Quando a luz do dia seguinte acordou, Pé de Atleta questionou a memória para averiguar se teria existido sonho ou caso. Fora caso. A confirmá-lo, como é normal nestes casos, um bilhete breve na mesinha atestava a casualidade do encontro e dava-lhe com os pés:
“Boa vida! Talvez voltemos a encontrar-nos no Caminho. Não vou pernoitar em Padrón, conto chegar hoje mesmo a Santiago - um beijo dos de ontem”.
Pé de Atleta conformou-se com o desfecho. Era de facto um caso com todas as características para acabar assim. Poderia partir apressadamente para evitar o fim mas não era homem de se insinuar ou perseguir alguém. Os seus caminhos eram obrigatoriamente distintos e tudo não passara de uma brincadeira da mão do Apóstolo. Mesmo que quisesse, seria muito difícil apanhá-la; o Pé Chato e o Água Pé rebentariam em protestos além de que ela tinha um passo de égua sem albarda, uma mochila mais leve, vestuário e equipamentos que lhe permitiam outra velocidade. Sabia de Ante Pé que uma aventura nunca se repete.
Ela tinha uma meta, a Catedral, os Sete Pés apenas tinham caminho para andar, viver assim a vida, sem querer chegar a lado algum. Estava posta de parte a hipótese de voltar à terra que não gostou de o ver nascer e não se via condicionado por nenhum destino. No horizonte próximo, segundo as contas de Pé de Meia, a herança da mãe dava para muitas sopas.
- Que mais poderá desejar um homem na vida além de caminhar?!
Perguntava ele tantas vezes, quando o Caminho se dava, nos monumentos, nas aldeias, nas ruelas, nas montanhas, nos vales, nos rios, nas plantas, nos animais, nas pessoas, na luz, no nevoeiro ou apenas no calor de uma mulher francesa e serena.
Foi com estes espíritos que calmamente se fez a preparação para a etapa de terça-feira da Páscoa. Pé de Meia tomou calmamente o pequeno-almoço e, ao dirigir-se à recepção, foi confrontado com o facto de estar tudo pago. Carimbada a credencial de peregrino, Pé de Vento amarrou a mochila e percorreu sem pressas as ruas do Caminho. Pé Descalço desceu as escadas da fonte termal, molhou as mãos e recordou o duelo de salpicos de água que ali foi travado no dia anterior com a “fugitiva”. Umas ruas à frente, Pé Ante Pé reteve-se observador de um mercado vivo junto à ponte medieval sobre o rio Bermaña e tentou recuar uns séculos.
Recuar no tempo foi um exercício que Pé Ante Pé experimentou durante todo o Caminho, os vestígios da estrada romana número XIX, as igrejas, as pontes, os cruzeiros e outras marcas do passado levavam-no a tempos diferentes, fantasia que ele, desde muito pequeno costumava experimentar.
Recordou a foto de Marie em Pontevedra junto à estátua do peregrino. Nem todos os peregrinos de outros tempos fariam o Caminho com ascetismo, existiriam nobres que cumpririam a devoção a cavalo, acompanhados de criados e outras comodidades. A evolução histórica no caminho da igualdade traria ao Caminho um peregrino novo, no qual eles e Marie se identificavam, distintos pela sua origem social, lateralmente cristãos, mas sem cultivar a pobreza nem a abastança.
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Todas as segundas feiras.
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