domingo, 30 de agosto de 2020

Os anti-comunistas que se assumam

Longe vão os tempos em que se decretaram limitações aos direitos e liberdades sem que as discordâncias fossem noticiáveis. Ainda não passaram seis meses. Olhando para trás, começamos a interrogar-nos se tinha de ser assim. Mas quem era alguém para dizer o contrário?  Começam a ser esquecidos, ou pelo menos lembrados como ridículos, os desentendimentos e exaltações contra o facto de alguns parlamentares se reunirem para não se esquecerem que era abril ou de alguns trabalhadores se juntarem para lembrarem que era maio.  

Entretanto, quase todos os ativos já aceitaram que a vida tem de continuar, com as devidas regras e cautelas. Lá se foi à festa de aniversário onde seria desfaçatez ter usado máscara, já se passou por Fátima a pedir contas à Senhora e estavam muitos fiéis, teve de se admitir que o tempo esteve bom mas que estava muita gente na praia naquela semana, mostrou-se preocupação por o mais novo ter ido ao festival de verão que afinal sempre houve, e ninguém contesta que daqui a duas semanas centenas de milhares de jovens e adultos se vão juntar, por todo o país,  dentro de escolas superlotadas, sem que o governo tenha tomado uma única medida concreta que obrigue a algum cuidado especial tirando a óbvia obrigatoriedade do uso de máscara.

Ao longo destes meses muitos de nós já se confrontaram presencialmente com discursos indignados de alguém que apontava todos os dedos a esta e aquela situação em que se violavam os necessários cuidados sanitários. Nessas situações, em que raramente não me contenho, muitas vezes tive de dizer:

- Então e o que estamos nós  a fazer?

Também agora me rebenta a contenção:

- Bem sei que as manchetes à "correio da manhã", as frases dos retângulos do facebook e as notícias furtivas da televisão é que formam a vossa opinião - mas perdi a paciência, vão não sei para onde com a Festa do Avante!...

Tenho coragem, vou à Festa para dizer Não!

Papalvos: esta imagem serve ambos os lados! 

  


sábado, 15 de agosto de 2020

Intolerante aos coisos, aos chegas....

 Em fevereiro, antes da pandemia, estava num jantar de amigos e em conversa disse:

- Já avisei a família, se estivemos numa mesa onde alguém se pronuncie a favor do "chega" e eu saia, já sabem do que se trata, ou saem comigo ou me ligam para depois os ir buscar.

Imediatamente um dos convivas deu de si: 

- Mas ele diz algumas verdades!".

Levantei-me e saí. Portanto, é muito simples: não conviverei, não me relacionarei socialmente com qualquer indivíduo que seja apoiante, simpatizante, eleitor, potencial eleitor, ou defensor dum mentiroso nato "que diz umas verdades"!...

E, por favor, não me atirem que corto relações com pessoas por razões políticas. Só não tenho amigos em todos os partidos porque os partidos são muitos e nunca fiz da política um critério de amizade. Mas não se trata de política, trata-se de valores e, quanto a isso, não pode haver tolerância, o mal tem de ser cortado quando está a nascer.

sábado, 4 de julho de 2020

25 de abril, 1º de maio e Festa do Avante


25 de abril, 1º de maio e Festa do Avante - a polémica comum que tem sido gerada à volta destas festas, à boleia dos atuais condicionamentos da vida social, vem pôr em evidência aquilo que os principais animadores da mesma andam, há anos, a escrever História para o negar: há um triângulo com estes vértices. 

Podem ir repetindo que o 25 de abril se resumiu a um processo de abertura à democracia e não foi um uma revolução popular de cariz socialista, podem ir tentando transformar o Dia do Trabalhador em dia do colaborador, podem fingir que a Festa do Avante não causa incómodo e repetir com satisfação que "aquilo não são só comunistas". A verdade é que são cravos e bandeiras com uma cor comum contra a qual investem fazedores de opinião acossados pelos seus donos, saudosistas da outra senhora, meninos que foram ao sotão buscar a raiva dos avós salazaristas e gente que tem medo, não só do vírus mas de todas as forças e manifestações associadas a ideais de transformação da sociedade.

E foi por isso que, aprisionados nos seus lares com os seus fantasmas, depois de saberem que o número de pessoas que iam estar na Assembleia no dia 25 de abril era semelhante aos dos outros dias, não conseguiram dar a mão à palmatória e continuaram a protestar. Foi por isso que, depois de terem verificado que as manifestações do 1º de maio decorreram de forma exemplarmente organizada, respeitando as regras de distanciamento físico, não se calaram e continuaram a barafustar. Foi por isso que, a mais de três meses da Festa do Avante, sem ninguém lhes dizer em que modos e condições a mesma se poderá realizará, sem sequer fazerem ideia da evolução da pandemia e quais as regras a exigir, não hesitaram: - É vermelho, é para... (falha do teclado)!

Não os incomodou que o Balola da República fosse à arena do Campo Pequeno anunciar, entre milhares de pessoas, que o Dia de Portugal seria assinalado por oito pequenas almas; ficaram de bico calado quando o Raça de Coiso (que também é contra as três coisas) se juntou com as da sua raça numa vergonhosa manifestação; não se erguem contra as condições em que viajam diariamente para o trabalho os servos da Lisboa chique, não, nada disso surge aos seus olhos como vermelho.
Caiu-lhes a máscara!

Uma coisa é certa, sem haver festas, falou-se mais este ano em 25 de abril do que em outros anteriores; as manifestações do 1º de maio de 2020 deixam para o futuro imagens históricas, a Festa do Avante, habitualmente silenciada e ignorada pela comunicação social, nunca foi tão falada e já tem publicidade para os próximos anos.
- Atão e a Festa do Avante, pá!?

terça-feira, 2 de junho de 2020

A vidência nunca teve evidência científica



"Ainda o toiro estava no corredor que dava acesso à arena e já os aficionados se davam a comentários académicos e certezas científicas que depois seriam para esquecer: que derrubava o cavalo, que corneava sete, que matava três, que saltava para as bancadas e que dali iria para o matadouro."

E isto foi em março, ainda a época das touradas começava e o campeonato de futebol ia a meio.

Mas esta gente, nós, somos assim, seja presidente, seja secretário, seja eleitor, seja comentador, leigo ou especialista, todos, mesmo que não acreditemos na Santa, nunca tenhamos observado uma molécula ou feito um toque retal, nascemos videntes, temos uma vocação de nascença para a ciência da futurologia e temos um dedo que adivinha.

Que a populaça diga que isto vai dar fome ou que depois da tempestade vem a bonança, que o doutor assegure que isto não passa duma gripezinha ou que afiance que vai haver uma vaga muito pior lá para o outono, que a senhora da saúde diga um dia que o uso de máscara é contraproducente e passado dois dias exija que a usemos na retrete, que o senhor ministro garanta a resposta dos serviços de saúde, a imunidade das finanças e a vitalidade da Europa, ainda se aceita, é discurso de situação e conversa de ocasião em que todos metemos a tolerância e o bedelho.

E até se compreende, embora não se aceite, que a estratégia política do poder capitalista desvie as culpas para oriente, cavalgue a crise com gozo, goze a ocasião de fazer mais uns empréstimos de elevado rendimento e aproveite a oportunidade para manter o joelho no pescoço do mundo do trabalho: é assim a história - "trabalhadores de todo o mundo: uni-vos!"

Agora que nos digam que a vacina vai demorar nove meses e três dias a aparecer, que vão morrer cem mil aqui, que já morreram cem mil acolá, que não mexamos nas maçanetas nem em martelos chineses, que repudiemos todas as concentrações onde estejam comunistas, que isto é assim e isto é assado, dizendo isto um dia e o contrário amanhã, que há meses nos venham a apresentar números estatísticos de valor técnico nulo, com uma certeza no cagar que brada aos céus,  isso é tomarem-nos como tolos: 

- O défice vai para tanto, vírgula tanto por cento; a dívida pública vai chegar aos não sei quantos milhões; o desemprego vai subir para os tal, ponto tal; o PIB vai cair para o valor de mil novecentos e não sei quantos; os pobres vão ser não sei quantos mil!...

Puta que os pariu! Ninguém sabe como vai ficar o porto depois da tempestade! Vão gozar com o pai vosso que o nosso nos dará o pão nosso de cada dia! Já sabíamos que iríamos ficar mais pobres antes de se falar de pandemia, se não aparecessem oportunidades, inventá-las-iam!
Procriadores de "trumponaros" fodei mas ide-vos foder! A vossa cama não é a nossa! O vosso futuro não é o nosso!

domingo, 3 de maio de 2020

Não calarão este Primeiro de Maio


Como tanta vez me acontece, acabei por dar o braço à palmatória.
Quando ouvi falar que a Central Sindical iria assinalar o Primeiro de Maio na rua, pensei cá com os meus botões, é porque é legal mas para quê? Vai provocar um choro de indignações de populares, populistas, ressabiados, confinados e eu, temente ao vírus e prevenido, decidi: não vou! Não contem com o meu braço!
E, quando começaram a chover os argumentos contra, eu assenti: têm razão! Mas para quê?!...

Mas, quando a foto da alameda começou a repetir-se nos meus olhos como imagem histórica e me começou a tocar, quando os fachos se começaram a exaltar, os bispos da primeira república começaram a reclamar "aqui treze de maio!", quando os pivots de tv começaram a morder na CGTP, quando os carmelitas de ocasião levantaram o rabo do sofá e foram pôr "gosto" no facebook às mensagens reaccionárias , quando senti que quem se organiza assim pensou, muito antes de mim, as críticas a que se iria expor, desapertei os botões dos meus pensamentos, abri o peito e disse alto para comigo: isto também é comigo, batam aqui!

Mas este abrir de peito não é para os "chegas" assumidos e não assumidos que neste tempo pululam por aí, não é para os que sempre acharam que o Primeiro de Maio é só mais um feriado e está bem assim, não é para os que nunca puseram o corpo numa manifestação de classe, não é para aqueles que nunca vão ler isto ou  para os que ao segundo parágrafo desistiram - lá está este gajo com as coisas dele, de comunista! É para ti, que não sendo nenhum destes, que tens a consciência que vendes a tua força do trabalho todos os dias, que sabes que para viver tens de produzir, que sabes que a comida não nasce no hipermercado, que sentes que isto não pode continuar assim, é para ti!

A imagem que tanto te revolta, não te assustes, não é uma coreografia da Coreia, se a olhares bem, tem a tua força! A força de quem sabe que o futuro não pode ser suspenso, que temos de avançar, organizados, cumprindo regras. Somos trabalhadores, ninguém nos irá trazer a comida à porta, nenhuma "jonet" nos salvará, nenhum estado, por mais social que seja, nos poderá assistir por muito mais tempo.
A imagem que tanto te revolta, num tempo em que, sem dares por isso, te tiram direitos todos os dias, em que se estudam os argumentos para as inevitabilidades dos próximos tempos, tem também uma mensagem de classe: somos trabalhadores, estamos atentos, existimos, esta é a nossa voz.

Não te assustes, mais tarde ou mais cedo tens de te pôr ao carro e ao trabalho, cumpre as recomendações das autoridades, foi isso que os manifestantes do Primeiro de Maio fizeram. Que o façam também nos locais de trabalho, nos transportes públicos, na praia e no Treze de Maio.

E não te aventures, não faças do Ventura um Trumponaro!

Ai aí ó ai minha mãe

"Se me quiseres escrever
Dou-te a minha direção:
Albergaria dos Doze,
Maria da Conceição."

... cantava a minha mãe. Mal adivinhava eu que a viria a recordar  cada vez que ouço esta canção da guerra civil de Espanha.

A minha mãe cantava, cantava de joelhos quando encerava o chão, cantava de pé enquanto me vestia, cantava agachada enquanto me lavava, cantava curvada quando lavava a roupa, cantava com as outras do rancho do sacho, cantava descalça enquanto regava, era daquelas mulheres que cantavam, uma cantadeira do campo e da lida, do canto natural, o canto espontâneo e autêntico que existe apenas pelo gosto de cantar, o canto que dispensa o público, o microfone e o gravador, que tanto canta a alegria como a dor, tanto irrompe na festa como na tragédia, tanto chora a tristeza como ri na comédia,  a minha mãe cantava por tudo e por nada e, no entanto, só me recordo dela subir uma vez ao palco, foi na associação, curiosamente para cantar comigo uma desgarrada. E se cantava bem minha gente, a minha mãe! Já eu, não canto nada!... Porém, canto na mesma.

Nota: a minha mãe não se chamava Maria da Conceição e eu não sei onde fica Albergaria dos Doze.





sexta-feira, 24 de abril de 2020

Crianças de Abril

Tenho a infância marcada pela lembrança ténue e breve de um Abril.
Tenho a infância marcada pelas conversas nos farnéis do campo, no almoço da fábrica, na taberna aonde os homens iam, nos encontros no átrio da igreja e, no meio de tudo isso, um certo Abril!
Tenho a infância marcada pelos arraiais com rancho folclórico e cornetas de música incerta, os comes e bebes em chão de feto e sombra de rama de eucalipto e à noite a luz sempre a falhar. E o conjunto que só fazia barulho – diziam os velhos! Tenho a infância marcada por uma televisão a preto a branco que só dava notícias e filmes de que eu gostava!

Nesse tempo, um certo Abril rompeu a História e pela primeira vez ela se fez de todas as serras, paredes, lugares e lugarejos deste povo.
Do fedelho ao avô, do primo de Lisboa à tia freira, do padre ao barbeiro e à padeira, toda a gente botava sentença e opinião. Um país dividido em mil partidos e unido num Abril.
- De que partido é ele?!
Importava mais que a idade, a terra ou a profissão.
A política…


- O Mário Soares é um cabrão! Cabrões dos fascistas! Cabrão do Sá Carneiro! Cabrões dos comunistas! Cabrão do Otelo, do Spínola, do Cunhal! Cabrões da PIDE! Cabrão do Salazar!
Ressalvo o respeito pelos visados mas era assim a voz do povo em que cresci.
E no fim, a Gaiola Aberta a rematar:
- E não há ninguém que parta os cornos a estes cabrões?!

Tenho a infância marcada pela lembrança de um Abril que já lá vai. Como antes dele, já não se fala política. Na hora da receita ainda se sente a divisão:
- O que era preciso cá, era um novo Salazar!
Julgo que já o temos.
- O que era preciso era outro 25 de Abril!
Talvez um dia …

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Quando um homem sozinho faz o arraial

Com a devida homenagem ao Manel do Barrocal

Era de esperar que hoje de manhã tivesse despertado com o som da alvorada da festa da minha aldeia. Isso não aconteceu e, ainda entre os lençóis, cismei: 
- Já não é a primeira vez que os mordomos apanham um cabra na véspera e, no dia da festa, não acordam para deitar a alvorada!
Eram dez horas e, não ouvindo o som das cornetas com a música do Quim Barreiros, pensei: 
- Se calhar o leitor de cassetes avariou! Também não faz falta, a festa costuma ter barulho a mais!...

Também não era à hora da missa, eu que não sou dessas coisas e acho mesmo que não fazem justiça à tradição da terra, que eu iria até ao recinto. Nem mesmo ao almoço tenho ido porque não gosto de ver mesas de noivos sem ser em casamentos e cansei-me de me darem cabo da refeição com discursos de chacha e pedidos de salvas de palmas!

Quando à tarde me decidi a sair de casa e ir até ao arraial, estranhei ver tão poucos carros nas imediações e conclui: 
- Isto é sempre a mesma coisa, o pessoal só se junta em força ao fim da tarde!

Quando finalmente ia a chegar ao largo abeirou-se de mim o "homem da bicicleta com muitas luzes" e perguntei-lhe porque é que este ano a festa estava tão fraca. Respondeu-me que o pessoal não saía de casa com medo que lhe pegassem a constipação.
- Ora porra! Eu bebia ao menos uma cerveja!

Não me ligou e destravou pela rua abaixo enquanto eu fiquei a congeminar um cigarro de abalada. Não tardou muito que o avistasse de novo a pedalar ladeira acima e me estendesse à mão duas minis, uma para cada um, portanto.
- São as duas para ti que eu não bebo!
- Ah! Muito obrigado!
- Passa mas é para cá cinco euros e deixa-te de obrigados!

Paguei-lhe e ele deu meia volta. Ainda pensei ligar a um amigo ou outro para fazer a festa mas, na verdade, tenho andado um pouco constipado. Permaneci ali algum tempo, com uma mini aberta em cada mão, com uma mão a falar com a outra, bebendo ora de uma, ora de outra e acabo de chegar a casa a pensar como foi eficiente o mordomo e como foi boa a festa da Cartaria.

domingo, 12 de abril de 2020

O que será deste país sem os exames nacionais?


O normal funcionamento do sistema educativo é um problema menor no contexto da atual crise com que nos deparamos. No entanto, governo, meios de comunicação social e comunidades escolares parecem ter encontrado aí uma distração para aliviar outras preocupações e responsabilidades que a situação lhes exige. E, como se não bastasse, como centro desta problemática secundária, os exames nacionais do ensino secundário têm meio país suspenso à espera duma resolução.
A importância dos exames nacionais tem vindo a crescer, ao longos dos anos, a pretexto de atestar a eficiência do ensino escolar quando, na verdade, não passam dum falso indicador, cujo papel mais relevante se reduz a, por métodos meramente quantitativos, distribuir os jovens pelas cadeiras do ensino superior e, em particular, a limitar o acesso dos candidatos ao sonho das faculdades de medicina.
O ambiente de medo e de ansiedade que, quer da parte de professores, quer de alunos, rodeia habitualmente a realização destas provas, resultado de todo o folclore normativo que se foi desenvolvendo à volta delas, roça já a dimensão do paranóico e do ridículo. Chegou-se ao ponto das regras limitarem às professoras vigilantes o uso de saltos altos ou de mini-saia, aos professores vigilantes o uso de sandálias ou de calções, das garrafas de água que os alunos levam não poderem ter rótulo, das tesouras que abrem os envelopes dos enunciados terem 15 cm, das provas de resposta serem transportadas em carros da polícia, das escolas verem, perante a opinião pública, a avaliação do seu trabalho quotidiano reduzida à análise de pautas de resultados de exames nacionais.
O sistema evoluiu para este formato avaliativo, paranóico e ridículo, mas nem sempre foi assim. Por exemplo, nos anos do 25 de abril houve reboliço e revolução no sistema educativo, houve muitos casos em que o ano letivo só se iniciou em novembro ou em janeiro, houve até passagens administrativas e não consta por isso que a geração formada nessa altura não tenha vindo a  cumprir a sua profissão de forma competente.
Acautelemos a nossa saúde, cuidemos dos doentes, enterremos os mortos, sejamos solidários, exijamos justiça social, contribuamos para a economia necessária às nossas vidas e não nos preocupemos com os exames nacionais que as universidades têm lugar para todos e o momento sugere-nos que de futuro haverá muitas vagas para medicina.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Ais pandémicos

(Com inspiração na Cantiga dos Ais de Armindo Mendes de Carvalho e com a entoação dos mesmos ais do Mário Viegas)

Ai agora que isto parecia que ia a correr tão bem
Ai minha mãe que desgraça que se abeirou sobre nós
Ai que não escapa ninguém
Ai o meu pai que é idoso
Ai o abraço que falta
Ai o beijo que é perigoso
Ai estas ruas sem malta
Ai os bares que estão fechados
Ai se não fosse a internet
Ai os velhinhos nos lares
Ai qu'isto é obra do demónio
Ai o que António não promete
Ai o pobre do Marcelo preocupado demais
Ai o Portas que é tão parvo e os outros Tavares também
Ai a senhora da saúde
Ai a gente dos hospitais
Ai o pico
Ai os Açores
Ai o Norte
Ai o Algarve
Ai os aviões
Ai gente que trabalhava com o certinho ao fim do mês
Ai os jogadores da bola
Ai os banqueiros coitados o que farão desta vez
Ai o que será desta gente
Ai que os meninos não tem escola
Ai os pais com os seus filhos
Ai coitadinho de quem está fechado no seu t2
Ai que vão soltar os presos
Ai como é que vai ser depois
Ai gente que tem que andar
Ai que não nos falte o atum
Ai quem nos dá o arroz
Ai a culpa é dos chineses
Ai Deus acuda ao Brasil, à América e à Europa
Ai que desta vez não posso fugir para o Rio de Janeiro
Ai que o maldito nos chega com os ventos vindos de Espanha
Ai que a culpa é do destino
Ai a Itália desgraçada a quem nem o Papa acode
Ai que isto é castigo divino
Ai coitadinho do padre que não pode dizer missa
Ai que dizem que esta porra também já chegou à Índia
Ai Síria, Líbia e Iraque que agora também nos dói
Ai céus
Ai luvas que Deus mas dê
Ai que não me dou com máscaras
Ai que se me acabou o álcool
Ai que eu tenho bebido tanto
Ai que me dói a cabeça
Ai que tenho tosse seca
Ai que não encontro o termómetro
Ai que eu ando tão cansado
Ai que me saiu a mim
Ai mas quando é que isto acaba
Ai como isto irá acabar
- Tudo bem, como sempre só para alguns,
os que sempre usaram máscaras .





sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Quando a malta perder a paciência


As pessoas comerão três vezes ao dia
E passearão de mãos dadas ao entardecer
A vida será livre e não a concorrência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Certas pessoas perderão seus cargos e empregos
O trabalho deixará de ser um meio de vida
As pessoas poderão fazer coisas de maior pertinência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

O mundo não terá fronteiras
Nem estados, nem militares para proteger estados
Nem estados para proteger militares prepotências
Quando os trabalhadores perderem a paciência

A pele será carícia e o corpo delícia
E os namorados farão amor não mercantil
Enquanto é a fome que vai virar indecência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Quando os trabalhadores perderem a paciência
Não terá governo nem direito sem justiça
Nem juizes, nem doutores em sapiência
Nem padres, nem excelências

Uma fruta será fruta, sem valor e sem troca
Sem que o humano se oculte na aparência
A necessidade e o desejo serão o termo de equivalência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Quando os trabalhadores perderem a paciência
Depois de dez anos sem uso, por pura obsolescência
A filósofa-faxineira passando pelo palácio dirá:
“declaro vaga a presidência”!



Mauro Iasi

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Parábola para quem consegue ler mais de duas linhas

A primeira razão daquela civilização era mudar a face da terra, o que significava torná-la plana, eliminando os vales e os montes. Passara o tempo das pás e picaretas e o desenvolvimento trouxera escavadoras, giratórias, niveladoras, cilindros, camiões e outras poderosas máquinas de terraplanagem.

A Terra Plana resultara duma associação de outras empresas da Zona Centro e era a sociedade que dava cartas aos territórios vizinhos. Pela sua ação, povoações que outrora se debatiam com as agruras do relevo, locomoviam-se agora confortavelmente por todo o lado, excepto, claro está, pelos vales e  montes que iam deixando de existir.

A Mexe Terra era uma pequena empresa da Zona Sul e não dormiu enquanto não conseguiu um tratado de união com o seu sucesso de referência, a Terra Plana. Para lá dos donos, os mais civilizados, também os seus trabalhadores deitaram foguetes e deram vivas a máquinas novas que chegariam, a novas condições que os igualariam aos centrais e, sobretudo, à visão futura da imensa planície em que iriam transformar a sua terra.

A Terra Plana dotou-a, de facto, de máquinas melhores mas eram as usadas que já não lhe serviam, forneceu-lhe financiamentos para algumas movimentações de terras de interesse central mas aumentos de rendimentos? "nem pensar! porque é precisamente nos baixos salários que vós sois bons e, atenção, o mármore é para nós e o mar é nosso!".

Chegados ao presente, os trabalhadores da Mexe Terra vão reconhecendo o engodo e questionam os patrões mas estes, que apesar de tudo melhoraram os seus meios de locomoção e gozam de prazer quando se sentam à mesa com os maiores do Centro, respondem-lhes com a impossibilidade de sobreviverem fora da Terra Plana, com a necessidade da construção do caminho único como forma de tornar lisa e suave a face das terras do Sul.

Será já no futuro que os filhos dos operadores das máquinas e todos os sulistas, apercebendo-se da infertilidade da terra movida e que a vida não tem jeito nenhum sem montes e vales, tomarão o poder apropriando-se das máquinas para abrir vales e erguer montanhas.

É provável que ainda vão a tempo, pena que o profeta já tenha morrido.

Patrão da Mexe Terra preparando-se para assinar a entrega da sua empresa e o futuro dos seus trabalhadores à Terra Plana.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Presépio nº1

Não percebo porque é que alguém teve esta ideia em vez de mim.


O presépio cá do palácio dos leittões é este:



domingo, 15 de dezembro de 2019

Parábola para quem não entende



Porque sempre fora assim, por temor, devoção, ou desejo perverso de ser dominada, aquela família, proprietária das fazendas mais férteis da ribeira, era das que mais contribuía para a fartura da abadia. Era, diz-se bem, porque quando Simão tomou o lugar de seu pai, nem mais um serviço, moeda, alqueire, almude ou oração, saiu daquela casa para os rabos ou barrigas da igreja.
Claro que, juntamente com os seus, teve rapidamente a resposta esperada: hereges, danados,  almas do diabo, cacodoxos, malditos e outros nomes mais, além de ostracizados, amaldiçoados e devidamente excomungados.

Em conformidade com "os livros dos livros" das orações e regras dos mitras, seria justo, respeito pela fé de cada um, pelo direito que cada um tem ao que é seu, à sua vida e sua opinião mas não: clamado, pregado e com sentença, dito e redito dos púlpitos e altares, que nenhum freguês poderia comprar trigo daquelas terras, ai de alguém que lhes vendesse um grão de arroz, que ficasse mudo quem dirigisse aceno ou palavra aquela gente. Exceção se faria, apoio e acolhimento, a alguém da prole que confessasse arrependimento ou vontade de matar o patriarca.

Perante o afrontamento, a família de Simão reagiu unida e com orgulho, com o seu suor, a sua vontade, a sua razão, foi resistindo ao monstruoso poder que emanava das naves clericais. Não sem que a certa altura se começasse a notar que alguns rabos da família já não enchiam as calças, que algumas crianças traziam o pipi e pirilau ao léu, que com tamanha força não se notasse algum desânimo, que alguns sobrinhos mais manhosos não começassem a mexer os cordelinhos das ceroulas do abade e a denunciar  insatisfação.

Nas homilias já se podia demonstrar: vejam o que acontece a quem não obedece a Deus, vejam como estão sozinhos os que não ouvem os santos, vejam a miséria a que chega quem não traz pão nem vinho à igreja, morrem de fome os que não reconhecem a autoridade dos pastores do rebanho. Vós cristãos tendes o dever de dar a esmola a essa gente, convertei pela caridade os mais famintos, mostrai-lhes como são grandes as obras que andamos a fazer para elevar a torre e dotá-la de mais sinos.
Simão e os seus mandavam à merda estas oferendas e iam aguentando dizendo, a quem os pudesse ouvir, que tinham esperança que outras famílias boas a eles se juntassem contra os poderosos e pelo direito a não ter religião.

E como tais declarações, embora silenciadas nas assembleias, chegassem à sacristia, de imediato se fez um levantamento das famílias menos católicas e se decidiu intervir junto das mesmas, para que não tomassem o mesmo caminho e, a bem ou a mal, seguissem as orientações da santa madre igreja, trabalhassem muito, contribuíssem com oferendas, cultivassem a pobreza e a castidade ...
- Ai isso é que não! - disse o benjamim de Simão.

(dedicado aos povos que, hoje mesmo, resistem às ofensivas do imperialismo)