Domingo, 4 de Março de 2012

Artes novas

Quinta-feira, 1 de Março de 2012

DEMOlição do conceito de poesia

Porque estou farto de crise; porque, como realeza, me apetece sair da realidade; porque a corte precisa da cultura do banal; porque um comentador do reino ousou, há duas ou três mensagens atrás, desafiar a intocabilidade do Rei sem sequer usar o devido trato de Majestade; porque me apetece falar de poesia; porque sim - declaro aberta a discussão palaciana súbdita ao tema: "o que é poesia?"

Comecei os meus estudos de poesia na análise académica das poesias de amor, escárnio e maldizer dos meus pares medievais e pergunto: aquelas bacoradas do Dinis são poesia?!
Andei de desafio em desgarrada nos montes e tabernas dos poetas populares e pergunto: fazer rimas, é poesia?!
Vivi a poesia do amor de mãe, do canto das aves, das árvores e dos vales, das pessoas bonitas e pergunto:
será a natureza poesia ou vice-versa?!
Estudei os ditos "grandes poetas" portugueses e estrangeiros e fiz deles companhia de cabeceira, cantei, chorei, amei, enlouqueci com eles. De os entender nos seus múltiplos entendimentos, desmultipliquei-me e desentendi-me, desentenderam-me, dei comigo perdido no meio de todas as palavras e de nenhumas sensações, rejeitado pelo senso comum de maus leitores.
Por isso não me peçam definições de poesia, não me ditem regras, não me digam o que é e o que não é. A poesia é tudo e não é nada! Quereis poetas dos livros, comprai-os! Quereis poetas do povo, ide às tabernas! Quereis sentir o canto da natureza, saí da cidade! Quereis sentir as ruas versejando, saí do campo! Quereis conhecer o maior poeta de todos os tempos, embora não reconhecido por ninguém, leiam-me!

Na tropa eu tive a alcunha d" O poeta". Parece que ainda ouço as palmas do pelotão quando acabei de recitar este poema no jantar da passagem a pronto:

"Estive na cidade dos homens azuis,
fica no céu. Aquilo é que são homens!
Mas eu não os vi, porque, o céu também é azul.

Gostava de lá voltar com todo o respeito
que tenho pelo meu namorado
mas, o respeito que tenho pelo meu namorado,
recusa-se a ir a pé!
Foi por isso que roubei uma bicicleta a um empregado da câmara municipal,
fui presa, ainda não percebi porquê!

Os homens azuis são como eu nunca os vi,
são como o meu namorado...

(poema oferecido pela minha namorada ao seu namorado)"

Cuidado com os homens que são dados como poetas pelos soldados!
Este é o melhor poema que fiz em toda a minha vida! E, se este não fôr o melhor poema que leram em toda a vossa vida, vós estais do lado errado da poesia! Se para vós, isto nem sequer é poesia, então meus caros, vós sois lúcidos demais para a alma do poeta! Nem no epitáfio merecereis um verso meu! 

Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012

Quarto 24

À medida que crescia a barriga de Tânia, crescia também a sua melancolia e a de Carlitos; à medida que evoluíam de tom as discussões entre dona Graça e Virgolino, notava-se um mau estar de relação à beira do colapso; à medida que se tornavam mais confusas as relações entre mim e Gina, tornava-se-me cada dia mais claro que chegara a hora de eu bater com a porta. Também eu andava desacorçoado, começava a perceber que estava a mais.

Pressenti a despedida quando, uma noite esvoacei pela cidade com Virgolino, esse desencaminhador, até chegar a casa com uma de caixão à cova. Num estado lastimável, encontrei-me a sós com a sanita. Sentava-me para obrar, apetecia-me vomitar, virava-me e enfiava a cabeça na sanita e apetecia-me outra vez a outra coisa… andei ali às meias voltas e nada, nem dum lado nem do outro, nada saía!

Que noite mal passada. Pela manhã regressei à casa de banho para me recompor com uma chuveirada. Fechei a porta. Longe de mim imaginar que ia ali encontrar a razão que me levaria a decidir definitivamente abandonar o número sete. Não existiria motivo mais forte que pudesse justificar a minha determinação. Corri a cortina da banheira, lá estava, o motivo, a justificação, a razão. Nada que pudesse ser explicado mas algo que ficaria para mim como um segredo. O segredo que me libertou das minhas três mulheres. Nesse momento, percebi que deveria de existir mais vida para além daquele quarto com as paredes pintadas de vermelho e buraco de fechadura em forma de coração.
A banheira com um palmo de água e, ali estendido, indiferente a todas as regras e preceitos, um bacalhau de molho.
Pensei na tão apreciada cozinha de Dona Graça, acalmei-me pelo facto de só pontualmente ter comido lá em casa mas porra, era um bacalhau!... Como português, eu tinha um grande respeito pelo bacalhau, o bacalhau, esse símbolo da alma lusa!
- Tomo banho!?... Não tomo?!... Deixo estar o bacalhau?!... Não deixo?!... Penduro-o onde?! – hesitações que me faziam lembrar a situação que vivera durante a noite com outra peça dos sanitários.
E o bacalhau? Tomar banho com o bacalhau?
Pergunto ao leitor o que fazer perante uma situação destas? - Simples: quarto 24 FIM

Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012

Se não fosse o facebook juro que não me lembrava


estou cheio!...para meio entendedor... nem uma palavra!

Domingo, 26 de Fevereiro de 2012

Gato por leitão

Falemos de gatos. Tenho encontrado com frequência blogues com fotos e mimos de gatos e gatas. Gosto de engatar na actualidade. A minha vizinha tem sete gatos que vagueiam entre a sua casa e a minha, de modo que nós já desistimos de reclamar propriedade aos gatos, são cá do sítio e pronto! Além de não incomodarem vão dando conta das cobras e dos ratos, respeitando o leitão e o cão que, por uma razão que só os pequenos sabem, se chama Gato - é um nome estranho para um cão mas nestas coisas de baptismos de animais é natural que sejam as crianças a escolherem os nomes!...

Lembro-me de ser jovem e sonhar com uma casa na floresta que fosse protegida por centenas de gatos. O destino acabou por me trazer aos porcos mas continuo a não resistir à felinidade da vida, das coisas e das pessoas.

“Poema de amor ” - ou de adolescência?! e pronto (digo) porco...

adoradores de cabrões seduziram a minha vara
nem moscas, nem pombas escaparam à ira do animal homem
acarinhei duros toucinhos
reflecti grandes projectos
fui vento velando sobre todas as famílias

eu majestático sentado em tronco d’oiro
à minha direita a serpente
à minha esquerda a gata

ainda hoje a serpente dança num bar no oriente
e a gata vagueia pelos muros da cidade

a serpente morrerá na guerra
a gata será atropelada

ainda hoje um mercador de capa negra
vive obcecado pelo poesia do indecente
como se o rosnar do tambor
ditasse a serenidade do combate
como se o calor vagabundo
matasse a nostalgia da noite

a serpente transporta os seus soldados
a gata agasalha a sua mente

(deixaste-me só...
nas mãos da serpente
deixaste-me apenas...
miando a inteligência das tuas palavras)

Sábado, 25 de Fevereiro de 2012

Discurso cruel

Dizem que temos de trabalhar mais e despediram-me?!

Mas vou ter um gestor por minha conta:
Segundo percebo, isto vai ser assim:  eu estou desempregado mas dou emprego a um gestor, depois arranjo emprego como gestor do meu ex-gestor que, entretanto, perdeu o emprego porque eu deixei de ser desempregado e assim sucessivamente enquanto nenhum dos dois emigrar para o Canadá.

Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

Entrevista com Zeca Afonso



"O problema é que os direitos formais têm cada vez menos conteúdo prático. As liberdades formais não servem para nada se não tiverem consequências no dia a dia das pessoas. Teoricamente não há censura, não existe repressão policial ao nível da política, pode-se portanto falar, escrever, etc. Mas os mecanismos de coerção e discriminação permanecem. Mais subtis, mais pulverizados, mas permanecem. O que não quer dizer que eu não preferia a democracia formal ao fascismo, é evidente. Mas no fundo a liberdade é antes de mais nada a liberdade de se viver melhor. Por isso a liberdade para o doutor Mário Soares é uma coisa e para o tipo que está sem salários ou sem emprego ou sem casa é outra. Em quase toda a região de Setúbal há fome, mulheres casadas e raparigas prostituem-se para comer. Que sentido faz falar a estas pessoas da liberdade da democracia? Claro, há uma data de gente que vive melhor do que antes do 25 de Abril, mas à custa de clientelismos partidários e favores políticos que não afirmam propriamente os trunfos dum regime. (…)"
A entrevista na íntegra em: http://livratemundo.blogspot.com/

Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

Quarto 23

Quarto fechado. Hoje não há quarto. Perdi as chaves do quarto? Não, provavelmente foi Gina que as escondeu! Dificilmente as encontrarei e não sou moço de arrombar portas.
Espreito pelo buraco da fechadura em forma de coração. Vejo apenas o espelho do roupeiro. Odeio aquele espelho. A última vez que me fixei nele passei-me, eu e os meus sentidos, para o lado da imagem. Dei pelo meu físico no meio do quarto, de pernas a tremer e à minha espera. E eu, ao mesmo tempo contente por tamanha proeza e ao mesmo tempo, com pressa, com receio de não conseguir regressar. Saí da imagem do espelho ao fim de alguns instantes e fui para a cama mas não consegui dormir durante a noite com os meus pensamentos a cheirarem a naftalina.
Julgo que por detrás deste acontecimento estará o facto de alguns cigarros do Virgolino não terem marca.
Julgo que começa a transparecer, pela fluência do texto, mais um motivo pelo qual hoje o quarto está fechado.

Julgo que isto já deu o que tinha a dar! (Basta ver que os últimos parágrafos começaram por “julgo”). Esperava-se que o quarto descambasse em romance, em paixão, em sexo sobre sexo, em tragédia, em comédia, em diário, em história apaixonante – não deu nada disso e, por isso, deu nisto. Na incentivadora opinião dos estimados comentadores: foi um folhetim.

Só uma última espreitadela na história: Dona Graça era muito mais velha do que eu - tinha trinta e tal anos. Hoje, eu tenho muito mais do que isso, logo, a Graça era uma moça nova. Pena que na altura eu não tivesse idade para perceber isso.
“Oh tempo volta para trás
Dá-me tudo o que perdi
Tem pena e dá-me a vida
A vida que eu já vivi”


Isto não pode acabar assim: para a semana haverá mais quarto

Domingo, 19 de Fevereiro de 2012

Alguém que explique ao Cavaco como é que se fazem os bébés

Crescei e multiplicai-vos. Multiplicai-vos e enchei a Terra. Foi por estas e por outros que abandonei o seminário! A convicção com que acatava o evangelho e as regras de obediência que a doutrina me ditava, fizeram-me abandonar os votos de celibato e castidade! A mancebia completou o desejo e trouxe com ela algumas interrogações:
- Porque não cumpriam os padres pregadores a ordem bíblica? Porque não deixou Cristo descendência? "Ouve o que eu digo e não olhes para o que eu faço", não era ditame suficiente para me convencer mas acabei por compreender, conhecendo eu bem o trato dos homens dos altares, que os mesmos não teriam muito jeito para criar. Por outro lado nos tempos do Outro, o JC, deveria ser claro para os mortais, que mais umas almas no planeta animariam a evolução da espécie.

Estamos agora no século XXI e a palavra de ordem continua a ser a mesma: "têm de fazer mais filhos!" E pasme-se, no planeta hiperpovoado, agora sim, a razão não poderia ser mais esfarrapada, hipócrita e egoísta: "são necessários novos contribuintes para sustentar o sistema da segurança social!"
De tempos a tempos, lá vem um "mosfet" com funções de governança, clamar ou anunciar medidas de apoio à maternidade e à paternidade. Na conferência ‘Nascer em Portugal’, Cavaco Silva convidou vários cientistas a apontarem soluções para que nasçam mais bebés. Eu explicava-lhe senhor Silva, como se fazem os bébés, mas como não temos a mesma educação, receio chocá-lo com a descrição dos actos em consequência dos quais aparecem novos portugueses! Pronto, isto é por "coisa e tal" como diz o meu puto!

Escárnio dos escárnios, estes senhores insistem na sua preocupação social, ao mesmo tempo que anunciam a inevitabilidade do fim daquilo a que ousaram chamar estado social; ao mesmo tempo em que assassinam os direitos que trabalhadores e famílias fizeram registar em décadas de luta; ao mesmo tempo em que legislam para penalizar a mãe ou o pai que falta ao trabalho para cuidar da saúde dos seus filhos; ao mesmo tempo em que desmancham abril qual porco em dia de matança, vêm com uma mão no microfone anunciar dar, aquilo que tiram com a outra.
Ninguém faz um filho por razões políticas mas pode usar-se um preservativo por razões sociais.
- Filho, vou fazer-te mas aos dezoito anos brasil contigo!?
- Filho, vou ter-te mas terás de crescer numa república sobre a presidência do senhor silva!?
- Filho, vou criar-te mas não poderás contar com um país que estima os seus filhos?! 
Ninguém pensa nisto quando decide a vida! Senhor Cavaco, os filhos não se fazem por regra de decreto nem se criam como os seus bem abonados afilhados! Os filhos, regra geral, nascem de desejos de dois e não por desejos de terceiros da silva ou promessas de mantos de pêlo de coelhos!
Creia, não vai ser pelo país que criásteis que vai deixar de ser bom nascer em Portugal! Nós vamos continuar a nascer mas não pelos seus estímulos! O senhor Silva é um anti-afrodisíaco! Isto para não utilizar uma linguagem mais portuguesa: "o senhor tira-nos tesão!"
... mas ainda sobra muita para a vossa impotência!

Sábado, 18 de Fevereiro de 2012

Três males e um só remédio

Não é só o mal de estarem a dar cabo da economia nacional, alguns deles são suficientemente estúpidos para acreditarem que as coisas se resolvem assim. Não é só o mal de estarem a atirar milhares de portugueses para a pobreza, alguns deles são suficientemente insensíveis para resolverem a sua consciência com umas sopas. O mal, é que muitos deles, parecem agir com um certo ressentimento histórico, como se tivessem prometido ao avô que tanto sofreu com o 25 de abril:
- Um dia iremos recompor este país!...
Essa recomposição, formalizada em iniciativas políticas sempre dirigidas  aos direitos (privilégios e regalias -chamam-lhes eles com descaramento)  dos mais pobres, acontece encoberta pela ideologia da crise.
As vítimas perguntam ao fim da notícia de cada medida:
- Mas o que é que isto vai resolver?!
Falta-lhes perceber que isto não é só uma questão de políticas, há uma geração, filha de gente que adorou o Estado Novo, que está a ajustar contas com a revolução de abril. Perante estes factos, só há um remédio:
luta de classes!
Não, não são fascistas! São menos do que isso!

Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012

Nada cabrão

Nada me ocorre
Nada me tem
Nada me inspira
Nada me vem
Nada me leva
Nada me vai
Nada me educa
Nada me instrói
Ai que me dói
Estou muito mal
Crise nos ossos, na figadeira
Crise nos cornos, intestinal
Crise no cu, hemorroidal
Crise de diarreia
Crise financeira
Crise europeia
Crise nacional
Crise de emprego
Ai se eu te pego
Eu te devoro
Às vezes choro
Às vezes rio
Às vezes imploro
Às vezes vou
Ás vezes venho
Por vezes vou ao bar da Associação e digo sou
Eu que vos ouço a dizer que devia ser assim e assado
Eu que vos ouço a dizer que se devia salvar o estado
de abril que está ser roubado
E a malta acha que se deve revoltar
Mas nem sequer um passo de marcha
Nem ao menos um minuto de greve
Dizem que tem de haver revolução
Em cima de nós não
Cavaco é um cabrão
Que foi aqui chamado só por causa da rima
Tem um ar terno de parvo espertalhão
Este governo dói-me
Tanta estupidez, tanta resignação
Tanta afronta, tanto conformismo
Nada me dói, nada me pega
Ninguém me instrói
Há gritos na rua

Nada ela nua – pronto, estraguei o texto todo!
Não, ainda tenho mais um rima:
Lua

Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012

Quarto 22

A partir do dia do Quarto 21, Gina passou a dormir no meu quarto. O divã polivalente da sala não estava em condições nem tinha enquadramento para servir em permanência as pernoitas da menina. Segundo as previsões da dona da casa, mais dia, menos dia, pelo andar da carruagem, as coisas desencarrilhariam e Virgolino teria de retomar o comboio para Fafe. Aquilo não era homem para se aturar por muitos dias. Por isso, sabendo que entre mim e Gina existia um entendimento de irmandade, pedia-me encarecidamente que “compreendesse” a situação e aceitasse o incómodo em nome da relação familiar que nos unia.
Eu sabia lá se éramos irmãos!? Pelas minhas contas, nem a proponente acreditava nisso! Ela, senhora de olho, deitava a filha na cama ao lado da minha mas, certamente, que tinha alguma na fisga: “este rapaz tem futuro… pode ser que… bem conheço os seus apetites… não resiste a certas cheiros e a certas curvas…”
Enfim, Dona Graça colocava-nos aos dois no mesmo quarto, como quem põe dois passarinhos na gaiola e aguarda que estes acasalem. Isto era eu a pensar!
Na prática, Gina saíra-me muito difícil. Foi já contado de soslaio que, ocasionalmente, se geravam algumas humidades entre os dois mas, no quarto do humilde hóspede, as investidas acabavam sempre em estaladas desconfortáveis ou em ameaças de “eu vou dizer à minha mãe!”
Para animar ainda mais a luta que travávamos, por vezes, enquanto eu estudava, Gina abeirava-se-me nas costas da cadeira, fazia-me umas massagens no pescoço, enfia-me as mãos pelo peito abaixo, eu levantava-me, deitávamos sobre a cama e chegados a um certo ponto, lá estava o pobre estudante vitimizado por um dos desfechos relatados no parágrafo anterior. Outras vezes o contrário, avançava eu com as minhas mãos e os meus trejeitos mas era sempre o mesmo o fim do filme.
Para compor ainda mais a luta que travávamos, todas as noites se ouviam, dos dois quartos dos dois casais vizinhos – para quem não se lembra: Graça e Virgolino, Tânia e Carlos – a actividade de leitos que cumpriam a sua função mais nobre.
Era o “eu” mediterrânico que estava a ser posto em causa. Ninguém acreditaria, nem a minha santa mãe se o soubesse, que no meu quarto dormia uma rapariga e que eu nada! …
Pensamentos contraditórios assolavam-me o desejo e a cabeça: nem Gina era para mim nem eu para ela, para quê insistir? Mas que sentido, que razão, que destino nos fazia aos dois partilhar um quarto tão exíguo?! E depois, verdade seja dita, Gina sabia equilibrar o quotidiano com os ingredientes próprios de uma relação de irmãos.
Ultrapassou as marcas na noite em que à luz ténue do visor do rádio, já os dois em posição de adormecimento, me fez perceber, intencionalmente, que desenvolvia uns movimentos de auto-satisfação.
Levantei a cabeça como quem pergunta “mas o que é que se passa para aí?!” e recebi resposta:
- Livra-te de saíres da tua cama?!
Lá aguentei, num terrível suplício, a provocação, para ouvir no final:
- Então Cabitche, gostaste? Fez-te algum efeito?!
Fiquei calado e calado adormeci envolto em pensamentos que nem conto porque qualquer um advinhará com facilidade. Que raio de rapariga aquela! Como é de lei, a dificuldade aguçava o apetite. Quer perante os da casa que conviviam com a situação, quer junto dos amigos e familiares que nem a sonhavam, uma caldeirada de sentimentos e pensamentos absorviam o meu ego masculino: orgulho da minha pureza, vergonha da minha impotência, a Gina quase irmã, a Gina quase mulher, o gostar e o feminino, o sexo cru e o amor…
Sei que a história ficaria mais composta se contasse que numa noite mais fria a provocadora se veio enfiar na minha cama, nos meus cobertores, em mim e sem grandes surpresas lá vencemos a pureza e demos cumprimento à inadiável iniciação. Mas isso nunca chegou a acontecer. Definitivamente, repito, nem Gina era para mim nem eu para ela.
(Na próxima semana o Quarto continua)

Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012

Porque hoje é Dia da Rádio

Tinha de regressar a Portugal, não suportava mais as saudades da mulher e dos dois pequeninos.
- Vou amanhã! Podes pagar o que me deves?
- Este rádio serve?

Além do fogão passámos também a ter rádio. A minha mãe era uma devota do aparelho. O rádio tem um aspecto bem francês e, na altura, o seu design dava um ar de modernidade à casa. A minha imaginação de pequenino, por vezes, punha-se a divagar sobre o que se passaria no seu interior oculto. Fartava-me de espreitar pela grelha de ventilação, parecia-me ver uns bonequitos em miniatura, insisti bastante mas nunca consegui autorização para abrir a caixa e desvendar os seus mistérios humanóides.

Era difícil a Guarda Republicana surpreender, ainda vinham a léguas a jusante, multando aqui e ali pelas duas razões de sempre - por tudo e por nada – e já um qualquer voluntário mensageiro trouxera à aldeia o “toque de esconder”. Nas tabernas, nos pátios, nas casas e em outros sítios haveria sempre alguma coisa para disfarçar ou para esconder.

- João, leva o rádio daqui, vai ao leirão de baixo e esconde-o no milheiral.
Não me recordo de haver tempo ou expressões para porquês, devo ter tido uma revelação súbita de consciência política. Quando o par de fardas armado passou à minha porta, a minha mãe fez de conta que mexia uns feijões que secavam ao sol em cima de uma manta, eu fiquei, firme e vertical, na berma do caminho, como quem assiste a um desfile militar, e era! Eles nem sequer dispensaram o olhar à minha criança.

Um rádio destes tinha de continuar, sempre vivo, no espólio da família. Há mais de quarenta anos que não se cala, os Parodiantes de Lisboa, o Badaró, o Simplesmente Maria, as canções de Abril, os noticiários do PREC e os tempos de Antena da AOC (Aliança Operária e Camponesa), o Rock em Stock, o Café Concerto, o Passageiro da Noite, a História Devida, um rádio que acompanha a história sem RAM, sem ROM, sem disco rígido, sem memória – é na ausência de memória e na sua dimensão temporal que reside a sua grandeza.

Só esta grandeza tem permitido que eu, de vez em quando, durma dentro do meu rádio afrancesado que me calhou em sortes. Costumo deitar-me no primeiro andar de amplificação, com a cabecinha radiouvinte recostada num condensador electrolítico de 15 microfarads e com os pés sobre uma resistência da ordem dos mega-ohms. Antes de me deitar desligo os terminais do altifalante e adormeço a ouvir o som directamente do transístor bipolar BC557.

Viva o meu rádio que muda de pilhas de seis em seis meses, que diz o que outros dizem, que toca todas as músicas, que é meu por herança, que não tem memória e que faz com que as pessoas pensem que quando eu falo dele é porque não tomei os comprimidos! Maluco eu? Maluco só se for pelo meu rádio!

Sábado, 11 de Fevereiro de 2012

Fui e não te vi

Fui e não te vi porque eram muitos iguais a ti e a mim. Com certeza, se fossemos só os dois nos teríamos encontrado. Fui e não te vi porque não pudeste ir. Com certeza se pudesses terias ido e terias estado comigo. Fui e não te vi porque não te apeteceu ir. Com certeza que nunca irás perceber que estas coisas não vão por apetite. Fui e não te vi porque não estás para aí virado. Com certeza que já percebi que faz parte da minha luta acordar a tua consciência. Fui e não te vi porque estás do outro lado. Com certeza que ambos já percebemos que estamos nos lados opostos do campo de batalha.
Ir com muitos pés. Ver com muitos olhos. Sentir com muitos nervos. Lutar com muitos outros. Há lá coisa mais bonita de não nos sentirmos sós entre tantos iguais e encontrar um amigo que não se vê há tanto tempo?!

Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

Filha da puta da padeira

Quando eu reclamei que o pão tinha aumentado e me tinham cortado o vencimento, respondeu-me ela:
- Dê graças a Deus por ter emprego!
Quando eu me queixei por ter sido despedido e o pão ter subido, deu-me a resposta:
- Dê graças a Deus por ter saúde!
Quando eu chorei pela minha depressão e lamentei o preço do pão, consolou-me assim:
- Dê graças a Deus por estar vivo!
E perguntei então:
- E o que é que Deus me dá em troca?!
E não é que a puta da padeira, que parece mais nova que a mãe, e ainda por cima vende pão, me diz:
- Olhe! Coma bolota e não deixe que lhe cortem os carvalhos!
Ainda bem que os tenho! Mas não se têm desenvolvido muito porque apanham a sombra dos tomates e pepinos.

Que triste filme