sábado, 3 de dezembro de 2016

35000 parece-me a mode muito

Quando um pequeno país, no mundo o mais falado, dá ao mundo a morte mais falada dos últimos anos, mesmo o mais humilde rei é tentado a falar. Falaria sem que a sua humildade se rendesse ao culto da personalidade, avesso aos que se ficam pelo verbo da simpatia, incapazes de tomar armas ou partido por causas dos povos, se lhe apetecesse. Mas é tal a algazarra, coisa que se dispensa em funerais, que se ficará por números que, mais do que caracterizarem o falecido, mais caracterizam aqueles que os usam ou inventam.

Assim, enquanto 638 tentivas de homicídio poderá ser um número utilizado por aqueles que o defendem, o  sétimo governante mais rico do mundo, será por certo uma classificação usada por aqueles que o atacam. 
Contudo, onde ficam mesmo dúvidas, se é um reconhecimento de talento ou uma forma subtil de lhe chamar putão, é quando se notícia que o Viril terá transado com 35000 mulheres. Aqui não está entre os cem mais, nem em sétimo - que às vezes é um número que convém para se levantar poeira sem ser muita - aqui o Revolucionário é o primeiro, muito à frente de Eglesias, de Zézé Camarinha ou Gengiscão. 
Fica-se muito baralhado, a proeza é argumento dos seus partidários, ou é a fraqueza das carnes que é arma de arremesso para os seus detratores?

Seja como for, 35000 parece-me a mode muito! Até o reacionário Observador, detrator  por regra de tudo o que é revolucionário, deixa a admissibilidade dos números poderem ser exagerados.

Seja como for, poucos como Fidel Castro poderão repetir a frase de Mark Twain:
- Parece-me que as notícias sobre a minha morte são manifestamente exageradas!

(O meu tio Osvaldo era comunista. Foi sempre a Cuba sem a minha tia. Agora percebo porquê.)



quinta-feira, 24 de novembro de 2016

”Amai-vos uns aos outros” Cristas versículo 23.11.16

“Ao radicalismo do discurso populista temos de saber contrapor o discurso radical do amor: da centralidade da pessoa, de toda a pessoa, independentemente da cor da pele, da religião, do género, da orientação sexual, da idade, da profissão, dos meios financeiros ao seu dispor.” Disse, e acentuou ”da idade, da profissão, dos meios financeiros ao seu dispor.” Repitam por favor: “dos meios financeiros ao seu dispor!” Amém!

“Em tudo o que nos acontece é preciso encontrar um sentido, procurar ler nas entrelinhas, aproveitar para aprender.”
Leia nas entrelinhas, disse.

“Interessa-me perceber como nos podemos inventar, permanecendo fieis à nossa matriz, àquilo em que acreditamos...” É a valsa da Burguesia. (ouvir)


“O problema é quando nós, políticos, não conseguimos explicar. Porque não temos tempo, porque não sabemos, porque não nos é conveniente. E porque lhe falta o tempo chamou o cocheiro e, ala que se faz tarde!

“O meu ângulo de análise só pode ser um: a voz de Portugal na Europa e no Mundo. Porque o meu espaço de ação é apenas um: o papel do CDS na construção dessa voz.”

“Só conheço uma maneira de o fazer: estar junto delas.”
 “A forma é a ligação direta às pessoas e aos seus problemas quotidianos. Às suas aspirações, às suas inquietudes. Só conheço uma maneira de o fazer: estar junto delas. Ter a presença e a proximidade sempre e cada vez mais como modo de estar. Ouvir, ouvir, ouvir. E explicar, explicar, explicar, o que soubermos, e o que não sabemos assumir que não sabemos e que precisamos de descobrir em conjunto.”
EMOCIONANTE!
in "as palavras são armas" - cid simões

domingo, 20 de novembro de 2016

Os benevolentes do ordenado mínimo


Todos os anos é assim, entre a época dos incêndios e a época do Natal aparece a época do Orçamento de Estado. Enfim, o ano é feito de épocas, épocas essas que são a base de sustentamento da comunicação social. Na época das cheias, os jornalistas vão sempre a Reguengo do Alviela, na época dos incêndios organizam sempre debates sobre as suas causas, na época do Natal apresentam sempre a maior árvore do Natal e comentam os montantes dos levantamentos no multibanco e, na época do Orçamento, o que diverte mais a malta são as negociações do ordenado mínimo.

E então aparece sempre o número do governo, o número da  central sindical, o número do representante do patronato e o número do sindicalista de meio bigode que não quer estar de nenhum lado mas no meio. Números de valor, números de teatro ou tão só representações encapotadas  da luta de classes.

Num país onde o ordenado mínimo não assegura condições dignas de sobrevivência, onde milhares de trabalhadores não recebem o ordenado mínimo estabelecido na lei, em que os valores de aumento que se discutem são irrisórios, tanto para assalariados como para patrões, a discussão anual é, portanto, um mero número de entretenimento em que o resultado da ação não passa dum desafio de forças entre uma classe exploradora e uma outra que é explorada.

A expressão de rosto, o tom de voz do patrão dos patrões diz quase tudo e completa-se quando entra na ofensiva com argumentos ofensivos. 

Vejamos então, façamos contas, desmontemos o mito que um aumento de 10 euros tem impacto financeiro na vida das empresas:

1- Um patrão que paga a um único operário o ordenado mínimo tem ao fim do mês um encargo de mais 10 euros - isso mesmo, 10 euros!
2- Um patrão que emprega 10 pessoas com o ordenado mínimo, no final do mês terá de de pagar mais 100 euros - bastará deixar de fazer aquele almoço que costuma fazer ao fim do mês com os amigos.
3- Um patrão que tem 50 empregados a ganhar o ordenado mínimo terá de despender mais 500 euros - e que tal se pensasse em instalar um sistema de poupança energética que lhe compensaria facilmente esse montante?
4- Um patrão que paga 100 ordenados mínimos terá um aumento de despesa de 1000 euros -  como tem por certo um gestor a quem paga 5000 para gerir uma empresa dessa dimensão, que tal se lhe propusesse 4000 em nome duma maior igualdade de vencimentos?
5- Um empresário que emprega mais de 1000 pessoas com o ordenado mínimo, não é um empresário que mereça ser considerado nestas contas e há que o ensinar a poupar noutras coisas como, por exemplo, na vida faustosa que leva e nos donativos que faz ao clube de futebol da sua camisola.

Portanto, a discussão do valor do ordenado mínimo chateia-me tanto como os fartos jantares da caridade natalícia e os avisos de alerta amarelo por cheias ou incêndios. O aumento do ordenado mínimo é tanto mais justo, faz tanto melhor à economia, quanto maior for!

- Diz-me quantos salários mínimos ganhas por mês e eu dir-te-ei a autoridade que tens para falar do assunto!

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Marcelo acompanha o Presidente da República a Cuba

O conhecido Marcelo Rebelo de Sousa acompanha sempre o novo Presidente da República em todas as suas viagens, visitas, abraços, cumprimentos e fotografias. Reconhece-se que, se tal não acontecesse, a comunicação social não daria a mesma cobertura mediática aos acontecimentos que envolvem a mais alta figura do Estado.

Pode bem o Presidente desfilar entre protocolos, apertos de mão e comitivas negociais que, para o indivíduo Marcelo, lá no seu  íntimo, o seu primeiro objetivo é ter encontros para o seu currículo ou , em último lugar, para o seu álbum de recordações. Ouvi-lo-emos, daqui a uns anos, a contar pormenores nunca revelados, naqueles programas de televisão para que foi feito e que o fizeram, os quais o realizador ilustrará com imagens que testemunham os seus feitos.

E assim, lá surgirá a sua imagem polida e gasta ao lado da senhora do Barreiro a quem prometeu um bagaço na campanha, a abraçar aquele secretário geral da ONU que, quando era outra pessoa, se recusou a encontrar com Fidel, a dar um aperto de mão a Obama, a beijocar a Madre Teresa de Calcutá, a agarrar ao colo a criança de dois anos que desapareceu em Ourém, a visitar a campa de Jim Morrison ou a fazer festas a um cão que nasceu com cinco patas.

É disso que Marcelo gosta, é isso que a comunicação social valoriza e é isso que entretém o povo telespetador. 

Deste modo, não espanta que a imagem que vai ficar da sua visita a Cuba seja a sua fotografia a falar com Fidel Castro.

Legenda - rigorosamente, Marcelo e Fidel

A nossa imprensa atira-se, retrai-se, contorce-se, rende-se. Tem tanta vontade de dizer mal do governo a que chama regime, apetece-lhe tanto chamar ditador a Fidel, queria tanto encontrar crianças famintas nas ruas mas não encontra nada. E depois, há que respeitar Marcelo. Ele não é  um Cavaco que mude de opinião a respeito de Mandela, ele sabe que Fidel já tem lugar de lenda na história que é presente e, por isso, nem que traga só uma foto no regresso, já lhe basta.

É possível que um ou outro empresário ou empreendedor traga projetos, de modo que só a comunicação social virá de mãos a abanar - nem a foto emblemática é obra sua!

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O ÚLTIMO OUTONO DOS VIVOS


“Este ano, de mil novecentos e oitenta e oito, o verão entrou atrevido Outubro adentro e eu, quase ia pondo janela fora as minhas folhas por ter perdido o estado de poesia – dependo muito do tempo!...”
Nos tempos em que eu era o homem que escrevia linhas destas tinha o hábito de todos os anos escrever sobre o Outono.

agora todo o ano é outono
é sempre outono
o meu país está todo outono
eu estou todo outono
tudo à minha volta é outono

só os cães de fila dos canis da tv me anunciam uma nova estação:
um longo e rigoroso inverno ao qual só os poderosos sobreviverão!
obrigado!

no verão, com os incêndios, vivi descansado de ver inundado o meu celeiro.
no inverno, com as cheias, aliviarei de ver em chamas as minhas oliveiras.
- são assim os meus dias… é este o meu tempo!
é meu, o outono
não vou na caravana seus parolos! caminho a pé!
não vos ligo nada!
amanhã vou por três meduras de azeitona no lagar.
queria dizer-vos também que continuo a servir-me do azeite numa almotolia …

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Arrendo quarto para ver o papa

No próximo dia treze de maio o papa virá a Fátima. Não me sentiria bem se não disponibilizasse acolhimento aos peregrinos, dada a proximidade da minha residência ao santuário: a pé, para cima de duas horas; de bicicleta menos de uma hora; a sessenta à hora, um quarto de hora; a cento e vinte, sete minutos e meio e a cento e quarenta, é só fazer as contas.

Arrendo quarto para ver o papa. 
O quarto está equipado com velas de cera, terço benzido e uma nossa senhora luminosa. 
Duche com água de Fátima.


Só alugo um quarto porque os outros já estão todos ocupados. Não aceito peregrinos a pé por causa do suor.

Quinhentos euros noite, independentemente da fé dos arrendatários, livre de impostos. Cinquenta cêntimos serão aplicados em esmolas para a nossa senhora da Ortiga.

Isto é a sério,  não é uma brincadeira. Contacte-me através do email reidosleittoes@gmail.com.



domingo, 16 de outubro de 2016

Terceiro lançamento do bácoro

Mais do mesmo. Começo a ficar farto de me pedirem para ir para aqui e para acolá lançar o livro. Mas pronto, até os cães gostam!...
Pelo menos, nesta nova forma de lançar livros, não tenho que me sujeitar:
- Olhe, importa-se de me fazer uma dedicatória?
- Mas para quê?
- Porque sim!

- Pronto, porque não!?


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Festa de anos entre os meus

Ainda ontem fiz cinquenta anos, hoje faço noventa - nem todos o poderão vir a dizer.

É fácil recordar aniversários idos. Um exercício mais arriscado será irmos ao futuro e relatar acontecimentos não vividos. E o melhor é fazê-lo já, antes que a consciência nos limite a sua descrição ou que a morte provavél nos impeça de bater no teclado. 

Faço noventa anos. A minha neta teve a ideia de reunir os meus amigos de que lhe costumo falar num restaurante aonde vou há muitos anos. Sabe que não gosto de festas surpresa nem de ter na mesma mesa gente que não pensa ou que pensa que eu penso com interesses segundos. Sou o mais velho na sala, posso dizer e fazer o que me apetece. Estão presentes, a minha companheira, dois colegas com quem trabalhei, três amigos com quem discuto há anos as questões curda e palestiana,  a  redução da história à história da luta de classes, a adulteração do vinho com novas castas e a necessária abertura da sociedade à poligamia. Os restantes são gente mais nova que me acarinha a idade e me tem como uma espécie em vias de extinção ou, apenas, como um velho rabujento e ressabiado que, apesar de tudo, tem graça e diz umas verdades.

Falo já arrastadamente mas, como falo baixo e raramente, quando falo para um grupo toda a gente se cala ou baixa a voz, não sei se por respeito, se para me tentarem perceber, ou por me admirarem .

E então digo:
- Parece impossível como uma canção de melodia tão pobre e banal, uma letra tão pobre e banal, seja o tema mais universal e mais cantado por toda a humanidade nos últimos noventa anos. Ainda por cima, na versão portuguesa, ela não dispensou o " a você" brasileiro. Detesto essa música! Por favor, não me a cantem!

Começam a filmar.
- E por favor também não me estraguem a festa com câmaras de video. Vivam os momentos, não os guardem para viverem depois ou para mostrarem a outros que estiveram presentes quando, afinal, não participaram neles porque deles se arredaram por detrás de objetivas. Enfiem os telemóveis e as tabeletes no reticências com apenas dois pontos, um para cada um dos carateres.
(- Olha! Obedeceram-me!...)

E então, do alto dos meus noventa anos, subo para cima da mesa, parto dois ou três copos - coisa que não acontecia dantes - e começo a recitar a minha versão da Ceia dos Cardeais.

(Os parágrafos seguintes contêm termos impróprios para alguns arredados da linguagem popular mas um homem com noventa anos pode dizer aquilo que lhe apetece sem pedir desculpas a ninguém) 



- E vós cardeal, nunca amastes?
- Amei sim, eminência, uma donzela, pura e bela! Mas o pai dela, esse estupor, casou-a com o labrego dum lavrador!
- E nunca mais a vistes?
- Vi sim, eminência!Um dia, encontrámo-nos a sós num belo jardim! Beijei-a na boca, na testa, no nariz! Eu sei lá o que lhe fiz! Logo ali, sobre um carro de rodas, lhe mandei quatro valentes fodas!

Entretanto, eis que chega o marido - um homem alto, trancudo e sagaz! Que me exclama à bruta:
- Então? Seu filho da puta! Isto é o da Joana? Isto é o que se quer? Chega-se aqui e fode-se-me a mulher?!
E dizendo isto, exclamou:
- Ó Bento, traz cá o jumento!
- E sabeis para quê eminência?... Para me enrabar!... E entre gritos e urros - se lhe parece, ser enrabado por um burro, lá sofri o meu castigo!...
E como se não bastasse mandou que me atassem a um carvalho e, logo ali, me cortam os colhões pendentes... e o caralho.
Justiça de marido: quis foder, fodi, mas fui fodido!...

E, rezada a Ceia, bateram palmas que nem uns desalmados e eu desci da mesa amparado por três deles. Todos acharam muita graça à minha recitação e todos perceberam que só a viveram porque desligaram as máquinas.

No entanto, passados instantes, já todos estavam nas suas mensagens e a reclamar que eu soprasse velas e a oferecerem-me presentes embrulhados.

- Estais preocupados com o ambiente? Então porque gastais papéis em embrulhos? E que prendas são estas que não são livros, nem vinho, nem azeite?! Parem com as fotos! Parem de me tratar como uma relíquia! Eu não sou nem mais velho, nem mais novo do que vós! Sou vosso contemporâneo!

- Irra que o velho é mesmo rabujento!

Puxo duma colher de sobremesa e tento atacar o autor da frase.
- João tem calma! São jovens, não pensam!

A minha neta segreda-me ao ouvido:
Rabujentos são os meus amigos! Avô, quando eu fizer noventa anos, vou fazer qualquer coisa parecido! E quando fizer cem, ainda estou para aprender com o que vais fazer!

E não é que eu ainda durei mais dez anos!...

(o título deste post foi pra facebookiano ver)





domingo, 9 de outubro de 2016

Segundo lançamento do bácoro

É com muito prazer que aqui deixo imagens do segundo lançamento do bácoro.
Em primeiro lugar quero deixar um muitíssimo obrigado a todos os que não estiveram presentes.
Em segundo lugar quero deixar a minha satisfação pelo facto do Presidente da República não ter estado presente.
Em terceiro lugar quero afirmar que este livro não se rende aos circuitos comerciais capitalistas.
(Quarto, lugar onde se passa uma das histórias do livro).
Em quinto lugar que informar  que este livro apenas pode ser adquirido na candonga.
Em sexto lugar quero desejar que este livro apenas seja adquirido por quem revelar manifesta vontade do ler.
E em último lugar digo-vos que este livro não é um livro qualquer porque é meu - isto segundo o meu ponto de vista, obviamente!


sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Primeiro lançamento do bácoro

Servos, nobres e fidalgos, o King não abdica da sua soberania. Este blogue só fechará as suas janelas por desaparecimento do seu monarca ou por abandono do seu último súbdito.

Bem sei que a blogsfera, e em particular o Rei dos Leittões, já conheceu melhores dias. Já lá vão dez anos a postar bacoradas, 1213 postes, 223369 visualizações. Longe vão os tempos em que as 200 visitas por dia me motivavam. Ontem mesmo, as estatísticas anotavam 37, o que, atendendo à quase ausência de publicações recentes, não deixa de ser melhor que 7.

Não é a primeira vez que faço a comparação de "comércio tradicional e centros comerciais" com "blogosfera e facebook". Até eu me rendi aos supermercados e, fora deles, já só compro praticamente, a carne, a fruta, o remédio para os ratos, as torneiras e a roupa interior. E o que são a carne, a fruta, o remédio para os ratos, as torneiras e a roupa interior da blogosfera? Deixo à vossa consideração a descoberta dos paralelismos.
Da minha parte continuarei com a tasca aberta, a mercearia, a drogaria ou o que lhe queiram chamar e continuarei a visitar blogues velhos-amigos e outros de referência.

Reconheço que, por troco de não deixar rasto de comentários no meu circuito blogosférico familiar, também já só por aqui andam meia dúzia de comentadores assíduos. Serão apenas esses os leitores prováveis deste texto no ponto em que ele vai - é justo!

Mas é a esses que este poste se dirige. Uma palavra especial a alguns que andam por aqui quase há uma década, que não conheço pessoalmente, nem sequer uma foto, um nome próprio ou o concelho de residência. Foi com eles que um certo mês de 2006, por uma razão que não consigo definir exatamente, este sítio começou a fazer parte duma blogosfera anónima que fazia furor contra Sócrates e os seus acólitos, que trocava ideias, que conspirava, que se constituía como a primeira verdadeira rede social do espaço cibernético.

Depois foram vindo outros e até amizades que, por esta via, se transpuseram para a vida "real". Enfim, esse tempo lá vai.

Chegou agora o tempo de responder a todos os que foram deixando na caixa de comentários a mensagem "devias pôr isto em livro!", a todos os amigos mais próximos que me têm azucrinado a cabeça com a sugestão atrevida "devias escrever um livro!".

Fui sempre renitente porque sou avesso à exposição pública, porque sempre achei ridícula a mania que todas as pessoas têm que a sua vida dá um livro, porque sempre distingui o jazz e a música clássica do punk rock e da música pimba. 
Não sei dizer se isto é punk ou foleirice, apenas reconheço que foi fácil:
seleccionei uns textos aqui escritos, juntei-os, falei a alguém para fazer a capa e a paginação, fez-se livro e foi agora publicado. 

Não será, portanto, nenhuma obra do vosso interesse porque tudo o que lá está por aqui está também e, porventura, já o lestes. Fica aqui apenas o registo porque, como companheiros destas andanças, entendi dever-vos a informação.



O primeiro lançamento do bácoro realizou-se ontem, no café Camões da terra onde resido, com porto à mesa e uma troca de palavras circunstanciais. Não estava muita gente, era só eu e um amigo. Eu paguei o porto e ele esqueceu-se - só pode ter sido esquecimento! - de pagar o livro.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

meados sem gosto em meados de agosto

versos que não o são

o vento sopra versos.
a água corre em verso.
o mar traz uma onda de versos.
um incêndio é o inverso dum verso.

o berbequim do meu vizinho faz rimas.
- se não puseste as meias no cesto da roupa, antes as calçasses!
- se querias viver sozinha não te casasses!
o sofá tem manchas de versos e de lágrimas.

procuro um óvulo para fecundar um poema.
ao menos o número de linhas dum soneto!
agosto está sem gosto e não me toma.

tomava um copo de rimas com palheto!
o sol bateu-me e fez-me um hematoma.
pra quê escrever quando escorrega o tema?

sábado, 9 de julho de 2016

O dono da cerejeira

Adicionar legenda
À parte meia dúzia de carvalhos centenários, a cerejeira era a árvore mais imponente da aldeia. Ainda por cima, por casualidade, era a única da espécie no povoado, o que fazia dela uma atração - toda  a gente gosta muito de cerejas.

O dono da cerejeira era um homem seco, rijo e frio, feio, magro e alto, de poucas falas e poucos amigos, de barba de dias exceptuando aqueles em que a fazia, remendado dos fundilhos aos joelhos, chapéu desabado e queimado do sol, para quem não havia domingo, casado com mulher que com ele condizia e de filhos já partidos para paragens melhores.

Para além dos talhões que tinham à porta e que davam para a sopa, outro rendimento não tinham senão o dos tremoços que a mulher vendia à saída da missa e o do trabalho do homem, seco, rijo e frio, que era a quem se falava para abrir um poço. Trabalho duro e sazonal para que nasceu talhada a figura, capaz de aguentar horas no fundo do buraco, cavando, cavando e enchendo o caldeiro, solitário e ao fresco, lançando apenas as palavras necessárias para a luz cá de cima onde teriam de estar outros dois ao sarilho. E pronto, as cerejas, vendidas como os tremoços à saída da missa, também davam algum - toda  a gente gosta muito de cerejas e aquela cerejeira dava cerejas para roubar e vender!

Os mais velhos, de dezasseis, dezanove ou mais, faziam os assaltos com algum profissionalismo, iam em bando já noite avançada, ficaria alguém à porta do dono para dar o alarme se o homem-fera ou a megera dessem sinais de acordar, outro alguém no caminho que levava a cerejeira, mais dois ou três junto ao tronco enquanto os demais subiam à árvore e faziam a colheita.

Mas nós, de doze ou catorze, com horas de recolher, teve de ser mais cedo, e era a primeira, foi de entrar a matar. Silenciosos, é certo, mas sem outros cuidados, descalçámo-nos para subir a árvore, primeiro o tronco e depois, espalhados pelos ramos, macaquinhos, macacões, comíamos as cerejas que vinham dar às mãos, ninguém levara saco, tratava-se de consumo imediato.

Eis senão quando a voz do dono se fez ouvir cá em baixo, primeiro alto, depois só resmungando, palavras impercetíveis que nos fizeram tremer os pés descalços. Por intuição animal, camuflámo-nos, quietinhos, caladinhos, cada um juntando o seu tronco ao tronco que empoleirava para que, com a ajuda da noite, o homem não identificasse vivalma. 

Ao fim de alguns minutos de resmunguice e de rodeios no terreiro da copa, a fera retirou-se e sentimos a porta da sua casa a bater. Foi-se embora?! Perguntámos baixinho e permanecemos imóveis durante um tempo, não voltasse ele armado para nos correr à pedrada, à paulada ou até à caçadeira! O mau génio daquele homem era um risco o que, por contradições da natureza humana, aguçava mais o desafio e a vontade de o roubar e tornava ainda mais apetitosas as cerejas.

Não voltou. Cumprido o tempo de segurança, descemos um a um com a digestão interrompida, e com os pés na terra demos por nós vencidos. Tamancos? Chinelos? Sapatos? Sapatilhas? Viste-los! O Torto, que era pé descalço, era o único que ria!

Não havia maneira de no dia seguinte, em cada lar, cada um contar senão a verdade! Mesmo que um inventasse uma mentira convincente, não se conseguiria enganar tanta mãe junta, elas falariam umas com as outras e a alhada viria sempre ao de cima.

Comigo foi assim.
- Antes que o teu pai saiba, vais já comigo por aqui abaixo a casa do ti Manel!... A partir de hoje, à noite só para as descamisadas!... 
 E lá fui eu puxado pelo braço, a tentar acompanhar o passo da mãe educadora, com um puxão mais violento cada vez que tentava a minha defesa com argumentos como o de "roubar para comer não é pecado", "não fui só eu", só comi pra aí meia dúzia"...
- Garanto-te que se ele não te der os sapatos vais começar a andar descalço como o Torto!
...
- Manel! Peço-te perdão por este desgraçado! Manel sabes como é a canalha! Manel ando aqui com uma dor há meses e nem dinheiro tenho para ir ao doutor Teixeira! Manel o meu homem também está a pensar em ir para França e depois havemos de fazer um poço! Manel este gatuno, ainda hoje o vou obrigar a ir à confissão!.... Dá-lhe os sapatos Manel e diz-me quando precisares que eu venho um dia para o teu sacho sem ter de ser à troca!...

Seco, rijo e frio, tirava água a balanço para a horta, sem nunca tirar os olhos do poço, do balde e do regueiro mas, quando a minha mãe parou com a ladainha, atirou seco, rijo e frio.
- Ele que vá confessar-se mas quem lhe dá a penitência sou eu! Ele que agarre em dois baldes que estão ao pé da cerejeira, que suba a ela e que os encha! Quando os tiver cheios venha aqui ter comigo e pode ir para casa calçado!

Se bem me lembro, creio que os outros companheiros recompraram o seu calçado. Eu fiquei honrado de ter tido tratamento diferenciado e passei a admirar mais o Torto e a minha mãe porque não me obrigou a ir à confissão!

Nota: Sei que ficaria bem na história contar que continuo a gostar muito de cerejas. Acontece que ainda o Cavaco desgraçava o país como primeiro ministro, ouviu-o declarar que gostava muito de cerejas e que muitos dos seus admiradores lhe enviavam caixotes de cerejas - continuei a gostar de cerejas mas nunca voltaram a ter o mesmo gosto!

domingo, 5 de junho de 2016

Para que serve o Correio da Manhã


O leitor, que gosta de ler - caso contrário não estaria neste momento a ler esta crónica menor - que lê compulsivamente, de tal forma que, quando na sanita, não tendo mais nada à mão, lê rótulos de sabonetes e livros de instruções de máquinas de barbear; 
O leitor que, por  se dar a ler este cronista menor, deve ser de geração próxima e, tal como ele, já deve viver atado por arames, com colesterol alto, tensão alta, fígado gordo, dores nas costas, intestino irritado, próteses dentárias, ouvido direito, pouco, óculos progressivos. 
O leitor já deve ser experiente em horas de espera em consultórios médicos. A gente entra, dirige-se ao balcão - o doutor hoje está atrasado! Senta-se numa cadeira de plástico desconfortável e começa a olhar para a mesinha que tem revistas. Uma é da ordem dos especialistas do ramo, outra é do anuário duma grande farmacêutica, outra duma instituição de toxicodependentes, com sorte encontrará uma revista do ano passado que um paciente, como nós, ali deixou por esquecimento. A gente paga quarenta, oitenta, cem euros de consulta, mas não há atenção orçamental para uma revista da semana, um jornal diário ou um diário do Torga! E o doutor, claro, é bom, tem tempo de espera! Olha se fosse no Centro de Saúde! Já estaria meia  sala a rogar pragas às funcionárias, aos médicos e ao estado! Mas ali não! A gente paga bem! O médico é bom! Tem de se esperar e bufar pouco!
E foi assim que fui para ao consultório de doutor Serra das Neves, neurologista, 1º esq, dizia a tabuleta de acrílico na entrada do prédio! É o melhor de Coimbra! Assegurou-me a minha cunhada. E é muito atencioso! Muito acessível! A gente fala com ele, ele entende-nos e nós entende-mo-lo! Fala assim como nós! Até diz umas cachaporras se for preciso!
O médico era diferente sim senhor! Além das literaturas já contadas tinha também um diário da casa, via-se que o era pela abundância de edições pousadas pela sala. E adivinhem que diário era? O Correio da Manhã! Pois claro! Um médico que escolhe o Correio da Manhã para entreter os seus pacientes, não é um varre merdas qualquer!
E assim entrei eu, ao fim de três horas e meia de espera, às oito já passadas.
- Feche a porta!
Mexia em papéis com uma facilidade incomparável com que arrastava o rato do computador!
- Então diga lá senhor João o que o traz por cá!
- Ó senhor doutor eu ando todo abrasado!
- A falar assim, pelos vistos anda!
- Como assim doutor?!
- Ó homem, não utilize essa linguagem arcaica! Diga "estou todo fodido!"
E lá começou a minha primeira e última consulta de neurologia, com o registo do histórico da minha ascendência: Pai morreu com que idade? Mãe foi mãe aos quantos? Avô tinha algum defeito? Avó era baixa ou alta? Primeira relação sexual? Primeiro filho? Quando começou a sentir-se assim?!
- Assim como, doutor?!
- Ah isso não é nada! Tenha calma! Isto da neurologia tem muito a ver com os nervos da pessoa! O senhor bebe?!
- Um copito de tinto senhor doutor!
- Então olhe, quando se sentir enervado, beba um bom brandy! Isso acalma!
E, assim, saí  em direção ao guichet para puxar pelos cem euros!
- Diga-me menina, quantos doentes o senhor doutor já atendeu hoje?!
- Mais duma dúzia! Porquê?
- Mais de mil e duzentos euros! A menina ganha o ordenado mínimo?
- O senhor não está bom!
- Ora menina! Se estivesse bom não estaria aqui! Posso levar o Correio da Manhã de ontem?
- Tenho de perguntar ao doutor! Para que o quer?
- Logo vi que a menina era esperta! Diga-lhe só que não é para ler! Como não uso a linguagem dele, diga-lhe apenas que o levo porque o papel higiénico está caro!... E, dito isto, desci ao rés do chão, entrei no café e bebi um brandy!

sábado, 28 de maio de 2016

Quando a direita vem à rua...

No Brasil, o poder da TV afrontou a democracia. Ao mesmo tempo que uma parte da classe política corrupta conspirava nos corredores levando a cabo o golpe, ao mesmo tempo que os mais favorecidos, perdendo favorecimento em resultado da aplicação de políticas de distribuição de riqueza, se manifestavam em faustosas manifestações de avenida, obrigando amas e usando as suas crias para encher as câmaras, a televisão brasileira, tomando o partido dos seus donos, aplicava descarada e porcamente as técnicas de informação e desinformação, no que era seguida jumentamente pelas televisões portuguesas. Bem sabiam que a informação alternativa não chegaria para lhes fazer frente porque a opinião pública que conta só vê telejornais e manchetes de jornais.

E assim, se inculcou na superfície das massas a ideia generalizada de que a crise do Brasil era um caso de corrupção generalizada ao nível do governo, combatida por gente limpa com direito ao poder e apoiada pelo povo brasileiro.

Com o mal feito e a destituição praticamente concretizada, os media, percecionando a sua desacreditação, começaram gradualmente a virar o bico ao prego e, afinal as coisas já não são bem assim... e começaram até a passar imagens tímidas de manifestações em defesa dos democraticamente eleitos.

Feitos os estragos, ficarão as imagens de camisolas amarelas vestidas por gente de bem, num país onde tanta gente vive mal, fazendo declarações de raiva em terras de samba, empunhando temores de demónios comunistas aonde ainda há tribos comunitárias. De lição servirá que a direita, quando se manifesta, pode não ser tão autêntica como a esquerda mas pode ser mais eficiente.

Tão eficiente que o estímulo e a receita atravessaram o oceano e vieram para cá. Nem se deram ao luxo de mudar a cor das camisolas.
A pretexto do que era somente a determinação de fazer cumprir uma lei, assanharam as unhas das suas ideologias que deram como mortas e ressuscitaram-nas.
Diremos nós, de ideologia viva: "Bem vindos! É isso mesmo! A questão é ideológica!". Aceitaremos até, para marcar divisões, que também os  pregadores dos jornais televisivos vistam farda amarela ilustrando as notícias do assunto. Desprezaremos o facto de alguns amarelos tenderem para os laranjas que é cor base do partido cuja base ideológica nega a ideologia.
Mas do que se trata meus senhores, o que leva as televisões a dedicarem horas a manifestações de centenas de pessoas quando se apressam a esquecer multidões de milhares, é que os porta vozes e os pais e as mães das crianças que arrastam pelas mãos, são da sua direita!
E olhem o Brasil! Quando a direita se manifesta não é por haver liberdade nem democracia, é porque não as toleram!
Cuidado com as camisolas amarelas, vejam a facilidade com que os media tomam a sua cor, a forma como manuseiam a mentira, a falta de princípios com que usam as crianças. Vale tudo, nem que seja o 13 de maio.
Fotografia que anda por aí!