sexta-feira, 29 de abril de 2011

Terra de ratos, gatos e porcos

Se os gatos governam e são presos os ratos que querem governar, que não triunfe a velha esperteza dum reino de porcos mas que se escolha o Rei dos Leittões. A mim ninguém me prende, nem niguém ousará acusar-me de querer comer os outros! Um video didáctico, para o ratos que teimam em votar nos gatos e não reconhecem a harmonia com que vivem na pocilga com os leitões:


segunda-feira, 25 de abril de 2011

35 - O Caminho do Fim da Terra

- Estás convencida que um dia serás famosa por isso? Para que raio escreverá uma pessoa se não for para outros lerem? Para ler só ela, só se tiver um problema grave de memória ou se gostar de se masturbar literariamente?

As considerações a propósito do diário secreto de Marie foram florindo e fizeram dele fruto apetecido, fruto proibido, aguçando a curiosidade, a ousadia, a fraqueza ou ciúme de Sete Pés. Foi Pé Ante Pé que, numa manhã em que Marie foi a Cee sozinha tratar de assuntos de banco e de compras para o dia a dia, primeiro avançou sobre a encadernação que compunha o manuscrito! Foi Pé Chato que se pôs a ler aos outros pés, em assento e acento de professora, de avó, de avô, de pai ou tia – pronto! de quem lê histórias! - num tom de desvendo, revelação, historieta, história, romance, diário, de conto… e contou…

Não seria surpresa que ali se relatassem coisas do Caminho e de coisas outras e outras pessoais e/ou banais, que se escrevem em diários de senhoras que vivem ou caminham com os seus devaneios. E até se aceitavam coisas em que os pés entravam e saíam porque da presença e companhia deles seria justo o registo.
Agora que Marie registasse a mística dos Pés, que fizesse referências a cada um e ao seu desempenho sexual e que, pelas confidências do namoro, tivesse escarrapachada esta história, que aqui se conta, até aqui, pareceu a muito!

(Sim porque esta história que andais a ler há trinta e cinco semanas é o diário adulterado, a história que Marie, apropriada das confidências do Pé Descalço, foi escrevendo e usando.
Nesta situação, a partir deste parágrafo, já não se sabe quem escreve ou conta. Por isso, o melhor é deixar tudo como anteriormente e fazer de conta que a narradora não se chama Marie e que isto não é o seu diário.)

Quando ao fim do dia Marie regressou de Cee, Pé Ante Pé, primeiro de pé atrás, depois de rodapé, pôs o pé na fossa e de pé para a mão – melhor, para a boca! - largou:
- Mas que merda é esta?!
O diário de Marie nas mãos de Sete Pés!... Marie artilhando a boca, estremecendo os lábios em pé de guerra! Os sete pés embrulhados em pose de “sempre em pé”…
Água Pé, que tinha passado a tarde a abrir e fechar o frigorífico, precipitou o questionário e meteu o pé na argola, a mão na ferida e Marie ficou ferida de ir embora.
- Violada! - nas palavras dela.

Das palavras dessa noite fez-se o caldo que azedou o lirismo do romance. Nos três dias seguintes a este episódio choveu muito, a aldeia tornou-se num enorme lamaçal, a vida forçada em casa gerou tédio e cansaço mútuo. Ouvia-se nas notícias que um petroleiro havia feito das suas nos mares altos e vivos da Galiza. Dia após notícia, o nome Prestige entrou no vocabulário quotidiano.

Mesmo assim, apesar da tempestade que se estabelecera entre os dois e na Cuesta da Morte, durante uma acalmia, encontraram espaço para se sentarem de mãos dadas, no banco corrido da varanda corrida das traseiras da casa, a olhar o mar.
- Vês uma mancha negra além no oceano?
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Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra.

sábado, 23 de abril de 2011

Até segunda

Poucos a ajudaram a fugir de casa
Para vir casar à rua com um soldado
Poucos ousaram dizer mal da noiva
Apesar dela vir vestida de vermelho

Já lá vão trinta e setes anos
Muitos lhe contam os dias
Apesar dela conservar a graça e a razão
Muitos são os rendidos, comprados e vendidos

Não sabem eles que ela engravidou
De novos portugueses. Finalmente!
E segundo a ecografia
Vem aí uma ainda mais bonita do que a mãe
E terá também o nome dela: Abril.

Se eu acredito na ressurreição?!...
- Dos vivos sim! É mais provável amanhã ressuscitar um homem que morreu há muitos anos ou na segunda-feira ressuscitar uma revolução?!

No 1º de Maio os trabalhadores dos hipermercados vão trabalhar! Colaborar! Dizem os seus exploradores! Interesse público?! Produção?! Necessidade?! Não! A belmirização do país! Humilhação! Esticar o elástico!
Isto não pode dar merda! Isto tem de dar Revolução! Abril!

quinta-feira, 21 de abril de 2011

A canção de Israel também é de luta

Tanta polémica porque a canção que vai representar Portugal no festival da Eurovisão fala de luta! Que dirão os israelitas?! A canção deles é bem mais polémica do que a nossa! Só o nome é de gritar: "No buraco errado".
Vejam o videoclip e a tradução!
A luta é alegria!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

34 - O Caminho do Fim da Terra



O local costumeiro era o banco corrido da varanda corrida virada para o mar.
Pé Ante Pé dizia:
- Vou para a varanda trabalhar!... Vou sentar-me a pensar! Sou pensador de profissão!
Marie ria e contrapunha:
- Então espera lá que eu já lá vou ter! Sou amante profissional!
E então acontecia muitas vezes que, enquanto Pé Ante Pé pensava, um ou outro pé coçava o amor.

- Aprecio num homem o humor, humildade e desinteligência!
Água Pé riu-se e limpou baba do queixo e Pé Descalço esfregou satisfeito os dedos das mãos entre os dedos dos pés e cheirou as mãos. Passaram olhares interrogativos de pé em pé como se pela primeira vez fossem levados a concluir que nenhum deles era inteligente! Marie topou as movimentações de identidade e a pretensão de encaixarem no seu trímodo de homem ideal e apontou na direcção dele:
- Mas tu és inteligente!
- Não sou nada!
- Ora, a pessoa que não se considera a si própria inteligente é porque é burra!
- Logo, não sou inteligente! Mas se isso te põe contente, também não me parece muito inteligente uma mulher que ama um burro!
- Vês és inteligente! Aliás, se não o fosses, eu já teria percebido com que pé estou a falar. Mas não, estou às escuras!
- Então acende a vela!
- Não tens piada!
- Mau! E vão duas – nem pêlo de burro, nem sentido de humor!...Também não sou humilde?!...
- Se fosses humilde, reconhecerias que és inteligente!
- Não quero mudar o mundo, quero apenas que o mundo não me mude a mim!
Os homens inteligentes criam empresas e negócios ou estudam e fazem carreira, eu não passo dum humilde órfão que está aqui a tentar fazer rir uma reformada!
- Nem todos, muitos deixam-se encantar por outras coisas da vida mas acabam por se perder no amor, no vício ou na revolta. No teu caso, receio que estejas perdido pelo amor!
- Se estou! E acabo de ser formalmente informado, que não sou correspondido!

Com o tempo a passar e estas reflexões adolescentes, não apareceu o tédio mas a paixão, o caso, começaram naturalmente a sofrer transformações.
Marie não dispensava o seu tempo diário para o seu Diário. Todas as noites, antes de ir para a cama ou já na cama, pegava na caneta e discorria. Do que escrevia nada contava e nunca deu a Sete Pés confiança para pedir relatos ou para dar espreitadelas. Aquele caderno fazia parte de uma intimidade intocável.

- Estás convencida que um dia serás famosa por isso? Para que raio escreverá uma pessoa se não for para outros lerem? Para ler só ela?! Só se tiver um problema grave de memória ou se gostar de se masturbar literariamente!...
- Masturbação literária! Vou registar essa! As pessoas que não escrevem diários vêem sempre a escrita não documental associada aos romancistas que fazem dinheiro com o que escrevem. Não compreendem que, tal como as pessoas que correm no parque não têm motivações competitivas, o fazem apenas por gosto e para manter a forma, também nós, os que cultivamos a escrita de gaveta, o fazemos apenas por prazer e exercício!
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Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Belmiro de Azevedo entrevistado na RTP1

Porquê?

Quando abriu o primeiro hipermercado Continente em Lisboa, o Zé pegou no carro e na família e fez-se à estrada. A grandeza, as luzes, os reclames, o Portugal de progresso, o tudo para comprar, o barato fizeram que, durante uns dias, o Zé não falasse de outra coisa a amigos e vizinhos:
- Uma pessoa apetece-lhe comprar tudo! Aquilo até dá gosto comprar!

Quando abriu o Continente na capital de distrito do Zé, ele desabafou:
- Até que enfim que chegou aqui o desenvolvimento! Agora sim! Já tenho programa para todos os Domingos!

Quando o Belmiro de Azevedo veio à escola da filha falar de empreendimento, o Zé tirou a tarde e foi ouvi-lo embevecido e até, da palavra do público, lhe pôs uma questão que teve a resposta desejada!

Quando abriu o Modelo lá na Vila, então é que foi! Cem empregos! Um cartão de descontos! Senhas de descontos na Galp! Produtos de marca Continente muito mais baratos! E até uma caixa automática para tipos como ele, que percebem de novas tecnologias, registarem e pagarem as suas próprias compras sem terem de estar na fila a aguentar a inabilidade da rapariga paga a preços baixos.

Se não fosse aquele investimento o que seria daquela terra! Está tudo pelas horas da morte! A mulher do Zé, que trabalhava numa loja de ferragens, bem pode agradecer por acaba de conseguir um contrato de seis meses na limpeza do centro comercial. A exploração de produtos agrícolas, onde trabalha o Zé, bem pode dar graças a Deus por existir o Continente, a margem de lucro é ínfima mas sempre dá para se irem aguentando.

Disseram ao Zé que o Continente é como o eucalipto! O Zé diz que um carvalho demora 100 anos a criar! O Zé acha que isto tem de ser assim!

Mas não tem! Nacionalização imediata do Continente! Limitação da zona de exploração da Sonae às Berlengas!
Estamos na miséria enquanto os Azevedos sobem no pódio dos mais ricos do mundo! E, como se não bastasse, para comentar a crise, a televisão do estado deu uma entrevista no horário nobre apresentando-o como o maior empregador do país!

Enfim, informação democrática! Como se fosse possível este post sair reproduzido amanhã na coluna “blogues em papel” do jornal Público!

Marionetas Financeiras


quarta-feira, 13 de abril de 2011

Não é o FIM nem o princípio! É apenas o FMI

E quando todos já pensávamos que o homem não nos podia F mais ele muda a M e troca o I . E esperemos que ele não se lembre de entrar por Badajoz!

terça-feira, 12 de abril de 2011

Não liguem ao FMI

Dizia o meu pai que a engenharia do Criador falhou redondamente na parte dos dentes: estão sempre a dar problemas! Um bico teria sido uma solução muito melhor!

Cá na casa, o casal há muito anos que tem próteses dentárias! Há muitos anos que um copo de Higland Clan – um Whisky tão rasca que os comercializadores costumavam compensar a fraca qualidade com a oferta de um copo – me servia para pôr de molho a dentadura. A dela costumava repousar  num copo de quermesse!
Acontece que os anos enfearam-nos e a cuidadosa dona da casa achou por bem comprar dois novos iguaizinhos, em plástico azul-belmiro-de-azevedo. E, como os anos não trazem só a falta de dentes, aconteceu-nos andarmos todo o dia de placas trocadas e, só à noite, no desenrolar duma piada de fazer cair os dentes, olhámos cada um para a sopa do outro e ao mesmo tempo observámos:
- Essa dentadura é a minha!

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Trinta e Três farinha e Sete Pés


Depois da primeira manhã, na primeira tarde do primeiro dia, depois do almoço improvisado com "frutos da horta" que a esposa de Xésus Agrelo veio trazer, acharam por bem ir à mercearia da aldeia abastecer-se de mantimentos para a casa.

Na manhã do segundo dia, por proposta de Xésus Agrelo, Pé de Meia e Pé de Atleta foram com ele para a pesca de anzol junto à costa. Depois da segunda manhã, na tarde do segundo dia, Pé Descalço e Pé de Vento, foram com Marie para a praia, tomaram banho no mar revolto e frio e enrolaram-se na areia fina.



No terceiro dia, Pé Ante Pé, passou o dia com Xésus Agrelo a ajudá-lo nas coisas da lavoura. No quarto dia, Água Pé deu a volta com Xésus Agrelo pela aldeia e ficou a conhecer e a ser conhecido pelos naturais. No quinto dia, Pé Chato já achava os dias sempre iguais. Nos dias seguintes, dos três meses seguintes, repetiu-se o convívio, a pesca, a lavoura, a praia, o campo e amor que a maior parte das vezes se fazia no banco corrido da varanda com vista para o mar. Os caminheiros amantes pensavam, cada um para si, no Fim daquele estado de enamoramento mas nenhum deles ousava tocar no assunto ou falar de Finisterra. Foram várias vezes a Cee, o burgo município, umas vezes à boleia de Xésus Agrelo, outras de autocarro e até a pé, tratar de compras e outros assuntos mas pisar Finisterra nunca esteve em cima da mesa, seria o Fim. Xésus Agrelo foi-se apercebendo dessa não-vontade e  interrogou-os acerca do impedimento, tendo aceitado, com galega inteligência as suas explicações.

Sete Pés, porque não tinha família nem raízes e porque estava estava a realizar o seu projecto de vida de caminhar mundo além, poderia estar ali a vida inteira que ninguém daria pela sua falta. 
Marie, por outro lado, com a sua idade e a sua vida, já tinha contribuído para certas mudanças, dum mundo que muda sem reconhecer o contributo das marias que o mudam. E foi por ter observado  o mundo mudado que ajudou a mudar, que se sentia ali bem, num outro mundo. O seu mundo novo que se consumia à velocidade de uma vela de cera ardendo!

Quando ia a Cee fazia longos telefonemas para o marido e inventara uma explicação para o adiamento do seu regresso a França: da sua competência de bombeira reformada, com conhecimentos na área do socorrismo, surgiu-lhe a oportunidade de fazer uma temporada de voluntariado numa organização de apoio aos peregrinos do Caminho. - Mentira?!

- Eu sou sete peregrinos necessitados de especial apoio e uma mentira pode valer a pena se a razão não for pequena!
Consolava-a Sete Pés com as suas razões “pessoanas” que, frequentemente, serviam também para brincar com ela com a desmultiplicação de pés. Marie perguntava sucessivamente:

- Com que pé estou a falar?... Que pé está em cima de mim?... Que pé me está a chamar?... Ai! Ai! Todos não que me confundem!... Ai! Ai! Todos não que me derretem!..
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Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Todos menos eu

E se lá no estrado público onde discursas
Ouvida deste trono se consente
Não te esqueças do meu desejo ardente
Que quando disseres:

"os portuguesese desejam...
os portugueses querem...
os portugueses gostam...
os portugueses adoram...
os portugueses confiam...
os portugueses devem...
os portugueses precisam...

os portugueses percebem...
os portugueses sabem...
os portugueses estão...
os portugueses vão...
os portugueses são..
os portugueses assim...
os portugueses assado!..."
deves dizer "os portugueses, menos um, .......!"
porque não te autorizo a falares por mim
nem a ti nem a nenhum do teu estrado!


E só porque no modesto trono onde se me chega
Prefiro ser "menos um" a referência
Do que o tratamento de excelência
"Sua majestade Pata Negra"

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Comunicação do Sócrates

Ouvi antentamente a comunicação ao país do Primeiro Ministro e as reacções dos partidos políticos.

Só tenho uma coisa a dizer: Ui.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

E vão Trinta e Dois Sete Pés

Já lá vai o tempo em que os escritores tinham de puxar do vocabulário e de entrelaçar as palavras para descrever paisagens, hoje é o tempo das imagens, por isso, em vez de nos perdemos por aqui a estender prosa para enquadrar o romance mais vale estender umas fotografias e passar a outro nível. Todas as imagens foram retiradas do Google Earth nos locais exactos em que se desenrola o Caminho.



Xésus Agrelo não os convidou para sua casa, preferiu ir com a mulher e com a panela da sopa, jantar a casa dos hóspedes. Era uma forma de utilizarem a sua segunda casa, de não arriscarem expor a primeira a desconhecidos, de aproveitarem a ocasião para recomendações sobre as existências e funcionalidades, de mostrar as fotos dos familiares e antepassados.

Porque a sopa partilhada arranjou espaço para muito mais, Xésus Agrelo foi buscar à casa mãe, enchidos, queijo e tudo o mais que tinha para completar a refeição, sem esquecer o vinho - o vinho faz amizades, o pão e o vinho fazem o Caminho.

No fim do serão foi motivo para brinde a decisão de ficarem por mais uns dias face ao programa de actividades que se inventou.

Na primeira manhã, Marie e Sete Pés, ficaram por ali a namorar, no banco corrido da varanda com vista para o mar, que corria o alçado da casa com vista para o mar duma ponta à outra. Pela primeira vez, Marie,  fez amor com os Sete Pés;  houve, portanto, orgia a sete para uma, ora com um pé, ora com outro:

Pé Ante Pé pensou duas vezes; Pé Chato pensou no banco; Água Pé sentiu-se entesado pela ressaca; Pé de Vento ofegou; Pé Descalço despiu-se; Pé de Meia tirou as meias e Pé de Atleta pensou: vamos a isso!

Marie parecia que tinha optado pela permanência naquele local apenas por aquele momento, queria amar aquele jovem ali!

Pé Ante Pé avançou pé ante pé sobre Marie e ela sentiu a insegurança do jovem. Pé Chato preocupou-se com a dureza do banco de madeira e Marie disse que não fazia mal. Água Pé, fora de si, largou as mãos e Marie afastou-as. Pé de Vento entrou suave; Pé Descalço – pele! Sinto pele!... Pé de Meia – Preservativos?! E Pé de Atleta assegurou o vai e vem. E no fim todos em coro cantaram: já me vim!

Marie experimentou sete orgasmos, nunca tal lhe havia acontecido, ficou intrigada e falou disso. E foi assim, no calor e na aproximação que completam os verdadeiros actos de amor, que Sete Pés se revelou e um a um, cada um dos pés de si falou, deixando Marie estupefacta com a intimidade do seu amigo íntimo.

- Tu?! Sete Pés?! Neste momento “re-vejo-te” mais com um bicho de sete cabeças! Bicho não! Pronto! Bicho-homem!

E nos dias seguintes muitas coisas contaram um ao outro de cada um deles. Sete Pés desenrolou a sua infância, apontou os seus 35 dedos dos pés, acusadores, à gente rude e cruel da aldeia, denunciou a santidade da sua falecida mãe e manifestou esperança de um dia existir igreja para a canonizar sem lhe omitir a profissão, muito pelo contrário, de a eleger padroeira das prostitutas!
- Aqueles labregos só não me pisavam porque me achavam um monte de merda!
- Deixa-te de lamechas rapazinho! Tens de ganhar auto-estima!
- Que é isso?! Isso é alguma oficina de manutenção de carros?! Auto-estima?!

E riram os dois e Marie também contou das suas e de como se tornara caminhante por não apreciar ser viajante.

- Viajar é coisa das gentes escravizadas pelo trabalho e pela carreira. Quem viaja tem sempre o pensamento no regresso, vai e vem com pressa e não tira fotografias pelo caminho mas apenas e muitas no local do seu destino. Vai de meio de transporte para ser depressa e, embora possa observar a paisagem, não a cheira, não a tacteia, não vê os répteis nem as caixas de correio nos muros das casas. Pelo contrário, nós enquanto caminhamos, falamos com as pessoas, cheiramos as plantas que se cruzam connosco, sentimos cada passo, não temos pressa de chegar e damos mais importância ao caminho do que ao destino.
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Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Comunicação do Cavaco

Ouvi antentamente a comunicação ao país do Presidente da República e as reacções dos partidos políticos.
Só tenho uma coisa a dizer: Ai.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Escondam a Islândia!

Islândia. O povo é quem mais ordena. E já tirou o país da recessão!
A crise levou os islandeses a mudar de governo e a chumbar o resgate dos bancos. Mas o exemplo de democracia não tem tido cobertura.

Os protestos populares, quando surgem, são para ser levados até ao fim. Quem o mostra são os islandeses, cuja acção popular sem precedentes levou à queda do governo conservador, à pressão por alterações à Constituição (já encaminhadas) e à ida às urnas em massa para chumbar o resgate dos bancos.
...
Assim que a banca entrou em incumprimento, o governo islandês decidiu nacionalizar os seus três bancos privados - Kaupthing, Landsbanki e Glitnir. Mas nem isto impediu que o país caísse na recessão. A Islândia foi à falência e o Fundo Monetário Internacional (FMI) entrou em acção, injectando 2,1 mil milhões de dólares no país, com um acrescento de 2,5 mil milhões de dólares pelos países nórdicos. O povo revoltou-se e saiu à rua.


Lição democrática n.º 1: Pacificamente, os islandeses começaram a concentrar-se, todos os dias, em frente ao Parlamento exigindo a renúncia do governo conservador  em bloco. E conseguiram. Foram convocadas eleições antecipadas e, em Abril de 2009, foi eleita uma coligação formada pela Aliança Social-Democrata e o Movimento Esquerda Verde.


Durante esse ano, a economia manteve-se em situação precária, fechando o ano com uma queda de 7%. Porém, no terceiro trimestre de 2010 o país saiu da recessão - com o PIB real a registar, entre Julho e Setembro, um crescimento de 1,2%, comparado com o trimestre anterior. Mas os problemas continuaram.


Lição democrática n.º 2: Os clientes dos bancos privados islandeses eram sobretudo estrangeiros dos EUA e do Reino Unido. Com o colapso, os governos britânico e holandês entraram em acção, indemnizando os seus cidadãos e planeando a cobrança desses valores à Islândia.


Só que, mais uma vez, o povo saiu à rua. Os governos da Islândia, da Holanda e do Reino Unido tinham acordado que seria o governo a desembolsar o valor total das indemnizações. Em Fevereiro, o Parlamento aprovou a lei e fez renascer a revolta popular. Depois de vários dias em protesto na capital, Reiquiavique, o presidente islandês, recusou aprovar a lei e marcou novo referendo para 9 de Abril.


Lição democrática n.º 3: As últimas sondagens mostram que as intenções de votar contra a lei aumentam de dia para dia, com entre 52% e 63% da população a declarar que vai rejeitar a lei n.o 13/2011. Enquanto o país se prepara para mais um exercício de verdadeira democracia, os responsáveis pelas dívidas que entalaram a Islândia começam a ser responsabilizados - muito à conta da pressão popular sobre o novo governo de coligação, que parece o único do mundo disposto a investigar estes crimes sem rosto.


Para as mudanças constitucionais, outra vitória popular: a coligação aceitou criar uma assembleia de 25 islandeses. A nova Constituição, incluirá um novo projecto de lei, o Initiative Media - que visa tornar o país porto seguro para jornalistas de investigação e de fontes e criar, entre outras coisas, provedores de internet.
É a lição número 4 ao mundo, de uma lista que não parece dar tréguas: é que toda a revolução islandesa "está a passar despercebida"(?) nos media internacionais.

Cum trinta e um! Sete Pés!...

- Cheguei!
- Molhado!
Pelos atrasos, provocados pelos contratempos da etapa, era ponto assente que não conseguiriam chegar naquele dia a Finisterra.
- Ainda bem! - concluiram - não temos pressa nenhuma de chegar!
Contudo, seria bom que, antes do anoitecer, conseguissem alcançar a primeira aldeia que o mapa assinalava junto ao mar e aí procurar abrigo e alimento. Foi com esse objectivo que aceleraram o andamento, sem nunca se perderem de vista um ao outro.

Era de postal o que se via, o areal da praia ao fundo, dividindo o mar dos pinhais e canaviais. Estavam numa meia encosta, a uns trezentos metros, acabavam de sair dum carreiro do mato e encontrado uma estrada asfaltada que, igualmente com mais trezentos metros, conduzia a uma aldeia que, à primeira vista, aparecia dispersa e de poucas casas. Obrigatoriamente ficariam por ali, fosse onde fosse. Aquele era o cenário ideal para se acordar. Quem diria que ainda existiam povoações com praias e sem reclames da coca-cola!?

Um tractor agrícola, vindo dos campos para a aldeia aproximou-se e, em comando automático, ambos lhe acenaram pedido de paragem. Pé Ante Pé explicou ao condutor a situação e este, sem demonstrar receios de forâneos, habituado que estava às gentes do Caminho, arretou positivamente. Largou o volante, pôs pés em terra e de voz alta, para vencer o ruído do motor, ajudou-os a subir para a carroçaria e formulou a apresentação:
- Xésus Agrelo! Benvindos a Padrís!

A casa onde parou o tractor, distanciada umas centenas de metros do aglomerado do povo, era de agricultor. Do outro lado da estrada, do lado do mar, ficava a casa que herdara dos avós. Quando calhava arrendava-a nos meses de sol a pessoas que gostavam de passar férias em praias sem reclames da coca-cola. Por uma noite não pagariam nada, se quisessem ficar mais tempo era uma questão de negociar.

A casa estava composta com  móveis e utensílios, uns que serviram os que ali fizeram família, outros que eram sobras  do herdeiro que para lá ia mudando as coisas que transbordavam da casa farta de ex-emigrante. Este, regressara à terra ainda com forças para cumprir o seu destino, outrora interrompido pela necessidade de ir aliviar as necessidades num país estrangeiro - tudo correra pelo melhor e agora era um agricultor, com descendência no Canadá, que contentamente dava continuidade à terra dos seus!

Arrendar a casa era  para si uma alegria. Vê-la habitada, ter vizinhança que admirasse o sítio, um rendimento extra, enfim!... Mas isso não vinha ao caso! Poderiam pernoitar, oferecia-lhe da sopa que a esposa prepararia para o jantar…

- E digam lá?! Esta varanda das traseiras?! Não tem uma vista magnífica sobre o mar?! Aqui, a ouvir as ondas a enrolar e a enrolar cigarros, tão perto do azul, uma pessoa nem sabe se está no mar, em terra ou… no céu!...

Todos os pés se sentiram enrolados num único pé, um pé-coxinho apoiado pela senhora Marie que se fez traduzir pelo galaico-português do companheiro:
- Em princípio ficaremos só a noite! Mas lá que apetece ficar mais tempo, disso não tenha dúvida!...

Ficados sós, parte a parte e em ideias cruzadas, deram de si a fraqueza ou a coragem, de poderem por ali ficar uns dias, para afastarem o desfecho da chegada a Finisterra, para prolongarem o tempo do Caminho, para prolongarem num lento rodopio o leve amor. Amor?! Não! Relação?! Não! Caso?! Não! Os Pés de Marie!...

Eles os dois - ou os oito, não nos esqueçamos – a casa, a varanda, o mar, a hospitalidade do agricultor – sim, iriam ficar até… até! Não importa quando! Até dar, até apetecer, até sem data predefinida, quem sabe até sempre, até!...
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Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra.

sábado, 26 de março de 2011

A TV dos miguéis, marcelos, metêlos e outros que tais.

E porque o Miguel é o modelo, o paradigma, a caricatura, a referência, a língua, o cu de todos eles, merece um filme antes que se lembrem de lhe dar o nome de uma rua:


Gosto muito que façam debates e entrevistas sobre as coisas! Mas por favor, convidem gentes das coisas!

Para falar de justiça ou de saúde, não chamem novamente o Miguel e o Vitorino!
Para discutir a educação ou a cobiça, não convidem o José Manuel e a mulher!
Para debater o crime e a religião não convidem o Barreto e o Marcelo!
Para entender a pesca ou o Iraque não paguem ao Tavares e ao António!
Para compreender os agricultores e os militares não me façam ouvir o Fernandes e a patroa!
Para a fertilização ou a astronáutica não venham com Pacheco e com o Rebelo!

Compreendam que estamos fartos de os ouvir falar de tudo, conferindo a cada verbo que, do que sabemos, não sabem eles nada!

Especialistas de tudo! Revoltados com a crise nos seus fartos rendimentos!
Fluentes no verbo e influentes nas elites ditam e receitam:
É preciso diminuir a despesa e aumentar a receita!
- Para afirmar isso é preciso ser doutorado!?

Que os actores das novelas se repitam, compreendemos!
Mas que, para falar dos nosso problemas, sejam sempre os mesmos?!.....
E por favor não os ponham em directo de Paris, do monte ou do safari!
(já vou em três televisores em três meses - a culpa é das botas da tropa!)

quarta-feira, 23 de março de 2011

Manifestação de Afecto

Gosto de estar à beira mar sentado a observar, uma a uma, as pessoas a passar, de lhes medir os corpos, de lhes julgar o andar, de lhes estudar expressões e de especular acerca de quem são e de onde são.

Nada que não se possa fazer num descanso de fim de manifestação aos Restauradores. E estava eu ali sozinho nesse entretém quando uma senhora de 80 anos upa lá, de mala de senhora pela curva do braço, de vestuário bem encaixado na idade, muito mais baixa que eu, que não sou alto, encostou a sua isolação à minha e estendeu-me unicamente estas palavras, assim sem mais nem menos, sem boa tarde, sem adeus, ou quem és tu:

- Eu nunca vi tanta gente em toda a minha vida! Ui Jesus, o povo que para aí vai! Venho lá de cima do Marquês e vem gente de todas as ruas, a Avenida é uma enchente, aqui é o que se vê! Credo Santo nome de Deus! Em toda a minha vida nunca vi tanta gente!

E dito isto seguiu, de passos pequenos mas frequentes, para o Rossio.Não faço ideia de onde vinha, para onde ia ou porque estava ali. Nem sequer interessa se era manifestante, transeunte, se ia para sua casa que era logo ali, se dava a sua volta habitual ou se ia na camioneta de Alburitel! O que fiquei, foi muito contente de ter visto aquela senhora entre tanta gente e de entre tanta gente ela me ter visto a mim e de ambos termos visto tanta gente como uma senhora nunca viu em 80 anos.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Cum Trinta e Sete Pés! Querem sexo?!

- Cheguei!
- Molhado!
Ouviu e recebeu do meio do rio o jacto de sarcasmo da companheira e calou-se, quieto e observador, porque teria de mirar o corpo e reconhecer que ela lhe passou o pé pela inteligência:

Marie vinha com a água acima da cintura, com a camisola arregaçada até às mamas, com o cós preso aos incisivos e com a mochila à cabeça, tal qual uma camponesa transporta o feixe de erva para as coelhas. Das tais para baixo vinha nua, com a brancura da pele francesa a alegrar o caminho da corrente limpa e fria. Pé de Vento delirava de olhos içados batendo alternadamente as pálpebras entre o rosto feliz e vencedor da solução e o nu feminino vestido pelas águas transparentes. Quando, com a aproximação da margem, a diminuição da profundidade do curso começou a revelar gradualmente o corpo ao léu, todos os pés atónitos mandaram sangue para o pénis do corpo.

Marie, aos primeiros dois passos de solo enxuto e em pele gotada em escorrência, deixou o braço esquerdo sozinho a amparar a carga da cabeça e, enquanto passava pelo “chispe” atónito, passou-lhe a mão direita pelo inchaço indiscreto das calças molhadas e perguntou:
- Que é isto?!

Atónito, continuou seguindo-lhe desarmado os mais dois passos. Ela, encostou a mochila a um arbusto e retirou uma toalha para se limpar. Depois estendeu-a sobre o chão e continuou os procedimentos do aportamento.

- E tu? Estás uma lástima e ainda por cima não tens nada seco para vestir! Despe-te  enquanto eu te arranjo um fato de treino dos meus.

Pé Descalço batia os dentes de frio, Água Pé de frágil, Pé Ante Pé de atónito e os quatro restantes de tesão. Enfim! Múltiplas sensações!
Estava nu como um peixe, de pés sobre a toalha, quando Marie, ainda seminua, lhe estendeu a roupa em empréstimo. Mas não, não era tempo de vestir nem de despir, era o tempo de consumar e, ali mesmo, sobre a toalha, numa reentrância de arbustos que tocavam o rio e o trilho do caminho, juntaram o atrito das peles de galinha e aguadas dum e doutro e, sem demoras, rodaram o desejo até ao tal fim, de seu nome orgasmo, que tanto se deseja como fim, como se deseja adiado para que permaneça o prazer que o desencadeia.
Um fim, que no preciso instante em que findava, foi brindado com uns desejos de “buon pomeriggio”. Eram dum frade italiano sessentanito, já deles conhecido do Caminho e que fazia Fisterra-Múxia. O santo homem passou olhando em frente, sem olhar de curiosidade ou reprovação. Claro que dera pelos “ais” durante a aproximação, mas isso não o perturbara, antes completara a obra da criação que por ali gozava.

Abraçados e sentados sobre a toalha, a escassos metros, observaram-no de costas a reflectir sobre o seu plano de travessia. Baixou os calções?! Não! Continuou calmo e sereno sobre as águas, como um Jesus andando no Mar Morto, pé ante pé, pedra após pedra, e lá para o meio, voltou o semblante para o cenário de partida, não para ver os nus mas, pelo o olhar calmo e sereno, apenas para que lhes tirassem uma fotografia.
Não era só Marie que era inteligente. Também não era só ele, o frade,  que aceitava o equilíbrio da natureza das coisas e dos homens. Enquanto ele realizava a sua prova eles vestiram-se. Quando já preparados para partir acenaram para a outra margem, viram-no a limpar os pés e a sorrir macaco e santo:
- Adeus! Au revoir!
- Addio!
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Todas as segundas feiras.
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