de ambos era de feitio de se dar à banalização das palavras. Almoçaram juntos a omnipresente sandes de xamón mas, durante a tarde, os ritmos de andamento, o aparente, conveniente ou natural desprendimento entre ambos, a independência ou os diferentes modos de construir o Caminho separaram-nos. Ou então aceite-se que, por vezes, os chatos têm razão!

Sete Pés atravessou a ponte sobre o rio Umia que marca a entrada em Caldas de Reis – a antiga Aquae Celenae, um balneário romano de águas termais afamadas - com os sete pés zaragateando nas habituais discussões, desoxigenados, fora de si, obcecados pelo fim da etapa, por um assento de paragem.

Questionando a realidade ou a alucinação, avistaram na margem do outro lado, no rés-do-chão dos prédios de quarto andar, uma enorme esplanada com gente a chupar sorvetes, a sorver bivalves e a bebericar cervejas. Nas margens do quadro, uma mulher só, numa mesa de duas cadeiras e com a mochila ao lado. Era esse o destino. A cada passo exausto, a realidade vencia a alucinação.

- Olá!
- Oito cervejas!
Pediu a francesa como se já tivesse pressentido a multiplicidade do esperado Sete Pés. Ajeitaram explicações para o caminho do dia, para o desencontro e para o encontro e bebeu-se até o prazer de beber por sede dar lugar ao prazer de beber por prazer.

Marie já tinha investigado que naquela terra não havia albergue e que teriam de procurar um hostal. O “teriam”, dito na forma “teremos”, primeira pessoa do plural, embebedou Água Pé de autoestima e satisfação. A foto dos dois em Pontevedra não seria a última, “habemos” par!
Tanto assim foi que na recepção do hostal Cruceiro, o funcionário os entendeu como um casal e assim fez preço e, entre os dois companheiros, não houve hesitações ou indagar de expressões à circunstância de uma única chave lhes ter sido entregue.
Recepção Hostal Cruceiro
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Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra