quinta-feira, 14 de julho de 2011

Leitão da Quinta

Depois de ler isto, não conclua que me falta um parafuso mas sim uma porca.

Estou farto disto! Não me apetece escrever! A web transborda de palavras e imagens! O facebook, tenho dito, é uma espécie de grande superfície comercial que abafou as tabernas e merceerias da blogosfera! Já não se trata de não poder competir, a verdade é que tenho a sensação de não ter nada para vender e, muito menos, para dar! Toda a gente bota sentença e opinião e eu transformei-me numa espécie de D. Duarte de Bragança destes espaços, com pose e graça mas sem trono e sem reino.

Estou em estado blogo-depressivo. Tenho um profundo respeito e admiração por toda a corte, a perfeita conciência que os tempos que correm é dos porcos que rodopiam à nossa volta, razão determinante para continuar.

Rei dos Leittões! Na verdade, leitão é o meu prato preferido mas longe de mim, o apetite ser motivo eloquente para determinar um título tão popularucho!

Eu levava a lavagem, tirava o esterco, punha mato e pegava com valentia de forcado o porco quando era para capar ou para matar.
A nossa casa não era casa de lavrador de parelhas, além das quatro ovelhas, só tínhamos mesmo a porca.
A porca, se não adoecesse e eu tivesse que lhe abrir a cova, era assunto em que eu me fazia homem!
Levar a porca, para vender os bácoros, até aos 12. A minha mãe com uma saca de milho e um baraço atado à perna traseira da mãe suína e eu, atrás, com uma verga na ninhada! E quando vinha um carro?!... O desembaraço para arredar caminho, tinha que ser rápido que o homem era de outra condição!

Depois, no largo, a mãe deixava as deixas de preço e o "vem já" e ia fazer a sua volta. E eu ficava ali crescendo com a feira, convencido que o meu futuro passaria sempre por ali. Creio que cheguei, eu próprio, a vender os bácoros, talvez um tio por perto tivesse vindo acertar ofertas, quase sempre e naturalmente a minha mãe fechava. Mesmo que fosse só a porca-mãe, por bom negócio, que voltasse casa, a estrada de regresso era um tormento – fosse um burro e bastaria um arre para que ele compreendesse o alívio que é retornar ao lar.

Vem daqui a minha proximidade com os leitões. Depois, a simpatia especial por aqueles labutadores de churrasco que se auto-coroam Reis.

Rei dos Leittões só com um t?! Não dois tês:
O Google, a princípio, incrédulo, perguntava - será que quereria dizer Rei dos Leitões?
Agora já não! Já se habituou! Experimentem! Esta é a prova de que este blog até o poderoso motor do Google dobrou!
Se o leitor é amigo, estará ainda a correr o scroll lock e a pensar com o seu dedinho rolante -onde é que isto vai parar?? Se tem como intento um fim, evita de continuar! Faça-me um obséquio, deixe um comentário com o texto “fui dos tais” – deste modo poderei quantificar os que passaram muito além da quinta linha!

A minha saudosa mãe tomou sempre como rumo para os seus filhos, um futuro com comida. Como poderia ter sonhado, que o facto de me ter delegado parte da responsabilidade da suinicultura, teria dado origem a tão intelecta reflexão sobre a génese e existência dum blogue! Talvez seja mesmo a comida que nos faz banais!
Hoje comi mesmo bem!... Comi leitão!
Serve este post para mostrar que, não sendo possível, um porco andar de bicicleta, pode andar na corda bamba! Que farei com este blogue!? Olhem, vou cagueando!


domingo, 10 de julho de 2011

Como eles me põem

Eu creio na transmigração das almas
por isto de Eu viver aqui em Portugal.
Mas eu não me lembro o mal que fiz
durante o Meu avatar de burguês.
Oh! Se eu soubesse que o Inferno
não era como os padres mo diziam:
uma fornalha de nunca se morrer...
mas sim um Jardim da Europa
à beira-mar plantado...
Eu teria tido certamente mais juízo,
teria sido até o mártir São Sebastião!
E inda há quem faça propaganda disto:
a pátria onde Camões morreu de fome
e onde todos enchem a barriga de Camões!
Se ao menos isto tudo se passasse
numa Terra de mulheres bonitas!
Mas as mulheres portuguesas
são a minha impotência!

in Cena do Ódio - Almada Negreiros

lembrei-me daquela:
- o que pensa do Almada-Negreiros?
- X

sábado, 9 de julho de 2011

Eles são inteligentes

A melhor maneira de acabar com o desemprego é facilitar os despedimentos e pôr os desempregados a trabalhar.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Leitão da Quinta

O porco faz esterco, o esterco é fertilizante. Podiam-nos ter chamado esterco em vez de lixo. Só há uma solução, obrigar os porcos a comer o lixo e depois pô-los a fazer esterco.

Seguidamente, comê-los a todos para acabar com a merda.

E, finalmente...
Acabar com eles!

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Como eles resolveram o problema

Cortaram vencimentos, subsídios e aumentaram os impostos. Criaram um governo de maioria e muito liberal. Seguidamente, novamente, cortaram os vencimentos, subsídios e aumentaram os impostos e, finalmente, os mercados acalmaram!...

terça-feira, 5 de julho de 2011

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O ponto de vista deles

Se as pessoas deram cabo da sua saúde com abusos alimentares, a resposta médica não cabe ao Serviço Nacional de Saúde.

domingo, 3 de julho de 2011

Olha para eles

Ainda mantêm o ar de quem estreou um carro novo, ainda estão na fase de o molhar com os jornalistas e, para já, só tomam medidas. Não querem tomar mais nada?!

sexta-feira, 1 de julho de 2011

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Leitão da Quinta

Bem podem os anónimos, silvas, manuéis e outros perfis estranhos tentar golpes palacianos! Bem pode o facebook-caralivro tentar "belmirizar" o ciberespaço! Bem podem os fantasmas de santa comba erguer-se da tumba entusiasmados pelo renascer da direita necrófaga! O Rei e a Corte continuarão serenos, reinando com a situação, cortanto a torto e a direito em prol da revolução! Aporcalharemos os cavalos selvagens da  nobreza e cavalgaremos os porcos capitalistas! Na Grécia a revolução já começou! Viva o meu cão Loukanikos e a minha amada que faz hoje anos de casada e anda armada! Não tem piada mas rima! Não sou eu que estou em baixo nem ela que está em cima! Viva o programa da troika, o programa do governo, o programa do Manuel Luís Goucha, o programa das festas, o programa do verão! Hoje é quinta de Leitão!...

terça-feira, 28 de junho de 2011

Fabrico de terços

Terços daqueles de rezar! Para quem não percebe porque deles rezo, lembro Maria do Rosário, aquela com quem, ainda há poucos dias, estabeleci conversa na sequência duma reclamação de uma "santa" adquirida na sua loja. Pois outras coisas ela me contou sobre o fabrico de artigos religiosos e, entre elas esta, curiosa, que não resisto a contar:

Crescia Fátima nos salazarentos anos trinta, já a Fé em milagres do Céu fazia milagres comerciais de vendas de santinhos, de água, de vinhos e enchidos quando um pastor, pouco pastorinho, começou para lá a caminhar em dias de ajuntamento, para vender os seus terços artesanais. Eram feitos de caroços de azeitona, que era o que por ali mais havia  além de pedras e pobreza. A mulher aos serões esburacava as "contas", uma a uma, com uma sovela e ele durante o dia encadeava o arame nos terços.
- Mas um terço feito de caroços de azeitona não seria muito agradável à vista?!
- Para os fazerem brancos, davam os caroços a comer às ovelhas para que a passagem pelos seus intestinos os fizessem brancos. No outro dia era só pôr a criançada  a dissecar caganitas e o produto estava revestido de um branco imaculado.

E foi assim que começou por aqui a indústria de produtos religiosos. Um dia o pastor já entusiasmado pelo sucesso do negócio foi a Lisboa, descobriu bolinhas de vidro da Marinha Grande já com o furo feito e tudo, e então aí,  foi um ver se te avias até aos nossos dias.

sábado, 25 de junho de 2011

É um descontentamento inconsequente?

De facto, devo ter nascido há muito mais tempo. É que, embora compreenda e sofra as inquietações desta juventude, não consigo compreender como querem ter uma palavra a dizer nas decisões, colocando de parte o direito de votar, rejeitando os partidos ou a hipótese de constituirem um novo, emigrando. Pois é, já houve tempos em que a malta não podia votar nem constituir organizações de carácter político! A memória é importante!
Penetrem nos partidos, mudem-nos por dentro, criem partidos novos, inventem, participem, votem porque se é verdade que a democracia é muito mais que partidos e eleições, não será menos verdade que sem partidos e sem eleitos dificilmente existirá democracia.
Bom filme com boas rimas:

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Leitão da Quinta

Vamos voltar ao Rei do Leittões com uma "repostagem", para ver se a malta me volta a tratar por Majestade e o reino se endireita porque, também aqui, a coisa está a ficar torta. Doravante haverá Leitão à Quinta - só por compromisso consigo dar de comer ao blogue!
Comam então que hoje o Leitão é de porco engordado, daquele que é capaz de fazer festa e alimentar uma parte da aldeia em dia de matança.


A primeira matança da minha memória conta-se assim:
Era Janeiro, mês em que o frio da França devolvia os emigrantes à terra, época em que nada havia para fazer com a terra, tempo em que o frio melhor conservava as carnes, altura certa para fazer a matança do porco que já estava mais que gordo.

Mal me levantei, comecei a seguir todos os passos do homem que era meu pai, empenhado em demonstrar-lhe que para homem também eu caminhava. Não tardou muito a chegada das pessoas mais chegadas para fazer o sacrifício.

João vai à barraca buscar 4 pregos e o martelo para fazermos a banca com estas duas tábuas e dois cepos / Vai buscar um balde de água para lavar as tábuas que estão cheias de teias / Bom dia Joãozito, hoje levantaste-te cedo / És tu que vais pegar o porco / Vai buscar a corda da burra para atar uma perna ao porco / Tens medo / Sai daí João que o porco ainda te morde / João vai chamar a mãe para trazer o alguidar para aparar o sangue / Tiveste medo / João vai buscar umas macheias de agulhas à meda e fósforos à cozinha / Vai buscar a forquilha velha que a nova não se põe no fogo porque destempera / Segura aqui com a sachola esta pata para chamuscar o lado debaixo da perna / Filho vai à adega encher o jarro e traz um copo para o pessoal / João vai à eira velha que há por lá uns pedaços de telhas de canudo para raspar o bicho / João agarra aqui nas unhas a ver se estão quentes / Pesava mais do que tu ó cachopo / João vai buscar mais agulhas / Vai buscar mais água à tina / João despeja aqui água nesta orelha / Despeja aqui na pata / João dá mais um copo ao pessoal / Segura aqui nas patas da frente João para começar a abrir o animal / O pessoal está com sede João / Vai buscar um baraço para lhe atar o cu / Vai chamar a mãe para trazer a água quente para escaldar a língua / Se queres saber como é o teu corpo olha aqui para o porco / Toma lá a bexiga que eu daqui a bocado faço-te uma bola / Olha que a malta está com sede João / Vai à barraca buscar o chambaril / Tu não o ajudas a levar que ele é pesado para ti / João vou agarrar-te ao colo e enfias ali a corda para pendurarmos o morto / Vai buscar um alguidar para o sangue escorrer / Agarra aqui nesta pata para sacarmos as tripas / Agarra o alguidar desse lado / Agarra aqui no fígado / Agarra aqui a ver se eu deixo / Vai buscar uma cana para manter o peito aberto / Dá um copo ao pessoal não vês que o pessoal está com sede / Os homens vão comer a bucha mas tu João vais com as mulheres ao ribeiro lavar as tripas que pode ser preciso alguma coisa….

À noite toda a gente se reuniu novamente para comer a cacholada. Comentou-se animadamente à mesa a criancinha que eu era.
- Ó João, pró ano já estarás com idade de ajudares e poderes fazer alguma coisa!
- E se fossem todos pró carvalho!?
E assim acabou valentemente o dia da primeira matança da minha memória com um valente estalo do homem que era meu pai.

terça-feira, 21 de junho de 2011

nós-eu-euro-europa

A Troika Labrega do Kaos
Um pouco mais de europa – somos nada,
Um pouco mais de espanha – somos ninguém
Para atingir, votámos em cambada
Se ao menos soubéssemos votar bem...
Pegar ou largar? Em vão... perdemos cota
Numa grande europa virada a outros mundos;
E o grande país afundado em fundos,
O grande país - ó mar! - quase europa...
Quase o progresso, quase a porta e a panaceia,
Quase o princípio e o fim - quase a salvação...
Mas no meu país tudo se remedeia...
Entanto tudo não passou duma ilusão!
De tudo houve marca UE ... e tudo aproveitou...
- Ai o desejo de ser - quase, igual aos alemães...
Nós falhámos entre nós, falhámos por vinténs,
Terra que não parou mas não avançou...
Anos de esperança que, desbaratámos...
Cidadanias que sonhámos alcançar...
Direitos que perdemos sem os experimentar...
Tratados que nos trataram e não votámos...
Desse continente, encontro só imagens...
Terras do interior – vejo-as defraudadas;
E carteiras de políticos, sujas, recheadas,
Passou o argumento de que eram só vantagens...
Numa esperança imberbe acreditando em tanto,
Tudo construímos sem pensar pra quê...
Hoje, resta-nos o betão do desencanto
Das coisas que de tão grandes ninguém vê...
Um pouco mais de europa – somos nada,
Um pouco mais de espanha – somos ninguém
Para atingir, votámos em cambada
Se ao menos tivessemos agora votado bem...

Não é necessário lembrarem-me que não chego aos calcanhares de Mário de Sá Carneiro!
E eu quero por força ser burro...Que a um porco nada se recusa!!

domingo, 19 de junho de 2011

Terra do Não

- Lembras-te irmão, de quando eras flor...
e chamavam por ti e não respondias,
pela simples razão de que as flores não falam nem ouvem?
- Ah, agora eu compreendo:
o pai nunca mais cortou as uvas
desde que a mãe morreu!
De então para cá:
eu fui a Primavera do Sol desonrada
com a putez impotente do avô materno,
eu fui o Verão frio nas praias do mal,
o Outono assassino da tal lucidez...
e vem aí o Inverno,
e eu ainda não acredito no Natal...
- Não! Da vingança humilde aos cornos de marfim
e das rosas que deixei cair, não me arrependo!
- Quem pode acreditar,
que no sangue do amor navegue o ópio,
ou que na seiva das plantas o Sol se esconda para dormir a Noite?

- Eis-me chegado à Terra do Não.
Traído dei por mim no mar turbulento da civilização,
e naufraguei aqui,
Terra do Não...
- Aguardando a chegada de algas marinhas,
morrendo de mão dadas aqui,
Terra do Não...

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Para a praia e em força

A empresa da ponte declarou insolvência e a obra está parada. No resto do terreno não se calam os cilindros, caterpillos, giratórias, escavadores,  camionetas. São seis da madrugada. Não dormi nada por solidariedade com os trabalhadores da estrada.  Estão a trabalhar vinte e quatro horas por dia como se fosse uma festa. É uma alegria! Estou grato por estarem a fazer uma estrada à minha porta, no lugar onde antes era a minha horta. Vai servir-nos para chegarmos mais depressa à praia.
Só não percebo porque tem de ser feita tão depressa. Têm pressa de ter falta de trabalho?! Têm medo de haver falta de dinheiro?! A falta da estrada não é assim tanta e já não vai servir esta época balnear!
E para a seguinte vamos lá ver como estará o preço do gasóleo e se não haverá já portagens nos caminhos de cabras.
Vá lá, aguentem os motores, prolonguem o emprego, arrastem o capital! Dormir é um dever e um direito! Temos tempo!

terça-feira, 14 de junho de 2011

Mais um milagre de Fátima

A minha tia foi menina, rapariga, solteirinha, solteirona e agora é beata demais para poder vir a ser santa. Porque respeito muita a sua devoção à Virgem, na preparação da viagem do passado fim-de-semana à Terrinha, passei por Fátima e comprei-lhe uma santa.

Entrei na loja e senti-me intimidado pelo olhar multiplicado das santas multiplicadas, intimidação essa, reforçada pela abordagem da lojista que, ao dirigir-me a palavra em tom de freira, recebeu a minha seca amabilidade:
- Que virgem desejais senhor?!
- Com menos de meio metro e luminosa! É para a minha tia que já está de pés para o Céu e vê muito mal!
- Escolha daqui!
- Mas são todas iguais!?
- Nesse caso tem a escolha facilitada!
- Já estão benzidas?!
Sorriu por me ter descoberto o grau de prática religiosa; é obvio que ninguém vende objectos religiosos já benzidos! Essa operação fica ao cuidado de cada um e foi coisa que, pela pressa, não consumei mas que fiz questão de ocultar à minha tia que também me tem ocultado, com esperteza de sacristia, as contas bancárias e outros bens que aguardo para um dia.

- Tia! Trago-lhe uma prenda! Olhe só para este olhar!... Benzida pelo cardeal de Cracóvia que esteve esta semana em Fátima!

Quando no domingo voltei à casa para engraxar a despedida, estava a velha com toda a velha vizinhança, debitando o terço à volta da imagem colocada em cima de uma mesa na varanda virada ao sol. A minha chegada interrompeu o mistério e disse a minha tia:
- Filho, a santa chora!
- Nesse caso devolvê-la-ei! Ainda está na garantia!
- Cala-te homem do diabo! Olha! Vê!...
Para meu espanto era verdade demais mas não suficiente para erguer a minha Fé - relembre-se o segredo de que não tinha havido tempo para ser benzida!

E cá regressei deixando em paz a Fé dos que a cultivam mas assaltado por um combate interior que me teria de levar ao fundo da verdade.
- Minha senhora! Venho reclamar dum produto que adquiri aqui na passada sexta-feira!
- Lembro-me de si, levou uma Nossa Senhora luminosa! Não me diga que é daqueles que julgam que é preciso lâmpada!?
- Não, a imagem chora e está a perturbar emocionalmente a pessoa a quem a ofereci!

Relatei-lhe os factos e recebi a explicação:
- Como as imagens são arrefecidas em água quando saem da máquina de intrusão, como só depois de cravados os olhos em cera se fecha a cabeça, é natural que com o calor alguma cera se derreta e deixe verter eventuais gotas de água que não tenham escorrido durante o processo de fabrico.

É claro que seria difícil eu convencer a minha tia e as suas vizinhas! Fiquemos pois com mais um milagre!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Cagavacando

Antes: O Presidente da República, Cavaco Silva, diz que quem se abstiver nas legislativas perderá “legitimidade para depois criticar as políticas do Governo”.


Como essa comparação não se pode fazer, mais valia estar calado como tantas vezes faz. Da minha parte concluo que o apelo não valeu nada:
Se uns milhares decidiram ir às urnas porque pensaram:
- É pá, tenho de ir votar porque o Cavaco ameaçou que, se eu não o fizer, depois não posso criticar o governo!
Outros tantos milhares pensaram:
- É pá, era para ir votar mas, cá por Cavacos, já não vou, quero provar que tenho o direito de criticar o governo sem ter votado!

terça-feira, 7 de junho de 2011

Resultados eleitorais prometedores

PPD-CDS-PSD-PP conseguem maioria absoluta! Sacana do relógio, desta vez, atrasou três dias. Receio que já se tenham apercebido. Lamento o atraso.

Dizem que vão continuar a cortar vencimentos, pensões, subsídios, direitos e a aumentar impostos, preços,  contribuições e flexibilidades.  Há uma única taxa que vai descer. Tudo para o país ficar melhor.
- Que raio de país é este que fica melhor se o povo ficar pior?! Que raio de mudança é esta?!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Passos contados

Milhares de manifestantes exigiram na rua a demissão do governo ultra-liberal! O desemprego aumentou, a miséria alastrou, a companhia de águas todos os dias sela torneiras e eu tenho um relógio que num dia adianta meses!

Vitória

Mergulhámos novamente na longa noite sem sequer ter existido dia!
O país, o povo e o "grande" PS têm de pagar o ter escolhido, consentido, ignorado, tolerado José Sócrates. O preço é muito mais que a crise, vamos ter de suportar a joto-petulância de Passos Coelho e o abanar de rabo de Paulo Portas! Ei-los! Em todo o seu esplendor! Este é o preço sócrates! Há outros preços a pagar mas esses são em euros, carcanhol!
Até que um dia a vaidade dos nomes dê lugar à voz escondida pela notícia!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

40- O Caminho do Fim da Terra

Xésus Agrelo nunca se perdoará de, na condição de primeiro a encontrar os cadáveres de Marie France e Pierre Patapouf e de, no mesmo momento ter confirmado, pela falta de seus pertences, a partida inesperada de Sete Pés, ter sido o primeiro a apontá-lo como alegado homicida, acusação essa que fez de imediato no telefonema em que participou as mortes à polícia de Cee.

Quando, como resultado da autópsia, ficou provado que as vítimas teriam morrido por ingestão de cogumelos venenosos, já era tarde para dar o braço a torcer, arriscado ter de encontrar novos culpados e embaraçoso ficar-se por causa acidental. Assim sendo, não por conspiração inconsciente, mas por má consciência de que seria mais fácil culpar um forasteiro sem raízes, possesso de ciúmes, do que um merceeiro querido da terra, criou-se a tese de que o homicida havia colhido cogumelos venenosos no campo e os misturara com os comprados para consumar o crime. Ao proceder assim, o esperto, fazia também pender a suspeita sobre a casa de comércio onde tinha um calote considerável.

A justiça aceitou também, como argumento, o facto dos cogumelos serem petisco tradicional daquelas bandas, vendidos desde sempre naquele estabelecimento e de não existir relato de alguma vez terem provocado a indigestão a alguém quanto mais a morte. Estava atestada, portanto, a impossibilidade da experiência dos naturais poder falhar na colheita das espécies comestíveis.

O crime, o criminoso e as vítimas, com o passar do tempo, foram caindo no esquecimento de toda a gente menos na pesada consciência de Xésus Agrelo. A memória dos factos e a amizade com Sete Pés, avivados pelas várias visitas que fizera ao cárcere, estavam-lhe a dar cabo do sono e mais lhe deram na noite em que eu fui seu hóspede. Não admira pois que, na manhã seguinte, a pretexto de me oferecer pequeno almoço, me tenha dado lugar na sua mesa, me tenha inquirido acerca das leituras que me proporcionou, tenha desabafado sobre mim a sua inquietação e me tenha proposto um plano de acção para que a justiça fosse feita.

E, porque fartos de histórias contadas estamos todos e de abaixo assinados estamos cheios, depois de eu ter entrado, convido-o a si leitor, também a entrar na história que, a partir daqui, deixará de ser escrita para ser vivida.

O nosso plano consiste em reunir um grupo de activistas capaz de ir, daqui até à Corunha, percorrendo os Caminhos de Santiago, reclamar a libertação de Sete Pés. Sabemos como os meios de comunicação social são atraídos por este tipo de iniciativas e é quase certo que o seu impacto pode despoletar a reabertura dum processo mal contado.

Preparem a mochila e ponham-se ao Caminho. É só seguir as vieiras até encontrar esta que o filme documenta. Nas imediações da mesma existe um albergue onde estou alojado à vossa espera. Conhecer-me-eis pelas botas. Quando formos sete, partiremos. Libertai-vos!!!

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Foi nas monumentais

Naquela idade eram a fome e o desejo que nos moviam. Aconcheguei-lhe uma orelha nos meus lábios e confessei-me. Ela não afastou o ouvido nem a orelha. O almoço na cantina tinham sido favas e eu nunca gostei de favas. Tinha fome. Trinquei. Ela afastou-se repentinamente com um ai de dor e eu, desajeitado,  fiquei com um pedaço de carne preso aos dentes que, no embaraço, acabei por engolir.

Encontrei-a passados muitos anos num daqueles almoços de antigos colegas onde se comparam cabelos brancos, barrigas e marcas de automóveis. Tentei falar-lhe mas ela continua determinada a nunca mais me ouvir e a não me falar. Ela está de não se desejar mas aquela cicatriz na orelha fica-lhe a matar.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Acabei as obras no sotão

Depois de vos ter contado aqui, aqui, aqui, aqui e aqui, das coisas que se podem encontrar quando se dá a volta a um sotão, encontrei hoje mais esta de adolescente a precisar de algumas coisas. Andamos a dar às coisas novo poiso, este poster fica ali, este livro vai para o lixo, este caderno para acolá e...
... dele cai uma folha manuscrita que mia como um gato quando se estatela no chão:

O gato Haicomo

Desde que Deus o Homem e a Mulher fez
Que as palavras calaram a voz dos animais.
Somente Haicomo responde em inglês
Quando o acusam de viver igual aos seus iguais:
- I?! How?!... Me?!... How?! Mim...au?!


Mai de sete vidas estão passadas,
Incandescentes os olhos se consomem
E as fêmeas perecem no celeiro
Porque esse gato é Homem…

Quando o cantor range o dente,
Como árvore que tomba à raiva do machado,
Haicomo responde como sente,
Vira-se ao mundo e finge-se assanhado:
- I?! How?!... Me?!... How?! Mim...au?!


Mais de sete vidas estão passadas,
Na estalagem as portas apodrecem
E os olhos do tempo lambem o solo
Porque essa carne é Homem…

O gato vive numa árvore que conheço.
Vive roendo as garras
Como um jovem desempregado cuidando as unhas.
No tronco, uma placa em mármore:
Cuidado com o Gato

Dez 79

segunda-feira, 23 de maio de 2011

39- O Caminho do Fim da Terra


Se este fosse um escrito vulgar de escrever para vender, daqueles em que os autores vagueiam presos às suas experiências pessoais, procurando afinidades com que os leitores se identifiquem e inventando fantasias com cenários impossíveis que surpreendam e agarrem, provavelmente esta história acabaria aqui. Acontece que estamos enfiados na descrição autêntica de factos vividos e não estamos perto do final mas ainda no começo. Isto porque agora é que vai ser, entro eu.

Quis o destino que, na sequência de uma discussão familiar por causa das canas dos feijões, eu arrumasse a trouxa e me fizesse ao Caminho. Porque do Caminho já muito sabeis de Sete Pés e Marie, deixarei apenas o registo que o fiz sozinho até chegar a Pradís e que aí cheguei, encharcado por uma valente carga de água, rente à noitinha, situação que me obrigou a procurar a sempre à mão hospitalidade dos galegos.

- Xésus Agrelo! Benvindo a Padrís!
Os mais atentos, recordarão porventura este cumprimento, no ponto em que também o nosso par aqui chegou.
- Português?! Oh lá! Lá! O único que por aqui parou, deixou má memória! Fosse eu supersticioso e não lhe daria abrigo! O caso deu naufrágio e morte, a coisa que mais temem as gentes que habitam esta costa que, não por acaso, tem o nome de Cuesta da Muerte!...

E foi da continuação deste encontro que recolhi a informação que trouxe esta história até aqui. Xésus Agrelo fez-me entrega da casa da tragédia para pernoita e deixou-me a noite, entregue a documentos que guardava do julgamento de Sete Pés, destacando destes um molho à parte de fotocópias do diário de Marie France, diário esse, cujo conteúdo já conheceis sobejamente, que outra coisa não tenho feito neste livro – se assim se pode chamar a estas postagens – senão contá-lo.

Serei, também eu, daqui para frente,  protagonista, cidadão real que não aspirando nem tendo traquejo ou expediente para ser escritor ou autor de alguma coisa, encontrou na personagem proprietária deste blogue a forma de testemunhar o caso esquecido de um português sem pátria, de um aldeão sem terra, sem família, quase sem nome, preso há sete anos na Galiza, sem ter merecido, ao menos, um dezasseisavos de uma página do Correio da Manhã.

Sete Pés estaria inocente, se não tivesse de se encontrar um culpado, teria quem o defendesse se não estivesse só, estaria em liberdade se não estivesse preso, mas continuará caminhando porque disso não se pode impedir um sonhador, nem que o amarrem.
__________________________________________________

Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra.

domingo, 22 de maio de 2011

Ventos de Espanha

SKA-P - uma Espanha silenciada e verdadeiramente revolucionária.


Orgulloso de estar entre el proletariado es difícil llegar a fin de mes y tener que sudar y sudar "pa" ganar nuestro pan.
Éste es mi sitio, ésta es mi gente somos obreros, la clase preferente por eso, hermano proletario, con orgullo yo te canto esta canción, somos la revolución.
¡SI SEÑOR! La revolución, ¡SI SEÑOR!, ¡SI SEÑOR!, somos la revolución, tu enemigo es el patrón,
¡SI SEÑOR!, ¡SI SEÑOR!, somos la revolución, viva la revolución. "Estyhasta" los cojones de aguantar a sanguijuelas, los que me roban mi dignidad. Mi vida se consume soportando esta rutina que me ahoga cada día más.

Feliz el empresario, más callos en mis manos mis riñones van a reventar. No tengo un puto duro, pero sigo cotizando a tu estado del bienestar.
¡RESISTENCIA! Éste es mi sitio... En esta democracia hay mucho listo que se lucra exprimiendo a nuestra clase social. Les importa cuatro huevos si tienes catorce hijos y la abuela no se puede operar. Somos los obreros, la base de este juego en el que siempre pierde el mismo "pringao", un juego bien pensado, en el que nos tienen callados y te joden si no quieres jugar.
 ¡RESISTENCIA! ¡DES-O-BE-DIEN-CIA!

sábado, 21 de maio de 2011

Debate Sócrates Passos Coelho

eu fiz...
eu farei...
o que eu disse...
o que eu digo...
o que eu sei...
comigo...
comigo...
comigo...
eu sou...
sempre fui...
aconteço...
mereço...
fui eu que...
sou eu que...
eu! eu! eu! eu!...
mas então eles não representam ninguém!? nunca dizem nós?!

Pois fiquem sabendo que não nos comem por tansos! Não se trata de escolher um primeiro ministro entre dois ou mais! No dia cinco vamos eleger os deputados para a Assembleia da República! Aconteça o que acontecer, cá continuaremos, nós!...

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Que ninguém mais diga merda

... mas diga merkel!...
proponho que de ora em diante se passe a dizer:
vão todos para a merkel!
vão todos à merkel!
cheira aqui mal como a merkel!
sócrates é uma merkel!
isto está uma merkel! 
merkel para isto!
mas que merkel é esta?!
por acaso já não nos chega a merkel que cá temos?!
só nos faltava cá mais esta merkel!

outro assunto:
ligo tanto à merkel do futebol como à publicidade de pensos higiénicos
mas ainda não vendi a merkel da televisão
mas esta merkel de fazer dos debates políticos um jogo de ganhou este e perdeu aquele e, no final, os canais terem uns comentadores políticos com discurso de jornalistas desportivos, leva-me a concluir que estamos mesmo na merkel e que só há uma solução:
partir esta merkel toda a começar pela televisão!

segunda-feira, 16 de maio de 2011

38- O Caminho do Fim da Terra


Falaram até fartar, de coisas que não interessam à história. Comeram e beberam como abades, partilharam naturalmente dos arrumos, sem oportunidade, dos dois de que reza a história, privarem para um ajuste de contas do passado. Ao menos uma frase a dois, uma palavra, reconstruir ou completar um beijo que não fora bem dado há seis meses atrás. Nada. Muito pelo contrário, a pretexto dum dia cansativo, a mulher presente propôs cama e descaradamente decidiu, sem ouvir aquele que, nos termos presentes, era o dono da casa:
- Se não te importas, trazes as tuas coisas para a sala e dormes no sofá! Como eu e o Patapouf somos dois, justifica-se o quarto para nós!...

Desilusão, portanto, na libido de todos os Pés. Entre marido e mulher, não há lugar para mais de quatro pés!

Com todos os haveres junto ao sofá, assumiu obedientemente o seu papel. Deitou-se. Ouvia o mar, ouvia sussurros de francês, não dormia, não conseguia imaginar o amanhã, parecia ter chegado a um dia sem saída. A pouco e pouco só o mar se ouvia. A longa insónia despertou com o cantar do galo dos Agrelos. Naquela madrugada o galo cantou diferente, cantou como um clarim!
E foi assim que, silenciosamente para não dar de si, se pôs a preparar a sua mochila. Partiria, agora mesmo, para Finisterra! Chegara a hora de terminar o seu Caminho.

Quando chegou ao farol do cabo de Finisterra o mar reflectia os primeiros raios da manhã. Sete Pés, fitando o oceano, não apreciou saber e sentir que a Terra não acabava ali e invejou não ter vivido no tempo em que se acreditava nesse fim.
De qualquer modo, era conveniente aceitar que não poderia caminhar para mais além. Olhou então para trás, para terra, e sentiu vontade de fazer o Caminho de Finisterra a Oliveiroa – que não tinha conhecido - voltar até Santiago, fazer o Caminho do Norte até aos Pirinéus – não o francês que sabia pelos relatos que estava massificado - atravessar a Europa, ir por Jerusalém para o Tibete, Novosibirsk, estreito de Bering, Alasca, Califórnia, México, Andes, Terra do Fogo… Mas para quê?! Se aí chegado teria de concluir que os Caminhos da Terra não têm fim!?

De costas para o mar, os Sete Pés distribuíam entre si estes pensamentos. Remataram com uma visão panorâmica sobre todo o Continente que começava naquele promontório. O caminho que ali chegava, também dali partia e dava ligação a todos os caminhos que existiam. O melhor era dar uma volta ao farol para dar um nó na estrada.
Ia na meia volta quando avistou um jipe da guardia civil rodando na sua direcção. Ficou parado a observá-lo. O carro parou a seus pés. Apearam-se quatro militares e algemaram-no. Sem oferecer resistência e em silêncio de fim, sentiu os seus pés libertarem-se e correrem em pelotão para o abismo do cabo. Um casal de franceses havia aparecido morto em Padrís.
- O senhor está preso, acusado de homicídio!
- Ainda bem que não comi cogumelos!
__________________________________________________

Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra.

sábado, 14 de maio de 2011

Novo Milagre em Fátima

Peregrinos de Fátima acreditaram que auréola que se formou em torno do Sol era milagre

A imprensa de hoje faz notícia, embora denunciando cepticismo, do facto:
- O Sol ficou com uma auréola à volta, precisamente quando passava um vídeo sobre João Paulo II e houve muitos peregrinos que gritaram: Milagre!!!

Primeira pergunta -  porque é que olharam para o sol em vez de estarem atentos ao vídeo?!
Segunda pergunta - não sabem que olhar para o sol pode causar lesões irreversíveis na visão?!
Terceira pergunta - foi a primeira vez que viram uma auréola à volta do sol?!

Na verdade, temos presentes todos os ingredientes para acreditar num milagre: crise, pobreza, desesperança, necessidade de acreditar no impossível! E vinha mesmo a calhar à Igreja e aos senhores do poder!
Mas falta uma coisa: é que já não estamos em 1917! Este milagre vai ficar por aqui mesmo! Só vai ser notícia hoje! 
Também, para que raio é que nos ia servir o facto de uma auréola à volta do sol ser milagre e não ser uma coisa natural de tempo de trovoada?! O que é que isso ia adiantar?! Ainda se fosse, brotar do sol uma voz dizendo:
- Todas as troikas são obra do diabo! Quem votar em troikistas vai para o inferno!

(só falei disto porque estava em Fátima a essa hora e não vi nada, estava a almoçar na Adega Funda)

ÚLTIMA HORA: segundo o DN o fenómeno foi provocado pela luz reflectida por cristais de gelo na atmosfera. Um crente, incrédulo, pergunta:
- Mas quem pôs lá o gelo?!
E eu pergunto:
- Onde é que está o Whisky?!

segunda-feira, 9 de maio de 2011

37- O Caminho do Fim da Terra


Ouviu um carro parar na rua. Ouviu conversa de saudações. Seria Xésus Agrelo a cumprimentar a neta? Não seria de boa educação ir espreitar à janela. Bateram à porta.

- Eh lá! Já?! Queres ver que tenho de ir conhecer, beijar já a moçoila e atirar-lhe à vista o brilho sedutor dos meus lindos olhos?! - pensou, caminhando determinado em direcção à porta de entrada.

Puxou o trinco. Abriu. Surpresa!!!...
Os olhos embaciaram-se, engasgou, embranqueceu, apoiou-se na porta, tremeu e abanou todo ele, traído pelos pés que se enfiaram os sete, como um rabinho, entre as pernas.
Era Marie acompanhada por um homem. Outro?! Não, o “mari”!

Um a um, escorregaram das massas musculadas das pernas másculas e ocuparam o seu lugar em fila indiana para dar cumprimento aos devidos cumprimentos. Pé de Atleta à frente, em segundo Água Pé, a seguir o Descalço e o de Meia, Pé de Vento sem ordem e, por fim, Pé Ante Pé cauteloso e o Pé Chato a resmungar.
Um a um, Marie sentiu-os perante o olhar desconfiado do marido que sentiu demasiadas expressões para um cumprimento só.

Claro que era para entrar! Para comer, seria mais difícil – o frigorífico não estava muito satisfeito! Pernoitar?! É pá! Calma aí! Vamos pensar:
- Situação estranha! Situação complexa! Ela a cumprimentar sete! Os sete cumprimentando o marido! O marido a cumprimentar um! Que estranha visita esta! Que complexo encontro! Que situação embaraçosa! Que pretenderá Marie?! Uma cama com onze pés?!...

Os Pés ficaram sem jeito!
Marie disse que comprara peixe em Finisterra e que trataria do jantar! Sete Pés iria mostrar a praia a Pierre Patapouf e os vestígios do derrame do Prestige, seria uma oportunidade de se conhecerem. Enquanto isso, ela preparava as coisas e iria conversar um pouco com os Agrelos. Já agora – continuava Marie a comandar - que passassem pela mercearia e comprassem isto e aquilo e cogumelos do campo, se os houvesse! Isto porque prometera a Patapouf fazer-lhe prova do petisco que aprendera com os galegos e que só com cogumelos da Galiza se pode fazer! Seria o aperitivo ideal para o grande jantar que se advinhava. O facto de ser sabido que Sete Pés não apreciava, não importava!

- Que estranho jantar!... O casal de franceses com os cantos dos lábios a escorrer o azeite dos cogumelos! O terceiro, o séptulo, a pão com azeitonas. Ela falava para ele. Ele falando para o marido! O marido a falar para ele! Falavam os três, diga-se os nove, como se se tratasse de uma relação natural!…
Que raio de história Marie teria contado, da sua história do Caminho, ao seu marido? A verdadeira? Será que o velho é daqueles destesoados que gozam a ver a esposa chap-chap com outros? Será essa a proposta do fim do vinho?
__________________________________________________

Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Foto inédita de Barack Obama com Bin Laden morto ao lado.

Barack Obama fez uma comunicação ao país, tendo ao lado o cadáver de Osama Bin Laden preso por cordéis:
Obama afirmou que eliminar Bin Laden não significa o fim do terrorismo mas que as Forças Monetárias Internacionais vão continuar o seu trabalho. (Repara-se no humor negro do orador que tem uma seta no casaco a apontar para o outro como quem diz: a culpa foi dele!).

Estou muito confuso, estes últimos dias têm dado cabo de mim: o casamento da Rainha da Inglaterra com D. Duarte; a beatificação de José Sócrates; o suicídio de Bin Laden!... Só me falta mesmo um dia destes, aumentar o preço dos combustíveis; aparecer-me um tipo a exigir-me agradecimentos porque me assaltou a carteira ameaçando-me que me levava tudo e afinal deixou-me uma moeda; ou uma caravana do PS passar à minha porta a pedir-me o voto!...

Estou muito confuso! Já não sei se sou americano, muçulmano, católico, monarca, republicano ou português! Sei apenas que ninguém me vai obrigar a votar em nenhuma troika que mande no país!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

36- O Caminho do Fim da Terra

- Vês uma mancha negra além no oceano?
Marie iniciou então o longo discurso do momento que ambos esperavam. Tudo muito bem explicado: tinha família e vida em França, era muito mais velha que ele que ainda tinha uma vida pela frente. Viver ali, assim por muito mais tempo não era vida, as verdadeiras paixões têm um tempo de duração limitado e etc... Além disso?! Sim! Teria de admitir ser tão pragmática quanto amante da boa vida: aquela mancha negra!...
- Talvez a mancha seja um sinal a dar-me a ordem de ir embora!...
- E a mim de ficar!...
- Tens muito para caminhar rapaz! Amanhã de manhã partirei para Finisterra para acabar finalmente com este Caminho! Suplico-te que, em caso algum, me sigas. Deixarei a renda paga para mais seis meses!
- Não é necessário, o trabalho que faço com Xésus Agrelo compensa bem a renda! Além disso, tenho uns bons cobres no banco em Portugal, herança da putez da minha rica mãe!
- São só seis meses! O tempo que eu poderia continuar aqui contigo!

Marie retirou-se para dentro de casa e todo o resto do dia movimentou-se tacticamente de modo a evitar o tema ou qualquer despedida. Arrumou as suas coisas num silêncio apenas quebrado com curtos diálogos sobre questões práticas: onde é que está isto? isto fica aqui! não te esqueças que isto funciona assado! Diz ao Xésus Agrelo que… e pede-lhe desculpa por não me despedir!... Se não te importas vou dormir no sofá para não te acordar quando partir!
Os pés estavam demasiado calejados para que o acontecimento lhes fizesse mossa!
- Finalmente livre!
Dissera para si quando morreu sua mãe e agora voltava a dizer a mesma coisa:
- Finalmente livre para cultivar os seus pés!

Três dias depois da partida de Marie a praia ficou negra de morte! Sete Pés foi dos primeiros a ir para o areal sofrer e fazer parte da primeira equipa de voluntários que começou ali a trabalhar. Ao fim de algum tempo foi integrado numa equipa remunerada pela Junta e aí trabalhou durante seis meses, impondo sempre uma condição: limparia crude em todo o lado desde que de lá não se avistasse o cabo de Finisterra.

- O português tem uma pancada! O home é tolo!... - Diziam os colegas.

Já a costa estava quase limpa, ou pelo menos na situação em que já não é possível limpar mais, Sete Pés experimentava o prazer de, do banco corrido, da varanda corrida das traseiras da casa, olhar o mar como se ele fosse um pouco de obra sua. Já não era o mar negro, nem a Costa da Morte, era o mar salgado e a costa da vida.

Pensou que para a sua, esta história, a continuação do diário de Marie, ter enredo para dar livro, deveria ter encontrado nas equipas de limpeza uma irmã de que a mãe nunca lhe havia falado. Ou talvez, quem sabe, a neta “vinte e teen” de Xésus Agrelo, que chegaria nestes dias do Canadá para passar umas férias com o avô, não lhe traria pés para um romance e o romance se arrastasse como um novela da tvi; e o amor se viesse a estabilizar numa vida normal que apenas interessasse a quem a vivesse!?...

Voltou a olhar o mar e falou-lhe alto como um louco:
- Não penses que esta história vai acabar aqui! Esta casa é um barco que não se dá à água mas quem aqui entrou tem de aguentar, enjoar, tresandar a sal, vomitar azul até, à falta de porto, desejar a tempestade para poder naufragar!

(pois, meu fiel leitor, se está farto atire-se à água, porque há ainda muito oceano que não passou a Padrís! – hei-de chegar ao fim, só com um leitor!)
__________________________________________________
Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra.

domingo, 1 de maio de 2011

Que hei-de fazer com este dia?!

Que hei-de fazer com este dia?!
Sou filho de mãe, mãe, pai operário, sou pai, trabalhador, revolucionário! Já sei! Tive uma ideia: vou almoçar fora com a família!
Há duas mães que não esqueço, uma é a de Gorki e outra é a Minha!

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Terra de ratos, gatos e porcos

Se os gatos governam e são presos os ratos que querem governar, que não triunfe a velha esperteza dum reino de porcos mas que se escolha o Rei dos Leittões. A mim ninguém me prende, nem niguém ousará acusar-me de querer comer os outros! Um video didáctico, para o ratos que teimam em votar nos gatos e não reconhecem a harmonia com que vivem na pocilga com os leitões:


segunda-feira, 25 de abril de 2011

35 - O Caminho do Fim da Terra

- Estás convencida que um dia serás famosa por isso? Para que raio escreverá uma pessoa se não for para outros lerem? Para ler só ela, só se tiver um problema grave de memória ou se gostar de se masturbar literariamente?

As considerações a propósito do diário secreto de Marie foram florindo e fizeram dele fruto apetecido, fruto proibido, aguçando a curiosidade, a ousadia, a fraqueza ou ciúme de Sete Pés. Foi Pé Ante Pé que, numa manhã em que Marie foi a Cee sozinha tratar de assuntos de banco e de compras para o dia a dia, primeiro avançou sobre a encadernação que compunha o manuscrito! Foi Pé Chato que se pôs a ler aos outros pés, em assento e acento de professora, de avó, de avô, de pai ou tia – pronto! de quem lê histórias! - num tom de desvendo, revelação, historieta, história, romance, diário, de conto… e contou…

Não seria surpresa que ali se relatassem coisas do Caminho e de coisas outras e outras pessoais e/ou banais, que se escrevem em diários de senhoras que vivem ou caminham com os seus devaneios. E até se aceitavam coisas em que os pés entravam e saíam porque da presença e companhia deles seria justo o registo.
Agora que Marie registasse a mística dos Pés, que fizesse referências a cada um e ao seu desempenho sexual e que, pelas confidências do namoro, tivesse escarrapachada esta história, que aqui se conta, até aqui, pareceu a muito!

(Sim porque esta história que andais a ler há trinta e cinco semanas é o diário adulterado, a história que Marie, apropriada das confidências do Pé Descalço, foi escrevendo e usando.
Nesta situação, a partir deste parágrafo, já não se sabe quem escreve ou conta. Por isso, o melhor é deixar tudo como anteriormente e fazer de conta que a narradora não se chama Marie e que isto não é o seu diário.)

Quando ao fim do dia Marie regressou de Cee, Pé Ante Pé, primeiro de pé atrás, depois de rodapé, pôs o pé na fossa e de pé para a mão – melhor, para a boca! - largou:
- Mas que merda é esta?!
O diário de Marie nas mãos de Sete Pés!... Marie artilhando a boca, estremecendo os lábios em pé de guerra! Os sete pés embrulhados em pose de “sempre em pé”…
Água Pé, que tinha passado a tarde a abrir e fechar o frigorífico, precipitou o questionário e meteu o pé na argola, a mão na ferida e Marie ficou ferida de ir embora.
- Violada! - nas palavras dela.

Das palavras dessa noite fez-se o caldo que azedou o lirismo do romance. Nos três dias seguintes a este episódio choveu muito, a aldeia tornou-se num enorme lamaçal, a vida forçada em casa gerou tédio e cansaço mútuo. Ouvia-se nas notícias que um petroleiro havia feito das suas nos mares altos e vivos da Galiza. Dia após notícia, o nome Prestige entrou no vocabulário quotidiano.

Mesmo assim, apesar da tempestade que se estabelecera entre os dois e na Cuesta da Morte, durante uma acalmia, encontraram espaço para se sentarem de mãos dadas, no banco corrido da varanda corrida das traseiras da casa, a olhar o mar.
- Vês uma mancha negra além no oceano?
__________________________________________________
Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra.

sábado, 23 de abril de 2011

Até segunda

Poucos a ajudaram a fugir de casa
Para vir casar à rua com um soldado
Poucos ousaram dizer mal da noiva
Apesar dela vir vestida de vermelho

Já lá vão trinta e setes anos
Muitos lhe contam os dias
Apesar dela conservar a graça e a razão
Muitos são os rendidos, comprados e vendidos

Não sabem eles que ela engravidou
De novos portugueses. Finalmente!
E segundo a ecografia
Vem aí uma ainda mais bonita do que a mãe
E terá também o nome dela: Abril.

Se eu acredito na ressurreição?!...
- Dos vivos sim! É mais provável amanhã ressuscitar um homem que morreu há muitos anos ou na segunda-feira ressuscitar uma revolução?!

No 1º de Maio os trabalhadores dos hipermercados vão trabalhar! Colaborar! Dizem os seus exploradores! Interesse público?! Produção?! Necessidade?! Não! A belmirização do país! Humilhação! Esticar o elástico!
Isto não pode dar merda! Isto tem de dar Revolução! Abril!

quinta-feira, 21 de abril de 2011

A canção de Israel também é de luta

Tanta polémica porque a canção que vai representar Portugal no festival da Eurovisão fala de luta! Que dirão os israelitas?! A canção deles é bem mais polémica do que a nossa! Só o nome é de gritar: "No buraco errado".
Vejam o videoclip e a tradução!
A luta é alegria!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

34 - O Caminho do Fim da Terra



O local costumeiro era o banco corrido da varanda corrida virada para o mar.
Pé Ante Pé dizia:
- Vou para a varanda trabalhar!... Vou sentar-me a pensar! Sou pensador de profissão!
Marie ria e contrapunha:
- Então espera lá que eu já lá vou ter! Sou amante profissional!
E então acontecia muitas vezes que, enquanto Pé Ante Pé pensava, um ou outro pé coçava o amor.

- Aprecio num homem o humor, humildade e desinteligência!
Água Pé riu-se e limpou baba do queixo e Pé Descalço esfregou satisfeito os dedos das mãos entre os dedos dos pés e cheirou as mãos. Passaram olhares interrogativos de pé em pé como se pela primeira vez fossem levados a concluir que nenhum deles era inteligente! Marie topou as movimentações de identidade e a pretensão de encaixarem no seu trímodo de homem ideal e apontou na direcção dele:
- Mas tu és inteligente!
- Não sou nada!
- Ora, a pessoa que não se considera a si própria inteligente é porque é burra!
- Logo, não sou inteligente! Mas se isso te põe contente, também não me parece muito inteligente uma mulher que ama um burro!
- Vês és inteligente! Aliás, se não o fosses, eu já teria percebido com que pé estou a falar. Mas não, estou às escuras!
- Então acende a vela!
- Não tens piada!
- Mau! E vão duas – nem pêlo de burro, nem sentido de humor!...Também não sou humilde?!...
- Se fosses humilde, reconhecerias que és inteligente!
- Não quero mudar o mundo, quero apenas que o mundo não me mude a mim!
Os homens inteligentes criam empresas e negócios ou estudam e fazem carreira, eu não passo dum humilde órfão que está aqui a tentar fazer rir uma reformada!
- Nem todos, muitos deixam-se encantar por outras coisas da vida mas acabam por se perder no amor, no vício ou na revolta. No teu caso, receio que estejas perdido pelo amor!
- Se estou! E acabo de ser formalmente informado, que não sou correspondido!

Com o tempo a passar e estas reflexões adolescentes, não apareceu o tédio mas a paixão, o caso, começaram naturalmente a sofrer transformações.
Marie não dispensava o seu tempo diário para o seu Diário. Todas as noites, antes de ir para a cama ou já na cama, pegava na caneta e discorria. Do que escrevia nada contava e nunca deu a Sete Pés confiança para pedir relatos ou para dar espreitadelas. Aquele caderno fazia parte de uma intimidade intocável.

- Estás convencida que um dia serás famosa por isso? Para que raio escreverá uma pessoa se não for para outros lerem? Para ler só ela?! Só se tiver um problema grave de memória ou se gostar de se masturbar literariamente!...
- Masturbação literária! Vou registar essa! As pessoas que não escrevem diários vêem sempre a escrita não documental associada aos romancistas que fazem dinheiro com o que escrevem. Não compreendem que, tal como as pessoas que correm no parque não têm motivações competitivas, o fazem apenas por gosto e para manter a forma, também nós, os que cultivamos a escrita de gaveta, o fazemos apenas por prazer e exercício!
__________________________________________________

Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Belmiro de Azevedo entrevistado na RTP1

Porquê?

Quando abriu o primeiro hipermercado Continente em Lisboa, o Zé pegou no carro e na família e fez-se à estrada. A grandeza, as luzes, os reclames, o Portugal de progresso, o tudo para comprar, o barato fizeram que, durante uns dias, o Zé não falasse de outra coisa a amigos e vizinhos:
- Uma pessoa apetece-lhe comprar tudo! Aquilo até dá gosto comprar!

Quando abriu o Continente na capital de distrito do Zé, ele desabafou:
- Até que enfim que chegou aqui o desenvolvimento! Agora sim! Já tenho programa para todos os Domingos!

Quando o Belmiro de Azevedo veio à escola da filha falar de empreendimento, o Zé tirou a tarde e foi ouvi-lo embevecido e até, da palavra do público, lhe pôs uma questão que teve a resposta desejada!

Quando abriu o Modelo lá na Vila, então é que foi! Cem empregos! Um cartão de descontos! Senhas de descontos na Galp! Produtos de marca Continente muito mais baratos! E até uma caixa automática para tipos como ele, que percebem de novas tecnologias, registarem e pagarem as suas próprias compras sem terem de estar na fila a aguentar a inabilidade da rapariga paga a preços baixos.

Se não fosse aquele investimento o que seria daquela terra! Está tudo pelas horas da morte! A mulher do Zé, que trabalhava numa loja de ferragens, bem pode agradecer por acaba de conseguir um contrato de seis meses na limpeza do centro comercial. A exploração de produtos agrícolas, onde trabalha o Zé, bem pode dar graças a Deus por existir o Continente, a margem de lucro é ínfima mas sempre dá para se irem aguentando.

Disseram ao Zé que o Continente é como o eucalipto! O Zé diz que um carvalho demora 100 anos a criar! O Zé acha que isto tem de ser assim!

Mas não tem! Nacionalização imediata do Continente! Limitação da zona de exploração da Sonae às Berlengas!
Estamos na miséria enquanto os Azevedos sobem no pódio dos mais ricos do mundo! E, como se não bastasse, para comentar a crise, a televisão do estado deu uma entrevista no horário nobre apresentando-o como o maior empregador do país!

Enfim, informação democrática! Como se fosse possível este post sair reproduzido amanhã na coluna “blogues em papel” do jornal Público!

Marionetas Financeiras


quarta-feira, 13 de abril de 2011

Não é o FIM nem o princípio! É apenas o FMI

E quando todos já pensávamos que o homem não nos podia F mais ele muda a M e troca o I . E esperemos que ele não se lembre de entrar por Badajoz!

terça-feira, 12 de abril de 2011

Não liguem ao FMI

Dizia o meu pai que a engenharia do Criador falhou redondamente na parte dos dentes: estão sempre a dar problemas! Um bico teria sido uma solução muito melhor!

Cá na casa, o casal há muito anos que tem próteses dentárias! Há muitos anos que um copo de Higland Clan – um Whisky tão rasca que os comercializadores costumavam compensar a fraca qualidade com a oferta de um copo – me servia para pôr de molho a dentadura. A dela costumava repousar  num copo de quermesse!
Acontece que os anos enfearam-nos e a cuidadosa dona da casa achou por bem comprar dois novos iguaizinhos, em plástico azul-belmiro-de-azevedo. E, como os anos não trazem só a falta de dentes, aconteceu-nos andarmos todo o dia de placas trocadas e, só à noite, no desenrolar duma piada de fazer cair os dentes, olhámos cada um para a sopa do outro e ao mesmo tempo observámos:
- Essa dentadura é a minha!

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Trinta e Três farinha e Sete Pés


Depois da primeira manhã, na primeira tarde do primeiro dia, depois do almoço improvisado com "frutos da horta" que a esposa de Xésus Agrelo veio trazer, acharam por bem ir à mercearia da aldeia abastecer-se de mantimentos para a casa.

Na manhã do segundo dia, por proposta de Xésus Agrelo, Pé de Meia e Pé de Atleta foram com ele para a pesca de anzol junto à costa. Depois da segunda manhã, na tarde do segundo dia, Pé Descalço e Pé de Vento, foram com Marie para a praia, tomaram banho no mar revolto e frio e enrolaram-se na areia fina.



No terceiro dia, Pé Ante Pé, passou o dia com Xésus Agrelo a ajudá-lo nas coisas da lavoura. No quarto dia, Água Pé deu a volta com Xésus Agrelo pela aldeia e ficou a conhecer e a ser conhecido pelos naturais. No quinto dia, Pé Chato já achava os dias sempre iguais. Nos dias seguintes, dos três meses seguintes, repetiu-se o convívio, a pesca, a lavoura, a praia, o campo e amor que a maior parte das vezes se fazia no banco corrido da varanda com vista para o mar. Os caminheiros amantes pensavam, cada um para si, no Fim daquele estado de enamoramento mas nenhum deles ousava tocar no assunto ou falar de Finisterra. Foram várias vezes a Cee, o burgo município, umas vezes à boleia de Xésus Agrelo, outras de autocarro e até a pé, tratar de compras e outros assuntos mas pisar Finisterra nunca esteve em cima da mesa, seria o Fim. Xésus Agrelo foi-se apercebendo dessa não-vontade e  interrogou-os acerca do impedimento, tendo aceitado, com galega inteligência as suas explicações.

Sete Pés, porque não tinha família nem raízes e porque estava estava a realizar o seu projecto de vida de caminhar mundo além, poderia estar ali a vida inteira que ninguém daria pela sua falta. 
Marie, por outro lado, com a sua idade e a sua vida, já tinha contribuído para certas mudanças, dum mundo que muda sem reconhecer o contributo das marias que o mudam. E foi por ter observado  o mundo mudado que ajudou a mudar, que se sentia ali bem, num outro mundo. O seu mundo novo que se consumia à velocidade de uma vela de cera ardendo!

Quando ia a Cee fazia longos telefonemas para o marido e inventara uma explicação para o adiamento do seu regresso a França: da sua competência de bombeira reformada, com conhecimentos na área do socorrismo, surgiu-lhe a oportunidade de fazer uma temporada de voluntariado numa organização de apoio aos peregrinos do Caminho. - Mentira?!

- Eu sou sete peregrinos necessitados de especial apoio e uma mentira pode valer a pena se a razão não for pequena!
Consolava-a Sete Pés com as suas razões “pessoanas” que, frequentemente, serviam também para brincar com ela com a desmultiplicação de pés. Marie perguntava sucessivamente:

- Com que pé estou a falar?... Que pé está em cima de mim?... Que pé me está a chamar?... Ai! Ai! Todos não que me confundem!... Ai! Ai! Todos não que me derretem!..
__________________________________________________
Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Todos menos eu

E se lá no estrado público onde discursas
Ouvida deste trono se consente
Não te esqueças do meu desejo ardente
Que quando disseres:

"os portuguesese desejam...
os portugueses querem...
os portugueses gostam...
os portugueses adoram...
os portugueses confiam...
os portugueses devem...
os portugueses precisam...

os portugueses percebem...
os portugueses sabem...
os portugueses estão...
os portugueses vão...
os portugueses são..
os portugueses assim...
os portugueses assado!..."
deves dizer "os portugueses, menos um, .......!"
porque não te autorizo a falares por mim
nem a ti nem a nenhum do teu estrado!


E só porque no modesto trono onde se me chega
Prefiro ser "menos um" a referência
Do que o tratamento de excelência
"Sua majestade Pata Negra"

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Comunicação do Sócrates

Ouvi antentamente a comunicação ao país do Primeiro Ministro e as reacções dos partidos políticos.

Só tenho uma coisa a dizer: Ui.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

E vão Trinta e Dois Sete Pés

Já lá vai o tempo em que os escritores tinham de puxar do vocabulário e de entrelaçar as palavras para descrever paisagens, hoje é o tempo das imagens, por isso, em vez de nos perdemos por aqui a estender prosa para enquadrar o romance mais vale estender umas fotografias e passar a outro nível. Todas as imagens foram retiradas do Google Earth nos locais exactos em que se desenrola o Caminho.



Xésus Agrelo não os convidou para sua casa, preferiu ir com a mulher e com a panela da sopa, jantar a casa dos hóspedes. Era uma forma de utilizarem a sua segunda casa, de não arriscarem expor a primeira a desconhecidos, de aproveitarem a ocasião para recomendações sobre as existências e funcionalidades, de mostrar as fotos dos familiares e antepassados.

Porque a sopa partilhada arranjou espaço para muito mais, Xésus Agrelo foi buscar à casa mãe, enchidos, queijo e tudo o mais que tinha para completar a refeição, sem esquecer o vinho - o vinho faz amizades, o pão e o vinho fazem o Caminho.

No fim do serão foi motivo para brinde a decisão de ficarem por mais uns dias face ao programa de actividades que se inventou.

Na primeira manhã, Marie e Sete Pés, ficaram por ali a namorar, no banco corrido da varanda com vista para o mar, que corria o alçado da casa com vista para o mar duma ponta à outra. Pela primeira vez, Marie,  fez amor com os Sete Pés;  houve, portanto, orgia a sete para uma, ora com um pé, ora com outro:

Pé Ante Pé pensou duas vezes; Pé Chato pensou no banco; Água Pé sentiu-se entesado pela ressaca; Pé de Vento ofegou; Pé Descalço despiu-se; Pé de Meia tirou as meias e Pé de Atleta pensou: vamos a isso!

Marie parecia que tinha optado pela permanência naquele local apenas por aquele momento, queria amar aquele jovem ali!

Pé Ante Pé avançou pé ante pé sobre Marie e ela sentiu a insegurança do jovem. Pé Chato preocupou-se com a dureza do banco de madeira e Marie disse que não fazia mal. Água Pé, fora de si, largou as mãos e Marie afastou-as. Pé de Vento entrou suave; Pé Descalço – pele! Sinto pele!... Pé de Meia – Preservativos?! E Pé de Atleta assegurou o vai e vem. E no fim todos em coro cantaram: já me vim!

Marie experimentou sete orgasmos, nunca tal lhe havia acontecido, ficou intrigada e falou disso. E foi assim, no calor e na aproximação que completam os verdadeiros actos de amor, que Sete Pés se revelou e um a um, cada um dos pés de si falou, deixando Marie estupefacta com a intimidade do seu amigo íntimo.

- Tu?! Sete Pés?! Neste momento “re-vejo-te” mais com um bicho de sete cabeças! Bicho não! Pronto! Bicho-homem!

E nos dias seguintes muitas coisas contaram um ao outro de cada um deles. Sete Pés desenrolou a sua infância, apontou os seus 35 dedos dos pés, acusadores, à gente rude e cruel da aldeia, denunciou a santidade da sua falecida mãe e manifestou esperança de um dia existir igreja para a canonizar sem lhe omitir a profissão, muito pelo contrário, de a eleger padroeira das prostitutas!
- Aqueles labregos só não me pisavam porque me achavam um monte de merda!
- Deixa-te de lamechas rapazinho! Tens de ganhar auto-estima!
- Que é isso?! Isso é alguma oficina de manutenção de carros?! Auto-estima?!

E riram os dois e Marie também contou das suas e de como se tornara caminhante por não apreciar ser viajante.

- Viajar é coisa das gentes escravizadas pelo trabalho e pela carreira. Quem viaja tem sempre o pensamento no regresso, vai e vem com pressa e não tira fotografias pelo caminho mas apenas e muitas no local do seu destino. Vai de meio de transporte para ser depressa e, embora possa observar a paisagem, não a cheira, não a tacteia, não vê os répteis nem as caixas de correio nos muros das casas. Pelo contrário, nós enquanto caminhamos, falamos com as pessoas, cheiramos as plantas que se cruzam connosco, sentimos cada passo, não temos pressa de chegar e damos mais importância ao caminho do que ao destino.
__________________________________________________

Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra.