segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Sete Pés Doze

Despediram-se na meia-luz do dormitório. Ao lado, por cima e por baixo, de todos os beliches havia gente feia, talvez da penumbra, a remexer roupas, mantas e sacos de plástico. Pela cara, o que ia dormir na cama de cima devia ser o padre!... Ou a criada!
Porque não era mal-educado não se fez rogado com os seus compatriotas e acedeu a curtas e espaçadas palavras de coisas sem interesse. Já deitado e pronto para o descanso não o revoltou o facto de ter de gramar com uma dezena de orações porque acabara de receber a informação que há dois anos fizeram Tui-Porriño, o ano passado fizeram Porriño-Redondela e este ano foi a vez de fazerem Redondela-Pontevedra.

Na manhã seguinte era absolutamente necessário levantar âncora antes que aquela gente acordasse e, quem sabe, o destino não unisse os Sete Pés na partida com aquela que por aqui se fala. E assim foi, com a noite mal dormida pelo incómodo dos sonos da malta da paróquia portuguesa, levantou-se e sossegou com o facto de notar ainda os haveres de Marie lá ao fundo. Com o corpo e a tralha preparada saiu do albergue e postou-se no jardim junto à estátua do peregrino. Ao fim de um longo quarto de hora seguiu os primeiros passos da Marie a partir. Esta não se mostrou surpreendida pela sua espera e os seus bons dias e o seu aval à muda proposta de pedido de companhia estavam incluídos na primeira frase da manhã:
- Allons y?!

Com passos mudos, percorreram as ruas até ao centro da cidade. Chegados à incontornável Praça de Ferrería, tomaram o pequeno-almoço no primeiro café que encontraram aberto, deram uma volta ao Santuário da Virgem Peregrina e à Praça da Estrella onde Marie pediu a um transeunte que lhes tirasse uma foto juntos.
Água Pé ficou registado com uma expressão comovida: nunca tinha saboreado a experiência de alguém ter requerido uma fotografia na sua companhia.

Aliás, na pequena casa em que a mãe o resguardara do relento não existiam fotografias com o menino em pelota, do casório dos pais – pai incógnito não deixa registo – dos tios, dos primos, dos antepassados ou do grupo do curso de costura. Apenas uma moldura com o avô materno, algures no Brasil de onde nunca mais regressara. Quando a mãe morreu, na volta que deu pelas gavetas, Sete Pés deitou para o lixo uma em que a mãe estava numa festa fina, acompanhada por um desconhecido para o qual, provavelmente fizera serviço de acompanhante.

Pelo contrário, na casa dos Alpes de Marie, deveria existir uma galeria de fotos de recordações de família, do tetra-avô ao bebé da era digital que ainda está no ventre e já é ecografado.
Percebe-se, portanto, que para Sete Pés fosse novidade o fazer de fotografo de Marie pousando junto à estátua do albergue e que lhe desse arrepio ser fotografado ao lado dela na Praça Principal de Pontevedra.

Marie disse que ia fazer não sei o quê, talvez necessidades, e os Pés ficaram sentados num banco da praça a fazer a guarda das mochilas e a pensar acerca do registo das imagens, do tirar fotografias do Caminho, da banalização da imagem, dos casamentos em que até os noivos andam a filmar. O acto de registar momentos em máquinas cria ruído na vivência dos momentos e a artificialidade do registo trai a realidade. Mais do que a imagem, vale o olhar!...
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Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra.

sábado, 13 de novembro de 2010

Espero por Esperança


a esfera em torno de si mesma me ensina
a espera
a espera me ensina
a esperança
a esperança me ensina
uma nova espera
a nova espera me ensina de novo
a esperança na esfera
a esfera em torno de si mesma me ensina
a espera
a espera me ensina
a esperança
a esperança me ensina uma nova espera
a nova espera me ensina uma nova esperança
na esfera
a esfera em torno de si mesma me ensina
a espera
a espera me ensina
a esperança
a esperança me ensina uma nova espera
a nova espera me ensina
uma nova esperança
na esfera


Cassiano Ricardo

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Escuta Zé Povinho

Dum porco que escreve como um cão: ão.

Escuta Zé Povão
É tua a culpa do estado em que as coisas estão
Calaste 50 anos de opressão
Deste os teus filhos para guerras sem razão
Emigraste por te tirarem o pão

Tiveste medo da revolução
Foste no engodo da Europa em construção
Amotinaste-te pelo dinheiro da integração
Aceitaste abandonar a produção
Confundiste aprender com horas de formação
Quiseste ser alemão
Adormeceste com os senhores da televisão
Encantaste-te por uma moeda sem inflação
Confundiste democracia com eleição
Votaste no mais espertalhão

Não culpes o Cavaco, o Soares, o Sócrates e o Durão
Não dês o teu consentimento pela abstenção
Porque o mal que eles fazem tem o aval da tua resignação
Faz ao menos o pequeno grande gesto com o braço e com a mão
Greve Geral – manguito ou não?!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

NATO ou FMI, eis a questão!

Ah!Ah!Ah! Uma poderosíssima organização militar precisa da protecção da PSP!
A PSP precisa de blindados para se proteger de não sei quê!
Eu, que tenho medo de blindados, também gostava que a PSP me protegesse a mim!

Vão estar uns homens velhos fechados dentro de uma sala:
Vão inventar argumentos para renovarem o pacto de dominar o mundo.
Vão estar uns homens novos numa rua ao ar livre:
Vão manifestar-se por um mundo sem NATO.

A NATO nasceu para responder ao PACTO.
O PACTO nasceu para responder à NATO.
O PACTO morreu, a NATO cresceu.

A NATO é a mais forte, a mais poderosa das organizações.
A NATO nasce no Oeste, cresce no Norte e faz morte a Este.
A NATO mata por paz nas montanhas do Afeganistão.
A NATO defende a paz e decide matar no Parque da Nações.

Vai haver uma manifestação mas, de facto, a maioria das pessoas só não irá à praia porque estará mau tempo. E por falar em praia: o que tem o oceano Atlântico a ver com isto?
Receio que a PSP não perceba nada disto!
A mim bastava-me perceber se a NATO é a mesma coisa que a OTAN!
Ah!Ah!Ah! Uma poderosíssima organização militar precisa da protecção da PSP!

(Lembrei-me agora do título do texto, perdi-me no post! A minha questão inicial era:
- Quem é que afinal vem a Portugal? É a NATO ou é o FMI?
Isto é um truque novo que eu tenho, se os textos forem incoerentes ninguém me plagia)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Sete Pés Onze


Esperaria que se vestisse e aguardaria por ele lendo literatura na sala de convívio. Já averiguara a existência dum centro comercial, numa estação ferroviária, ali perto, onde teria de existir um lugar para jantarem - o centro da cidade ainda era longe.


De saída para o jantar, no jardim do albergue, Marie passou a máquina a Pé de Atleta e solicitou-lhe que lhe tirasse uma foto junto à estátua que representa um peregrino de tempos idos, com uma malga de sopa na mão, em posição mendicante, dirigindo-se a uma mulher piedosa. Enquanto a modelo tomava expressão e posição, Pé Ante Pé pensou nas diferentes eras e nos caminhantes de cada uma delas. Perguntou aos seus pares: seremos nós ainda peregrinos?!
Quando foi reconhecida a ordem de clicar, a resposta surgiu em coro com o flash:
- Somos turistas à procura do destino.
Fraco!... - pensou Pé Chato - Fraco pensamento!... E a foto?! - viu no visor – Fraca!... Pediu por isso nova pose. Enquanto Pé de Atleta procurava novo enquadramento viu Marie a ensaiar papéis com as figuras da estátua, viu Marie servindo sopa, viu Marie pedindo a sopa, viu-se no lugar do peregrino estátua, viu-as naturalmente nuas e sedutoras, viu ambas chamando por ele para que se aproximasse como se estivessem num leito. Acordou das visões quando Marie se aproximou para ver as provas e foram.

O alimento e o ambiente foram bem piores que na noite anterior em Redondela - pizza numa esplanada de centro comercial de gare?! Talvez pelo cenário, contrariamente ao que Pé de Atleta desejava, não se aprofundou a relação e acabaram a refeição como desconhecidos unidos à força pelas circunstâncias.

O diálogo de ferros quebrou de surpresa ao chegarem ao parque do albergue. Havia movimento junto à entrada e estavam estacionadas duas carrinhas. Tinham escrito nas laterais: Paróquia de Santiago de Litém.
Pé Descalço nem se esforçou pelo francês e exclamou desanimado:
- Só me faltava esta!
Marie tentou percebê-lo enquanto ele se explicava, preso ao português por exaltação:
- São de certeza dessa gente que faz o caminho alternando discursos ao telemóvel com ave-marias, com carros de apoio a cozinhar feijoadas pelo caminho, trazem cajados envernizados e usam bonés com publicidade a salsicharias ou aos USA!
Estão fartos de ir a Fátima pelas estradas nacionais, de não obterem resposta da Virgem aos seus pedidos de saúde e boa vida e, com as graças das mudanças trazidas pela CEE, descobriram que o mundo não acabava na Serra de Aire e que por cá também existem santos. No caso, S.Tiago, com muito mais currículo de milagrosas curas e satisfação de desejos.

Não fossem os factos com que se deparou quando entrou no albergue e Marie não teria compreendido patavina do que o companheiro dissera. O albergue estava cheio, pior que isso, a camarata cheia de catequistas, beatas, livros de cânticos e virgens.
- Virgens?! Oh Deus! Fujam, eu sou Filho da Puta! Como poderei eu aproximar-me da enxerga da santa que me cuida dos pés?! Lá se estragou mais uma promissora oportunidade!
E estes eram os pensamentos com que preparava a noite que se esperava triste! Bem, pelo menos não seria o ressonar de Água Pé que iria perturbar a especial zeladora! Não lhe faltariam outras ondas ruidosas ao sono por parte daquela indesejada expedição de ratas e ratos de sacristia.
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domingo, 7 de novembro de 2010

GREVEGREVEGREVEGREVEGREVE

A forma fascista como a generalidade da comunicação social tratou a grande manifestação de ontem, deve dar-nos forças para prepararmos uma Greve Geral que demonstre o país real.
Essa não a poderão calar! Bem podem dar notícia de manifestações na Grécia, greves em Paris, ou papas na Galiza! Toda a gente saberá a verdade, por experiência própria, e os poderosos donos da comunicação social e do país podem mentir à vontade que ninguém os levará a sério.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Acumuladores ou pilhas? Eis a questão!

"O Governo decidiu proibir a acumulação de pensões com salários na Função Pública".
Depois do fim do aluguer dos contadores de água, esta é uma das medidas mais emblemáticas da governação Sócrates.

A diferença entre um acumulador e uma pilha, é que o primeiro pode recarregar-se e o segundo não. Eles hão-de dar-lhe a volta, ao resto é que não!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Na ressaca do orçamento

Na ressaca do orçamento, depois de tantas horas que passámos, aqui em casa, frente à televisão, nada me ocorre.
Pelos blogues da corte:
"Toda a nossa classe política e afins (comunicação social controlada, “politólogos” e outros fazedores da opinião pública), todos eles, não se cansaram de repetir dos malefícios e demais desgraças que adviriam para o país com o inevitável agravamento dos juros da dívida pública caso não se concretizasse o acordo sobre o orçamento entre Sócrates e Passos Coelho.
Só um acordo orçamental poderia acalmar os “mercados” afiançaram-nos com o ar sério de gente entendida.
Afinal, os juros da dívida pública, ao contrário do que andaram a propagandear dias a fio, subiram hoje significativamente, alcançando os 6,19%."

"Tudo aquilo de que o País não precisa está neste orçamento!"
"Este orçamento é péssimo!"
"Em nome do interesse nacional, em nome do País, vou votar este orçamento."
Manuela Ferreira Leite "Hegel"
(não lido ou mal lido) em Anónimo SécXXI

Aparentemente esta imagem parece não ter nada a ver com o momento político mas, com um pouco de imaginação, consegue-se sempre uma relação:
(cartoons encontrados no Guardião)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Sete Pés Dez

Mas continuemos, antes que "os porquês" respondam mal e nem sequer cheguemos a Santiago.

O albergue de Pontevedra surpreendeu pela moderna arquitectura. Sete Pés foi recebido por uma responsável que já o esperava por informação da francesa que chegara primeiro.

Foram apresentados todos os espaços e equipamentos desde a cavalariça às máquinas de roupa e de cozinha, à sala solene com as paredes compostas com retratos de gente digna de retrato. A volta alongou-se com a conversa porque a senhora também era portuguesa. Viera parar a Pontevedra por casamento no Brasil e, via essa história de vida, se fizera presidente da Associação dos Amigos do Caminho Português de Santiago.

Provavelmente por método de hábito, guardou a camarata para o fim, era um espaço amplo que não fazia separação de sexos. Lá estava Marie, quase ao fundo, sentada numa das camas, a coser páginas do seu diário. Empreenderam os acenos e sorrisos da ordem enquanto a portuguesa sugeria ao recém-chegado um beliche junto à entrada:
- Pode ficar aqui, está mais perto dos lavabos! Já disse à senhora, não sei se ela percebeu alguma coisa do que eu disse - não estamos muito habituados a caminheiros que não sejam portugueses no Caminho Português - como é que a casa funciona. Amanhã de manhã aparecerá aqui alguém para fechar a porta.

Quando a anfitriã se despediu de ambos, mais uma vez, os Pés sentiram o incómodo dos obstáculos que impediam aproximação a Marie. À medida que Pé de Meia esvaziava a mochila e tratava das coisas, Pé de Atleta ia olhando para o sítio da companheira de viagem mas, à distância de sete ou oito metros, era-lhe difícil avançar com mais do que um encolher de ombros ou um mostrar de dentes. Pé Ante Pé arranhou francês, quando partiu para o banho, ensaiando demanda acerca da temperatura da água.

Pé Descalço regressou seminu e, depois de se esfregar de cremes e pomadas, sacou da agulha e da linha e pôs-se às bolhas. Quais bolhas?! Os pés estavam uma lástima!
Não existia um único Pé que demonstrasse jeito em cuidar deles.
Marie ia a passar ao fundo da cama e olhou-os com manifesta compaixão. Sem comentários, foi às suas coisas buscar umas pomadas e umas pinças e pediu autorização para fazer o tratamento. Pediu também ao enfermo que se deitasse.

Convém lembrar que os sete pés que aqui se estendem não têm, pelo menos até agora, dedos que se contem além dos dez com existência física e que, nos cuidados em exercício, a dividir por sete, não chegavam dois a cada. Nesta circunstância houve que repartir – mal! – o bem pelos pododactilos.

Água Pé estremeceu, não tinha memória de alguma vez ter sido assim tocado. Durante o trabalho de enfermagem foi também tocado por um rol de pensamentos e sensações até se esquecer de todos os pés. Ou melhor, todos os pés entraram numa espécie de transe. Pé de Vento foi o primeiro a retomar a consciência, quando se deixaram de sentir as mãos macias e se ouviu a voz de Marie. Agarrava e mirava o par de botas enquanto lhes tecia defeitos em francês. Um atrás de outro foram acordando de boca ensonada e só Pé de Meia conseguiu formular um pensamento:
- Foram tão caras!....
Para comprovar os conhecimentos técnicos que discorria, Marie voltou à sua cama e regressou com as suas botas para apontar as características que as faziam próprias para grandes caminhadas. Deu também conselhos de meias e ensinou-lhe a técnica de ir colocando jornais à volta dos pés para absorver o suor.
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sábado, 30 de outubro de 2010

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

TV Porno

Confesso que nunca vi mas já acredito em tudo: 
Chama-se "Agora é que conta", passa na TVI" e é apresentado por Fátima Lopes. O programa começa com dezenas de pessoas a agitar uns papéis. Os papéis são contas por pagar. Reparações em casa, prestações do carro, contas da electricidade ou de telefone. A maioria dos concorrentes parece ter, por o que diz, muito pouca folga financeira. E a simpática Fátima, sempre pronta a ajudar em troca de umas figuras mais ou menos patéticas para o País poder acompanhar, presta-se a pagar duzentos ou trezentos euros de dívida. "Nos tempos que correm", como diz a apresentadora - e "os tempos que correm" quer sempre dizer crise -, a coisa sabe bem. No entretenimento televisivo, o grotesco é quase sempre transvestido de boas intenções.

Os concorrentes prestam-se a dar comida à boca a familiares enquanto a cadeira onde estão sentados agita, rebolam no chão dentro de espumas enormes ou tentam apanhar bolas de ping-pong no ar. Apesar da indigência absoluta do programa, nada disto é novo. O que é realmente novo são as contas por pagar transformadas num concurso "divertido".

Ao ver aquela triste imagem e a forma como as televisões conseguem transformar a tristeza em entretenimento, não consigo deixar de sentir que esta é a "beleza" do Capitalismo: tudo se vende, até as pequenas desgraças quotidianas de quem não consegue comprar o que se vende.

Houve um tempo em que gente corajosa se juntava para lutar por uma vida melhor e combater quem os queria na miséria. E ainda há muitos que não desistiram. Mas a televisão conseguiu de uma forma extraordinariamente eficaz o que os séculos de repressão nem sonharam: pôr a maioria a entreter-se com a sua própria desgraça. E o canal ainda ganha uns cobres com isso. Diz-se que esta caixa mudou o Mundo. Sim: consegue pôr tudo a render. Até as consequências da maior crise em muitas décadas.

(Entretanto a apresentadora recebe 40.000€ por mês. Foi este o valor da transferência da SIC para a TVI. Uma proposta irrecusável segundo palavras da própria.)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Sete Pés Nove


A manhã do Dia de Páscoa cresceu de sol ameno. Passada uma hora de caminho, subida uma encosta, o ar e a vista da baía de Vigo contribuiram para que cada pé tomasse os seus próprios passos.

O Caminho começava a revelar o seu lado milenar. Pé de Vento pegava com o olhar pedaços de paisagem, ramos verdes das bermas ou pedras polidas dos trilhos polidos.
Por vezes o Pé Descalço recuava à Idade Média procurando reencarnar espíritos antigos, tentando encontrar a Fé do temor dos Céus. Insistentemente, Pé de Atleta dava a volta ao facto, e ao olfacto, de Marie France por ali ter passado há poucas horas, entretinha-se procurando vestígios do seu rasto, sentia-se levado por certo magnetismo que tinha de admitir, reconfortava-se com o facto de poder gozar a solidão sem se sentir só na caminhada.

Marie era uma peregrina, entre muitas, que os galegos viam passar, que deixava efémeros “buenos dias” aqui, atrás e mais adiante, uma entre tantos os que caminham e os que caminharam para Compostela. No que a ela respeitava, Pé de Atleta quis assumir o papel de comandante de esquadrão, ela não era uma mulher que atravessava a parada dum quartel, ela, ele e os outros dele, eram, naqueles dias, os únicos donos do Caminho.

Para um caminhante crente, o encontro com Marie seria uma aparição, uma dádiva, uma provação, um sinal dos Céus, um anel de casamento. Acontece que nenhum dos pés se movia por Fé mas basicamente pela essência da função de qualquer pé: locomover os corpos que suportam.

Marie, não o escondia, escrevia um diário. Sete Pés cumpria apenas a sua condição de realizar caminho, e fazer caminho é dar passos e, contar os seus passos, ele nunca o faria, nem por interposto narrador, como aquele que no presente caso em leitura está para aqui a divagar sem rumo e sem caminho. Mas continuemos, antes que "os porquês" respondam mal e nem sequer cheguemos a Santiago.

Neste segundo dia, todos os pés se sentiam completamente peregrinos, peregrinos especiais porque incluíam na sua espiritualidade o facto de serem sete em um.
Grandes e acalorados debates fizeram os pés de fantasia, uns saudáveis, outros nem por isso. É normal que o esgotamento físico traga à flor da pele a fraqueza do espírito sobre a forma de roupa suja para lavar, as frustrações pessoais, ou os defeitos do próximo para se lhes atirarem. Num pico de cansaço, veio aos peitos dos pés a tal fraqueza e a discussão acabou a pontapé:

- Só pensas em ser primeiro! Estás com pressa ou comichão nas partes?!! Descansa que não vais morrer hoje!
- Poupadinho, só pensas em dinheiro! Olha que o Caminho não é remunerado! Hás-de morrer rico!

- Ora andas a pisar uvas e a cantar, ora andas a sopas de cavalo cansado e a variar! Ainda te perdes ou te ficas no Caminho!
- Irra que é chato! Que é que te dói agora? Desistir é morrer!
- Cala-te medricas! Vê lá se pisas merda!... Ainda morres de cuidados!
- Estás sempre a armar chinfrim! Arma mas é as velas e deixa de inventar tempestades porque podes morrer em alguma delas!...
- Pendura bolhento e mal cheiroso! Pobre nu! Hás-de morrer calçado com as meias do Pé de Meia!

E esta é apenas uma recolha feita a granel, de cada um, uma amostra, das bocas com que se mimavam entre si os pés juntos pelo destino. Valia que nos pontos de descanso vinha ao cimo a concórdia e o entendimento e os sete somados completavam o uno e indiviso, o indivíduo peregrino.

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sábado, 23 de outubro de 2010

Para matar de vez o Américo Tomás

- Se vocês se portarem mal, ele castiga-vos!
Segundo o meu ângulo de visão a professora apontava para o que estava no lugar de Barrabás. O do meio, nas condições em que estava, seminu e espetado numa cruz, não conseguiria fazer mal a ninguém e o do outro lado, um velho careca, parecia o Popeye, "desmusculado" e inofensivo, em farda número 1.

Dessa visão da parede do quadro nasceu-me uma nova resposta ao "que queres ser quando fores grande?!". Para mal dos meus sonhos fiquei sempre pequeno!..
Veio o mês de Abril e vi que o velho trocou a Armada pelo Exército e começou a usar monóculo porque não via a coisa. Mas, mesmo assim, continuou a ver tão mal que se trocou consigo próprio e, vendo um pouco mais, conseguiu que depois de Abril, viesse Maio e houvesse Verão. Depois mudou de voz e começou a falar pausadamente como se todo o povo andasse na recruta. Depois ganhou bochechas e fez-se vedeta e bonacheirão. Com o andar dos anos o velho passou a andar sempre preocupado e a chorar por tudo e por nada. Por fim, o velho encheu as bochechas de bolo rei e continou a ser Américo apesar de, depois de tantos nomes, responder agora ao nome de Aníbal.

Agora é a minha vez: anti-republicano, anti-militar, boa visão, voz de cotovelo, magro, despreocupado, anti-cavaco e novo e pequenino!
Nunca me chamaram príncipe e eu fui-o! Já me chamaram rei e eu sou-o. Mas para limpar o esterco da pocilga, eu estou disposto a trocar o trono pelo berço dourado de Belém!
Levante-se o primeiro português que, enquanto a professora da primária falava, não pensou em ser Presidente da República! Eu ainda penso!

Não penses mais neles!
Escolhe o menos porco!
Só vota em Pata Negra quem se enxerga!

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O que é um loop?

Trata-se de um termo  informático para definir uma confusão criada e que não possui uma explicação concreta para solução do problema.

Diz-se que um programa "entrou em loop" quando acontece o seguinte:

O director chama a secretária e diz:
-Vanessa, querida, tenho um seminário em Bruxelas  e quero que me acompanhe. Por favor faça os preparativos para a viagem...

A secretária liga para o marido:
- João! Vou viajar para o estrangeiro com o director por uma semana, cuida-te querido!

O João liga para a amante:
- Elvira, filha. A bruxa vai viajar para o estrangeiro por uma semana, vamos estar juntos, minha princesa ...

No momento seguinte, a amante liga para casa de um puto a quem dá explicações de particulares:
- Luizinho, esta semana estou com muito trabalho e não vou poder dar-lhe as explicações....

A criança liga para o seu avô:
- Avozinho, esta semana não tenho explicações, a professora vai estar muito ocupada. Vamos passar a semana juntos?

O avô, (que é o director desta história) chama imediatamente a secretária:
Vanessa - Suspenda a viagem, vou passar a semana com o meu neto que não vejo há muito tempo, por isso não vamos participar no seminário. Cancele por favor a viagem e o hotel.

A secretária liga para o marido:
- Ouve João querido! O idiota do director mudou de ideias e acabou de cancelar a viagem.

O marido liga para a amante:
- Amorzinho, desculpe! Não podemos passar a semana juntinhos! A viagem da bruxa foi cancelada.

A amante liga para o menino a quem dá aulas particulares:
- Luizinho, alteração de planos: afinal esta semana teremos explicações como de costume.

A criança liga ao avô:
Avô! A estúpida da minha professora ligou a dizer-me que afinal terei explicações. Desculpe mas assim não poderemos ficar juntos esta semana.

O avô liga para a secretária:
Bom Vanessa - O meu neto acabou de me ligar a dizer que não vai poder ficar comigo essa semana.
Portanto dê seguimento à viagem para Bruxelas.

Entendeste agora o que é um LOOP ??
(Já conhecias? Então não lêsses!)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Só falta o orçamento do electricista

Os livros, sempre os livros.

Há três dias que não vejo a borboleta.
Receio-a nas mãos de algum general.
Mas houve quem a viu...
Mas houve quem a tocou...

Saberá ela a hora do comboio de regresso?
Sentirá ela saudades do lar?

Há três dias que não toco a borboleta.
Estará ela no monte com as minhas irmãs?
Estará na cidade com o rapaz do citroen?

Há três dias que não a vejo.
Ia à igreja perguntar se Alguém a viu
Mas tenho tanto que estudar!
Ia ao cinema ver se a via.
Mas não tenho dinheiro,
Comprei um sol para a viola.
Há três dias que não a vejo.

Entra-me um ruído pela janela.
Será um avião? Será uma borboleta?

Tocam os sinos.
Será a meia-noite? Será uma borboleta?

Não consigo dormir e tenho ponto amanhã.

(o título do post é só para a fidalguia)
A minha "cônjuga" não acredita que não me lembro das cores das asas da borboleta que deve estar relacionada com alguma paixoneta. Se fosse hoje, tentaria a rima e no lugar do "rapaz do citroen", estaria o "homem da camioneta". Concluindo: não mudei muito!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Sete Pés Oito

Entenderam-se no vinho e isso foi o mais importante.
Entender o francês, Sete Pés foi entendendo, dizer é que não conseguia quase nada. Lá se ia safando! Por exemplo, quando ela lhe disse que era casada, ele, prontamente largou um oportuno “moi non!...”.

Não se pense que o deficiente domínio do francês perturbava a gestação do predador com algum luso-complexo de inferioridade. Bem pelo contrário, à sua frente, à francesa é que faltava formação por não saber patavina da língua portuguesa. Neste assunto de línguas estrangeiras sempre o incomodara observar que muitos portugueses sentiam admiração pelos ingleses pelo facto de estes falarem inglês melhor que eles.

De qualquer forma, era agradável partilhar momentos, com alguém, com obstáculos no canal linguístico, sem intérpretes amadores pelo meio: os longos intervalos de silêncio, a preparação do que se vai dizer, as frases reduzidas ao essencial, o puxar pelas palavras da outra língua da memória, o remedeio com tentativas numa terceira língua, o inventar ou experimentar palavras novas, o recurso ao gesto ou ao objecto próximo, o desenhar na toalha de papel da mesa, o não entender nada, o finalmente perceber e, claro, o riso que o desfecho de algumas situações abria.

Já no albergue percebeu que ela não fazia intenções de caminhar com ele, que partiria, por seu hábito, muito cedo e que, assim sendo, caberia a Sete Pés a responsabilidade da entrega das chaves no local combinado.

Um “bon soir” contra uma “boa noite” e a concordância de deixarem as lâmpadas de vigia acesas formalizaram a despedida. De certeza voltariam a encontrar-se no caminho do dia seguinte, quanto mais não fosse no albergue de Pontevedra.

Sete Pés demorou a adormecer com a tormenta dos seus pés desavindos. Pé de Meia achava que por ser francesa era rica e que, por essa razão, deveria ter pago o jantar. O Pé de Atleta achava que ela podia ter sido cortejada até à cama. O Àgua Pé que a deviam ter embebedado. O Pé-Ante-Pé dizia que, com calma, ela ia lá. O Pé Chato achava-a velha. O Pé de Vento pedia que ouvissem o vento que zunia lá fora e que se calassem para dormir.
Para Pé Descalço, o descalçar das botas, o desenfiar das meias e o passá-las pelo nariz, o desdobrar o corpo sobre a enxerga, constituíam o acto solene do dia, uma espécie de oração da noite à vida. Os pensamentos que se sucediam contra a almofada, a conversa entre pés, o tempero do cansaço, davam um tal conforto que todos acordaram entre si que dormir era das melhores coisas do Caminho.

Da reunião de estado de adormecimento ficou a intenção que, dali para a frente, cada pé cumpriria o seu papel, revezados sucessivamente, de modo a não existirem atropelos de personalidade que denunciassem os sete espíritos e afastassem a hipótese dum possível estado de enamoramento.
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domingo, 17 de outubro de 2010

Desta gente, nem bom governo, nem bom orçamento.

Esta fotografia, retirada do blog "NósTemosVacasNoJardim" ilustra bem o festim com que nos andam a entreter. O malandro não quer assumir que o filho é dele!
É simples, o Passos Coelho disse que "isto" deveria ser feito e Sócrates fez. Tem sido assim ao longo dos anos e foi assim que, habilmente, o PS ocupou por completo o espaço político do PSD.

É impressionante o pensamento único que os une, a leviandade com que colocaram o país nesta situação e o descaramento com que continuam a afirmar que eles é que sabem. É como se o assassino fizesse questão de levar o caixão.

Mas mais trágico do que esta gente nos governar é um povo que sucessivamente desabafa: ou um ou outro não há alternativa; se lá estivessem outros fariam igual; são todos iguais; com o meu voto não contam eles que eu não voto; noutros paises também é assim, isto sempre foi assim...
Pior do que deixar de acreditar nos nossos governantes é deixar de acreditar no nosso povo.
Por este andar, os trabalhadores ainda vão acabar a receber o vencimento em notas de avaliação:
- Quanto é que recebeste o ano passado?
- Um Muito Bom, e tu?
- Um Excelente!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O Sotão é doido

Para que serve afinal um sotão?!... O meu rapaz, desempregado de ofício, tem-me ajudado nas arredações.
- Ó pai, que raio de carta é esta?!
- Já te disse que podes guardar para ti as Gaiolas Abertas, os manuais de guerrilha, os "Chés" e as Playboys mas tudo o que fôr manuscrito é para queimar!
(peço perdão às mentes mais sensíveis mas os sotãos ajudam a revelar quem somos, pelo que fomos, e eu não estou aqui para me esconder)

que o sangue se afogue em touradas de delírio
prefiro o anel do lírio leviano
à raiva ociosa de uma folha de papel.

ó arte louca de sevícias copulações
vende-me a múmia dolorosa do perfume!

pénis belicoso do louco
lança ejaculações de vingança
sobre a trança escabiosa do lume do passado
pranta-te à terra e ao pranto da discórdia do costume
abraça o canto prásino da harpa antiga
"porque o meu filho estava perdido
e voltou à vida".

Talvez estivesse nos meus dezasseis anos. Não faço ideia do que pretendia, de onde vinha ou onde queria chegar com isto! Tenho a certeza que para o escrever fui pescar uns termos ao dicionário! Eu não era rapaz para tamanho vocabulário! Aliás, tanto o não era que o não sou e mais certo fico porque, sabendo que a memória não apaga o significado das palavras, acabo de recorrer ao dicionário - Porto Editora - para interpretar aquilo que eu próprio, púbere, escrevi:
- escabiosa, adj, cheia de erupções semelhantes à sarna.
- prásino, adj,  de cor verde
- pénis, s.m., orgão copulador.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O homem do pladur ou o Outono

(O homem do pladur veio tirar as medidas para as obras que andamos a fazer no sotão e agarrou um papel que encontrou dobrado no chão:
- Olhe lá isto! Pode ser alguma coisa importante!...
Peguei no manuscrito e li-lho:  )

OUTONO
-E agora?! Se o concerto acabou, para onde vamos?!

as árvores despem-se para o banho
a paisagem e o tempo vestem o homem
as primeiras chuvas são o leite materno
o rio irrequieto revela sintomas de primeira gripe
de nada serve arranjar lenha no verão
de nada serve arranjar água no inverno
tantas vidas
tantos anos
tantos outonos
um filho em cada estação
todos os anos escrevo pelo outono

- Para onde vamos?! Comprei um disco de que vais gostar!
1979

(O homem do pladur camuflou um encolher de ombros e tentou disfarçar um ar de compaixão. Li-lhe o pensamento: "será que este velho maluco terá dinheiro para me pagar o serviço?")

Outros outonos: 1980, 1982, 19831988,

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Sete Pés Sete


Tal como em Tuy, existiam duas camaratas mas com uma passagem larga e sem portadas de uma para a outra, junto ao balneário. Entre afazeres logísticos, camas, banhos e passadas, Marie e Sete Pés reavistavam-se de vez em quando, podiam ver-se compelidos a uma troca de sorriso mas a timidez natural de solitários, a barreira da língua ou o simples desinteresse não proporcionavam aproximação. Antes de saírem para procurar alimento, ambos precisaram de se estender na cama para aliviar o cansaço. Sete Pés topou que ela escrevia um diário e pôs-se a pensar nela e a alimentar suposições:
- Quem seria, do onde viria, porque estava ali?... Por acaso registaria no seu diário alguma coisa acerca do seu companheiro de viagem? Que mundo, que pessoas teria deixado para estar ali?… Por certo não faria a si mesma perguntas destas e ele não passaria, para ela, de um peão que só não se ignora completamente porque se nos atravessa no caminho.

Por pensar nisso, alguém teria dado pela falta do Filho da Puta na aldeia? Julgá-lo-iam migrado, emigrado ou morto? Perderiam tempo com o seu súbito desaparecimento após a morte da mãe? Teriam comunicado à polícia? Nem sequer ao taberneiro tinha anunciado a sua partida!...

Não sabia nada da francesa que observava discretamente entre beliches. De si próprio sabia alguma coisa: que tinha séptula personalidade, que vinha da terra que o ignorava, que estava ali para realizar Caminho.
Talvez o Caminho levasse a uma amizade!... Ao menos que ela lhe pudesse dar uma olhadela nas bolhas dos pés!...

Sentiu os passos leves aproximarem-se da sua cama e percebeu, com dificuldade, que estava aberta a possibilidade de irem jantar juntos. Sete Pés apontou a sua ida aos lavabos e, quando regressou, já não a viu. Desceu as escadas e encontrou-a a mirar a exposição do hall do edifício. Entre as parcas palavras possíveis, fecharam a porta, indagaram entre si a guarda da chave e, pelas ruas afestoadas, procuraram um dos restaurantes que as senhoras do albergue lhes haviam sugerido.

Sentaram-se como um par, comeram como um par. Só na escolha da comida é que foi difícil fazerem par, ou não fosse difícil a qualquer estrangeiro fazer escolha do prato em terra alheia. Entenderam-se no vinho e isso foi o mais importante. Sete Pés conseguiu desenterrar um pouco do seu francês de escola e entender que era bombeira reformada, que era duma vila dos Alpes franceses, Chamonix, que praticava alpinismo, que não partira de Valença mas de Fátima, que já fizera o Caminho Francês também sozinha, que as suas botas já tinham cinco mil quilómetros, que não tinha filhos e que o marido passava o tempo a ver futebol na televisão, facto que a chateava e, por isso, ela saía a dar estas voltitas a pé.

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Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Inesperada e surpreendente

Depois da inesperada e surpreendente candidatura de Manuel Alegre e do inesperado e supreendente apoio de gente do PS;
Depois de inesperada e surpreendentemente Mário Soares, só para chatear o velho amigo, ter criado a candidatura de Fernando Nobre com o inesperado e surprendente apoio  de gente do PS;
Depois da inesperada e surpreendente candidatura de Defensor de Moura e do inesperado e surprendente apoio de gente do PS;
Depois da inesperada e surpreendente candidatura de Francisco Lopes e do inesperado e surpreendente apoio do PCP;
Só falta mesmo a inesperada e surpreendente candidatura de Cavaco Silva com o inesperado e surpreendente apoio de toda a direita, incluindo o Mário Soares e outra gente do PS .

Pata Negra, o candidato que o povo espera! O candidato que não é apoiado por ninguém do PS!
Faz-lhes uma surpresa: Vota Pata Negra!

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Feios, porcos e maus...


Compram aos catorze a primeira gravata
com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas da limpeza após o combate.

São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem pelo faro
o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.

Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos - tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza acima de tudo.

A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.

No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.

José Miguel Silva
Movimentos no Escuro, Relógio d'Água, Lisboa, 2005.
(Via Recalcitrante)

Quem não conhecer um que me atire a primeira pedra!







terça-feira, 5 de outubro de 2010

5 de Outubro?! Isso não é o nome de uma rua de Lisboa?!

Nunca trabalhei no dia 5 de Outubro. Nunca festejei o 5 de Outubro. A rainha, que manda na república cá da casa, fez hoje anos e hoje houve festa cá à volta. Nestas circunstâncias e como futuro Rei da República não discurso mas já exijo:
1- Que Dom Duarte de Bragança se candidate à presidência;
2- Que Mário Soares não volte a dizer que é republicano e socialista;
3- Que o Senhor José Pinto de Sousa deixe de se armar em monarca absoluto;
4- Que o ministério da rua 5 de Outubro passe para a ponte 25 de Abril;
5- Que o blog Rei dos Leittões passe a chamar-se República dos Leittões.
Caso estes pontos não se cumpram entrementes e eu ganhe, como espero, as eleições, no acto de posse demitir-me-ei!
- Abaixo o Rei! Viva o Rei! Abaixo a República! Viva a República! E em qualquer dos casos, Duarte, Mário, José, Educação: Fora daqui! Tomem o próximo avião! Tomás! Brasil! Caetano! Convosco este território nunca será nem reino, nem república, será a vossa coutada!...Comigo será o campo farto de bolotas! E paro por aqui porque, com a festa, está-me a apetecer acabar de vez com a educação: José Mário Duarte, tu és um grande ca, ca, ca, ca, ca!...
Maldita gagez!... Nunca irei trabalhar enquanto não me tirarem o feriado, já faltou mais....Ainda não estou doido! Já faltou mais! Estou há cem anos a dizer a mesma coisa! Ninguém me ouve! Tudo na mesma!...
A rainha fez hoje anos e amanhã iremos viajar no mesmo avião em que viajámos há cem anos!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Sete Pés Seis

Uns tremoços?! Não! Uma refeição num restaurante de estrada perto de Porriño.. Chegados à cidade averiguaram que, contrariamente ao esperado, não havia albergue. Até Redondela ainda era uma distância do caraças, trinta e oito quilómetros para um primeiro dia era obra! A mochila já pesava muito mais do que inicialmente. Discutiram. Nem será preciso revelar os pés que queriam pernoita por ali e os que votavam pela segunda etapa. Carimbou-se a credencial na Casa Consistorial de Porriño e “à Caminho para que te quero!”

O traçado começava a oferecer ambiente para receber a energia do Caminho, para pensar na existência, no além, para olhar as coisas e os seres, para sentir o corpo, a força, a dor, para caminhar, cheirar a Galiza e até o odor de Marie France que de certeza por ali teria passado há algumas horas. Dito de outra forma, a Galiza deixava-se comer.

O pior foi quando a montanha se apresentou aos pés do rio, primeiro a aldeia com a rua íngreme, depois subir, subir, depois o planalto e lá em baixo as rias e Redondela, descer a custar tanto como subir, o fim da tarde a anunciar o anoitecer e todos os pés a rebentar pelas costuras.
O melhor foram as sandes de "xamón" e o vinho galego, o chegar e o saber que existia outro ser solitário pelo caminho.

Albergue de Redondela - fonte da foto

A chegada a Redondela aconteceu era já noite. O cansaço era já tanto que todos os Pés se ignoravam entre si, descomandados. A cidade festejava o Sábado de Aleluia. O abrigo para peregrinos ficava no centro, num edifício histórico recuperado para o efeito. Sentada no chão, à porta e com a mochila ao lado, com o perfil definido pela luz amarela da iluminação pública, uma mulher dos seus sessenta anos, cabelo curto e encanecido, estatura mediana, corpo consistente e atlético, roupagem de caminhante experiente, boca de crustáceo, sorriso sólido, bochecha rósea, claro: Marie France.

Já estava ali há horas, já alguém responsável por ali tinha passado - foram buscar as chaves. Três senhoras de fato festivo e bem parecidas apareceram na esquina, apresentaram com excepcional simpatia as instalações quase a estrear, falaram da festa, de onde se comia bem e entregaram as chaves bem como a indicação de onde, no dia seguinte, as deveriam deixar.  
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E dito isto, nisto, neste cenário, nesta circunstância, os sete pés, cada um deles, olharam-se a si próprios do artelho ao fim das unhas e pensaram, cada um deles, para si próprios, que a história deste dia sabia a pouco... assim, como os tremoços, tantas cascas e a fome sempre viva, por matar...
Isto é já só o narrador a justificar a falta de enredo... a falta de tremoços... a falta de cerveja... pois... escrevendo melhor: Até para a semana! Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra

sábado, 2 de outubro de 2010

A receita de mixórdia

Bem avisavam o velho para abandonar aquela velha receita de mixórdia que, em vez de o curar, lhe agravava a doença. O velho teimoso culpava os ventos e os ares e só dava ouvidos a curandeiros e feiticeiros. Ninguém o conseguiu convencer que o seu mal tinha origem no próprio remédio, pelo que acabou mal.

Toda a gente sabe que não vai resultar, o povo continuará com o futuro sempre adiado enquanto alguns continuarão a dançar a ronda no pinhal do rei.
Os prestigiados economistas e ex-ministros das finanças dirão que não resultou porque já foi tarde ou porque foi pouco, Sócrates dirá como sempre “é a crise” e Miguel Sousa Tavares dirá que a culpa é dos professores e todos eles continuarão a viver bem.

Entretanto, o verdadeiro governo continuará a ser de mercadores de capa negra enquanto ministros fantoches encenam, a seu mando, números e mais números. Puta que os pariu!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A Caminho de Belém

Eles fecham tudo o que é serviço público na província. E fazem-no com tal descaramento que garantem aos microfones que com o fecho desses serviços as populações ficam melhor servidas.
Dizem que os serviços fecham porque não têm condições e que nas capitais têm serviços de excelência. E dizem-no com tal descaramento que afirmam aos microfones que com o fecho desses serviços estão a combater a desertificação do interior.
Qualquer dia ainda acabam a deportar as populações para as cidades em nome da conservação da natureza e do combate à desertificação.

Pois o candidato Pata Negra pretende fomentar a deslocação das famílias das capitais para a província e, como o que está a dar é fechar, propõe o fecho imediato:
1- De todos os centros comerciais com mais que 1 dono.
2- De todos os quartéis com mais de 2 coronéis.
3- De todas as esquadras com mais de 10 polícias
4- De todos os parques com mais de 20 automóveis
5- De todos os hospitais com mais de 100 doentes.
6- De todas as escolas com mais de 200 alunos.
7- De todos as repartições com mais de 1000 clientes.
8- De todas as igrejas com mais 2000 fiéis.
9- De todos as freguesias com muitos eleitores.
10- De todas as sedes do PS que são bordéis.

A Presidência da República manter-se-á em Belém
Mas a coroa irá para Vila do Rei
VOTA PATA NEGRA - O PRESIDENTE REI

terça-feira, 28 de setembro de 2010

28 Setembro de 1974

Há quem diga que o 28 de Setembro de 74 não existiu. Há sempre quem responda com a piada primária de “claro que existiu, não houve foi 31!”

Eu era ainda muito novo e ficou-me dessa data a circunstância do nascimento dum irmão. A Ti Luísa, parteira lá da aldeia, perdera com a idade o necessário desembaraço da sua arte e, vai daí, o meu pai pediu emprestado um Fiat 600 - ou Fiat Uno, não vem ao caso - para a luz se fazer na maternidade da cidade. Só que à entrada da ponte de Santa Clara – nessa altura ainda não havia a Vasco da Gama – uma barricada do Movimento das Forças Armadas - ou de outras forças não vem ao caso - travou a marcha urgente e impediu a partida porque o proprietário do veículo tinha a bagageira equipada com uma catana belicosa. Vieram à minha mãe as dores mais fortes, julgaram que era manha e, se não chamam o alferes, o rapaz teria nascido ali no meio da operação revolucionária.
É por esta história de família que guardo o testemunho de que alguma coisa houve naquele dia.

Volvidos estes anos estou já um pouco cansado, como aliás já devem ter reparado numa ideia ou outra deste texto, mas mantenho esta vontade acesa de recordar tempos revolucionários para deixar aos novos a esperança de novas revoluções que hão-de fazer girar a história.
- Se bem me lembro o 28 de Setembro foi há 36 anos e nessa data nasceu um irmão meu. Não sei se o mais novo se o mais velho de cinco que somos. Gaita, agora é que foi! Não sei a qual deles eu devo telefonar para dar os parabéns…36 anos…eu tenho… hei-de lá chegar, não vou cometer a indelicadeza de me enganar!...

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Sete Pés Cinco

Quando chegou ao albergue percebeu que a nova companheira já estava deitada. Enrolou-se no saco cama preocupado com o facto de poder ressonar e incomodar. Não viria a pregar olho, os ruídos da festa e a ansiedade da caminhada não o permitiram.

Seriam seis da madrugada quando pressentiu a partida da francesa. Sentiu-se feliz e aliviado por poder preparar-se em solidão. Com a trouxa pronta, desceu as escadas e sentou-se cerimoniosamente à secretária para assinar o livro de registo e carimbar a credencial de peregrino. Escreveu, como viria a escrever em todos os livros do Caminho, o nome dos Sete Pés, sem qualquer outra referência a não ser a da nacionalidade de origem. Fixou o nome que o precedia na lista: Marie France.

A cidade estava ainda deserta e denunciava a noite de festejos, quando os sete pés de Sete Pés se fizeram ao Caminho. O Pé de Meia, o Pé Chato e o Água Pé queixavam-se do pequeno almoço e do preço. O Pé de Atleta e o Pé de Vento pareciam cavalos a galopar pelos campos. O Pé Descalço e o Pé-Ante-Pé mediam cada passo e apontavam as vieiras estampadas em azulejos que indicavam o Caminho de Santiago.


Ainda não havia uma légua de caminho e já o Água Pé e o Pé Chato reclamavam por uma paragem onde o corpo fosse recompensado. Uma mercearia de aldeia apareceu na hora certa, uma sandes de “xamón” e uma “cerveza” prepararam os pezinhos para atravessar a monotonia do longo Polígono Industrial Las Gándaras. Não era aquilo que se esperava do mítico caminho, os pés começaram a desentender-se e armaram um pé de vento por causa dos diferentes ritmos de andamento.
Ao fim da estrada que serve o complexo industrial, um complexo de nós encontra a auto-estrada e a carretera nº550 que servem a Galiza de alto a baixo. Entre as poeiras, os ruídos e os rails, sobranceira a um viaduto e isolada, uma casa de rés-do-chão a duas águas, uma taberna quase portuguesa e uma mulher quase minhota a aviar, resistem. O cenário pôs de acordo os sete pés e, ali mesmo, no silêncio do corpo a que pertencem, entre perguntas e respostas circunstanciais com a taberneira, ditaram regras e sentenças uns aos outros.
Saíram de acordo quanto ao facto que seria de bom viajante ir recolhendo informações, expressões e alimento, parando em todas as tabernas que aparecessem pelo Caminho. Não era só o Água Pé que gostava de tabernas, todos os pés gostavam, não porque gostassem de vinho mas porque das recordações de infância, a taberna lá do sítio que não gostara de engolir o facto da Puta ter dado à luz um filho, era o único local público onde Sete Pés pudera aprender e exercitar um pouco de vida social. A mãe mandava-o ir comprar tabaco, fósforos ou uma lata de atum e ele lá ia preparado para as graçolas dos fregueses e para reagir às suas tentativas de tirar nabos da púcara acerca das andanças da mandatária da compra. Por vezes, aviado e com troco, saía de corrida sem dar troco às provocações. Outras vezes dava-se ao jogo e elaborava inteligentes respostas e mentiras.
Para além de razões saudosistas, encantava-o também o romantismo, a austeridade e a humildade das tabernas: o calor do vinho, gerador de conversas, discussões, desgarradas e às vezes também de zaragatas; o balcão cheio de manchas que nunca era pintado, dois ou três bancos mochos, três ou quatro fregueses, quatro ou cinco pipos e cinco ou seis produtos - vinho, tabaco, fósforos, latas de conserva, amendoins, castanha pelada e pouco mais. Aos Domingos também havia tremoços.
- Por pensar nisso, já se comiam uns tremoços!...

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Na próxima semana há mais. Pode ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Obras no sotão

Há sempre uma folha dobrada num livro que não se abre há muitos anos:
Nos tempos que correm
I
Estou lúcido demais para gritar.
O sangue dói demais
Porque é feito de maravilhas e desastres
que os olhos, sempre os olhos, forçam a entrar

Versos?! – Versos não,
que já passou o tempo em que tudo foi dito,
de modo que, NOS TEMPOS QUE CORREM,
não convém falar

II
Se dentro de três dias a Virgem não me aparecer no olival,
faço-me sapo,
fumo um mar de charutos
e rebento...
-Olé! Pelo menos foi o que me disse o Presidente quando lhe contei
não haver grito nem voz,
nem deus que me contente!...
Percebo muito pouco da vida para entender as palavras dum homem do Poder
mas o senhor Presidente não me ia enganar!
-Não restam dúvidas! Estou tramado! Três dias de vida meu Deus!
Só porque nasci ontem e, entretanto, perdi o norte à minha origem!

- Errar é humano! (diz-se que os astronautas não podem errar)
Mas errar por essas ruas e encontrar um panfleto:
PROCURA-SE BICICLETA DE CORRIDA CINZENTA MGR-12-85
entrar em casa,
pôr-se em pelota,
não encontrar o sofá,
ficar desesperado,
fechar-se no quarto de banho,
esconder a chave,
escrever este texto,
dormir no banheiro,
acordar afogado,
sair pela janela,
apresentar-se ao trabalho,
- não é humano, aconteceu-me a mim! (logo eu sou um psiconauta)

“-alucinado!...
não há virgens,
não há reencarnações
e, embora existam sapos que incham,
não rebentam!...

muda de casa,
compra um chapéu,
faz-te um homem,
NOS TEMPOS QUE CORREM
os poetas têm que parar,
e cura-te! cura-te, que a vida são três dias!”

- disse-me isto, o Sol...
acendi um charuto e pensei para comigo:
estou são e sóbrio...
estou quase “O HOMEM IDEAL”...
MGR-12-85

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Limpando o sotão

- Esta sebenta vai para o lixo mas este papel fica:

Os vencidos da vida
Os olhos vermelhos, pequenos e distantes
-espelho baço.
As mulheres frágeis, vazias e amantes
-que estimulam.
O passo dos homens de sucesso e elegantes.
- Que importa o resto?! Frias e mundanas são todas as coisas!

Os campos, verdes, grandes e gigantes
- o horizonte.
As ceifeiras cantando canções dantes
- ecoando.
Os dentes dos poderosos e importantes
- os servidos.
Tu, a outra, o outro e a puta desta vida.
A porta da traição é o escape dos vencidos.

Quero todos os campos cobertos de videiras!
Quero tudo com vinho.
oitentas

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Sete Pés Quatro


Albergue de Tuy
Era Sexta-Feira Santa e em Tuy havia festa.
- Estranho, festejarem o dia do calvário!...
Entrou na catedral românico-gótica e procurou informações acerca do albergue. Era logo ali nas traseiras. A porta secular estava entreaberta. Entrou. Chamou por gente até aparecer do alto da escadaria que subia do hall para o primeiro andar, uma mulher a responder em francês. Sete Pés dizia pouco mais do que “oui”, “non”, “bonjour” e “mademoiselle”. Recordava com saudade a Violeta, a professora da preparatória que apresentara as personagens da família Dupont e seu cão Patapouf. Tirara o quinto ano! Na altura foi um grande feito para um filha da puta como ele mas era frustrante ter de admitir que não conseguia construir uma frase com meia dúzia de vocábulos e relembrar a superioridade de sua mãe no domínio do francês, ela cuja aprendizagem se deve ter iniciado na cama com turistas e emigrantes, no meio de simulações de satisfação sexual a dizer Oh Non! Oh Non! Oh Non! Oh Oui! Oh Oui! Oh Oui!

A francesa era também peregrina e fez entender que já estava instalada desde a tarde e que não vira sinais de existirem funcionários no alojamento. Esclarecido, subiu as escadas percebendo que a mulher desaparecera para a camarata feminina e que ele teria de tomar lugar na dos homens. Os dois espaços estavam separados por uma divisória que não chegava ao tecto sendo possível escutar, de um para o outro lado, os movimentos que se passavam em ambos. Não existiam sinais de outros peregrinos e as instalações respiravam austeridade, asseio, bom gosto e hospitalidade. Um duche de água quente animou o caminhante. Se encontrasse sempre aquelas condições pelo caminho seriam excedidas as suas expectativas.

Quando saiu para jantar não viu a tal senhora. Veio a encontrá-la nas ruas da cidade velha, atoladas de povo em festa. Trocaram apenas um breve e deferente cumprimento. Jantou bem, deu uma volta digestiva e regressou ao albergue.

No dia seguinte a sua forma seria posta à prova e era aconselhável deitar cedo. Caminharia triste e fechado? Caminharia alegre e aberto? Andaria devagar e pesado? Andaria depressa e ligeiro? Concluíra, em tempos, da observação das pessoas, que a forma como cada um anda em determinada andança é função da vida com que se dá a primeira passada do dia. No seu caso, possesso de sete vidas, esse espírito variava consoante o pé que andava e só se manteria constante se algum dos sete se impusesse aos restantes e tomasse o comando, o que era raro na democracia interior que cultivava. O Caminho era de todos os pés e, como tal, seria de esperar variações de humor continuadas.

Quando chegou ao albergue percebeu que a nova companheira já estava deitada. Enrolou-se no saco cama preocupado com o facto de poder ressonar e incomodar. Não viria a pregar olho, os ruídos da festa e a ansiedade da caminhada não o permitiram.
 
No seguimento do Sete Pés Três e para continuar no Sete Pés Cinco.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Andamos a fazer obras no sotão

Do Rio que, como a vida, passa…

A ti que escondes a poderosa beleza das crianças
E manténs o prazer de subir ao cume das montanhas:

Afinal não chega a ser o rio que nos separa
Nem a mesa da tua sala de jantar…
Talvez o mar, talvez a tua trança…
Ou o meu eu de desgraça,
Esta forma tão sem graça de aqui estar!
Sei lá! Que importa?!
Se a ferida não cessa de sangrar
E o meu cais tem sempre naus à porta para atracar!....
Algumas vêm do fim do oceano e partem enquanto sonho…
Outras vêm do sul e quando eu falo, vão!...
É certo, também há as do sol,
Trazem o ventre e o coração ao léu…
Ficam umas horas e vão com os pescadores
E eu fico olhando o rio… a barra… o céu…

Contigo foi diferente:
Eu parti de Sagres à aventura
E temo o fim das tardes de Lisboa, das noites de Verão…
Talvez o oceano, o sul, o sol nos desencontre…
Eu ficarei com a noite.
- E o Rio?!
1983

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Bombeiros estão bem dotados

Neste tempo de vindimas, das minhas histórias do Água Pé e companhia, dos caminhos da Galiza, estou em estado blogodepressivo de modo que só me apetece rir!
O autarca da Coruña Carlos Gonzalés-Garcés Santiso dá um bom exemplo aos nossos: riam-se!


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Sete Pés Três

E assim, ganharam vida e existência sete vidas na forma de sete pés: Pé de Meia, Pé de Atleta, Água Pé, Pé Chato, Pé Ante Pé, Pé de Vento e Pé Descalço.

Agora que a mãe se finara e lhe deixara liberdade para caminhar, Sete Pés poderia deixar a terra que não gostara de sua mãe, que não gostou de o ver nascer, que não lhe perdoou o facto de não ter pai. A falecida cuidara de Sete Pés e, neste particular, do Pé de Meia, facto que lhe permitiria sobreviver durante uns largos tempos sem preocupações financeiras se, como era de sua condição, gastasse massa apenas no essencial.

Os sete pés reuniram-se numa espécie de concílio e determinaram o Caminho. Porque teria de ser tomada uma direcção, porque deveria existir uma razão, embora pouco católicos, encontraram na seguinte premissa uma boa justificação:
“- Nunca será peregrino ou caminhante o cristão que não for a Santiago de Compostela a pé!”
E foi assim que a assembleia fez caminho de pé posto e determinou esse destino! Cada pé daria os seus passos, cada pé teria as suas motivações para caminhar, entre outras: Pé de Meia iria para gozar rendimentos, Pé de Atleta por desporto, Água Pé para tascas, Pé Chato para se chatear com os outros pés, Pé Ante Pé por temor ao Altíssimo, Pé de Vento para recolher a energia do caminho e Pé Descalço para fazer turismo e ouvir canções galegas.

Pé de Meia esclareceu os seus pares sobre a herança que a mãe puta juntara e encarregou-se de fazer um estudo económico; Pé de Atleta faria a preparação física; Pé de Vento trataria da lista de vestuário; Pé Descalço dos artigos de higiene; Pé Ante Pé dos artigos de farmácia; Pé Chato e Água Pé fariam não sei o quê.

Com os pés no estribo entenderam que não seria “caminhar” andar nas estradas portuguesas e tomaram o comboio até ao Minho.
Era fim de tarde quando poisaram pés em Valença. A mochila às costas denunciava o peregrino e, já na avenida que desce para o rio, um carro parou e o condutor perguntou se era preciso alguma coisa. Que não, mas mesmo assim o homem apresentou-se como padre José Maria, pároco dali, foi ao porta-bagagem e retirou uma oferta que constava de um guia do Caminho Português de Santiago e de um folheto com salmos e orações. Deu algumas indicações, alguns conselhos e a sua bênção e partiu com ar satisfeito de quem serviu.

Satisfeito também seguiu Sete Pés até à ponte de Gustavo Eiffel. Viu o edifício abandonado da antiga fronteira atenuar-lhe os receios de, pela primeira vez na vida, entrar num país estrangeiro.
- Um país estrangeiro, não é bem assim! - Interiorizara. A Galiza é quase Portugal, da língua e de outras coisas.

Começou a pisar o passeio pedonal da ponte já noite escura, rendendo cada passo a cada um dos pés e ouvindo, de cada um, um som diferente da trepidação dos ferros mal aparelhados. Os seus passos eram o cumprimento de todos os seus desejos, pensava:
- Que mais poderá desejar um homem na vida além de caminhar?!
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Já houve Sete Pés Um, Sete Pés Dois e para a semana haverá Sete Pés Quatro.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Sete Pés Dois


Não admira, portanto, que Sete Pés nunca tivesse tido afeição pelas pessoas. A mãe andava por lá na Vida e na Volta durante grande parte do dia ou da noite. A casa era pequena e sem condições e Sete Pés passava o tempo a vadiar pelas redondezas sem um amigo que lhe desse troco, sem um adulto que o tratasse por menino. Diriam os pais aos filhos “tu foge dele!”, diriam as comadres às comadres “à minha porta não pára ele!”…

Na escola foi sempre enjeitado mas aprendia razoavelmente. Com o tempo, as pessoas deixaram de o considerar perigoso e começaram a tolerá-lo da mesma forma que se toleram os cães sem dono. Quando entrou na adolescência começou a refugiar-se na música e, com catorze anos, conhecia tudo o que era música rock desde os anos sessenta até à sua época. Ouvia noite fora as estações de rádio que passavam das suas músicas e gravava cassetes estéreo a mono para duplicar a sua capacidade de armazenamento. Estes gostos e conhecimentos ainda lhe trouxeram um ou outro laivo de amizade mas Sete Pés não fora formado para valorizar o convívio ou a amizade. Além da música passava o tempo a caminhar. Adorava andar pelos campos a pensar e a observar tudo o que havia e não havia. Quando frequentou a escola da vila, que distava quinze quilómetros, muitas vezes aconteceu dispensar o comboio e regressar a casa a pé e, se por acaso, pelo caminho, alguém lhe oferecesse boleia, recusava-a. Ia a Fátima a pé sem ser por Fé e chegava a ir ver concertos de rock à cidade maior também à pata.

Tinha consciência de que este gosto lhe viera do facto de ter encarnado a alcunha “Sete Pés”. Aliás, ainda não teria dez anos quando se auto convenceu de que tinha mesmo sete pés embora, fisicamente, a realidade só revelasse dois a quem o via. Entendia que os seus Sete Pés constituíam uma entidade extra-física, tipo mistério da Santíssima Trindade mas, em vez de três, com sete em um ou do tipo do diabo configurado nos sete demónios do inferno.

A fantasia foi-se desenvolvendo no seu espírito e, com os anos, a sua imaginação de caminhante solitário foi criando na sua mente sete personalidades distintas que conversavam e discutiam entre si, que debatiam e determinavam a vida do ser uno vísivel Sete Pés.

E assim, ganharam vida e existência sete vidas na forma de sete pés:
Pé de Meia,
Pé de Atleta,
Água Pé,
Pé Chato,
Pé Ante Pé,
Pé de Vento
Pé Descalço.
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Na semana passada houve Sete Pés Um e para a semana haverá Sete Pés Três.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Leitão à sexta

Embora um pouco discreto e cabisbaixo o Rei continua determinado em focinhar nas cercas da república. Há sempre assunto, quando a alma não é pequena, pode é não haver tempo se se anda sem pachorra e pachorrento. Fiquemos por aqui.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Canção de Setembro

Arraial Popular e Verão

Quem são os deuses a quem se dirigem os foguetes que rasgam o ceú
Quem foram os homens que rasgaram o véu da mulher-a-dias

Canção de Setembro tentando ainda o vinho velho
pelas suas histórias, pelas suas alegrias

Desgraça de viúvos desencantados
que entregam seus cabelos à desordem
Partem os filhos homens à espera do ano de regresso
Lá para o meio da vida quando os filhos a tiverem no começo

o meu piano está coberto de poeira
e cria flores
e queria esperança e graça

a Este são dores
as cores da nossa casa

No Inverno de Paris ouvir-se-ão as melodias do Verão de cá
(a todos os conterrâneos emigrantes lá)