segunda-feira, 30 de maio de 2011

40- O Caminho do Fim da Terra

Xésus Agrelo nunca se perdoará de, na condição de primeiro a encontrar os cadáveres de Marie France e Pierre Patapouf e de, no mesmo momento ter confirmado, pela falta de seus pertences, a partida inesperada de Sete Pés, ter sido o primeiro a apontá-lo como alegado homicida, acusação essa que fez de imediato no telefonema em que participou as mortes à polícia de Cee.

Quando, como resultado da autópsia, ficou provado que as vítimas teriam morrido por ingestão de cogumelos venenosos, já era tarde para dar o braço a torcer, arriscado ter de encontrar novos culpados e embaraçoso ficar-se por causa acidental. Assim sendo, não por conspiração inconsciente, mas por má consciência de que seria mais fácil culpar um forasteiro sem raízes, possesso de ciúmes, do que um merceeiro querido da terra, criou-se a tese de que o homicida havia colhido cogumelos venenosos no campo e os misturara com os comprados para consumar o crime. Ao proceder assim, o esperto, fazia também pender a suspeita sobre a casa de comércio onde tinha um calote considerável.

A justiça aceitou também, como argumento, o facto dos cogumelos serem petisco tradicional daquelas bandas, vendidos desde sempre naquele estabelecimento e de não existir relato de alguma vez terem provocado a indigestão a alguém quanto mais a morte. Estava atestada, portanto, a impossibilidade da experiência dos naturais poder falhar na colheita das espécies comestíveis.

O crime, o criminoso e as vítimas, com o passar do tempo, foram caindo no esquecimento de toda a gente menos na pesada consciência de Xésus Agrelo. A memória dos factos e a amizade com Sete Pés, avivados pelas várias visitas que fizera ao cárcere, estavam-lhe a dar cabo do sono e mais lhe deram na noite em que eu fui seu hóspede. Não admira pois que, na manhã seguinte, a pretexto de me oferecer pequeno almoço, me tenha dado lugar na sua mesa, me tenha inquirido acerca das leituras que me proporcionou, tenha desabafado sobre mim a sua inquietação e me tenha proposto um plano de acção para que a justiça fosse feita.

E, porque fartos de histórias contadas estamos todos e de abaixo assinados estamos cheios, depois de eu ter entrado, convido-o a si leitor, também a entrar na história que, a partir daqui, deixará de ser escrita para ser vivida.

O nosso plano consiste em reunir um grupo de activistas capaz de ir, daqui até à Corunha, percorrendo os Caminhos de Santiago, reclamar a libertação de Sete Pés. Sabemos como os meios de comunicação social são atraídos por este tipo de iniciativas e é quase certo que o seu impacto pode despoletar a reabertura dum processo mal contado.

Preparem a mochila e ponham-se ao Caminho. É só seguir as vieiras até encontrar esta que o filme documenta. Nas imediações da mesma existe um albergue onde estou alojado à vossa espera. Conhecer-me-eis pelas botas. Quando formos sete, partiremos. Libertai-vos!!!

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Foi nas monumentais

Naquela idade eram a fome e o desejo que nos moviam. Aconcheguei-lhe uma orelha nos meus lábios e confessei-me. Ela não afastou o ouvido nem a orelha. O almoço na cantina tinham sido favas e eu nunca gostei de favas. Tinha fome. Trinquei. Ela afastou-se repentinamente com um ai de dor e eu, desajeitado,  fiquei com um pedaço de carne preso aos dentes que, no embaraço, acabei por engolir.

Encontrei-a passados muitos anos num daqueles almoços de antigos colegas onde se comparam cabelos brancos, barrigas e marcas de automóveis. Tentei falar-lhe mas ela continua determinada a nunca mais me ouvir e a não me falar. Ela está de não se desejar mas aquela cicatriz na orelha fica-lhe a matar.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Acabei as obras no sotão

Depois de vos ter contado aqui, aqui, aqui, aqui e aqui, das coisas que se podem encontrar quando se dá a volta a um sotão, encontrei hoje mais esta de adolescente a precisar de algumas coisas. Andamos a dar às coisas novo poiso, este poster fica ali, este livro vai para o lixo, este caderno para acolá e...
... dele cai uma folha manuscrita que mia como um gato quando se estatela no chão:

O gato Haicomo

Desde que Deus o Homem e a Mulher fez
Que as palavras calaram a voz dos animais.
Somente Haicomo responde em inglês
Quando o acusam de viver igual aos seus iguais:
- I?! How?!... Me?!... How?! Mim...au?!


Mai de sete vidas estão passadas,
Incandescentes os olhos se consomem
E as fêmeas perecem no celeiro
Porque esse gato é Homem…

Quando o cantor range o dente,
Como árvore que tomba à raiva do machado,
Haicomo responde como sente,
Vira-se ao mundo e finge-se assanhado:
- I?! How?!... Me?!... How?! Mim...au?!


Mais de sete vidas estão passadas,
Na estalagem as portas apodrecem
E os olhos do tempo lambem o solo
Porque essa carne é Homem…

O gato vive numa árvore que conheço.
Vive roendo as garras
Como um jovem desempregado cuidando as unhas.
No tronco, uma placa em mármore:
Cuidado com o Gato

Dez 79

segunda-feira, 23 de maio de 2011

39- O Caminho do Fim da Terra


Se este fosse um escrito vulgar de escrever para vender, daqueles em que os autores vagueiam presos às suas experiências pessoais, procurando afinidades com que os leitores se identifiquem e inventando fantasias com cenários impossíveis que surpreendam e agarrem, provavelmente esta história acabaria aqui. Acontece que estamos enfiados na descrição autêntica de factos vividos e não estamos perto do final mas ainda no começo. Isto porque agora é que vai ser, entro eu.

Quis o destino que, na sequência de uma discussão familiar por causa das canas dos feijões, eu arrumasse a trouxa e me fizesse ao Caminho. Porque do Caminho já muito sabeis de Sete Pés e Marie, deixarei apenas o registo que o fiz sozinho até chegar a Pradís e que aí cheguei, encharcado por uma valente carga de água, rente à noitinha, situação que me obrigou a procurar a sempre à mão hospitalidade dos galegos.

- Xésus Agrelo! Benvindo a Padrís!
Os mais atentos, recordarão porventura este cumprimento, no ponto em que também o nosso par aqui chegou.
- Português?! Oh lá! Lá! O único que por aqui parou, deixou má memória! Fosse eu supersticioso e não lhe daria abrigo! O caso deu naufrágio e morte, a coisa que mais temem as gentes que habitam esta costa que, não por acaso, tem o nome de Cuesta da Muerte!...

E foi da continuação deste encontro que recolhi a informação que trouxe esta história até aqui. Xésus Agrelo fez-me entrega da casa da tragédia para pernoita e deixou-me a noite, entregue a documentos que guardava do julgamento de Sete Pés, destacando destes um molho à parte de fotocópias do diário de Marie France, diário esse, cujo conteúdo já conheceis sobejamente, que outra coisa não tenho feito neste livro – se assim se pode chamar a estas postagens – senão contá-lo.

Serei, também eu, daqui para frente,  protagonista, cidadão real que não aspirando nem tendo traquejo ou expediente para ser escritor ou autor de alguma coisa, encontrou na personagem proprietária deste blogue a forma de testemunhar o caso esquecido de um português sem pátria, de um aldeão sem terra, sem família, quase sem nome, preso há sete anos na Galiza, sem ter merecido, ao menos, um dezasseisavos de uma página do Correio da Manhã.

Sete Pés estaria inocente, se não tivesse de se encontrar um culpado, teria quem o defendesse se não estivesse só, estaria em liberdade se não estivesse preso, mas continuará caminhando porque disso não se pode impedir um sonhador, nem que o amarrem.
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Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra.

domingo, 22 de maio de 2011

Ventos de Espanha

SKA-P - uma Espanha silenciada e verdadeiramente revolucionária.


Orgulloso de estar entre el proletariado es difícil llegar a fin de mes y tener que sudar y sudar "pa" ganar nuestro pan.
Éste es mi sitio, ésta es mi gente somos obreros, la clase preferente por eso, hermano proletario, con orgullo yo te canto esta canción, somos la revolución.
¡SI SEÑOR! La revolución, ¡SI SEÑOR!, ¡SI SEÑOR!, somos la revolución, tu enemigo es el patrón,
¡SI SEÑOR!, ¡SI SEÑOR!, somos la revolución, viva la revolución. "Estyhasta" los cojones de aguantar a sanguijuelas, los que me roban mi dignidad. Mi vida se consume soportando esta rutina que me ahoga cada día más.

Feliz el empresario, más callos en mis manos mis riñones van a reventar. No tengo un puto duro, pero sigo cotizando a tu estado del bienestar.
¡RESISTENCIA! Éste es mi sitio... En esta democracia hay mucho listo que se lucra exprimiendo a nuestra clase social. Les importa cuatro huevos si tienes catorce hijos y la abuela no se puede operar. Somos los obreros, la base de este juego en el que siempre pierde el mismo "pringao", un juego bien pensado, en el que nos tienen callados y te joden si no quieres jugar.
 ¡RESISTENCIA! ¡DES-O-BE-DIEN-CIA!

sábado, 21 de maio de 2011

Debate Sócrates Passos Coelho

eu fiz...
eu farei...
o que eu disse...
o que eu digo...
o que eu sei...
comigo...
comigo...
comigo...
eu sou...
sempre fui...
aconteço...
mereço...
fui eu que...
sou eu que...
eu! eu! eu! eu!...
mas então eles não representam ninguém!? nunca dizem nós?!

Pois fiquem sabendo que não nos comem por tansos! Não se trata de escolher um primeiro ministro entre dois ou mais! No dia cinco vamos eleger os deputados para a Assembleia da República! Aconteça o que acontecer, cá continuaremos, nós!...

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Que ninguém mais diga merda

... mas diga merkel!...
proponho que de ora em diante se passe a dizer:
vão todos para a merkel!
vão todos à merkel!
cheira aqui mal como a merkel!
sócrates é uma merkel!
isto está uma merkel! 
merkel para isto!
mas que merkel é esta?!
por acaso já não nos chega a merkel que cá temos?!
só nos faltava cá mais esta merkel!

outro assunto:
ligo tanto à merkel do futebol como à publicidade de pensos higiénicos
mas ainda não vendi a merkel da televisão
mas esta merkel de fazer dos debates políticos um jogo de ganhou este e perdeu aquele e, no final, os canais terem uns comentadores políticos com discurso de jornalistas desportivos, leva-me a concluir que estamos mesmo na merkel e que só há uma solução:
partir esta merkel toda a começar pela televisão!

segunda-feira, 16 de maio de 2011

38- O Caminho do Fim da Terra


Falaram até fartar, de coisas que não interessam à história. Comeram e beberam como abades, partilharam naturalmente dos arrumos, sem oportunidade, dos dois de que reza a história, privarem para um ajuste de contas do passado. Ao menos uma frase a dois, uma palavra, reconstruir ou completar um beijo que não fora bem dado há seis meses atrás. Nada. Muito pelo contrário, a pretexto dum dia cansativo, a mulher presente propôs cama e descaradamente decidiu, sem ouvir aquele que, nos termos presentes, era o dono da casa:
- Se não te importas, trazes as tuas coisas para a sala e dormes no sofá! Como eu e o Patapouf somos dois, justifica-se o quarto para nós!...

Desilusão, portanto, na libido de todos os Pés. Entre marido e mulher, não há lugar para mais de quatro pés!

Com todos os haveres junto ao sofá, assumiu obedientemente o seu papel. Deitou-se. Ouvia o mar, ouvia sussurros de francês, não dormia, não conseguia imaginar o amanhã, parecia ter chegado a um dia sem saída. A pouco e pouco só o mar se ouvia. A longa insónia despertou com o cantar do galo dos Agrelos. Naquela madrugada o galo cantou diferente, cantou como um clarim!
E foi assim que, silenciosamente para não dar de si, se pôs a preparar a sua mochila. Partiria, agora mesmo, para Finisterra! Chegara a hora de terminar o seu Caminho.

Quando chegou ao farol do cabo de Finisterra o mar reflectia os primeiros raios da manhã. Sete Pés, fitando o oceano, não apreciou saber e sentir que a Terra não acabava ali e invejou não ter vivido no tempo em que se acreditava nesse fim.
De qualquer modo, era conveniente aceitar que não poderia caminhar para mais além. Olhou então para trás, para terra, e sentiu vontade de fazer o Caminho de Finisterra a Oliveiroa – que não tinha conhecido - voltar até Santiago, fazer o Caminho do Norte até aos Pirinéus – não o francês que sabia pelos relatos que estava massificado - atravessar a Europa, ir por Jerusalém para o Tibete, Novosibirsk, estreito de Bering, Alasca, Califórnia, México, Andes, Terra do Fogo… Mas para quê?! Se aí chegado teria de concluir que os Caminhos da Terra não têm fim!?

De costas para o mar, os Sete Pés distribuíam entre si estes pensamentos. Remataram com uma visão panorâmica sobre todo o Continente que começava naquele promontório. O caminho que ali chegava, também dali partia e dava ligação a todos os caminhos que existiam. O melhor era dar uma volta ao farol para dar um nó na estrada.
Ia na meia volta quando avistou um jipe da guardia civil rodando na sua direcção. Ficou parado a observá-lo. O carro parou a seus pés. Apearam-se quatro militares e algemaram-no. Sem oferecer resistência e em silêncio de fim, sentiu os seus pés libertarem-se e correrem em pelotão para o abismo do cabo. Um casal de franceses havia aparecido morto em Padrís.
- O senhor está preso, acusado de homicídio!
- Ainda bem que não comi cogumelos!
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Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra.

sábado, 14 de maio de 2011

Novo Milagre em Fátima

Peregrinos de Fátima acreditaram que auréola que se formou em torno do Sol era milagre

A imprensa de hoje faz notícia, embora denunciando cepticismo, do facto:
- O Sol ficou com uma auréola à volta, precisamente quando passava um vídeo sobre João Paulo II e houve muitos peregrinos que gritaram: Milagre!!!

Primeira pergunta -  porque é que olharam para o sol em vez de estarem atentos ao vídeo?!
Segunda pergunta - não sabem que olhar para o sol pode causar lesões irreversíveis na visão?!
Terceira pergunta - foi a primeira vez que viram uma auréola à volta do sol?!

Na verdade, temos presentes todos os ingredientes para acreditar num milagre: crise, pobreza, desesperança, necessidade de acreditar no impossível! E vinha mesmo a calhar à Igreja e aos senhores do poder!
Mas falta uma coisa: é que já não estamos em 1917! Este milagre vai ficar por aqui mesmo! Só vai ser notícia hoje! 
Também, para que raio é que nos ia servir o facto de uma auréola à volta do sol ser milagre e não ser uma coisa natural de tempo de trovoada?! O que é que isso ia adiantar?! Ainda se fosse, brotar do sol uma voz dizendo:
- Todas as troikas são obra do diabo! Quem votar em troikistas vai para o inferno!

(só falei disto porque estava em Fátima a essa hora e não vi nada, estava a almoçar na Adega Funda)

ÚLTIMA HORA: segundo o DN o fenómeno foi provocado pela luz reflectida por cristais de gelo na atmosfera. Um crente, incrédulo, pergunta:
- Mas quem pôs lá o gelo?!
E eu pergunto:
- Onde é que está o Whisky?!

segunda-feira, 9 de maio de 2011

37- O Caminho do Fim da Terra


Ouviu um carro parar na rua. Ouviu conversa de saudações. Seria Xésus Agrelo a cumprimentar a neta? Não seria de boa educação ir espreitar à janela. Bateram à porta.

- Eh lá! Já?! Queres ver que tenho de ir conhecer, beijar já a moçoila e atirar-lhe à vista o brilho sedutor dos meus lindos olhos?! - pensou, caminhando determinado em direcção à porta de entrada.

Puxou o trinco. Abriu. Surpresa!!!...
Os olhos embaciaram-se, engasgou, embranqueceu, apoiou-se na porta, tremeu e abanou todo ele, traído pelos pés que se enfiaram os sete, como um rabinho, entre as pernas.
Era Marie acompanhada por um homem. Outro?! Não, o “mari”!

Um a um, escorregaram das massas musculadas das pernas másculas e ocuparam o seu lugar em fila indiana para dar cumprimento aos devidos cumprimentos. Pé de Atleta à frente, em segundo Água Pé, a seguir o Descalço e o de Meia, Pé de Vento sem ordem e, por fim, Pé Ante Pé cauteloso e o Pé Chato a resmungar.
Um a um, Marie sentiu-os perante o olhar desconfiado do marido que sentiu demasiadas expressões para um cumprimento só.

Claro que era para entrar! Para comer, seria mais difícil – o frigorífico não estava muito satisfeito! Pernoitar?! É pá! Calma aí! Vamos pensar:
- Situação estranha! Situação complexa! Ela a cumprimentar sete! Os sete cumprimentando o marido! O marido a cumprimentar um! Que estranha visita esta! Que complexo encontro! Que situação embaraçosa! Que pretenderá Marie?! Uma cama com onze pés?!...

Os Pés ficaram sem jeito!
Marie disse que comprara peixe em Finisterra e que trataria do jantar! Sete Pés iria mostrar a praia a Pierre Patapouf e os vestígios do derrame do Prestige, seria uma oportunidade de se conhecerem. Enquanto isso, ela preparava as coisas e iria conversar um pouco com os Agrelos. Já agora – continuava Marie a comandar - que passassem pela mercearia e comprassem isto e aquilo e cogumelos do campo, se os houvesse! Isto porque prometera a Patapouf fazer-lhe prova do petisco que aprendera com os galegos e que só com cogumelos da Galiza se pode fazer! Seria o aperitivo ideal para o grande jantar que se advinhava. O facto de ser sabido que Sete Pés não apreciava, não importava!

- Que estranho jantar!... O casal de franceses com os cantos dos lábios a escorrer o azeite dos cogumelos! O terceiro, o séptulo, a pão com azeitonas. Ela falava para ele. Ele falando para o marido! O marido a falar para ele! Falavam os três, diga-se os nove, como se se tratasse de uma relação natural!…
Que raio de história Marie teria contado, da sua história do Caminho, ao seu marido? A verdadeira? Será que o velho é daqueles destesoados que gozam a ver a esposa chap-chap com outros? Será essa a proposta do fim do vinho?
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Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Foto inédita de Barack Obama com Bin Laden morto ao lado.

Barack Obama fez uma comunicação ao país, tendo ao lado o cadáver de Osama Bin Laden preso por cordéis:
Obama afirmou que eliminar Bin Laden não significa o fim do terrorismo mas que as Forças Monetárias Internacionais vão continuar o seu trabalho. (Repara-se no humor negro do orador que tem uma seta no casaco a apontar para o outro como quem diz: a culpa foi dele!).

Estou muito confuso, estes últimos dias têm dado cabo de mim: o casamento da Rainha da Inglaterra com D. Duarte; a beatificação de José Sócrates; o suicídio de Bin Laden!... Só me falta mesmo um dia destes, aumentar o preço dos combustíveis; aparecer-me um tipo a exigir-me agradecimentos porque me assaltou a carteira ameaçando-me que me levava tudo e afinal deixou-me uma moeda; ou uma caravana do PS passar à minha porta a pedir-me o voto!...

Estou muito confuso! Já não sei se sou americano, muçulmano, católico, monarca, republicano ou português! Sei apenas que ninguém me vai obrigar a votar em nenhuma troika que mande no país!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

36- O Caminho do Fim da Terra

- Vês uma mancha negra além no oceano?
Marie iniciou então o longo discurso do momento que ambos esperavam. Tudo muito bem explicado: tinha família e vida em França, era muito mais velha que ele que ainda tinha uma vida pela frente. Viver ali, assim por muito mais tempo não era vida, as verdadeiras paixões têm um tempo de duração limitado e etc... Além disso?! Sim! Teria de admitir ser tão pragmática quanto amante da boa vida: aquela mancha negra!...
- Talvez a mancha seja um sinal a dar-me a ordem de ir embora!...
- E a mim de ficar!...
- Tens muito para caminhar rapaz! Amanhã de manhã partirei para Finisterra para acabar finalmente com este Caminho! Suplico-te que, em caso algum, me sigas. Deixarei a renda paga para mais seis meses!
- Não é necessário, o trabalho que faço com Xésus Agrelo compensa bem a renda! Além disso, tenho uns bons cobres no banco em Portugal, herança da putez da minha rica mãe!
- São só seis meses! O tempo que eu poderia continuar aqui contigo!

Marie retirou-se para dentro de casa e todo o resto do dia movimentou-se tacticamente de modo a evitar o tema ou qualquer despedida. Arrumou as suas coisas num silêncio apenas quebrado com curtos diálogos sobre questões práticas: onde é que está isto? isto fica aqui! não te esqueças que isto funciona assado! Diz ao Xésus Agrelo que… e pede-lhe desculpa por não me despedir!... Se não te importas vou dormir no sofá para não te acordar quando partir!
Os pés estavam demasiado calejados para que o acontecimento lhes fizesse mossa!
- Finalmente livre!
Dissera para si quando morreu sua mãe e agora voltava a dizer a mesma coisa:
- Finalmente livre para cultivar os seus pés!

Três dias depois da partida de Marie a praia ficou negra de morte! Sete Pés foi dos primeiros a ir para o areal sofrer e fazer parte da primeira equipa de voluntários que começou ali a trabalhar. Ao fim de algum tempo foi integrado numa equipa remunerada pela Junta e aí trabalhou durante seis meses, impondo sempre uma condição: limparia crude em todo o lado desde que de lá não se avistasse o cabo de Finisterra.

- O português tem uma pancada! O home é tolo!... - Diziam os colegas.

Já a costa estava quase limpa, ou pelo menos na situação em que já não é possível limpar mais, Sete Pés experimentava o prazer de, do banco corrido, da varanda corrida das traseiras da casa, olhar o mar como se ele fosse um pouco de obra sua. Já não era o mar negro, nem a Costa da Morte, era o mar salgado e a costa da vida.

Pensou que para a sua, esta história, a continuação do diário de Marie, ter enredo para dar livro, deveria ter encontrado nas equipas de limpeza uma irmã de que a mãe nunca lhe havia falado. Ou talvez, quem sabe, a neta “vinte e teen” de Xésus Agrelo, que chegaria nestes dias do Canadá para passar umas férias com o avô, não lhe traria pés para um romance e o romance se arrastasse como um novela da tvi; e o amor se viesse a estabilizar numa vida normal que apenas interessasse a quem a vivesse!?...

Voltou a olhar o mar e falou-lhe alto como um louco:
- Não penses que esta história vai acabar aqui! Esta casa é um barco que não se dá à água mas quem aqui entrou tem de aguentar, enjoar, tresandar a sal, vomitar azul até, à falta de porto, desejar a tempestade para poder naufragar!

(pois, meu fiel leitor, se está farto atire-se à água, porque há ainda muito oceano que não passou a Padrís! – hei-de chegar ao fim, só com um leitor!)
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Todas as segundas feiras.
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domingo, 1 de maio de 2011

Que hei-de fazer com este dia?!

Que hei-de fazer com este dia?!
Sou filho de mãe, mãe, pai operário, sou pai, trabalhador, revolucionário! Já sei! Tive uma ideia: vou almoçar fora com a família!
Há duas mães que não esqueço, uma é a de Gorki e outra é a Minha!

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Terra de ratos, gatos e porcos

Se os gatos governam e são presos os ratos que querem governar, que não triunfe a velha esperteza dum reino de porcos mas que se escolha o Rei dos Leittões. A mim ninguém me prende, nem niguém ousará acusar-me de querer comer os outros! Um video didáctico, para o ratos que teimam em votar nos gatos e não reconhecem a harmonia com que vivem na pocilga com os leitões:


segunda-feira, 25 de abril de 2011

35 - O Caminho do Fim da Terra

- Estás convencida que um dia serás famosa por isso? Para que raio escreverá uma pessoa se não for para outros lerem? Para ler só ela, só se tiver um problema grave de memória ou se gostar de se masturbar literariamente?

As considerações a propósito do diário secreto de Marie foram florindo e fizeram dele fruto apetecido, fruto proibido, aguçando a curiosidade, a ousadia, a fraqueza ou ciúme de Sete Pés. Foi Pé Ante Pé que, numa manhã em que Marie foi a Cee sozinha tratar de assuntos de banco e de compras para o dia a dia, primeiro avançou sobre a encadernação que compunha o manuscrito! Foi Pé Chato que se pôs a ler aos outros pés, em assento e acento de professora, de avó, de avô, de pai ou tia – pronto! de quem lê histórias! - num tom de desvendo, revelação, historieta, história, romance, diário, de conto… e contou…

Não seria surpresa que ali se relatassem coisas do Caminho e de coisas outras e outras pessoais e/ou banais, que se escrevem em diários de senhoras que vivem ou caminham com os seus devaneios. E até se aceitavam coisas em que os pés entravam e saíam porque da presença e companhia deles seria justo o registo.
Agora que Marie registasse a mística dos Pés, que fizesse referências a cada um e ao seu desempenho sexual e que, pelas confidências do namoro, tivesse escarrapachada esta história, que aqui se conta, até aqui, pareceu a muito!

(Sim porque esta história que andais a ler há trinta e cinco semanas é o diário adulterado, a história que Marie, apropriada das confidências do Pé Descalço, foi escrevendo e usando.
Nesta situação, a partir deste parágrafo, já não se sabe quem escreve ou conta. Por isso, o melhor é deixar tudo como anteriormente e fazer de conta que a narradora não se chama Marie e que isto não é o seu diário.)

Quando ao fim do dia Marie regressou de Cee, Pé Ante Pé, primeiro de pé atrás, depois de rodapé, pôs o pé na fossa e de pé para a mão – melhor, para a boca! - largou:
- Mas que merda é esta?!
O diário de Marie nas mãos de Sete Pés!... Marie artilhando a boca, estremecendo os lábios em pé de guerra! Os sete pés embrulhados em pose de “sempre em pé”…
Água Pé, que tinha passado a tarde a abrir e fechar o frigorífico, precipitou o questionário e meteu o pé na argola, a mão na ferida e Marie ficou ferida de ir embora.
- Violada! - nas palavras dela.

Das palavras dessa noite fez-se o caldo que azedou o lirismo do romance. Nos três dias seguintes a este episódio choveu muito, a aldeia tornou-se num enorme lamaçal, a vida forçada em casa gerou tédio e cansaço mútuo. Ouvia-se nas notícias que um petroleiro havia feito das suas nos mares altos e vivos da Galiza. Dia após notícia, o nome Prestige entrou no vocabulário quotidiano.

Mesmo assim, apesar da tempestade que se estabelecera entre os dois e na Cuesta da Morte, durante uma acalmia, encontraram espaço para se sentarem de mãos dadas, no banco corrido da varanda corrida das traseiras da casa, a olhar o mar.
- Vês uma mancha negra além no oceano?
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Todas as segundas feiras.
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sábado, 23 de abril de 2011

Até segunda

Poucos a ajudaram a fugir de casa
Para vir casar à rua com um soldado
Poucos ousaram dizer mal da noiva
Apesar dela vir vestida de vermelho

Já lá vão trinta e setes anos
Muitos lhe contam os dias
Apesar dela conservar a graça e a razão
Muitos são os rendidos, comprados e vendidos

Não sabem eles que ela engravidou
De novos portugueses. Finalmente!
E segundo a ecografia
Vem aí uma ainda mais bonita do que a mãe
E terá também o nome dela: Abril.

Se eu acredito na ressurreição?!...
- Dos vivos sim! É mais provável amanhã ressuscitar um homem que morreu há muitos anos ou na segunda-feira ressuscitar uma revolução?!

No 1º de Maio os trabalhadores dos hipermercados vão trabalhar! Colaborar! Dizem os seus exploradores! Interesse público?! Produção?! Necessidade?! Não! A belmirização do país! Humilhação! Esticar o elástico!
Isto não pode dar merda! Isto tem de dar Revolução! Abril!

quinta-feira, 21 de abril de 2011

A canção de Israel também é de luta

Tanta polémica porque a canção que vai representar Portugal no festival da Eurovisão fala de luta! Que dirão os israelitas?! A canção deles é bem mais polémica do que a nossa! Só o nome é de gritar: "No buraco errado".
Vejam o videoclip e a tradução!
A luta é alegria!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

34 - O Caminho do Fim da Terra



O local costumeiro era o banco corrido da varanda corrida virada para o mar.
Pé Ante Pé dizia:
- Vou para a varanda trabalhar!... Vou sentar-me a pensar! Sou pensador de profissão!
Marie ria e contrapunha:
- Então espera lá que eu já lá vou ter! Sou amante profissional!
E então acontecia muitas vezes que, enquanto Pé Ante Pé pensava, um ou outro pé coçava o amor.

- Aprecio num homem o humor, humildade e desinteligência!
Água Pé riu-se e limpou baba do queixo e Pé Descalço esfregou satisfeito os dedos das mãos entre os dedos dos pés e cheirou as mãos. Passaram olhares interrogativos de pé em pé como se pela primeira vez fossem levados a concluir que nenhum deles era inteligente! Marie topou as movimentações de identidade e a pretensão de encaixarem no seu trímodo de homem ideal e apontou na direcção dele:
- Mas tu és inteligente!
- Não sou nada!
- Ora, a pessoa que não se considera a si própria inteligente é porque é burra!
- Logo, não sou inteligente! Mas se isso te põe contente, também não me parece muito inteligente uma mulher que ama um burro!
- Vês és inteligente! Aliás, se não o fosses, eu já teria percebido com que pé estou a falar. Mas não, estou às escuras!
- Então acende a vela!
- Não tens piada!
- Mau! E vão duas – nem pêlo de burro, nem sentido de humor!...Também não sou humilde?!...
- Se fosses humilde, reconhecerias que és inteligente!
- Não quero mudar o mundo, quero apenas que o mundo não me mude a mim!
Os homens inteligentes criam empresas e negócios ou estudam e fazem carreira, eu não passo dum humilde órfão que está aqui a tentar fazer rir uma reformada!
- Nem todos, muitos deixam-se encantar por outras coisas da vida mas acabam por se perder no amor, no vício ou na revolta. No teu caso, receio que estejas perdido pelo amor!
- Se estou! E acabo de ser formalmente informado, que não sou correspondido!

Com o tempo a passar e estas reflexões adolescentes, não apareceu o tédio mas a paixão, o caso, começaram naturalmente a sofrer transformações.
Marie não dispensava o seu tempo diário para o seu Diário. Todas as noites, antes de ir para a cama ou já na cama, pegava na caneta e discorria. Do que escrevia nada contava e nunca deu a Sete Pés confiança para pedir relatos ou para dar espreitadelas. Aquele caderno fazia parte de uma intimidade intocável.

- Estás convencida que um dia serás famosa por isso? Para que raio escreverá uma pessoa se não for para outros lerem? Para ler só ela?! Só se tiver um problema grave de memória ou se gostar de se masturbar literariamente!...
- Masturbação literária! Vou registar essa! As pessoas que não escrevem diários vêem sempre a escrita não documental associada aos romancistas que fazem dinheiro com o que escrevem. Não compreendem que, tal como as pessoas que correm no parque não têm motivações competitivas, o fazem apenas por gosto e para manter a forma, também nós, os que cultivamos a escrita de gaveta, o fazemos apenas por prazer e exercício!
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Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Belmiro de Azevedo entrevistado na RTP1

Porquê?

Quando abriu o primeiro hipermercado Continente em Lisboa, o Zé pegou no carro e na família e fez-se à estrada. A grandeza, as luzes, os reclames, o Portugal de progresso, o tudo para comprar, o barato fizeram que, durante uns dias, o Zé não falasse de outra coisa a amigos e vizinhos:
- Uma pessoa apetece-lhe comprar tudo! Aquilo até dá gosto comprar!

Quando abriu o Continente na capital de distrito do Zé, ele desabafou:
- Até que enfim que chegou aqui o desenvolvimento! Agora sim! Já tenho programa para todos os Domingos!

Quando o Belmiro de Azevedo veio à escola da filha falar de empreendimento, o Zé tirou a tarde e foi ouvi-lo embevecido e até, da palavra do público, lhe pôs uma questão que teve a resposta desejada!

Quando abriu o Modelo lá na Vila, então é que foi! Cem empregos! Um cartão de descontos! Senhas de descontos na Galp! Produtos de marca Continente muito mais baratos! E até uma caixa automática para tipos como ele, que percebem de novas tecnologias, registarem e pagarem as suas próprias compras sem terem de estar na fila a aguentar a inabilidade da rapariga paga a preços baixos.

Se não fosse aquele investimento o que seria daquela terra! Está tudo pelas horas da morte! A mulher do Zé, que trabalhava numa loja de ferragens, bem pode agradecer por acaba de conseguir um contrato de seis meses na limpeza do centro comercial. A exploração de produtos agrícolas, onde trabalha o Zé, bem pode dar graças a Deus por existir o Continente, a margem de lucro é ínfima mas sempre dá para se irem aguentando.

Disseram ao Zé que o Continente é como o eucalipto! O Zé diz que um carvalho demora 100 anos a criar! O Zé acha que isto tem de ser assim!

Mas não tem! Nacionalização imediata do Continente! Limitação da zona de exploração da Sonae às Berlengas!
Estamos na miséria enquanto os Azevedos sobem no pódio dos mais ricos do mundo! E, como se não bastasse, para comentar a crise, a televisão do estado deu uma entrevista no horário nobre apresentando-o como o maior empregador do país!

Enfim, informação democrática! Como se fosse possível este post sair reproduzido amanhã na coluna “blogues em papel” do jornal Público!

Marionetas Financeiras