terça-feira, 25 de outubro de 2011

O Silva das Vacas

Algumas das reminiscências da minha escola primária têm a ver com vacas. Porque a D.ª Albertina, a professora, uma mulher escalavrada e seca, mais mirrada que uva-passa, tinha um inexplicável fascínio por
vacas. Primavera e vacas.
De forma que, ora mandava fazer redacções sobre a primavera, ora se fixava na temática da vaca. A vaca era, assim, um assunto predilecto e de desenvolvimento obrigatório, o que, pela sua recorrência, se tornava insuportavelmente repetitivo.

Um dia, o Zeca da Maria “gorda”, farto de escrever que a vaca era um mamífero vertebrado, quadrúpede ruminante e muito amigo do homem a quem ajudava no trabalho e a quem fornecia leite e carne, blá, blá, blá, decidiu, num verdadeiro impulso de rebelião criativa, explicar a coisa de outra forma. E, se bem me lembro ainda, escreveu mais ou menos isto:

“A vaca, tal como alguns homens, tem quatro patas, duas à frente, duas atrás, duas à direita e duas à esquerda. A vaca é um animal cercado de pêlos por todos os lados, ao contrário da península que só não é cercada por um. O rabo da vaca não lhe serve para extrair o leite, mas para enxotar as moscas e espalhar a bosta. Na cabeça, a vaca tem dois cornos pequenos e lá dentro tem mioleira, que o meu pai diz que faz muito bem à inteligência e, por não comer mioleira, é que o padre é burro como um tamanco.

Diz o meu pai e eu concordo, porque, na doutrina, me obriga a saber umas merdas de que não percebo nada como as bem-aventuranças. A vaca dá leite por fora e carne por dentro, embora agora as vacas já nãofaçam tanta falta, porque foi descoberto o leite em pó. A vaca é um animal triste todo o ano, excepto no dia em que vai ao boi, disse-me o pai do Valdemar “pauzinho”, que é dono do boi onde vão todas as vacas da freguesia.

Um dia perguntei ao meu pai o que era isso da vaca ir ao boi e levei logo um estalo no focinho. O meu pai também diz que a mulher do regedor é uma vaca e eu também não entendi. Mas, escarmentado, já nem lhe perguntei se ela também ia ao boi.”

Foi assim. Escusado será dizer que a D.ª Albertina, pouco dada a brincadeiras criativas, afinfou no pobre do Zeca um enxerto de porrada a sério. Mas acabou definitivamente com a vaca como tema de redacção.

Recordei-me desta história da D.ª Albertina e da vaca do Zeca da Maria “gorda”, ao ler que Cavaco Silva, presidente da República desta vacaria indígena, em visita oficial ao Açores, saiu-se a certa altura com esta pérola vacum:

“Ontem eu reparava no sorriso das vacas, estavam satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar verdejante”!

Este homem, que se deixou rodear, no governo, pelo que viria a ser a maior corja de gatunos que Portugal politicamente produziu; este homem, inculto e ignorante, cuja cabeça é comparada metaforicamente ao sexo dos anjos; este político manhoso que sentiu necessidade de afirmar publicamente que tem de nascer duas vezes quem seja mais honesto que ele; este “cagarola” que foi humilhado por João Jardim e ficou calado; este homem que, desgraçadamente, foi eleito presidente da República de Portugal, no momento em que a miséria e a fome grassam pelo país, em que o desemprego se torna incontrolável, em que os pobres são miseravelmente espoliados a cada dia que passa, este homem, dizia, não tem mais nada para nos mostrar senão o fascínio pelo “sorriso das vacas”, satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar verdejante”!

Satisfeitíssimas, as vacas?! Logo agora, em tempos de inseminação artificial, em que as desgraçadas já nem sequer dispõem da felicidade de “ir ao boi”, ao menos uma vez cada ano!

Noticiava há dias o Expresso que, há mais ou menos um ano e aquando de uma visita a uma exploração agrícola no âmbito do Roteiro da Juventude, Cavaco se confessou “surpreendidíssimo por ver que as vacas, umas atrás das outras, se encostavam ao robô e se sentiam deliciadas enquanto ele, durante seis ou sete minutos, realizava a ordenha”!

Como se fosse possível alguma vaca poder sentir-se deliciada ao passar seis ou sete minutos com um robô a espremer-lhe as tetas!! Não sei se o fascínio de Cavaco por vacas terá ou não uma explicação freudiana. É possível. Porque este homem deve julgar-se o capataz de uma imensa vacaria, metáfora de um país chamado Portugal, onde há meia-dúzia de “vacas sagradas”, essas sim com direito a atendimento personalizado pelo “boi”, enquanto as outras são inexoravelmente “ordenhadas”! Sugadas sem piedade, até que das tetas não escorra mais nada e delas não reste senão peles penduradas, mirradas e sem proveito.

A este “Américo Tomás do século XXI” chamou um dia João Jardim, o “sr. Silva”. Depreciativamente, conforme entendimento generalizado. Creio que não. Porque este homem deveria ser simplesmente “o Silva”. O Silva das vacas. Presidente da República de Portugal. Desgraçadamente.

Luís Manuel Cunha in «Jornal de Barcelos», 5 de Outubro, 2011.

domingo, 23 de outubro de 2011

Roubar para comer não é pecado

E tinha passado só um mês; e éramos ainda putos da aldeia de cada um; e sentíamos a falta dos campos e das árvores; e nos prédios da cidade não havia fruta para roubar; e eis que me surgiu o primeiro diferendo com os padres que me queriam formar para eu ser como eles. 
Tínhamos acabado de agradecer ao Senhor o jantar e o padre de serviço estendeu mais umas palavras:
- Amigos, soube hoje que dois de vós cometeram um acto indigno de quem é temente a Deus. Espero que se redimam e que se confessem, o mais rapidamente possível, a fim de ficarem em paz com o Senhor.
- Não é nada comigo!... - pensei.
Já com a malta a sair do refeitório ouvi dum camarada :
- Está a chamar-te a ti e ao Bastos!
...
- Venham comigo!
Atravessámos a cozinha, descemos pelo elevador até à penumbra da cave, passámos pela zona das caldeiras, corremos o corredor até à garagem. O padre à frente, atrás eu e o Bastos trocando expressões interrogativas. A que prestimosa tarefa nos chamaria o padre? O passeio começou a perder graça quando nos mandou entrar no Mini. Eu sentei-me no banco traseiro e o Bastos no pendura. Eu ia de olho na mão das mudanças, sempre a topar se ela se arriscava na perninha do meu amigo, só um motivo desses, ou pior, poderia justificar tão enigmático convite nocturno a moços tão pacatos como nós.
- Sabem que os meninos que cometem actos feios devem ser castigados?

Mau! Mau! Afinal fizemos merda! Foi a merda do Gomes que bufou! Só pode ter sido isso! À medida que a coisa ia azedando ia ficando mais clara. O caso era o seguinte:

No caminho para a escola vimos estacionada uma camioneta carregada de grades de tangerinas, tirámos duas cada um e o Gomes disse que não queria. Nunca me passou pela cabeça que aquilo era “um acto indigno”, logo a mim que nasci a roubar fruta das quintas e quintais, protegido pela astúcia e pela lei de que “roubar para comer não é pecado”.
- É normal, em comunidade, se alguém rouba alguma coisa a alguém deve ser punido por isso!

A meio da Calçada do Bravo cortámos à direita. De tantos em tantos quilómetros o condutor largava uma boca do género dessa aí atrás, sem nunca se ter referido a nós os dois e sem nunca questionar o nosso silêncio ou olhar para apreciar o nosso ar acagaçado. O Bastos nunca se virou para trás mas sentia-se a comunhão de pensamentos.

A que espécie de castigo nos levava o padre justiçoso? Seria aquele o caminho para a prisão das crianças? Nem nos deixou despedir da malta! E quando os nossos pais soubessem da detenção?

Mais um corte à direita, Martinela, nunca ouvi falar em tal terra, é uma aldeia, tem uma capela, parámos.
- Hoje trago aqui uns rapazes lá do seminário para ajudar à missa.
Tremia com as galhetas, sempre à espera que caíssem no altar. Temia estar a pensar noutra coisa no momento do toque da sineta mas, ajudar à missa, era uma penitência adequada ao “acto indigno”.

No final do Santo Sacrifício algumas pessoas vieram dar umas moedas aos acólitos. Regressámos à cidade, durante o caminho não se ouviu palavra. O caso foi encerrado. Nunca mais mostrei os dentes ao padre e comecei a gostar ainda mais de tangerinas. Passados tantos anos gostava de encontrar o padre para lhe atirar à cara as crises de fígado que tenho por abusar de tangerinas.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Tenho no sotão a minha construção

"Clamação do Soro"
A rotação do planeta faz-nos tontos e translúcidos.
Dormimos o Sol e as estrelas
Na canção do relógio de pêndulo.
Perdem-se os que amam.
Reina a bondade
E os cavalos da nobreza tornaram-se selvagens.
E vós?!
Pedi que chorássemos – gargalhásteis!
Achais tardio o escarro bandeira
Na face do dominador?
Não acreditais no poder dos nossos excrementos?
Só com chicotes se expulsarão os vendilhões do Templo!
Ah! Os cornos dos bodes de comando!
Não tarda que sobre eles cavalguemos!
Não tarda os calcaremos!
Assobiar-vos-emos então, povo louco e insensato! – O triunfo.
Acenar-vos-emos então raça perversa e tortuosa! – A vitória.
Saciar-vos-eis
Das delícias da vida e dos tesouros que o Sol amadurece.
- Destruída será a magnificência dos poderosos!
Grita um filho.
1981- por aí

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Quarto 5

(Se não leu o Quarto 1, o Quarto 2, o Quarto 3, o Quarto 4, este quarto não faz sentido)
Todas as manhãs as miúdas saíam para o liceu. A mãe, a meio da manhã, ia para o trabalho no restaurante. Eu, às vezes, também ia às aulas e o Virgolino ficava todo o dia em casa a ver televisão e a emborcar cervejas.
Nas primeiras noites que dormi naquele quarto acordava duas ou três vezes, a horas certas, com o ruído dos comboios da linha da Lousã que passava mesmo ali ao lado. Com o hábito o comboio deixou de me tirar o sono, assim aconteceu também com os sons da mobília e dos corpos que se enrolavam no quarto ao lado.
Muitas vezes, durante o dia, para vencer o tédio de desempregado, Virgolino batia à porta do meu pequeno quarto, entrava com duas cervejas abertas, pousava uma sobre a sebenta e dizia:
- Rapaz, a vida não pode ser só estudar! Bebe, se queres ter força na verga!
Sentávamo-nos um em cada cama, de garrafa na mão e a trocar umas conversas. Perguntava-me das coisas que eu estudava, contava-me a sua vida e a sua terra, disse-me que esteve preso por roubar carros, afiava-me a curiosidade com detalhes das intimidades que travava com a Gracinha, pedia-me uns trocos emprestados para não me cravar mais cigarros, fazia-se o amigo que eu nunca imaginara.
Um dia, à noite, depois duma discussão com a sua Graça, que eu acompanhara pelo soalho do meu quarto de estudante, Virgolino entrou de rompante no meu quarto:
- Tenho de espairecer João, vem comigo! Contigo, talvez ela se descosa com as chaves do carro! Estou farto do cheiro a catinga desta casa!
Sem dizer não, aconcheguei os preparos de sair à rua e descemos as escadas.
- João, vocês podem ir mas vão a pé, no meu Simca é que não!
Virgolino dirigiu-se à despensa, que ficava por debaixo da escada, e saiu com um saco de plástico de supermercado, cheio de quase nada, na mão.
- Vamos João! A noite é nossa!
Como um cordeirinho inocente que acompanha o seu comandante, desci com ele o carreiro que separava o bairro da avenida. Bebemos duas imperiais rápidas na nossa cervejaria e saímos. Cinquenta metros depois, Virgolino abriu o saco que trazia no bolso de dentro do blusão enquanto dizia:
- Esta é a nossa presa! Serve?
Surpreendido com a aventura nem tive tempo para pensar ou reagir:
- Entra aí desse lado!
Disse-me ele já com as mãos nos fios por debaixo do volante para fazer a ligação directa. Aí vamos nós a abrir pelas ruas da cidade, de bar em bar, até à discoteca final!
(Na próxima quarta há mais Quarto)

sábado, 15 de outubro de 2011

O pagador

Num banco do jardim, em frente ao lago, está um velho sentado à espera do Outono. É um reformado. Vive às minhas custas, portanto!... E, no entanto, o velho não paga nada por ali estar. Mas devia pagar! Não pensem que se trata de um daqueles bancos antigos de tábuas horizontais, pintadas de vermelho e com perfil de ésse invertido! Não! É um banco com “design à l’époque”, sem encosto, tipo banca de matança de porco, todo ao fundo FEDER!... Para estes bancos, deviam existir banquímetros para dar cobro ao inquestionável pensamento do utilizador-pagador.
Não pensem que o velho está ali a fazer alguma coisa. Está só a pensar.
Eu penso que nunca me irei sentar naquele banco. Porque obra de FEDER o hei-de estar a pagar?!
Eu penso nas folhas a cair. Devia de me ser descontado o tempo em que da janela do meu emprego eu vejo as folhas cair.
E era só, vou perguntar ao velho se tem nome e se sabe quando vem o Outono.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Temos de mobilizar o país

Numa coisa estou de acordo com Passos Coelho: "Temos de mobilizar o país". Não estaremos é a falar da mesma mobilização!

Se o principal problema é o desemprego e se para criar emprego a solução é:
- Facilitar os despedimentos.
- Aumentar o horário de trabalho.
- Alargar a idade de reforma.
Então temos mesmo de nos mobilizar porque das duas uma: ou são parvos ou têm-nos como tal.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Quarto 4

(Se não leu o Quarto 1 nem o Quarto 2, nem o Quarto 3, este quarto não faz sentido)

Por volta do meio-dia, desci as escadas para tratar da higiene da manhã. A família do Norte estava já de partida. Virgolino ficava, claro! Com a cara e o abotoamento do pijama testemunhando a noitada passada entre excessos, despedi-me e, por motivos óbvios, fui o único que não os acompanhou à rua. Segundos depois, a solteirinha de Fafe voltou a entrar a porta entreaberta, com ar de quem se justificou por esquecimento de pequeno pertence, abeira-se-me na entrada da casa de banho e, assim, sem mais nem menos e sem palavra alguma, espeta-me um beijo na boca como quem diz: também estou com hálito de ressaca, saindo de imediato, com o ar apressado com que entrou. Andei todo o dia com um sabor de boca, não sabendo se era meu se dela, contente por mim e descontente por ela, descontente comigo e contente por ela e sabendo que aquilo não fora caso para esquecer nem para lembrar.

Na noite seguinte não consegui estudar nem dormir, os sons que vinham do quarto grande eram de tal frequência e intensidade que ora me incomodavam, ora me faziam encostar os ouvidos à parede. Não que tivesse ciúmes ou inveja mas porra! Um homem não é de pau!
Dona graça era um poço sem fundo no que toca aos prazeres da carne, absorvia todas as lavas sem nunca se encher. Virgolino desinchava da abstinência do período em que cumpriu a pena. Por duas vezes ouvi os passos da amante descer as escadas e, minutos depois, os mesmos passos subindo, acompanhados pelo ritmo do que imaginei ser o som duma colher batendo numa tigela a fazer gemadas, talvez uma cerveja a acompanhar e não só, uma vez ouvi mesmo o tiro da rolha de uma garrafa de espumante e o tilintar de copos.
Deitei-me várias vezes com a cabeça debaixo das mantas mas dormir está quieto! Poderia até ser sinal de desrespeito e desprezo adormecer perante um acontecimento oculto que não podia ver mas do qual, de certa forma, eu fazia parte. Levantava-me, sentava-me frente à mesa de estudo tentando estudar álgebra mas nem uma simples matriz conseguia inverter nem que fosse durante os, cada vez mais frequentes, intervalos de silêncio.
Apesar de tudo sentia-me contente pelos dois e, curiosamente, não me afectava o facto de, possivelmente, não existirem mais cartas para escrever - a não ser que o Virgolino pusesse outra vez a boca na botija e fosse cumprir mais uns meses!...
Claro que, nos meses anteriores, cheguei a imaginar-me companheiro de uma negra, com duas enteadonas mulatas, a passear na baixa, ou melhor, se calhar isso até chegou a acontecer sem eu dar por isso! De qualquer forma Dona Graça era bem mais velha que eu, mais responsável nas grandes opções da vida e, se optou pelo Virgolino, não deve ter sido só por qualidades de performance sexual! Aliás, eu também lhe dava um jeito, ou não estivesse no vigor dos meus vinte e um anos.
Zé Maria deve ter chegado de madrugada. No dia seguinte faltei às aulas.
(Na próxima quarta há mais Quarto)

domingo, 9 de outubro de 2011

Procuro FIAT 600

E, numa tarde de Domingo outonada, lá foram os pais entregar o filho ao clero, acompanhados de uma tia-avó celibatária, octogenária avançada, ex-regente de ensino e poupada, virgem de todos os santos e que, pela causa deles, apostou em investir na vocação do sobrinho querido que era eu. Fomos num FIAT 600, não tão velho como ela mas muito velho, emprestado sem favor por um primo mais abastado que fazia plena confiança nas mãos do meu pai, ou não tivesse sido ele, chofer de ofício, quem lhe dera a sua primeira lição de condução.
A viagem foi um suplício. A velha à frente, pendurada, a tecer cuidados à estrada, a dar-me recados e recomendações, a contar histórias e avé-marias e a minha mãe, atrás, com uma toalha a zelar-me pelos vómitos que me provocavam as curvas e o cheiro a gasolina.
A verdade é que só ela falava, os outros dois deveriam ir pensando em coisas que também, no meu enjoo, pensava:
- Como vou aguentar viver fora de casa sem a minha casa, sem o meu casal, sem o meu ribeiro, sem poder armar as minhas costelas, sem o meu cão, sem os meus amigos, sem as minhas primas, sem o meu irmão? Será que vou aguentar as saudades? Será que me vou largar a chorar no momento da separação?

Mas não! A minha mãe arrumou-me as coisas no armário, fez-me a cama, disse o que tinha a dizer. O meu pai e a tia observaram, encantados, as modernas instalações e trocaram impressões com gentes e meninos de outras terras que estavam ao mesmo.
No final, acompanhei-os à portaria e voltei para junto dos outros meninos que nem um homem! Nem uma lágrima!

Então e os 650$00?! Não me esqueci! Nunca me esquecerei! Por pressão do prior junto da reitoria a mensalidade desceu 50$00. Por pressão do prior junto da tia-avó beata, esta amadrinhava os santos estudos do jovem parente a troco dumas intercessões sacerdotais junto do Altíssimo.

- Se a tua tia ajuda, a conversa é outra! Nesse caso, ainda que nos exija à mesma muito esforço, penso que conseguiremos!... Não nos podemos esquecer que ter um filho formado é sempre um bom investimento!
- Esqueceste que para chegar a padre é preciso estudar muitos anos e a velha não dura muito!
- Pode não durar muito mas tem dentes de ouro!

(esta história de domingo começou com uma coisa que se me meteu na cabeça, comprar um jipe usado, 650$00 e, para a semana, se houver sol, continua)

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Nem todos são iguais

Votações na Assembleia da República - 23 de Setembro de 2011
VOTAÇÃO NA GENERALIDADE

1. Projecto de Lei n.º 44/XII/1.ª (PCP) – Determina a aplicação extraordinária de uma taxa efectiva de IRC de 25% ao sector bancário, financeiro e grandes grupos económicos (Altera o Código do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Colectivas, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 442-B/88, de 30 de Novembro);

Rejeitado
Favor – PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD, PS e CDS-PP

2. Projecto de Lei n.º 45/XII/1.ª (PCP) – Tributação adicional sobre a aquisição e a detenção de automóveis de luxo, iates e aeronaves (13.ª alteração à Lei n.º 22-A/2007, de 29 de Junho, que aprovou o Código do Imposto sobre Veículos – ISV – e o Código do Imposto Único de Circulação – IUC);

Rejeitado
Favor – PS, PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD e CDS-PP

3. Projecto de Lei n.º 46/XII/1.ª (PCP) – Tributa as mais-valias mobiliárias realizadas por Sociedades Gestoras de Participações Sociais (SGPS), Sociedades de Capital de Risco (SCR), Fundos de Investimento, Fundos de Capital de Risco, Fundos de Investimento Imobiliário em Recursos Florestais, Entidades não Residentes e Investidores de Capital de Risco (ICR) – (Altera o Estatuto dos Benefícios Fiscais, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 215/89, de 1 de Julho);

Rejeitado
Favor – PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD, PS e CDS-PP

4. Projecto de Lei n.º 47/XII/1.ª (PCP) – Cria uma nova taxa aplicável às transacções financeiras realizadas no mercado de valores mobiliários;

Rejeitado
Favor – PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD, PS e CDS-PP

5. Projecto de Lei n.º 48/XII/1.ª (PCP) – Cria uma sobretaxa extraordinária em sede de IRC (Alteração ao Código do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Colectivas, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 442-B/88, de 30 de Novembro);

Rejeitado
Favor – PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD e CDS-PP
Abstenção – PS

6. Projecto de Lei n.º 49/XII/1.ª (PCP) – Fixa em 21,5% a taxa aplicável em sede de IRS às mais-valias mobiliárias (Altera o Código do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 442-A/88, de 30 de Novembro);

Rejeitado
Favor – PS, PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD e CDS-PP

7. Projecto de Lei n.º 50/XII/1.ª (PCP) – Cria um novo escalão para rendimentos colectáveis acima de 175000 euros e tributa de forma extraordinária dividendos e juros de capital (Altera o Código do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 442-A/88, de 30 de Novembro);

Rejeitado
Favor – PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD, PS e CDS-PP

8. Projecto de Lei n.º 51/XII/1.ª (PCP) – Tributação adicional do património imobiliário de luxo (Alteração ao Decreto-Lei n.º 287/2003, de 12 de Novembro, que aprovou o Código do Imposto sobre Transacções Onerosas – IMT – e o Código do Imposto Municipal sobre Imóveis – IMI);

Rejeitado
Favor – PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD e CDS-PP
Abstenção – PS

recebido por e-mail

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Também sou Pessoa

Às vezes tenho ideias, felizes,

Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...

Depois de escrever, leio...
Porque escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...

Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?

Se eu tivesse ao menos um blogue onde pudesse escrever o que me apetece!...
de "Poesias de Álvaro de Campos" Fernando Pessoa ...

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Quarto 3

(Se não leu o Quarto 1 nem o Quarto 2, este quarto não faz sentido)
As três mulheres da casa não pararam durante todo o dia: limpar, limpar, limpar; cozinhar, cozinhar, cozinhar; voltas e mais voltas à casa e à mesa; parecia que ia chegar um rei.
Quando regressei a casa foram-me apresentados os fafenses: o recém ex-presidiário, Virgolino, deixou transparecer no cumprimento a afinidade criada pela correspondência da fase do enamoramento; o afecto do aperto de mão atenuou o efeito do olhar neutro, da cicatriz ao canto do olho, da cabeleira aos caracóis encimando um corpo atlético que fazia sombra à minha franzina figura; o pai de Virgolino tinha rugas de operário a metros da reforma e largou-me um “É um prazer!” limitado e consistente, próprio de quem sempre fizera das tripas coração para endireitar a célula familiar; a mãe apresentava-se minhota e com ar de minhota mãe de família estendeu-me a mão; a irmã de ar trintona, sabidona e solteirinha apertou-me com dois beijos aos quais não reagi especialmente.
Dona Graça apresentou-me, orgulhosamente, como o hóspede estudante, carinhosamente como o seu filho branco e fez questão que eu entrasse na conversa ainda tímida – que bebesse um martini, que trincasse uns amendoins e desse algum ânimo ao festejado encontro.
Não contei ainda, mas conto agora, que entre as últimas cartas tinham existido uns telefonemas que me foram roubando a importância de escrivão, que foram feitas umas visitas ao presídio, que Graça conhecera, dessa forma, a família presente na sala. E outras coisas aconteceram que não cabem aqui ou porque me esqueci, ou porque a inabilidade de escritor de cartas alheias não me dá prosa para tanto.
- Amanhã tenho frequência! Gostava de ficar um pouco mas tenho de estudar!
- Mas jantas connosco!
Comecei a subir as escadas enquanto deixava a resposta de quem não tem argumentos para dizer não.
Quando desci para a festa a mesa estava já animada, já tinham sido ultrapassados os constrangimentos de primeiro encontro, já cheirava a noivado não declarado, já havia brilho de bebida nas expressões. Para um rapaz simples nada mais fácil do que estar com gente simples e, ao fim do primeiro copo, já contava das minhas. Depois da sobremesa e dos brindes veio a música e a dança, dancei com todas e até com o pai do Virgolino mas foi com a irmã do Virgolino que se me fecharam os olhos: as filhas da casa a verem um filme, os potenciais sogros a ferrarem o galho no sofá à espera do encerramento dos festejos para o abrirem e o preparem para a pernoita e eu e ela, no meio da sala, lentamente bailando um slow do Adriano Celentano. O par dos namorados-festejados já estava há mais duma hora no quarto grande. A solteirinha de Fafe esfregou-me as canelas:
- Ó menino João, não adormeça no meu ombro!
As meninas perceberam a hora de ir para a cama e subiram, a porta da entrada a abrir-se, o Zé Maria a entrar com um “boas noites” semi-etilizado, a marcar a distância com um subir imediato, o som pesado dos seus sapatos sobre as escadas de madeira a marcar o compasso à minha rendição:
- Tenho de ir à casa de banho!
Quando voltei à sala estava já um ambiente de camarata: a luz apagada, os pais e o meu derradeiro par de cama feita e em fase de adormecimento. Não tive nem sequer coragem para a despedida, fui dormir no quarto com o Zé Maria e, no dia seguinte, faltei à frequência.
(Na próxima quarta há mais Quarto)

domingo, 2 de outubro de 2011

650$00

“ Tendo sido admitido ao seminário o vosso filho, depois do estágio que aqui realizou, certamente ides preparar, com todo o cuidado, o que é necessário para a sua entrada no princípio de Outubro, ainda que isso vos vá exigir alguns sacrifícios. Estou certo de que aceitareis esses sacrifícios com alegria pedindo a Deus que vos conceda a graça de terdes um filho sacerdote.

A permanência do vosso filho no seminário vai também custar-vos alguns sacrifícios materiais, mas vós bem sabeis que a vida tem encarecido muito e que é grande a despesa que se faz com a sustentação e educação dos seminaristas.

Como responsável da economia do seminário, venho dar-vos alguns esclarecimentos sobre este assunto e pedir a vossa atenção para o seguinte:

1º - A mensalidade a pagar é de 650$00.
… 2º, 3º, 4º, 5º e
6º- Se algum aluno, por qualquer motivo, abandonar o seminário temporária ou definitivamente, deve liquidar todas as contas antes de sair, sem o que não poderá levantar as suas coisas.

(Em anexo lista do enxoval)
…. O ecónomo auxiliar…"

Leu a carta mas não ma deu a ler e andou toda a tarde calada. À noite, quando chegou o marido, fez a leitura em alto e rematou sobre o silêncio da testa engelhada do ganha-pão da família, ignorando, fingida e inteligentemente, a minha presença:
- Já lá vai o tempo em que se estudava para padre de graça!
- Puta que pariu os padres! Tu queres lá ver?! Isso é um terço do que eu ganho! Ainda só temos dois mas mais meia dúzia deles podem acontecer que a cana ainda incha todos os dias!

E eu, sem perceber por que obra as canas ali eram chamadas, deitei para o meio dos dois um soluço e deixei ver uma lágrima que provocou incómodo no caminho que o diálogo estava a tomar.
- Ó homem deixa de falar assim à frente do pequeno! Amanhã vou falar com o padre e logo se vê! Ou descem o preço ou assim não vai! Quanto à roupa, a tua irmã Carolina, de Lisboa, está cá de férias… o Carlitos muda de roupa todos os dias, é mais gordo do que ele e há-de para lá ter muita roupa que já não usa.
Apeteceu-me fechar o assunto e falar que nem um homem “ Pronto que se lixe! Vou para toureiro ou para acordeonista!”
Mas o orgulho falou mais alto! Não suportaria assumir a desistência perante pedreiros, resineiros, criadores, taberneiros e respectivos descendentes, que há meses me atazanavam a cabeça: “ quando tu fores padre, eu sou bispo!”; “hás-de dar um lindo padre!”; “não te dou nem um mês!”; “queres ter as mulheres todas!”; “vais ser capado!”; “padre nunca!”; “ó padre nunca”.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Gostava de encontrar estes dois tipos na manifestação

"seria ridículo os portugueses aceitarem os sacrifícios que lhes estão a ser impostos sem se manifestarem nas ruas ou sem greves"... "neste contexto, a população não sair à rua, é dar a ideia de que somos um povo de molengas. Pareceríamos "parvos, ou mortos"!
Julgo que quem disse isto foi o presidente da CIP - Conferência Ipiscopal Portuguesa - ao abrigo do acordo ortográfico.

Julgo que quem referiu isto foi o ex-presidente da CIP - Confederação da Indústria Portuguesa - ao abrigo do acordo da troika apostólica.
 
No dia 1 de Outubro, dia da manifestação, gostava de encontrar estes dois tipos na manifestação, um a reinvidicar como um sacrificado e o outro a distribuir cigarros  aos desempregados. Sei de fonte segura que nenhum deles vai estar. Sei que um é Van Zeller e o outro Policarpo mas é provável que lhe troque os nomes, as funções e as citações. Sei que são citações como as deles que me dão mais força para me manifestar. Sei que ambos vão almoçar nesse dia mas eu ainda não sei se almoço. Poderão até almoçar juntos mas tenho a certeza que não os vou encontrar à mesa nem na rua!


quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Quarto 2

(Se não leu o Quarto 1 este quarto não faz sentido)A casa ficava num bairro social dos anos cinquenta mas o crescimento da cidade tinha-a envolvido a ponto do seu valor se tornar de classe média para cima; era uma das do meio dum conjunto de quatro, tinha um pequeno jardim à frente e um pequeno quintal atrás, tinha uma sala, uma cozinha e uma casa de banho no rés-do-chão e, no primeiro andar, três quartos com as três portas juntas no patamar do cimo da escada. O quarto da dona Graça dava para a frente e ocupava tanta área como os outros dois - um das filhas e o outro dos hóspedes - que davam para as traseiras.
À medida que o meu companheiro de quarto se foi afastando da vida da casa eu fui-me tornando cada vez mais da casa. Dona Graça arranjou emprego, como cozinheira, num conhecido restaurante da zona e tentava arranjar um companheiro que lhe compusesse a família.
Noite dentro, a senhoria bateu-me à porta do quarto e chamou-me ao dela para que o Zé Maria quando chegasse, como sempre fora de horas, não interrompesse a conversa a que me chamava. Sentámo-nos na beira da cama e passou-me às mãos uma revista feminina, aberta nas páginas daqueles anúncios em que as pessoas sós tentam encontrar parceiros para troca de amizade e mais não sei o quê. O escolhido, de seu nome Virgolino, estava detido no estabelecimento prisional de Paços de Ferreira e procurava uma mulher com alma.
- Ora essa, dona Graça! Se quer alma encontra em si a porta certa!
- Precisava da tua ajuda, João, para me escreveres a carta! Como sabes assino o nome e pouco mais!...
Deu-me um bloco e uma caneta e começou a ditar-me, com palavras curtas, a sua vida e a sua alma, pedindo-me ajuda aqui e acolá na forma ou no conteúdo. A cumplicidade prolongou-se além da carta em contactos e afectos que denunciavam carências mútuas e punham em contraste a minha pouca experiência e a sabedoria da senhora da minha casa. Senhora de corpo abastado de cozinheira negra, de suor africano, de – só de lembrar-me!
- Que isto não seja entendido como pagamento!
Devem ter sido das únicas palavras que se interpuseram por qualquer um de nós. Acordei de madrugada, passei-me para o meu quarto e adormeci novamente. O Zé Maria ainda acordou e resmungou:
- Que é esta merda?! Isto são horas de chegar a casa? Andas a ficar mais moina que eu ou quê?!
O presidiário respondeu e estas cartas repetiram-se durante dois ou três meses, à razão de uma por semana e, no dia seguinte, eu nunca ia às aulas.

Na próxima quarta há mais Quarto

domingo, 25 de setembro de 2011

Compro jipe usado


Em Julho o padre levou-me no seu carocha - ele de batina à época, eu com a única roupa que tinha sem remendos - ao Seminário Diocesano para fazer estágio e provas que atestassem o jeito e a verdade da minha vocação. Vi-me deitado à noite, numa camarata com mais trinta meninos que estavam ao mesmo e, pela primeira vez, senti o que era não ter mãe para aconchegar as mantas.

O edifício era quase a estrear, dinheiro de esmolas, dinheiro dos santos, dinheiro alemão, projecto alemão, desenho certo para as funções a que estava destinado, tudo pensado, para os mais pequenos, para os quase padres, para os padres, para as criadas, para as freiras, para o culto, para o estudo, para o lazer, conforto, funcionalidade, inteligência! A gente abria uma torneira e corria água vinda sei lá de onde, fria ou quente, era só escolher, adeus banhos de alguidar, adeus mãos sujas do esterco dos currais, adeus pó do pasto, adeus frio, ai tanto livro que há aqui para ler, ai tanto jogo, dois campos de futebol, ai eu tenho de passar!

E para passar tinha a meu favor ter sido o melhor da classe na minha escola - éramos só dois e o Ginado era mais virado para o gado - ser mesmo eu, e isso era importante nos testes psicotécnicos diários que fizeram durante toda a semana; ser devoto, e isso era evidente na atenção que prestava aos oradores, no modo como entoava o Pai Nosso ou erguia as mãos nas práticas religiosas que, obviamente, incluíam o tirocínio. Na entrevista final com o reitor vieram as perguntas principais:
- E diz-me lá filho, de onde te veio esta ideia de quereres ser pastor do Senhor?!
- Foram dois missionários lá à escola, gostei e fiquei com vontade de ser como eles!

Foram dois jovens felizes que falaram alegremente das missões no ultramar e que projectaram slides coloridos com fotografias da cor quente do solo  africano, com grupos de negros sorridentes ao lado de missionários brancos sorridentes, um jipe, mulheres com as mamas à mostra lavando a roupa no rio, uma capela com telhado de colmo - macacos me mordam se eu não hei-de um dia ir também para além mar anunciar a salvação!

Não lhe contei o quadro nem lhe contei que um dia, no fim da catequese, fiquei de espera a uma cachopita de outro lugar para lhe dar umas palavras e mais um beijo. Os amigos do meu lugar não me esperaram e eu tive de regressar a casa sozinho pelo pinhal. A lição do dia tivera uma ilustração do inferno com o Satanás de cornos e forquilha a picar seres metuendos em chamas. Tudo somado, o caminhar sozinho e a pensar, o pecado da luxúria, o medo de me queimarem quando morresse, fez-me lembrar que a melhor forma de me salvar e ter o Céu garantido era ir para padre.

- E quando sentiste o chamamento de Deus, meu filho?!
- Eu vinha da catequese, e lá numa curva onde existem uns carvalhos…

Esperem aí! Compro!... Mas não tenho dinheiro!!



sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A caricatura do meu país

está na Madeira!

Que levantem a mão os madeirenses que nunca a apertaram a João Jardim!
Ele é o eleito! Ele é assim! Ele foi sempre assim! Ele há-de ser sempre assim qual Gabriela!
Querem-nos fazer passar a ideia que ele é o único, que ele é o culpado, que só ele deve ser julgado, como se não soubessemos que, tal como todos os outros, sairia cantando e ilibado!
Numa coisa ele tem razão, e nessa razão reside a sua força, a comunicação social do continente é, no fundo, como a da Madeira. Assistimos nos últimos dias, nos media dominantes, a uma campanha sem escrúpulos, desinformativa, tendenciosa, mafiosa, arrogante, contra a Madeira em modos que só nos fazem lembrar João Jardim! 
Se um dia houver um tribunal que em boa hora julge todos os "Jardins" deste país, a sala não pode ser em Porto Santo porque não caberão lá todos os mochos! Jardim é apenas a caricatura e, com caricaturas, não vamos lá; são precisas as fotos tipo passe de todos os que foram estudar filosofia ou que acabaram em comentadores da situação nos media dominantes que agora descobriram a Madeira e ainda não sabem onde é a Cova da Beira!

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Regresso ao Quarto

Já todos leram um livro pela segunda vez, voltaram a ver um filme, um espectáculo, um castelo, uma novela, experimentaram pela segunda vez uma relação. Às vezes é melhor do que a primeira vez, às vezes desilude, às vezes é porque calha ou porque convém mas é sempre porque lhe deu da primeira vez algum prazer ou também porque não se encontra nada novo para fazer. E aqui estou eu à volta das palavras tentando, em vão, ter alguma coisa de novo para dizer. Só me saem rimas de desgarrada de adega: "er"... ´ão"... e só não me sai "inha" porque repeti muitas vezes as leituras de certos poetas que desrimam para acertar. Nadinha, nadão me ocorre, tantos são os estímulos, tantos os temas, tantas as razões, paixões, raivas, motivos, motivações e tão pouca é a pachorra, o espírito, o tempo!... E também o tempo, os tempos não ajudam!... Costumo dizer que perdi o estado de poesia! Inspiração?! Não! Que é isso!?  Expiração! Isso sim! Vou expirar! Não! Já expirei!
Serve a presente lengalenga para enquadrar a reposição da saga o Quarto; e os motivos são: por impulso, por conveniência, por vontade, porque apetece, para preencher um vazio, um nu, cá por coisas!... Por outras coisas vou manter os comentários da primeira edição!
Aos velhos leitores, desculpas esfarrapadas! Aos novos leitores, passem bem... por aqui, no post abaixo: (dois pontos)

Quarto 1

O quarto era arrendado, aos dois, por dois contos e duzentos a cada um, com dois banhos por semana e cama feita. Ficámos de pensar. Dona Graça fez questão de dar conta da sua situação passional, tinha um amante. Viera de Moçambique, a toque de Independência, arrastada por um colono branco septuagenário de quem tinha duas filhas. O velho morrera e eram as herdeiras que garantiam o direito ao tecto perante a demanda que a viúva branca, que nunca pusera o corpo em África, lhe movia reclamando a posse da vivenda.
As moças, de 17 e 15, a mãe de 35, tinham formas e sorrisos de fazer estremecer a mancebia de tal forma que, já na rua, Zé Maria esfregava as mãos de entusiasmo e dizia para mim:
- Para mim já está pensado, negócio feito!
O espaço exíguo para os dois, dois divãs, uma mesinha, um guarda-fatos, uma pequena mesa, uma cadeira, uma janela de poucas vistas, as paredes pintadas de vermelho…
- Eu reparei lá nisso! Paredes vermelhas? Viva o Benfica!...Viva o comunismo!
Lá abancámos a tralha e diga-se que, passada uma semana, a vida já era familiar. Ao serão jogávamos às cartas com as meninas e com o senhor Carlos que, entretanto, começou a trazer também o filho.
Um dia, o senhor Carlos presenteou com um carro Graça e foram, os cinco, desbundá-lo pela noite. Os tristes hóspedes ficaram e acordaram por volta das sete da manhã com gritos e pancadas de escândalo na porta de entrada. Fomos ao quarto dos amantes espreitar pela janela, duas mulheres possessas diziam das suas para dentro da casa e a vizinhança fazia já roda ou espreitava. Fomos abrir a porta informando com calma que estavam ao engano.
- Que não e não e não!
- Que somos apenas hóspedes e que somos os únicos seres dentro da casa e que não podemos permitir a entrada que a casa não é nossa!
Com a diplomacia possível para o caso lá conseguimos que mãe e nora partissem vencidas mas não convencidas. Talvez tivesse sido falsa a pista, talvez eles tivessem tido um acidente, talvez fossem fantasias e não cornos o que as trouxe ali.
Certo é que, do Senhor Carlos e do seu filho único nunca mais se ouviu falar. A casa virou festa, era música e mais música merengue até a polícia deixar, era a condução do Zé Maria a fazer chiar o Simca 1000 enquanto a Dona Graça não passava na carta, era a beleza da juventude, era a vida!...

domingo, 18 de setembro de 2011

Uma coisa que se me meteu na cabeça

- Que diabo de ideia que se havia de meter na cabeça do chachopo!
Pensaria minha mãe durante a lida. Para o meu pai ter um filho médico ou padre, era dos maiores orgulhos que um homem pode ter. Como para os mais pobres médico pia fino, só lhes restava o ofício dos altares em que os estudos são bem mais baratos.
- Se lá chegares, dar-te-ei a melhor charneca!
- Não! Eu quero ser missionário e vou fazer voto de pobreza.

Conversariam os dois na minha ausência:
- Que diabo de ideia que se havia de meter na cabeça do chachopo!
- Em vez de invocares o diabo devias era dar graças a Deus!
- Olha tu, agora armado em santo, há mais de cinco anos que não vais à confissão!... O rapaz tem lá feitio para padre! É um corrécio desajuizado!
- Lá por andar sempre à procura de ângulos para espreitar por baixo das saias das mulheres, isso não quer dizer que não tenha jeito para pregar! Uma coisa não impede a outra! Não lhe hão-de faltar oportunidades de molhar o bico ao prego!.. Oh!Oh! Os padres têm as mulheres todas!

Como o caso, raro na aldeia, chegasse ao conhecimento de todos e todos sem excepção já me tratassem por Padre Nunca, não restou à mãe outra coisa senão ir apresentar o menino possesso ao senhor prior.
O homem fez uma longa entrevista a mãe e filho para averiguar a autencidade da vocação e, ao fim de algum tempo, opinou sabiamente:
- Não me parece com perfil para franciscano. Um dia destes combinamos e, eu próprio, o levarei ao seminário diocesano!

O padre ficou contente. Nunca tinha tido seminaristas no seu rebanho! O contentamento expressou-se numa nota de cinquenta escudos que me enfiou no bolso ao sair.

Minha mãe começava a conformar-se, pelo menos estudaria de graça e só aquele dinheiro, já valia bem o caminho que fizeramos do monte até à igreja. E, como tinha uma unha de poeta popular, inventou logo ali uma para eu cantar, que obviamente nunca mais esqueci:

O Senhor Padre Ferreira
Pessoa de altos estudos
Perdeu o amor à carteira
E deu-me cinquenta escudos

sábado, 17 de setembro de 2011

Hay que ser rebelde

Camila Vallejo, líder estudantil chilena, foi-me apresentada pelo Samuel Cantigueiro. No "bons tempos hein" conheci esta bonita homenagem:


Para que mais gente a conheça, deixo aqui o meu tributo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O Sapo surpreende

Parece que Passos Coelho andou lá para a Prússia e saiu-se com uma tão original que o portal Sapo fez dela destaque para o tema Crise: "A Europa tem de falar a uma só voz".
Não perceberam os "sapos" que o que ele queria dizer era: "Na Europa tem de falar uma só voz". Referia-se obviamente à sua senhora Merkel que já fala como se a Alemanha não tivesse perdido a guerra. Assim, como tão bem poliu o amigo maceta da Caixa de Pregos:
Vergou-se à Ângela!? Vá à merkel!

domingo, 4 de setembro de 2011

A Festa

A festa da minha aldeia não era igual às festas das outras aldeias. Primeiro, porque não tinha santo. Existia no largo um nicho que era enfeitado pela ocasião, tinha um Cristo crucificado de latão mas ninguém lhe ligava patavina. Depois, a festa era num dia de semana, coisa rara e estranha. Finalmente, a festa era diferente de todas as outras porque diferentes eram as gentes da minha terra. E, por estas coisas, muita gente havia das redondezas que tirava o dia para por lá foliar.

Do programa das festas não constava quermesse, banda filarmónica, procissão, leilão mas existiam sempre originalidades e bailes que chegaram a determinar a alguns mordomos a excomunhão. Julgo que o que determinava a diferença era o empenho de todos, a organização, a boa disposição e a empatia que enfeitavam o arraial.

Durante o ano inteiro discutia-se e comentava-se a festa do ano anterior e discutia-se e projectava-se a festa seguinte, à lareira, nos campos ou nas tabernas, como se a festa fosse em si mesma uma tarefa familiar com um fim, como a colheita do milho, a vindima ou a matança do porco. E eu, como os demais, desde pequeno que me fui fazendo aos meus papéis porque para todos havia o seu lugar. As crianças varriam os recintos e corriam em recados, os burros iam buscar a verdura das acácias para enfeitar as ruas, as raparigas faziam as flores de papel, os rapazes espalhavam os cartazes, as mulheres tratavam da comida, os homens erguiam palcos e vedações, as velhas zelavam pelas tradições, os velhos trespassavam artes.

Mas foi no tempo em que eu tive idade para ser mordomo que a festa se transformou.

Entusiasmados pelo crescente sucesso da festa mudámos a data para o fim de semana e, ano após ano, começámos a edificar estruturas permanentes, a contratar serviços, a entregar explorações e até a arranjar um espaço de programa para o prior fazer das suas.
Ao fim de alguns anos a festa ganhou dimensões muito maiores que a própria aldeia, a televisão descobriu-a e filmou-lhe as diferenças. A exposição mediática ditou o meu afastamento. Começaram a vir pessoas que não tinham por razão de vir o convívio são, com gente tão boa, a conversa com o velho que fazia os balões de ar quente, o programa cultural ou o vinho da terra e, pior do que isso, começaram a ser a grande maioria. Vinham, porque tinham visto na televisão e, quem sabe, podiam também eles ser vistos ou pelo menos, se voltassem a ver poderiam dizer que tinham lá estado.

É difícil explicar aos amigos que me afastei da festa porque já não dá trabalho, porque já tem missa, porque tem muita gente e que dar na televisão tira-lhe força.

A este propósito vale a pena ler uma conhecida crónica de um conhecido autor que nunca fez uma festa mas gostou duma.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Um vulcão na Festa do Avante


Amanhã, sábado, vai estar na Festa do Avante o Vulcão Mayra Andrade.
Conheci Mayra Andrade por acaso. Estava por acaso em Porto Covo e por acaso, numa noite de Verão, vi-me no Festival de Músicas do Mundo. Surpreendido pela revelação, enquanto a ouvia, segredei à minha filha de dez anos:
- Ouve e vive este momento, vais ouvir falar muito desta mulher ao longo da tua vida!
E na continuação da nossa vida temos ouvido muito a sua música e nunca mais esquecemos aquela noite.
A noite em que conhecemos Mayra Andrade e em que nos roubaram a estrela do Mercedes.
Vinhamos a sair do festival e, ao chegar ao carro, constatámos que lhe/nos faltava a estrela. O GNR circunstante apercebeu-se da minha exaltação e abeirou-se averiguador:

- Deixe lá homem! São jovens! Fazem colecção!
- O Senhor guarda não percebe?! Eu preferia que me tivessem levado o carro e me tivessem deixado a estrela aqui no chão!
O guarda deu meia volta - provavelmente ia buscar o balão. Ao longe ainda lhe gritei:
- Ó senhor guarda! Eu só tenho um Mercedes por acaso!
Gostar das estrelas dos Mercedes e de Mayra Andrade não é o meu maior pecado, o meu maior pecado é não ter carro para ir à Festa do Avante!

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Do amigo da loucura lúcida

Tive um amigo que assinava Nuno Albuquerque. Já aqui falei dele. Ontem fui à terra e deram-me notícias dele: ninguém sabe dele mas todos dizem que deve ter enlouquecido de vez. Porque a ele lhe devo alguma da loucura que tenho, transcrevo um texto, dos poucos que me legou e que, por loucuras várias, ainda guardo.

5 para as 3 da manhã do dia 21 de Outubro de 1982
Carta aos irmãos
Quem me chama? És tu lua inventada nas correntes que o meu peito estala com a facilidade dum Super-homem.
Chamam-me cínico pois a fera procura macular o último reduto.
Escrevo para resistir à mágoa, mas não vou parar esta luta para a glória.
Dentro de mim há a força do caos e procurarei não desiludir os apostadores porcos e pérfidos. Odeio os apostadores e a mim só me resta o que veio no meu encalce a buscar aquele puto que as mulheres anseiam mas têm vergonha de exigir. Combato e participo da verdade daquele génio que às tantas da madrugada sangrou na crucificação mais terrível dos últimos tempos.

A vingança é a arma dos sãos e a mentira a ponta da lança a matar os traidores. O Partido será fundado sobre o cadáver do Rei. Este relógio de bolso marca o tempo da solidão que a minha cabeça, transformada em insónia pesada, levanta ao ar para proclamar a ironia - o modelo a seguir por aqueles putos a transbordar de loucura e raiva. A mim putos brancos - darei-vos a vitória destas mãos traídas mas puras. Aquele pénis revelou o segredo e tu choraste por não teres a pistola apontada à sereia. Escrever Escrever até ao infinito desta Terra a pedir chuva e não parar os cavalos nas tabernas saloias que na sua insignificância geram a mesquinhez a inveja e a tragédia deste País a abarrotar de clérigos burros.

Paro para me deitar e ir bater com a cabeça na almofada e rebolar na exiguidade da cama onde trabalhando a Razão me aproximarei de ti Senhor doente que irás rezar ao espírito de um povo o porquê da tortura e dos processos abertos - (tem piada que mais tarde serão revistos) e então muitas cabeças rolarão no asfalto e na praça pública desejando nunca terem nascido - Adiante Adiante Adiante - Vou fumar um cigarro poderoso e assassino. Adeus irmãos até à próxima carta.
Viva o Rei ---- Viva o Rei----

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Dá-lhe gás! Dá-lhe água! Dá-lhe!

Um aumento de gás e água de 283% de imposto cego?!

Como?! - Eu explico! Ou melhor, o Anónimo  tem explicado!
Eles dizem que a taxa de IVA sobre a água e sobre o gás vai aumentar de 6% para 23% (isto se os 23 não passarem para 25!) e nós comemos: um aumento de 17%, portanto!
Porquê então falar em 283%?! Façamos contas: sobre um consumo de 10 euros, nós pagávamos 60 cêntimos - sobre os mesmos 10 euros vamos começar a pagar 230 cêntimos - mais 170 cêntimos, portanto!
170/60 corresponde a 283%! Isto é, não nos comam por tolos, a receita arrecadada em imposto não corresponde a mais 17% mas sim a mais 283% da que antes era arrecadada! Isto, salvaguardando, é claro, o aumento do consumo da lenha, da cêra, do vinho e da fuga aos impostos por embriaguês!

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Leitão da Quinta

Não comentem! Isto é só mesmo para cumprir calendário! O Rei está impávido, pálido, inquieto e sereno!
O Povo está impávido, pálido, inquieto e sereno! O Povo não diz nada mas ouve-se tão bem! Também, a mim, não me apetece dizer nada! Perdi o discurso, a opinião, o estado de poesia mas não perdi a voz! Um dia destes ainda vou dizer das minhas e quem sabe, o Povo volte a construir um mês...

domingo, 7 de agosto de 2011

Quando a asae nasce, nasce para todos

Não gosto da asae. Age com exibicionismo, brutalmente e irracionalmente. Foi na asae que foi descoberto um critério de avaliação que premiava os funcionários que conseguissem fechar mais estabelecimentos!...

Aqui na pocilga quando matamos um porco, entra cada facada, cada cortadela ou cada garfada, há sempre alguém a dizer: olhem se viesse aqui a asae?! Troçamos de quem usa faca e garfo, faz-nos impressão que exista gente que toma banho todos os dias e custa-nos a acreditar que alguém limpe os beiços ou o rabo com papel.
E ...
Acontece que, falando em linguagem ordinária, trata-se do cúmulo ideológico da discriminação, do fim do streap-tease de intenções deste governo! Estes tipos só pensam nos pobres! Porque raio hão-de resguardar essas instituições da fúria da asae?! E os outros, os restaurantes que pagam impostos e criam riqueza, vão ter de continuar sujeitos  ao "fascismo higiénico"?!... 

A não ser que o trabalho da asae seja mesmo sério  e se passe o contrário, que se dispensem os pobres da segurança e da higiene alimentar, nesse caso, acho que deveria haver uma demissão de emergência! Isto apesar de eu não lavar as mãos antes de ir para a mesa!

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Leitão da Quinta

Meus senhores, minhas senhoras, amigos, companheiros e camaradas, estou farto disto!
Farto de quê!? Das férias?! Não! Eu não nasci para trabalhar mas para viver! De Portugal?! Da Vida?! Do Mundo?! Não! Eu gosto de viver em Portugal e de sentir que Portugal faz parte do Mundo!...
Estou farto da blogosfera?! Não! Não troco os meus blogues por qualquer jornal ou folhetim paroquial e os meus Amigos "blogueres", são tão grandes como outros amigos daqui e dacolá, disto e daquilo, são Amigos!...
Estou farto das notícias, do país, da crise, da situação, da conjuntura, das declarações, dos comentários, dos comentadores, dos especialistas, dos analistas, do descaramento, da afronta, da provocação, das soluções, das inevitabilidades, das medidas, das soluções, dos  cortes,  dos despedimentos, da pobreza, da caridade,  dos aumentos, das diminuições, dos índices, das taxas, dos números, dos aumentos, das descidas, das subidas, da merda em que isto se tornou!...
Estou também farto de me chamarem utente, utilizador, cliente, consumidor, colaborador, pessoa, cidadão, português, abusando da minha condição, decidindo e falando em meu nome, e deixando nas entrelinhas que eu, privilegiado, malandro, tenho de pagar!...
Mas em resumo digo, estou farto! Abusando um pouco, estamos fartos!...
Mas não resignados! Privatizem a puta que os pariu! Vendam as estradas, as pontes e as fontes! Façam dos Jerónimos um centro comercial e do mosteiro da Batalha uma casa delas! Que seja heresia o termo "serviço público"! Que a Nação  não tenha nada Nacional! Que concorram ao governo - se não é isso que já está a acontecer - grupos económicos e que se entregue o governo e a assembleia a grupos privados! Grupo Amorim - 10 deputados! Grupo Belmiro - 7 deputados! Grupo Balsemão - PSD! Grupo Mota-Engil - PS! Lobbie Gay - CDS!
E depois, só para justificar a democracia, um activista de esquerda vai à televisão fazer umas declarações, no enquadramento que se achar mais desajeitado, acerca de uns trabalhadores que julgavam que a fábrica ia durar sempre!...
Isto são outros tempos!
Talvez sejam! Mas contra rumos, rimas e marés, este blogue não dobra! Contra todos os Passos! Anuncio-vos a nacionalização deste Blogue! Porque este blogue é um serviço público, este blogue passa a ser, a partir de hoje, propriedade do Estado! 
Estou farto disto?! Eu estou de férias!... Mas estou farto disto!... É natural que a partir de agora, em vez de andar por aqui a partir destas, começe a andar por aí a partir de outras!
Rei da Nação, Nacionalizado, Não Resignado!

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Leitão da Quinta

Já me tinha esquecido que era quinta, julgava que era sábado. Sou um sujeito de compromissos banais. Comprometi-me em dar leitão à quinta e todas as quintas aqui estarei com porco.
Ah! Pois!... Depois do "e tudo o vento levou", este filme deve ser dos mais conhecidos entre nós. Veio-me parar aqui de outros tempos deste reino. O argumento é este: dinossauros da política?!
Visto de dentro, da direita para a esquerda, Cavaco, Passos e eu. Com que então dinossauros?! E que dizer daquele rei que come cebolas ao pequeno almoço?!

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Suspensão da avaliação dos professores

Cá por coisas, nunca foi meu hábito falar por aqui de educação. Mas, porque me deslizei na mensagem anterior, porque sinto um silêncio ensurdecedor, vou escrever.
Há pouco mais de dois meses a votação parlamentar de projectos parlamentares pela suspensão do actual modelo de avaliação de desempenho de professores, deu tema aos jornais, fez desfilar a boca de comentadores, entusiasmou blogues do ramo e até foi discutido em cafés e em salas de professores.
Hoje,  sobre a votação de diplomas idênticos, em situações idênticas, paira um silêncio suspeito! Idênticas, quer dizer, o governo já não é o mesmo e, pior que isso, já nem há sinais dos tradicionais opinadores. No parlamento foi assiml:
- O PCP, igual a si próprio, adaptou às circunstâncias um novo diploma e desmascarou o PSD.
- O BE, como é seu hábito, pegou na iniciativa do PCP e acenou aos media.
- O PS, com sentido histórico, deixou claro que continua a não ir com os professores.
- O CDS, à sua maneira, desenfiou um nim para não desagradar ao noivo.
- O PSD, igual a si mesmo, confirmou que ganhou o jeito de desdizer o que dizia há meses.
Para os que votaram contra e para os conformados do senso comum, o argumento é que estamos no fim e já vem aí outro modelo para avaliar os malandros dos professores. E fico com o exemplo de Santana Castilho que é mais ou menos assim: "se a receita está errada é sempre um erro tomar a dose até ao fim".

domingo, 24 de julho de 2011

Relatório de auto-avaliação preenchido

Professores não querem ir para férias sem fazer o seu relatório de auto-avaliação.
Não tenho uma boa notícia mas tenho um bom e-mail que recebi:

Pessoal, tenham calma, passem o fim de semana como se não fossem professores, não entrem em paranóia, não se enervem com a elaboração do relatório de auto-avaliação. Na próxima quarta-feira, 27 de Julho, vai ser votado na Assembleia da República o diploma do PCP pela suspensão do modelo de avaliação dos professores e, contrariamente ao que muitos dizem, pode ser que o PSD não seja igual ao PS e mantenha a posição que tinha há três meses atrás.
O relator


sexta-feira, 22 de julho de 2011

Cimeira do Euro

- Querido, hoje fui ao mercado e ganhei 10 euros!
- Vendeste o cão?!
- Não! Comprei uma saia por 20 euros que a semana passada custava 30!
- Ora! Tu devias era usar calças!... Como os homens!
E isto tudo por causa de uma notícia que avançava que Portugal ganhou hoje não sei quantos milhões porque os juros desceram não sei quantas décimas!...

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Leitão da Quinta

Neste tempo em que os porcos triunfam deitando sobre as nossas vidas os seus dejectos, que o povo derrame sobre eles a sua sabedoria e os engorde para depois, os sangrar!!!....
Ghibli
A cada porco o seu ditado:
Porco fresco e vinho novo, cristão morto.
Porco magro é que suja a água.
Porco que tem fome, sonha com bolota.
Porco rabão nunca enganou o patrão.
Porco safio, porco de brio.
Porco velho não se coça em pé de espinho.
Porcos com fome, homens com vinho, fazem grande ruído.
Porco fiado todo o ano grunhe.
Porca de um ano, cabra de um mês, e mulher dos dezoito aos vinte e três.
Em Janeiro, um Porco ao sol e outro ao fumeiro.
Morto por morto, antes a velha que o porco.
Mulher que assobia, ou capa porcos ou atraiçoa o marido.
Quem com farelos se mistura, porcos o comem.
Quem com porcos sonha, até o mato lhe ronca.

Ainda a  propósito dos que nos governam:
"Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas, para não acontecer que as calquem aos pés e, voltando-se, vos despedacem." (Mt 7:6)

terça-feira, 19 de julho de 2011

Lembrei-me de Torga

Lembrei-me agora que não me lembra a primeira vez que ouvi falar de Miguel Torga. Mas lembrei-me dele e...

Tive, no liceu, um professor de Português, residente em Coimbra, que se aventurou a conseguir de Miguel Torga uma entrevista cujo fim era fazê-la ouvir aos seus alunos.
E lá estou eu tão perto de Torga, de ouvido esticado, a tentar perceber do som fanhoso da cassete rasca, umas ideias – já mais que carcomidas pelos anos – acerca do lugar de um Deus incerto, numa certa existência, enfim, coisas que nos interessam tanto na adolescência. Ficou pelo menos a recordação do episódio, a proximidade e dedicação exclusiva dos trinta minutos do Poeta para uns trinta da turma – para o caso convém acreditar que o bom professor teria só uma turma – e uma simpatia continuada pelo nome impresso Miguel Torga.

Já nem vou falar pelas passagens na Portagem de Coimbra – sítio onde devo já ter passado em todas as horas das vinte e quatro que têm os nossos dias – em que havia tantas vezes uma voz mais poeta, pacata ou etilizada que dizia:
- Olha! Aquela é a janela do consultório do Miguel Torga!

Anos mais tarde, um amigo, missionário jesuíta em Moçambique, pediu-me a mim e à 4L para o acompanhar na recolha de uma encomenda nas oficinas da diocesana Gráfica de Coimbra. O padre gestor conhecera-o em Maputo e a caridade dera-lhe para a oferta dos títulos de direito que quisesse para enriquecer a biblioteca do colégio africano. Confessou-me, o amigo, que era na formação da advocacia a sua aposta, por ser a de mais interesse na desejável ligação da Igreja à coisa política.
E lá entrámos nós oficina adentro,
- Podem levar os que quiserem desde que não estejam em paletes completas!
Nunca na minha vida havia estado no meio de tanto livro e tragédia maior nenhum do meu interesse. Minto, de encadernação modesta, capa branca, “Miguel Torga – DIÁRIO – XII – 3ª edição revista – Coimbra”, aos montes.
Era a oportunidade de fazer a cobrança do meu frete, os amortecedores de traz em baixo, mas pelo menos seis exemplares não os poupei aos padres, por direito!
Serviram-me para oferecer de mão beijada quatro e tenho agora dois, acabo de verificar. Dois filhos. Pelo menos aí não deve haver contenda na divisão da herança! Como eu me orgulho deste roubo!

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Se quisermos podemos voar



- Quem é que mandou o avião de papel?!
Quem nunca foi autor visado pela professora por um arremesso destes, nunca andou na escola! Todos nós já sonhámos uma vez durante o sono que voávamos. É humano o desejo de voar.
“… que distante vai o tempo em que João Baptista Torto, enfermeiro, barbeiro e sangrador se lança para o ar e… para a morte, da torre da sé de Viseu, com dois pares de asas presas ao corpo. Foi há aproximadamente 400 anos.”
“… numa longa série de pioneiros da navegação aérea, costuma encabeçar a lista o padre português Bartolomeu Lourenço de Gusmão que, a 8 de Agosto de 1709, conseguiu elevar-se de uma passarola, numa experiência realizada em Lisboa”
E outros, por esse mundo fora, foram insistindo até aos dias de hoje.
Afinal não se conseguiu voar a bater asas, o Zeppelin falhou  mas o céu está cheio de aviões.
É por isso que eu continuo a acreditar numa sociedade socialista! A minha dúvida é:
-Poderá este texto ser um avião de papel?!

Portugal vai de tratorinha, tiraram-lhe as rodas e tentam convencer-nos que vamos andar! Conseguiremos pôr isto a voar.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Leitão da Quinta

Depois de ler isto, não conclua que me falta um parafuso mas sim uma porca.

Estou farto disto! Não me apetece escrever! A web transborda de palavras e imagens! O facebook, tenho dito, é uma espécie de grande superfície comercial que abafou as tabernas e merceerias da blogosfera! Já não se trata de não poder competir, a verdade é que tenho a sensação de não ter nada para vender e, muito menos, para dar! Toda a gente bota sentença e opinião e eu transformei-me numa espécie de D. Duarte de Bragança destes espaços, com pose e graça mas sem trono e sem reino.

Estou em estado blogo-depressivo. Tenho um profundo respeito e admiração por toda a corte, a perfeita conciência que os tempos que correm é dos porcos que rodopiam à nossa volta, razão determinante para continuar.

Rei dos Leittões! Na verdade, leitão é o meu prato preferido mas longe de mim, o apetite ser motivo eloquente para determinar um título tão popularucho!

Eu levava a lavagem, tirava o esterco, punha mato e pegava com valentia de forcado o porco quando era para capar ou para matar.
A nossa casa não era casa de lavrador de parelhas, além das quatro ovelhas, só tínhamos mesmo a porca.
A porca, se não adoecesse e eu tivesse que lhe abrir a cova, era assunto em que eu me fazia homem!
Levar a porca, para vender os bácoros, até aos 12. A minha mãe com uma saca de milho e um baraço atado à perna traseira da mãe suína e eu, atrás, com uma verga na ninhada! E quando vinha um carro?!... O desembaraço para arredar caminho, tinha que ser rápido que o homem era de outra condição!

Depois, no largo, a mãe deixava as deixas de preço e o "vem já" e ia fazer a sua volta. E eu ficava ali crescendo com a feira, convencido que o meu futuro passaria sempre por ali. Creio que cheguei, eu próprio, a vender os bácoros, talvez um tio por perto tivesse vindo acertar ofertas, quase sempre e naturalmente a minha mãe fechava. Mesmo que fosse só a porca-mãe, por bom negócio, que voltasse casa, a estrada de regresso era um tormento – fosse um burro e bastaria um arre para que ele compreendesse o alívio que é retornar ao lar.

Vem daqui a minha proximidade com os leitões. Depois, a simpatia especial por aqueles labutadores de churrasco que se auto-coroam Reis.

Rei dos Leittões só com um t?! Não dois tês:
O Google, a princípio, incrédulo, perguntava - será que quereria dizer Rei dos Leitões?
Agora já não! Já se habituou! Experimentem! Esta é a prova de que este blog até o poderoso motor do Google dobrou!
Se o leitor é amigo, estará ainda a correr o scroll lock e a pensar com o seu dedinho rolante -onde é que isto vai parar?? Se tem como intento um fim, evita de continuar! Faça-me um obséquio, deixe um comentário com o texto “fui dos tais” – deste modo poderei quantificar os que passaram muito além da quinta linha!

A minha saudosa mãe tomou sempre como rumo para os seus filhos, um futuro com comida. Como poderia ter sonhado, que o facto de me ter delegado parte da responsabilidade da suinicultura, teria dado origem a tão intelecta reflexão sobre a génese e existência dum blogue! Talvez seja mesmo a comida que nos faz banais!
Hoje comi mesmo bem!... Comi leitão!
Serve este post para mostrar que, não sendo possível, um porco andar de bicicleta, pode andar na corda bamba! Que farei com este blogue!? Olhem, vou cagueando!


domingo, 10 de julho de 2011

Como eles me põem

Eu creio na transmigração das almas
por isto de Eu viver aqui em Portugal.
Mas eu não me lembro o mal que fiz
durante o Meu avatar de burguês.
Oh! Se eu soubesse que o Inferno
não era como os padres mo diziam:
uma fornalha de nunca se morrer...
mas sim um Jardim da Europa
à beira-mar plantado...
Eu teria tido certamente mais juízo,
teria sido até o mártir São Sebastião!
E inda há quem faça propaganda disto:
a pátria onde Camões morreu de fome
e onde todos enchem a barriga de Camões!
Se ao menos isto tudo se passasse
numa Terra de mulheres bonitas!
Mas as mulheres portuguesas
são a minha impotência!

in Cena do Ódio - Almada Negreiros

lembrei-me daquela:
- o que pensa do Almada-Negreiros?
- X

sábado, 9 de julho de 2011

Eles são inteligentes

A melhor maneira de acabar com o desemprego é facilitar os despedimentos e pôr os desempregados a trabalhar.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Leitão da Quinta

O porco faz esterco, o esterco é fertilizante. Podiam-nos ter chamado esterco em vez de lixo. Só há uma solução, obrigar os porcos a comer o lixo e depois pô-los a fazer esterco.

Seguidamente, comê-los a todos para acabar com a merda.

E, finalmente...
Acabar com eles!

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Como eles resolveram o problema

Cortaram vencimentos, subsídios e aumentaram os impostos. Criaram um governo de maioria e muito liberal. Seguidamente, novamente, cortaram os vencimentos, subsídios e aumentaram os impostos e, finalmente, os mercados acalmaram!...

terça-feira, 5 de julho de 2011

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O ponto de vista deles

Se as pessoas deram cabo da sua saúde com abusos alimentares, a resposta médica não cabe ao Serviço Nacional de Saúde.

domingo, 3 de julho de 2011

Olha para eles

Ainda mantêm o ar de quem estreou um carro novo, ainda estão na fase de o molhar com os jornalistas e, para já, só tomam medidas. Não querem tomar mais nada?!

sexta-feira, 1 de julho de 2011