domingo, 9 de outubro de 2011

Procuro FIAT 600

E, numa tarde de Domingo outonada, lá foram os pais entregar o filho ao clero, acompanhados de uma tia-avó celibatária, octogenária avançada, ex-regente de ensino e poupada, virgem de todos os santos e que, pela causa deles, apostou em investir na vocação do sobrinho querido que era eu. Fomos num FIAT 600, não tão velho como ela mas muito velho, emprestado sem favor por um primo mais abastado que fazia plena confiança nas mãos do meu pai, ou não tivesse sido ele, chofer de ofício, quem lhe dera a sua primeira lição de condução.
A viagem foi um suplício. A velha à frente, pendurada, a tecer cuidados à estrada, a dar-me recados e recomendações, a contar histórias e avé-marias e a minha mãe, atrás, com uma toalha a zelar-me pelos vómitos que me provocavam as curvas e o cheiro a gasolina.
A verdade é que só ela falava, os outros dois deveriam ir pensando em coisas que também, no meu enjoo, pensava:
- Como vou aguentar viver fora de casa sem a minha casa, sem o meu casal, sem o meu ribeiro, sem poder armar as minhas costelas, sem o meu cão, sem os meus amigos, sem as minhas primas, sem o meu irmão? Será que vou aguentar as saudades? Será que me vou largar a chorar no momento da separação?

Mas não! A minha mãe arrumou-me as coisas no armário, fez-me a cama, disse o que tinha a dizer. O meu pai e a tia observaram, encantados, as modernas instalações e trocaram impressões com gentes e meninos de outras terras que estavam ao mesmo.
No final, acompanhei-os à portaria e voltei para junto dos outros meninos que nem um homem! Nem uma lágrima!

Então e os 650$00?! Não me esqueci! Nunca me esquecerei! Por pressão do prior junto da reitoria a mensalidade desceu 50$00. Por pressão do prior junto da tia-avó beata, esta amadrinhava os santos estudos do jovem parente a troco dumas intercessões sacerdotais junto do Altíssimo.

- Se a tua tia ajuda, a conversa é outra! Nesse caso, ainda que nos exija à mesma muito esforço, penso que conseguiremos!... Não nos podemos esquecer que ter um filho formado é sempre um bom investimento!
- Esqueceste que para chegar a padre é preciso estudar muitos anos e a velha não dura muito!
- Pode não durar muito mas tem dentes de ouro!

(esta história de domingo começou com uma coisa que se me meteu na cabeça, comprar um jipe usado, 650$00 e, para a semana, se houver sol, continua)

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Nem todos são iguais

Votações na Assembleia da República - 23 de Setembro de 2011
VOTAÇÃO NA GENERALIDADE

1. Projecto de Lei n.º 44/XII/1.ª (PCP) – Determina a aplicação extraordinária de uma taxa efectiva de IRC de 25% ao sector bancário, financeiro e grandes grupos económicos (Altera o Código do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Colectivas, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 442-B/88, de 30 de Novembro);

Rejeitado
Favor – PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD, PS e CDS-PP

2. Projecto de Lei n.º 45/XII/1.ª (PCP) – Tributação adicional sobre a aquisição e a detenção de automóveis de luxo, iates e aeronaves (13.ª alteração à Lei n.º 22-A/2007, de 29 de Junho, que aprovou o Código do Imposto sobre Veículos – ISV – e o Código do Imposto Único de Circulação – IUC);

Rejeitado
Favor – PS, PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD e CDS-PP

3. Projecto de Lei n.º 46/XII/1.ª (PCP) – Tributa as mais-valias mobiliárias realizadas por Sociedades Gestoras de Participações Sociais (SGPS), Sociedades de Capital de Risco (SCR), Fundos de Investimento, Fundos de Capital de Risco, Fundos de Investimento Imobiliário em Recursos Florestais, Entidades não Residentes e Investidores de Capital de Risco (ICR) – (Altera o Estatuto dos Benefícios Fiscais, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 215/89, de 1 de Julho);

Rejeitado
Favor – PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD, PS e CDS-PP

4. Projecto de Lei n.º 47/XII/1.ª (PCP) – Cria uma nova taxa aplicável às transacções financeiras realizadas no mercado de valores mobiliários;

Rejeitado
Favor – PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD, PS e CDS-PP

5. Projecto de Lei n.º 48/XII/1.ª (PCP) – Cria uma sobretaxa extraordinária em sede de IRC (Alteração ao Código do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Colectivas, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 442-B/88, de 30 de Novembro);

Rejeitado
Favor – PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD e CDS-PP
Abstenção – PS

6. Projecto de Lei n.º 49/XII/1.ª (PCP) – Fixa em 21,5% a taxa aplicável em sede de IRS às mais-valias mobiliárias (Altera o Código do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 442-A/88, de 30 de Novembro);

Rejeitado
Favor – PS, PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD e CDS-PP

7. Projecto de Lei n.º 50/XII/1.ª (PCP) – Cria um novo escalão para rendimentos colectáveis acima de 175000 euros e tributa de forma extraordinária dividendos e juros de capital (Altera o Código do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 442-A/88, de 30 de Novembro);

Rejeitado
Favor – PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD, PS e CDS-PP

8. Projecto de Lei n.º 51/XII/1.ª (PCP) – Tributação adicional do património imobiliário de luxo (Alteração ao Decreto-Lei n.º 287/2003, de 12 de Novembro, que aprovou o Código do Imposto sobre Transacções Onerosas – IMT – e o Código do Imposto Municipal sobre Imóveis – IMI);

Rejeitado
Favor – PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD e CDS-PP
Abstenção – PS

recebido por e-mail

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Também sou Pessoa

Às vezes tenho ideias, felizes,

Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...

Depois de escrever, leio...
Porque escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...

Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?

Se eu tivesse ao menos um blogue onde pudesse escrever o que me apetece!...
de "Poesias de Álvaro de Campos" Fernando Pessoa ...

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Quarto 3

(Se não leu o Quarto 1 nem o Quarto 2, este quarto não faz sentido)
As três mulheres da casa não pararam durante todo o dia: limpar, limpar, limpar; cozinhar, cozinhar, cozinhar; voltas e mais voltas à casa e à mesa; parecia que ia chegar um rei.
Quando regressei a casa foram-me apresentados os fafenses: o recém ex-presidiário, Virgolino, deixou transparecer no cumprimento a afinidade criada pela correspondência da fase do enamoramento; o afecto do aperto de mão atenuou o efeito do olhar neutro, da cicatriz ao canto do olho, da cabeleira aos caracóis encimando um corpo atlético que fazia sombra à minha franzina figura; o pai de Virgolino tinha rugas de operário a metros da reforma e largou-me um “É um prazer!” limitado e consistente, próprio de quem sempre fizera das tripas coração para endireitar a célula familiar; a mãe apresentava-se minhota e com ar de minhota mãe de família estendeu-me a mão; a irmã de ar trintona, sabidona e solteirinha apertou-me com dois beijos aos quais não reagi especialmente.
Dona Graça apresentou-me, orgulhosamente, como o hóspede estudante, carinhosamente como o seu filho branco e fez questão que eu entrasse na conversa ainda tímida – que bebesse um martini, que trincasse uns amendoins e desse algum ânimo ao festejado encontro.
Não contei ainda, mas conto agora, que entre as últimas cartas tinham existido uns telefonemas que me foram roubando a importância de escrivão, que foram feitas umas visitas ao presídio, que Graça conhecera, dessa forma, a família presente na sala. E outras coisas aconteceram que não cabem aqui ou porque me esqueci, ou porque a inabilidade de escritor de cartas alheias não me dá prosa para tanto.
- Amanhã tenho frequência! Gostava de ficar um pouco mas tenho de estudar!
- Mas jantas connosco!
Comecei a subir as escadas enquanto deixava a resposta de quem não tem argumentos para dizer não.
Quando desci para a festa a mesa estava já animada, já tinham sido ultrapassados os constrangimentos de primeiro encontro, já cheirava a noivado não declarado, já havia brilho de bebida nas expressões. Para um rapaz simples nada mais fácil do que estar com gente simples e, ao fim do primeiro copo, já contava das minhas. Depois da sobremesa e dos brindes veio a música e a dança, dancei com todas e até com o pai do Virgolino mas foi com a irmã do Virgolino que se me fecharam os olhos: as filhas da casa a verem um filme, os potenciais sogros a ferrarem o galho no sofá à espera do encerramento dos festejos para o abrirem e o preparem para a pernoita e eu e ela, no meio da sala, lentamente bailando um slow do Adriano Celentano. O par dos namorados-festejados já estava há mais duma hora no quarto grande. A solteirinha de Fafe esfregou-me as canelas:
- Ó menino João, não adormeça no meu ombro!
As meninas perceberam a hora de ir para a cama e subiram, a porta da entrada a abrir-se, o Zé Maria a entrar com um “boas noites” semi-etilizado, a marcar a distância com um subir imediato, o som pesado dos seus sapatos sobre as escadas de madeira a marcar o compasso à minha rendição:
- Tenho de ir à casa de banho!
Quando voltei à sala estava já um ambiente de camarata: a luz apagada, os pais e o meu derradeiro par de cama feita e em fase de adormecimento. Não tive nem sequer coragem para a despedida, fui dormir no quarto com o Zé Maria e, no dia seguinte, faltei à frequência.
(Na próxima quarta há mais Quarto)

domingo, 2 de outubro de 2011

650$00

“ Tendo sido admitido ao seminário o vosso filho, depois do estágio que aqui realizou, certamente ides preparar, com todo o cuidado, o que é necessário para a sua entrada no princípio de Outubro, ainda que isso vos vá exigir alguns sacrifícios. Estou certo de que aceitareis esses sacrifícios com alegria pedindo a Deus que vos conceda a graça de terdes um filho sacerdote.

A permanência do vosso filho no seminário vai também custar-vos alguns sacrifícios materiais, mas vós bem sabeis que a vida tem encarecido muito e que é grande a despesa que se faz com a sustentação e educação dos seminaristas.

Como responsável da economia do seminário, venho dar-vos alguns esclarecimentos sobre este assunto e pedir a vossa atenção para o seguinte:

1º - A mensalidade a pagar é de 650$00.
… 2º, 3º, 4º, 5º e
6º- Se algum aluno, por qualquer motivo, abandonar o seminário temporária ou definitivamente, deve liquidar todas as contas antes de sair, sem o que não poderá levantar as suas coisas.

(Em anexo lista do enxoval)
…. O ecónomo auxiliar…"

Leu a carta mas não ma deu a ler e andou toda a tarde calada. À noite, quando chegou o marido, fez a leitura em alto e rematou sobre o silêncio da testa engelhada do ganha-pão da família, ignorando, fingida e inteligentemente, a minha presença:
- Já lá vai o tempo em que se estudava para padre de graça!
- Puta que pariu os padres! Tu queres lá ver?! Isso é um terço do que eu ganho! Ainda só temos dois mas mais meia dúzia deles podem acontecer que a cana ainda incha todos os dias!

E eu, sem perceber por que obra as canas ali eram chamadas, deitei para o meio dos dois um soluço e deixei ver uma lágrima que provocou incómodo no caminho que o diálogo estava a tomar.
- Ó homem deixa de falar assim à frente do pequeno! Amanhã vou falar com o padre e logo se vê! Ou descem o preço ou assim não vai! Quanto à roupa, a tua irmã Carolina, de Lisboa, está cá de férias… o Carlitos muda de roupa todos os dias, é mais gordo do que ele e há-de para lá ter muita roupa que já não usa.
Apeteceu-me fechar o assunto e falar que nem um homem “ Pronto que se lixe! Vou para toureiro ou para acordeonista!”
Mas o orgulho falou mais alto! Não suportaria assumir a desistência perante pedreiros, resineiros, criadores, taberneiros e respectivos descendentes, que há meses me atazanavam a cabeça: “ quando tu fores padre, eu sou bispo!”; “hás-de dar um lindo padre!”; “não te dou nem um mês!”; “queres ter as mulheres todas!”; “vais ser capado!”; “padre nunca!”; “ó padre nunca”.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Gostava de encontrar estes dois tipos na manifestação

"seria ridículo os portugueses aceitarem os sacrifícios que lhes estão a ser impostos sem se manifestarem nas ruas ou sem greves"... "neste contexto, a população não sair à rua, é dar a ideia de que somos um povo de molengas. Pareceríamos "parvos, ou mortos"!
Julgo que quem disse isto foi o presidente da CIP - Conferência Ipiscopal Portuguesa - ao abrigo do acordo ortográfico.

Julgo que quem referiu isto foi o ex-presidente da CIP - Confederação da Indústria Portuguesa - ao abrigo do acordo da troika apostólica.
 
No dia 1 de Outubro, dia da manifestação, gostava de encontrar estes dois tipos na manifestação, um a reinvidicar como um sacrificado e o outro a distribuir cigarros  aos desempregados. Sei de fonte segura que nenhum deles vai estar. Sei que um é Van Zeller e o outro Policarpo mas é provável que lhe troque os nomes, as funções e as citações. Sei que são citações como as deles que me dão mais força para me manifestar. Sei que ambos vão almoçar nesse dia mas eu ainda não sei se almoço. Poderão até almoçar juntos mas tenho a certeza que não os vou encontrar à mesa nem na rua!


quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Quarto 2

(Se não leu o Quarto 1 este quarto não faz sentido)A casa ficava num bairro social dos anos cinquenta mas o crescimento da cidade tinha-a envolvido a ponto do seu valor se tornar de classe média para cima; era uma das do meio dum conjunto de quatro, tinha um pequeno jardim à frente e um pequeno quintal atrás, tinha uma sala, uma cozinha e uma casa de banho no rés-do-chão e, no primeiro andar, três quartos com as três portas juntas no patamar do cimo da escada. O quarto da dona Graça dava para a frente e ocupava tanta área como os outros dois - um das filhas e o outro dos hóspedes - que davam para as traseiras.
À medida que o meu companheiro de quarto se foi afastando da vida da casa eu fui-me tornando cada vez mais da casa. Dona Graça arranjou emprego, como cozinheira, num conhecido restaurante da zona e tentava arranjar um companheiro que lhe compusesse a família.
Noite dentro, a senhoria bateu-me à porta do quarto e chamou-me ao dela para que o Zé Maria quando chegasse, como sempre fora de horas, não interrompesse a conversa a que me chamava. Sentámo-nos na beira da cama e passou-me às mãos uma revista feminina, aberta nas páginas daqueles anúncios em que as pessoas sós tentam encontrar parceiros para troca de amizade e mais não sei o quê. O escolhido, de seu nome Virgolino, estava detido no estabelecimento prisional de Paços de Ferreira e procurava uma mulher com alma.
- Ora essa, dona Graça! Se quer alma encontra em si a porta certa!
- Precisava da tua ajuda, João, para me escreveres a carta! Como sabes assino o nome e pouco mais!...
Deu-me um bloco e uma caneta e começou a ditar-me, com palavras curtas, a sua vida e a sua alma, pedindo-me ajuda aqui e acolá na forma ou no conteúdo. A cumplicidade prolongou-se além da carta em contactos e afectos que denunciavam carências mútuas e punham em contraste a minha pouca experiência e a sabedoria da senhora da minha casa. Senhora de corpo abastado de cozinheira negra, de suor africano, de – só de lembrar-me!
- Que isto não seja entendido como pagamento!
Devem ter sido das únicas palavras que se interpuseram por qualquer um de nós. Acordei de madrugada, passei-me para o meu quarto e adormeci novamente. O Zé Maria ainda acordou e resmungou:
- Que é esta merda?! Isto são horas de chegar a casa? Andas a ficar mais moina que eu ou quê?!
O presidiário respondeu e estas cartas repetiram-se durante dois ou três meses, à razão de uma por semana e, no dia seguinte, eu nunca ia às aulas.

Na próxima quarta há mais Quarto

domingo, 25 de setembro de 2011

Compro jipe usado


Em Julho o padre levou-me no seu carocha - ele de batina à época, eu com a única roupa que tinha sem remendos - ao Seminário Diocesano para fazer estágio e provas que atestassem o jeito e a verdade da minha vocação. Vi-me deitado à noite, numa camarata com mais trinta meninos que estavam ao mesmo e, pela primeira vez, senti o que era não ter mãe para aconchegar as mantas.

O edifício era quase a estrear, dinheiro de esmolas, dinheiro dos santos, dinheiro alemão, projecto alemão, desenho certo para as funções a que estava destinado, tudo pensado, para os mais pequenos, para os quase padres, para os padres, para as criadas, para as freiras, para o culto, para o estudo, para o lazer, conforto, funcionalidade, inteligência! A gente abria uma torneira e corria água vinda sei lá de onde, fria ou quente, era só escolher, adeus banhos de alguidar, adeus mãos sujas do esterco dos currais, adeus pó do pasto, adeus frio, ai tanto livro que há aqui para ler, ai tanto jogo, dois campos de futebol, ai eu tenho de passar!

E para passar tinha a meu favor ter sido o melhor da classe na minha escola - éramos só dois e o Ginado era mais virado para o gado - ser mesmo eu, e isso era importante nos testes psicotécnicos diários que fizeram durante toda a semana; ser devoto, e isso era evidente na atenção que prestava aos oradores, no modo como entoava o Pai Nosso ou erguia as mãos nas práticas religiosas que, obviamente, incluíam o tirocínio. Na entrevista final com o reitor vieram as perguntas principais:
- E diz-me lá filho, de onde te veio esta ideia de quereres ser pastor do Senhor?!
- Foram dois missionários lá à escola, gostei e fiquei com vontade de ser como eles!

Foram dois jovens felizes que falaram alegremente das missões no ultramar e que projectaram slides coloridos com fotografias da cor quente do solo  africano, com grupos de negros sorridentes ao lado de missionários brancos sorridentes, um jipe, mulheres com as mamas à mostra lavando a roupa no rio, uma capela com telhado de colmo - macacos me mordam se eu não hei-de um dia ir também para além mar anunciar a salvação!

Não lhe contei o quadro nem lhe contei que um dia, no fim da catequese, fiquei de espera a uma cachopita de outro lugar para lhe dar umas palavras e mais um beijo. Os amigos do meu lugar não me esperaram e eu tive de regressar a casa sozinho pelo pinhal. A lição do dia tivera uma ilustração do inferno com o Satanás de cornos e forquilha a picar seres metuendos em chamas. Tudo somado, o caminhar sozinho e a pensar, o pecado da luxúria, o medo de me queimarem quando morresse, fez-me lembrar que a melhor forma de me salvar e ter o Céu garantido era ir para padre.

- E quando sentiste o chamamento de Deus, meu filho?!
- Eu vinha da catequese, e lá numa curva onde existem uns carvalhos…

Esperem aí! Compro!... Mas não tenho dinheiro!!



sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A caricatura do meu país

está na Madeira!

Que levantem a mão os madeirenses que nunca a apertaram a João Jardim!
Ele é o eleito! Ele é assim! Ele foi sempre assim! Ele há-de ser sempre assim qual Gabriela!
Querem-nos fazer passar a ideia que ele é o único, que ele é o culpado, que só ele deve ser julgado, como se não soubessemos que, tal como todos os outros, sairia cantando e ilibado!
Numa coisa ele tem razão, e nessa razão reside a sua força, a comunicação social do continente é, no fundo, como a da Madeira. Assistimos nos últimos dias, nos media dominantes, a uma campanha sem escrúpulos, desinformativa, tendenciosa, mafiosa, arrogante, contra a Madeira em modos que só nos fazem lembrar João Jardim! 
Se um dia houver um tribunal que em boa hora julge todos os "Jardins" deste país, a sala não pode ser em Porto Santo porque não caberão lá todos os mochos! Jardim é apenas a caricatura e, com caricaturas, não vamos lá; são precisas as fotos tipo passe de todos os que foram estudar filosofia ou que acabaram em comentadores da situação nos media dominantes que agora descobriram a Madeira e ainda não sabem onde é a Cova da Beira!

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Regresso ao Quarto

Já todos leram um livro pela segunda vez, voltaram a ver um filme, um espectáculo, um castelo, uma novela, experimentaram pela segunda vez uma relação. Às vezes é melhor do que a primeira vez, às vezes desilude, às vezes é porque calha ou porque convém mas é sempre porque lhe deu da primeira vez algum prazer ou também porque não se encontra nada novo para fazer. E aqui estou eu à volta das palavras tentando, em vão, ter alguma coisa de novo para dizer. Só me saem rimas de desgarrada de adega: "er"... ´ão"... e só não me sai "inha" porque repeti muitas vezes as leituras de certos poetas que desrimam para acertar. Nadinha, nadão me ocorre, tantos são os estímulos, tantos os temas, tantas as razões, paixões, raivas, motivos, motivações e tão pouca é a pachorra, o espírito, o tempo!... E também o tempo, os tempos não ajudam!... Costumo dizer que perdi o estado de poesia! Inspiração?! Não! Que é isso!?  Expiração! Isso sim! Vou expirar! Não! Já expirei!
Serve a presente lengalenga para enquadrar a reposição da saga o Quarto; e os motivos são: por impulso, por conveniência, por vontade, porque apetece, para preencher um vazio, um nu, cá por coisas!... Por outras coisas vou manter os comentários da primeira edição!
Aos velhos leitores, desculpas esfarrapadas! Aos novos leitores, passem bem... por aqui, no post abaixo: (dois pontos)

Quarto 1

O quarto era arrendado, aos dois, por dois contos e duzentos a cada um, com dois banhos por semana e cama feita. Ficámos de pensar. Dona Graça fez questão de dar conta da sua situação passional, tinha um amante. Viera de Moçambique, a toque de Independência, arrastada por um colono branco septuagenário de quem tinha duas filhas. O velho morrera e eram as herdeiras que garantiam o direito ao tecto perante a demanda que a viúva branca, que nunca pusera o corpo em África, lhe movia reclamando a posse da vivenda.
As moças, de 17 e 15, a mãe de 35, tinham formas e sorrisos de fazer estremecer a mancebia de tal forma que, já na rua, Zé Maria esfregava as mãos de entusiasmo e dizia para mim:
- Para mim já está pensado, negócio feito!
O espaço exíguo para os dois, dois divãs, uma mesinha, um guarda-fatos, uma pequena mesa, uma cadeira, uma janela de poucas vistas, as paredes pintadas de vermelho…
- Eu reparei lá nisso! Paredes vermelhas? Viva o Benfica!...Viva o comunismo!
Lá abancámos a tralha e diga-se que, passada uma semana, a vida já era familiar. Ao serão jogávamos às cartas com as meninas e com o senhor Carlos que, entretanto, começou a trazer também o filho.
Um dia, o senhor Carlos presenteou com um carro Graça e foram, os cinco, desbundá-lo pela noite. Os tristes hóspedes ficaram e acordaram por volta das sete da manhã com gritos e pancadas de escândalo na porta de entrada. Fomos ao quarto dos amantes espreitar pela janela, duas mulheres possessas diziam das suas para dentro da casa e a vizinhança fazia já roda ou espreitava. Fomos abrir a porta informando com calma que estavam ao engano.
- Que não e não e não!
- Que somos apenas hóspedes e que somos os únicos seres dentro da casa e que não podemos permitir a entrada que a casa não é nossa!
Com a diplomacia possível para o caso lá conseguimos que mãe e nora partissem vencidas mas não convencidas. Talvez tivesse sido falsa a pista, talvez eles tivessem tido um acidente, talvez fossem fantasias e não cornos o que as trouxe ali.
Certo é que, do Senhor Carlos e do seu filho único nunca mais se ouviu falar. A casa virou festa, era música e mais música merengue até a polícia deixar, era a condução do Zé Maria a fazer chiar o Simca 1000 enquanto a Dona Graça não passava na carta, era a beleza da juventude, era a vida!...

domingo, 18 de setembro de 2011

Uma coisa que se me meteu na cabeça

- Que diabo de ideia que se havia de meter na cabeça do chachopo!
Pensaria minha mãe durante a lida. Para o meu pai ter um filho médico ou padre, era dos maiores orgulhos que um homem pode ter. Como para os mais pobres médico pia fino, só lhes restava o ofício dos altares em que os estudos são bem mais baratos.
- Se lá chegares, dar-te-ei a melhor charneca!
- Não! Eu quero ser missionário e vou fazer voto de pobreza.

Conversariam os dois na minha ausência:
- Que diabo de ideia que se havia de meter na cabeça do chachopo!
- Em vez de invocares o diabo devias era dar graças a Deus!
- Olha tu, agora armado em santo, há mais de cinco anos que não vais à confissão!... O rapaz tem lá feitio para padre! É um corrécio desajuizado!
- Lá por andar sempre à procura de ângulos para espreitar por baixo das saias das mulheres, isso não quer dizer que não tenha jeito para pregar! Uma coisa não impede a outra! Não lhe hão-de faltar oportunidades de molhar o bico ao prego!.. Oh!Oh! Os padres têm as mulheres todas!

Como o caso, raro na aldeia, chegasse ao conhecimento de todos e todos sem excepção já me tratassem por Padre Nunca, não restou à mãe outra coisa senão ir apresentar o menino possesso ao senhor prior.
O homem fez uma longa entrevista a mãe e filho para averiguar a autencidade da vocação e, ao fim de algum tempo, opinou sabiamente:
- Não me parece com perfil para franciscano. Um dia destes combinamos e, eu próprio, o levarei ao seminário diocesano!

O padre ficou contente. Nunca tinha tido seminaristas no seu rebanho! O contentamento expressou-se numa nota de cinquenta escudos que me enfiou no bolso ao sair.

Minha mãe começava a conformar-se, pelo menos estudaria de graça e só aquele dinheiro, já valia bem o caminho que fizeramos do monte até à igreja. E, como tinha uma unha de poeta popular, inventou logo ali uma para eu cantar, que obviamente nunca mais esqueci:

O Senhor Padre Ferreira
Pessoa de altos estudos
Perdeu o amor à carteira
E deu-me cinquenta escudos

sábado, 17 de setembro de 2011

Hay que ser rebelde

Camila Vallejo, líder estudantil chilena, foi-me apresentada pelo Samuel Cantigueiro. No "bons tempos hein" conheci esta bonita homenagem:


Para que mais gente a conheça, deixo aqui o meu tributo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O Sapo surpreende

Parece que Passos Coelho andou lá para a Prússia e saiu-se com uma tão original que o portal Sapo fez dela destaque para o tema Crise: "A Europa tem de falar a uma só voz".
Não perceberam os "sapos" que o que ele queria dizer era: "Na Europa tem de falar uma só voz". Referia-se obviamente à sua senhora Merkel que já fala como se a Alemanha não tivesse perdido a guerra. Assim, como tão bem poliu o amigo maceta da Caixa de Pregos:
Vergou-se à Ângela!? Vá à merkel!

domingo, 4 de setembro de 2011

A Festa

A festa da minha aldeia não era igual às festas das outras aldeias. Primeiro, porque não tinha santo. Existia no largo um nicho que era enfeitado pela ocasião, tinha um Cristo crucificado de latão mas ninguém lhe ligava patavina. Depois, a festa era num dia de semana, coisa rara e estranha. Finalmente, a festa era diferente de todas as outras porque diferentes eram as gentes da minha terra. E, por estas coisas, muita gente havia das redondezas que tirava o dia para por lá foliar.

Do programa das festas não constava quermesse, banda filarmónica, procissão, leilão mas existiam sempre originalidades e bailes que chegaram a determinar a alguns mordomos a excomunhão. Julgo que o que determinava a diferença era o empenho de todos, a organização, a boa disposição e a empatia que enfeitavam o arraial.

Durante o ano inteiro discutia-se e comentava-se a festa do ano anterior e discutia-se e projectava-se a festa seguinte, à lareira, nos campos ou nas tabernas, como se a festa fosse em si mesma uma tarefa familiar com um fim, como a colheita do milho, a vindima ou a matança do porco. E eu, como os demais, desde pequeno que me fui fazendo aos meus papéis porque para todos havia o seu lugar. As crianças varriam os recintos e corriam em recados, os burros iam buscar a verdura das acácias para enfeitar as ruas, as raparigas faziam as flores de papel, os rapazes espalhavam os cartazes, as mulheres tratavam da comida, os homens erguiam palcos e vedações, as velhas zelavam pelas tradições, os velhos trespassavam artes.

Mas foi no tempo em que eu tive idade para ser mordomo que a festa se transformou.

Entusiasmados pelo crescente sucesso da festa mudámos a data para o fim de semana e, ano após ano, começámos a edificar estruturas permanentes, a contratar serviços, a entregar explorações e até a arranjar um espaço de programa para o prior fazer das suas.
Ao fim de alguns anos a festa ganhou dimensões muito maiores que a própria aldeia, a televisão descobriu-a e filmou-lhe as diferenças. A exposição mediática ditou o meu afastamento. Começaram a vir pessoas que não tinham por razão de vir o convívio são, com gente tão boa, a conversa com o velho que fazia os balões de ar quente, o programa cultural ou o vinho da terra e, pior do que isso, começaram a ser a grande maioria. Vinham, porque tinham visto na televisão e, quem sabe, podiam também eles ser vistos ou pelo menos, se voltassem a ver poderiam dizer que tinham lá estado.

É difícil explicar aos amigos que me afastei da festa porque já não dá trabalho, porque já tem missa, porque tem muita gente e que dar na televisão tira-lhe força.

A este propósito vale a pena ler uma conhecida crónica de um conhecido autor que nunca fez uma festa mas gostou duma.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Um vulcão na Festa do Avante


Amanhã, sábado, vai estar na Festa do Avante o Vulcão Mayra Andrade.
Conheci Mayra Andrade por acaso. Estava por acaso em Porto Covo e por acaso, numa noite de Verão, vi-me no Festival de Músicas do Mundo. Surpreendido pela revelação, enquanto a ouvia, segredei à minha filha de dez anos:
- Ouve e vive este momento, vais ouvir falar muito desta mulher ao longo da tua vida!
E na continuação da nossa vida temos ouvido muito a sua música e nunca mais esquecemos aquela noite.
A noite em que conhecemos Mayra Andrade e em que nos roubaram a estrela do Mercedes.
Vinhamos a sair do festival e, ao chegar ao carro, constatámos que lhe/nos faltava a estrela. O GNR circunstante apercebeu-se da minha exaltação e abeirou-se averiguador:

- Deixe lá homem! São jovens! Fazem colecção!
- O Senhor guarda não percebe?! Eu preferia que me tivessem levado o carro e me tivessem deixado a estrela aqui no chão!
O guarda deu meia volta - provavelmente ia buscar o balão. Ao longe ainda lhe gritei:
- Ó senhor guarda! Eu só tenho um Mercedes por acaso!
Gostar das estrelas dos Mercedes e de Mayra Andrade não é o meu maior pecado, o meu maior pecado é não ter carro para ir à Festa do Avante!

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Do amigo da loucura lúcida

Tive um amigo que assinava Nuno Albuquerque. Já aqui falei dele. Ontem fui à terra e deram-me notícias dele: ninguém sabe dele mas todos dizem que deve ter enlouquecido de vez. Porque a ele lhe devo alguma da loucura que tenho, transcrevo um texto, dos poucos que me legou e que, por loucuras várias, ainda guardo.

5 para as 3 da manhã do dia 21 de Outubro de 1982
Carta aos irmãos
Quem me chama? És tu lua inventada nas correntes que o meu peito estala com a facilidade dum Super-homem.
Chamam-me cínico pois a fera procura macular o último reduto.
Escrevo para resistir à mágoa, mas não vou parar esta luta para a glória.
Dentro de mim há a força do caos e procurarei não desiludir os apostadores porcos e pérfidos. Odeio os apostadores e a mim só me resta o que veio no meu encalce a buscar aquele puto que as mulheres anseiam mas têm vergonha de exigir. Combato e participo da verdade daquele génio que às tantas da madrugada sangrou na crucificação mais terrível dos últimos tempos.

A vingança é a arma dos sãos e a mentira a ponta da lança a matar os traidores. O Partido será fundado sobre o cadáver do Rei. Este relógio de bolso marca o tempo da solidão que a minha cabeça, transformada em insónia pesada, levanta ao ar para proclamar a ironia - o modelo a seguir por aqueles putos a transbordar de loucura e raiva. A mim putos brancos - darei-vos a vitória destas mãos traídas mas puras. Aquele pénis revelou o segredo e tu choraste por não teres a pistola apontada à sereia. Escrever Escrever até ao infinito desta Terra a pedir chuva e não parar os cavalos nas tabernas saloias que na sua insignificância geram a mesquinhez a inveja e a tragédia deste País a abarrotar de clérigos burros.

Paro para me deitar e ir bater com a cabeça na almofada e rebolar na exiguidade da cama onde trabalhando a Razão me aproximarei de ti Senhor doente que irás rezar ao espírito de um povo o porquê da tortura e dos processos abertos - (tem piada que mais tarde serão revistos) e então muitas cabeças rolarão no asfalto e na praça pública desejando nunca terem nascido - Adiante Adiante Adiante - Vou fumar um cigarro poderoso e assassino. Adeus irmãos até à próxima carta.
Viva o Rei ---- Viva o Rei----

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Dá-lhe gás! Dá-lhe água! Dá-lhe!

Um aumento de gás e água de 283% de imposto cego?!

Como?! - Eu explico! Ou melhor, o Anónimo  tem explicado!
Eles dizem que a taxa de IVA sobre a água e sobre o gás vai aumentar de 6% para 23% (isto se os 23 não passarem para 25!) e nós comemos: um aumento de 17%, portanto!
Porquê então falar em 283%?! Façamos contas: sobre um consumo de 10 euros, nós pagávamos 60 cêntimos - sobre os mesmos 10 euros vamos começar a pagar 230 cêntimos - mais 170 cêntimos, portanto!
170/60 corresponde a 283%! Isto é, não nos comam por tolos, a receita arrecadada em imposto não corresponde a mais 17% mas sim a mais 283% da que antes era arrecadada! Isto, salvaguardando, é claro, o aumento do consumo da lenha, da cêra, do vinho e da fuga aos impostos por embriaguês!

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Leitão da Quinta

Não comentem! Isto é só mesmo para cumprir calendário! O Rei está impávido, pálido, inquieto e sereno!
O Povo está impávido, pálido, inquieto e sereno! O Povo não diz nada mas ouve-se tão bem! Também, a mim, não me apetece dizer nada! Perdi o discurso, a opinião, o estado de poesia mas não perdi a voz! Um dia destes ainda vou dizer das minhas e quem sabe, o Povo volte a construir um mês...

domingo, 7 de agosto de 2011

Quando a asae nasce, nasce para todos

Não gosto da asae. Age com exibicionismo, brutalmente e irracionalmente. Foi na asae que foi descoberto um critério de avaliação que premiava os funcionários que conseguissem fechar mais estabelecimentos!...

Aqui na pocilga quando matamos um porco, entra cada facada, cada cortadela ou cada garfada, há sempre alguém a dizer: olhem se viesse aqui a asae?! Troçamos de quem usa faca e garfo, faz-nos impressão que exista gente que toma banho todos os dias e custa-nos a acreditar que alguém limpe os beiços ou o rabo com papel.
E ...
Acontece que, falando em linguagem ordinária, trata-se do cúmulo ideológico da discriminação, do fim do streap-tease de intenções deste governo! Estes tipos só pensam nos pobres! Porque raio hão-de resguardar essas instituições da fúria da asae?! E os outros, os restaurantes que pagam impostos e criam riqueza, vão ter de continuar sujeitos  ao "fascismo higiénico"?!... 

A não ser que o trabalho da asae seja mesmo sério  e se passe o contrário, que se dispensem os pobres da segurança e da higiene alimentar, nesse caso, acho que deveria haver uma demissão de emergência! Isto apesar de eu não lavar as mãos antes de ir para a mesa!

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Leitão da Quinta

Meus senhores, minhas senhoras, amigos, companheiros e camaradas, estou farto disto!
Farto de quê!? Das férias?! Não! Eu não nasci para trabalhar mas para viver! De Portugal?! Da Vida?! Do Mundo?! Não! Eu gosto de viver em Portugal e de sentir que Portugal faz parte do Mundo!...
Estou farto da blogosfera?! Não! Não troco os meus blogues por qualquer jornal ou folhetim paroquial e os meus Amigos "blogueres", são tão grandes como outros amigos daqui e dacolá, disto e daquilo, são Amigos!...
Estou farto das notícias, do país, da crise, da situação, da conjuntura, das declarações, dos comentários, dos comentadores, dos especialistas, dos analistas, do descaramento, da afronta, da provocação, das soluções, das inevitabilidades, das medidas, das soluções, dos  cortes,  dos despedimentos, da pobreza, da caridade,  dos aumentos, das diminuições, dos índices, das taxas, dos números, dos aumentos, das descidas, das subidas, da merda em que isto se tornou!...
Estou também farto de me chamarem utente, utilizador, cliente, consumidor, colaborador, pessoa, cidadão, português, abusando da minha condição, decidindo e falando em meu nome, e deixando nas entrelinhas que eu, privilegiado, malandro, tenho de pagar!...
Mas em resumo digo, estou farto! Abusando um pouco, estamos fartos!...
Mas não resignados! Privatizem a puta que os pariu! Vendam as estradas, as pontes e as fontes! Façam dos Jerónimos um centro comercial e do mosteiro da Batalha uma casa delas! Que seja heresia o termo "serviço público"! Que a Nação  não tenha nada Nacional! Que concorram ao governo - se não é isso que já está a acontecer - grupos económicos e que se entregue o governo e a assembleia a grupos privados! Grupo Amorim - 10 deputados! Grupo Belmiro - 7 deputados! Grupo Balsemão - PSD! Grupo Mota-Engil - PS! Lobbie Gay - CDS!
E depois, só para justificar a democracia, um activista de esquerda vai à televisão fazer umas declarações, no enquadramento que se achar mais desajeitado, acerca de uns trabalhadores que julgavam que a fábrica ia durar sempre!...
Isto são outros tempos!
Talvez sejam! Mas contra rumos, rimas e marés, este blogue não dobra! Contra todos os Passos! Anuncio-vos a nacionalização deste Blogue! Porque este blogue é um serviço público, este blogue passa a ser, a partir de hoje, propriedade do Estado! 
Estou farto disto?! Eu estou de férias!... Mas estou farto disto!... É natural que a partir de agora, em vez de andar por aqui a partir destas, começe a andar por aí a partir de outras!
Rei da Nação, Nacionalizado, Não Resignado!

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Leitão da Quinta

Já me tinha esquecido que era quinta, julgava que era sábado. Sou um sujeito de compromissos banais. Comprometi-me em dar leitão à quinta e todas as quintas aqui estarei com porco.
Ah! Pois!... Depois do "e tudo o vento levou", este filme deve ser dos mais conhecidos entre nós. Veio-me parar aqui de outros tempos deste reino. O argumento é este: dinossauros da política?!
Visto de dentro, da direita para a esquerda, Cavaco, Passos e eu. Com que então dinossauros?! E que dizer daquele rei que come cebolas ao pequeno almoço?!

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Suspensão da avaliação dos professores

Cá por coisas, nunca foi meu hábito falar por aqui de educação. Mas, porque me deslizei na mensagem anterior, porque sinto um silêncio ensurdecedor, vou escrever.
Há pouco mais de dois meses a votação parlamentar de projectos parlamentares pela suspensão do actual modelo de avaliação de desempenho de professores, deu tema aos jornais, fez desfilar a boca de comentadores, entusiasmou blogues do ramo e até foi discutido em cafés e em salas de professores.
Hoje,  sobre a votação de diplomas idênticos, em situações idênticas, paira um silêncio suspeito! Idênticas, quer dizer, o governo já não é o mesmo e, pior que isso, já nem há sinais dos tradicionais opinadores. No parlamento foi assiml:
- O PCP, igual a si próprio, adaptou às circunstâncias um novo diploma e desmascarou o PSD.
- O BE, como é seu hábito, pegou na iniciativa do PCP e acenou aos media.
- O PS, com sentido histórico, deixou claro que continua a não ir com os professores.
- O CDS, à sua maneira, desenfiou um nim para não desagradar ao noivo.
- O PSD, igual a si mesmo, confirmou que ganhou o jeito de desdizer o que dizia há meses.
Para os que votaram contra e para os conformados do senso comum, o argumento é que estamos no fim e já vem aí outro modelo para avaliar os malandros dos professores. E fico com o exemplo de Santana Castilho que é mais ou menos assim: "se a receita está errada é sempre um erro tomar a dose até ao fim".

domingo, 24 de julho de 2011

Relatório de auto-avaliação preenchido

Professores não querem ir para férias sem fazer o seu relatório de auto-avaliação.
Não tenho uma boa notícia mas tenho um bom e-mail que recebi:

Pessoal, tenham calma, passem o fim de semana como se não fossem professores, não entrem em paranóia, não se enervem com a elaboração do relatório de auto-avaliação. Na próxima quarta-feira, 27 de Julho, vai ser votado na Assembleia da República o diploma do PCP pela suspensão do modelo de avaliação dos professores e, contrariamente ao que muitos dizem, pode ser que o PSD não seja igual ao PS e mantenha a posição que tinha há três meses atrás.
O relator


sexta-feira, 22 de julho de 2011

Cimeira do Euro

- Querido, hoje fui ao mercado e ganhei 10 euros!
- Vendeste o cão?!
- Não! Comprei uma saia por 20 euros que a semana passada custava 30!
- Ora! Tu devias era usar calças!... Como os homens!
E isto tudo por causa de uma notícia que avançava que Portugal ganhou hoje não sei quantos milhões porque os juros desceram não sei quantas décimas!...

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Leitão da Quinta

Neste tempo em que os porcos triunfam deitando sobre as nossas vidas os seus dejectos, que o povo derrame sobre eles a sua sabedoria e os engorde para depois, os sangrar!!!....
Ghibli
A cada porco o seu ditado:
Porco fresco e vinho novo, cristão morto.
Porco magro é que suja a água.
Porco que tem fome, sonha com bolota.
Porco rabão nunca enganou o patrão.
Porco safio, porco de brio.
Porco velho não se coça em pé de espinho.
Porcos com fome, homens com vinho, fazem grande ruído.
Porco fiado todo o ano grunhe.
Porca de um ano, cabra de um mês, e mulher dos dezoito aos vinte e três.
Em Janeiro, um Porco ao sol e outro ao fumeiro.
Morto por morto, antes a velha que o porco.
Mulher que assobia, ou capa porcos ou atraiçoa o marido.
Quem com farelos se mistura, porcos o comem.
Quem com porcos sonha, até o mato lhe ronca.

Ainda a  propósito dos que nos governam:
"Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas, para não acontecer que as calquem aos pés e, voltando-se, vos despedacem." (Mt 7:6)

terça-feira, 19 de julho de 2011

Lembrei-me de Torga

Lembrei-me agora que não me lembra a primeira vez que ouvi falar de Miguel Torga. Mas lembrei-me dele e...

Tive, no liceu, um professor de Português, residente em Coimbra, que se aventurou a conseguir de Miguel Torga uma entrevista cujo fim era fazê-la ouvir aos seus alunos.
E lá estou eu tão perto de Torga, de ouvido esticado, a tentar perceber do som fanhoso da cassete rasca, umas ideias – já mais que carcomidas pelos anos – acerca do lugar de um Deus incerto, numa certa existência, enfim, coisas que nos interessam tanto na adolescência. Ficou pelo menos a recordação do episódio, a proximidade e dedicação exclusiva dos trinta minutos do Poeta para uns trinta da turma – para o caso convém acreditar que o bom professor teria só uma turma – e uma simpatia continuada pelo nome impresso Miguel Torga.

Já nem vou falar pelas passagens na Portagem de Coimbra – sítio onde devo já ter passado em todas as horas das vinte e quatro que têm os nossos dias – em que havia tantas vezes uma voz mais poeta, pacata ou etilizada que dizia:
- Olha! Aquela é a janela do consultório do Miguel Torga!

Anos mais tarde, um amigo, missionário jesuíta em Moçambique, pediu-me a mim e à 4L para o acompanhar na recolha de uma encomenda nas oficinas da diocesana Gráfica de Coimbra. O padre gestor conhecera-o em Maputo e a caridade dera-lhe para a oferta dos títulos de direito que quisesse para enriquecer a biblioteca do colégio africano. Confessou-me, o amigo, que era na formação da advocacia a sua aposta, por ser a de mais interesse na desejável ligação da Igreja à coisa política.
E lá entrámos nós oficina adentro,
- Podem levar os que quiserem desde que não estejam em paletes completas!
Nunca na minha vida havia estado no meio de tanto livro e tragédia maior nenhum do meu interesse. Minto, de encadernação modesta, capa branca, “Miguel Torga – DIÁRIO – XII – 3ª edição revista – Coimbra”, aos montes.
Era a oportunidade de fazer a cobrança do meu frete, os amortecedores de traz em baixo, mas pelo menos seis exemplares não os poupei aos padres, por direito!
Serviram-me para oferecer de mão beijada quatro e tenho agora dois, acabo de verificar. Dois filhos. Pelo menos aí não deve haver contenda na divisão da herança! Como eu me orgulho deste roubo!

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Se quisermos podemos voar



- Quem é que mandou o avião de papel?!
Quem nunca foi autor visado pela professora por um arremesso destes, nunca andou na escola! Todos nós já sonhámos uma vez durante o sono que voávamos. É humano o desejo de voar.
“… que distante vai o tempo em que João Baptista Torto, enfermeiro, barbeiro e sangrador se lança para o ar e… para a morte, da torre da sé de Viseu, com dois pares de asas presas ao corpo. Foi há aproximadamente 400 anos.”
“… numa longa série de pioneiros da navegação aérea, costuma encabeçar a lista o padre português Bartolomeu Lourenço de Gusmão que, a 8 de Agosto de 1709, conseguiu elevar-se de uma passarola, numa experiência realizada em Lisboa”
E outros, por esse mundo fora, foram insistindo até aos dias de hoje.
Afinal não se conseguiu voar a bater asas, o Zeppelin falhou  mas o céu está cheio de aviões.
É por isso que eu continuo a acreditar numa sociedade socialista! A minha dúvida é:
-Poderá este texto ser um avião de papel?!

Portugal vai de tratorinha, tiraram-lhe as rodas e tentam convencer-nos que vamos andar! Conseguiremos pôr isto a voar.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Leitão da Quinta

Depois de ler isto, não conclua que me falta um parafuso mas sim uma porca.

Estou farto disto! Não me apetece escrever! A web transborda de palavras e imagens! O facebook, tenho dito, é uma espécie de grande superfície comercial que abafou as tabernas e merceerias da blogosfera! Já não se trata de não poder competir, a verdade é que tenho a sensação de não ter nada para vender e, muito menos, para dar! Toda a gente bota sentença e opinião e eu transformei-me numa espécie de D. Duarte de Bragança destes espaços, com pose e graça mas sem trono e sem reino.

Estou em estado blogo-depressivo. Tenho um profundo respeito e admiração por toda a corte, a perfeita conciência que os tempos que correm é dos porcos que rodopiam à nossa volta, razão determinante para continuar.

Rei dos Leittões! Na verdade, leitão é o meu prato preferido mas longe de mim, o apetite ser motivo eloquente para determinar um título tão popularucho!

Eu levava a lavagem, tirava o esterco, punha mato e pegava com valentia de forcado o porco quando era para capar ou para matar.
A nossa casa não era casa de lavrador de parelhas, além das quatro ovelhas, só tínhamos mesmo a porca.
A porca, se não adoecesse e eu tivesse que lhe abrir a cova, era assunto em que eu me fazia homem!
Levar a porca, para vender os bácoros, até aos 12. A minha mãe com uma saca de milho e um baraço atado à perna traseira da mãe suína e eu, atrás, com uma verga na ninhada! E quando vinha um carro?!... O desembaraço para arredar caminho, tinha que ser rápido que o homem era de outra condição!

Depois, no largo, a mãe deixava as deixas de preço e o "vem já" e ia fazer a sua volta. E eu ficava ali crescendo com a feira, convencido que o meu futuro passaria sempre por ali. Creio que cheguei, eu próprio, a vender os bácoros, talvez um tio por perto tivesse vindo acertar ofertas, quase sempre e naturalmente a minha mãe fechava. Mesmo que fosse só a porca-mãe, por bom negócio, que voltasse casa, a estrada de regresso era um tormento – fosse um burro e bastaria um arre para que ele compreendesse o alívio que é retornar ao lar.

Vem daqui a minha proximidade com os leitões. Depois, a simpatia especial por aqueles labutadores de churrasco que se auto-coroam Reis.

Rei dos Leittões só com um t?! Não dois tês:
O Google, a princípio, incrédulo, perguntava - será que quereria dizer Rei dos Leitões?
Agora já não! Já se habituou! Experimentem! Esta é a prova de que este blog até o poderoso motor do Google dobrou!
Se o leitor é amigo, estará ainda a correr o scroll lock e a pensar com o seu dedinho rolante -onde é que isto vai parar?? Se tem como intento um fim, evita de continuar! Faça-me um obséquio, deixe um comentário com o texto “fui dos tais” – deste modo poderei quantificar os que passaram muito além da quinta linha!

A minha saudosa mãe tomou sempre como rumo para os seus filhos, um futuro com comida. Como poderia ter sonhado, que o facto de me ter delegado parte da responsabilidade da suinicultura, teria dado origem a tão intelecta reflexão sobre a génese e existência dum blogue! Talvez seja mesmo a comida que nos faz banais!
Hoje comi mesmo bem!... Comi leitão!
Serve este post para mostrar que, não sendo possível, um porco andar de bicicleta, pode andar na corda bamba! Que farei com este blogue!? Olhem, vou cagueando!


domingo, 10 de julho de 2011

Como eles me põem

Eu creio na transmigração das almas
por isto de Eu viver aqui em Portugal.
Mas eu não me lembro o mal que fiz
durante o Meu avatar de burguês.
Oh! Se eu soubesse que o Inferno
não era como os padres mo diziam:
uma fornalha de nunca se morrer...
mas sim um Jardim da Europa
à beira-mar plantado...
Eu teria tido certamente mais juízo,
teria sido até o mártir São Sebastião!
E inda há quem faça propaganda disto:
a pátria onde Camões morreu de fome
e onde todos enchem a barriga de Camões!
Se ao menos isto tudo se passasse
numa Terra de mulheres bonitas!
Mas as mulheres portuguesas
são a minha impotência!

in Cena do Ódio - Almada Negreiros

lembrei-me daquela:
- o que pensa do Almada-Negreiros?
- X

sábado, 9 de julho de 2011

Eles são inteligentes

A melhor maneira de acabar com o desemprego é facilitar os despedimentos e pôr os desempregados a trabalhar.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Leitão da Quinta

O porco faz esterco, o esterco é fertilizante. Podiam-nos ter chamado esterco em vez de lixo. Só há uma solução, obrigar os porcos a comer o lixo e depois pô-los a fazer esterco.

Seguidamente, comê-los a todos para acabar com a merda.

E, finalmente...
Acabar com eles!

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Como eles resolveram o problema

Cortaram vencimentos, subsídios e aumentaram os impostos. Criaram um governo de maioria e muito liberal. Seguidamente, novamente, cortaram os vencimentos, subsídios e aumentaram os impostos e, finalmente, os mercados acalmaram!...

terça-feira, 5 de julho de 2011

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O ponto de vista deles

Se as pessoas deram cabo da sua saúde com abusos alimentares, a resposta médica não cabe ao Serviço Nacional de Saúde.

domingo, 3 de julho de 2011

Olha para eles

Ainda mantêm o ar de quem estreou um carro novo, ainda estão na fase de o molhar com os jornalistas e, para já, só tomam medidas. Não querem tomar mais nada?!

sexta-feira, 1 de julho de 2011

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Leitão da Quinta

Bem podem os anónimos, silvas, manuéis e outros perfis estranhos tentar golpes palacianos! Bem pode o facebook-caralivro tentar "belmirizar" o ciberespaço! Bem podem os fantasmas de santa comba erguer-se da tumba entusiasmados pelo renascer da direita necrófaga! O Rei e a Corte continuarão serenos, reinando com a situação, cortanto a torto e a direito em prol da revolução! Aporcalharemos os cavalos selvagens da  nobreza e cavalgaremos os porcos capitalistas! Na Grécia a revolução já começou! Viva o meu cão Loukanikos e a minha amada que faz hoje anos de casada e anda armada! Não tem piada mas rima! Não sou eu que estou em baixo nem ela que está em cima! Viva o programa da troika, o programa do governo, o programa do Manuel Luís Goucha, o programa das festas, o programa do verão! Hoje é quinta de Leitão!...

terça-feira, 28 de junho de 2011

Fabrico de terços

Terços daqueles de rezar! Para quem não percebe porque deles rezo, lembro Maria do Rosário, aquela com quem, ainda há poucos dias, estabeleci conversa na sequência duma reclamação de uma "santa" adquirida na sua loja. Pois outras coisas ela me contou sobre o fabrico de artigos religiosos e, entre elas esta, curiosa, que não resisto a contar:

Crescia Fátima nos salazarentos anos trinta, já a Fé em milagres do Céu fazia milagres comerciais de vendas de santinhos, de água, de vinhos e enchidos quando um pastor, pouco pastorinho, começou para lá a caminhar em dias de ajuntamento, para vender os seus terços artesanais. Eram feitos de caroços de azeitona, que era o que por ali mais havia  além de pedras e pobreza. A mulher aos serões esburacava as "contas", uma a uma, com uma sovela e ele durante o dia encadeava o arame nos terços.
- Mas um terço feito de caroços de azeitona não seria muito agradável à vista?!
- Para os fazerem brancos, davam os caroços a comer às ovelhas para que a passagem pelos seus intestinos os fizessem brancos. No outro dia era só pôr a criançada  a dissecar caganitas e o produto estava revestido de um branco imaculado.

E foi assim que começou por aqui a indústria de produtos religiosos. Um dia o pastor já entusiasmado pelo sucesso do negócio foi a Lisboa, descobriu bolinhas de vidro da Marinha Grande já com o furo feito e tudo, e então aí,  foi um ver se te avias até aos nossos dias.

sábado, 25 de junho de 2011

É um descontentamento inconsequente?

De facto, devo ter nascido há muito mais tempo. É que, embora compreenda e sofra as inquietações desta juventude, não consigo compreender como querem ter uma palavra a dizer nas decisões, colocando de parte o direito de votar, rejeitando os partidos ou a hipótese de constituirem um novo, emigrando. Pois é, já houve tempos em que a malta não podia votar nem constituir organizações de carácter político! A memória é importante!
Penetrem nos partidos, mudem-nos por dentro, criem partidos novos, inventem, participem, votem porque se é verdade que a democracia é muito mais que partidos e eleições, não será menos verdade que sem partidos e sem eleitos dificilmente existirá democracia.
Bom filme com boas rimas:

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Leitão da Quinta

Vamos voltar ao Rei do Leittões com uma "repostagem", para ver se a malta me volta a tratar por Majestade e o reino se endireita porque, também aqui, a coisa está a ficar torta. Doravante haverá Leitão à Quinta - só por compromisso consigo dar de comer ao blogue!
Comam então que hoje o Leitão é de porco engordado, daquele que é capaz de fazer festa e alimentar uma parte da aldeia em dia de matança.


A primeira matança da minha memória conta-se assim:
Era Janeiro, mês em que o frio da França devolvia os emigrantes à terra, época em que nada havia para fazer com a terra, tempo em que o frio melhor conservava as carnes, altura certa para fazer a matança do porco que já estava mais que gordo.

Mal me levantei, comecei a seguir todos os passos do homem que era meu pai, empenhado em demonstrar-lhe que para homem também eu caminhava. Não tardou muito a chegada das pessoas mais chegadas para fazer o sacrifício.

João vai à barraca buscar 4 pregos e o martelo para fazermos a banca com estas duas tábuas e dois cepos / Vai buscar um balde de água para lavar as tábuas que estão cheias de teias / Bom dia Joãozito, hoje levantaste-te cedo / És tu que vais pegar o porco / Vai buscar a corda da burra para atar uma perna ao porco / Tens medo / Sai daí João que o porco ainda te morde / João vai chamar a mãe para trazer o alguidar para aparar o sangue / Tiveste medo / João vai buscar umas macheias de agulhas à meda e fósforos à cozinha / Vai buscar a forquilha velha que a nova não se põe no fogo porque destempera / Segura aqui com a sachola esta pata para chamuscar o lado debaixo da perna / Filho vai à adega encher o jarro e traz um copo para o pessoal / João vai à eira velha que há por lá uns pedaços de telhas de canudo para raspar o bicho / João agarra aqui nas unhas a ver se estão quentes / Pesava mais do que tu ó cachopo / João vai buscar mais agulhas / Vai buscar mais água à tina / João despeja aqui água nesta orelha / Despeja aqui na pata / João dá mais um copo ao pessoal / Segura aqui nas patas da frente João para começar a abrir o animal / O pessoal está com sede João / Vai buscar um baraço para lhe atar o cu / Vai chamar a mãe para trazer a água quente para escaldar a língua / Se queres saber como é o teu corpo olha aqui para o porco / Toma lá a bexiga que eu daqui a bocado faço-te uma bola / Olha que a malta está com sede João / Vai à barraca buscar o chambaril / Tu não o ajudas a levar que ele é pesado para ti / João vou agarrar-te ao colo e enfias ali a corda para pendurarmos o morto / Vai buscar um alguidar para o sangue escorrer / Agarra aqui nesta pata para sacarmos as tripas / Agarra o alguidar desse lado / Agarra aqui no fígado / Agarra aqui a ver se eu deixo / Vai buscar uma cana para manter o peito aberto / Dá um copo ao pessoal não vês que o pessoal está com sede / Os homens vão comer a bucha mas tu João vais com as mulheres ao ribeiro lavar as tripas que pode ser preciso alguma coisa….

À noite toda a gente se reuniu novamente para comer a cacholada. Comentou-se animadamente à mesa a criancinha que eu era.
- Ó João, pró ano já estarás com idade de ajudares e poderes fazer alguma coisa!
- E se fossem todos pró carvalho!?
E assim acabou valentemente o dia da primeira matança da minha memória com um valente estalo do homem que era meu pai.

terça-feira, 21 de junho de 2011

nós-eu-euro-europa

A Troika Labrega do Kaos
Um pouco mais de europa – somos nada,
Um pouco mais de espanha – somos ninguém
Para atingir, votámos em cambada
Se ao menos soubéssemos votar bem...
Pegar ou largar? Em vão... perdemos cota
Numa grande europa virada a outros mundos;
E o grande país afundado em fundos,
O grande país - ó mar! - quase europa...
Quase o progresso, quase a porta e a panaceia,
Quase o princípio e o fim - quase a salvação...
Mas no meu país tudo se remedeia...
Entanto tudo não passou duma ilusão!
De tudo houve marca UE ... e tudo aproveitou...
- Ai o desejo de ser - quase, igual aos alemães...
Nós falhámos entre nós, falhámos por vinténs,
Terra que não parou mas não avançou...
Anos de esperança que, desbaratámos...
Cidadanias que sonhámos alcançar...
Direitos que perdemos sem os experimentar...
Tratados que nos trataram e não votámos...
Desse continente, encontro só imagens...
Terras do interior – vejo-as defraudadas;
E carteiras de políticos, sujas, recheadas,
Passou o argumento de que eram só vantagens...
Numa esperança imberbe acreditando em tanto,
Tudo construímos sem pensar pra quê...
Hoje, resta-nos o betão do desencanto
Das coisas que de tão grandes ninguém vê...
Um pouco mais de europa – somos nada,
Um pouco mais de espanha – somos ninguém
Para atingir, votámos em cambada
Se ao menos tivessemos agora votado bem...

Não é necessário lembrarem-me que não chego aos calcanhares de Mário de Sá Carneiro!
E eu quero por força ser burro...Que a um porco nada se recusa!!

domingo, 19 de junho de 2011

Terra do Não

- Lembras-te irmão, de quando eras flor...
e chamavam por ti e não respondias,
pela simples razão de que as flores não falam nem ouvem?
- Ah, agora eu compreendo:
o pai nunca mais cortou as uvas
desde que a mãe morreu!
De então para cá:
eu fui a Primavera do Sol desonrada
com a putez impotente do avô materno,
eu fui o Verão frio nas praias do mal,
o Outono assassino da tal lucidez...
e vem aí o Inverno,
e eu ainda não acredito no Natal...
- Não! Da vingança humilde aos cornos de marfim
e das rosas que deixei cair, não me arrependo!
- Quem pode acreditar,
que no sangue do amor navegue o ópio,
ou que na seiva das plantas o Sol se esconda para dormir a Noite?

- Eis-me chegado à Terra do Não.
Traído dei por mim no mar turbulento da civilização,
e naufraguei aqui,
Terra do Não...
- Aguardando a chegada de algas marinhas,
morrendo de mão dadas aqui,
Terra do Não...

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Para a praia e em força

A empresa da ponte declarou insolvência e a obra está parada. No resto do terreno não se calam os cilindros, caterpillos, giratórias, escavadores,  camionetas. São seis da madrugada. Não dormi nada por solidariedade com os trabalhadores da estrada.  Estão a trabalhar vinte e quatro horas por dia como se fosse uma festa. É uma alegria! Estou grato por estarem a fazer uma estrada à minha porta, no lugar onde antes era a minha horta. Vai servir-nos para chegarmos mais depressa à praia.
Só não percebo porque tem de ser feita tão depressa. Têm pressa de ter falta de trabalho?! Têm medo de haver falta de dinheiro?! A falta da estrada não é assim tanta e já não vai servir esta época balnear!
E para a seguinte vamos lá ver como estará o preço do gasóleo e se não haverá já portagens nos caminhos de cabras.
Vá lá, aguentem os motores, prolonguem o emprego, arrastem o capital! Dormir é um dever e um direito! Temos tempo!

terça-feira, 14 de junho de 2011

Mais um milagre de Fátima

A minha tia foi menina, rapariga, solteirinha, solteirona e agora é beata demais para poder vir a ser santa. Porque respeito muita a sua devoção à Virgem, na preparação da viagem do passado fim-de-semana à Terrinha, passei por Fátima e comprei-lhe uma santa.

Entrei na loja e senti-me intimidado pelo olhar multiplicado das santas multiplicadas, intimidação essa, reforçada pela abordagem da lojista que, ao dirigir-me a palavra em tom de freira, recebeu a minha seca amabilidade:
- Que virgem desejais senhor?!
- Com menos de meio metro e luminosa! É para a minha tia que já está de pés para o Céu e vê muito mal!
- Escolha daqui!
- Mas são todas iguais!?
- Nesse caso tem a escolha facilitada!
- Já estão benzidas?!
Sorriu por me ter descoberto o grau de prática religiosa; é obvio que ninguém vende objectos religiosos já benzidos! Essa operação fica ao cuidado de cada um e foi coisa que, pela pressa, não consumei mas que fiz questão de ocultar à minha tia que também me tem ocultado, com esperteza de sacristia, as contas bancárias e outros bens que aguardo para um dia.

- Tia! Trago-lhe uma prenda! Olhe só para este olhar!... Benzida pelo cardeal de Cracóvia que esteve esta semana em Fátima!

Quando no domingo voltei à casa para engraxar a despedida, estava a velha com toda a velha vizinhança, debitando o terço à volta da imagem colocada em cima de uma mesa na varanda virada ao sol. A minha chegada interrompeu o mistério e disse a minha tia:
- Filho, a santa chora!
- Nesse caso devolvê-la-ei! Ainda está na garantia!
- Cala-te homem do diabo! Olha! Vê!...
Para meu espanto era verdade demais mas não suficiente para erguer a minha Fé - relembre-se o segredo de que não tinha havido tempo para ser benzida!

E cá regressei deixando em paz a Fé dos que a cultivam mas assaltado por um combate interior que me teria de levar ao fundo da verdade.
- Minha senhora! Venho reclamar dum produto que adquiri aqui na passada sexta-feira!
- Lembro-me de si, levou uma Nossa Senhora luminosa! Não me diga que é daqueles que julgam que é preciso lâmpada!?
- Não, a imagem chora e está a perturbar emocionalmente a pessoa a quem a ofereci!

Relatei-lhe os factos e recebi a explicação:
- Como as imagens são arrefecidas em água quando saem da máquina de intrusão, como só depois de cravados os olhos em cera se fecha a cabeça, é natural que com o calor alguma cera se derreta e deixe verter eventuais gotas de água que não tenham escorrido durante o processo de fabrico.

É claro que seria difícil eu convencer a minha tia e as suas vizinhas! Fiquemos pois com mais um milagre!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Cagavacando

Antes: O Presidente da República, Cavaco Silva, diz que quem se abstiver nas legislativas perderá “legitimidade para depois criticar as políticas do Governo”.


Como essa comparação não se pode fazer, mais valia estar calado como tantas vezes faz. Da minha parte concluo que o apelo não valeu nada:
Se uns milhares decidiram ir às urnas porque pensaram:
- É pá, tenho de ir votar porque o Cavaco ameaçou que, se eu não o fizer, depois não posso criticar o governo!
Outros tantos milhares pensaram:
- É pá, era para ir votar mas, cá por Cavacos, já não vou, quero provar que tenho o direito de criticar o governo sem ter votado!

terça-feira, 7 de junho de 2011

Resultados eleitorais prometedores

PPD-CDS-PSD-PP conseguem maioria absoluta! Sacana do relógio, desta vez, atrasou três dias. Receio que já se tenham apercebido. Lamento o atraso.

Dizem que vão continuar a cortar vencimentos, pensões, subsídios, direitos e a aumentar impostos, preços,  contribuições e flexibilidades.  Há uma única taxa que vai descer. Tudo para o país ficar melhor.
- Que raio de país é este que fica melhor se o povo ficar pior?! Que raio de mudança é esta?!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Passos contados

Milhares de manifestantes exigiram na rua a demissão do governo ultra-liberal! O desemprego aumentou, a miséria alastrou, a companhia de águas todos os dias sela torneiras e eu tenho um relógio que num dia adianta meses!

Vitória

Mergulhámos novamente na longa noite sem sequer ter existido dia!
O país, o povo e o "grande" PS têm de pagar o ter escolhido, consentido, ignorado, tolerado José Sócrates. O preço é muito mais que a crise, vamos ter de suportar a joto-petulância de Passos Coelho e o abanar de rabo de Paulo Portas! Ei-los! Em todo o seu esplendor! Este é o preço sócrates! Há outros preços a pagar mas esses são em euros, carcanhol!
Até que um dia a vaidade dos nomes dê lugar à voz escondida pela notícia!