segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Sete Pés Quinze

Quando regressaram ao quarto voltaram a entregar-se um ao outro até o sono os separar já noite avançada.
Quando a luz do dia seguinte acordou, Pé de Atleta questionou a memória para averiguar se teria existido sonho ou caso. Fora caso. A confirmá-lo, como é normal nestes casos, um bilhete breve na mesinha atestava a casualidade do encontro e dava-lhe com os pés:

“Boa vida! Talvez voltemos a encontrar-nos no Caminho. Não vou pernoitar em Padrón, conto chegar hoje mesmo a Santiago - um beijo dos de ontem”.

Pé de Atleta conformou-se com o desfecho. Era de facto um caso com todas as características para acabar assim. Poderia partir apressadamente para evitar o fim mas não era homem de se insinuar ou perseguir alguém. Os seus caminhos eram obrigatoriamente distintos e tudo não passara de uma brincadeira da mão do Apóstolo. Mesmo que quisesse, seria muito difícil apanhá-la; o Pé Chato e o Água Pé rebentariam em protestos além de que ela tinha um passo de égua sem albarda, uma mochila mais leve, vestuário e equipamentos que lhe permitiam outra velocidade. Sabia de Ante Pé que uma aventura nunca se repete.

Ela tinha uma meta, a Catedral, os Sete Pés apenas tinham caminho para andar, viver assim a vida, sem querer chegar a lado algum. Estava posta de parte a hipótese de voltar à terra que não gostou de o ver nascer e não se via condicionado por nenhum destino. No horizonte próximo, segundo as contas de Pé de Meia, a herança da mãe dava para muitas sopas.

- Que mais poderá desejar um homem na vida além de caminhar?!
Perguntava ele tantas vezes, quando o Caminho se dava, nos monumentos, nas aldeias, nas ruelas, nas montanhas, nos vales, nos rios, nas plantas, nos animais, nas pessoas, na luz, no nevoeiro ou apenas no calor de uma mulher francesa e serena.

Foi com estes espíritos que calmamente se fez a preparação para a etapa de terça-feira da Páscoa. Pé de Meia tomou calmamente o pequeno-almoço e, ao dirigir-se à recepção, foi confrontado com o facto de estar tudo pago. Carimbada a credencial de peregrino, Pé de Vento amarrou a mochila e percorreu sem pressas as ruas do Caminho. Pé Descalço desceu as escadas da fonte termal, molhou as mãos e recordou o duelo de salpicos de água que ali foi travado no dia anterior com a “fugitiva”. Umas ruas à frente, Pé Ante Pé reteve-se observador de um mercado vivo junto à ponte medieval sobre o rio Bermaña e tentou recuar uns séculos.

Recuar no tempo foi um exercício que Pé Ante Pé experimentou durante todo o Caminho, os vestígios da estrada romana número XIX, as igrejas, as pontes, os cruzeiros e outras marcas do passado levavam-no a tempos diferentes, fantasia que ele, desde muito pequeno costumava experimentar.

Recordou a foto de Marie em Pontevedra junto à estátua do peregrino. Nem todos os peregrinos de outros tempos fariam o Caminho com ascetismo, existiriam nobres que cumpririam a devoção a cavalo, acompanhados de criados e outras comodidades. A evolução histórica no caminho da igualdade traria ao Caminho um peregrino novo, no qual eles e Marie se identificavam, distintos pela sua origem social, lateralmente cristãos, mas sem cultivar a pobreza nem a abastança.
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Todas as segundas feiras.
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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Não gosto da vossa Europa

Não gosto da vossa Europa. Este é o título. Gostarei de uma Europa que não seque as raízes do meu milho que é só nosso.


- Cuida da burra João mas não vás para ao pé do poço!
Dizia minha mãe antes de desaparecer, descalça, pelo milheiral adentro para, com os calcanhares e a sachola, encaminhar a água à raiz de cada pé de espiga. E eu ficava ali, seguindo as voltas da burra emprestada p´lo mê ti Adelino, vendada e amarrada à nora, repetindo voltas sempre iguais, cumprindo com os seus círculos o sucesso da próxima colheita. E eu andava por ali, também às voltas, seguindo solidário as suas voltas, caçando borboletas, contando os alcatruzes a cada despejo, seguindo os caminhos da água até esta desaparecer pela sombra fechada do milho que escondia a minha mãe. Impossível repetirem-se esses cheiros, essas águas, esse verde; nem a vida me permitirá chegar aos calcanhares do mê ti Adelino - dificilmente conseguirei um dia ter uma burra!
Mas sou bem herdado na parte que toca a ter passado. Usufruí dessa riqueza de partilhar com a burra o verde do milho, o som da água, a sombra da latada que completava o poço e toda a engenharia da secular nora.

Incrível como é possível que a foto que se segue me tenha permitido banhar-me nesta infância! Recebi-a com a legenda "anda tudo à nora!" Não me ofendam! "Andar à nora" não tem nada a ver com "à procura do lugar para a fotografia"!
Dum comentário: "A Merkl disse: hoje quero dormir com o colega de sapatos castanhos! Aí o pessoal entrou em pânico e todos quiseram certificar-se que não lhes tinha saído a fava no bolo-rei. Tá visto!"

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Sete Pés Catorze ou Quatorze


Subiram ambos ao quarto, largou cada um a sua mochila em sua cama, foi cada um, na sua vez, cuidar do seu banho. Já cuidados de água, inspeccionaram mutuamente o estado dos quatro pés e compararam a bolsa de fármacos de cada um. Estando nos assuntos dos corpos, haveria de chegar a vez das queixas musculares, das pomadas e das massagens e aí, o inevitável aconteceu.

(Há muito tempo que milhares de leitores esperavam este pé da história, muitos a abandonaram pela demora do acontecimento, outros a abandonarão por ela ter acontecido. Receio não ter traquejo para satisfazer as expectativas, esta história é apenas um exercício. O acto de amor a dois, a três, a sete ou a oito é íntimo e não deve ser relatado nem espreitado, a cada um a sua cama. 
- Desculpem lá a interferência do narrador mas deu-me para isto!  Vamos mas é ao acto!…Mas de pano fechado! )

Nem diferença de idades, nem ela ser casada, nem ele ser filho de quem fora! Nada, mesmo nada, poderia obrigar a pensar duas vezes. Quando não se bebe a água cristalina duma fonte que aparece no caminho, não é porque o caminhante não tenha sede, é porque não saboreia a vida.

Para que o amor exista tem de ser feito! Até à hora de jantar não se fez outra coisa! Para que tudo acontecesse naturalmente, como fazem todos os amantes que pela primeira vez se encontram, só um pé teve direito ao fruto – o mais desejoso, o mais forte, o mais atleta. Todos os pés aceitaram que Pé de Atleta, pela sua condição e pelas vontades que vinha manifestando, estaria em condições superiores de abrir caminho para que a todos calhasse a sua vez lá mais para a frente. Conformaram-se no papel de iluminar de velas a cena mas todos eles a roçar os lábios de satisfação. Água Pé até inclinava a vela para que a cera caísse no rabo do Atleta, obrigando-o, desta forma, a melhorar o passo.

Quando desceram Marie sugeriu que o seu rapaz se sentasse nos sofás da recepção e foi ao balcão fazer um telefonema para o marido. Nenhum dos Pés conseguiu perceber alguma coisa do que ela dizia mas não lhes era difícil adivinhar o teor da conversa.
- De certeza que não lhe daria notícias de um jovem com quem acabara de ter uma experiência inesquecível!

Não tirava os olhos dela como se temesse que a poderia perder agora mesmo, acometida por um impulso de arrependimento e fidelidade ou que se sumisse, puxada pelo marido, pelos cabos de comunicações, para França. Tão raros eram os casos de mulheres na sua vida e este, mais do que os outros, tinha contornos para ser mais efémero. A noite ainda era uma criança. Quem sabe se com o apertar de mãos, laços e beijos, não estaria ali, nas formas que nunca idealizara, a relação que sempre sonhou encontrar: alguém que lhe abrisse os olhos, a boca, o coração e as pernas.

A refeição foi no restaurante do hostal e foi farta de marisco grelhado e vinho branco, tudo a apontar na conta da estadia. No final deram uma volta pela noite da pequena cidade animada pela Páscoa. Chegaram até a caminhar de mãos dadas e divertiram-se a molhar os pés na água quente da fonte termal que está na base da origem do nome Caldas.

Quando regressaram ao quarto voltaram a entregar-se um ao outro – só o Pé Chato e o Pé Ante Pé não participaram - até o sono os separar já noite avançada.
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Todas as segundas feiras.
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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Porque há quem julgue que aquilo que teimam tirar-nos caiu do céu

Companheiro
quando voltarmos a ser a razão dos que nos mandam
não te esqueças de recordar que subiste comigo a avenida
sob o olhar atento daqueles que nos ignoravam
e de alma erguida

Camarada
quando a guerra voltar a ser ganha pela razão
não te esqueças do tempo que passámos entrincheirados
sob o avançar cobarde dos mais fortes
e levantados

Irmão
quando recordarmos de novo a lição de história
não esqueceremos os mares outrora navegados
e que os olhos do avô eram verdes
mesmo fechados

Amor
quando as coisas voltarem a melhorar
não te esqueças da foto que temos da manifestação
com o olhar de meter inveja aos que a não viram
nem ao coração

Filho
quando chegar a tua vez
não esquecerás honrar quem te ensinou a luta
de perseguidos, presos, assassinados
por tanto filho da puta

Ontem, só fiz greve!

NOTÍCIA DO DIA: Causa da crise é fosso entre ricos e pobres - FMI
Mas o quê?! O FMI prima pela distribuição da riqueza entre ricos e pobres?! Então que venha o FMI dos bosques! Alguma coisa me há-de calhar a mim!
- Não! O FMI está com falinhas mansas para poder vir dar um ar da sua graça! Ou então há mesmo milagres!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Diário de um Dia de Greve


Ergui-me à mesma hora dos outros dias! Não tomei banho nem fiz a barba para acrescentar gestos de protesto. Liguei o computador. Com os olhos enlameados da noite curta, fiz a espiral dos blogs costumeiros e, antes de sair dela, fechei-a ao centro. Confirmei com agrado que muitos deles estavam com a greve.

Ao pequeno-almoço, liguei a televisão: os números, sempre os números! Perguntei-me: 
- Se as adesões são sempre pouco significativas por que raio se anda sempre com a guerra dos serviços mínimos?!
E o arcebispo de Braga e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa:
"é um direito que assiste aos trabalhadores e é uma oportunidade que os portugueses têm de manifestar a sua insatisfação... um dia de greve é muito pouco. O povo português terá que se habituar a uma Democracia mais participada e mais responsável e manifestar-se não apenas nesta conjuntura mas também diante de determinadas leis que são prejudiciais para a sociedade... é hora de todos darem as mãos e do povo português não se contentar com o dia do voto. O povo terá que estar alerta e, porventura, ter uma participação mais crítica."
Decidi não ir ao café, ir-me-iam perguntar porque não fui trabalhar, porque é que era esta greve, eu iria num sorriso feito ao momento hesitar um pensamento – ainda perguntas?! – e sairia sem responder com uns bons dias de homem de boa educação!

Telefonei para o serviço. Abriu. Nem 50%!  Fui ver. Via-se bem: havia greve. Nos que furaram a greve havia vergonha e fingimento. Era um dia completamente diferente dos outros dias, era dia de greve.

Não é todos os dias nem por qualquer motivo que há uma Greve Geral – desde o 25 de Abril é a sexta e de certeza a maior.

Por tudo isto, almocei e bebi regaladamente. Não vi mais notícias e passei o resto da tarde a pensar. Que  força a desta gente que abdica de um dia do seu salário como forma de se exprimir num gesto tão simples! Que postura a daqueles que passam os dias a barafustar e não têm a pequeníssima coragem de sinalizar o seu descontentamento! Que descaramento o dos que dizem que dizem que agora é assim e ainda terá de ser pior! Que hipocrisia falar no direito à greve e nunca reconhecer o direito de a fazer! 
Pelas 16 horas bebi uma cerveja, voltei à blogosfera, bebi outra cerveja, voltei à blogosfera e estou aqui – já jantado claro - sem ter ligado à televisão, à rádio, borrifando-me para notícias da greve e de outras coisas, com a consciência do dever cumprido, consciente de ter contribuído para um futuro melhor, para uma data de registo e porque é meia-noite contente por ser Rei dos Leittões e ir colocar já este desajeitado texto algures num servidor como eu!

Não vai haver mais nenhuma greve como esta! Ninguém viveu este dia como eu!
Orgulhosamente: EU FIZ GREVE

ÚLTIMA HORA: "Governo diz que Portugal não parou"
- Pois não! Fez greve! Reclama um governo com visão!

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto

Vai começar  esta noite à meia-noite em ponto
numa fábrica, num comboio, numa estrada
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
numa escola, num hospital, num vão de escada
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
numa  empresa que vai ser encerrada
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
num país  de lama, circo e corrupção
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
para termos amanhã o futuro que se exige
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
tem na raiz a razão de dizer não
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
vê-la-emos depois reduzida a números
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um catrefa de jornalistas ao vento
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
para pedirmos contas ao nosso tempo

(adaptado de Litania para o Natal de 1967, David Mourão-Ferreira)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Sete Pés Treze

Marie regressou e voltou a dizer, agora apenas com um movimento de inclinação de cabeça: - Allons y?!
Puseram as mochilas às costas e deram-se ao passo sem falar. Sete Pés continuou a pensar de coisas banais. A natureza da relação com a sua companheira de Caminho era enriquecida pelo facto da barreira linguística não permitir a banalização da palavra.
Uma Igreja. Marie tira uma fotografia ao pórtico. Sete Pés, fazendo a ponte com os pensamentos das imagens, pensa nas palavras que tornaram banais, inconsequentes e sedativas as homílias dos padres seculares.
À saída da cidade, numa rotunda, sinais de trânsito, painéis publicitários. A poluição visual! Palavras gráficas?! Oh! Imagens gráficas!! É demais! No Caminho devemos libertar-nos dessas coisas!

Atravessada a Ponte del Burgo sobre o rio Lerez, Pé Chato começou a repetir aos seus íntimos que não teriam pés para acompanhar a experiente caminheira, levando sempre ricochete do Pé de Atleta que reafirmava a sua determinação para acertar o passo na dura prova que os esperava até Caldas de Reis. Numa coisa todos os pés estariam de acordo: “como seria bom cumprirem aquela etapa com aquela companhia!”.

O discurso continuou escasso, talvez por conveniência, diferença de língua ou simplesmente porque nenhum de ambos era de feitio de se dar à banalização das palavras. Almoçaram juntos a omnipresente sandes de xamón mas, durante a tarde, os ritmos de andamento, o aparente, conveniente ou natural desprendimento entre ambos, a independência ou os diferentes modos de construir o Caminho separaram-nos. Ou então aceite-se que, por vezes, os chatos têm razão!

Sete Pés atravessou a ponte sobre o rio Umia que marca a entrada em Caldas de Reis – a antiga Aquae Celenae, um balneário romano de águas termais afamadas - com os sete pés zaragateando nas habituais discussões, desoxigenados, fora de si, obcecados pelo fim da etapa, por um assento de paragem.

Questionando a realidade ou a alucinação, avistaram na margem do outro lado, no rés-do-chão dos prédios de quarto andar, uma enorme esplanada com gente a chupar sorvetes, a sorver bivalves e a bebericar cervejas. Nas margens do quadro, uma mulher só, numa mesa de duas cadeiras e com a mochila ao lado. Era esse o destino. A cada passo exausto, a realidade vencia a alucinação.

- Olá!
- Oito cervejas!
Pediu a francesa como se já tivesse pressentido a multiplicidade do esperado Sete Pés. Ajeitaram explicações para o caminho do dia, para o desencontro e para o encontro e bebeu-se até o prazer de beber por sede dar lugar ao prazer de beber por prazer.

Marie já tinha investigado que naquela terra não havia albergue e que teriam de procurar um hostal. O “teriam”, dito na forma “teremos”, primeira pessoa do plural, embebedou Água Pé de autoestima e satisfação. A foto dos dois em Pontevedra não seria a última, “habemos” par!
Tanto assim foi que na recepção do hostal Cruceiro, o funcionário os entendeu como um casal e assim fez preço e, entre os dois companheiros, não houve hesitações ou indagar de expressões à circunstância de uma única chave lhes ter sido entregue.
Recepção Hostal Cruceiro
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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O banquete dos natos

Só para dizer:
- Repito!

Comam-me! Morrerão de danos colesterais!
Vossas excelências não conhecem martelo-o-polidor?!

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Dias de nato e de greve

...“O que é preciso é criar desassossego. Quando começamos a criar alibís para justificar o nosso conformismo, então está tudo lixado! (...) Acho que, acima de tudo, é preciso agitar, não ficar parado, ter coragem, quer se trate de música ou de política. E nós, neste país, somos tão pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reduzidos à condição de “homenzinhos” e “mulherzinhas”. Temos é que ser gente, pá!”...

José Afonso
Entrevista realizada por Viriato Teles, In: Jornal Se7e, 27/Novembro/85


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Greve Geral na Blogosfera

No dia 24 de Novembro para além de não ir trabalhar não vou ao mercado nem ao supermercado, não vou abastecer o carro nem vou ao café, não vou plantar couves nem passear o cão.
Irei descobrir para cada passo, um pequeno gesto que contribua para o impacto da GREVE.
Durante todo o dia o blogue Rei dos Leittões apresentará o selo da imagem. Proponho que outros bloguers façam o mesmo e mobilizem outros. A blogosfera também vai parar. Faltam oito dias! Mãos à greve!
Viva a Greve Geral! Viva Portugal! 
O Post da Greve

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Sete Pés Doze

Despediram-se na meia-luz do dormitório. Ao lado, por cima e por baixo, de todos os beliches havia gente feia, talvez da penumbra, a remexer roupas, mantas e sacos de plástico. Pela cara, o que ia dormir na cama de cima devia ser o padre!... Ou a criada!
Porque não era mal-educado não se fez rogado com os seus compatriotas e acedeu a curtas e espaçadas palavras de coisas sem interesse. Já deitado e pronto para o descanso não o revoltou o facto de ter de gramar com uma dezena de orações porque acabara de receber a informação que há dois anos fizeram Tui-Porriño, o ano passado fizeram Porriño-Redondela e este ano foi a vez de fazerem Redondela-Pontevedra.

Na manhã seguinte era absolutamente necessário levantar âncora antes que aquela gente acordasse e, quem sabe, o destino não unisse os Sete Pés na partida com aquela que por aqui se fala. E assim foi, com a noite mal dormida pelo incómodo dos sonos da malta da paróquia portuguesa, levantou-se e sossegou com o facto de notar ainda os haveres de Marie lá ao fundo. Com o corpo e a tralha preparada saiu do albergue e postou-se no jardim junto à estátua do peregrino. Ao fim de um longo quarto de hora seguiu os primeiros passos da Marie a partir. Esta não se mostrou surpreendida pela sua espera e os seus bons dias e o seu aval à muda proposta de pedido de companhia estavam incluídos na primeira frase da manhã:
- Allons y?!

Com passos mudos, percorreram as ruas até ao centro da cidade. Chegados à incontornável Praça de Ferrería, tomaram o pequeno-almoço no primeiro café que encontraram aberto, deram uma volta ao Santuário da Virgem Peregrina e à Praça da Estrella onde Marie pediu a um transeunte que lhes tirasse uma foto juntos.
Água Pé ficou registado com uma expressão comovida: nunca tinha saboreado a experiência de alguém ter requerido uma fotografia na sua companhia.

Aliás, na pequena casa em que a mãe o resguardara do relento não existiam fotografias com o menino em pelota, do casório dos pais – pai incógnito não deixa registo – dos tios, dos primos, dos antepassados ou do grupo do curso de costura. Apenas uma moldura com o avô materno, algures no Brasil de onde nunca mais regressara. Quando a mãe morreu, na volta que deu pelas gavetas, Sete Pés deitou para o lixo uma em que a mãe estava numa festa fina, acompanhada por um desconhecido para o qual, provavelmente fizera serviço de acompanhante.

Pelo contrário, na casa dos Alpes de Marie, deveria existir uma galeria de fotos de recordações de família, do tetra-avô ao bebé da era digital que ainda está no ventre e já é ecografado.
Percebe-se, portanto, que para Sete Pés fosse novidade o fazer de fotografo de Marie pousando junto à estátua do albergue e que lhe desse arrepio ser fotografado ao lado dela na Praça Principal de Pontevedra.

Marie disse que ia fazer não sei o quê, talvez necessidades, e os Pés ficaram sentados num banco da praça a fazer a guarda das mochilas e a pensar acerca do registo das imagens, do tirar fotografias do Caminho, da banalização da imagem, dos casamentos em que até os noivos andam a filmar. O acto de registar momentos em máquinas cria ruído na vivência dos momentos e a artificialidade do registo trai a realidade. Mais do que a imagem, vale o olhar!...
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sábado, 13 de novembro de 2010

Espero por Esperança


a esfera em torno de si mesma me ensina
a espera
a espera me ensina
a esperança
a esperança me ensina
uma nova espera
a nova espera me ensina de novo
a esperança na esfera
a esfera em torno de si mesma me ensina
a espera
a espera me ensina
a esperança
a esperança me ensina uma nova espera
a nova espera me ensina uma nova esperança
na esfera
a esfera em torno de si mesma me ensina
a espera
a espera me ensina
a esperança
a esperança me ensina uma nova espera
a nova espera me ensina
uma nova esperança
na esfera


Cassiano Ricardo

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Escuta Zé Povinho

Dum porco que escreve como um cão: ão.

Escuta Zé Povão
É tua a culpa do estado em que as coisas estão
Calaste 50 anos de opressão
Deste os teus filhos para guerras sem razão
Emigraste por te tirarem o pão

Tiveste medo da revolução
Foste no engodo da Europa em construção
Amotinaste-te pelo dinheiro da integração
Aceitaste abandonar a produção
Confundiste aprender com horas de formação
Quiseste ser alemão
Adormeceste com os senhores da televisão
Encantaste-te por uma moeda sem inflação
Confundiste democracia com eleição
Votaste no mais espertalhão

Não culpes o Cavaco, o Soares, o Sócrates e o Durão
Não dês o teu consentimento pela abstenção
Porque o mal que eles fazem tem o aval da tua resignação
Faz ao menos o pequeno grande gesto com o braço e com a mão
Greve Geral – manguito ou não?!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

NATO ou FMI, eis a questão!

Ah!Ah!Ah! Uma poderosíssima organização militar precisa da protecção da PSP!
A PSP precisa de blindados para se proteger de não sei quê!
Eu, que tenho medo de blindados, também gostava que a PSP me protegesse a mim!

Vão estar uns homens velhos fechados dentro de uma sala:
Vão inventar argumentos para renovarem o pacto de dominar o mundo.
Vão estar uns homens novos numa rua ao ar livre:
Vão manifestar-se por um mundo sem NATO.

A NATO nasceu para responder ao PACTO.
O PACTO nasceu para responder à NATO.
O PACTO morreu, a NATO cresceu.

A NATO é a mais forte, a mais poderosa das organizações.
A NATO nasce no Oeste, cresce no Norte e faz morte a Este.
A NATO mata por paz nas montanhas do Afeganistão.
A NATO defende a paz e decide matar no Parque da Nações.

Vai haver uma manifestação mas, de facto, a maioria das pessoas só não irá à praia porque estará mau tempo. E por falar em praia: o que tem o oceano Atlântico a ver com isto?
Receio que a PSP não perceba nada disto!
A mim bastava-me perceber se a NATO é a mesma coisa que a OTAN!
Ah!Ah!Ah! Uma poderosíssima organização militar precisa da protecção da PSP!

(Lembrei-me agora do título do texto, perdi-me no post! A minha questão inicial era:
- Quem é que afinal vem a Portugal? É a NATO ou é o FMI?
Isto é um truque novo que eu tenho, se os textos forem incoerentes ninguém me plagia)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Sete Pés Onze


Esperaria que se vestisse e aguardaria por ele lendo literatura na sala de convívio. Já averiguara a existência dum centro comercial, numa estação ferroviária, ali perto, onde teria de existir um lugar para jantarem - o centro da cidade ainda era longe.


De saída para o jantar, no jardim do albergue, Marie passou a máquina a Pé de Atleta e solicitou-lhe que lhe tirasse uma foto junto à estátua que representa um peregrino de tempos idos, com uma malga de sopa na mão, em posição mendicante, dirigindo-se a uma mulher piedosa. Enquanto a modelo tomava expressão e posição, Pé Ante Pé pensou nas diferentes eras e nos caminhantes de cada uma delas. Perguntou aos seus pares: seremos nós ainda peregrinos?!
Quando foi reconhecida a ordem de clicar, a resposta surgiu em coro com o flash:
- Somos turistas à procura do destino.
Fraco!... - pensou Pé Chato - Fraco pensamento!... E a foto?! - viu no visor – Fraca!... Pediu por isso nova pose. Enquanto Pé de Atleta procurava novo enquadramento viu Marie a ensaiar papéis com as figuras da estátua, viu Marie servindo sopa, viu Marie pedindo a sopa, viu-se no lugar do peregrino estátua, viu-as naturalmente nuas e sedutoras, viu ambas chamando por ele para que se aproximasse como se estivessem num leito. Acordou das visões quando Marie se aproximou para ver as provas e foram.

O alimento e o ambiente foram bem piores que na noite anterior em Redondela - pizza numa esplanada de centro comercial de gare?! Talvez pelo cenário, contrariamente ao que Pé de Atleta desejava, não se aprofundou a relação e acabaram a refeição como desconhecidos unidos à força pelas circunstâncias.

O diálogo de ferros quebrou de surpresa ao chegarem ao parque do albergue. Havia movimento junto à entrada e estavam estacionadas duas carrinhas. Tinham escrito nas laterais: Paróquia de Santiago de Litém.
Pé Descalço nem se esforçou pelo francês e exclamou desanimado:
- Só me faltava esta!
Marie tentou percebê-lo enquanto ele se explicava, preso ao português por exaltação:
- São de certeza dessa gente que faz o caminho alternando discursos ao telemóvel com ave-marias, com carros de apoio a cozinhar feijoadas pelo caminho, trazem cajados envernizados e usam bonés com publicidade a salsicharias ou aos USA!
Estão fartos de ir a Fátima pelas estradas nacionais, de não obterem resposta da Virgem aos seus pedidos de saúde e boa vida e, com as graças das mudanças trazidas pela CEE, descobriram que o mundo não acabava na Serra de Aire e que por cá também existem santos. No caso, S.Tiago, com muito mais currículo de milagrosas curas e satisfação de desejos.

Não fossem os factos com que se deparou quando entrou no albergue e Marie não teria compreendido patavina do que o companheiro dissera. O albergue estava cheio, pior que isso, a camarata cheia de catequistas, beatas, livros de cânticos e virgens.
- Virgens?! Oh Deus! Fujam, eu sou Filho da Puta! Como poderei eu aproximar-me da enxerga da santa que me cuida dos pés?! Lá se estragou mais uma promissora oportunidade!
E estes eram os pensamentos com que preparava a noite que se esperava triste! Bem, pelo menos não seria o ressonar de Água Pé que iria perturbar a especial zeladora! Não lhe faltariam outras ondas ruidosas ao sono por parte daquela indesejada expedição de ratas e ratos de sacristia.
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domingo, 7 de novembro de 2010

GREVEGREVEGREVEGREVEGREVE

A forma fascista como a generalidade da comunicação social tratou a grande manifestação de ontem, deve dar-nos forças para prepararmos uma Greve Geral que demonstre o país real.
Essa não a poderão calar! Bem podem dar notícia de manifestações na Grécia, greves em Paris, ou papas na Galiza! Toda a gente saberá a verdade, por experiência própria, e os poderosos donos da comunicação social e do país podem mentir à vontade que ninguém os levará a sério.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Acumuladores ou pilhas? Eis a questão!

"O Governo decidiu proibir a acumulação de pensões com salários na Função Pública".
Depois do fim do aluguer dos contadores de água, esta é uma das medidas mais emblemáticas da governação Sócrates.

A diferença entre um acumulador e uma pilha, é que o primeiro pode recarregar-se e o segundo não. Eles hão-de dar-lhe a volta, ao resto é que não!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Na ressaca do orçamento

Na ressaca do orçamento, depois de tantas horas que passámos, aqui em casa, frente à televisão, nada me ocorre.
Pelos blogues da corte:
"Toda a nossa classe política e afins (comunicação social controlada, “politólogos” e outros fazedores da opinião pública), todos eles, não se cansaram de repetir dos malefícios e demais desgraças que adviriam para o país com o inevitável agravamento dos juros da dívida pública caso não se concretizasse o acordo sobre o orçamento entre Sócrates e Passos Coelho.
Só um acordo orçamental poderia acalmar os “mercados” afiançaram-nos com o ar sério de gente entendida.
Afinal, os juros da dívida pública, ao contrário do que andaram a propagandear dias a fio, subiram hoje significativamente, alcançando os 6,19%."

"Tudo aquilo de que o País não precisa está neste orçamento!"
"Este orçamento é péssimo!"
"Em nome do interesse nacional, em nome do País, vou votar este orçamento."
Manuela Ferreira Leite "Hegel"
(não lido ou mal lido) em Anónimo SécXXI

Aparentemente esta imagem parece não ter nada a ver com o momento político mas, com um pouco de imaginação, consegue-se sempre uma relação:
(cartoons encontrados no Guardião)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Sete Pés Dez

Mas continuemos, antes que "os porquês" respondam mal e nem sequer cheguemos a Santiago.

O albergue de Pontevedra surpreendeu pela moderna arquitectura. Sete Pés foi recebido por uma responsável que já o esperava por informação da francesa que chegara primeiro.

Foram apresentados todos os espaços e equipamentos desde a cavalariça às máquinas de roupa e de cozinha, à sala solene com as paredes compostas com retratos de gente digna de retrato. A volta alongou-se com a conversa porque a senhora também era portuguesa. Viera parar a Pontevedra por casamento no Brasil e, via essa história de vida, se fizera presidente da Associação dos Amigos do Caminho Português de Santiago.

Provavelmente por método de hábito, guardou a camarata para o fim, era um espaço amplo que não fazia separação de sexos. Lá estava Marie, quase ao fundo, sentada numa das camas, a coser páginas do seu diário. Empreenderam os acenos e sorrisos da ordem enquanto a portuguesa sugeria ao recém-chegado um beliche junto à entrada:
- Pode ficar aqui, está mais perto dos lavabos! Já disse à senhora, não sei se ela percebeu alguma coisa do que eu disse - não estamos muito habituados a caminheiros que não sejam portugueses no Caminho Português - como é que a casa funciona. Amanhã de manhã aparecerá aqui alguém para fechar a porta.

Quando a anfitriã se despediu de ambos, mais uma vez, os Pés sentiram o incómodo dos obstáculos que impediam aproximação a Marie. À medida que Pé de Meia esvaziava a mochila e tratava das coisas, Pé de Atleta ia olhando para o sítio da companheira de viagem mas, à distância de sete ou oito metros, era-lhe difícil avançar com mais do que um encolher de ombros ou um mostrar de dentes. Pé Ante Pé arranhou francês, quando partiu para o banho, ensaiando demanda acerca da temperatura da água.

Pé Descalço regressou seminu e, depois de se esfregar de cremes e pomadas, sacou da agulha e da linha e pôs-se às bolhas. Quais bolhas?! Os pés estavam uma lástima!
Não existia um único Pé que demonstrasse jeito em cuidar deles.
Marie ia a passar ao fundo da cama e olhou-os com manifesta compaixão. Sem comentários, foi às suas coisas buscar umas pomadas e umas pinças e pediu autorização para fazer o tratamento. Pediu também ao enfermo que se deitasse.

Convém lembrar que os sete pés que aqui se estendem não têm, pelo menos até agora, dedos que se contem além dos dez com existência física e que, nos cuidados em exercício, a dividir por sete, não chegavam dois a cada. Nesta circunstância houve que repartir – mal! – o bem pelos pododactilos.

Água Pé estremeceu, não tinha memória de alguma vez ter sido assim tocado. Durante o trabalho de enfermagem foi também tocado por um rol de pensamentos e sensações até se esquecer de todos os pés. Ou melhor, todos os pés entraram numa espécie de transe. Pé de Vento foi o primeiro a retomar a consciência, quando se deixaram de sentir as mãos macias e se ouviu a voz de Marie. Agarrava e mirava o par de botas enquanto lhes tecia defeitos em francês. Um atrás de outro foram acordando de boca ensonada e só Pé de Meia conseguiu formular um pensamento:
- Foram tão caras!....
Para comprovar os conhecimentos técnicos que discorria, Marie voltou à sua cama e regressou com as suas botas para apontar as características que as faziam próprias para grandes caminhadas. Deu também conselhos de meias e ensinou-lhe a técnica de ir colocando jornais à volta dos pés para absorver o suor.
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sábado, 30 de outubro de 2010

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

TV Porno

Confesso que nunca vi mas já acredito em tudo: 
Chama-se "Agora é que conta", passa na TVI" e é apresentado por Fátima Lopes. O programa começa com dezenas de pessoas a agitar uns papéis. Os papéis são contas por pagar. Reparações em casa, prestações do carro, contas da electricidade ou de telefone. A maioria dos concorrentes parece ter, por o que diz, muito pouca folga financeira. E a simpática Fátima, sempre pronta a ajudar em troca de umas figuras mais ou menos patéticas para o País poder acompanhar, presta-se a pagar duzentos ou trezentos euros de dívida. "Nos tempos que correm", como diz a apresentadora - e "os tempos que correm" quer sempre dizer crise -, a coisa sabe bem. No entretenimento televisivo, o grotesco é quase sempre transvestido de boas intenções.

Os concorrentes prestam-se a dar comida à boca a familiares enquanto a cadeira onde estão sentados agita, rebolam no chão dentro de espumas enormes ou tentam apanhar bolas de ping-pong no ar. Apesar da indigência absoluta do programa, nada disto é novo. O que é realmente novo são as contas por pagar transformadas num concurso "divertido".

Ao ver aquela triste imagem e a forma como as televisões conseguem transformar a tristeza em entretenimento, não consigo deixar de sentir que esta é a "beleza" do Capitalismo: tudo se vende, até as pequenas desgraças quotidianas de quem não consegue comprar o que se vende.

Houve um tempo em que gente corajosa se juntava para lutar por uma vida melhor e combater quem os queria na miséria. E ainda há muitos que não desistiram. Mas a televisão conseguiu de uma forma extraordinariamente eficaz o que os séculos de repressão nem sonharam: pôr a maioria a entreter-se com a sua própria desgraça. E o canal ainda ganha uns cobres com isso. Diz-se que esta caixa mudou o Mundo. Sim: consegue pôr tudo a render. Até as consequências da maior crise em muitas décadas.

(Entretanto a apresentadora recebe 40.000€ por mês. Foi este o valor da transferência da SIC para a TVI. Uma proposta irrecusável segundo palavras da própria.)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Sete Pés Nove


A manhã do Dia de Páscoa cresceu de sol ameno. Passada uma hora de caminho, subida uma encosta, o ar e a vista da baía de Vigo contribuiram para que cada pé tomasse os seus próprios passos.

O Caminho começava a revelar o seu lado milenar. Pé de Vento pegava com o olhar pedaços de paisagem, ramos verdes das bermas ou pedras polidas dos trilhos polidos.
Por vezes o Pé Descalço recuava à Idade Média procurando reencarnar espíritos antigos, tentando encontrar a Fé do temor dos Céus. Insistentemente, Pé de Atleta dava a volta ao facto, e ao olfacto, de Marie France por ali ter passado há poucas horas, entretinha-se procurando vestígios do seu rasto, sentia-se levado por certo magnetismo que tinha de admitir, reconfortava-se com o facto de poder gozar a solidão sem se sentir só na caminhada.

Marie era uma peregrina, entre muitas, que os galegos viam passar, que deixava efémeros “buenos dias” aqui, atrás e mais adiante, uma entre tantos os que caminham e os que caminharam para Compostela. No que a ela respeitava, Pé de Atleta quis assumir o papel de comandante de esquadrão, ela não era uma mulher que atravessava a parada dum quartel, ela, ele e os outros dele, eram, naqueles dias, os únicos donos do Caminho.

Para um caminhante crente, o encontro com Marie seria uma aparição, uma dádiva, uma provação, um sinal dos Céus, um anel de casamento. Acontece que nenhum dos pés se movia por Fé mas basicamente pela essência da função de qualquer pé: locomover os corpos que suportam.

Marie, não o escondia, escrevia um diário. Sete Pés cumpria apenas a sua condição de realizar caminho, e fazer caminho é dar passos e, contar os seus passos, ele nunca o faria, nem por interposto narrador, como aquele que no presente caso em leitura está para aqui a divagar sem rumo e sem caminho. Mas continuemos, antes que "os porquês" respondam mal e nem sequer cheguemos a Santiago.

Neste segundo dia, todos os pés se sentiam completamente peregrinos, peregrinos especiais porque incluíam na sua espiritualidade o facto de serem sete em um.
Grandes e acalorados debates fizeram os pés de fantasia, uns saudáveis, outros nem por isso. É normal que o esgotamento físico traga à flor da pele a fraqueza do espírito sobre a forma de roupa suja para lavar, as frustrações pessoais, ou os defeitos do próximo para se lhes atirarem. Num pico de cansaço, veio aos peitos dos pés a tal fraqueza e a discussão acabou a pontapé:

- Só pensas em ser primeiro! Estás com pressa ou comichão nas partes?!! Descansa que não vais morrer hoje!
- Poupadinho, só pensas em dinheiro! Olha que o Caminho não é remunerado! Hás-de morrer rico!

- Ora andas a pisar uvas e a cantar, ora andas a sopas de cavalo cansado e a variar! Ainda te perdes ou te ficas no Caminho!
- Irra que é chato! Que é que te dói agora? Desistir é morrer!
- Cala-te medricas! Vê lá se pisas merda!... Ainda morres de cuidados!
- Estás sempre a armar chinfrim! Arma mas é as velas e deixa de inventar tempestades porque podes morrer em alguma delas!...
- Pendura bolhento e mal cheiroso! Pobre nu! Hás-de morrer calçado com as meias do Pé de Meia!

E esta é apenas uma recolha feita a granel, de cada um, uma amostra, das bocas com que se mimavam entre si os pés juntos pelo destino. Valia que nos pontos de descanso vinha ao cimo a concórdia e o entendimento e os sete somados completavam o uno e indiviso, o indivíduo peregrino.

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sábado, 23 de outubro de 2010

Para matar de vez o Américo Tomás

- Se vocês se portarem mal, ele castiga-vos!
Segundo o meu ângulo de visão a professora apontava para o que estava no lugar de Barrabás. O do meio, nas condições em que estava, seminu e espetado numa cruz, não conseguiria fazer mal a ninguém e o do outro lado, um velho careca, parecia o Popeye, "desmusculado" e inofensivo, em farda número 1.

Dessa visão da parede do quadro nasceu-me uma nova resposta ao "que queres ser quando fores grande?!". Para mal dos meus sonhos fiquei sempre pequeno!..
Veio o mês de Abril e vi que o velho trocou a Armada pelo Exército e começou a usar monóculo porque não via a coisa. Mas, mesmo assim, continuou a ver tão mal que se trocou consigo próprio e, vendo um pouco mais, conseguiu que depois de Abril, viesse Maio e houvesse Verão. Depois mudou de voz e começou a falar pausadamente como se todo o povo andasse na recruta. Depois ganhou bochechas e fez-se vedeta e bonacheirão. Com o andar dos anos o velho passou a andar sempre preocupado e a chorar por tudo e por nada. Por fim, o velho encheu as bochechas de bolo rei e continou a ser Américo apesar de, depois de tantos nomes, responder agora ao nome de Aníbal.

Agora é a minha vez: anti-republicano, anti-militar, boa visão, voz de cotovelo, magro, despreocupado, anti-cavaco e novo e pequenino!
Nunca me chamaram príncipe e eu fui-o! Já me chamaram rei e eu sou-o. Mas para limpar o esterco da pocilga, eu estou disposto a trocar o trono pelo berço dourado de Belém!
Levante-se o primeiro português que, enquanto a professora da primária falava, não pensou em ser Presidente da República! Eu ainda penso!

Não penses mais neles!
Escolhe o menos porco!
Só vota em Pata Negra quem se enxerga!

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O que é um loop?

Trata-se de um termo  informático para definir uma confusão criada e que não possui uma explicação concreta para solução do problema.

Diz-se que um programa "entrou em loop" quando acontece o seguinte:

O director chama a secretária e diz:
-Vanessa, querida, tenho um seminário em Bruxelas  e quero que me acompanhe. Por favor faça os preparativos para a viagem...

A secretária liga para o marido:
- João! Vou viajar para o estrangeiro com o director por uma semana, cuida-te querido!

O João liga para a amante:
- Elvira, filha. A bruxa vai viajar para o estrangeiro por uma semana, vamos estar juntos, minha princesa ...

No momento seguinte, a amante liga para casa de um puto a quem dá explicações de particulares:
- Luizinho, esta semana estou com muito trabalho e não vou poder dar-lhe as explicações....

A criança liga para o seu avô:
- Avozinho, esta semana não tenho explicações, a professora vai estar muito ocupada. Vamos passar a semana juntos?

O avô, (que é o director desta história) chama imediatamente a secretária:
Vanessa - Suspenda a viagem, vou passar a semana com o meu neto que não vejo há muito tempo, por isso não vamos participar no seminário. Cancele por favor a viagem e o hotel.

A secretária liga para o marido:
- Ouve João querido! O idiota do director mudou de ideias e acabou de cancelar a viagem.

O marido liga para a amante:
- Amorzinho, desculpe! Não podemos passar a semana juntinhos! A viagem da bruxa foi cancelada.

A amante liga para o menino a quem dá aulas particulares:
- Luizinho, alteração de planos: afinal esta semana teremos explicações como de costume.

A criança liga ao avô:
Avô! A estúpida da minha professora ligou a dizer-me que afinal terei explicações. Desculpe mas assim não poderemos ficar juntos esta semana.

O avô liga para a secretária:
Bom Vanessa - O meu neto acabou de me ligar a dizer que não vai poder ficar comigo essa semana.
Portanto dê seguimento à viagem para Bruxelas.

Entendeste agora o que é um LOOP ??
(Já conhecias? Então não lêsses!)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Só falta o orçamento do electricista

Os livros, sempre os livros.

Há três dias que não vejo a borboleta.
Receio-a nas mãos de algum general.
Mas houve quem a viu...
Mas houve quem a tocou...

Saberá ela a hora do comboio de regresso?
Sentirá ela saudades do lar?

Há três dias que não toco a borboleta.
Estará ela no monte com as minhas irmãs?
Estará na cidade com o rapaz do citroen?

Há três dias que não a vejo.
Ia à igreja perguntar se Alguém a viu
Mas tenho tanto que estudar!
Ia ao cinema ver se a via.
Mas não tenho dinheiro,
Comprei um sol para a viola.
Há três dias que não a vejo.

Entra-me um ruído pela janela.
Será um avião? Será uma borboleta?

Tocam os sinos.
Será a meia-noite? Será uma borboleta?

Não consigo dormir e tenho ponto amanhã.

(o título do post é só para a fidalguia)
A minha "cônjuga" não acredita que não me lembro das cores das asas da borboleta que deve estar relacionada com alguma paixoneta. Se fosse hoje, tentaria a rima e no lugar do "rapaz do citroen", estaria o "homem da camioneta". Concluindo: não mudei muito!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Sete Pés Oito

Entenderam-se no vinho e isso foi o mais importante.
Entender o francês, Sete Pés foi entendendo, dizer é que não conseguia quase nada. Lá se ia safando! Por exemplo, quando ela lhe disse que era casada, ele, prontamente largou um oportuno “moi non!...”.

Não se pense que o deficiente domínio do francês perturbava a gestação do predador com algum luso-complexo de inferioridade. Bem pelo contrário, à sua frente, à francesa é que faltava formação por não saber patavina da língua portuguesa. Neste assunto de línguas estrangeiras sempre o incomodara observar que muitos portugueses sentiam admiração pelos ingleses pelo facto de estes falarem inglês melhor que eles.

De qualquer forma, era agradável partilhar momentos, com alguém, com obstáculos no canal linguístico, sem intérpretes amadores pelo meio: os longos intervalos de silêncio, a preparação do que se vai dizer, as frases reduzidas ao essencial, o puxar pelas palavras da outra língua da memória, o remedeio com tentativas numa terceira língua, o inventar ou experimentar palavras novas, o recurso ao gesto ou ao objecto próximo, o desenhar na toalha de papel da mesa, o não entender nada, o finalmente perceber e, claro, o riso que o desfecho de algumas situações abria.

Já no albergue percebeu que ela não fazia intenções de caminhar com ele, que partiria, por seu hábito, muito cedo e que, assim sendo, caberia a Sete Pés a responsabilidade da entrega das chaves no local combinado.

Um “bon soir” contra uma “boa noite” e a concordância de deixarem as lâmpadas de vigia acesas formalizaram a despedida. De certeza voltariam a encontrar-se no caminho do dia seguinte, quanto mais não fosse no albergue de Pontevedra.

Sete Pés demorou a adormecer com a tormenta dos seus pés desavindos. Pé de Meia achava que por ser francesa era rica e que, por essa razão, deveria ter pago o jantar. O Pé de Atleta achava que ela podia ter sido cortejada até à cama. O Àgua Pé que a deviam ter embebedado. O Pé-Ante-Pé dizia que, com calma, ela ia lá. O Pé Chato achava-a velha. O Pé de Vento pedia que ouvissem o vento que zunia lá fora e que se calassem para dormir.
Para Pé Descalço, o descalçar das botas, o desenfiar das meias e o passá-las pelo nariz, o desdobrar o corpo sobre a enxerga, constituíam o acto solene do dia, uma espécie de oração da noite à vida. Os pensamentos que se sucediam contra a almofada, a conversa entre pés, o tempero do cansaço, davam um tal conforto que todos acordaram entre si que dormir era das melhores coisas do Caminho.

Da reunião de estado de adormecimento ficou a intenção que, dali para a frente, cada pé cumpriria o seu papel, revezados sucessivamente, de modo a não existirem atropelos de personalidade que denunciassem os sete espíritos e afastassem a hipótese dum possível estado de enamoramento.
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domingo, 17 de outubro de 2010

Desta gente, nem bom governo, nem bom orçamento.

Esta fotografia, retirada do blog "NósTemosVacasNoJardim" ilustra bem o festim com que nos andam a entreter. O malandro não quer assumir que o filho é dele!
É simples, o Passos Coelho disse que "isto" deveria ser feito e Sócrates fez. Tem sido assim ao longo dos anos e foi assim que, habilmente, o PS ocupou por completo o espaço político do PSD.

É impressionante o pensamento único que os une, a leviandade com que colocaram o país nesta situação e o descaramento com que continuam a afirmar que eles é que sabem. É como se o assassino fizesse questão de levar o caixão.

Mas mais trágico do que esta gente nos governar é um povo que sucessivamente desabafa: ou um ou outro não há alternativa; se lá estivessem outros fariam igual; são todos iguais; com o meu voto não contam eles que eu não voto; noutros paises também é assim, isto sempre foi assim...
Pior do que deixar de acreditar nos nossos governantes é deixar de acreditar no nosso povo.
Por este andar, os trabalhadores ainda vão acabar a receber o vencimento em notas de avaliação:
- Quanto é que recebeste o ano passado?
- Um Muito Bom, e tu?
- Um Excelente!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O Sotão é doido

Para que serve afinal um sotão?!... O meu rapaz, desempregado de ofício, tem-me ajudado nas arredações.
- Ó pai, que raio de carta é esta?!
- Já te disse que podes guardar para ti as Gaiolas Abertas, os manuais de guerrilha, os "Chés" e as Playboys mas tudo o que fôr manuscrito é para queimar!
(peço perdão às mentes mais sensíveis mas os sotãos ajudam a revelar quem somos, pelo que fomos, e eu não estou aqui para me esconder)

que o sangue se afogue em touradas de delírio
prefiro o anel do lírio leviano
à raiva ociosa de uma folha de papel.

ó arte louca de sevícias copulações
vende-me a múmia dolorosa do perfume!

pénis belicoso do louco
lança ejaculações de vingança
sobre a trança escabiosa do lume do passado
pranta-te à terra e ao pranto da discórdia do costume
abraça o canto prásino da harpa antiga
"porque o meu filho estava perdido
e voltou à vida".

Talvez estivesse nos meus dezasseis anos. Não faço ideia do que pretendia, de onde vinha ou onde queria chegar com isto! Tenho a certeza que para o escrever fui pescar uns termos ao dicionário! Eu não era rapaz para tamanho vocabulário! Aliás, tanto o não era que o não sou e mais certo fico porque, sabendo que a memória não apaga o significado das palavras, acabo de recorrer ao dicionário - Porto Editora - para interpretar aquilo que eu próprio, púbere, escrevi:
- escabiosa, adj, cheia de erupções semelhantes à sarna.
- prásino, adj,  de cor verde
- pénis, s.m., orgão copulador.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O homem do pladur ou o Outono

(O homem do pladur veio tirar as medidas para as obras que andamos a fazer no sotão e agarrou um papel que encontrou dobrado no chão:
- Olhe lá isto! Pode ser alguma coisa importante!...
Peguei no manuscrito e li-lho:  )

OUTONO
-E agora?! Se o concerto acabou, para onde vamos?!

as árvores despem-se para o banho
a paisagem e o tempo vestem o homem
as primeiras chuvas são o leite materno
o rio irrequieto revela sintomas de primeira gripe
de nada serve arranjar lenha no verão
de nada serve arranjar água no inverno
tantas vidas
tantos anos
tantos outonos
um filho em cada estação
todos os anos escrevo pelo outono

- Para onde vamos?! Comprei um disco de que vais gostar!
1979

(O homem do pladur camuflou um encolher de ombros e tentou disfarçar um ar de compaixão. Li-lhe o pensamento: "será que este velho maluco terá dinheiro para me pagar o serviço?")

Outros outonos: 1980, 1982, 19831988,

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Sete Pés Sete


Tal como em Tuy, existiam duas camaratas mas com uma passagem larga e sem portadas de uma para a outra, junto ao balneário. Entre afazeres logísticos, camas, banhos e passadas, Marie e Sete Pés reavistavam-se de vez em quando, podiam ver-se compelidos a uma troca de sorriso mas a timidez natural de solitários, a barreira da língua ou o simples desinteresse não proporcionavam aproximação. Antes de saírem para procurar alimento, ambos precisaram de se estender na cama para aliviar o cansaço. Sete Pés topou que ela escrevia um diário e pôs-se a pensar nela e a alimentar suposições:
- Quem seria, do onde viria, porque estava ali?... Por acaso registaria no seu diário alguma coisa acerca do seu companheiro de viagem? Que mundo, que pessoas teria deixado para estar ali?… Por certo não faria a si mesma perguntas destas e ele não passaria, para ela, de um peão que só não se ignora completamente porque se nos atravessa no caminho.

Por pensar nisso, alguém teria dado pela falta do Filho da Puta na aldeia? Julgá-lo-iam migrado, emigrado ou morto? Perderiam tempo com o seu súbito desaparecimento após a morte da mãe? Teriam comunicado à polícia? Nem sequer ao taberneiro tinha anunciado a sua partida!...

Não sabia nada da francesa que observava discretamente entre beliches. De si próprio sabia alguma coisa: que tinha séptula personalidade, que vinha da terra que o ignorava, que estava ali para realizar Caminho.
Talvez o Caminho levasse a uma amizade!... Ao menos que ela lhe pudesse dar uma olhadela nas bolhas dos pés!...

Sentiu os passos leves aproximarem-se da sua cama e percebeu, com dificuldade, que estava aberta a possibilidade de irem jantar juntos. Sete Pés apontou a sua ida aos lavabos e, quando regressou, já não a viu. Desceu as escadas e encontrou-a a mirar a exposição do hall do edifício. Entre as parcas palavras possíveis, fecharam a porta, indagaram entre si a guarda da chave e, pelas ruas afestoadas, procuraram um dos restaurantes que as senhoras do albergue lhes haviam sugerido.

Sentaram-se como um par, comeram como um par. Só na escolha da comida é que foi difícil fazerem par, ou não fosse difícil a qualquer estrangeiro fazer escolha do prato em terra alheia. Entenderam-se no vinho e isso foi o mais importante. Sete Pés conseguiu desenterrar um pouco do seu francês de escola e entender que era bombeira reformada, que era duma vila dos Alpes franceses, Chamonix, que praticava alpinismo, que não partira de Valença mas de Fátima, que já fizera o Caminho Francês também sozinha, que as suas botas já tinham cinco mil quilómetros, que não tinha filhos e que o marido passava o tempo a ver futebol na televisão, facto que a chateava e, por isso, ela saía a dar estas voltitas a pé.

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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Inesperada e surpreendente

Depois da inesperada e surpreendente candidatura de Manuel Alegre e do inesperado e supreendente apoio de gente do PS;
Depois de inesperada e surpreendentemente Mário Soares, só para chatear o velho amigo, ter criado a candidatura de Fernando Nobre com o inesperado e surprendente apoio  de gente do PS;
Depois da inesperada e surpreendente candidatura de Defensor de Moura e do inesperado e surprendente apoio de gente do PS;
Depois da inesperada e surpreendente candidatura de Francisco Lopes e do inesperado e surpreendente apoio do PCP;
Só falta mesmo a inesperada e surpreendente candidatura de Cavaco Silva com o inesperado e surpreendente apoio de toda a direita, incluindo o Mário Soares e outra gente do PS .

Pata Negra, o candidato que o povo espera! O candidato que não é apoiado por ninguém do PS!
Faz-lhes uma surpresa: Vota Pata Negra!

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Feios, porcos e maus...


Compram aos catorze a primeira gravata
com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas da limpeza após o combate.

São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem pelo faro
o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.

Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos - tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza acima de tudo.

A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.

No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.

José Miguel Silva
Movimentos no Escuro, Relógio d'Água, Lisboa, 2005.
(Via Recalcitrante)

Quem não conhecer um que me atire a primeira pedra!







terça-feira, 5 de outubro de 2010

5 de Outubro?! Isso não é o nome de uma rua de Lisboa?!

Nunca trabalhei no dia 5 de Outubro. Nunca festejei o 5 de Outubro. A rainha, que manda na república cá da casa, fez hoje anos e hoje houve festa cá à volta. Nestas circunstâncias e como futuro Rei da República não discurso mas já exijo:
1- Que Dom Duarte de Bragança se candidate à presidência;
2- Que Mário Soares não volte a dizer que é republicano e socialista;
3- Que o Senhor José Pinto de Sousa deixe de se armar em monarca absoluto;
4- Que o ministério da rua 5 de Outubro passe para a ponte 25 de Abril;
5- Que o blog Rei dos Leittões passe a chamar-se República dos Leittões.
Caso estes pontos não se cumpram entrementes e eu ganhe, como espero, as eleições, no acto de posse demitir-me-ei!
- Abaixo o Rei! Viva o Rei! Abaixo a República! Viva a República! E em qualquer dos casos, Duarte, Mário, José, Educação: Fora daqui! Tomem o próximo avião! Tomás! Brasil! Caetano! Convosco este território nunca será nem reino, nem república, será a vossa coutada!...Comigo será o campo farto de bolotas! E paro por aqui porque, com a festa, está-me a apetecer acabar de vez com a educação: José Mário Duarte, tu és um grande ca, ca, ca, ca, ca!...
Maldita gagez!... Nunca irei trabalhar enquanto não me tirarem o feriado, já faltou mais....Ainda não estou doido! Já faltou mais! Estou há cem anos a dizer a mesma coisa! Ninguém me ouve! Tudo na mesma!...
A rainha fez hoje anos e amanhã iremos viajar no mesmo avião em que viajámos há cem anos!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Sete Pés Seis

Uns tremoços?! Não! Uma refeição num restaurante de estrada perto de Porriño.. Chegados à cidade averiguaram que, contrariamente ao esperado, não havia albergue. Até Redondela ainda era uma distância do caraças, trinta e oito quilómetros para um primeiro dia era obra! A mochila já pesava muito mais do que inicialmente. Discutiram. Nem será preciso revelar os pés que queriam pernoita por ali e os que votavam pela segunda etapa. Carimbou-se a credencial na Casa Consistorial de Porriño e “à Caminho para que te quero!”

O traçado começava a oferecer ambiente para receber a energia do Caminho, para pensar na existência, no além, para olhar as coisas e os seres, para sentir o corpo, a força, a dor, para caminhar, cheirar a Galiza e até o odor de Marie France que de certeza por ali teria passado há algumas horas. Dito de outra forma, a Galiza deixava-se comer.

O pior foi quando a montanha se apresentou aos pés do rio, primeiro a aldeia com a rua íngreme, depois subir, subir, depois o planalto e lá em baixo as rias e Redondela, descer a custar tanto como subir, o fim da tarde a anunciar o anoitecer e todos os pés a rebentar pelas costuras.
O melhor foram as sandes de "xamón" e o vinho galego, o chegar e o saber que existia outro ser solitário pelo caminho.

Albergue de Redondela - fonte da foto

A chegada a Redondela aconteceu era já noite. O cansaço era já tanto que todos os Pés se ignoravam entre si, descomandados. A cidade festejava o Sábado de Aleluia. O abrigo para peregrinos ficava no centro, num edifício histórico recuperado para o efeito. Sentada no chão, à porta e com a mochila ao lado, com o perfil definido pela luz amarela da iluminação pública, uma mulher dos seus sessenta anos, cabelo curto e encanecido, estatura mediana, corpo consistente e atlético, roupagem de caminhante experiente, boca de crustáceo, sorriso sólido, bochecha rósea, claro: Marie France.

Já estava ali há horas, já alguém responsável por ali tinha passado - foram buscar as chaves. Três senhoras de fato festivo e bem parecidas apareceram na esquina, apresentaram com excepcional simpatia as instalações quase a estrear, falaram da festa, de onde se comia bem e entregaram as chaves bem como a indicação de onde, no dia seguinte, as deveriam deixar.  
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E dito isto, nisto, neste cenário, nesta circunstância, os sete pés, cada um deles, olharam-se a si próprios do artelho ao fim das unhas e pensaram, cada um deles, para si próprios, que a história deste dia sabia a pouco... assim, como os tremoços, tantas cascas e a fome sempre viva, por matar...
Isto é já só o narrador a justificar a falta de enredo... a falta de tremoços... a falta de cerveja... pois... escrevendo melhor: Até para a semana! Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra

sábado, 2 de outubro de 2010

A receita de mixórdia

Bem avisavam o velho para abandonar aquela velha receita de mixórdia que, em vez de o curar, lhe agravava a doença. O velho teimoso culpava os ventos e os ares e só dava ouvidos a curandeiros e feiticeiros. Ninguém o conseguiu convencer que o seu mal tinha origem no próprio remédio, pelo que acabou mal.

Toda a gente sabe que não vai resultar, o povo continuará com o futuro sempre adiado enquanto alguns continuarão a dançar a ronda no pinhal do rei.
Os prestigiados economistas e ex-ministros das finanças dirão que não resultou porque já foi tarde ou porque foi pouco, Sócrates dirá como sempre “é a crise” e Miguel Sousa Tavares dirá que a culpa é dos professores e todos eles continuarão a viver bem.

Entretanto, o verdadeiro governo continuará a ser de mercadores de capa negra enquanto ministros fantoches encenam, a seu mando, números e mais números. Puta que os pariu!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A Caminho de Belém

Eles fecham tudo o que é serviço público na província. E fazem-no com tal descaramento que garantem aos microfones que com o fecho desses serviços as populações ficam melhor servidas.
Dizem que os serviços fecham porque não têm condições e que nas capitais têm serviços de excelência. E dizem-no com tal descaramento que afirmam aos microfones que com o fecho desses serviços estão a combater a desertificação do interior.
Qualquer dia ainda acabam a deportar as populações para as cidades em nome da conservação da natureza e do combate à desertificação.

Pois o candidato Pata Negra pretende fomentar a deslocação das famílias das capitais para a província e, como o que está a dar é fechar, propõe o fecho imediato:
1- De todos os centros comerciais com mais que 1 dono.
2- De todos os quartéis com mais de 2 coronéis.
3- De todas as esquadras com mais de 10 polícias
4- De todos os parques com mais de 20 automóveis
5- De todos os hospitais com mais de 100 doentes.
6- De todas as escolas com mais de 200 alunos.
7- De todos as repartições com mais de 1000 clientes.
8- De todas as igrejas com mais 2000 fiéis.
9- De todos as freguesias com muitos eleitores.
10- De todas as sedes do PS que são bordéis.

A Presidência da República manter-se-á em Belém
Mas a coroa irá para Vila do Rei
VOTA PATA NEGRA - O PRESIDENTE REI