segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Sete Pés Vinte e Um


A noite transformou-se numa tertúlia de resistentes.

Pé Chato reparou que Marie já abria a boca de não perceber coisa com coisa e libertou os outros pés para prepararem o término dos assuntos políticos com os convivas. Tarde demais, remoeu-se Sete Pés. Fora traído pelo ego que o tentou e levou ao centro das atenções, não se lembrava de alguma vez ter sido centro em toda a sua vida. Fora preciso vir para tão longe dos “santos da terra”, para os santos de Compostela, para que alguém reparasse na existência do seu vulto. Só que esquecera, “não se pode servir a dois senhores!”. Enquanto se embriagara com o momento de vedeta da dança de seus pés, tinha perdido a oportunidade de acertar, fechar ou abrir contas com aquela que, ali e naquele momento, era a sua mulher.

Precipitou a despedida e saiu com Marie, cada um com uma cerveja na mão. Ela, já o dissera, iria de táxi para Monte Gozo e o caso terminaria ali.
- Assim? - Interrogou Pé de Vento.
Marie com o verbo maduro, felino e inteligente, obrigou-o a reconhecer as evidências que determinavam o fim. Os sete Pés, pouco experientes em argumentos de namoro, renderam-se, um a um e deixaram Marie moldar o epílogo.

Enquanto caminhavam pelas ruas históricas para a Avenida Figueiroa, descaminhando o passo para dar tempo ao naco de coisas que haviam de ser faladas, Marie revelou-lhe que o seu Caminho não terminava ali. Existia um prolongamento dos Caminhos de Santiago, cuja história vinha de AC. Antes dos descobrimentos marítimos, antes de para ali terem levado os restos mortais do Apóstolo, antes do Apóstolo por ai ter passado, já mortais faziam Caminho até Finisterra. Pensava-se que terminava ali a Terra, daí o nome - Fim da Terra. Melhor dizendo, o fim do que se conhecia. Chegar aí, com o desconhecimento que havia américas, índios, que a terra era redonda, com o convencimento que, para além da linha que separa o azul marinho do azul celeste, existiria um abismo, fim, Deus, trevas, Desconhecido, seria uma experiência digna de reconstituição para qualquer caminhante que tivesse recolhido no Caminho as lições dos antepassados.

Nos dias de hoje muitos são os peregrinos que, chegados a Santiago, entusiasmados no prazer de caminhar, pretendendo adiar o fim da caminhada, encontram nessa razão antiga o pretexto para continuar e só param em Finisterra. E assim seria também para ela.

Nenhum dos sete pés sentiu coragem para lhe fazer proposta de companhia mas, exceptuando Pé Chato ( não a vamos largar! – disse entre pés), todos ficaram no ar perante o dado novo que poderia haver mais estrada para andar.

Pé de Vento velejou para consigo no “e se mais mundo houvera lá chegara” e deu vela a Água Pé para soltar a sua graça:
- Nós lá em Portugal, no extremo oposto a esse, também temos um cabo desses mas não tem um nome tão significante, tem um nome de uma marca de cerveja!
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Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Sete Pés Vinte

Saíram e foram juntos ao Secretariado Consistorial requerer a Compostela, com as provas do Caminho, os Pés com a credencial e Marie com o diário.
Decidiram jantar a dois, em sítio de “não interessa o preço”. Ele foi procurar quarto e ela compras. Marcaram encontro, seguros de que nenhum deles era da espécie de falhar, às sete, ali mesmo, naquele local.

Marie vestiu a autoridade das escolhas e fez questão de pagar a conta. Ceado o requinte peregrino-burguês, acabaram por prolongar a noite num bar, pouco cuidado, onde entraram porque se aperceberam que aí se tocava e cantava sem amplificadores, palco ou formalidades de espectáculo. Pela decoração do espaço, pelo ambiente que se respirava e pelo teor das canções aperceberam-se que se tratava dum ponto de encontro de independentistas galegos.
Já sentados, em curtas observações, assentaram que existiam condições para ali consumar o serão de despedida ou não se respirasse na atmosfera do local uma confluência de romantismos e utopias que ambos cultivavam como se comprovava, aliás, pela forma e pelas vontades com que haviam Caminhado.

O diálogo de Pé Descalço com o homem que serviu, denunciou a presença portuguesa. Curiosamente o galego não tocou no Porto nem no Benfica mas foi directo ao José Afonso, ao 25 de Abril e à questão histórica-linguística do galaico-português. Ao fim de algumas dessas, rematou:
- Quando um galego encontra um português sente que pertencer a Espanha é coisa de reis e de golpadas reais.
- Somos todos galegos!
Acrescentou Pé-Ante-Pé. E Pé de Vento:
- Na minha aldeia quando vêem muitos miúdos juntos perguntam: “Pariu aqui a galega?!

O tema criou entusiasmo sob a presença marginal de Marie que, mesmo percebendo muito pouco, dispensava todas as atenções à conversada.
Não demorou muito tempo até que todos os clientes, todos com estar de habituais, se apercebessem da presença dum português na sala, a julgar pela convergência e simpatia dos olhares, rara e bem vinda. Não demorou muito tempo até que os músicos lhes dedicassem Zeca e Adriano e que a voz portuguesa de Água Pé ficasse só a cantar “O Cantar da Emigração”. Aguentou a iluminação dos “olhofotes” porque se lembrou de que para ser actor teria de esquecer que havia público e só avermelhou o rosto frágil quando, subitamente, se esmoreceu num “... cortar teu pão” final, sentindo os aplausos da plateia a agitar os fumos dos cigarros e a acusar a revelação do artista que nunca tinha sido experimentado.

Marie estava encantada pela intervenção do seu rapaz e aliviada pelo facto de ver comprovadas as distâncias que nunca os poderiam unir. Tudo não passaria de um caso secreto e efémero, presente do Caminho.
A noite transformou-se numa tertúlia de resistentes.
Água Pé entusiasmado com a conversa esticou-se até ser incompreendido:
- Lá no fundo eu até vos invejo! Tenho pena que Portugal seja independente de Espanha!...
Cada um dos ouvintes revelou em cada olho um ponto de interrogação desbotado mas o provocador remediou com um esclarecimento piadético:
- …para poder pertencer a um movimento independentista!!!...
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Todas as segundas feiras.
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sábado, 8 de janeiro de 2011

O que diz Cavaco

Esclarecedor?!:

Esclarecedor?!
Este tipo tem possibilidades de ganhar as eleições! Para essa hipotética vitória poderá contribuir não só o facto de ele ser assim e ter feito isto, mas também o facto de ele não parecer ser assim e se insistir que ele fez isto.
Entretanto o país parece estar a ser engolido no poço sem fundo do BPN, atirado para lá pelos competentes ex-ministros do PSD, pelos actuais competentes ministros do PS, pelo competente Vitor Constâncio e pelo competente Cavaco Silva.
A Vítima tem os seus votos contados, de gente que faz parte disto, de gente que aceita isto, de gente que não sabe disto, de gente que não percebe nada disto, de gente que acha que isto é cabala - muita gente, portanto! Mas o Raposa Velha sabe bem que quem lhe poderá dar a vitória é a abstenção e então, joga tudo nela!
Eu vou votar! Há mais cinco!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Dia de Reis - O dia em que o Rei faz anos.

Já lá vão mais de 700 posts, mais de 4000 comentários, quase 70 000 visitas. Não sei para quê!
Blogue Rei dos Leittões, há
a dizer a mesma coisa. Não sei para quem!

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A Notícia do Dia

Pata Negra desiste do Caminho para Belém mas vai continuar o Caminho do Fim da Terra.
Quando tomei a decisão mais importante da minha vida, ser candidato a Presidente da República, sabia de ante-pata o que me esperava. O facto de dispensar apoios financeiros, partidários ou de figuras públicas, teria como compensação o apoio de tantos inconformados que me bateriam nas costas e diriam “Força Pata! Avança! Estou contigo!
Essa força resultou em 7499 assinaturas. Evidentemente que mesmo que tivesse conseguido as 7500 assinaturas exigidas, a candidatura seria recusada pelo Tribunal Constitucional. Contudo, não seria por essa razão que iria desistir. Os eleitores poderiam sempre remediar a situação acrescentando, à mão, no boletim de voto o nome Pata Negra, um quadradinho e uma cruz. A adesão seria de tal ordem que, no mínimo, não poderiam ser considerados votos nulos normais.

Sendo assim, porque desisto?!
Desisto por causa da mensagem de Ano Novo do candidato Cavaco Silva. Embora não a tenha ouvido, nem visto, nem lido, nunca poderia participar no mesmo acto em que está comigo o autor de uma mensagem daquele teor. É uma questão de princípios e de valores democráticos. Nunca disputaria uma eleição com um candidato dessa espécie, da mesma forma que não concorreria ao primeiro lugar de um concurso de caninos ou me envolveria numa orgia com caprinos.
Agradeço a todos os que me apoiaram. Podem retirar todos os materiais de apoio à candidatura dos vossos blogues, das vossas janelas e dos vossos Pandas. Uma palavra de apreço ao mandatário nacional Marreta, cujo blogue foi, entretanto, sabotado por apoiantes da candidatura do gajo da Madeira. Um obrigado especial ao Fliscorno e ao Ferroadas pelo material que produziram.
Lamento apenas ter de ficar com as 30 000 t-shirts que mandei fazer.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Sete Pés Dezanove

Chovia ainda. Já no interior do templo, rodou a cabeça em movimento panorâmico mas antes de se dispor a sensações obrigatórias, teve de aliviar o mau estar, arreando a mochila, sacudindo o capote e enxugando o rosto e as mãos. Porque ninguém ousaria roubar ali haveres, deixou o “peso das costas” junto a uma coluna e, no fim de cumprir a tradição de enfiar as mãos lá no sítio do Pórtico da Gloria, começou a caminhar com porte misto de peregrino estafado e de visitante estreante, na direcção do altar-mor.

Dum olhar lateral captou, sentada num banco da igreja, entre fiéis de prece e turistas de câmara, alguém que não era uma coisa nem outra e que o esperava. A alegria do reencontro levou um ao outro e transformou-se num abraço que começou olhos com olhos, prolongou-se em queixos nos ombros, voltou a olhos nos olhos, repetiu ombros com queixos, fez suores nos olhos e nos pés e terminou de mão dada a Caminho do túmulo do Apóstolo e do abraço da praxe à sua imagem.

Quando regressaram à entrada Pé de Meia tirou da mochila a pulseira de missangas e mostrou-a a Marie com algum receio que esta ficasse a pensar que ele lha havia roubado no hostal em Caldas dos Reis. Ela agarrou-a para logo de seguida lha devolver dizendo:
- É tua, larguei-a no Caminho certa que a irias encontrar!

Sete Pés não gastou francês para contar a história do padre com Alzheimer porque a história perdera toda a importância quando comparada com a surpreendente declaração de Marie. Aproveitou, isso sim, para pedir que ela a colocasse no seu punho. Ela fez cerimónia no gesto e ambos parecem ter sentido no simbolismo do acto a originalidade da sua relação que muito em breve ter-se-ia de diluir em futuros divergentes.

Saíram e foram juntos ao Secretariado Consistorial requerer a Compostela, com as provas do Caminho, os Pés com a credencial e Marie com o diário. No trajecto Marie foi contando que já tinha as suas coisas no mega-albergue do Monte Gozo, que distava dali quatro quilómetros e que lá estavam centenas de outros peregrinos do Caminho Francês.

Se, por um lado, o facto de Marie aguardar a sua chegada para levantarem em conjunto a sua Compostela era um sinal promissor para uma nova noite, esta informação não agradou ao cio dos Pés, não só porque, inchados, não sentiam peito para mais quatro quilómetros mas também porque, com tanta gente nas camaratas seria difícil encontrar espaço para os dois se embrulharem em actos maiores. Procuraria um quarto ali, na zona histórica, nos seus mais secretos planos poder-se-ia até dar o caso de que, com o reanimar da atracção entre os dois e com a noite, Marie optasse por…
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Todas as segundas feiras.
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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Não quero 2011

Que semana mais morta esta em que vos falo! Nada de novo! Já nem reagimos às más notícias, aos políticos maus, aos maus candidatos, aos maus tempos, ao mau tempo! E de tantos males que nos infligem, que nos prometem, que nos anunciam em nome da merda do futuro, já perdemos a capacidade de acreditar nas boas coisas, nas pessoas boas, nos bons momentos e no poder da chuva!
Qual Serviço Nacional de Saúde?! Qual mensagens de Boas Festas?! Qual crise? Quais tempestades? Eu acredito nas coisas boas da vida, conheço muito boa gente, tenho passado uns bons almoços com a malta amiga e tenho a cisterna cheia!... Bem vistas as coisas até preferia que 2011 não chegasse mais! Quanto mais não seja para o Presidente da República não dar a mensagem de ano novo!...
Eis a minha mensagem:

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Sete Pés Dezoito

Só ao fim de duas horas se conseguiu entrar no albergue, tomar banho e fazer descanso.
A última etapa da Via Lunar começou numa manhã de intenso nevoeiro. Pelo meio do percurso viria a chuva. Pé de Atleta discursou:
- Para a prova do Caminho ser completa, tem de haver molha! Uma peregrinação sem chuva não tem comunicação com o Céu, é um simples passeio ou uma prova de atletismo! Diz-se que Santiago de Compostela é o bacio da Espanha! Aqui temos o desafio!

Caminhar debaixo da capa impermeável, sob a chuva, foi duro mas, concordantes com a opinião de Pé de Atleta, o facto foi aceite por todos os pares como necessário ao cumprimento da peregrinação. Água Pé, apoiado pelo Pé Chato, apresentou a sua proposta alternativa recorrente de paragem no próximo estabelecimento.
- É pá, isto é só uma mijadela ciumenta do S.Pedro! S.Tiago quer que a malta ajude o comércio galego, paremos na próxima tasca até que a chuva pare!
E repetiu o seu ditado preferido:
- Com pão e vinho se faz o Caminho!

Mas não, Santiago estava já demasiado próximo para poder deter os pés mais ansiosos. Já não era só o chegar e abraçar o Santo, era também chegar e poder vir a encontrar e abraçar Marie France.

O avistar de Santiago e das torres da catedral de Compostela tocando o céu, acontece no cimo do Monte Agro de Monteiros. Pé Ante Pé interrogou-se acerca do número de ordem que lhe cabia entre todos os vivos e os já mortos que já tinham tido, daquele local, aquela visão.

Cheira a Santiago? Não! Os subúrbios da cidade interrompem o espírito do Caminho, a sucessão de prédios, de urbanizações infelizes, de viadutos e rotundas, as vieiras, camufladas pela poluição visual, perturbaram e desorientaram Sete Pés fazendo-o desesperar pelo desejado encontro da Porta da Faxeira, local por onde entra o pessoal do Caminho Português.

Aí entrados, um encharcado, outro cansado, o outro desoxigenado, um esgotado, outro chateado, o outro esfolado e o outro com sede, já nem se sentiam pés nem nada. As pessoas que enchiam as ruas do centro histórico e as portas das lojas, esvaiam-se em silhuetas de pré-desmaio, todos os rostos pareciam mirar o vulto que chegava, uns pareciam aplaudir, outros largar compaixão, outros escárnio, outros roubar, outros oferecer, outros pisar, outros amparar - a fachada sul da Catedral devolveu alguma lucidez. Entrou em curva larga e errante na Praça do Obradoiro, agachou a sua pequenez de caras para a imagem, conhecida dos postais e gravuras da Catedral! Um flash de memória percorreu os séculos e multiplicou os momentos de todas as almas que já haviam experimentado a sensação: chegar ali depois de tantos passos com dois pés. Sete Pés sentiu orgulho de si, era o primeiro a chegar ali com sete pés!
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Todas as segundas feiras.
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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Deixem-me, por favor, uma mensagem de Natal!

Legenda: Deixe a sua mensagem de Natal na ranhura!
Legenda: Este ano, jantamos o que há em casa.

Legenda: A cada porco o seu Natal (ditado popular)

Natal? Sininhos? Anjinhos? Peru? Azevias? Amor?… Ganda tanga! A malta quer é amor e BOAS FESTAS no corpo todo!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Não dou votos de Natal a quem der votos ao Cavaco

Nunca na vida escrevi sobre o natal
Nem me lembro sequer de trazer para casa uma redacção sobre o natal
E continuo a não conseguir escrever sobre o natal
Para mim o natal não tem de bem mais que a páscoa ou o carnaval
Mas também não tem mais de mal
Para mim essas coisas são simplesmente o natal, a páscoa e o carnaval
Não escrevo sobre eles porque também não escrevo sobre muitas outras coisas
As únicas coisas sobre as quais gosto de escrever
E sobre as quais vale a pena e escrever
É sobre o a primavera, o verão, o outono, o inverno
Dependo muito mais desse tempo do que dos tempos do calendário católico
Dependo muito mais desse tempo do que do tempo cronológico
Até porque não sei quando vou morrer e se vou ter enterro católico
Mas sei que vou morrer numa estação
Por falar em estação
Também nunca escrevi sobre comboios
(A propósito o meu filme do ano
é o Pare Escute e Olhe do Jorge Pelicano)
Deixei também de escrever sobre o papel
(A propósito preciso de um computador novo este noel)
O Pai Natal deste ano é ao contrário
em vez de dar, tira
e chama-se Teixeira
Deixei também de escrever sobre política
E se não escrevo sobre os votos da minha candidatura à presidência da república
Também não escrevo sobre os votos de natal
É evidente que toda a gente me deseja um bom natal
E que eu desejo um bom natal a toda a gente
Vou ver TV
Vai dar agora o tempo para amanhã!
Amanhã vai começar o inverno!
Que em vez de cair neve, caia o governo!
Apaguei o texto daqui para a frente

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Sete Pés Dezassete

Dali para a frente o Caminho faz-se por uma meia encosta coberta de arvoredo, que oculta o rio Valga lá ao fundo. Sabe-se do rio porque se ouve a sua voz, também ele a caminho duma foz onde outro rio o há-de levar ao oceano que lhe chamará um figo.
Entrou em Padrón, junto às margens do rio Sar, por onde teria entrado a barca que trouxe o corpo do Apóstolo, até desaguar num enorme parque com carrosséis, tendas e tendinhas. Também ali se festejava a Páscoa e, pelo aspecto do recinto, em grande.

Atravessou o rio e procurou a famosa fonte do Carmo, localizada aos pés do Monte Gregório, para banhar os pés. Todos os pés nadaram ao seu modo, louvando no chapinho o fim da dura etapa. Pé de Atleta pisou a meta, Pé de Meia contabilizou o percurso, Pé Ante Pé pensou no do dia seguinte, Pé Descalço sentiu as bolhas, Pé Chato disse-se farto, Água Pé propôs “uma tasca” e Pé de Vento reclamou “quero o abrigo dum albergue!”.

Porque Pé de Vento, na qualidade de último a falar, melhor falou e porque nestas coisas era o que melhor levava a vela ao seu moinho, todos seguiram de vela a ordem e subiram o monte. A meia encosta encontraram o albergue, discreto e integrado na zona histórica do Convento do Carmo. Na porta estava um número de telefone para contactar o hospedeiro.

Subindo uma escadaria aproveitaram para visitar a igreja do convento que tem sete fantásticos altares de arte barroca, tão diversos na estética e no desenho que a cada pé, segundo a sua natureza, coube uma imagem para encaixar a sua prece: Pé de Atleta correu para o mais dinâmico, Pé de Meia contemplou o mais dourado, Pé Ante Pé procurou o mais sólido, Pé Descalço reteve-se no com mais nus, Pé Chato entreteve-se no mais barroco, Água Pé no da última Ceia e Pé de Vento, porque lhe sobrou o que tinha o Omnipresente com os pés pregados, deu meia volta pelos outros todos e lembrou:
- Nenhuma das coroas desses santos quietos tem o número de telefone! “Vou à sacristia
e... já vim”
e não encontrei almas da terra, o melhor é descermos à cidade para encontrar um telefone público, antes que seja tarde e ninguém nos venha abrir a porta.

Só ao fim de duas horas se conseguiu entrar no albergue, tomar banho e fazer descanso.
À noite provaram-se os famosos pimentos de Padrón, Pé de Vento e Pé de Atleta vaguearam pela grande festa e todos, no fecho da volta, acabaram a assistir a um espectáculo de sevilhanas. Pensou-se como, afinal de contas, apesar da Andaluzia ficar mais perto de Portugal do que da Galiza, era mais normal encontrar ali aquele género de música e dança do que no seu país. A Espanha existe, concluíram.
Surpresa das surpresas, Pé De Vento, com olhinhos de moço gaiteiro, engatou, ou foi engatado, e não dormiu sozinho no albergue impondo arredo aos outros pés. Na manhã seguinte não estava um bilhetinho afectuoso, como aquele que a francesa deixara em Caldas, mas constatava-se apenas a falta de alguns pertences.
- Mais um sinal!
Rezou Pé Ante Pé. E Pé de Meia:
- O relógio que se lixe, é um objecto que não faz falta nenhuma a um caminhante mas o corta-unhas!...
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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Filha da puta da máquina


Em Junho eu postava isto:
Os senhores podem portajar,
as estradas, os carreiros e as pontes,
as fontes, os rios e as praias,
os campos, as manadas e os estrumeiros,
as saias da vossa mãe e o cu dos vossos santos tios.

Podem portarjar também senhores,
os castelos, os túmulos e os museus
as igrejas, os túmulos e os mausoléus,
os hospícios, os hospitais e os parques,
as hortas, os tomates e os ceús.

Ponham portagens em todos os carreiros,
nas "ás", nas "bês" e nas "icês",
para vespas, cavalos e ovelhas.
Mas não me acabem com os portageiros,
nem me ponham chips nas orelhas.

É que eu gosto da oralidade de dizer e ouvir "bom dia" durante a viagem
e, só para isso, vale a pena encontrar uma portagem.

E hoje aconteceu-me isto:
Fui surpreendido com uma máquina no lugar onde, ainda há pouco dias, estava uma pessoa de carne e osso que me falava. E não é que a puta da máquina começou também a falar comigo: enfie o título... meta o cartão... cartão mal introduzido... e eu às aranhas com a bicha que estava atrás de mim...
Estava eu quase para sair do carro a desapertar as calças e a perguntar ameaçador:
- Queres que te enfie, te meta e te introduza o quê?!
E eis senão quando se abre a cancela enquanto a puta da máquina, já saciada, diz:
- Pagamento efectuado, obrigado e boa viagem!
- E tu vai à merda!...
A puta da máquina até pode ser muito educada mas se fosse o portageiro ter-me-ia respondido.
E perguntam vocês porque não saí de calças na mão:
- Por causa da bicha que estava atrás! Sabem como são as bichas!...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sete Pés Dezasseis


À saída de Caldas deixou de ver as vieiras que indicam o Caminho e andou perdido até ao meio-dia, altura em que teve um encontro ensombrado de espiritualidade. O cenário foi o mosteiro de Santa Maria de Carracedo, um átrio de terra batida coberto de erva daninha, um trilho largo para a porta principal fechada testemunhando a frequência de fiéis e Pé Descalço sentado num muro de pedras, cuidando os pés físicos enquanto Pé de Meia matutava na direcção do Caminho. Em direcção aos Pés andou um vulto padre, velho de andar e de batina ruça. Chegado a poucos pés, parou e, permanecendo parado e em silêncio, fixou o olhar no olhar de Sete Pés. Às “boas tardes”, às expressões faciais de simpatias e às questões da direcção do Caminho certo, respondeu nada. Os Pés indagaram entre si para saírem do aperto do momento: é uma alucinação derivada do cansaço, é uma visão, é uma aparição, fugimos, pede-lhe um copo, dá-lhe a esmola e o velho tem mal de Alzheimer.

A cara branca, fria e congelada inclinou-se levemente para permitir o movimento trôpego da mão até à algibeira da batina e, quando a retirou, o braço apontado ficou a um escasso braço da face das sete caras pálidas do alvo Sete Pés. Na extremidade do braço, uma mão branca, de rugas mimadas, semiaberta e trémula falava pelos dedos:
- Achei isto, é teu?!
No primeiro instante pareceu um terço de rezar mas, concentrando o olhar, foi reconhecida de imediato a pulseira de missangas de Marie France.

Impulsivamente, reconhecendo a propriedade, Pé de Meia agarrou receoso o pechisbeque das mãos do pobre clérigo com palavras e ginástica de agradecimento sem qualquer sinal de retribuo.
O padre, sem largar palavra, virou costas partindo por entre as folhagens para as traseiras do templo assombrado. Pé de Meia esfregou o colar nas mãos, confuso, rejeitando a crença que o encontro tinha sido um sinal do Alto. De pés na terra, o facto de se tratar de um objecto de Marie era a prova de que tinha reencontrado o Caminho. Nas fachadas ou nas imediações do monumento haveria de estar cravada uma vieira. E estava.

Dali para a frente o Caminho faz-se por uma meia encosta coberta de arvoredo, que oculta o rio Valga lá ao fundo. Sabe-se do rio porque se ouve a sua voz, também ele a caminho duma foz onde outro rio o há-de levar ao oceano que lhe chamará um figo.

Pé Descalço não deixava de sentir em cada encalço, em cada folha ou cavaco que pisava, em cada cheiro ou regato que experimentava que também os sentidos de Marie recolheram as mesmas sensações e ouviram o mesmo rio.
Sacou do bolso a pulseira de missangas de Marie e passou os dedos por todas as bolinhas, uma a uma, rendendo a cada  uma avé-Marie. Terminado o rosário pensou nela: andou!
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Todas as segundas feiras.
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sábado, 11 de dezembro de 2010

Movimento anti-popota

Recebi por e-mail, apoio e divulgo:

1 - O governo espalha a fome e a miséria
2 - Os espertos, como a SONAE, organizam movimentos de caridadezinha, pelos quais põem os parolos a arrotar
3 - Ganham um balúrdio com o negócio
4 - E ainda ficam com a fama de beneméritos

MOVIMENTO ANTI-POPOTA, LEOPOLDINA E ARREDONDAMENTOS!!!
É extraordinário como é fácil fazer grande caridade com o dinheiro dos outros!!!
Pedem-nos "apenas" dois euros e fazem-nos o favor de doar um para a caridade.
Claro que quem aparece a doar no final vários milhares são os donos dos grandes
armazéns ... com o nosso dinheiro!!
Reparem no que diz o site de um desses supermercados: "Nestes últimos três anos
conseguimos angariar (...) um montante superior a um milhão de euros, " ....
Extraordinário realmente, sobretudo se pensarmos que esse milhão de euros foi
automaticamente deduzido dos impostos desta empresa .... como se fosse dinheiro
deles e não nosso.
Se querem dar para caridade dêem directamente ... ou se eu vos pedir vocês dão-me
a mim para eu poder doar?! Então porque dão aos Modelos, Continentes e Wortens?
Eles têm obrigação e responsabilidade social a cumprir!

Pata Negra acrescenta:
- Comecem por praticar a caridade para com os desgraçados e explorados trabalhadores dos Continentes, Modelos e afins.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Mais um Puto apanhado na rede

Depois do Pai Natal ser agarrado por um dos epicentros do capitalismo, a coca-cola, é agora a vez do Menino cair nas malhas da rede.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A minha terra natal

O Inverno pode chegar ao Verão.
O Verão pode chegar ao Natal.
Dizem que isto pode estar relacionado com alterações climáticas.
Dizem que as alterações climáticas podem ter a ver com a queima de combustíveis fósseis.
Dizem que a queima de combustíveis se deve ao consumo de energia.
Dizem que o consumo de energia tem a ver com a sociedade de consumo.
Dizem que o consumo esgota a vida da Terra.

Ora aí está o Natal, amigo do ambiente, das câmaras e famílias endividadas, dos pobres que nem factura de electricidade têm para pagar.
*Eh-lá luzes, anjinhos, meninos e trenós iluminados nas torres das igrejas, nas fachadas dos edifícios presidenciais, nos reclames dos espaços comerciais, nas varandas e chaminés!
*Eh-lá lojas de coisas que não valem nada, jantares de cabritos e cabras, discursos de provedoras de colares, de excessos de mesa com orações a recordar os que não têm!
*Eh-lá santa inocência de meninos grandes, de burros, de vacas e de árvores de plástico!
É tão bom lembrar-nos dos que não têm nada, nem que seja ao menos para sentirmos o orgulho de termos tudo!
Viva o planeta sobreaquecido com luzes a apagar e a acender! Viva a falência em abundância! Viva um menino que nasceu há dois mil anos! Viva o Pai Natal da coca-cola! Vivam os arredondamentos do benemérito azevedo! Viva o Natal!
Vivam os videntes, como eu, que advinham um bom Natal para uns e um mau Natal para outros, que já sabem que na missa do galo o padre vai dizer que o Natal deve ser todos os dias, que uns poetas de quadra vão repetir que Natal é sempre que um homem quiser, que o Sócrates vai prometer que vai haver um novo ano e o Cavaco vai dizer que está muito preocupado e que quer voltar a ser eleito para continuar a dizer que anda muito preocupado.
Ai o meu Natal! Ai o meu Natal!... é só de mim que ando desnatalizado!...

(* o "eh-lá" foi plagiado duma ode qualquer do Fernando Pessoa e continuo a gostar de recorrer a títulos que não têm nada a ver)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Sete Pés Quinze

Quando regressaram ao quarto voltaram a entregar-se um ao outro até o sono os separar já noite avançada.
Quando a luz do dia seguinte acordou, Pé de Atleta questionou a memória para averiguar se teria existido sonho ou caso. Fora caso. A confirmá-lo, como é normal nestes casos, um bilhete breve na mesinha atestava a casualidade do encontro e dava-lhe com os pés:

“Boa vida! Talvez voltemos a encontrar-nos no Caminho. Não vou pernoitar em Padrón, conto chegar hoje mesmo a Santiago - um beijo dos de ontem”.

Pé de Atleta conformou-se com o desfecho. Era de facto um caso com todas as características para acabar assim. Poderia partir apressadamente para evitar o fim mas não era homem de se insinuar ou perseguir alguém. Os seus caminhos eram obrigatoriamente distintos e tudo não passara de uma brincadeira da mão do Apóstolo. Mesmo que quisesse, seria muito difícil apanhá-la; o Pé Chato e o Água Pé rebentariam em protestos além de que ela tinha um passo de égua sem albarda, uma mochila mais leve, vestuário e equipamentos que lhe permitiam outra velocidade. Sabia de Ante Pé que uma aventura nunca se repete.

Ela tinha uma meta, a Catedral, os Sete Pés apenas tinham caminho para andar, viver assim a vida, sem querer chegar a lado algum. Estava posta de parte a hipótese de voltar à terra que não gostou de o ver nascer e não se via condicionado por nenhum destino. No horizonte próximo, segundo as contas de Pé de Meia, a herança da mãe dava para muitas sopas.

- Que mais poderá desejar um homem na vida além de caminhar?!
Perguntava ele tantas vezes, quando o Caminho se dava, nos monumentos, nas aldeias, nas ruelas, nas montanhas, nos vales, nos rios, nas plantas, nos animais, nas pessoas, na luz, no nevoeiro ou apenas no calor de uma mulher francesa e serena.

Foi com estes espíritos que calmamente se fez a preparação para a etapa de terça-feira da Páscoa. Pé de Meia tomou calmamente o pequeno-almoço e, ao dirigir-se à recepção, foi confrontado com o facto de estar tudo pago. Carimbada a credencial de peregrino, Pé de Vento amarrou a mochila e percorreu sem pressas as ruas do Caminho. Pé Descalço desceu as escadas da fonte termal, molhou as mãos e recordou o duelo de salpicos de água que ali foi travado no dia anterior com a “fugitiva”. Umas ruas à frente, Pé Ante Pé reteve-se observador de um mercado vivo junto à ponte medieval sobre o rio Bermaña e tentou recuar uns séculos.

Recuar no tempo foi um exercício que Pé Ante Pé experimentou durante todo o Caminho, os vestígios da estrada romana número XIX, as igrejas, as pontes, os cruzeiros e outras marcas do passado levavam-no a tempos diferentes, fantasia que ele, desde muito pequeno costumava experimentar.

Recordou a foto de Marie em Pontevedra junto à estátua do peregrino. Nem todos os peregrinos de outros tempos fariam o Caminho com ascetismo, existiriam nobres que cumpririam a devoção a cavalo, acompanhados de criados e outras comodidades. A evolução histórica no caminho da igualdade traria ao Caminho um peregrino novo, no qual eles e Marie se identificavam, distintos pela sua origem social, lateralmente cristãos, mas sem cultivar a pobreza nem a abastança.
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Todas as segundas feiras.
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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Não gosto da vossa Europa

Não gosto da vossa Europa. Este é o título. Gostarei de uma Europa que não seque as raízes do meu milho que é só nosso.


- Cuida da burra João mas não vás para ao pé do poço!
Dizia minha mãe antes de desaparecer, descalça, pelo milheiral adentro para, com os calcanhares e a sachola, encaminhar a água à raiz de cada pé de espiga. E eu ficava ali, seguindo as voltas da burra emprestada p´lo mê ti Adelino, vendada e amarrada à nora, repetindo voltas sempre iguais, cumprindo com os seus círculos o sucesso da próxima colheita. E eu andava por ali, também às voltas, seguindo solidário as suas voltas, caçando borboletas, contando os alcatruzes a cada despejo, seguindo os caminhos da água até esta desaparecer pela sombra fechada do milho que escondia a minha mãe. Impossível repetirem-se esses cheiros, essas águas, esse verde; nem a vida me permitirá chegar aos calcanhares do mê ti Adelino - dificilmente conseguirei um dia ter uma burra!
Mas sou bem herdado na parte que toca a ter passado. Usufruí dessa riqueza de partilhar com a burra o verde do milho, o som da água, a sombra da latada que completava o poço e toda a engenharia da secular nora.

Incrível como é possível que a foto que se segue me tenha permitido banhar-me nesta infância! Recebi-a com a legenda "anda tudo à nora!" Não me ofendam! "Andar à nora" não tem nada a ver com "à procura do lugar para a fotografia"!
Dum comentário: "A Merkl disse: hoje quero dormir com o colega de sapatos castanhos! Aí o pessoal entrou em pânico e todos quiseram certificar-se que não lhes tinha saído a fava no bolo-rei. Tá visto!"

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Sete Pés Catorze ou Quatorze


Subiram ambos ao quarto, largou cada um a sua mochila em sua cama, foi cada um, na sua vez, cuidar do seu banho. Já cuidados de água, inspeccionaram mutuamente o estado dos quatro pés e compararam a bolsa de fármacos de cada um. Estando nos assuntos dos corpos, haveria de chegar a vez das queixas musculares, das pomadas e das massagens e aí, o inevitável aconteceu.

(Há muito tempo que milhares de leitores esperavam este pé da história, muitos a abandonaram pela demora do acontecimento, outros a abandonarão por ela ter acontecido. Receio não ter traquejo para satisfazer as expectativas, esta história é apenas um exercício. O acto de amor a dois, a três, a sete ou a oito é íntimo e não deve ser relatado nem espreitado, a cada um a sua cama. 
- Desculpem lá a interferência do narrador mas deu-me para isto!  Vamos mas é ao acto!…Mas de pano fechado! )

Nem diferença de idades, nem ela ser casada, nem ele ser filho de quem fora! Nada, mesmo nada, poderia obrigar a pensar duas vezes. Quando não se bebe a água cristalina duma fonte que aparece no caminho, não é porque o caminhante não tenha sede, é porque não saboreia a vida.

Para que o amor exista tem de ser feito! Até à hora de jantar não se fez outra coisa! Para que tudo acontecesse naturalmente, como fazem todos os amantes que pela primeira vez se encontram, só um pé teve direito ao fruto – o mais desejoso, o mais forte, o mais atleta. Todos os pés aceitaram que Pé de Atleta, pela sua condição e pelas vontades que vinha manifestando, estaria em condições superiores de abrir caminho para que a todos calhasse a sua vez lá mais para a frente. Conformaram-se no papel de iluminar de velas a cena mas todos eles a roçar os lábios de satisfação. Água Pé até inclinava a vela para que a cera caísse no rabo do Atleta, obrigando-o, desta forma, a melhorar o passo.

Quando desceram Marie sugeriu que o seu rapaz se sentasse nos sofás da recepção e foi ao balcão fazer um telefonema para o marido. Nenhum dos Pés conseguiu perceber alguma coisa do que ela dizia mas não lhes era difícil adivinhar o teor da conversa.
- De certeza que não lhe daria notícias de um jovem com quem acabara de ter uma experiência inesquecível!

Não tirava os olhos dela como se temesse que a poderia perder agora mesmo, acometida por um impulso de arrependimento e fidelidade ou que se sumisse, puxada pelo marido, pelos cabos de comunicações, para França. Tão raros eram os casos de mulheres na sua vida e este, mais do que os outros, tinha contornos para ser mais efémero. A noite ainda era uma criança. Quem sabe se com o apertar de mãos, laços e beijos, não estaria ali, nas formas que nunca idealizara, a relação que sempre sonhou encontrar: alguém que lhe abrisse os olhos, a boca, o coração e as pernas.

A refeição foi no restaurante do hostal e foi farta de marisco grelhado e vinho branco, tudo a apontar na conta da estadia. No final deram uma volta pela noite da pequena cidade animada pela Páscoa. Chegaram até a caminhar de mãos dadas e divertiram-se a molhar os pés na água quente da fonte termal que está na base da origem do nome Caldas.

Quando regressaram ao quarto voltaram a entregar-se um ao outro – só o Pé Chato e o Pé Ante Pé não participaram - até o sono os separar já noite avançada.
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Todas as segundas feiras.
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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Porque há quem julgue que aquilo que teimam tirar-nos caiu do céu

Companheiro
quando voltarmos a ser a razão dos que nos mandam
não te esqueças de recordar que subiste comigo a avenida
sob o olhar atento daqueles que nos ignoravam
e de alma erguida

Camarada
quando a guerra voltar a ser ganha pela razão
não te esqueças do tempo que passámos entrincheirados
sob o avançar cobarde dos mais fortes
e levantados

Irmão
quando recordarmos de novo a lição de história
não esqueceremos os mares outrora navegados
e que os olhos do avô eram verdes
mesmo fechados

Amor
quando as coisas voltarem a melhorar
não te esqueças da foto que temos da manifestação
com o olhar de meter inveja aos que a não viram
nem ao coração

Filho
quando chegar a tua vez
não esquecerás honrar quem te ensinou a luta
de perseguidos, presos, assassinados
por tanto filho da puta

Ontem, só fiz greve!

NOTÍCIA DO DIA: Causa da crise é fosso entre ricos e pobres - FMI
Mas o quê?! O FMI prima pela distribuição da riqueza entre ricos e pobres?! Então que venha o FMI dos bosques! Alguma coisa me há-de calhar a mim!
- Não! O FMI está com falinhas mansas para poder vir dar um ar da sua graça! Ou então há mesmo milagres!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Diário de um Dia de Greve


Ergui-me à mesma hora dos outros dias! Não tomei banho nem fiz a barba para acrescentar gestos de protesto. Liguei o computador. Com os olhos enlameados da noite curta, fiz a espiral dos blogs costumeiros e, antes de sair dela, fechei-a ao centro. Confirmei com agrado que muitos deles estavam com a greve.

Ao pequeno-almoço, liguei a televisão: os números, sempre os números! Perguntei-me: 
- Se as adesões são sempre pouco significativas por que raio se anda sempre com a guerra dos serviços mínimos?!
E o arcebispo de Braga e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa:
"é um direito que assiste aos trabalhadores e é uma oportunidade que os portugueses têm de manifestar a sua insatisfação... um dia de greve é muito pouco. O povo português terá que se habituar a uma Democracia mais participada e mais responsável e manifestar-se não apenas nesta conjuntura mas também diante de determinadas leis que são prejudiciais para a sociedade... é hora de todos darem as mãos e do povo português não se contentar com o dia do voto. O povo terá que estar alerta e, porventura, ter uma participação mais crítica."
Decidi não ir ao café, ir-me-iam perguntar porque não fui trabalhar, porque é que era esta greve, eu iria num sorriso feito ao momento hesitar um pensamento – ainda perguntas?! – e sairia sem responder com uns bons dias de homem de boa educação!

Telefonei para o serviço. Abriu. Nem 50%!  Fui ver. Via-se bem: havia greve. Nos que furaram a greve havia vergonha e fingimento. Era um dia completamente diferente dos outros dias, era dia de greve.

Não é todos os dias nem por qualquer motivo que há uma Greve Geral – desde o 25 de Abril é a sexta e de certeza a maior.

Por tudo isto, almocei e bebi regaladamente. Não vi mais notícias e passei o resto da tarde a pensar. Que  força a desta gente que abdica de um dia do seu salário como forma de se exprimir num gesto tão simples! Que postura a daqueles que passam os dias a barafustar e não têm a pequeníssima coragem de sinalizar o seu descontentamento! Que descaramento o dos que dizem que dizem que agora é assim e ainda terá de ser pior! Que hipocrisia falar no direito à greve e nunca reconhecer o direito de a fazer! 
Pelas 16 horas bebi uma cerveja, voltei à blogosfera, bebi outra cerveja, voltei à blogosfera e estou aqui – já jantado claro - sem ter ligado à televisão, à rádio, borrifando-me para notícias da greve e de outras coisas, com a consciência do dever cumprido, consciente de ter contribuído para um futuro melhor, para uma data de registo e porque é meia-noite contente por ser Rei dos Leittões e ir colocar já este desajeitado texto algures num servidor como eu!

Não vai haver mais nenhuma greve como esta! Ninguém viveu este dia como eu!
Orgulhosamente: EU FIZ GREVE

ÚLTIMA HORA: "Governo diz que Portugal não parou"
- Pois não! Fez greve! Reclama um governo com visão!

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto

Vai começar  esta noite à meia-noite em ponto
numa fábrica, num comboio, numa estrada
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
numa escola, num hospital, num vão de escada
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
numa  empresa que vai ser encerrada
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
num país  de lama, circo e corrupção
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
para termos amanhã o futuro que se exige
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
tem na raiz a razão de dizer não
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
vê-la-emos depois reduzida a números
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um catrefa de jornalistas ao vento
Vai começar esta noite à meia-noite em ponto
para pedirmos contas ao nosso tempo

(adaptado de Litania para o Natal de 1967, David Mourão-Ferreira)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Sete Pés Treze

Marie regressou e voltou a dizer, agora apenas com um movimento de inclinação de cabeça: - Allons y?!
Puseram as mochilas às costas e deram-se ao passo sem falar. Sete Pés continuou a pensar de coisas banais. A natureza da relação com a sua companheira de Caminho era enriquecida pelo facto da barreira linguística não permitir a banalização da palavra.
Uma Igreja. Marie tira uma fotografia ao pórtico. Sete Pés, fazendo a ponte com os pensamentos das imagens, pensa nas palavras que tornaram banais, inconsequentes e sedativas as homílias dos padres seculares.
À saída da cidade, numa rotunda, sinais de trânsito, painéis publicitários. A poluição visual! Palavras gráficas?! Oh! Imagens gráficas!! É demais! No Caminho devemos libertar-nos dessas coisas!

Atravessada a Ponte del Burgo sobre o rio Lerez, Pé Chato começou a repetir aos seus íntimos que não teriam pés para acompanhar a experiente caminheira, levando sempre ricochete do Pé de Atleta que reafirmava a sua determinação para acertar o passo na dura prova que os esperava até Caldas de Reis. Numa coisa todos os pés estariam de acordo: “como seria bom cumprirem aquela etapa com aquela companhia!”.

O discurso continuou escasso, talvez por conveniência, diferença de língua ou simplesmente porque nenhum de ambos era de feitio de se dar à banalização das palavras. Almoçaram juntos a omnipresente sandes de xamón mas, durante a tarde, os ritmos de andamento, o aparente, conveniente ou natural desprendimento entre ambos, a independência ou os diferentes modos de construir o Caminho separaram-nos. Ou então aceite-se que, por vezes, os chatos têm razão!

Sete Pés atravessou a ponte sobre o rio Umia que marca a entrada em Caldas de Reis – a antiga Aquae Celenae, um balneário romano de águas termais afamadas - com os sete pés zaragateando nas habituais discussões, desoxigenados, fora de si, obcecados pelo fim da etapa, por um assento de paragem.

Questionando a realidade ou a alucinação, avistaram na margem do outro lado, no rés-do-chão dos prédios de quarto andar, uma enorme esplanada com gente a chupar sorvetes, a sorver bivalves e a bebericar cervejas. Nas margens do quadro, uma mulher só, numa mesa de duas cadeiras e com a mochila ao lado. Era esse o destino. A cada passo exausto, a realidade vencia a alucinação.

- Olá!
- Oito cervejas!
Pediu a francesa como se já tivesse pressentido a multiplicidade do esperado Sete Pés. Ajeitaram explicações para o caminho do dia, para o desencontro e para o encontro e bebeu-se até o prazer de beber por sede dar lugar ao prazer de beber por prazer.

Marie já tinha investigado que naquela terra não havia albergue e que teriam de procurar um hostal. O “teriam”, dito na forma “teremos”, primeira pessoa do plural, embebedou Água Pé de autoestima e satisfação. A foto dos dois em Pontevedra não seria a última, “habemos” par!
Tanto assim foi que na recepção do hostal Cruceiro, o funcionário os entendeu como um casal e assim fez preço e, entre os dois companheiros, não houve hesitações ou indagar de expressões à circunstância de uma única chave lhes ter sido entregue.
Recepção Hostal Cruceiro
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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O banquete dos natos

Só para dizer:
- Repito!

Comam-me! Morrerão de danos colesterais!
Vossas excelências não conhecem martelo-o-polidor?!

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Dias de nato e de greve

...“O que é preciso é criar desassossego. Quando começamos a criar alibís para justificar o nosso conformismo, então está tudo lixado! (...) Acho que, acima de tudo, é preciso agitar, não ficar parado, ter coragem, quer se trate de música ou de política. E nós, neste país, somos tão pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reduzidos à condição de “homenzinhos” e “mulherzinhas”. Temos é que ser gente, pá!”...

José Afonso
Entrevista realizada por Viriato Teles, In: Jornal Se7e, 27/Novembro/85


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Greve Geral na Blogosfera

No dia 24 de Novembro para além de não ir trabalhar não vou ao mercado nem ao supermercado, não vou abastecer o carro nem vou ao café, não vou plantar couves nem passear o cão.
Irei descobrir para cada passo, um pequeno gesto que contribua para o impacto da GREVE.
Durante todo o dia o blogue Rei dos Leittões apresentará o selo da imagem. Proponho que outros bloguers façam o mesmo e mobilizem outros. A blogosfera também vai parar. Faltam oito dias! Mãos à greve!
Viva a Greve Geral! Viva Portugal! 
O Post da Greve

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Sete Pés Doze

Despediram-se na meia-luz do dormitório. Ao lado, por cima e por baixo, de todos os beliches havia gente feia, talvez da penumbra, a remexer roupas, mantas e sacos de plástico. Pela cara, o que ia dormir na cama de cima devia ser o padre!... Ou a criada!
Porque não era mal-educado não se fez rogado com os seus compatriotas e acedeu a curtas e espaçadas palavras de coisas sem interesse. Já deitado e pronto para o descanso não o revoltou o facto de ter de gramar com uma dezena de orações porque acabara de receber a informação que há dois anos fizeram Tui-Porriño, o ano passado fizeram Porriño-Redondela e este ano foi a vez de fazerem Redondela-Pontevedra.

Na manhã seguinte era absolutamente necessário levantar âncora antes que aquela gente acordasse e, quem sabe, o destino não unisse os Sete Pés na partida com aquela que por aqui se fala. E assim foi, com a noite mal dormida pelo incómodo dos sonos da malta da paróquia portuguesa, levantou-se e sossegou com o facto de notar ainda os haveres de Marie lá ao fundo. Com o corpo e a tralha preparada saiu do albergue e postou-se no jardim junto à estátua do peregrino. Ao fim de um longo quarto de hora seguiu os primeiros passos da Marie a partir. Esta não se mostrou surpreendida pela sua espera e os seus bons dias e o seu aval à muda proposta de pedido de companhia estavam incluídos na primeira frase da manhã:
- Allons y?!

Com passos mudos, percorreram as ruas até ao centro da cidade. Chegados à incontornável Praça de Ferrería, tomaram o pequeno-almoço no primeiro café que encontraram aberto, deram uma volta ao Santuário da Virgem Peregrina e à Praça da Estrella onde Marie pediu a um transeunte que lhes tirasse uma foto juntos.
Água Pé ficou registado com uma expressão comovida: nunca tinha saboreado a experiência de alguém ter requerido uma fotografia na sua companhia.

Aliás, na pequena casa em que a mãe o resguardara do relento não existiam fotografias com o menino em pelota, do casório dos pais – pai incógnito não deixa registo – dos tios, dos primos, dos antepassados ou do grupo do curso de costura. Apenas uma moldura com o avô materno, algures no Brasil de onde nunca mais regressara. Quando a mãe morreu, na volta que deu pelas gavetas, Sete Pés deitou para o lixo uma em que a mãe estava numa festa fina, acompanhada por um desconhecido para o qual, provavelmente fizera serviço de acompanhante.

Pelo contrário, na casa dos Alpes de Marie, deveria existir uma galeria de fotos de recordações de família, do tetra-avô ao bebé da era digital que ainda está no ventre e já é ecografado.
Percebe-se, portanto, que para Sete Pés fosse novidade o fazer de fotografo de Marie pousando junto à estátua do albergue e que lhe desse arrepio ser fotografado ao lado dela na Praça Principal de Pontevedra.

Marie disse que ia fazer não sei o quê, talvez necessidades, e os Pés ficaram sentados num banco da praça a fazer a guarda das mochilas e a pensar acerca do registo das imagens, do tirar fotografias do Caminho, da banalização da imagem, dos casamentos em que até os noivos andam a filmar. O acto de registar momentos em máquinas cria ruído na vivência dos momentos e a artificialidade do registo trai a realidade. Mais do que a imagem, vale o olhar!...
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sábado, 13 de novembro de 2010

Espero por Esperança


a esfera em torno de si mesma me ensina
a espera
a espera me ensina
a esperança
a esperança me ensina
uma nova espera
a nova espera me ensina de novo
a esperança na esfera
a esfera em torno de si mesma me ensina
a espera
a espera me ensina
a esperança
a esperança me ensina uma nova espera
a nova espera me ensina uma nova esperança
na esfera
a esfera em torno de si mesma me ensina
a espera
a espera me ensina
a esperança
a esperança me ensina uma nova espera
a nova espera me ensina
uma nova esperança
na esfera


Cassiano Ricardo

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Escuta Zé Povinho

Dum porco que escreve como um cão: ão.

Escuta Zé Povão
É tua a culpa do estado em que as coisas estão
Calaste 50 anos de opressão
Deste os teus filhos para guerras sem razão
Emigraste por te tirarem o pão

Tiveste medo da revolução
Foste no engodo da Europa em construção
Amotinaste-te pelo dinheiro da integração
Aceitaste abandonar a produção
Confundiste aprender com horas de formação
Quiseste ser alemão
Adormeceste com os senhores da televisão
Encantaste-te por uma moeda sem inflação
Confundiste democracia com eleição
Votaste no mais espertalhão

Não culpes o Cavaco, o Soares, o Sócrates e o Durão
Não dês o teu consentimento pela abstenção
Porque o mal que eles fazem tem o aval da tua resignação
Faz ao menos o pequeno grande gesto com o braço e com a mão
Greve Geral – manguito ou não?!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

NATO ou FMI, eis a questão!

Ah!Ah!Ah! Uma poderosíssima organização militar precisa da protecção da PSP!
A PSP precisa de blindados para se proteger de não sei quê!
Eu, que tenho medo de blindados, também gostava que a PSP me protegesse a mim!

Vão estar uns homens velhos fechados dentro de uma sala:
Vão inventar argumentos para renovarem o pacto de dominar o mundo.
Vão estar uns homens novos numa rua ao ar livre:
Vão manifestar-se por um mundo sem NATO.

A NATO nasceu para responder ao PACTO.
O PACTO nasceu para responder à NATO.
O PACTO morreu, a NATO cresceu.

A NATO é a mais forte, a mais poderosa das organizações.
A NATO nasce no Oeste, cresce no Norte e faz morte a Este.
A NATO mata por paz nas montanhas do Afeganistão.
A NATO defende a paz e decide matar no Parque da Nações.

Vai haver uma manifestação mas, de facto, a maioria das pessoas só não irá à praia porque estará mau tempo. E por falar em praia: o que tem o oceano Atlântico a ver com isto?
Receio que a PSP não perceba nada disto!
A mim bastava-me perceber se a NATO é a mesma coisa que a OTAN!
Ah!Ah!Ah! Uma poderosíssima organização militar precisa da protecção da PSP!

(Lembrei-me agora do título do texto, perdi-me no post! A minha questão inicial era:
- Quem é que afinal vem a Portugal? É a NATO ou é o FMI?
Isto é um truque novo que eu tenho, se os textos forem incoerentes ninguém me plagia)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Sete Pés Onze


Esperaria que se vestisse e aguardaria por ele lendo literatura na sala de convívio. Já averiguara a existência dum centro comercial, numa estação ferroviária, ali perto, onde teria de existir um lugar para jantarem - o centro da cidade ainda era longe.


De saída para o jantar, no jardim do albergue, Marie passou a máquina a Pé de Atleta e solicitou-lhe que lhe tirasse uma foto junto à estátua que representa um peregrino de tempos idos, com uma malga de sopa na mão, em posição mendicante, dirigindo-se a uma mulher piedosa. Enquanto a modelo tomava expressão e posição, Pé Ante Pé pensou nas diferentes eras e nos caminhantes de cada uma delas. Perguntou aos seus pares: seremos nós ainda peregrinos?!
Quando foi reconhecida a ordem de clicar, a resposta surgiu em coro com o flash:
- Somos turistas à procura do destino.
Fraco!... - pensou Pé Chato - Fraco pensamento!... E a foto?! - viu no visor – Fraca!... Pediu por isso nova pose. Enquanto Pé de Atleta procurava novo enquadramento viu Marie a ensaiar papéis com as figuras da estátua, viu Marie servindo sopa, viu Marie pedindo a sopa, viu-se no lugar do peregrino estátua, viu-as naturalmente nuas e sedutoras, viu ambas chamando por ele para que se aproximasse como se estivessem num leito. Acordou das visões quando Marie se aproximou para ver as provas e foram.

O alimento e o ambiente foram bem piores que na noite anterior em Redondela - pizza numa esplanada de centro comercial de gare?! Talvez pelo cenário, contrariamente ao que Pé de Atleta desejava, não se aprofundou a relação e acabaram a refeição como desconhecidos unidos à força pelas circunstâncias.

O diálogo de ferros quebrou de surpresa ao chegarem ao parque do albergue. Havia movimento junto à entrada e estavam estacionadas duas carrinhas. Tinham escrito nas laterais: Paróquia de Santiago de Litém.
Pé Descalço nem se esforçou pelo francês e exclamou desanimado:
- Só me faltava esta!
Marie tentou percebê-lo enquanto ele se explicava, preso ao português por exaltação:
- São de certeza dessa gente que faz o caminho alternando discursos ao telemóvel com ave-marias, com carros de apoio a cozinhar feijoadas pelo caminho, trazem cajados envernizados e usam bonés com publicidade a salsicharias ou aos USA!
Estão fartos de ir a Fátima pelas estradas nacionais, de não obterem resposta da Virgem aos seus pedidos de saúde e boa vida e, com as graças das mudanças trazidas pela CEE, descobriram que o mundo não acabava na Serra de Aire e que por cá também existem santos. No caso, S.Tiago, com muito mais currículo de milagrosas curas e satisfação de desejos.

Não fossem os factos com que se deparou quando entrou no albergue e Marie não teria compreendido patavina do que o companheiro dissera. O albergue estava cheio, pior que isso, a camarata cheia de catequistas, beatas, livros de cânticos e virgens.
- Virgens?! Oh Deus! Fujam, eu sou Filho da Puta! Como poderei eu aproximar-me da enxerga da santa que me cuida dos pés?! Lá se estragou mais uma promissora oportunidade!
E estes eram os pensamentos com que preparava a noite que se esperava triste! Bem, pelo menos não seria o ressonar de Água Pé que iria perturbar a especial zeladora! Não lhe faltariam outras ondas ruidosas ao sono por parte daquela indesejada expedição de ratas e ratos de sacristia.
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domingo, 7 de novembro de 2010

GREVEGREVEGREVEGREVEGREVE

A forma fascista como a generalidade da comunicação social tratou a grande manifestação de ontem, deve dar-nos forças para prepararmos uma Greve Geral que demonstre o país real.
Essa não a poderão calar! Bem podem dar notícia de manifestações na Grécia, greves em Paris, ou papas na Galiza! Toda a gente saberá a verdade, por experiência própria, e os poderosos donos da comunicação social e do país podem mentir à vontade que ninguém os levará a sério.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Acumuladores ou pilhas? Eis a questão!

"O Governo decidiu proibir a acumulação de pensões com salários na Função Pública".
Depois do fim do aluguer dos contadores de água, esta é uma das medidas mais emblemáticas da governação Sócrates.

A diferença entre um acumulador e uma pilha, é que o primeiro pode recarregar-se e o segundo não. Eles hão-de dar-lhe a volta, ao resto é que não!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Na ressaca do orçamento

Na ressaca do orçamento, depois de tantas horas que passámos, aqui em casa, frente à televisão, nada me ocorre.
Pelos blogues da corte:
"Toda a nossa classe política e afins (comunicação social controlada, “politólogos” e outros fazedores da opinião pública), todos eles, não se cansaram de repetir dos malefícios e demais desgraças que adviriam para o país com o inevitável agravamento dos juros da dívida pública caso não se concretizasse o acordo sobre o orçamento entre Sócrates e Passos Coelho.
Só um acordo orçamental poderia acalmar os “mercados” afiançaram-nos com o ar sério de gente entendida.
Afinal, os juros da dívida pública, ao contrário do que andaram a propagandear dias a fio, subiram hoje significativamente, alcançando os 6,19%."

"Tudo aquilo de que o País não precisa está neste orçamento!"
"Este orçamento é péssimo!"
"Em nome do interesse nacional, em nome do País, vou votar este orçamento."
Manuela Ferreira Leite "Hegel"
(não lido ou mal lido) em Anónimo SécXXI

Aparentemente esta imagem parece não ter nada a ver com o momento político mas, com um pouco de imaginação, consegue-se sempre uma relação:
(cartoons encontrados no Guardião)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Sete Pés Dez

Mas continuemos, antes que "os porquês" respondam mal e nem sequer cheguemos a Santiago.

O albergue de Pontevedra surpreendeu pela moderna arquitectura. Sete Pés foi recebido por uma responsável que já o esperava por informação da francesa que chegara primeiro.

Foram apresentados todos os espaços e equipamentos desde a cavalariça às máquinas de roupa e de cozinha, à sala solene com as paredes compostas com retratos de gente digna de retrato. A volta alongou-se com a conversa porque a senhora também era portuguesa. Viera parar a Pontevedra por casamento no Brasil e, via essa história de vida, se fizera presidente da Associação dos Amigos do Caminho Português de Santiago.

Provavelmente por método de hábito, guardou a camarata para o fim, era um espaço amplo que não fazia separação de sexos. Lá estava Marie, quase ao fundo, sentada numa das camas, a coser páginas do seu diário. Empreenderam os acenos e sorrisos da ordem enquanto a portuguesa sugeria ao recém-chegado um beliche junto à entrada:
- Pode ficar aqui, está mais perto dos lavabos! Já disse à senhora, não sei se ela percebeu alguma coisa do que eu disse - não estamos muito habituados a caminheiros que não sejam portugueses no Caminho Português - como é que a casa funciona. Amanhã de manhã aparecerá aqui alguém para fechar a porta.

Quando a anfitriã se despediu de ambos, mais uma vez, os Pés sentiram o incómodo dos obstáculos que impediam aproximação a Marie. À medida que Pé de Meia esvaziava a mochila e tratava das coisas, Pé de Atleta ia olhando para o sítio da companheira de viagem mas, à distância de sete ou oito metros, era-lhe difícil avançar com mais do que um encolher de ombros ou um mostrar de dentes. Pé Ante Pé arranhou francês, quando partiu para o banho, ensaiando demanda acerca da temperatura da água.

Pé Descalço regressou seminu e, depois de se esfregar de cremes e pomadas, sacou da agulha e da linha e pôs-se às bolhas. Quais bolhas?! Os pés estavam uma lástima!
Não existia um único Pé que demonstrasse jeito em cuidar deles.
Marie ia a passar ao fundo da cama e olhou-os com manifesta compaixão. Sem comentários, foi às suas coisas buscar umas pomadas e umas pinças e pediu autorização para fazer o tratamento. Pediu também ao enfermo que se deitasse.

Convém lembrar que os sete pés que aqui se estendem não têm, pelo menos até agora, dedos que se contem além dos dez com existência física e que, nos cuidados em exercício, a dividir por sete, não chegavam dois a cada. Nesta circunstância houve que repartir – mal! – o bem pelos pododactilos.

Água Pé estremeceu, não tinha memória de alguma vez ter sido assim tocado. Durante o trabalho de enfermagem foi também tocado por um rol de pensamentos e sensações até se esquecer de todos os pés. Ou melhor, todos os pés entraram numa espécie de transe. Pé de Vento foi o primeiro a retomar a consciência, quando se deixaram de sentir as mãos macias e se ouviu a voz de Marie. Agarrava e mirava o par de botas enquanto lhes tecia defeitos em francês. Um atrás de outro foram acordando de boca ensonada e só Pé de Meia conseguiu formular um pensamento:
- Foram tão caras!....
Para comprovar os conhecimentos técnicos que discorria, Marie voltou à sua cama e regressou com as suas botas para apontar as características que as faziam próprias para grandes caminhadas. Deu também conselhos de meias e ensinou-lhe a técnica de ir colocando jornais à volta dos pés para absorver o suor.
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