quinta-feira, 14 de março de 2019

Almada-Negreiros-X



Ó Horror! Os burgueses de Portugal
têm de pior que os outros
o serem portugueses!

A Terra vive desde que um dia
deixou de ser bola do ar
p'ra ser solar de burgueses.
Houve homens de talento, génios e imperadores.
Precisaram-se de ditadores,
que foram sempre os maiores.
Cansou-se o mundo a estudar
e os sábios morreram velhos
fartos de procurar remédios,
e nunca acharam o remédio de parar.
E inda eu hoje vivo no século XX
a ver desfilar burgueses
trezentas e sessenta e cinco vezes ao ano,
e a saber que um dia
são vinte e quatro horas de chatice
e cada hora sessenta minutos de tédio
e cada minuto sessenta segundos de spleen!
Ora bolas para os sábios e pensadores!
Ora bolas para todas as épocas e todas as idades!

Bolas pròs homens de todos os tempos,
e prà intrujice da Civilização e da Cultura!

Eu invejo-te a ti, ó coisa que não tens olhos de ver!
Eu queria como tu sentir a beleza de um almoço pontual
e a f'licidade de um jantar cedinho
co'as bestas da família.
Eu queria gostar das revistas e das coisas que não prestam
porque são muitas mais que as boas
e enche-se o tempo mais!
Eu queria, como tu, sentir o bem-estar
que te dá a bestialidade!
Eu queria, como tu, viver enganado da vida e da mulher,
e sem o prazer de seres inteligente pessoalmente!
Eu queria, como tu, não saber que os outros não valem nada
p'ra os poder admirar como tu!
Eu queria que a vida fosse tão divinal
como tu a supões, como tu a vives!
Eu invejo-te, ó pedaço de cortiça
a boiar à tona d'água, à mercê dos ventos,
sem nunca saber que fundo que é o Mar!

in Cena do Ódio - Almada Negreiros - 1915

sexta-feira, 8 de março de 2019

Dia da mulher de quem?


Dia da mulher de quem
Nem sempre se fala
Dia da mulher que não se cala
Dia da mulher fadista
Dia da mulher artista
Dia da mulher doutora
Dia da mulher do ferro de engomar
Dia da mulher operária
Dia da mulher agrária
Dia do mulher do mar
Dia da mulher professora
Dia da apresentadora de televisão
Dia da mulher do norte
Dia da mulher de Baleizão
Dia da mulher de Nova Iorque
Dia da mulher do Afeganistão
Dia da mulher violentada
Dia da mulher libertada
Dia da mulher amada
Dia da minha mulher
Dia da mulher a pilhas
Dia da mulher que dá à luz
Dia da mulher com filhas
Dia das mulheres do Pinto da Costa
Dia da mulher do Costa
Dia da mulher do outro
Dia da última dama
Dia da mulher de quem se gosta
Dia com a mulher na cama
Dia da mulher com marido
Dia da mulher com homem
Dia da mulher solteira
Dia da mulher solteirona
Dia de todas as marias
E se todos os dias há mulheres
E se o Natal é todos os dias
Ah Mulheres! Perdoem-me!
Mas o Dia da Mulher
É sempre que um homem quiser!..

- Dia da mulher de quem?!
- As mulheres não são de ninguém!
Nem sequer a minha mulher é minha! 

Ai mãe, disseste-me um dia que só por acaso não nasci mulher e que só por acaso eu não era filho de outra qualquer. Só que  eu via e tinha ti todas as mulheres e, a partir daí, em divino incesto ou divinal orgia, eu devia ser de todas sem que nenhuma fosse minha.

Dia da mulher querida
Dia da mulher que não se quer

quarta-feira, 6 de março de 2019

Há homens que não tem jeito nenhum para as mulheres

Se eu fosse mulher não queria um dia, preferia um porco.

Em 1953 todos aqueles vales estavam rodeados de floresta, todas as propriedades eram limitadas por regatos, todos os campos eram cultivados. Nas imediações dos milheirais existiam sempre represas rodeadas de salgueiros, carvalhos e outros arvoredos. Era para aí que as mães mandavam os filhos brincar à hora do calor. Mesmo quando estes começavam a ganhar corpo para agarrar na enxada, naquela idade em que não se é uma coisa nem outra, ao fim duma leira de canseira, haveria sempre uma voz com mais poderes que mandava:
 - Vão lá agora brincar um bocadito!

Foi no cumprimento duma dessas ordens que os dois se viram a sós num daqueles recantos sombrios onde sempre brincaram. Passou a concha da mão pela água da represa e atirou sobre o corpo que começava a ser outro.
- Ai! Molhaste-me a mama!
- Molhei!? Ora mostra!

Abriu a blusa lentamente e exibiu com legítima vaidade só uma das duas. Não adianta descrever o que foi visto, toda a gente já viu! Enfim, a perfeição como ela se revela no corpo de qualquer rapariga, salvaguardando que a perfeição é sempre relativa e que não interessa aqui particularizar esse conceito aos olhos de quem viu. Aquela visão, aquele seio, vi-lo-ia a perseguir em toda a vida.

Quando, já barbado, deu pelo pai fugido para o Brasil, a irmã mais velha a dar lareira a um homem casado e a mãe, conformada, agarrada a todas as alfaias, determinou-se a dar caminho ao sonho e emigrou para a Austrália. Veio duas vezes curtas, a última em 78, visitar a mãe mas, por vergonha, medo, mania ou por acaso, não se encontrou com a irmã nem correu o povoado a rever velhas relações.

Voltava agora com 74 anos, com duas malas, num táxi que tacteou lentamente a estrada asfaltada coberta de folhedos, entre silvados e a paisagem cruel dos campos ao abandono: a primeira casa do vale, abandonada, depois, frente a frente, duas com poucos sinais de vida, mais à frente ”uma casa estilo maison com janelas à la fenetre”, residência de férias pela aparência, um pouco mais adiante uma outra em ruínas e, ao fundo, a casa do seu destino.
- Foi aqui que eu nasci!
- Não me diga que vai ficar aqui?!
Anotou o número de telefone do taxista e despediu-se. Olhou, apreciou, sentiu saudade, alegria, tristeza, reviveu. À parte as ervas, as silvas e as teias, tudo deveria estar como a sua mãe deixou quando morreu, fazia poucos anos.
A irmã, que pelo remetente da carta fazia vida lá para o norte, reclamara a sua presença para arrumar partilhas. Ele poderia até ficar definitivamente. Em terras de poucas mulheres havia feito vida apenas com mulheres da vida - diga-se que vira muitos mas nunca mais vira um igual ao da represa - não fizera família e bem que, como homem livre e aventureiro, lhe poderia dar para viver ali o resto dos seus dias.
Perguntava a si próprio o que ganhara em sair dali. Poderia pagar a sua longa ausência à memória da sua mãe, voltando a cultivar os campos, reconstruindo a casa e os anexos, restaurando ferramentas e utensílios – afinal de contas, em tudo o que via, sentia a presença e a energia dela.

Deu volta ao pátio e à casa e arrombou a porta apodrecida. Foi duro entrar, foi duro olhar cada prateleira, cada objecto e a lareira ainda com as cinzas da última fogueira. Já esperava não encontrar condições para pernoitar. Precavera-se com equipamento de campista para os primeiros dias. Antes de dar mais tempo a recordações, a projectos e trabalhos de limpeza teria de arranjar terreiro e montar a tenda. Estava agachado na preparação das estacas quando ouviu um carro de mão.
Aproximou-se. Depois dos primeiros instantes de reconhecimento, surpreenderam-se mutuamente. Cumprimentaram-se. Fizeram a conversa da ocasião. Estou eu, viúva, e a minha cunhada mas lá em baixo no lugar ainda vive muita gente!
- Por aqui passam-se os dias, as horas não. Ao menos hoje vai lá comer a casa. Alguma sopa se há-de arranjar!

Durante a ceia as duas mulheres não pararam de contar e fazer perguntas. Acabariam por ficar só os dois na despedida e, ao levantar-se, o evitável aconteceu: um copo de água despejou-se na blusa negra de Rosalina.
- Mostra-me a outra!
- Júlio!!!
Para quem nunca teve jeito para abordar mulheres, teria sido apenas mais um estalo. Aconteceu que o mesmo não criou desculpas, nem ressentimentos mas apenas uns pares de gargalhadas, sinal que ambos ainda estavam a tempo de poder começar. Quando se dirigiu à porta e olhou para trás para dizer boa noite, viu exibir-se a blusa entreaberta e sentiu de novo a juventude.
- Ainda bem que não me pediste para te mostrar a mesma!
Joaquina já devia estar a dormir. Mesmo que espreitasse pela janela nunca iria acreditar no que veria, os dois num beijo.
- Não te desejo pela perfeição, o teu sorriso é e será sempre belo nem que te caiam os dentes!

sexta-feira, 1 de março de 2019

Um dia de Natal no Carnaval

Há uns anos, preparava com uns amigos uma peça de Natal para o Natal da coletividade. A três dias da estreia as coisas estavam tão mal!... os atores não sabiam o texto, os cenários não se desenrolavam, as músicas enrolavam-se, os projetores fundiam-se, o desastre anunciava-se, de modo que decidimos cancelar o espetáculo.

Custava-nos desperdiçar o trabalho entretanto realizado, adiar para o próximo ano seria demais, pelo que decidimos fazer uns ajustes ao guião para que a história encaixasse no Carnaval e, assim mesmo, ela foi a cena, no domingo gordo, com o nome "Um dia de Natal no Carnaval".

Foi um sucesso. Natal e Carnaval rimam de facto. Desde então não consigo separar as duas festividades e janeiro é quase como se não existisse. Também o Fabrício me ajudou a esta combinação.

O Fabrício é uma daquelas personagens únicas que todas as pequenas cidades de província têm, acarinham e faz parte do meio. É portador de um qualquer distúrbio mental que lhe dificulta o ganha-pão. Jovem ainda, assume-se atleta e corre as redondezas em treino permanente. Entra na barbearia, no talho, no supermercado, na repartição, contando as proezas das provas de atletismo em que participa, e sempre a correr, como se os seus afazeres não lhe deixassem tempo para parar muito tempo em algum lado.

Por vezes permanece imóvel em lugares frequentados, põe uma caixa de sapatos à sua frente e espera que caiam algumas moedas dos peões. Fica estático, numa pose que assume a sua condição, e essa autenticidade retira-lhe o grau menor de mendigo e confere ao seu gesto a dignidade de um trabalho a 
que tem direito. Julgo que consegue, por isso, resultados suficientes para o sustento.

Naquele Carnaval, o Fabrício fez uma bem dele! Dispenso debruçar-me sobre as suas razões e convido cada um a cogitar nelas: o Fabrício andou pelas ruas vestido de Pai Natal!


Este texto, tal como esta foto, homenageiam o Fabrício. 
O Fabrício é o do meio.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Porque não vale a pena falarmos da Venuzuela...


Já lá vão os tempos em que discutíamos calorosamente a guerra do Iraque. Em desacordo, na altura acusaste-me de defender o Saddam Hussein. Esperei uns anos que te retratasses e viesses a reconhecer que estavas errado mas nunca o fizeste.

Mais tarde também tivemos uma conversa acerca dos bombardeamentos sobre as cidades líbias e tu puxaste pelo argumento fácil de que eu estaria do lado do Muammar Kadafi. Perante o resultado da intervenção militar esperei que, um dia, desses a mão à palmatória com uma palavra: oh pá, tinhas razão!

Relativamente à Síria hesitaste um pouco mas, ainda assim, em jeito de brincadeira, chegaste a acusar-me de defender a monarquia. Mas pronto, a televisão nunca mais falou da Síria e nunca mais falámos.

Agora que a história se repete, com as devidas diferenças, é evidente, já nem sequer falamos dessas coisas. Afinal de contas o Sporting é uma preocupação maior! Mas suspeito que, do teu silêncio, do teu conhecimento que nasce da informação que todos os dias a televisão te serve ao pequeno almoço, estarás torcendo para que amanhã chova em Caracas. Tu não aprendes porque nunca reconheces os teus erros. Fazes lembrar-me sempre o Bush que sugeriu que para acabar com os incêndios se deveriam cortar as árvores da floresta.

Estarás sempre do lado do mais forte e, por isso, mesmo que o teu Sporting perca, é sempre o mais forte! Sim, porque também esse poderio militar que te fascina, tem saído com o rabo entalado de muitas guerras!
Talvez, portanto, isto não sejam favas contadas. Pode ser que a tua semana não termine a fazeres um brinde com o Bolsonaro, o Trump,  o Autoproclamado e o pequeno Augusto.

Sim, estou triste e angustiado! Não vale a pena discutir contigo!


Repito este post ano após ano



Faz 32 anos hoje. No dia 23 de Fevereiro de 1987 cumpria o serviço militar na Escola Prática de Artilharia em Vendas Novas. O camarada Nunes ouvira no rádio do balneário a notícia daquela madrugada e acordou-me com ela no regresso ao quarto: - morreu o Zeca Afonso!
Nessa manhã tomei a linha do Setil para vir à terra tratar duns assuntos urgentes: na janela da automotora, a paisagem desse Além Tejo, ditou-me esta homenagem:

amigo canto e morte
maior que o pensamento
abril não morre

por mais que novos ventos se levantem
de rumo a falsas índias
levando incautos marinheiros deste cais
abril traz sempre voz

virão mais cinco e mais
cantando sim ao dizer não
virão como tu outros iguais
fazer de Maio cantiga
fazer de Abril canção

amigo canto e sempre
até

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

ser e não ser


se falo do passado, dizem que sou saudosista
se tento adivinhar o futuro, exercito a bruxaria
se sou crítico do presente, dizem que sou pessimista
se revelo um pensamento, isso é filosofia
se defendo um ideal, dizem que sou idealista
se faço uma metáfora,  faço uma poesia
se defendo a revolução, dizem que sou anarquista
se apelo à revolta, quero é rebaldaria
se faço greve, dizem que sou sindicalista
se me mantenho em silêncio, estou em estado de apatia
se me manifesto, dizem que sou comunista
se aponto um negro, isso é xenofobia
se me reparo na saia curta, dizem que sou machista
se abraço crianças, acusam-me de pedofilia
se grito de insatisfação, dizem que sofro de histerismo
se me queixo duma dor, sofro de hipocondria
se me levanto a sonhar, dizem que é sonambulismo
se me dói a barriga, são efeitos da bolimia
se compro um canivete, dizem que sou consumista
se bebo um copo, dependo da alcoolemia
se me sai um traque chamam-me porco

antes porco de que louco
antes doido que varrido
pois que  o seja
sei que é pouco
poeta não sou
fazer uma lista
não é poesia
mas pouco mais
se não me lembro do porco
terminava tudo em "ista"
e "ia"
- ia pá! falta-me a rima com "ais" pró "mas pouco mais"! já sei:
ai os ais de quem não aia!
- ai pá! falta-me a rima com "aia"! já sei:
que o primeiro ministro caia
ao descer a escadaria de S.Bento
- ai pá! ele não sai por lá!
... pronto é melhor não falar da saia do papa Bento que saía
estou completamente e ia...
... aonde é que eu ia?!
se até o papa saiu porque é que eu não me posso sair! saiu-me assim!
que é que eu hei-de fazer?! não sei escrever de outra maneira!
(o importante é fazer textos incitáveis que não se possam citar)

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Da Avenida da Liberdade não se vê o céu

Meu filho, meu amor, meu irmão, meu camarada, meu companheiro, quão grande é a ave Nida quando se enche da nossa Liberdade, de nós...



Companheiro

quando voltarmos a ser a razão dos que nos mandam
não te esqueças de recordar que sobrevive connosco a avenida
sob o olhar atento daqueles que nos ignoravam
e de alma erguida

Camarada
quando a guerra voltar a ser ganha pela razão
não te esqueças do tempo que passámos entrincheirados
sob o avançar cobarde dos mais fortes
e levantados

Irmão
quando recordarmos de novo a lição de história
não esqueceremos os mares outrora navegados
e que os olhos do avô eram verdes
mesmo fechados

Amor
quando as coisas voltarem a melhorar
não te esqueças da foto que temos da manifestação
com o olhar de meter inveja aos que a não viram
nem ao coração

Filho
quando chegar a tua vez
não esquecerás honrar quem te ensinou a luta
de perseguidos, presos, assassinados
por tanto filho da puta

Porque os direitos não caem do céu!

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

... da palavra mais feia do calão


(porque umas vezes vale mais a palavra,
outras vezes, o palavrão)

Partir...
Partir para aqui e pra acolá
Partir pra lá...
Partir para o Alasca
Partir pro outro lado e partir pra todo o lado
Partir sei lá...
Partir sei lá o quê
Partir a loiça toda
Partir os cornos contra as mamas da estátua da liberdade
Partir a cuca a rir...
Partir pra ter saudade
Partir pro infinito porque nunca chegarei
Partir porque já chega
Partir pra onde os outros não vão
Partir só por partir e partir tudo
Partir para Caracas ou ir para o Irão
Fazer um partida
Partir uma
Partir o baralho
Partir para a palavra mais feia do calão
Partir sei lá o quê pra onde pra que lado
Partir-me todo
Partir parado

Parti ontem
Cheguei ontem talvez
Talvez de onde de lá de mim de alguém
do mar ou do passado

Cheguei talvez agora
Vou-me embora
Sei lá pra onde de mim pra lá pra aqui pra aí
prá lua ou pro futuro

Bolas! Nunca parti um copo! Nunca saí daqui!....

Pronto para partir
Pronto! Não jogo com o baralho todo
Não digo um (palavra mais feia do calão)

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Florbela espanca os versos


Aquela espécie de soneto, sem regras de soneto mas ainda assim com qualquer coisa de soneto, não era de ler só por ler, em de banco de espera, sanita ou sarau, não era de guardar na gaveta ou de enviar por carta. Um ato de despedida onde não faltasse a poesia, uma última poesia de amante despedido. Convidei-a para um petisco no José Manel dos Ossos, saquei dum dos bolsos de trás das calças Lois a folha A4 dobrada em quatro, provei o vinho, desdobrei o manuscrito, pousei-o sobre a toalha plástica de padrão xadrez, pousei-lhe o copo em cima sobre um vinco, e lia-a enquanto degustava um osso, não sem antes perguntar:
- posso?

Florbela

Flor-minha-bela-ser-perdidamente
porquê? porquê perdidamente
fingindo amor-amar-perdidamente?

a porta do nascente abriu-se em cio
janela morta e dor
perdida de tanto ser amada

Flor-minha-bela-ser-perdida-a-mente
o moço de recados de prazer
partirá pelos prados férreos do poente
como quem parte do sítio da chegada

Flor-minha-Bela
parte! parte perdidamente!

perdido eu também fico
e também parto descontente
de perder-te.

Florbela espancou todos os versos, um a um, comeu e bebeu tanto quanto eu, retribuiu-me de igual para igual todos os olhares, pagou a conta e terminou, numa entoação de desprezo, com a expressão:
- Poetas!...

Como poderia eu ser um poeta se, passados tantos anos e enganos, não resisto, a despropósito, de borrar a escrita e terminar com um nome capaz de acabar de vez com toda a poesia? augusto santos silva!

domingo, 27 de janeiro de 2019

o pequenino augusto santos silva


Acontece lá para leste mas nós não ligamos muito porque raramente vêm daí os nossos ventos. Na Itália que se lixe, eles já tiveram o Berlusconi e não veio daí mal a pior. A Andaluzia nem sequer é um país. Na América ou no Brasil, bons ou maus, serão sempre nossos amigos e nós deles, pelo que era nosso dever enviar o Botas dos Beijinhos ao beija-mão ao Trump e ao Bolsonaro.

Mas isto pega-se e pode chegar cá! Se quereis a prova, olhai o pequenino augusto santos silva, da escola dos agora meninos do coro de George Soros, qual Rambo do ridículo, torcendo para que amanhã chova em Caracas!





sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Os homens de Lucina

(Lucina - nome poético da lua)

marinheiros da lua.
existência de navios na barra, à solta.
toca três vezes a guitarra eléctrica.
é a libertação,
a independência,
é a revolta...

homens da física e da astronáutica nada nos disseram
da nudez e dos orgasmos de Lucina,
escrava da Terra, e do Mar ama que se fez,
da noite para os seus abraços,
da mente para os seus porquês.

menina de mil esposos falando a meia voz dos meninos de Adolfo,
do pedantismo burguês dos cães da frente,
dos braços perversos da Nação.

alguém falou do Céu e calou seus astros
alguém falou de Adão e calou seus avós
alguém ousou simular a fantasia
nos corações dos órfãos da espada de haraquiri...

nada me detém,
sou um macho da Lua,
não preciso que o Poder caia nem que a terra do sonho seja aqui,
sou um macho da lua.

Lucina libertou-me...
levou-me para longe da cidade
levou-me para longe da floresta
libertou-me! libertou-me!

nas intimidades de Lucina estão preparando a revolução, 
limpai as vossas armas, 
muitas cabeças vão rolar na praça pública.

quero apenas libertar-me
das discussões da bola dos meus vizinhos
da negritude da sombra do bácoro que me persegue.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Janis Joplin Mercedes Benz

"Oh Senhor, porque é que não me compras uma Mercedes Benz?
Todos meus amigos têm porsches,
Eu preciso de ser recompensado,
Trabalhei a vida inteira,
sem a ajuda dos meus amigos
Então Senhor, porque é que não me compras um Mercedes Benz?"
(... a TV a cores dispenso!...)
Não sei o que se passa com os meus mitos! Foram mitos porque a morte os projectou? Foram mitos porque as máquinas comerciais americanas abusaram da minha inocência? Foram mitos porque eu era jovem e sensível?
Sei que os ouço agora e já não sinto a mesma música nem a mesma poesia, sinal que a música e a poesia que eu recebia e sentia não era só deles mas também era minha. Com os anos passados eu deixei passar uma certa juventude de modo que, porque perdi uma certa harmonia em reboliço, por demais que tome as culpas aos riscos da primitiva tecnologia do vinil, a culpa não é minha mas o caso é comigo! Que se lixem os Doors, os Deep Purple, os Stones - é pá! é melhor parar de enumerar! - fica ainda a orelha erecta cada vez que a Janis Joplin ecoa em qualquer lugar, a qualquer hora.
(parto do princípio que quem esticou a leitura até aqui está a ouvir a faixa)
Esta canção atravessou-me o ouvido! No meu parco inglês percebi o pedido. No meu parco inglês cantei muita vez esta canção! Nunca desejei ter um Mercedes! Nunca tive preconceitos por marcas de carros ou raças de burros! O Senhor nunca teria ouvido um pedido destes, primeiro porque era cantado em vão e segundo porque ninguém percebe um palavra do meu inglês. Foi, portanto, por acaso, que me tornei proprietário de um Mercedes! Velho! Note-se! O Mercedes tornou-se no Volks Wagen (carro do povo)! Há Mercedes para todas as camadas! Diz-me quanto dinheiro tens e eu arranjarei um Mercedes à tua medida!

Vinha eu a sair do festival Sete Sóis ou Sete Luas - ou as duas coisas, sei lá, o caso é para mais! - e ao chegar junto da minha viatura constatei que lhe/me faltava a estrela. O GNR circunstante apercebeu-se da minha exaltação e abeirou-se averiguador.
- Deixe lá homem! São jovens! Fazem colecção!
- O Senhor guarda não percebe?! Eu preferia que me tivessem levado o carro e me tivessem deixado a estrela aqui no chão!
O guarda deu meia volta, provavelmente ia buscar o balão. Ao longe ainda lhe gritei:
- Ó senhor guarda! Eu só tenho um Mercedes por acaso!
Gostar das estrelas dos Mercedes e de Janis Joplin não é o meu maior pecado, o meu maior pecado é revelar-me tanto quando a lucidez me deixa a nu! Este blog está mesmo a chegar ao fim! Ao fim e ao cabo!....

sábado, 5 de janeiro de 2019

2019 - o ano do porco


Que em dois mil e dezanove
Eu me levante todos os dias,
Que se levantem as árvores,
Que se levante a vida,
Que se levantem os mortos,
Que se levantem os porcos,
Que se levante o povo,
Que se levante o país,
Que se levantem as vozes,
Que se me levante a voz,
Que se me levante o falo
Que a falar é que a gente se entende
E que outros valores mais altos se levantem!...

Que em dois mil e dezanove
Os juros caiam,
O petróleo caia,
O bêcêpê caia,
A sónai caia,
O governo caia,
O Costa caia da cadeira
E o Marcelo tropece numa passadeira vermelha
E caia pela escada abaixo.

Se os juros caíssem talvez me sobrasse algum.
Se o bêcêpê caísse talvez a casa passasse a ser minha de facto.
Se o petróleo caísse talvez eu pudesse, no Verão, dar uma volta à praia.
Se a sónai caísse talvez eu não acordasse aos domingos com o despertador a dizer:
- Podíamos ir ao Continente! ...
Se o governo caísse eu teria novamente a oportunidade de votar em quem não ganha!
Se o Costa  caísse talvez voltasse um Passos e viesse a seguir outro vinte cinco setenta e quatro e, então, num próximo ano novo eu iria acreditar que vale a pena desejar bom ano aos demais!

Sobem os encargos com juros, o gasóleo, os resultados da banca, as ações das grandes superfícies, as sondagens da direita, o capitalismo vai de vento em popa, o governo sobe, o Costa baba-se, limpa a boca com a direita e o cu com a esquerda!...
Dois mil e dezanove? Eu quero é dois mil e setenta e quatro! Dois mil e setenta e quatro euros de vencimento!...

Escrevi isto num dia em que me achei mais pachorrento...

sábado, 29 de dezembro de 2018

this is the end, my only friend

Não faço montagens - o da direita é o Marcelo
foto do ano novo

Isto é o fim da picada!
Marcelo fez questão de ir apertar a mão a Trump, mesmo sabendo que poderia correr o risco de ser confundido com o rei de Espanha! Não lhe valeu de nada mas trouxe - interesses de Estado? É interesse de Estado o reconhecimento duma América dirigida assim? 

Mas com Bolsonaro isto pia mais próximo e mais fino. Pior que Trump! - diziam uns. Mais perigoso que Trump! - diziam outros. E todos temos o direito de dizer dum e outro uma coisa qualquer! Temos até o direito de nos contradizermos com as opiniões que emitimos acerca de um ou de outro.



Quem não tem o direito de se contradizer com aquilo que prega, são os guardiões e os representantes da nossa democracia. Como pode a RTP nomear Bolsonaro como a personalidade do ano? Porque tem de ir Marcelo à tomada de posse do novo presidente do Brasil?
Em nome de que causa maior se pode legitimar a mediocridade sem medir os efeitos nefastos desse apoio - porque é de apoio que se trata - no florescimento de novos Trumps e Bolsonaros?

A RTP é a Globo? Não! Isso é a SIC!

Marcelo é um deles? Não! No entanto, não deixa de ser um daqueles a quem estas novas velhas visões da democracia não fazem muita impressão! Nasceu no meio deles e deles cresceu! 
Que bela fotografia de recordação Marcelo vai trazer para colocar na cristaleira lá da casa!
Putas que pariram trumps, bolsanaros, o de israel, o da hungria, o da turquia, o da ucrânia, o de espanha, o da polónia, o da japónia, o da anatólia, o francês, a inglesa e também... o portonhês!... 
Viva a revolução, o revirão, o reviralho e vão todos para o... brasil! 
Bolso, estou a bolsar, bolsonaro, metê-lo, marcelo... ai!

Dos 160 chefes de estado convidados por Bolsonaro, só 12 aceitaram o convite.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Movimento relativo


Vou desligar.
Parem de me dar notícias
Porque eu já sei que as coisas acontecem.
Parem de escrever bons livros
Porque o meu ritmo de leitura é lento.
Parem de fazer bons filmes
Porque tenho uns em atraso para ver.
Parem de inventar músicas
Porque eu tenho discos que nunca ouvi.
Parem com a tecnologia
Que eu já não dou conta dos botões.
Parem de me oferecer produtos
Que eu tenho a despensa cheia.
Parem de me anunciar espectáculos
Que eu já não tenho agenda.
Parem de fazer leis
Que eu faço questão de andar legal.
Parem de fazer estradas
Porque eu já não sei por onde hei-de ir.
Parem o comboio
Porque eu vou apear-me.
Parem a camioneta
Porque me apetece vomitar.

Ainda o sinal não estava verde
E já me estavam a apitar.
Parem! Stop! Dêem-me tempo! Dêem-me espaço!
Parem que eu não consigo acompanhar!
Oh! Estou a ficar para trás!
Parem de me encher a cabeça.
Deixem-me respirar.
Respirem.
Todos os livros, músicas e filmes estão compostos.
Chega de tecnologia.
A Terra está esgotada.
Já vi todos os números de circo.
Todas as leis estão feitas e todas as cidades construídas.
Será este o caminho?! Não são estradas a mais!?
Não vou para mais lado nenhum!
Não quero mais nada!
Vou viver aqui que aqui há terra!
Vou descansar.
E tu? Ficas comigo? Ou fico só?