terça-feira, 7 de agosto de 2018

A Ponte dos Três Nomes


Havia um passadiço para quem não queria molhar a barriga das pernas mas as bestas de carga, os carros de bovinos e equinos e até os automóveis, transpunham a ribeira se não houvesse cheia ou grande lamaçal. Entretanto, já eram tempos de se poder construir uma ponte em cimento armado que unisse as duas margens e o presidente da câmara, nomeado pelo regime, vinha ao lugar para dar nota que a obra iria para a frente assim que houvesse disponibilidade orçamental.

Apareceu então, assessorado, num carro preto de modelo da altura mas, quando já tinha quase vencida a travessia, ficou atascado e, por mais pedras, paus e mato que os naturais enfiassem por debaixo dos rodados era só patinanço, afundanço e enlameanço, de tal forma que a comitiva nem do veículo podia sair, sob pena de dar cabo do lustro dos sapatos e dos fatos finos próprios dos seus ofícios.

Ordenou a autoridade municipal aos aldeões que arranjassem uma saída para o incidente e era se desejavam alguma vez ali ter ponte! Com humilde respeito e obediência, foram uns homens buscar a junta mais possante engatado-a ao carro para o libertar do atoleiro. Não parecia a força da parelha ser a solução, ou porque estranharam a natureza da carga ou porque ela fosse demais, teimosos que nem burros, os bois não se mostraram tão servis como os boieiros.

Por feliz ou infeliz coincidência, quis o destino que o presidente fosse tratado por Engenheiro Falcão e que pelo mesmo nome respondesse um cão, o Falcão, que ali estava acompanhando o dono. Pois não é que, tendo ouvido em tons diversos o vocábulo, o cão se atiçou aos dois animais e estes, espantados, desataram com força incontrolável em incontrolável corrida, arrastando o veículo em balanceante andamento até o fazer tombar na primeira curva!

Acalmou o gado e acalmaram-se os presentes mas não o presidente e os seus que, sentindo o embaraço do ridículo numa visita de onde deveriam ter saído vitoriosos e aclamados, informaram o povo que aquela ponte só seria feita se houvesse uma revolução.

Sentida, a boa gente, pela vingança declarada e pelo mau feitio dos administradores, assim que viram partir o carro mal tratado a bater latas, decidiram logo ali, em informal assembleia popular, que sim, a ponte seria feita, nem que nesse ano não houvesse dinheiro para o andor, nem para a banda, nem para os foguetes, nem esmola para a Santa Ana ou para missas.

Fez-se a ponte com a força, os pedreiros, os serventes e os dinheiros da terra e acharam por bem os voluntários batizá-la de Ponte do Falcão, não para lembrar o autarca não grato mas como sinal de gratidão ao cão Falcão.

Quem não ficou muito contente foi o prior, tendo até ameaçado fazer excomunhões, tendo-se apenas conformado quando alguns, mais tementes aos Céus, levaram a sua avante e foram com ele benzer a obra e gravar nela o nome de Ponte de Santa Ana.

Veio a Revolução e, sendo conhecida a história no concelho, veio o primeiro presidente eleito à povoação e, por justiça da história, quis ressarcir o povo da quantia despendida e mais algum ainda, que era merecido pela coragem demonstrada. Sempre presentes e convidados, os representantes do clero nestas ocasiões, quando chegou a vez do prior dizer as suas, dirigindo-se ao político e aos cristãos, fez a sua proposta de bradar aos céus: que, se o erário estava assim aberto, seria justo reconhecer que a dívida era para com a Igreja, mais particularmente para Santa Ana que quase não teve festa no ano da construção da ponte.

Ao fim de alguma discussão chegou-se a acordo, e acordado foi que, se o dinheiro fosse aplicado no largo da capela, que era do uso de todos, e o padre reconhecesse que já não havia dívida para com a Santa,  poderia ser esse o destino do montante, desde que se mudasse o nome da ponte para Ponte do Povo.

Acontece que hoje, passados tantos anos, coexistem os que a referem como Ponte do Falcão, Ponte de Santana ou Ponte do Povo e, sinais dos tempos, os mais jovens começaram a chamar-lhe a Ponte dos Três Nomes.


domingo, 5 de agosto de 2018

As pessoas comuns são as que mais gosto

As pessoas são comuns quando já não querem ser outras.
As pessoas comuns só querem que não as chateiam e mais nada.
As pessoas comuns não esperam pela esperança.

Ela espera sempre e nunca é esperada,
Ela faz-se adulta mas é sempre criança,
Ela é maior mas é sempre pequena,
Ela é amante antes de ser amada,
Ela é oficial e age como ordenança,
Ela é profissional  e pagam-lhe como amadora,
Ela é mestre e ouve como discente,
Ela é doutora e tratam-na como paciente,
Ela é mãe sem deixar de ser filha.

Ele nunca é observador é sempre observado,
Ele nunca é escritor é  sempre leitor,
Ele é o ator que atua na plateia.

Ele queria ser flor e foi sempre mato,
Ele queria ser poema e não passou de letra,
Ele não conseguiu ser fadista nem letra de fado,
Ele queria ser marinheiro e foi faroleiro,
Ele queria ser pastor e foi sempre ovelha,
Ele queria ser dono e foi sempre um animal,
Ele queria ser agricultor  mas limitou-se a comer,
Ele nunca tratou da vinha e não lhe faltou de beber,
Ele queria ser eleito e foi sempre eleitor,
Ele queria um mundo melhor mas

Ele queria ser outro e foi ele mesmo,
Ele queria ser rico e foi sempre pobre,
Ele queria ser história e só teve nome,
Ele queria ser herói e é
O meu herói:
O homem comum

Ele foi sempre limpo e não passou de porco,
Ele queria ser lúcido e foi sempre louco,
Ele queria ser muito e foi sempre pouco,
Ele sonhava o futuro e só teve o presente,
Ele queria viver para sempre e morreu,
Comumente

- Que é isso de vencer na vida, ó vós incomuns?

domingo, 29 de julho de 2018

A árvore que mais amei

Era uma figueira de porte que excedia a normalidade. Debaixo da sua copa só a hortelã se dava. Roubava espaço ao talho da horta e ao socalco das ervilhas, fazia sombra ao terreiro da nora e ao poço ao qual devia a sua frondosidade. Do seu tronco principal, que junto ao solo não se abraçava, nasciam vários ramos de diâmetro da largura dum tronco de criança, desses derivavam outros com grossura de perna ou braço de homem, desses outros de dedo polegar ou de mindinho, enfim, uma árvore, uma figueira grande.

Segredou-me minha mãe, um certo dia, que, quando eu era mesmo pequeno e ela tinha de ir tratar de coisas à vila, me deixava preso a ela com uma corda das ovelhas, me deixava uns cacos e uns cavacos para eu brincar, um naco de pão com marmelada dentro dum tacho para o guardar das formigas - vinte minutos para lá, vinte minutos lá, vinte minutos para cá, uma hora e eu permanecia sempre entretido sem uma lágrima no olho.
- Ai se fosse agora e alguém soubesse! Vinham os da Protetora e eu seria notícia, crucificada e julgada pelos adeptos das creches de vinte e quatro horas.

Já de idade maior e com habilidade de trepador, tratando da horta, mandava-me com uma saca colher figos. Então eu começava nos troncos principais, uns mesmo à mão, outros esticando-me, outros mais longe, onde um adulto nunca poderia chegar, as pontas da árvore a abanar, mas eu lá ia, recolher mais dois ou três, até onde houvesse ramos com força para me suportar.  Que bom era sentir-me macaco!
E, cheia a saca, descia e ia vitorioso mostrá-la à mãe que abria regos para os feijões.

- Desce a ladeira e vai dá-los à dona Henriqueta que não conheço pessoa que goste mais de figos pingo mel! Mas traz a saca!...
- Ai meu menino! Deus te pague! A tua mãe é uma santa!

Voltava ao quintal e "filho vai encher outra" e "ó mãe já está".
- Filho sobe o monte e vai levá-los à tia Engrácia ela vai ficar muito agradecida! Mas traz  a saca!
- Ai meu menino! Que Deus te pague! A tua mãe é uma santa!

Nova corrida, nova viagem, rica figueira, está carregada, "apanha mais uma para a tua avó! Mas traz a saca! "
Atravessar o Vale da Carreira, sempre a correr, a avó Gracinda:
- Meu santo filho que casou tão bem! Não tenho nada para te dar mas diz à tua mãe que eu lhe agradeço!

- Apanha só mais uma para a senhora Teodora, bate à porta e mostra respeito ao pedir a saca!
- Ó João Trinca Espinhas, a tua mãe é tonta, eu gosto deles é comidos da árvore, mas está bem, dá cá!
- A senhora gostava era de estar escarrapachada nos ramos a roçarem-lhe a crica!
(Há coisas que só se pensam e não se devem dizer ou escrever).

- Agora brinca! Não vás pró pé do poço, não saias da sombra da figueira, quando o sol se for chegará o pai.
Ele, pesado do trabalho, pesado demais para subir à figueira, punha-me às cavalitas, tira este ali, estão mesmo bons, vê se consegues agarrar aquele, ainda tem leite, olha aquele ali, que boa passa. E, já satisfeito, com peito para um bagaço, descia-me dos ombros, punha as mãos ao bolso e dava-me dois rebuçados de meio tostão.

Até que um dia, eu já maiorzito... amanhã vamos cortar a figueira, as raízes estão a dar cabo das paredes do poço, sem a sua sombra podemos ter mais dez regos de feijões e livrar-mo-nos do mosquedo de setembro!

Então, com machados, machadas, serras, serrotes e pedoas, nos fizemos ao monstro e o despedaçámos. Custou-me muito, mais do que ver o avô a enterrar, ver o tio embarcar ou matar o porco!
- Esta lenha não vale nada, não chega aos pés do pinho ou do carvalho!
- Se é assim porque carvalho a traçamos e não a damos à cabra da dona Teodora?
- Que raio de ideia a tua, foste logo pensar na única pessoa do lugar que não tem gado e, além disso, as cabras só comeriam as folhas!

As figueiras nunca foram árvores amadas, talvez pela história de Judas, talvez pelas suas raízes atrevidas... mas os figos! ai os figos! chamava-lhe um figo! diz o povo e não por acaso!
E, ainda hoje, passados mais de oitenta anos, quando eu vou à terra para ver se os marcos estão no sítio, abeiro-me do poço para ver a altura da água, sinto o cheiro da hortelã que não sobreviveu à falta que a sombra da figueira lhe deixou e regresso a casa desejoso de figos pingo mel.



sábado, 21 de julho de 2018

Ebrionário

Ébria pose, ébria postura, olhar ébrio, gestos ébrios, frases ébrias, palavras que se atropelam entre si, ideias sentidas sem sentido, uma irrequietude quieta de quem soletra sílabas que se arrastam nos olhos de quem nos vê e não nos ouve. Versos ébrios? Ah isso não existe! Ah, nenhum tratamento, nenhum vento, nenhuma marcha, nenhuma frente ativa nos poderá trazer a sobriedade com que entrámos na escola com uma sacola de pano, com um caderno e uma pedra de ardósia. Querer conhecer o código dos símbolos do alfabeto, aprender a ler e a escrever, numa ânsia de, vindos à luz, tudo querer saber.

Saber ler, falar corretamente, citar poetas e escrituras, escrever cartas e discutir filosofias de caserna ou academia; interpretar o mundo, as razões dos homens e das mulheres, a história, as religiões, as revoluções, as utopias e dar por ela, ao fim duns longos anos, que em curtos dias a última garrafa  está vazia. E, por incrível que pareça, não é a nossa cabeça que anda à roda, é o mundo que roda à nossa volta, não são os nossos olhos que veem tudo enublado, é a realidade que é nebulosa. Não, não foi o álcool, nem o fumo do cânhamo que nos afastou da realidade, o que nos intoxicou foram os fumos dos automóveis que nos guiam, das ondas eletromagnéticas dos telemóveis que nos socializam, da worl wide web que nos ensina tudo em código binário, o código mais simples que existe e que o homem simples não entende. 

Impossível voltar à realidade. Tanto que eu gostava de voltar à realidade, reaprender a lucidez, pousar os pés na terra, cheirar o alecrim, ser como o meu avô, embora não dispensando o último livro que li, o banho de água quente, o frigorífico e um blogue de que gosto muito mas que não me lembro agora o nome - esqueço-me muito! - e um bom tinto!

Ébrio! Ou apenas um bocado arrebatado! Sem paciência para a televisão nem para os telespetadores, para os comentadores e para os comentados, para o governo e para os eleitores, para os reformados e para os empregados, para os alunos e para os professores, para os filhos e para os pais, para as crianças e para os anciãos,  para os brigadeiros e para os soldados,  para os juízes e para os julgados, para os exploradores e para os explorados, para os polícias e para os os ladrões, para os patrões e para os sindicatos, para os médicos e para os doentes, para os lúcidos e para os dementes, para os bêbados e para os que só bebem água. 
- Eu, são e lúcido? Seria o homem ideal!  


Assim, sou só um proco.. pcorco.. porco - consegui, apesar da cabra... da ciática!...
Gostava de ficar conhecido como o porco que inventou o termo "ebrionário".

terça-feira, 5 de junho de 2018

Senhores professores desmontem o senhor Costa

Diga lá outra vez senhor Costa: 600 milhões?
Nós sabemos como surgiu esse número:
- Ó pá dizemos 1000 milhões!
- Ó pá esse é um número muito elevado, da ordem das fraudes bancárias!
- Então dizemos 200 milhões!
- Isso soa a pouco, parece mais um ordenado de administrador!
- 600 milhões?
- Parece-me bem! Agora arranjem variáveis para alcançar esses resultado!

Diga lá outra vez senhor Costa: 600 milhões só este ano?
Dos 120 000 professores não chegarão a 100 mil os que estão na carreira, sendo que alguns destes estão presos em alguns escalões por questões de avaliação e existência de vagas. 

600 milhões a dividir por 100 mil, dá 6 mil euros por ano, 500 por mês! Quererá dizer portanto que os professores, se não lhe roubassem tempo de serviço, teriam em média um aumento de 500 euros por mês por subirem, em vez de um, dois escalões. Ora, como a variação entre escalões anda, em média à volta dos 160 euros ilíquidos, como o descongelamento é apenas de 25%, os 160 passam a ser só 40. Como parte é devolvido às contas públicas através de impostos, vamos falar com os poucos professores que já receberam mais algum:

- Com que então seu privilegiado, já te descongelaram o salário?
- Grande coisa, fiquei a receber mais 20 euros!

Senhor Costa: 20x12x100000 dá 24 milhões!

É claro que as minhas contas podem não ser muito rigorosas porque não disponho de dados exatos. No entanto servem para provar que a vossa mentira é grande demais para não saberem que estão a mentir. Pior ainda, sabem que o povo acredita!

Que roubem, ainda é como o outro, agora que roubem e mintam, já me parece demais.

Por isso, Senhor António Costa, da minha parte, pode até substituir o Brandão pela Maria de Lurdes: ACABOU!




domingo, 27 de maio de 2018

Lição de português

- Cuida da burra João mas não vás para ao pé do poço!

Dizia minha mãe antes de desaparecer, descalça, pelo milheiral adentro para, com os calcanhares e a sachola, encaminhar a água à raiz de cada pé de espiga. E eu ficava ali, seguindo as voltas da burra emprestada p´lo ti Adelino, vendada e amarrada à nora, repetindo voltas sempre iguais, cumprindo com os seus círculos o sucesso da próxima colheita. E eu andava por ali, também às voltas, seguindo solidário as suas voltas, caçando borboletas, contando os alcatruzes a cada despejo, seguindo os caminhos da água até esta desaparecer pela sombra fechada do milho que escondia a minha mãe. Impossível repetirem-se esses cheiros, essas águas, esse verde; nem a vida me permitirá chegar aos calcanhares do ti Adelino - dificilmente conseguirei um dia ter uma burra!

Mas sou bem herdado na parte que toca a ter passado. Usufruí dessa riqueza de partilhar com a burra o verde do milho, o som da água, a sombra da latada que completava o poço e toda a engenharia da secular nora.


Incrível como é possível que a foto que se segue me tenha permitido banhar-me nesta infância! Recebi-a com a legenda "anda tudo à nora!" Não me ofendam! "Andar à nora" não tem nada a ver com "à procura do lugar para a fotografia"!

Dum comentário: "A Merkl disse: hoje quero dormir com o colega de sapatos castanhos! Aí o pessoal entrou em pânico e todos quiseram certificar-se que não lhes tinha saído a fava no bolo-rei. Tá visto!"

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Serei procurado pela Brigada de Trânsito?

Ontem o meu irmão mais novo fez anos. Para assinalar o aniversário ofereceu um porco no espeto a toda a malta da Terrinha. Bebi a seiva das minhas raízes entre laços e entrelaços, entre conversas e desconversas, entre escárnios e cantigas.
Escusado será dizer que houve festa até às tantas e que às tantas dei por mim com uma "porca" de todo o tamanho.
No regresso, já perto de casa, fui mandado parar pela BT...
Num estado lastimável, saí do carro e vi três polícias a pedirem-me para soprar no balão...
Felizmente, do outro lado da estrada surge um camião que subiu a divisória, capotou e espalhou uma carrada de tijolos pela estrada. Ao verem isto os polícias começaram a correr em direcção ao sinistro e mandaram-me embora.
E eu lá peguei no carro e vim todo contente a dar graças à minha sorte.
Hoje acordei com a minha mulher a perguntar-me:
- Olha lá! O que é que faz um carro da Brigada de Trânsito na nossa garagem???!!!!

terça-feira, 22 de maio de 2018

A propósito do Sporting

Sob a influência da leitura de «Monsieur Gurdjieff», de Louis Pauwels


...
O desporto - mentira máxima dos humanistas - não se destina a desenvolver a máquina e a coordenar-lhe harmoniosamente as funções mas apenas a fazer dela a máquina de competições» que sirva nas pistas e estádios + ou - olímpicos.
O desporto, no clima de alienação geral, é apenas uma fábrica de mitos com que se jugulam massas ou se estabelece competição de homem para homem, de região para região, de cidade para cidade, de país para país, de continente para continente.
O desporto é mais uma forma (uma força) de alienação, uma forma de distrair e adiar, de adiar e distrair, de tornar dóceis grandes massas humanas para os fins últimos que as potências se propõem, de as escravizar à vontade dos que (hipocritamente em nome delas) delas decidem.
...

Texto completo aqui

domingo, 13 de maio de 2018

13 de maio - há quem tenha parado em 1917

Aparições de e Fátima. Ou será Visões de Fátima? Ou será das Alucinações de Fátima? Ou será da história engendrada por um grupo de pessoas a fim de enganar outro grupo de pessoas? Nunca saberemos, mas sabemos.




Dia 13 de Maio, um dia especial para muitos portugueses, e não só, que celebra a vinda de Nossa Senhora à Terra para falar a três crianças portuguesas. Primeiro, devo afirmar que um jornalista sério nunca pode dizer “As Aparições de Fátima” já que nunca ficou provado que Nossa Senhora apareceu mesmo. Para não desrespeitar o código deontológico, a nomenclatura correcta para este evento seria “As alegadas aparições de Fátima” ou, mais honestamente, as “As alucinações de Fátima”.
No entanto, como a religião ainda está tão embrenhada na nossa sociedade, trata-se o assunto como se, efectivamente, se tivessem suspendido todas as leis da física e do bom senso naquele dia em 1917 em que uma senhora se materializou no ar e ali ficou a pairar. Os anos conferem à história um peso que seria impensável se ocorresse nos dias de hoje. Aliás, nos dias de hoje, Nossa Senhora teria de se materializar num vídeo de um Youtuber para as crianças darem pela sua presença, já que crianças a brincar no meio de um descampado seria impensável. Brincar, como quem diz, passear gado, hoje, seria considerado trabalho infantil, os pais dos pastorinhos seriam julgados e a Segurança Social sinalizaria as crianças e retirá-las-ia dos pais para irem para uma qualquer instituição amiga que recebe subsídios por cada acolhimento.
Mesmo que as crianças estivessem a brincar na rua e vissem Nossa Senhora, a primeira coisa que fariam era tirar uma selfie com ela para publicar no Instagram e toda a gente ia comentar a dizer que era fake. Chegavam a casa, transtornados, dizendo aos pais que haviam contactado com um adulto vestido de branco que lhes disse para guardarem segredo. Os pais, ou os levavam ao psiquiatra que lhes diagnosticava uma qualquer doença da moda e medicava-os, ou alertavam a PJ para um possível caso de pedofilia. Depois ainda se descobria que tinha sido um padre vestido de Nossa Senhora que tinha abusado das crianças, mas não acontecia nada e este era recolocado noutra paróquia a mando de altos cargos da Igreja, abafando o caso.

O que mais me choca é que Nossa Senhora escolheu os pastorinhos como mensageiros, mas depois matou logo dois, passado uns meses. Nos dias de hoje, isso dificilmente aconteceria porque a medicina já evoluiu e dificilmente morreriam de gripe espanhola. Nossa Senhora teria de se esforçar mais e dar-lhes um cancro agressivo para os levar tão depressa. A Lúcia ficou para freira, algo que não teria acontecido nos dias de hoje devido à existência do Tinder.
A sociedade vai evoluindo e vamos ficando menos permeáveis a novos milagres, mas continuamos a achar que os que aconteceram há centenas ou milhares de anos foram verdadeiros. Num país evoluído, já nenhuma mulher se safa com a história que engravidou virgem do Espírito Santo; já ninguém acredita numa criança com astigmatismo e miopia quando ela diz que viu uma senhora no cimo de uma árvore.
Moral da história: cada um acredita no que quer, mas os jornalistas e os media não podem compactuar com ficção, tratando-a como se fosse verdade. Hoje, é o aniversário das alegadas aparições de Fátima ou, se quisermos ser factuais e basearmo-nos em várias investigações já feitas: aniversário do dia em que crianças foram crianças e inventaram mentiras, mas das quais um grupo de pessoas decidiu aproveitar-se por motivos religiosos e económicos.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Sócrates leva o seu golpe de misericórdia



Não, não foram os homens de Costa que desligaram a máquina a Sócrates. O golpe de misericórdia foi dado hoje, pela sua ex-namorada Fernanda Câncio, num "artigo de confissão" (ou será de traição?) que acaba por provar quanto estavam bem um para o outro.

Sócrates já mete dó. Afinal ele acaba por se tornar vítima daqueles que lhe deram os seus tempos de glória, da amante que lhe fazia festas nos cabelos, dos correligionários que o seguiam, dos jornalistas que o apoiavam, dos comentadores que o elogiavam, dos eleitores que o escolhiam e até do sistema judicial que, pelo menos parcialmente, teve nas mãos.

Ninguém me provou ainda que Sócrates é um criminoso mas já tenho a certeza de que ele é uma vítima.

Pois é minha gente, quando ele recebia vivas dos carapaus e dos armadores, não por dar de comer aos peixes mas por oferecer as redes, não por fazer bem a uns mas por fazer mal a alguns, quando ele era o salvador que aniquilava as corporações de preguiçosos bem pagos, enquanto a Fernanda dormia com ele, nós outros lutávamos nas ruas para que o seu reinado chegasse ao fim. A nós ninguém nos pode acusar de o ter apoiado.

Que Vinicius de Moraes me perdoe assim como aqueles para quem me repito. Ficam aqui as palavras dum ataque de fúria que em 2009 me deu:

Sai, Sócrates
Desaparece, parte, sai deste povo
Volta a Vilar de Maçada onde te esperam
As ossadas dos teus avós, de que és
A herança perversa. Vai, foge do povo
Monstruosa farsa, hediondo
Ministro do faz conta, boy bóbó
Coito interrompido! Sai, Sócrates
Fato cagão, cueca suja como guardanapo,
Gravata de prepúcio, câncio homo-nada
Que empestas as passerelles da vidairada
Com teu petulante abanar de ancas
Enquanto largas traques sobre as palmas
Tuas encomendas aos boys-todo-o-serviço
Sai, get out, va-t-en, henaus
Tu e tua capa de marketing de plástico
Tu e teus telepontos
Tu e teu discurso cheio de nada
E pede perdão ao filósofo
Cujo nome roubaste. Deixa os portugueses em sossego
Odioso falozinho; fecha o fecho
Das tuas peles destomatadas
Secretárias, ministrinhas, directoras, jotas de saia curta
Movendo-se à volta da tua merda, como moscas
varejeiras que depois pousam nas mesas e nas camas,
Sai, Sócrates
Arruma as botas e diz adeus ao tacho
Em saudação fascista; galga, vasa,
Contra o teu próprio umbigo
E vai viver do teu próprio valor
Na poeira suja que se acumula no teu currículo.
Adeus
Recheador de ricos, multiplicador de pobres, tu
Com quem ninguém quererá jamais aprender nada.
Parte, punheta estéril, andate via
A23, destino Covilhã,
Experimenta viver igual às tuas vítimas.
Não tens mais estômago do que o homem da rua!
Cretino só, pinóquio de esparguete, que prescreves
A crise do país sem a experimentares, só
cretino, políticu, xuxalista...
Desanda, arruma as malas, toma banho,
E telefona para a empresa de mudanças!

IV
Há 1 trabalhador que foi para o desemprego
Há 2 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 4 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 16 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 256 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 65.536 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 4.294.296 trabalhadores que foram para o desemprego

VI
— Minha senhora, lamento muito, mas é meu dever informá-la de que a empresa não precisa mais dos seus serviços...
— Meu caro senhor, tenho de comunicar-lhe que está despedido...
— É, infelizmente a empresa diminui os lucros. É impossível manter o seu posto de trabalho...
— É a crise, meu amigo. Vá para casa...
— Você é um homem forte, com certeza que arranjará outro emprego...
— Sua folha de serviço é exemplar, dar-lhe-emos uma carta de recomendação...
— Veja, você já não tem nada para dar à empresa... talvez com formação...
— Compreendo que não tenha outro rendimento. Sou seu patrão, não sou seu pai...
— Há muito operário na mesma situação. Você não está só...
— Era o nosso melhor colaborador. Mas a crise é internacional e não perdoa...
— Qual quê, meu caro, não se assuste prematuramente. Ainda tem uma vida à sua frente...
— Parece que o engenheiro também vai fora...
— Uma trabalhadora exemplar... E depois, tão linda...
— Que coisa! Logo agora que empresa estava cheia de encomendas...
— Se não aceitar as condições, somos obrigados a despedi-lo...
— Não me diga? A auto-europa...
— Não só... e a general motors?...
— E atenção para a última notícia. Mais três mil trabalhadores despedidos esta tarde...

— SÓCRATES ESTÁ DESPEDIDO

domingo, 6 de maio de 2018

os dias da minha mãe

Ficou orfã de pai e mãe aos nove anos. Feita a terceira classe, teve de ir "servir" - como se dizia na altura - para ganhar o seu pão. Escreveu assim ( não, não era a minha tia Anselma, essa é de facto uma personagem da ficção!). Tenho consciência do valor literário destas poesias mas... o que é que querem? São da minha mãe. Aqui fica o que, por mais não seja, tem valor por ser autêntico.

desventurada
amargurada
sentia-me eu aos nove anos
p'la hora que vim ao mundo
triste sorte
tão cedo chegou a morte
levou-me o amor profundo
deixou-me orfã neste mundo
perdi chorando
os que não mais encontrei
desde então fiquei limpando
as lágrimas que chorei
e nessa idade
que eu queria amor e carinho
ficou comigo a saudade
daquele calor do ninho

nesse vazio os anos foram passando
eu ao calor e ao frio
o meu pão ia ganhando
e a seguir para a minha sina cumprir
casei pegava o troféu
com a cruz que Deus me deu
deu-me também
rosas criadas com espinhos
o maior tesouro de mãe
com lágrimas e carinhos
e convencida
que sofrer não é pecado
por isso a quem me deu vida
eu rezo e digo obrigado
(1964)

nós os dois, a nossa casa e o Hillman - 1975

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Poesia da tia

Depois de enterrada a tia Anselma, aqui contada recentemente, vasculhando o seu magro espólio, encontrei esta poesia que justifica a sua opção pelo celibato:

há homens de bom agrado
há outros são diabo
que aparecem às mulheres
em solteiros são tão lindos
mas aqueles lábios finos
em casados são colheres

nunca são o que parece
há homem que só se conhece
zangado e das avessas
quando briga com a mulher
chama-lhe aquilo que quer
esqueceram-se as promessas

há homem que é extravagante
por vezes é um moinante
passa a vida nas tabernas
quer é beber e jogar
e a mulher ir encontrar
disposta a abrir-lhe as pernas

em novos são ciumentos
em velhos são rabugentos
triste vida negro fado
não te metas em sarilhos
que aturar marido e filhos
é porca que torce o rabo

há homem que é um fascista
por vezes é egoísta
ainda meiguinho e a rir
mostra-se um bom camarada
faz da mulher uma criada
que ali está para o servir
eu tinha uma companheira
vivia também solteira
um dia perdeu o jeito
ao fim de um mês de casada
apareceu com a cara inchada
e um braço amarrado ao peito

rapariga se és solteira
e queres morrer de velha
vê-te bem a este espelho
estás a tempo não te cases
não dês conversa a rapazes
toma se queres meu conselho

ao falar-te deste assunto
se tenho vivido muito
pois foi sempre ajuizada
cá no meu entendimento
fiz porém meu juramento
de morrer sem ser casada

seja antero ou artur
quem os tiver que os ature
sempre disse e hei-de dizer
nunca me aventurarei
e só os aturarei
se algum dia enlouquecer

quero aqui escrito deixar
mulher que pensa em casar
traz sua alegria morta
deixo-te aqui recordado
este tão velho ditado
homens nem de barro à porta

A todos aqueles que duvidaram da autenticidade da história, julgo que a forma e teor da poesia atestam que não inventei nada.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Vai amanhã a enterrar a minha tia Anselma

Património da terra, a tia Anselma, vai amanhã a enterrar. Do leito da agonia, o mesmo onde dormiu todos os seus sonos desde que se fez moça, nem uma única pernoita fora daquela cama se lhe conta, disse-me isto assim:

- Abre aí essa gaveta, julgo que está aí dinheiro que chegue para não teres de entrar para o meu enterro. Se não chegar... olha, amanha-te! Se sobrar para um ramo de flores, que seja de cravos, acho que os mereço! Sei que não és de missas, por isso, se não houver padre, descansa, não me vou levantar!

Os pequenos, na idade em que se iniciavam na palração, não tendo língua para dobrar o nome Anselma, chamavam-lhe An e, os maiores, corrigiam-nos, completando com acentuação as sílabas em falta: - ... sel-ma! Mas foi assim, como se dum acordo de gerações se tratasse, que acabou por ficar An para os mais novos e para os mais velhos, Selma.

Por condição de solteira, mais tarde solteirinha e, a partir de certa altura, por correção sua quando a referiam nestes termos, assumidamente solteirona, ficou, por herança, com a casa dos pais, meus avós.
Com o andar dos anos, o espaço outrora cheio, foi perdendo a vida, as crianças, os animais, as arcas e as pipas cheias, as vizinhanças, até ficar só ela com mais meia dúzia de velhos enviuvados, os residentes do lugar. Enquanto teve forças, virou a terra, fez a burra carregar a palha que comia, escorou as capoeiras que ameaçavam desabar, substituiu telhas partidas, regou a horta, as hortenses e sardinheiras, caiou os muros, acendeu o forno, fez a sopa e cinco almudes de pinga por ano. 

Aos sete anos, a casa era-me de tal modo familiar que eu entrava cozinha dentro, sentindo os pés pegarem-se às tábuas sebosas, fazendo vistas largas à loiça suja e o nariz estreito ao cheiro a fumo e dizia:
- Tia An, tenho fome!
Então ela arranjava-me um naco de pão com tanta marmelada como se gastava na minha casa numa semana.

Aos doze anos, a tia An solicitava préstimos meus e dava-me em troca uns trocos que me davam jeito para comprar costelas para os pardais e fitas para os punhos da bicicleta.

Aos dezoito anos, comecei a tomar consciência do modo de ser da tia An. Teria sido, mais jovem, bonita e jeitosa, ainda era bonita e jeitosa, mas o vestuário austero, o cabelo sem cuidados, o semblante geométrico, davam-lhe um ar neutro, o ar duma pessoa que nunca surpreendia,  conformada com o destino de apenas ter de trabalhar para sobreviver.

Aos vinte e quatro anos, comecei a interrogar-me acerca da filosofia de vida da tia An. Limitada ao seu quinhão rural, na missa era mulher dos lugares do fundo, não tinha rádio nem televisor, era de conversas limitadas ao essencial, nunca dando largas a assuntos banais, era generosa mas não aprofundava grandes relações e escolhera-me como seu familiar de estimação.

Aos vinte e oito anos, quando a fui convidar para o meu casamento, tivemos a conversa das nossas vidas. Agradecia o gesto, aliás meu dever, mas saberia eu que não iria, não por não ter roupa, não a envergonhava o seu fato domingueiro, não por não ter dinheiro, saberia bem que eu não lhe cobrava a presença, mas porque não lhe apetecia e sabia bem que eu não a julgava, que comprasse eu os sapatos que quisesse que ela os pagaria.

- Ora essa tia An! Trazer-lhe-ei o talão! Pena só tenho de não ter ido ao seu!
- Ó rapaz, não penses tu que não tive namorados! Dois! Um sabia bem o que ele queria e o outro o que ele queria sei eu!...
E então, dito isto,  divagou sobre si própria, a sua opção de não viver para satisfazer os caprichos ou desejos dum homem peludo e de hálito vinhateiro, de gostar de viver sozinha, da vida que levava, surpreendendo-me com uma confidência que me fez corar como se de repente se tivesse despido à minha frente:
- Homem?! Eu tenho mãos para ganhar a vida e tenho dedos para me desenrascar!

Até anteontem continuei a visitar regularmente a tia An. Acompanhava-me sempre ao carro com umas batatas ou umas cebolas, uns ovos ou umas maçãs, uma galinha ou um coelho. Falávamos à volta da lareira se fosse inverno, no sobrado se fosse verão:

Foi uma vez a Fátima, jurou para nunca mais. A Coimbra nunca foi, nem sequer para fazer uma colonoscospia. Nos anos sessenta foi uma vez numa excursão à Nazaré. Dos carros tinha medo, a televisão para ela era bruxedo, telefonar só se fosse para os bombeiros, 25 de abril, sempre! votar só uma vez e foi na foice e no martelo, às Festas do Bodo se lá te apanho lá te... e ria, ria...

A tia Anselma vai amanhã a enterrar. Tentei encontrar padre para a encomendar, não consegui mas estou confortado com o facto dela não se importar. Comigo vai estar uma meia dúzia de pessoas. Nem uma lágrima se verterá. Durante uma semana outros saberão da morte dela e é natural que dela se vá falar. Feito o orçamento da agência acho que ainda me vai sobrar algum. Daqui a uns meses aparecerão os meus primos e vai haver desentendimentos sobre montes que nada valem e montantes que deveriam existir. Daqui a uns anos ninguém saberá quem foi a última moradora, nem quem são os donos da casa dos meus avós que estará em ruínas.

Se nunca teve uma causa maior pela qual lutasse, se não era de crenças, se não deixou descendência, se não deixou obra que lhe lembre a vida, se nunca viajou, se nunca partilhou a cama para se dar ou possuir e aos costumes disse nada, o que deixou a cidadã Anselma que se diga com humanidade que valeu a pena?

Ela mesmo disse do seu leito de agonia, que foi um instante e não dois dias como é hábito dizer-se, que nem ao padre alguma vez se dobrou ao arrependimento, que foi feliz sem homem e sem outra criação que não fosse as das suas cabeças e tomates e que ficaria morta em paz sem alguém que lhe velasse a sepultura.

E eu mesmo digo, continuar-se-á a respirar o oxigénio das árvores que plantou, comer-se-ão as filhas das filhas das filhas das crias que criou, ninguém poderá assegurar que o cabrito no forno que irá comer um ano destes pelo Natal não teve como antepassado uma cabrão que ela guardou, nem eu sei quando se esvairão no ciberespaço os significados deste texto que dela fala e conta. A sua vida foi tão importante como a de milhões de servos, nobres  e eremitas que já morreram e dos quais não há uma única lembrança. A sua vida valeu tanto e tão pouco como a de qualquer um.

Serena, Anselma, património da terra, vai a enterrar amanhã.


sábado, 14 de abril de 2018

Mísseis para cima deles!...


Tentar desativar o perigo dum barril de pólvora com um fósforo não é lá muito inteligente: é claro que a pólvora vai explodir. 
Bombardear um arsenal de armas químicas, na minha modesta inteligência, ativaria os agentes químicos e provocaria forçosamente efeitos muito mais trágicos do que a sua utilização num combate pontual. Portanto, se tal não aconteceu, ou as armas foram retiradas atempadamente ou nunca lá estiveram.

Impressiona-me também que, dum momento para o outro, o perigoso Trump, o anedota, o burro, tenha passado de besta a bestial, só porque ativou o seu cérebro do tamanho dum tweet e as suas perigosas bombas, históricamente pulverizadoras de paz e democracia pelo mundo inteiro.

Hoje, no café, ouvindo a conversa da mesa ao lado pensei: esta gente não pensa, não lê, não aprende, não merece um mundo melhor - seu eu tivesse à mão um spray!...


sábado, 7 de abril de 2018

Um pedaço de pequeno ódio numa grande cena

A Cena do Ódio é um dos maiores desabafos da minha vida e nem sequer tive o trabalho da escrever. Tenho, portanto uma grande dívida para com o Almada Negreiros. Por estes versos, bolço pedaços de alma, limo unhas em palavras de pedra, contenho ais em carateres fechados, aconchego a minha pequenez no grande poeta, beijo os meus, ergo dedos médios aos demais, peido-me, mijo-me, cago-me, entorno o vinho, olho para mim, olho para ti, dente por dente, verso por verso e, passados tantos anos, o ódio continua pertinente e a cena é a mesma num cenário diferente. 
....
Eu invejo-te a ti, ó coisa que não tens olhos de ver!
Eu queria como tu sentir a beleza de um almoço pontual
e a felicidade de um jantar cedinho
co'as bestas da família.

Eu queria gostar das revistas e das coisas que não prestam
porque são muitas mais que as boas
e enche-se o tempo mais! 
Eu queria, como tu, sentir o bem-estar
que te dá a bestialidade!
Eu queria, como tu, viver enganado da vida e da mulher,
e sem o prazer de seres inteligente pessoalmente!
Eu queria, como tu, não saber que os outros não valem nada
p'ra os poder admirar como tu!
Eu queria que a vida fosse tão divinal
como tu a supões, como tu a vives!
Eu invejo-te, ó pedaço de cortiça
a boiar à tona d'água, à mercê dos ventos,
sem nunca saber que fundo que é o Mar!
Olha para ti!
Se te não vês, concentra-te, procura-te!
Encontrarás primeiro o alfinete
que espetaste na dobra do casaco,
e depois não percas o sítio,
porque estás decerto ao pé do alfinete.
Espeta-te nele para não te perderes de novo,
e agora observa-te!
Não te escarneças! Acomoda-te em sentido!
Não te odeies ainda qu'inda agora começaste!
Enjoa-te no teu nojo, mastodonte!
Indigesta-te na palha dessa tua civilização!
Desbesunta te dessa vermência!
Destapa a tua decência, o teu imoral pudor!
Albarda te em senso! Estriba-te em Ser!
Limpa-te do cancro amarelo e podre!
Do lazareto de seres burro!
Desatrela-te do cérebro-carroça!
Desata o nó-cego da vista!
Desilustra-te, descultiva-te, despole-te,
que mais vale ser animal que besta! 
...

um pedaço da Cena do Ódio de Almada Negreiros