terça-feira, 21 de março de 2017

Os pastorinhos nunca estiveram presos na cadeia coisa nenhuma!...

Não me incomoda Fátima enquanto questão de Fé, enquanto acontecimento de dimensão política da República ou enquanto história que se desenvolve segundo a premissa de “quem conta um conto aumenta um ponto”. Incomoda-me sim quando, na história escrita pelos vencedores, a deturpação e a fantasia denigrem injustamente o caráter dos vencidos ou nos desconsideram, fazendo-nos passar por tolos.



Porque é mentira que os três protagonistas principais, as três crianças, os três pastorinhos, os três videntes, Lúcia, Jacinta e Francisco, alguma vez tenham estado presos na cadeia; porque em todo este enredo se vão confundido os acontecimentos reais, a ficção e o sobrenatural; porque na evolução das versões, na literatura sobre o tema, no imaginário dos devotos e até no cinema, se foi cimentando o cenário onde as três criancinhas vivem os horrores da prisão, sujeitas à tortura, a ameaças de morte e ao convívio com perigosos criminosos; porque em todo este guião surge sempre, como o “mau da fita”, o administrador de concelho de Ourém, Artur Oliveira Santos, deixo aqui um pequeno contributo para a reabilitação do seu nome e de alguma verdade histórica.

Paralelamente, sendo sensível a testemunhos orais que resistiram às duas ou três gerações que nos separam da época dos acontecimentos,  que asseguram que o pai ou a avó lhes contou lembrar-se de ter visto os pastorinhos na varanda brincando com os filhos do Administrador ou até mesmo na procissão das Festas da Nossa Senhora da Assunção, senti-me incomodado pela rara documentação que denuncia essa mentira, razão única que me levou a fazer este trabalho.

Se ao princípio a pesquisa que se exigia me deixou frustado eis que, por mero acaso ou mão divina, encontrei, duma penada, alimento para a minha intenção – provar que os pastorinhos nunca estiveram na prisão – e, para cúmulo da sorte, numa única fonte, o site oficial do Santuário de Fátima, num único documento, Documentação Crítica de Fátima – Seleção de Documentos (1917-1930).

Não tendo perfil de historiador, limitar-me-ei a transcrever excertos que, na minha opinião, provam que o “mau da fita” levou as crianças para sua casa, de 13 a 15 de agosto de 1917, e não para a prisão, com os propósitos de evitar a “especulação clerical” – expressão do próprio - à volta das mesmas, de averiguar se existiam outros intervenientes por detrás das aparições e de impedir que no dia 13 acontecesse mais uma manifestação de “culto externo” – proibido pela República.

Vamos então ao(s) documento(s), reduzindo as notas ao essencial, muitas vezes apenas as páginas em que constam, na dita Seleção de Documentos, para tornar a dissertação mais concisa.

A apresentação na ordem cronológica pode parecer natural mas não é inocente, tendo em conta o facto da história de Fátima ter estado, desde o início, em evolução permanente, como não será por acaso que a própria seleção em análise demarque o ano 1930, altura que alguns autores assinalam como o início da Segunda História de Fátima.


1- (Pág. 39) Carta do Padre Manuel  Ferreira, pároco de Fátima, ao redator do jornal “O Ouriense”, a defender-se da acusação de cumplicidade com o administrador de Vila Nova de Ourém, no rapto dos videntes no dia 13 de agosto de 1917 – 25/08/1917.

“Chegou no dia 15, a autoridade com as crianças a minha casa, onde se ajuntaram os pais das mesmas e muitas outras pessoas perante as quais pretendeu com todas as amabilidades explicar o seu modo de proceder.”

Comentário: O Administrador foi amável.

2- (Pág. 50) Depoimento do Pe. António dos Santos Alves , pároco das Cortes, sobre a conversa com Lúcia e Jacinta, em Reixida, freguesia das Cortes sobre a sexta aparição – 17/09/1917.

“Neste dia disse-lhe que se elas no dia 13 não tivessem sido levadas pelo administrador, o milagre (para o povo) não teria sido tão conhecido.”

Comentário: É  Nª Senhora, a Própria, que  utiliza o termo “levadas” sem recorrer a outros como “presas” ou “prisão”.

3- (Pág. 51) Interrogatório aos videntes Lúcia, Francisco e Jacinta, e a Maria Rosa, mãe de Lúcia, feito pelo Dr. Manuel Nunes Formigão, aquando da sua segunda visita à Cova da Iria, no intuito de completar as impressões colhidas no dia 13 de setembro de 1917 - 27/09/1917.

“O sr. Administrador quis realmente que eu lhe revelasse o segredo, mas como eu não o podia dizer a ninguém, não lhe disse, apesar de ter insistido muito comigo para esse fim.”

Comentário: A Lúcia fala de” insistência”, não fala de ameaças, nem de caldeirões de azeite, nem de prisão.

4- (Pág. 61Redação literária dos apontamentos dos interrogatórios do dia 11 de outubro de 1917, feitos pelo Dr. Formigão.

“Quando as crianças foram presas pelo administrador de Vila Nova de Ourém foi alguém reclamar que as restituissem aos pais? – Um irmão do Francisco e da Jacinta foi falar com elas a casa do administrador. A senhora do administrador perguntou se ia buscar as crianças, ao que ele respondeu negativamente. O próprio administrador as veio trazer à Fátima.

Comentário: Fica a ideia que o rapaz poderia ter levado os irmãos para casa.

5 - (Pág.s 176 e 181) Relatório do Padre Manuel Ferreira, pároco de Fátima – 6/08/1918.

“No dia vinte e um compareceu na minha presença a menina Lúcia e disse que no dia treze em que foi levada pelo administrador para Vila Nova de Ourém, e onde esteve, na casa do mesmo administrador, até ao dia quinze, não viu nada de extraordinário.”
...
“Por várias vezes interroguei a vidente Jacinta que sempre me confirmou que viu uma Senhora na Cova da Iria, nos dias treze de maio a outubro de mil novecentos e dezassete, menos no dia treze de agosto em que se achava em casa do administrador...”


6- (Pág. 261) Os acontecimentos de Fátima - opúsculo da autoria do Visconde de Montelo (Dr. Manuel Nunes Formigão) – 15/01/1923.

“Em 13 de agosto, momentos antes da hora da aparição, as crianças foram ardilosamente raptadas pelo administrador do concelho, que as reteve em sua casa durante dois dias...”

7- (Pág.s 291 e 303) - Interrogatórios oficiais realizados pela Comissão Canónica a Manuel Pedro Marto (a) e Olímpia de Jesus(b) (pais dos videntes Francisco e Jacinta Marto), Maria Rosa (mãe da vidente Lúcia), Maria dos Santos e marido, Manuel António de Paula e José Alves, acerca dos acontecimentos de Fátima – 28/09/1923.

(a) “Mais tarde, quando as veio trazer a Fátima, ... Declarou que acusavam o regedor e o senhor Prior do rapto das crianças, mas que só ele tinha a culpa, que podiam perguntar às crianças, se as tinham tratado mal, e que já não queria saber de nada, que elas podiam ir ao local, quantas vezes quisessem.”

(b)“Os irmãos de Jacinta foram de bicicleta observar o que se passava em Ourém e vieram dizer que tinham visto as crianças a brincar na varanda do administrador, que os tratava bem. O administrador veio trazê-los à Fátima no dia quinze num carro e foi pô-las na varanda do senhor Prior. ... As crianças mostraram-se como dantes contentes e prontas para brincar, dizendo que lhes tinham feito muitas perguntas e que tinha ido um médico examiná-las.”

Comentário: O Administrador manda perguntar às crianças se as trataram mal?... as crianças a brincar?... contentes como dantes?...

8- (pág. 318) Interrogatório oficial de Lúcia de Jesus, realizado pelos Padres Drs. Manuel Nunes Formigão e Manuel Marques dos Santos, da Comissão Canónica, Porto - 8/07/1924.

“Quando chegámos a Ourém, fecharam-nos num quarto e disseram que não sairíamos dali enquanto não declarássemos o segredo que a Senhora nos confiou. No dia seguinte... levaram-nos à Administração, onde fomos de novo interrogados... Voltámos para casa do Senhor Administrador, onde tínhamos ficado na noite anterior e de tarde fomos outra vez interrogados sobre o segredo. Levaram-nos à cadeia, e ameaçaram-nos de lá ficar, se o não disséssemos.”

Comentário: É de admitir que para dar carácter oficial à guarda das crianças as mesmas tenham sido levadas à Administração do Concelho. Sendo a prisão no mesmo edifício, é provável que as tenham levado à cadeia como forma de coação. Contudo, “levaram-nos à cadeia” não é o mesmo que dizer “levaram-nos para a cadeia”. Por outro lado, ao longo das 650 páginas do documento fonte, esta é a única referência ao termo cadeia - sete anos depois dos acontecimentos, quando a declarante Lúcia já não é nenhuma criança e já está à guarda num convento no Porto.

9- (pág. 432, 459, 463) Relatório da Comissão Canónica Diocesana sobre os acontecimentos de Fátima – 13/04/1930.

“O próprio administrador do concelho de Vila Nova de Ourém, que as interrogou no dia 13 de agosto, e as conduziu presas para sua casa, onde as conservou durante dois dias...”

 “Por isso submeteu as crianças, durante os dias em que as conservou em sua casa, a interrogatórios repetidos...”

“Por esse motivo, no dia em que devia realizar-se a quarta aparição, como já se disse mais atrás, apodera-se à falsa fé das pobres crianças e leva-as numa charrette para sua casa em Vila Nova de Ourém...”

Comentário: Este relatório marca o ponto de viragem nas versões dos acontecimentos e na adoção oficial do culto da Senhora de Fátima por parte da hierarquia da Igreja,  sendo de destacar como figura central desta comissão, como na maior parte das redações aqui referidas, o papel do cónego Formigão, Visconde de Montelo, o grande mentor de Fátima.

10 - Relatório do Administrador do Concelho de Ourém - 31/10/1924.

"...consegui trazê-las para minha casa, junto da minha família, num carro previamente alugado."

Comentário: Fica bem terminar dando a última palavra ao Administrador. Curiosamente este relatório não faz parte da seleção da "Documentação Crítica de Fátima" em que se basearam os itens precedentes mas pode encontrar-se aqui mesmo.


Nota final:  Espero ter deixado prova de que os pastorinhos nunca estiveram presos na cadeia coisa nenhuma, terá porventura a irmã Lúcia, ou os que por ela escreveram, introduzido essa referência muitos anos depois, mas quanto a isso paciência, pode servir para romancear a história mas para a verdade histórica já foi tarde. 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Ó Fátima, Deus, Virgem Maria!...


Nasci, cresci e vivo com Fátima. A minha mãe agradeceu à Nª Senhora de Fátima o meu nascimento. Em criança, pedi à lareira o terço que a Nª Senhora me pediu que pedisse. Quando fiz o exame da 4ª classe pedi à Nª Senhora do Rosário de Fátima que me ajudasse e passei. Já fui não sei quantas vezes a Fátima a pé e conheço de perto a realidade histórica e atual. Gosto de ir a Fátima porque lá se ouve o vento e interesso-me pelo fenómeno nas suas múltiplas vertentes. Conforta-me que a Igreja Católica não faça de Fátima dogma de Fé e rendo-me à evidência de Fátima existir. Ao fim de séculos de aparições e milagres por tudo quanto é ermo parecem ter parado por aqui as revelações do Céu. Parece que agora é mais difícil ou, ao que "aparece", já não é necessário!

Que ninguém ouse desmistificar Fátima porque Fátima interessa a todos. Interessa ao crente para aliviar a mente e acreditar em melhores dias. Interessa às freiras para terem casa e terem que fazer. Interessa aos padres para colmatar as ausências à Missa Dominical e apascentar os fiéis. Interessa aos bispos para se fazerem ver e serem ouvidos. Interessa ao Papa para sair de S.Pedro e recolher uns fundos e uns beijos. Interessa aos governantes quando não há Benfica ou a fadista está rouca. Interessa à região porque Fátima é turismo e é comércio. Fátima, interessa a todos! Calemo-nos, pois, todos! Quem souber rezar que reze! Quem souber ganhar que ganhe! Eu fico a ouvir o vento à sombra de uma azinheira de quem se sabe a idade!

O Papa vem aí? Pois que venha! Que pacifique os espíritos que falam com a Virgem e que a adoram, que não questione os factos que rezam a história e que, convenientemente e silenciosamente, dê um dedinho da sua mão beijada pelo turismo religioso que tanto jeito faz à nossa economia.
aujourd´hui je suis Marcelo

sábado, 11 de março de 2017

Relatório oficial sobre os acontecimentos de Fátima

(continuação) - 1 - 2 - 3 - 4

A concorrência, no dia 13 de Outubro, foi inferior à de 13 de Maio do mesmo ano. Houve missa campal, mas não se realizou a procissão. Em 13 de Maio de 1923, a aglomeração  foi superior à de 13 de Outubro de 1917, mas isto devido à grande propaganda e  à circunstância de o referido dia ser domingo. A força enviada não chegou a intervir, apesar de na Cova de Iria se efectuarem procissões sem a permissão da autoridade.

A este tempo já estava quase concluído um enorme poço, que o bispo de Leiria mandara fazer, para recolher as águas pluviais, pois a Cova de Iria que, como disse, tem a designação de depressão de terreno, deve comportar 500 pipas de água, não que ali brote, como falsamente tem sido propagado, mas que ali armazenam, para vender ao público, o que constitui larga receita. Começaram já a murar o terreno adquirido, que deve ter, aproximadamente, 250 metros de comprimento por 150 de largura. A compra do terreno deve ter custado 80 contos.

São muitos os promotores ou interessados desta peregrinação, mas o principal é o bispo de Leiria. É quem tudo orienta e dirige. Na procissão, a que já me referi, nomeou uma comissão para averiguar da “veracidade do milagre” e organizar o processo segundo as leis canónicas. Conheço alguns dos nomeados – autênticos inimigos do regime republicano e criaturas vulgares, que antecipadamente o bispo muito bem sabe que implicitamente lhe aprovarão por unanimidade o grande milagre. Constituem a referida comissão os padres João Quaresma, vigário geral da diocese; Manuel Marques dos Santos, director da Voz de Fátima; Joaquim Coelho Pereira, prior da Batalha; Joaquim Ferreira Gonçalves Neves, prior de Santa Catarina da Serra; Agostinho Marques Ferreira, pároco de Fátima; Manuel Pereira da Silva, professor do Seminário; Manuel Nunes Formigão, professor do liceu de Santarém, e Faustino G. Jacinto Ferreira, vigário da Vara de Ourém. Pelo falecimento deste, foi nomeado o sobrinho, Faustino Ferreira, também vigário da vara. Como as obras da cerca estão a concluir-se, deve estar também a concluir-se o processo canónico. Nenhum orçamento ou estatuto até hoje passou pela Administração do Concelho, nem se sabe verdadeiramente onde o dinheiro é aplicado.

Pelo artigo 57 da Lei da Separação, só serão permitidas manifestações de culto externo, onde e quando constituírem um costume inveterado. Ora, na via pública, na estrada 121 (ramal), tal não acontece e por isso não poderão ser permitidos actos de culto externo. Na Cova de Iria foi feita da capela uma casa, espécie de chalé, onde os padres têm a santa, pregam sermões e dizem missa. Foi-lhes retirada autorização para qualquer acto de culto fora daquele local.

A multidão que vem à Cova de Iria é composta de diferentes classes. Vão os crentes ingénuos e simples, arrastados pela crendice; vão os negociantes de comes-e-bebes e vendilhões de rosários, das estampas, etc.; vão os petisqueiros com os seus farnéis; vão os curiosos, os descrentes, politiqueiros, etc., uns sozinhos, outros com a família ou os amigos, mas a grande maioria é decerto constituída por gente rude, de longes terras, onde predomina o fanático e o reaccionário. Os concelhos que fornecem maior número de pessoas são: Torres Novas, Vila de Rei, Mação, Proença-a-Nova, Oleiros, Idanha-a-Nova, Fundão, Sardoal, Ferreira do Zêzere, Sabugal, Vila Velha de Ródão, Pedrogão Grande, Figueiró dos Vinhos, Ponte de Sor, Alter do Chão, Fronteira, Pombal, Alvaiázere, Porto de Mós, Batalha, etc.

Fátima é hoje, no país, uma etapa da Reacção, que procura ponto de apoio para base da sua resistência. O facto de se não ter impedido eficazmente a peregrinação deveu-se simplesmente a terem as forças armadas chegado tarde. É certo que foram postas à minha disposição forças das unidades mais próximas porque aquelas que chegaram no dia 12, à tarde, eram insuficientíssimas, mas, requisitando mais, tinha dois caminhos que trariam para o Regime inconvenientes novos.

As forças que eu requisitasse das unidades mais próximas, só aqui chegariam no dia 13. Ora no dia 12, já estavam em Fátima, seguramente, 25000 pessoas. Com o auxílio de novas forças poderia eu ter ido a Fátima dispersar 50000 a 60000 pessoas? O sangue que fatalmente correria não seria uma arma terrível contra o governo e contra o Regime? Por outro lado, não me utilizando a força, cairia, pelo menos, no ridículo, e não querendo, por princípio algum, desobedecer a V. Ex.ª, preferi não requisitar mais a tropa e mandar a pequena força para onde fora requisitada, fora do local da Cova de Iria, tanto mais que a mesma força seria suficiente para impedir a saída da procissão  de Fátima, caso teimassem em realizá-la, o que, todavia, não era preciso, pois que eu já tinha conseguido impedir a sua realização por outros meios mais suazórios, embora não deixassem de causar receio ao pároco da freguesia e a outras pessoas.

Às 22 horas da noite de 12, veio o Dr. Andrade e Silva (a pedido da Sr.ª D. Madalena Serrão Machado, que tem feito a perigosa propaganda da cura do cancro pelas águas pluviais da Cova de Iria) pedir a realização da procissão. Neguei-lhe terminantemente permissão para esta e fiz-lhe saber que no dia 13, prenderia o pároco da freguesia. Pediu-me então aquele cidadão que tal não fizesse, tão convencido estava o Dr. Andrade e Silva de que eu tinha esse intuito.

Na comunicação enviada a V. Ex.ª, julgo que em 10 do corrente mês, frisava eu que havia duas maneiras de intervir.
1ª) O Governo mobilizaria os meios de transporte em diversos distritos; 2ª) ou, então, a Guarda Republicana impediria que se realizassem  actos de culto externo. Embora, como V. Ex.ª sabe, me prejudique materialmente continuar por muito tempo neste lugar, que V. Ex.ª se dignou confiar-me, eu não terei essa dúvida, se assim for preciso, de nele me conservar, porque nunca hesitei no cumprimento dos deveres de republicano, que me prezo de ser, desde há longos anos.

A Reacção vai triunfando, hipocritamente, e a Liberdade perde terreno, fazendo-lhe concessões. Aquela está fora da lei e é necessário metê-la na ordem. Julgo que há maneira de jugular a Reacção da Cova de Iria. Quando o Governo não possa, ou, para melhor dizer, não queira mobilizar os meios de transporte em diversos distritos, tomar-se-iam, a pouca distância da Cova de Iria, as embocaduras das estradas que conduzem a Fátima, anunciando-se devidamente o caso com certa antecedência. Fazendo isto, durante meses consecutivos estou certo que a Reacção sofreria um grande golpe, deixando a pretensão de ter um Estado dentro do Estado.

Junto vários documentos.
Saúde e fraternidade!

Vila Nova de Ourém, 31 de Outubro de 1924.

O Delegado do Governo encarregado do inquérito,

ARTUR DE OLIVEIRA SANTOS.

quinta-feira, 9 de março de 2017

As aparições de Fátima no Relatório de Artur de Oliveira Santos

(continuação 1 - 2 - 3- 4 ) do Relatório do Administrador do Concelho de Ourém, Artur de Oliveira Santos, a propósito das aparições de Fátima, escrito em 1924.

Depois desta data, tendo eu deixado a Administração do Concelho, foi proibido e permitido, sucessivamente, o culto externo, mas as peregrinações ou romarias nunca mais tiveram a mesma importância de algumas anteriores. Posteriormente é que o bispo de Leiria, José Alves Correia da Silva, se resolveu a intervir. O primeiro acto foi levar Lúcia para fora de Fátima, a pretexto de a mandar educar, o que a própria família confirma, não se sabendo, porém, do seu paradeiro.
De vez em quando, escreve à mãe (ou alguém escreve por ela), dizendo estar bem, num colégio, e recomenda que ninguém duvide do milagre da Cova de Iria. Consta estar num convento em Espanha, o que é dito pelo vizinho Casimiro Rodrigues Esteves. Em Lisboa, na Rua dos Bacalhoeiros, Hospedaria dos Bicos, o proprietário desta, igualmente de nome Casimiro, um velho republicano, alguma coisa sabe sobre o assunto.

Para avaliar o critério do Bispo, basta ler, na provisão que vai junta a este relato e que foi publicada no jornal A Época, de Lisboa, nº1019, de 14 de Maio de 1922, a seguinte passagem: “Demais a mais, a pequena saiu da terra, nunca mais lá apareceu e, não obstante, o povo acorre ainda em maior número à Cova de Iria.” A sua intolerância é de tal ordem que, em 23 de Abril de 1923, mandou uma circular aos párocos da sua diocese, proibindo-lhes assistir a qualquer festividade religiosa onde comparecesse  a filarmónica dos Pousos (Leiria), pelo facto de aquela ter tomado parte numa festa liberal, julgo que comemorativa da Lei da Separação. O seu egoísmo e cupidez são grandes. A testemunhá-lo basta a caça feita à herança de D. Constança Teixeira Albuquerque, de Caldelas, freguesia da Caranguejeira (Leiria), uma pobre viúva que deixou os parentes sem recursos, para legar ao bispo uma fortuna que deve orçar por 800 contos.

O mesmo Bispo de Leiria foi quem veio dar alento à mistificação. Inteligente e astuto como é, procede com discrição e prudência. O dinheiro recebido da Cova de Iria (larga depressão de terreno como o nome indica), remetido, todos os dias 13, à consignação do bispo, é incalculável. Em Maio de 1923, o semanário republicano A Voz do Povo, de Leiria, que não foi desmentido pelos jornais católicos, noticiava que o dinheiro recolhido no dia 13 do referido mês somava 200 contos. Por informações que reputo fidedignas, a receita nos dias 12 e 13 do corrente mês de Outubro de 1924 foi de 120 contos. E há a notar que, encontrando-se a igreja paroquial em obras, nenhuma das importâncias recebidas na Cova de Iria foi entregue para a referida igreja. É tudo ensacado e levado a S. Ex.ª, para Leiria, no próprio dia 13 de cada mês.

Em Fevereiro de 1922, a pequena capela erguida na Cova de Iria foi destruída por um incêndio, atribuído aos liberais; mas o que é deveras significativo é que a imagem, que pouco antes do incêndio se encontrava exposta na capela, foi dali retirada para casa de Manuel Carreira, do lugar de Monte Redondo, que transita, todos os dias 13 de cada mês, para a Cova de Iria e vice-versa. Confessou o Manuel carreira ter visto, na noite do incêndio, luz na capela, o que não era costume, não se percebendo que, sendo ele o zelador do templo, se não importasse com o caso.

Antes de 13 de Maio de 1922, foi feita, pela imprensa monárquica e católica, uma intenssíssima propaganda para impressionar o espírito católico e conservador, tendo até o próprio Diário de Notícias, de 11 de Maio de 1922, publicado um artigo encimado por grossos caracteres, no qual se incitava o povo a visitar o local da aparição. Esse artigo era acompanhado de fotografias dos três videntes e da pequena capela e também da provisão do bispo de Leiria. Compareceram 25 a 30000 pessoas.

Em Outubro do mesmo ano, saiu o primeiro número do semanário Voz de Fátima, que foi distribuído gratuitamente e que actualmente deve ter uma tiragem de 20 000  exemplares, cuja impressão é paga por subscritores e que são profusamente distribuídos, não só em Portugal, como também no estrangeiro, fazendo a perniciosa propaganda de curas milagrosas e sobrenaturais – puras fantasias – para explorar o vulgo, sem origem na verdade, e que a superstição ampliou até o absurdo. Dirige o referido semanário o Dr. Manuel Marques dos Santos, de Leiria, tudo com a aprovação do bispo.

continuação ( 1- 2- 3- 4 ) 

terça-feira, 7 de março de 2017

Relatório do Administrador do Concelho de Ourém

(continuação) - do Relatório do Administrador do Concelho de Ourém, Artur de Oliveira Santos, a propósito das aparições de Fátima, escrito em 1924.

(Convém informar, de passagem, que a mãe da Lúcia tinha um livro - Missão Abreviada - no qual, muitas vezes, lhe lia a parte relativa à aparição de La Salette, que deve ter produzido grande impressão no espírito da pobre criança.) 

Em 13 de Novembro, nova peregrinação, mas esta muito menos concorrida. Em 9 de Dezembro do mesmo ano, a Associação do Registo Civil mandou aqui uma comissão composta dos cidadãos Augusto José Vieira, Machado Toledo e Conceição Vasques, a qual realizou na Cova de Iria um comício de protesto contra a mistificação, comício que teve fraca concorrência do povo, porque o pároco convencera a população a não comparecer. No regresso a esta vila, foram os oradores apedrejados, valendo-lhes alguns soldados da Guarda Republicana que os acompanhavam. Na véspera, no Centro Republicano de Ourém, realizara-se imponente sessão, na qual tomaram parte as pessoas referidas e que foi imensamente concorrida e os oradores ovacionados pelas afirmações de combate à mistificação da Cova de Iria.

Veio o Dezembrismo (ou sidonismo), que colocou os reaccionários à vontade, e por esse motivo levantou-se uma pequena capela no local da fantástica aparição, onde todos os meses, no dia 13, era exibida a imagem denominada de Senhora do Rosário, oferecida por um indivíduo de Torres Novas, de nome Gilberto Fernandes dos Santos, por alcunha o Bicanca, o qual, junto à entrada do templo, ia recebendo as esmolas “para a santa”, mas que, afirma-se geralmente, revertiam em benefício daquele, pois vivendo, até então, em dificuldades, conseguiu passar a viver em situação desafogada. Os padres não se conformaram com este recebedor e trataram do substituir. 

Continuaram as romarias todos os meses, umas mais, outras menos concorridas, com a exibição de imagens, irmandades, missas campais, etc., sem que houvesse da parte das autoridades a menor proibição, ou que os promotores dos actos de culto externo necessitassem requerer autorização para estes. Depois da queda do Dezembrismo, ainda se realizaram procissões religiosas na via pública, as quais, depois, lhe foram proibidas.

Em 1919, faleceu em Fátima, de pneumonia, o pequeno Francisco, e, em Maio de 1920, no hospital D. Estefância, em Lisboa, a pequena Jacinta, de pleurisia purulenta, sendo transportada da Igreja dos Anjos, na capital, para o cemitério desta vila, onde ficou sepultada no jazigo do Barão de Alvaiázere. Haviam este e outros aristocratas projectado transportar o corpo da Jacinta, processionalmente, desta vila para Fátima, o que nunca chegaram a fazer devido aos protestos do povo liberal.

Em 13 de Outubro do mesmo ano (1919), a peregrinação foi pequena, devendo ter comparecido umas 6000 pessoas. Houve diversos actos de culto externo. Antes do dia 13 de Maio seguinte, tendo o governo da presidência do saudoso republicano coronel António Maria Baptista recebido protestos vários para proibir a especulação, fui convidado por S. Ex.ª para assumir o lugar de Administrador, que aceitei com a condição de serem mobilizados todos os meios de transporte em quatro distritos, impedindo, nos dias 12 e 13, a marcha dos que se dirigissem para Fátima. Tentaram alguns promotores de Torres Novas que, apesar de tudo a peregrinação se fizesse, o que não conseguiram. Tendo conseguido autorização do comandante da força, para irem à Cova de Iria os peregrinos daquele concelho, tal não se chegou a realizar por eu me opor. Um grupo, capitaneado pelo professor do liceu de Santarém padre Formigão, tentou, à viva força, atravessar por entre as fileiras dos soldados, mas estes, apenas com desembainhar as baionetas, puseram-nos a todos em debandada. Quase ao mesmo tempo, sucedia facto idêntico noutro local, não tendo havido, porém, mais incidentes  dignos de menção. Apareceu a Lúcia vestida de branco e com um ramo de flores na cabeça, a qual foi entregue aos pais, e o chamado milagre não se verificou. Compareceram umas 1000 pessoas, que se conservaram sempre na Fátima, por ser a maior parte daquela freguesia, o que era costume, por neste dia (Quinta-Feira da Ascensão) frequentarem a igreja.

Em 13 de Junho do mesmo ano, apesar de haver festa e feira em Fátima, nada digno de menção houve na Cova de Iria, a não ser a ida ao local de algumas centenas de pessoas.


ver a continuação ( 1 - 2 - 3 - 4 )

domingo, 5 de março de 2017

Fátima, a versão oficial dos factos

Faz cem anos sobre as chamadas aparições de Fátima. Tenciono assinalar aqui o centenário com o que me ocorrer à pena. 
Começo por transcrever este texto, primeiro porque não o consegui encontrar na internet o que, se não é inabilidade minha, considero uma grande falta; segundo porque se trata dum documento único relativamente à versão oficial dos factos; terceiro porque entendo que há que recuperar a imagem do seu autor enquanto vítima duma história tão mal contada.

Artur de Oliveira Santos escreveu este relatório em 31 de Outubro de 1924. 
Extraído de Tomás da Fonseca, Fátima: Cartas ao Patriarca de Lisboa, Rio de Janeiro, Editorial Germinal, 1955,pp.365-377.



Relatório do Administrador do Concelho de Ourém

Ex.mo Sr. Governador Civil do Distrito de Santarém

Encarregado por V. Ex.ª de elaborar com a máxima urgência, um relatório circunstanciado sobre a peregrinação de Fátima e seus antecedentes, “se os promotores estão ao abrigo das leis, motivo porque não se proibiu a peregrinação, em face das ordens transmitidas, e qual a corporação encarregada do culto”, vou desempenhar-me dessa missão, em bora não possa, como era meu desejo, apresentar um trabalho completo, pois que assunto de tal magnitude levam muito tempo a tratar e faltam diversos elementos que é difícil, neste momento conseguir, tanto mais que o chamado milagre de Fátima tem  ramificação em muitos concelhos, onde principalmente impera o espírito fanático e reaccionário, sobretudo em Leiria. Esforçar-me-ei, contudo por corresponder, com honestidade e zelo, à prova de confiança que me é dada por V. Ex.ª.

Em 13 de Maio de 1917, Lúcia de Jesus, filha de António dos Santos, o Abóbora, e de Maria dos Santos Porvilheira, que ao tempo tinha 11 anos de idade, e Francisco e Jacinta, de 9 e 7, respectivamente, filhos de Manuel Pedro Marto e Olímpia de Jesus, todos residentes em Aljustrel, freguesia de Fátima, foram como era de costume, apascentar, de manhã, umas ovelhas, para a Cova de Iria, que fica a dois quilómetros da sede de freguesia e a 12 da sede do concelho. A Lúcia, que estava fixando o Sol, disse para o Francisco e Jacinta, que lhe tinha aparecido uma Senhora muito bonita em cima duma azinheira, vinda do lado do Sol, e que a convidara a aparecer no dia 13 de cada mês, à uma hora da tarde, durante o tempo de seis meses, porque tinha um segredo a dizer-lhe no mesmo sítio. Os dois parentes (de Lúcia) nada presenciaram; só mais tarde, a instâncias de interessados, se lembraram de dizer que também tinham visto a senhora. Convém aqui esclarecer que a Lúcia é, na opinião de muitas pessoas, uma doente mental, certamente devido à hereditariedade que sobre ela pesa, pois o pai morreu vitimado pelo alcoolismo, sendo considerado o homem mais ébrio da freguesia. Regressando a casa, a Lúcia repetiu aos pais e aos vizinhos o que dissera aos dois parentes.

Em 13 de Junho do mesmo ano, por ocasião da tradicional festa de Stº António, na sede de freguesia, foram à Cova de Iria umas 60 pessoas, movidas por curiosidade, e a Lúcia lá compareceu com os dois parentes a fitar o Sol e dizendo ver uma santa com um manto branco, bordado a oiro e um resplendor na cabeça. A 13 de Julho, repetiu-se a cena, tendo comparecido umas 2500 pessoas. Era o bastante para a exploração clerical. Os Boletins Paroquiais e o Mensageiro de Leiria tocaram a rebate. O milagre realizava-se! A Virgem Maria honrava Fátima com a sua divina presença – diziam eles (aqueles orgãos do clero). Era necessário – acrescentavam – comparecer ali, para ver o milagre, em 13 de Agosto. Padres e seminaristas lá foram, arrastando consigo 12 a 15000 pessoas, tendo o concelho de Torres Novas dado o maior contingente. O que não deixa de ser interessante (como ainda hoje) é que o povo da freguesia de Fátima, sendo profundamente religioso, é quase indiferente (à parte o interesse mercantil) à realização destas manifestações.

Exercia eu então o cargo de Administrador do Concelho e na madrugada do referido dia 13, tendo deixado de prevenção uma força da Guarda Nacional Republicana na sede do concelho, dirigi-me, em companhia do oficial da Administração, Cândido Jorge Alho, à povoação de Aljustrel, no intuito de trazer os três protagonistas (as crianças) para esta vila, a fim de evitar a continuação da especulação clerical, que em torno delas se estava fazendo. Junto da casa de habitação dos pais de Francisco e Jacinta, já se encontrava o padre João, pároco em Porto de Mós, falando com a mãe daqueles, e, junto a um pequeno largo, bastantes seminaristas. A Lúcia, interrogada, a meu pedido, pelo padre, reeditou o que anteriormente, havia dito. Convenci os pais de Lúcia, de Francisco e de Jacinta e os padres a consentirem que as crianças fossem interrogadas pelo pároco da freguesia de Fátima, a fim de se apurar alguma coisa de concreto, e, uma vez em Fátima, em lugar das crianças seguirem para a Cova de Iria, como esperava mais duma dúzia de padres, consegui trazê-las para minha casa, junto da minha família, num carro previamente alugado. Não faltaram ameaças de morte. Chegaram mesmo dois grupos, para tal preparados, a seguirem em automóveis, em perseguição do nosso carro, desistindo do seu intento apenas quando souberam que o carro que me conduzia e às crianças, se encontrava já nesta vila, protegido por força militar.

Quando na Cova de Iria tiveram conhecimento do caso, grupos de populares, à mistura com padres, clamaram ser preciso ir à Aldeia (Vila Nova de Ourém), matar os republicanos e os pedreiros-livres. Não tendo comparecido na Cova de Iria as crianças naquele dia, o milagre não se realizou e tudo debandou sem incidente de maior. Eram então governadores civis efectivo e substituto os srs. Drs. Manuel Alegre e Manuel Branco, respectivamente, e era minha opinião que as crianças fossem inspeccionadas por uma junta médica e internadas numa casa de educação, subtraindo-as, deste modo, aos clericais, de maneira firme e precisa, para que lhes não servissem de instrumentos de exploração. Compartilhava desta opinião o segundo daqueles cidadãos, sendo de parecer contrário o primeiro, convencido de que, deixando-se os clericais à vontade, a mistificação, com todos os seus elementos, cairia pelo ridículo.

Em 13 de Setembro de 1917, nova manifestação se realizou, tendo comparecido umas 20 000 pessoas. Os jornais monárquicos e católicos fizeram uma propaganda tenaz por todo o país, com estrondoso reclame, anunciando para o dia 13 de Outubro, na Cova de Iria, o aparecimento da Virgem, que revelaria nessa ocasião a Lúcia o “grande segredo” que lhe tinha sido confiado. Um dos concelhos onde mais propaganda se fez neste sentido foi o de Torres Novas, chegando os padres, nas igrejas, a anunciarem, como coisa certa, o milagre. Resultado de toda esta bem urdida publicidade: 30 a 40 000 pessoas dos mais diversos pontos do país, e até de Espanha, se juntaram ali, para assistirem ao famoso milagre.

Este devia observar-se das 12 para as 13 horas, mas a chuva foi torrencial, e só das 14 e meia para as 15 é que o Sol, liberto das nuvens, começou a aparecer. Foi o momento Solene em que a Lúcia gritou: Já lá está a Senhora! Fechem os chapéus e rezem! Uma parte do povo fechou os chapéus, ajoelhou, fitou o Sol, fixamente, e declarou que o astro andava à volta (“o Sol bailou”, como disse Avelino Almeida em o Século de 15 de Outubro de 1917); a outra parte, apesar de ser também religiosa, que não via senão o Sol a brilhar.

É muito elucidativo e importante o artigo do Dr. Pinto Coelho, conhecido católico, no nº507 de 16 de Outubro de 1917, do jornal A Ordem que classifica de “fantasmagoria” o chamado milagre, dizendo ter ido a Fátima, não como peregrino, mas como curioso, o que lhe valeu dos próprios correligionários as maiores censuras. A Lúcia, que andou nos braços de um homem, de grupo em grupo, teatralmente, revelou o que a Virgem misteriosamente lhe dissera: “ a guerra terminou; os soldados vêm já a caminho de casa!”. A chamada “aparição” errou lamentavelmente, pois a guerra terminou em 11 de Novembro de 1918. 

quarta-feira, 1 de março de 2017

Porque não comprei um disco do Zeca Afonso no dia 23 de fevereiro


No pretérito dia vinte e três de fevereiro dirigi-me à FNAC do centro comercial Forum, em Coimbra, a fim de comprar um Disco Compacto - fazia anos. A família, farta dos meus maus humores contra prendas, aniversários e efemérides, deixou, justamente, de me fazer lembranças em dias especiais. Os amigos, esquecidos de mim, distraídos por outros acontecimentos ou recordando o meu mau feitio, deixaram-me lembranças de mercador. E eu, lembrei-me de mim, de ter nascido e do dia em que o Zeca morreu

Lembrei-me de como para mim, quando jovem, comprar um disco era um sinal de reconhecimento pela arte de outros, um exercício egoísta de propriedade, um investimento com futuro, consumado no ato de me dirigir à discoteca, ouvir, escolher e pagar.

Acontecia sempre, na frequência que os rendimentos de estudante trabalhador e boémio me permitiam, na livraria e discoteca Almedina, Ferreira Borges, Coimbra, que eu consumava as aquisições que se resumem a um património de cerca de cinquenta trinta e três rotações. E era sempre lá, porque era atendido por uma senhora, na altura velha porque eu era novo, talvez quase cinquenta, de vestimenta simples e cabelo curto, sempre atenta ao perfil do cliente, conhecedora informada de tudo o que era editado, apreciadora da excelsa qualidade, de conversa atraente, senhora do seu gosto, verdadeira profissional do ramo, funcionária que fazia a casa em cada gesto ou palavra. 
Quantos reconheceriam essa mulher, de que não lembro o nome, se lessem este texto? 

Folheavam-se os discos e ela, atenta, sem darmos por isso, poderia despoletar o impulso que nos punha debaixo do braço a roda de vinil que iria fazer vibrar as nossas estimadas agulhas. 

Na altura, comprar um disco era um ato pensado,  ia ser um objeto de companhia durante uns bons tempos, quiçá toda a vida e até na vida da descendência ainda não pensada.

Mas pronto, os tempos são outros e a menina e o ar condicionado da FNAC são muito confortáveis e a indústria discográfica  é outra e o consumidor é outro e o tempo é outro e até eu sou outro.

Mas a menina, quando eu lhe perguntei se tinha o primeiro disco do José Afonso, “Fados de Coimbra”, não me devia ter falado assim:
- É porque morreu hoje? Ouvi no rádio quando vinha para aqui! Julguei que fosse mais velho! Tinha só cinquenta e sete anos!

No imediato congeminei, este “hoje” refere-se ao “faz anos hoje”. Mas não, a menina tinha ouvido mas não tinha percebido que já faz trinta anos e muito menos desconfiou que eu fazia mais uns tantos.

Juro que tenho por aqui mentido muitas vezes, que aqui quase tudo é ficção, que este texto é divagação fantasiosa mas, juro a patas juntas que a menina que vende discos na FNAC tem uma cultura assim.

E o que é que eu lhe respondi? Nada, desisti do fado e fui ao lado à secção de jogos. Eu que já não gosto de fazer anos, que já só faço décadas, que não gosto que me dêem os parabéns mas que me dêem do Dão, que quero renascer e voltar a ser menino, perguntei à menina da secção de jogos, colega da menina da secção de discos:
- Tem o FIFA 2017?

E então ela falou-me de fifas, placas gráficas e ronaldos e assegurou-me que o Eusébio já tinha morrido há três anos e que se eu lhe dissesse o dia em que faço anos seria capaz de adivinhar o meu signo.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Mural do casamento guei


Arnaldo Matos tinha a barriga grande, o bigode farto, a trunfa a dever três cortes e o seu nome estava gravado numa placa de chapa de matrícula, exibida na parte interior do para brisas. Era, portanto, um camionista. Aliviou a ansiedade, a tensão, a tesão numa casa de luz vermelha e não se contentou com uma. Fez-se à estrada cansado na sua Scania e o cansaço ajeitou uma curva para fora de mão. Eram três da manhã, despertou, assustou-se, pareceu-lhe ver uns faróis na direção contrária,  ziguezagueou e continuou.

Jorge Coelho tinha a barriga grande, um fato clássico, um relógio de ouro e um Mercedes cinzento. Era construtor e regressava a casa, de noite alongada, não se podendo afirmar se vinha dum jantar com clientes se duma reunião com engenheiros ou duma casa de luz vermelha. Aconteceu a tragédia, ponto final, funeral! O cansaço, um pneu, um coelho, um camião fora de mão, uma distração. Embateu mortalmente contra um mural de motivação revolucionária.

Maria Luís tinha os dias muito ocupados: o café da manhã, as compras do dia, as camas e o almoço, o café do meio dia e o chá da tarde, a cabeleireira e a lida da casa e o cuidar da filha. Sim, porque o somítico do marido nunca permitiria que a esposa doméstica exigisse uma doméstica assalariada para limpar o pó e dar banho ao cão e à criança. E, dum momento para o outro, ficou viúva.

Assunção Esteves nunca fez outra coisa na vida senão trabalhar. Ou melhor, uma vez, num fim de baile, enrolou-se atrás duns arbustos com um rapaz forte e bem parecido que lhe assegurou andar a tirar a carta de pesados. Aquilo foi só um cheirinho mas ficou mãe-solteira.

 A mãe de Ana, quando se viu livre do marido finado num acidente automóvel, em circunstâncias nunca explicadas, aproveitou o seguro de vida e a boa situação financeira que ele lhe deixou para gozar a vida e começou por contratar uma criada de servir.

A mãe de Mariana, a braços com uma filha sem pai, amiga do trabalho e de ganhar dinheiro, não se fez rogada quando lhe apareceu à porta um emprego para criada de servir duma viúva bem abonada.

Ana e Mariana cresceram e brincaram juntas, desatentas das suas diferenças sociais e mutuamente carinhosas, com mães que não ligavam a homens, escaldadas para o fim para que estes se julgavam criados, para se servirem das mulheres.

Os anos passaram-se e, um dia, Ana, já formada em advocacia, disse à mãe:
- Mãe, vou casar!...
- Com quem Ana, pois se eu não te conheço homem?
- Com Mariana.
Maria Luís, conservadora por educação, já tinha, no entanto, visto muitas telenovelas para pensar modernamente e mastigar a surpresa a ponto de a poder vencer e de encarar com naturalidade as provocações encapuzadas que lhe iriam aparecer no salão da cabeleireira.

Também Mariana, já formada em sociologia, disse à mãe:
- Mãe, vou casar!...
- Com quem Mariana, pois se eu não te conheço homem?
- Com Ana.
Assunção Esteves, queimada muito jovem por entusiasmos da flor da idade, não compreendendo da memória dos seus calores como duas fêmeas se haveriam de desenrascar, engoliu a surpresa aliviada pelo conhecimento próprio de saber que a futura nora ou o genro, ou o diabo que fosse, tinha herança sobeja.

Teria a história murchado por aqui, e não nos faltam coincidências e ideias para admitir que já está por aqui sémen e óvulo suficiente para o embrião do enredo duma telenovela, se dos valores do autor não se exigisse mais, se não tivesse sempre uma razão mais profunda, mais casuística, quando o autor faz o tratamento duma ideia.

E disse Maria Luís a Assunção Esteves na presença das duas moças:
- Pois agora, já que as nossas filhas se vão unir perante Deus, ou o Diabo, posso dispensar os teus serviços de assalariada. Bem sabes que advogada ou socióloga não são ofícios que, hoje em dia, deêm para comprar leite. Eu contribuirei com a minha parte para o sustento das nubentes e tu, fazendo o que sempre fizeste nesta casa, darás a tua parte sem receberes salário.

E respondeu Assunção Esteves a Maria Luís na presença das duas moças:
- Saiba, senhora, que todo o trabalho que lhe vendi teve como fim o dia em que a minha filha se casasse. Não servirei mais.  Chegou a minha hora de ter uma criada de servir e de viver em paz na minha casa. E não pense que a minha criada me exigirá salário! Serei eu própria, serva de mim mesmo.

Refletindo sobre o texto presente, poderemos concluir que a incontinência sexual dum camionista ou um mural revolucionário, podem determinar o destino de outras pessoas sem que estas tenham conhecimento disso. Alerta-se também para a injustiça que quase todos cometeram até certa altura do texto, ao desconsiderar o autor - afinal, neste caso "mural" é com "u". E depois são as coincidências, as tais que dão cor às histórias reais ou não, as vidas que se cruzam nas estradas e nas casas asseadas, os nomes comuns coincidentes com o de figuras incomuns. 

Mural da história, aceita a morte e a vida como ela é mas nunca permitas que brinquem com o teu salário, nem brinques com porcos nem com morais e, lembra-te sempre: um mural revolucionário pode vir a determinar um casamento.

Notas do autor: sou contra o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo e de sexo diferente também; nem Ana nem Mariana tinham o apelido Mortágua.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Desabafo dum professor


Faço projectos, planos, planificações;
Sou membro de assembleias, conselhos, reuniões;
Escrevo actas, relatórios e relações;
Faço inventários, requerimentos e requisições;
Escrevo actas, faço contactos e comunicações;
Consulto ordens de serviço, circulares, normativos e legislações;
Preencho impressos, grelhas, fichas e observações;
Faço regimentos, regulamentos, projectos, planos, planificações;
Faço cópias de tudo, dossiers, arquivos e encadernações;
Participo em actividades, eventos, festividades e acções;
Faço balanços, balancetes e tiro conclusões;
Apresento, relato, critico e envolvo-me em auto-avaliações;
Defino estratégias, critérios, objectivos e consecuções;
Leio, corrijo, aprovo, releio múltiplas redacções;
Informo-me, investigo, estudo, frequento formações;
Redijo ordens, participações e autorizações;
Lavro actas, escrevo, participo em reuniões;
E mais actas, planos, projectos e avaliações;
E reuniões e reuniões e mais reuniões!...
E depois ouço,
alunos, pais, coordenadores, directores, inspectores,
observadores, secretários de estado, o ministro
e, como se não bastasse, outros professores,
e o ministro!...
Elaboro, verifico, analiso, avalio, aprovo;
Assino, rubrico, sumario, sintetizo, informo;
Averiguo, estudo, consulto, concluo,
Coisas curriculares, disciplinares, departamentais,
Educativas, pedagógicas, comportamentais,
De comunidade, de grupo, de turma, individuais,
Particulares, sigilosas, públicas, gerais,
Internas, externas, locais, nacionais,
Anuais, mensais, semanais, diárias e ainda querem mais?
- Que eu dê aulas!?...

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Carta de amor e de eutanásia

Amélia,

Espero que esta carta te vá encontrar de saúde que por cá a guerra não deixa que te dê boas notícias.

Estranharás a falta da palavra "querida" antes do teu nome mas reconhecerás certamente a caligrafia. Sou o Janardo, o amigo a quem o teu Bernardo tem ditado todas as cartas de amor que tens recebido.  Sei que também tu és uma analfabeta e peço, por isso, à interposta pessoa que faça guarda do que te vou contar e que, tal como eu sempre faço, tenha com este serviço uma fidelidade inabalável ao dito e ao lido e um voto de segredo tão sagrado como o dum padre confessor.

Bem sabes, das missivas passadas, como é a vida da tropa no inverno das trincheiras mas o Bernardo nunca te disse que, por vezes, as ânsias de sair da podridão são tantas que recebemos com alívio as ordens para uma missão de reconhecimento nas hostes ou mesmo para fazer um avanço com fogo sobre as suas linhas. No passado dia 10 de Fevereiro, eu, o Bernardo e mais dois camaradas partimos, destemidos, para uma dessas arriscadas incursões. Os boches atacaram-nos, os outros dois caíram que nem tordos, o Bernardo ficou desfeito e moribundo mas ainda com vida para me fazer um último pedido.

Eu não fiz nada que não se tenha sempre feito desde que há guerras. Também o rei Saúl, ferido pelos soldados filisteus, ordenou ao seu escudeiro que o trespassasse com a espada. Sei que há bíblias que contam que o próprio Cristo não morreu na cruz mas horas depois, por ordem piedosa de Pôncio ao centurião Longinus que foi ao Calvário e o golpeou para pôr fim à Sua agonia.  Enfim, de golpes do punhal-misericórdia está a História cheia e, se as cegas leis da Igreja ou da República não podem ver o amor com que se pode salvar um mortalmente ferido do sofrimento atroz, a luz de Deus me há-de acolher por tão heróico gesto. Se por acaso assim não for, que o inferno me tenha, que pelo menos lá não passarei o frio da Flandres. 

Amélia, somente a ti devo esta confissão. Li todas as tuas cartas para o Bernardo, escrevi todas as cartas do Bernardo para ti e de tanto ele me contar da sua amada, passei também a desejar uma mulher assim. A morte e o sofrimento nunca deveriam andar juntos mas, se assim tem de ser, que cumpramos os desejos de quem parte. Antes do estertor do nosso amigo, dias antes, no clamor da guerra, ele havia-me feito o seu penúltimo pedido: que se por acaso esta merda - ele disse mesmo, merda - o levasse desta para melhor, conhecendo-me homem de carácter igual ao seu, que eu lhe tomasse o lugar no amor perante ti. Que acto grande este, Amélia, que a igual grandeza nos obriga!

Pode-te ser difícil aceitares-me mas vou dar-te prova de como estou comprometido a resolver o triângulo amoroso: se por acaso quiseres guardar a virgindade, o que eu não acredito, para a levares até aos céus ao Bernardo, para graça do Espírito Santo estou disposto a ser meio José, o carpinteiro e na outra metade, a desenrascar-me como nas licenças aprendemos por aqui, eu e o Leonardo, com mulheres que procurem satisfação, meretrizes ou até mesmo com a mão.

Se me deres tampa, sabe que não terei qualquer remorso, como não tenho daquele tiro que foi, provavelmente, o mais certo que nesta guerra dei. 

Por fim, se hás-de aceitar, que não peças a Deus que eu não regresse à pátria, viril e inteiro, porque se tal vier a acontecer, que morra então. Se não tiver mãos para o fazer, hei-de pedir a alguém, valentes como eu não faltam nesta frente.

Agora sim, Querida
Amélia
Beijinhos do Janardo, basta quereres, teu.


Sou neto de avó solteira e o meu avô Janardo, que andou na guerra de 14, deixou-nos esta carta maravilhosa. Curiosamente, passados alguns anos, ele, que não morreu na guerra, também morreu.


Do espólio do meu avô também
(só faltava que o nome da mula fosse Amélia)

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Trump chega a Portugal numa manhã de nevoeiro


Trata-se de uma festa familiar de classe média cuja razão agora não interessa nada.

Os dois que estão em idade escolar divertem-se com um videojogo de guerra onde "vestem a farda" Delta Force num cenário nova-iorquino. 
Os dois que estão na idade liceal, um vê no tablet uma série policial passada em Los Angels e o outro delicia-se com um reality show da TV Las Vegas.
Os dois que são universitários entretêm-se mostrando um ao outro os telemóveis, com umas novas aplicações made in USA e que, estão convencidos, vão revolucionar a revolução digital.

Estes jovens são filhos de três casais, em cada um dos quais há um dos três filhos dos avós, dois homens e uma mulher e, dentro da normalidade, as duas noras e o genro. 
Porque se trata de novas gerações, os seis jovens não se separam por sexo, o mesmo não se dirá dos adultos.
As mulheres estão na cozinha, a ver na TV um talk show americano que, segundo uma, chegará rapidamente a Portugal. Excepto a avó que anda de volta dos netos a perguntar se querem coca cola e se gostaram do almoço - se não gostaram da próxima vez leva-os ao Mac Donald´s.

Os homens estão a partilhar um whiskey Jim Beam pós refeição. Excepto o avô que está sem poiso certo vagueando pela casa, parando junto das crianças a procurar atenção e tentando convencê-los para o pião, junto dos adolescentes para procurar carinho e desafiando-os para um dominó, junto dos universitários para tentar entender e recomendando-lhes uma leitura. Passa pela cozinha e mostra falsa curiosidade pelo que vêem. Vai à varanda e pergunta se não querem antes um tinto alentejano e manifesta claro desprezo pela conversa.

O genro é oficial de infantaria - ela casou bem - e fala da sua aventura no Afeganistão dando razões à intervenção americana e à NATO e elogios às armas e ao treino que eles têm. Ninguém o contradiz. Muda a conversa e o filho mais velho, que é bancário, explica a crise financeira e a inevitabilidade de adoptarmos o modelo capitalista americano. Ninguém o contradiz. Muda-se o disco e o mais novo, que é pequeno empresário, dá vivas às leis laborais da América e assegura que ficaremos na cepa torta enquanto não se acabar com os sindicatos. Ninguém o contradiz. Fechada a conversa, dirigem-se à sala e perguntam aos filhos se não querem antes ver um filme de índios e cowboys como nos bons velhos tempos. 

Todos dão pela falta do avô, procuram-no, encontram-no. Está na casa de banho a limpar o rabo a um boné que tem a bandeira americana estampada e as iniciais USA. Pergunta-se, de quem é o boné? Pode ser de todos, dele é que não é!
A avó invoca o Santo Nome de Deus em vão tal como os americanos fazem continuamente.

Poder-se-ia dizer, o velho enlouqueceu de vez. Provou-se que não quando ele disse para a família que se juntou atrás da avó, à porta da retrete:
- Ainda terei lucidez quando um dias destes assistir à eleição, com o vosso voto, dum Trump à portuguesa! Infelizmente ainda lúcido e felizmente mais que vós. 


domingo, 29 de janeiro de 2017

Texto para a gaveta


Escrever assim, como um homem que caminha sem destino; escrever só por escrever, como um homem que caminha só por gostar de andar mas que sabe que a algum lado há-de ir parar; não escrever coisa com coisa como dizem com "dizer"; escrever como a viúva que monda a vinha sabendo que os filhos só bebem cerveja. 

Talvez na curva dum parágrafo apareça uma ideia a desenvolver, uma história que contribua para fazer mais humana a humanidade. Talvez fosse mais proveitoso ler em vez de escrever, com o conhecimento de que o conhecimento só vale alguma coisa se for para mudar o mundo. Lugar comum dizer-se, que todas as palavras já foram escritas - ou foi o Almada Negreiros? - só falta dizer-se que também os livros já fazem algazarras. 

Escrever só por escrever também não tem sentido. Mas que hei-de fazer então? Os livros novos repetem as ideias e os ideais dos que já foram lidos. 
Em janeiro, na fazenda, não há nada para fazer, ainda é cedo para a poda, o gado está tratado; não vou à igreja e não gosto de futebol; já acendi a lareira; na televisão, uma série americana de fraca qualidade, um programa da tarde, de fraca qualidade, ao vivo numa cidade da província; uma mesa de esnobes conversa sabiamente das consequências da tomada de posse do novo presidente da América, sem nunca falar de índios; tal como quase toda a gente que lê por gosto, já não leio jornais; que coisa esta o tédio de domingo, ao menos que eu pudesse comer e beber uns copos mas o doutor...; ao menos que existissem por aqui pequenos para jogarmos à sardinha - era o único jogo que o meu pai jogava comigo.

Provado, portanto, que estamos perante um texto para enfiar na gaveta; um texto de escrever só por escrever para dizer nada; um texto a não ler; mas olhem que não é só para passar o tempo que o tempo sempre passa, digamos que é uma tentativa gorada de escrever alguma coisa que alguém tivesse gosto em ler. Já sei, vou fazer companhia ao gato a olhar as chamas da lareira.
- Olha, é o melhor que fazes! - disse o eventual leitor apanhado que nem um rato na discorrência da presente prosa.

Peço desculpa mas, quando comecei a escrever, tinha esperanças que algo de novo, alguma ideia, alguma fantasia me tocasse e alguma coisa interessante me assaltasse. Tenho de reconhecer que me perdi, um dia destes hei-de encontrar-me.

Para terminar peço à Nossa Senhora de Fátima que mantenha o Passos Coelho muitos anos à frente do PSD. Lembrei-me também doutra: para muita gente o pluripartidarismo é o melhor sistema desde que os partidos sejam todos iguais, mesmo que passem a vida a queixar-se disso mesmo. Se na TSU, o U é de única, só uma é pouco, devia criar-se outra, a TESA, Taxa Económica Social Absoluta.
Eu até tenho ideias, não são é valiosas. 

sábado, 21 de janeiro de 2017

Hei-de morrer

Estou a escrever
Para dizer que vou morrer
Ainda há-de haver
Em nome de Deus virgens a explodir em Telavive
Em nome da América soldados gordos a morrer em Kandahar
E em meu nome homens que não me conhecem a falar

Estou a escrever
Porque irei morrer
Ainda há-de haver
Crianças a morrer de fome em Mogadíscio
E um menino chamado Aparício
Assassinado em Janeiro no Rio

Caramba irei morrer
De frio a escrever
E ainda há-de haver
Um Portugal pobre e amordaçado
E um povo orgulhoso de lhe chamarem zé

É hei-de morrer
A escrever a mesma coisa
Com outros confortáveis blogueres de T3
Conformado por ter passado a minha vez
De despir e ter nua a verdade à minha frente
Entre operários que desceram a rua que era para subir

É hei-de morrer a rir
De mim e qualquer coisa
Hei-de partir a loiça a definhar
Com o Sol todos os dias a pôr-se e a nascer
Com a Lua aluada a crescer e a minguar
E por cá a Terra a rodar em voltas sempre iguais

Ah hei-de morrer
Se não morresse era demais
A ver as gerações passarem em mutação
E os pobres desgraçados humilhados
Sempre à espera duma tal revolução
Que sempre é vencida

Escrevam da vida escritores de secretária
Cantem o amor cantores de luminária
Que hei-de morrer a ouvi-los escrever e a cantar
Sem nunca pegarem numa palavra a atirar
Forte nos dentes dos párias que demandam
Às castas baixas o vinho sem papéis
Andam para aí uns que se dizem democratas
Abatam-nos são mentirosos e ranhosos

Hei-de morrer de baba e ranho
Num futuro igual a antanho e a dormir
Com a América Latina a sonhar
Com a Europa em obras
Com Putin entre ursas
Com Trump entre vacas
Com uma dor do caraças a moer-me o juízo

Ai a vida é desesperançada sei
Porque não há decreto que mude este mundo e este país
Não quero ter esperança nem medo
Quero, quis, quererei

Hei-de morrer
E se eu morrer de dia a seguir haverá uma noite
E se eu morrer de noite a seguir haverá um dia
E quer seja de noite ou de dia haverá uma madrugada
Em que depois se irá lutar
E depois de se lutar haverá dia ou nada
E depois da noite haverá luto ou alvorada

Olha se eu morresse
Ainda gostava de viver o que acontece
Talvez depois de eu morrer por escárnio
Alguém invente a paz o amor e a democracia