quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Viva Salazar!


... e estava eu em parte emersa da grande dorsal atlântica e em casa hospitaleira, criando amigos e quando se criam vários há sempre um que mais fica, este à custa da cumplicidade dos cigarros que agora não se fumam à mesa obrigando os que não os dispensam a virem ao luar, conversas que se enleiam no fumo entregue à brisa, Duarte de seu nome, setenta e cinco, cinquenta cinco em Ontário, a primeira vez que regressou à ilha trouxe oito filhos no avião, agora vem sempre ele e a velha em cada Verão, os filhos por lá andam, trabalhou muito e nós falávamos disso e de outras coisas quando deixei cair inadvertidamente um "no tempo de Salazar" logo caçado para ele largar:

- Mas Salazar foi um grande homem!
- Ai, pensei eu, queres ver que tenho aqui mais um dos tais? 

Que quando foi, foi para as minas e que três ficaram numa encurralados, três dias foi o tempo demorado para os salvar, dois não eram portugueses e saíram em mau estado e muito combalidos sem sequer falarem mas o nosso, mal saiu, logo gritou vivas a Salazar.

- Pensei então que o português, embora bem de físico vinha passado da cabeça e perguntei-lhe:
- Homem que é isso? Viva Salazar?
- Sim, devo agradecer a Salazar por me ter habituado a passar fome!

Eu me redimo pela desconfiança, tão perspicaz me julgo e não advinhei a ironia. Duarte continou:
- Puta que pariu o Salazar e os dele que ainda vivem nas cadeiras que ele deixou, os melos, os rebelos e os marcelos, os carneiros, os coelhos e os salgados, era metê-los a todos num bacalhoeiro prós gelos da Terra Nova ou do Canadá e ainda era pouco!

domingo, 9 de julho de 2017

À conversa com o coveiro.


Um coveiro é um homem que não colhe simpatias e é, regra geral, dos homens mais pobres da freguesia. Ele usa um fato sujo onde todos os outros estão de fato domingueiro, ele move a terra enquanto os outros a choram, ele é o que menos ganha e mais trabalha no negócio da morte, ele tem de ser rijo, de olhar esguio e frio. 

A Junta não compra uma máquina porque António Mafra, o Toino, não tem instrução para a manobrar e, por isso, ele continua a abrir as covas à pá e picareta, prestando serviços nos três cemitérios da união de freguesias. Apesar dos seus cinquenta anos, ainda é novo porque vive numa terra de população envelhecida e porque tem muita força. Apesar de haver velhos a dar com um pau também não é todos os dias que morre gente, pelo que Toino dispensa a sua força para outros trabalhos como limpeza de terrenos. Nessas ocasiões, a língua e a expressão dos funerais tranformam-se e soltam-se e ele é outro, conta-me coisas.

Que sabe que lhe pago mas que a outra de Lisboa não o fez e pior que isso:
- Quando a lembrei que me devia da limpeza do quintal dos falecidos, responde-me a puta assim:
- Ó Toino, então não te lembras, paguei-te há uns meses à saída da missa?
- Se me dissesses no café do Costa eu podia já estar com os copos e não me lembrar. Agora à saída da missa? Aí não de certeza porque eu não vou à missa há mais de trinta anos!
- Mas se for preciso eu pago-te outra vez...
- Não! Fica lá com o dinheiro e para a próxima fala a outro!

E outra:
- O padre franciscano que gosta de ver as coisas que o pai lhe deixou muito bem cuidadas falou-me para dar cabo dumas canas. Bem me pus a elas mas tive de falar a um trator para o serviço ficar bem feito. Quando cá veio, perguntou-me quanto era e achou muito:
- Dou só isto e pago-te o resto rezando pela tua alma!
- O cabrão a dizer-me que ia rezar pela minha alma! Então o gajo é muito mais velho do que eu!

- E lembras-te da professora Emília? Tantas que levei dela! E se calhar mereci-as! Aqui há uns tempos veio ter comigo no fim dum enterro.
- Ai Toino, perdoa-me que eu bati-te tanto!...
- Só vejo uma explicação para o arrependimento lhe ter vindo naquela altura. Ela ouviu as pazadas de terra a cair sobre as tábuas do caixão: trum! trum! trum!... trum! trum! trum... e lá deve ter pensado que não tarda é a vez dela e quer que eu seja mais doce.

Isto, para não falar de outras de morte que o seu humor negro solta e que me faz dizer-lhe à moda da canção:
- O coveiro não tem culpa é a sua profissão.



quinta-feira, 29 de junho de 2017

Há que saber distinguir as drogas


Toda a estratégia que países, como Portugal, têm seguido no combate à droga é um fracasso porque parte da ignorância e do preconceito, porque se baseia no desconhecimento e na arrogância, porque idealiza a vitória mas não o acordo, porque se dirige aos números e não às pessoas, porque privilegia a proibição e não a liberdade. Enquanto os comandantes desses combates não mudarem de roupa nada mudará.
Trago há muitos anos na memória esta história persa. Tão simples e diz tanto. Aqui a deixo:

"Três homens intoxicados, respetivamente pelo álcool, pela heroína e pelo haxixe, chegam, durante a noite, às portas fechadas de uma cidade.
O alcoólico grita com raiva: "Deitemos a porta abaixo, com as nossas espadas conseguiremos fazê-lo sem dificuldade"
"Não", respondeu o heroinómano, "Podemos instalar-nos cá fora confortavelmente e descansar aqui até de manhã"
O consumidor de haxixe declara por sua vez: "Que ideia tão estúpida! Passemos pelo buraco da fechadura".


Não vou beber aguardente, não vou snifar, não vou fumar, quero só um copo de água. Estou cheio de sede, andei toda a tarde a tomar banho na barragem, regressei a casa pelos cabos de energia e agora estou dentro da lâmpada da cozinha e não consigo sair. Poder-se-ia concluir que bebi água demais mas a verdade é que estou cheio de sede e não sei o caminho para o interface da canalização elétrica com a canalização de água para poder chegar ao lava loiça e encher um copo. Vou partir a lâmpada, beber um copo de água e depois descansar, que é o que eu faço todos os dias. Será que ando drógado!?

terça-feira, 27 de junho de 2017

Deixem Pedro fazer o seu trabalho

Que Deus Nosso Senhor mantenha muitos anos o Pedro à frente do PSD!
Bem que o Fernando Campos, d'o sítio dos desenhos, o podia ter desenhado mais real: a dar um tiro nos quatro pés. Um tiro nos próprios pés não é suicídio, ninguém morre disso. Que Deus Nosso Senhor mantenha muitos anos o Pedro à frente do PSD!

domingo, 25 de junho de 2017

Como beber um copo de água

Hoje, ao almoço, o meu filho engasgou-se, espirrando de seguida para cima do convidado que estava frente a ele na mesa, deixando-me terrivelmente incomodado e embaraçado. Eu, que só espirro por razões que já descrevi AQUI, repreendi-o:
- Nunca mais aprendes a beber um copo de água!
Ele, visivelmente embaraçado e incomodado levantou-se da mesa e dirigiu-se para o quarto. A forma como os nossos jovens se formam, se deformam  ou se informam põem a família e a escola tradicionais a um canto - encontrei-o a visualizar este tutorial. Vale a pena vê-lo até ao fim para aprendermos que este mundo já não é o nosso e que um engasgo inadvertido ou um espirro mal aparado são, afinal, coisas que nada têm a ver com educação e muito menos complicadas do que beber um simples copo de água.


sexta-feira, 23 de junho de 2017

Uma história que trago comigo


Pedro gozava a beira rio. Preparava a cana, lançava a linha, pescava um peixe, assava e comia. Quando lhe voltava o apetite, repetia os gestos e de imediato um outro peixe lhe mordia o anzol. Pedro passava-o pelas as brasas, preparava o petisco, saboreava o alimento e de seguida passava ele pelas brasas, descansando o dorso nas margens do seu rio.
Um vizinho da faxina, admirado com tamanha sorte não resistiu ao interpelo:
- Pedro, com a tua sorte, podias pôr duas canas e recolherias o dobro de peixe!
- Mas pra quê?!
- Duas? Podias até pôr uma data delas!
- Mas pra quê?!
- Pra quê!? Tivesse eu a tua sorte, comprava uma moto de três rodas com caixa atrás e venderia uns peixes por aí!
- Mas pra quê?!
- Oh! Mas que coisa! Eu com a tua sorte empregaria até uma data de gajos por minha conta e teria peixe para dar e vender!
- Mas pra quê?!
- Lá estás tu! Com a sorte que tu tens poderias até ter uma frota de carrinhas frigoríficas a vender peixe por toda a região!
- Mas pra quê?!
- Então para quê?! Poderias ganhar muito dinheiro, teres uma vida regalada e deitares-te ao sol descansado!
- Mas não é isso que eu estou a fazer?!

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Temos um problema em mãos

Do projeto de vida juntos, juntos os trapinhos, constavam as carreiras, alívios financeiros, meia dúzia de viagens, gozar a vida a dois e, só depois, um filho ou dois, fim comum de qualquer acasalamento.
Evitaram-nos, desde a primeira relação com o "tira antes", camisinhas e pílulas, até que um dia, apesar de por cumprir o projeto inicial, porque a idade da fêmea tem limite para embrionar, decidiram deitar fora os contracetivos e puseram orgãos à obra com muito prazer e muito amor.

Também aqui o projeto veio furado, cinco anos a tentar nada vingava.
Tentaram tudo, especialistas médicos e astrólogos, luas, kamasutras, mistelas e pielas, nem bébé nem meio bébé, barrigas nada!
Ele retirou até o candeeiro do quarto e prendeu no seu lugar duas correias, com comprimento que não chegava à cama, que tinham nas extremidades duas fivelas para atar os artelhos da parceira. Mas não se pense que era para variação de coito, era para que no final do mesmo ela assim permanecesse um tempo, de pernas ao alto, evitando que o caldo se entornasse.
Tentaram de tudo, coisas que não se podem dizer aqui, como aquela de ela se ter arrumado com um colega de trabalho numa arrecadação, traição por razão superior não é traição, se desse só ela saberia, pois que a condição dos homens, nestas coisas, nunca permite averiguar toda a verdade nem fazer coisa parecida: não lhe era possível a ele enganar a mulher, fazendo passar por filho dela, o filho que afinal era dele com outra.

Tentaram tudo e, quando já nada se esperava, uma paragem em Fátima, uma velinha e zás! Milagre ou coincidência?

Para não incomodar o feto, sexo tá quieto! Também, depois de tanto copular, o sexo não lhes interessava nada, agora a vida a dois realizava-se à volta daquela barriga, o climax seria quando se fizesse luz e uma nova vida, a três, desse um menino ou uma menina, o sexo não lhes interessava nada, que cumprisse no futuro as carreiras, os sucessos e as viagens que eles não conseguiram.

A partir daí, toda a vida social e familiar, todo o trabalho e rendimento disponível, foram para servir a felicidade e o bem estar do tão desejado, o príncipe - eu quero o melhor para o meu filho, o meu filho nunca me pediu nada que eu não lhe desse, o meu filho é tudo.
E diga-se que na formação do monstrozinho em crescimento também muito contribuíram os avós - é tão esperto o meu netinho, deixo-lhe fazer tudo o que ele quer, meu neto vai ser doutor.

E então, como é normal, o puto foi para a escola, assim educado e protegido, o maior, o intocável, e dotado dum telemóvel topo de gama.
Os médicos, os polícias, os professores e todos os profissionais que com ele interagiam, além de incompetentes, eram incorretos, não mereciam aquilo que ganhavam,  viviam às custas dos impostos dos pais e dos avós - aprendeu ele em casa desde pequeno.

Não deu o meio familiar por conta que a criatura se marginalizara progressivamente também deles, absorvido pelas consolas, pêcês, têvês e telemóveis e que o seu olhar estava dependente dessas radiações. Deixou de ver o mundo, se é que alguma vez o viu. Nunca reparou numa andorinha, numa folha seca ou num motor de rega. Acordaram os ascendentes quando repararam que a filha da vizinha fazia salivar qualquer um, homem ou mulher e que, embora também princesa e da mesma idade, não fazia tirar a atenção do telemóvel ao príncipezinho.
- Há qualquer coisa que não está bem com o nosso filho!
- Pois não, está ligado à máquina! Temos um problema em mãos! - disse eu e tu e tantos outros, que tantos somos os que temos em mãos um problema destes que é de todos.

- Atão e eu? Que raio estou eu a fazer? Comecei tão bem este texto ontem e hoje derrapei para a vulgaridade! Estou a sair-me mal! Preso aqui à máquina com tantas coisas outras para fazer! Bem sei que temos um problema em mãos com as novas gerações mas como se  costuma dizer "quem os pariu que os ature!" e se não estiverem para isso, é para isso que servem os professores! Não é para fazerem greves!

Todos os professores deviam ser bombeiros

Os alunos que frequentam as escolas dos concelhos atingidos pela tragédia dos incêndios irão realizar os exames nacionais em datas posteriores e o governo adianta que não serão de forma alguma prejudicados por essa alteração. Decisão esperada e acertada mas que põe por terra um dos principais argumentos que levaram à requisição de serviços mínimos para a greve de professores marcada para um dia em que decorreram exames nacionais: a mudança de data destes exames prejudicaria gravemente os alunos.

Para essa requisição o governo socorreu-se dum colégio arbitral, constituído por três doutores que votaram dois contra um,  cuja decisão se refugia, no essencial, na falta de objetividade do termo "impreterível" utilizado no texto da Constituição.

Das razões do governo podem ler-se estes dois excertos:
   
"Defende o ME que a realização dos identificados exames e prova de aferição é uma necessidade social impreterível...
... que os alunos têm o direito a verem realizadas as suas provas e exames em condições de igualdade, e que poderão ocorrer repercussões negativas na alteração do planeamento e organização dos tempos de férias de milhares de familias"

Ora deixe-mo-los ficar com o endeusamento nacional e o cerimonial em que se converteram, ano após ano, as provas de exames nacionais e admitamos que adiar um exame é tão grave como adiar um casamento e concentre-mo-nos nas contradições que põem a nu o verdadeiro caráter das suas intenções de limitar o direito à greve:
- As provas de aferição visam avaliar o sistema e não os alunos. Ao sabor dos ministros, podem existir ou não existir, podem ser em qualquer altura do ano e têm tido formas distintas de aplicação pelo que considerá-las uma necessidade social impreterível só pode ter sido lembrança do diabo anunciado.
- Se o exame fosse adiado para um dia em que os jovens dos concelhos atingidos pelos incêndios também pudessem fazê-los, aí sim poderiam existir condições de igualdade, assim não.
- Sobre a organização dos tempos de férias de milhares de famílias mais vale não dizer nada. 

Se todos os professores fossem bombeiros provavelmente, hoje, o impreterível teria mudado o seu significado. Assim, esta greve, foi só fumaça!

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Nada, puta!

Dizia eu à rã, que apanhei na represa de onde a minha mãe regava o milho, quando a levei para o tanque onde a minha mãe lavava a roupa: nada, puta!

E ela tanto nadava tanto como não nadava nada. E eis o mote que me levou, mais uma vez, a escrever sobre nada, com prazer, esperando que outros desfrutem do prazer de ler qualquer coisa que não diga nada. Temos essa necessidade, a mesma que temos ao jogar Tetris no PC ou à paciência com o baralho. De facto, muitas vezes procuramos o nada para descansarmos dos discursos do nosso dia a dia, das guerras e tragédias do noticiário, do livro sério que nos faz pensar, das lutas e causas em que estamos ou devíamos estar, das manápulas que nos empurram os olhos contra a areia, dos vírus, bactérias e gostos alimentares que atormentam a nossa saúde, da torneira a pingar, dos desgostos que o próximo nos inflige, da falta de sono que tanta coisa nos provoca, do imperativo de termos de trabalhar para o pão nosso de cada dia.

E aqui estou eu, sem nada para dizer, com a única intenção de vos levar a ler até ao fim um texto que, não engano, nada vos vai dizer.
Provavelmente, ontem ou hoje, já destes por vós numa palestra ou num encontro, onde tivestes de gramar com um orador que sacou dum power point, de que não se percebia onde queria chegar ou que simplesmente falou muito bem sem nada dizer, porventura, um texto que, pretendendo dizer muito, não dizia mais do que este, ou ouvistes com paciência uma colega ou uma vizinha que fala, fala, fala e não diz nada.

Pois ouçam-me, ou pior ainda, tendo em conta que ler é um ato muito mais voluntário do que ouvir, leiam-me, avisados de antemão que daqui não vão levar nada porque é de nada que estou a falar. Assim, tipo uma cantilena onde as palavras se encadeiam sem propósito maior a não ser desfilar, uma cantiga de aí ou ai, uma canção de ó baby, baby, um mestrado sobre a influência da oralidade nas relações sexuais, uma homilia do capelão solteiro num casamento gay, um  discurso do presidente da assembleia de freguesia numa entrega de prémios, assim mesmo farei, ou melhor, estou fazendo. E volto a avisar, sei onde isto vai chegar, não sei quando vai parar.

É um prazer do caraças escrever sem ter de pensar naquilo que se vai dizer, sem ter de estar preocupado em ser  mal entendido, em falar demais sobre aquilo que se é ou se pensa, em ter um objetivo de expressar uma opinião ou ideia. Oh como é bom escrever só por escrever e escrever sobre nada, estando-me nas tintas para quem largou a leitura no primeiro parágrafo e agradecendo a companhia àqueles que continuam a ler com o mesmo carinho amigo com que ouvem o colega ou o vizinho que fala, fala, fala e não diz nada.

Aguentem, estava agora mesmo para ficar por aqui mas lembrei-me outra vez que não sou nada original nesta ideia de falar ou escrever sobre nada. Isto da alfabetização, das universidades a pontapé, dos canais de televisão às mancheias, dos palcos desmontáveis e microfones sem fios, das redes sociais, dos reis auto-coroados em blogues, deu origem a um autêntico cataclismo de sabedoria inócua.

É muito fácil ver um porco a andar de bicicleta, o difícil é ele fazê-lo. É muito difícil um porco ser homem, já o contrário é facílimo. É difícil a um homem assumir a sua suinidade e eu acabo de fazê-lo. Estou a ser um pouco porco, a sujar o vosso precioso tempo em que vos predispusestes a entreter-vos, a resistir a uma leitura sobre nada e, de repente, por distração minha, já estávamos aqui a falar de porcos e outras coisas mais sérias sobre homens porcos. Não tarda muito estarei a falar sobre outras porcarias e eu não quero. Afinal de contas, escrever sobre nada é mais difícil do que eu pensava. Parabéns a todos os que desenvolvem a sua atividade política, profissional, social e familiar, fugindo de conversas sérias e falando com ar sério sobre nada.
Só me faltava que, no fim de tanto esforço, alguém me viesse dizer que escrevi sobre alguma coisa! Não, estive apenas nadando nas palavras, frases nadas, nascidas como os pardais, paridas como os ratos para uma existência  sem sentido mas ainda assim com vida.

Por uma questão contabilística agradecia que quem leu até ao fim assinale "boa patada" ou "uma porcaria". Bom 10 de junho!

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Presos por fazer greve e por não fazer


Andam há meses, eles que nunca viram com bons olhos o direito à greve e que apenas a toleram se ela não incomodar vivalma, a queixar-se da ausência de greves e de manifestações. Isto, apesar de muitas terem existido mas que, para salvarem o argumento e o passar como verdade, não quiseram ver.

Da parte dos professores não existiram, de facto, greves mas houve manifestações, algumas delas com notória dimensão e que nem eles, nem a sua imprensa, quiseram ver.

Houve sempre uma notória insatisfação com a resposta muda às reivindicações dos professores.
Mas o discurso anti-sindical ditava sempre que o governo estava nas mãos dos sindicatos e, em particular, da FENPROF. Agora que a federação sindical põe como hipótese a marcação duma greve, ai aqui-d'el-rei que estão, pasme-se, com "objetivos eleitorais e autárquicos"!

Vá-se lá entender o cérebro desta gente! É caso para dizer: presos por fazer greve e por não fazer!
E atenção, professores candidatos a câmaras e juntas de freguesia, se quereis ter votos, fazei greve!... Ou não fazei!... Eu já nem sei o que hei-de pensar! Mas cheira-me que, se houver greve, há umas listas que, por causa disso, vão ganhar e outras não.

Mas pronto, o que me preocupa não é isso! O que me preocupa é achar que o FMI e o Cardeal Patriarca de Lisboa não vão ver esta greve com bons olhos!

domingo, 14 de maio de 2017

Chega-te para lá Fátima, deixa-me dormir, quem sabe, sonhar!...

Homenagem a Baptista Bastos com desenho de Onofre Varela - Maio 13, 2017

Já chega. Ao longo dos últimos meses o Rei dos Leittões assumiu-se como o único blogue não crente que assinalou religiosamente o Centenário das "Visões" de Fátima. 

Passado o 13 de maio atingiu-se o climax. Acabou-se o Centenário e ainda o ano não vai a meio. Inaugurou-se um terço gigante e lá ficou, vieram os peregrinos mas foram-se, publicaram-se coisas e mais coisas e já estão nas estantes ou na reciclagem das papeleiras, veio o Papa mas foi-se. Se quisessem que a coisa se aguentasse mais tivessem convidado o Papa para vir a 13 de outubro, que é a data do milagre em que o Sol incandesceu ou insandeceu - não se sabe bem - e passaríamos a época balnear e a campanha eleitoral com as câmaras da tv e os olhos na Cova, nos videntes, nas virgens, nos clérigos, nos peregrinos, na grande operação.

Mas assim não! Descansemos! Ao Centenário restará pouco mais que a inauguração dumas alminhas na aldeia da Ramila na Serra de Aire, uns almoços de crentes abastados no Tia Alice, em Fátima Velha, uma entrevista ao Bispo de Leiria e umas declarações do Presidente da Câmara de Ourém a reclamar sucessos pessoais e a mostrar-se satisfeito consigo próprio.

Também muitos peregrinos ficarão satisfeitos pelos seus feitos de rezarem Avé-Marias de joelhos e falarão da mensagem de Fátima que ninguém sabe ao certo muito bem o que é; os padres falarão repetidamente da mensagem que o Papa deixou, por sinal muito igual à de todos os padres; os críticos ateus ficarão mais calmos depois de terem atirado achas para as suas explicações do fenómeno sem se aperceberem que não há nada para explicar; a TV voltará ao tema quando não houver Benfica e os operacionais dos ramos da crença e do comércio terão de esperar por outras efemérides para terem novas consolações.

Mas pronto, repetir a palavra Paz já é bom nem que nos intervalos se não disfarce o entusiasmo por umas bombas maternais que o tio Trump venha a largar sobre povos pouco cristãos, da Líbia à Síria, da Venezuela a Cuba ou dum paiol do Pacífico à Coreia do Norte.

Da minha parte, tenho a parte cumprida no que toca ao assunto. Fico apenas com a sensação de que, tal como muitos portugueses, depois de tanta história contada, nunca saber o seguinte: sabendo que uma era Lúcia e não Lúcio, confundo-me sempre e não sei dizer se os outros dois eram Francisca e Jacinto ou Jacinta e Francisco.

Entretanto... mudando de assunto:

O Papa fez o seu número mas eu não sou católico
O Salvador ganhou o festival mas eu não vou em cantigas
O Benfica ganhou mas eu não sou benfiquista

O PS subiu nas sondagens e eu não sou socialista
O défice deixou de ser excessivo e a prestação da casa continua alta
O desemprego baixou e o meu filho continua em casa

Mas o que me preocupa mesmo é o cabrão do autoclismo que continua a pingar
E o filho da puta do nível de óleo do carro que continua a baixar
Já para não falar do nível de colesterol que continua alto

E eu gosto tanto de leitão
E gosto de dormir para sonhar
Mas se me continuar a faltar o sono e o carcanhol
Eu vou mas é falar com este gajo:

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Ir a Fátima e não ver o Papa


- JÁ CHEGA!


(Este post destina-se apenas àqueles que hoje não ligaram a televisão)

Contava contar-vos hoje uma visão que tive de madrugada. Via eu uma multidão de homens e mulheres, populares, à volta duma virgem, via um ancião vestido de branco acenando a todos e a este e àquele, via gente abrindo os braços em sinal de louvor, gente de mãos erguidas pedindo isto e aquilo e saúde, via lágrimas de sofrimento e emoção, sorrisos de felicidade e de graças, portanto, uns contentes outros nem tanto, via Fátima. Contava também agradecer a não sei quem - se à Senhora de Fátima, se ao Papa, se ao António Costa, se à Assunção Cristas -  a tolerância que me deram sem eu a pedir.
Mas eis que os comandos da televisão não resistem a um dia em casa e, para meu espanto, a minha visão perdia qualquer valor porque acontecia em todos os canais - honrosa exceção para o Sport TV e para o Vénus. Fiquei chateado! Talvez tivesse adormecido a ver televisão e a minha visão não passasse dum sono leve no sofá e não duma revelação de ordem sobrenatural! 
(Irritou-me também a devoção às virgens porque lembrou as relações históricas entre cristianismo e islamismo e aqueles que, segundo a televisão, se fazem explodir porque, por o fazerem, serão recebidos no céu por dezenas de virgens. Esta fixação dos homens, castos ou varões, pela virgindade das mulheres é uma coisa que não cabe na minha civilidade! Que me perdoem as irmãs e os machões!)

No meio de tudo isto surgiu a minha filha. Aconselhada por mim a seguir a vida religiosa desafiou-me quando, sem o meu consentimento, se fez militante da JCP. Pensei: de mal o menos! Duma forma ou de outra não terá um namorado da JS ou da JSD! Mas eis que premiada, pelo pai remediado, com uma lambreta, por ter concluído o 12ºano apenas com negativa a Religião Moral, hoje me disse:
- Pai, eu vou a Fátima ver o Papa!
E passei eu todo o meu santo dia a ver se via a minha filha na televisão - tentativa frustrada - para me chegar ela agora a casa, depois do jantar, e completar-me o vão do dia:
- Pai, corri Fátima toda de mota e não vi o Papa!
E eu, sempre paternal e amigo, santo pai:
- Manda lixar o papa, tens aqui o papá! Este ano iremos à Festa do Avante e vais ver o Marcelo Rebelo de Sousa! Por tua causa já vi hoje mais televisão do que no dia do funeral do Mário Soares!
Come e cala-te, de papa JÁ CHEGA!



quinta-feira, 11 de maio de 2017

Fia-te na Virgem e não corras!



Vivo nas barbas de Fátima! O marcador Fátima deste blogue assinala o que penso, sobre o que vejo, sobre o que respeito e não respeito. À minha porta passam peregrinos, dia e noite, respeitados, apesar de escolherem o Caminho do Sofrimento, desrespeitados pelo Caminho que lhes traçaram. É uma dor de alma ver estas almas palmilhando o asfalto dos cabrões quando poderiam calcorrear os carreiros das cabras.
Sou recorrente nesta observação, mas enfim, não há Junta de Estradas, nem Santa Madre Igreja, nem Grupo de Escuteiros que queira indicar melhor caminho: sem perigo de atropelamento, não há peregrinação, não há teste às graças do Céu. 

Mas volto a este tema porque hoje, mesmo hoje, vi uma senhora peregrina, só - que é a forma mais perfeita de se ser peregrino - atravessar a passadeira aqui do burgo de pés descalços. Abeirei-me sem piedade, solidariedade ou curiosidade, foi um ato de mero observador:
- Já observou que não leva nada calçado?!
- Venho de Vila Nova de Poiares descalça! Num país de católicos, ainda não se abeirou de mim uma única alma que me tenha oferecido umas alpercatas! Quando chegar ao santuário vou roubar os primeiros que estiverem à mão! Dirão:- É ladra! Responderei:- Sou cristã!

Tudo é de todos! "Bens em comum" - a máxima dos primeiros cristãos. Se uns sapatos não estiverem calçados, quem terá o direito dos reclamar? Os sapatos a quem caminha!

Nota: Coloquei o título, coloquei-me a escrever, coloquei-me a vaguear, a caminhar pelas palavras...
mas também já não vou emendar - é um bom título: "Fia-te na Virgem e não corras"! 
O texto não condiz mas é o povo que o diz! 
Outra nota: Quando me abeirei da senhora eu vinha a sair das piscinas municipais - estava descalço!

Fátima numa frase batida: "... mas respeito!"

Com respeito ao respeito o respeito a todos respeita. Mal iria a nossa sociedade quando dividida entre os que professam Fátima e aqueles para quem Fátima não passa dum fenómeno de massas de cariz religioso se as partes acabassem em ofensas verbais ou alguém recorresse à chapada para esclarecer  posições diferentes.
.
Da minha parte, todas a expressões de peregrinos, com rostos assim ou com rostos assado, com  mãos erguidas ou braços abertos, com botas de caminhada ou com mau calçado, de sofrimento ou alegria, todos os padres e comerciantes, todos os estudiosos do assunto e testemunhos crentes me merecem humanamente respeito.

Não conto espingardas mas, entre os que afirmam que a Fátima foram, que a Fátima vão, ou que a Fátima irão por ter Fé na Virgem, outros tantos existirão que dirão "não acredito em nada daquilo mas respeito".

Da minha parte, respeitar o que é humano é um preceito. Duvidar do que ultrapassa a humanidade é um princípio. E, porque estamos em maré em que todos vão, se não for pela Fé porque respeitam, quero deixar aqui bem claro que a minha opinião, as palavras como a expresso, as razões que me assistem, a minha humanidade livre de divindades, a minha vida limitada aquém da morte, também merecem respeito.

E, quando alguém diz: 
- Está provado, mais que provado, a Nossa Senhora desceu dos Céus, apareceu a três crianças e  o Sol dançou o fandango! 
Eu posso responder-lhe:
- Vai dar uma volta! Isso é uma história muito mal contada! É tudo uma treta!
E, se me disserem que lhes estou com considerações dessas a faltar-lhes ao respeito, eu posso dizer-lhes que não me estão a respeitar por não respeitarem as minhas considerações! É o chamado respeito recíproco!

Bom caminho e peçam aos novos santos que não chova que eles vão com certeza atender-vos.--

terça-feira, 9 de maio de 2017

Que os coletes verdes os salvem

Desde que me dei aos estudos que ganhei esta mania académica de classificar. Hoje apetece-me classificar os portugueses entre os que vão a Fátima e os que não vão a Fátima. De entre os que vão a Fátima, vou subdividi-los entre os que vão de carro e os que vão a pé.


Os que vão a pé vão já quase todos de colete verde, uma peça de vestuário tão característica dos tempos que vivemos como o colete encarnado do campino de outros tempos.
Ir a Fátima a pé é uma nova forma de religiosidade que, na Fé do crente, redime o absentismo pelas práticas tradicionais do ir à missa ao Domingo e à confissão, por outras palavras, de andar à volta das saias do padre.

Fátima, à volta da Imagem da Senhora, tem-se “vaticanizado” e transformado numa sucursal da Praça de S.Pedro onde os leigos, cada vez mais pecadores, se ajoelham aos gestos do secular clero. Mas os padres de Fátima nunca foram bons anfitriões do peregrino pedestre e a hotelaria local nunca lhe suportou o chulé. E, no entanto, ambas as partes, os toleram e reconhecem com um dos dentes da chave do negócio.

Vêm estes parágrafos, aparentemente inconsequentes à razão, pelas razões que me atravessam a revolta quando vejo tanta gente caminhar perigosamente pelas estradas, respeitosamente pela Fé, incompreensivelmente sem um mínimo de atenção ou consideração pela parte das autoridades religiosas ou civis. Todo o apoio que encontram pelo caminho, nasce da iniciativa de organizações ou movimentos que nada têm a ver com os cofres ou com os lucros com que o negócio-milagre tão bem se alimenta.

Reconhece-se que o peregrino de Fátima, português, caminha, antes de mais nada, por penitência, que dispensa o conforto e tem Fé que do perigo a Sua Senhora o livrará. Mas não seria a altura, agora que a indumentária refletora esconde o pobre Portugal do século XX, dos chefes da Igreja e da política terem uma pequena consideração por esta gente?!

Caminhos e trilhos que os desviassem do asfalto sem bermas para peões, parques e albergues que lhes permitissem dignas paragens e, se mais não fosse, apenas isto: um parque de campismo e balneários na pequena cidade-fenómeno. Mas não, a Igreja reverteu todas as esmolas para a maior obra de culto que fez em Portugal desde o Convento de Mafra: a nova basílica. Não foi feita para o “pé de ténis chineses” de quem chega a pé, foi feita para os japoneses, brasileiros e portugueses que vem com os pés limpos das alcatifas dos modernos meios de transporte, que melhor servem os  interesses do turismo religioso.

Nestes dias entre os automóveis veem-se muitas tendas e coberturas de plástico. Ao menos um parque de campismo! Nunca ninguém se lembrou!? Parece incrível!...


sábado, 6 de maio de 2017

A verdade sobre o milagre de Fátima

Transcrevo este texto com a primeira intenção de o registar no ciberespaço como documento histórico, na certeza de que não será fácil aos investigadores ter outros acessos ao mesmo.



Trata-se dum testemunho de Artur de Oliveira Santos, Administrador do Concelho de Ourém à época das aparições e, nessa condição, protagonista da história de Fátima. Nele o autor manifesta sentir-se injustiçado e ferido na sua honra pela personagem que a partir do seu nome foi criada para fantasiar a história de Fátima. 

Depois do Relatório que dirigiu ao Governo Civil de Santarém em 1924, Artur de Oliveira Santos teve um percurso que passou pela prisão, pelo exílio em Espanha, durante a Guerra Civil, e só depois, quando regressado a Portugal, terá sentido mais intensamente a história que se estava a construir e que o apontava como o ator que tinha o papel de "mau da fita".

Terá sido esse facto que o levou a redigir este texto que veio parar à minhas mãos pela mão de pessoa amiga, amiga de Artur de Oliveira Santos, que com ele privou e com a família. Porventura, como forma de reconhecimento à abordagem que aqui tem sido feita a propósito da questão de Fátima, entregou-me fotocópia dum texto dactilografado pelo autor que, segundo pensa, terá sido publicado no jornal "A República" de 20/07/1951, na forma que aqui se deixa ou eventualmente noutra, fruto de correções posteriores que o ofendido tenha entendido, por bem, fazer.

A VERDADE SOBRE O MILAGRE DE FÁTIMA

Há um facto, que tanto e tão injustamente tem sido tratado, para pretenderem ferir a honra de um homem cujo defeito, para determinadas pessoas, é o de não servir nem prestar-se a ser instrumento das mais asquerosas mentiras, e que vem agora à superfície. A Deus o que é de Deus, a César o que é de César.

Em 13 de Agosto de 1917 fui a Aljustrel, um lugar a poucos quilómetros da freguesia de Fátima, com o objectivo de acabar com uma especulação que em volta do chamado milagre de Fátima se estava realizando. Ao tempo a Igreja não tinha intervenção no assunto. Acompanhado do Oficial da Administração do Concelho, Cândido Jorge Alho e de João Lopes, condutor de uma charrete puxada por um cavalo, seguimos para a referida povoação, onde habitavam o Francisco e a Jacinta, além de Lúcia dos Santos. Ali se encontravam seminaristas e padres, e um destes, que disse chamar-se João, do Concelho de Porto de Mós, interrogou a meu pedido as criancinhas.

A Lúcia dizia ter-lhe aparecido a Santa na Cova de Iria, o Francisco e a Jacinta limitaram-se a dizer que a Lúcia é que sabia, eles não tinham visto nada, O pai de Lúcia, o Abóbora por alcunha, dizia que a filha era uma intrujona. Os pais do Francisco e da Jacinta conservavam-se em dúvida. Consegui que os pais das crianças e o padre João, sem ameaças de nenhuma espécie, antes tratados com toda a benovolência, me acompanhassem a Fátima, a casa do Prior da Freguesia, para ali serem interrogados pelo mesmo, Padre Manuel Marques Ferreira.

Nada tinha combinado com o prior antecipadamente, nem tão pouco ele combinou nada comigo, durante a minha permanência e a das crianças, na residência paroquial.

O pároco, que não acreditava no que Lúcia dizia, interrogou as três crianças a meu pedido e nada adiantaram do que já tinham dito ao padre que dizia chamar-se João.

A minha intenção era trazer as crianças por meios suasórios para minha casa, como na madrugada de 13 (treze) de Outubro eu tinha dito ao Tenente, comandante da força da G.N.R., e nunca por meios violentos. E assim sucedeu, como é do conhecimento imparcial e honrada da população.

Vieram as crianças para minha casa, onde foram recebidas e tratadas como se fossem da minha família, durante dois dias que lá estiveram. Assistiram a uma procissão, que se realizou no dia 13, a qual foi por mim autorizada, à sombra do Artigo 57º., da Lei da Separação, como foram autorizadas todas as outras em todo o concelho, durante o tempo em que exerci o cargo do administrador do concelho, sem que houvesse a mais pequena nota discordante.

Brincaram as crianças de Fátima com os meus filhos e outros rapazes durante os dois dias, tendo sido visitadas por bastantes pessoas, algumas delas de categoria social, como o comandante da força, Dr. António Rodrigues de Oliveira. No largo da Louça haviam aparecido dezenas de pessoas que lhe queriam falar, o que recusei por serem muitas, com excepção de uma mulher que encontrei no Largo e que me pediu por todos os santos e santas, para só as deixar ver. Tive de transigir. Na noite do dia 13, estiveram às janelas da moradia do falecido Augusto Monteiro Batalha e da sua esposa, Srª.D. Virginia Nicolau, felizmente ainda hoje viva.

O que é falso, falsíssimo, é eu ter ameaçado ou intimidado as crianças ou terem estado presas, incomunicáveis ou sofrerem a mais pequena pressão ou violência, como pode ser testemunhado pela própria família e por toda a população séria e honrada, de todos os credos políticos e religiosos da minha terra.

O pai de Jacinta e Francisco, esteve na Administração do Concelho, ali chamado para levar os filhos, o que não fez, limitando-se a dar-lhes uma reprimenda. Compareceu também o pai de Lúcia, António dos Santos, por alcunha o Abóbora, com a filha Lúcia dos Santos.

Interroguei-a sobre a Santa e continuou a afirmar tê-la visto numa azinheira. Caía porém em contradições e, tendo ouvido a opinião de dois médicos sobre a estranha afirmação, que se pronunciaram ser ela uma doente, perguntei ao Abóbora o que dizia ele a respeito da filha. Resposta teatral: - O Senhor Administrador, não acredite nela porque é uma grande intrujona!

Retiraram no mesmo dia à tarde para suas casas e só no dia 13, se passou o que atraz me refiro, indo eu na mesma charrette com o João Lopes e o Oficial da Administração, Cândido Jorge Alho.

Deixei as crianças em casa do Prior da Freguesia, Rev. Manuel Marques Ferreira, no dia 14 de Agosto à saída da missa. No largo da Igreja foram as crianças abordadas por inúmeras pessoas, que lhes perguntavam o que lhes tinha acontecido. Havia uma certa hostilidade contra a Autoridade Administrativa e também contra o Pároco da freguesia a quem o povo acusava de ser conivente na ida das crianças para Ourém, mas tudo se desanuviou, afirmando eu na varanda da casa de residência do Prior, ao povo, que o Prior de nada sabia, ao mesmo tempo que as crianças abordadas por inúmeras pessoas, diziam que tinham sido bem tratadas. Mandei seguir o cocheiro com a charrette e o Oficial da Administração para Ourém e fiquei em Fátima, donde à tarde regressei num carro dum amigo particular.

O resto são calúnias, infâmias, ditas por aqueles que, propositadamente para encobrirem as suas mazelas, se lembram das espalhar, para fins de predomínio e de exploração, que brandam aos Céus!

Respeitei sempre e respeito as ideias dos meus adversários, para que respeitem também os meus ideais.

Tenho a subida honra de contar amigos em todos os campos, como também tenho inimigos implacáveis, uns que conheço bem, outros que se acobertam no anonimato indigno. O que é extraordinário é que - apesar de tantas acusações que me são feitas, até agora o meu certificado  de registo criminal apareça limpo - e isso não acontece a certas pessoas que pretendem atacar-me.

Em Espanha, durante o tempo do meu exílio voluntário, defendi sempre, como soube, o nome de Portugal, e mesmo honrá-lo, nunca tomando parte em manifestações contrárias ao nosso brio nacional. Tenho as mãos limpas de sangue ou de roubos, como eu disse ao cônsul de Portugal, Sr. Xara Brazil, que teve a confirmação da minhas afirmações, e também o prazer de avaliar que nenhuma acusação da polícia me era desfavorável.
Por isso pude vir livremente para Portugal. Senão, não tinham agora os meus acusadores o trabalho e a desfaçatez de me atacarem com tal fúria e de maneira tão caluniosa.

Estive a trabalhar nos hospitais, no período da guerra, como vigilante e encarregado de dispensas e armazém. No hospital de S.João de Deus, em Madrid, consegui guardar quadros de valor artístico, histórico e religioso, de uma turbamulta que tudo destruía. Isto pode ser confirmado pelos médicos, enfermeiras, e até pelas próprias freiras.

Quanto ao procedimento e à maneira como cumpri os meus deveres, indico as seguintes testemunhas: Padre Rafael Fernandes, cura de Chamartin; tenente coronel D. Luis Muñoz Balcasar; D. Alejandro Canis, ilustre professor; Srª D. Luisa Maria Lopes Ochôa, chefe de pessoal do hospital, filha do general Lopes Ovhôa; dr Carvajal, chefe da Direcção Geral de Seguridad, e mais de trinta ou quarenta falangistas, cujos nomes posso indicar.


sexta-feira, 5 de maio de 2017

O meu pai assistiu ao 13 de outubro, mas não viu nada

Excerto da Entrevista de Sérgio Ribeiro ao Diário de Notícias de hoje, 5/05/2017. 
O único comentário que me autorizo a fazer é: "nas barbas de Fátima".

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Nessa sua infância e juventude aqui, a meia dúzia de quilómetros da Cova da Iria, o fenómeno Fátima era muito presente em toda a gente...ou não?
Não. Eu sinto-o quando vejo passar os peregrinos, claro. Mas veja: eu nunca conversei sobre Fátima com os meus vizinhos. Sei que Fátima tem uma influência muito grande, mas não de forma direta. O meu pai tinha 19 anos e assistiu ao 13 de outubro ["milagre do sol"].

Foi lá, à Cova da Iria?
Sim, foi. O meu pai será o maior responsável pela minha posição em relação a Fátima. É uma versão contraditória da que vingou. O meu pai era comerciante em Lisboa, tinha muitos amigos. Alguns deles nos anos 40 e 50 vinham cá, dormiam cá em casa. Ele não era crente, era agnóstico. Sobretudo anticlerical. Batizou-me, só. Quando eu lhe fazia perguntas, com a curiosidade de miúdo, ele dava-me esta explicação: "Eu fui lá ver o que se passava. E não vi nada! Ou por outra: vi coisas que achei naturais."Até fazia comigo esta experiência (das poucas vezes em que falámos do assunto) - "pega numa imagem qualquer, olha para isto fixamente durante uns minutos, olha para o céu, e vês a imagem refletida".

E foi o que lhe aconteceu?
Sim. Isto no meio de uma massa de gente cria uma ilusão coletiva. Agora chama-se visão, como diz bem numa entrevista recente o D. Carlos Azevedo. Mas isso é contraditório! Como é que se explica que a partir de uma visão se canonize duas crianças? Como é que o D. Carlos Azevedo, por uma questão de rigor de linguagem - para evitar o ridículo - pactua com o ridículo da canonização de duas crianças que foram induzidas a ter visões pela prima mais velha...que era uma visionária.

Mas qual é a sua versão sobre os acontecimentos de Fátima?
Acho que é claríssima a evolução histórica de Fátima. Começou por ser reticente a aceitação da mãe de Lúcia, da Igreja, dos padres. A Igreja não deu aval durante muitos anos. Mas em contrapartida ia comprando terrenos à volta... a tese de Luís Filipe Torgal é claríssima, por ser comprovável. É um estudo histórico e científico. A Igreja ia mantendo as suas dúvidas, teve como grande estratega o padre Manuel Formigão...e numa primeira fase é reticente, muito no registo "se isto der... logo se vê. Se não der, não estamos comprometidos".

Foi próximo do administrador do concelho da época, Artur de Oliveira Santos. Que relação tinha com ele?
Havia uma revista que se publicava em Portugal - Seleções de Reader"s Digest - que tinha uma secção chamada "O meu tipo inesquecível". Se eu tivesse que escolher um tipo inesquecível para mim era o senhor Artur de Oliveira Santos, um amigo excecional. Era um homem de raiz operária. Depois era um homem culto, da propaganda republicana. E era um ativista político. A sua atitude era política.

E foi o administrador do concelho de Ourém naquela altura...
E é um dos grandes responsáveis por Fátima ter vingado. Porque se ele no dia 13 de agosto não tivesse ido buscar os miúdos, talvez as coisas fossem diferentes. Ele foi buscá-los para casa dele, tratou-os exatamente como tratava os filhos, que conheci muito bem. Era um homem excecional de bonomia, de bondade, mas de intervenção. Não fora isso, havia menos um argumento contra a República. Dou-lhe um exemplo: eu miúdo, no final da guerra, já voltado para as questões políticas, fui com o meu pai ao Cinema São Jorge, em Lisboa, ver um filme americano sobre Fátima, em que dão o retrato do Artur como um facínora.

Ainda hoje prevalece um pouco essa imagem...

Ou que é feita prevalecer. Isso é das coisas que me indigna. E é uma das minhas batalhas. Nesse dia, vejo o meu pai levantar-se e a gritar "é mentira!". Isto no tempo do fascismo... na fase política de Fátima. Depois de a Igreja começar a aceitar, Fátima foi muito bem aproveitada pelo Estado Novo, naquele "casamento" Salazar-Cerejeira.
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