sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Primeiro lançamento do bácoro

Servos, nobres e fidalgos, o King não abdica da sua soberania. Este blogue só fechará as suas janelas por desaparecimento do seu monarca ou por abandono do seu último súbdito.

Bem sei que a blogsfera, e em particular o Rei dos Leittões, já conheceu melhores dias. Já lá vão dez anos a postar bacoradas, 1213 postes, 223369 visualizações. Longe vão os tempos em que as 200 visitas por dia me motivavam. Ontem mesmo, as estatísticas anotavam 37, o que, atendendo à quase ausência de publicações recentes, não deixa de ser melhor que 7.

Não é a primeira vez que faço a comparação de "comércio tradicional e centros comerciais" com "blogosfera e facebook". Até eu me rendi aos supermercados e, fora deles, já só compro praticamente, a carne, a fruta, o remédio para os ratos, as torneiras e a roupa interior. E o que são a carne, a fruta, o remédio para os ratos, as torneiras e a roupa interior da blogosfera? Deixo à vossa consideração a descoberta dos paralelismos.
Da minha parte continuarei com a tasca aberta, a mercearia, a drogaria ou o que lhe queiram chamar e continuarei a visitar blogues velhos-amigos e outros de referência.

Reconheço que, por troco de não deixar rasto de comentários no meu circuito blogosférico familiar, também já só por aqui andam meia dúzia de comentadores assíduos. Serão apenas esses os leitores prováveis deste texto no ponto em que ele vai - é justo!

Mas é a esses que este poste se dirige. Uma palavra especial a alguns que andam por aqui quase há uma década, que não conheço pessoalmente, nem sequer uma foto, um nome próprio ou o concelho de residência. Foi com eles que um certo mês de 2006, por uma razão que não consigo definir exatamente, este sítio começou a fazer parte duma blogosfera anónima que fazia furor contra Sócrates e os seus acólitos, que trocava ideias, que conspirava, que se constituía como a primeira verdadeira rede social do espaço cibernético.

Depois foram vindo outros e até amizades que, por esta via, se transpuseram para a vida "real". Enfim, esse tempo lá vai.

Chegou agora o tempo de responder a todos os que foram deixando na caixa de comentários a mensagem "devias pôr isto em livro!", a todos os amigos mais próximos que me têm azucrinado a cabeça com a sugestão atrevida "devias escrever um livro!".

Fui sempre renitente porque sou avesso à exposição pública, porque sempre achei ridícula a mania que todas as pessoas têm que a sua vida dá um livro, porque sempre distingui o jazz e a música clássica do punk rock e da música pimba. 
Não sei dizer se isto é punk ou foleirice, apenas reconheço que foi fácil:
seleccionei uns textos aqui escritos, juntei-os, falei a alguém para fazer a capa e a paginação, fez-se livro e foi agora publicado. 

Não será, portanto, nenhuma obra do vosso interesse porque tudo o que lá está por aqui está também e, porventura, já o lestes. Fica aqui apenas o registo porque, como companheiros destas andanças, entendi dever-vos a informação.



O primeiro lançamento do bácoro realizou-se ontem, no café Camões da terra onde resido, com porto à mesa e uma troca de palavras circunstanciais. Não estava muita gente, era só eu e um amigo. Eu paguei o porto e ele esqueceu-se - só pode ter sido esquecimento! - de pagar o livro.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

meados sem gosto em meados de agosto

versos que não o são

o vento sopra versos.
a água corre em verso.
o mar traz uma onda de versos.
um incêndio é o inverso dum verso.

o berbequim do meu vizinho faz rimas.
- se não puseste as meias no cesto da roupa, antes as calçasses!
- se querias viver sozinha não te casasses!
o sofá tem manchas de versos e de lágrimas.

procuro um óvulo para fecundar um poema.
ao menos o número de linhas dum soneto!
agosto está sem gosto e não me toma.

tomava um copo de rimas com palheto!
o sol bateu-me e fez-me um hematoma.
pra quê escrever quando escorrega o tema?

sábado, 9 de julho de 2016

O dono da cerejeira

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À parte meia dúzia de carvalhos centenários, a cerejeira era a árvore mais imponente da aldeia. Ainda por cima, por casualidade, era a única da espécie no povoado, o que fazia dela uma atração - toda  a gente gosta muito de cerejas.

O dono da cerejeira era um homem seco, rijo e frio, feio, magro e alto, de poucas falas e poucos amigos, de barba de dias exceptuando aqueles em que a fazia, remendado dos fundilhos aos joelhos, chapéu desabado e queimado do sol, para quem não havia domingo, casado com mulher que com ele condizia e de filhos já partidos para paragens melhores.

Para além dos talhões que tinham à porta e que davam para a sopa, outro rendimento não tinham senão o dos tremoços que a mulher vendia à saída da missa e o do trabalho do homem, seco, rijo e frio, que era a quem se falava para abrir um poço. Trabalho duro e sazonal para que nasceu talhada a figura, capaz de aguentar horas no fundo do buraco, cavando, cavando e enchendo o caldeiro, solitário e ao fresco, lançando apenas as palavras necessárias para a luz cá de cima onde teriam de estar outros dois ao sarilho. E pronto, as cerejas, vendidas como os tremoços à saída da missa, também davam algum - toda  a gente gosta muito de cerejas e aquela cerejeira dava cerejas para roubar e vender!

Os mais velhos, de dezasseis, dezanove ou mais, faziam os assaltos com algum profissionalismo, iam em bando já noite avançada, ficaria alguém à porta do dono para dar o alarme se o homem-fera ou a megera dessem sinais de acordar, outro alguém no caminho que levava a cerejeira, mais dois ou três junto ao tronco enquanto os demais subiam à árvore e faziam a colheita.

Mas nós, de doze ou catorze, com horas de recolher, teve de ser mais cedo, e era a primeira, foi de entrar a matar. Silenciosos, é certo, mas sem outros cuidados, descalçámo-nos para subir a árvore, primeiro o tronco e depois, espalhados pelos ramos, macaquinhos, macacões, comíamos as cerejas que vinham dar às mãos, ninguém levara saco, tratava-se de consumo imediato.

Eis senão quando a voz do dono se fez ouvir cá em baixo, primeiro alto, depois só resmungando, palavras impercetíveis que nos fizeram tremer os pés descalços. Por intuição animal, camuflámo-nos, quietinhos, caladinhos, cada um juntando o seu tronco ao tronco que empoleirava para que, com a ajuda da noite, o homem não identificasse vivalma. 

Ao fim de alguns minutos de resmunguice e de rodeios no terreiro da copa, a fera retirou-se e sentimos a porta da sua casa a bater. Foi-se embora?! Perguntámos baixinho e permanecemos imóveis durante um tempo, não voltasse ele armado para nos correr à pedrada, à paulada ou até à caçadeira! O mau génio daquele homem era um risco o que, por contradições da natureza humana, aguçava mais o desafio e a vontade de o roubar e tornava ainda mais apetitosas as cerejas.

Não voltou. Cumprido o tempo de segurança, descemos um a um com a digestão interrompida, e com os pés na terra demos por nós vencidos. Tamancos? Chinelos? Sapatos? Sapatilhas? Viste-los! O Torto, que era pé descalço, era o único que ria!

Não havia maneira de no dia seguinte, em cada lar, cada um contar senão a verdade! Mesmo que um inventasse uma mentira convincente, não se conseguiria enganar tanta mãe junta, elas falariam umas com as outras e a alhada viria sempre ao de cima.

Comigo foi assim.
- Antes que o teu pai saiba, vais já comigo por aqui abaixo a casa do ti Manel!... A partir de hoje, à noite só para as descamisadas!... 
 E lá fui eu puxado pelo braço, a tentar acompanhar o passo da mãe educadora, com um puxão mais violento cada vez que tentava a minha defesa com argumentos como o de "roubar para comer não é pecado", "não fui só eu", só comi pra aí meia dúzia"...
- Garanto-te que se ele não te der os sapatos vais começar a andar descalço como o Torto!
...
- Manel! Peço-te perdão por este desgraçado! Manel sabes como é a canalha! Manel ando aqui com uma dor há meses e nem dinheiro tenho para ir ao doutor Teixeira! Manel o meu homem também está a pensar em ir para França e depois havemos de fazer um poço! Manel este gatuno, ainda hoje o vou obrigar a ir à confissão!.... Dá-lhe os sapatos Manel e diz-me quando precisares que eu venho um dia para o teu sacho sem ter de ser à troca!...

Seco, rijo e frio, tirava água a balanço para a horta, sem nunca tirar os olhos do poço, do balde e do regueiro mas, quando a minha mãe parou com a ladainha, atirou seco, rijo e frio.
- Ele que vá confessar-se mas quem lhe dá a penitência sou eu! Ele que agarre em dois baldes que estão ao pé da cerejeira, que suba a ela e que os encha! Quando os tiver cheios venha aqui ter comigo e pode ir para casa calçado!

Se bem me lembro, creio que os outros companheiros recompraram o seu calçado. Eu fiquei honrado de ter tido tratamento diferenciado e passei a admirar mais o Torto e a minha mãe porque não me obrigou a ir à confissão!

Nota: Sei que ficaria bem na história contar que continuo a gostar muito de cerejas. Acontece que ainda o Cavaco desgraçava o país como primeiro ministro, ouviu-o declarar que gostava muito de cerejas e que muitos dos seus admiradores lhe enviavam caixotes de cerejas - continuei a gostar de cerejas mas nunca voltaram a ter o mesmo gosto!

domingo, 5 de junho de 2016

Para que serve o Correio da Manhã


O leitor, que gosta de ler - caso contrário não estaria neste momento a ler esta crónica menor - que lê compulsivamente, de tal forma que, quando na sanita, não tendo mais nada à mão, lê rótulos de sabonetes e livros de instruções de máquinas de barbear; 
O leitor que, por  se dar a ler este cronista menor, deve ser de geração próxima e, tal como ele, já deve viver atado por arames, com colesterol alto, tensão alta, fígado gordo, dores nas costas, intestino irritado, próteses dentárias, ouvido direito, pouco, óculos progressivos. 
O leitor já deve ser experiente em horas de espera em consultórios médicos. A gente entra, dirige-se ao balcão - o doutor hoje está atrasado! Senta-se numa cadeira de plástico desconfortável e começa a olhar para a mesinha que tem revistas. Uma é da ordem dos especialistas do ramo, outra é do anuário duma grande farmacêutica, outra duma instituição de toxicodependentes, com sorte encontrará uma revista do ano passado que um paciente, como nós, ali deixou por esquecimento. A gente paga quarenta, oitenta, cem euros de consulta, mas não há atenção orçamental para uma revista da semana, um jornal diário ou um diário do Torga! E o doutor, claro, é bom, tem tempo de espera! Olha se fosse no Centro de Saúde! Já estaria meia  sala a rogar pragas às funcionárias, aos médicos e ao estado! Mas ali não! A gente paga bem! O médico é bom! Tem de se esperar e bufar pouco!
E foi assim que fui para ao consultório de doutor Serra das Neves, neurologista, 1º esq, dizia a tabuleta de acrílico na entrada do prédio! É o melhor de Coimbra! Assegurou-me a minha cunhada. E é muito atencioso! Muito acessível! A gente fala com ele, ele entende-nos e nós entende-mo-lo! Fala assim como nós! Até diz umas cachaporras se for preciso!
O médico era diferente sim senhor! Além das literaturas já contadas tinha também um diário da casa, via-se que o era pela abundância de edições pousadas pela sala. E adivinhem que diário era? O Correio da Manhã! Pois claro! Um médico que escolhe o Correio da Manhã para entreter os seus pacientes, não é um varre merdas qualquer!
E assim entrei eu, ao fim de três horas e meia de espera, às oito já passadas.
- Feche a porta!
Mexia em papéis com uma facilidade incomparável com que arrastava o rato do computador!
- Então diga lá senhor João o que o traz por cá!
- Ó senhor doutor eu ando todo abrasado!
- A falar assim, pelos vistos anda!
- Como assim doutor?!
- Ó homem, não utilize essa linguagem arcaica! Diga "estou todo fodido!"
E lá começou a minha primeira e última consulta de neurologia, com o registo do histórico da minha ascendência: Pai morreu com que idade? Mãe foi mãe aos quantos? Avô tinha algum defeito? Avó era baixa ou alta? Primeira relação sexual? Primeiro filho? Quando começou a sentir-se assim?!
- Assim como, doutor?!
- Ah isso não é nada! Tenha calma! Isto da neurologia tem muito a ver com os nervos da pessoa! O senhor bebe?!
- Um copito de tinto senhor doutor!
- Então olhe, quando se sentir enervado, beba um bom brandy! Isso acalma!
E, assim, saí  em direção ao guichet para puxar pelos cem euros!
- Diga-me menina, quantos doentes o senhor doutor já atendeu hoje?!
- Mais duma dúzia! Porquê?
- Mais de mil e duzentos euros! A menina ganha o ordenado mínimo?
- O senhor não está bom!
- Ora menina! Se estivesse bom não estaria aqui! Posso levar o Correio da Manhã de ontem?
- Tenho de perguntar ao doutor! Para que o quer?
- Logo vi que a menina era esperta! Diga-lhe só que não é para ler! Como não uso a linguagem dele, diga-lhe apenas que o levo porque o papel higiénico está caro!... E, dito isto, desci ao rés do chão, entrei no café e bebi um brandy!

sábado, 28 de maio de 2016

Quando a direita vem à rua...

No Brasil, o poder da TV afrontou a democracia. Ao mesmo tempo que uma parte da classe política corrupta conspirava nos corredores levando a cabo o golpe, ao mesmo tempo que os mais favorecidos, perdendo favorecimento em resultado da aplicação de políticas de distribuição de riqueza, se manifestavam em faustosas manifestações de avenida, obrigando amas e usando as suas crias para encher as câmaras, a televisão brasileira, tomando o partido dos seus donos, aplicava descarada e porcamente as técnicas de informação e desinformação, no que era seguida jumentamente pelas televisões portuguesas. Bem sabiam que a informação alternativa não chegaria para lhes fazer frente porque a opinião pública que conta só vê telejornais e manchetes de jornais.

E assim, se inculcou na superfície das massas a ideia generalizada de que a crise do Brasil era um caso de corrupção generalizada ao nível do governo, combatida por gente limpa com direito ao poder e apoiada pelo povo brasileiro.

Com o mal feito e a destituição praticamente concretizada, os media, percecionando a sua desacreditação, começaram gradualmente a virar o bico ao prego e, afinal as coisas já não são bem assim... e começaram até a passar imagens tímidas de manifestações em defesa dos democraticamente eleitos.

Feitos os estragos, ficarão as imagens de camisolas amarelas vestidas por gente de bem, num país onde tanta gente vive mal, fazendo declarações de raiva em terras de samba, empunhando temores de demónios comunistas aonde ainda há tribos comunitárias. De lição servirá que a direita, quando se manifesta, pode não ser tão autêntica como a esquerda mas pode ser mais eficiente.

Tão eficiente que o estímulo e a receita atravessaram o oceano e vieram para cá. Nem se deram ao luxo de mudar a cor das camisolas.
A pretexto do que era somente a determinação de fazer cumprir uma lei, assanharam as unhas das suas ideologias que deram como mortas e ressuscitaram-nas.
Diremos nós, de ideologia viva: "Bem vindos! É isso mesmo! A questão é ideológica!". Aceitaremos até, para marcar divisões, que também os  pregadores dos jornais televisivos vistam farda amarela ilustrando as notícias do assunto. Desprezaremos o facto de alguns amarelos tenderem para os laranjas que é cor base do partido cuja base ideológica nega a ideologia.
Mas do que se trata meus senhores, o que leva as televisões a dedicarem horas a manifestações de centenas de pessoas quando se apressam a esquecer multidões de milhares, é que os porta vozes e os pais e as mães das crianças que arrastam pelas mãos, são da sua direita!
E olhem o Brasil! Quando a direita se manifesta não é por haver liberdade nem democracia, é porque não as toleram!
Cuidado com as camisolas amarelas, vejam a facilidade com que os media tomam a sua cor, a forma como manuseiam a mentira, a falta de princípios com que usam as crianças. Vale tudo, nem que seja o 13 de maio.
Fotografia que anda por aí!

terça-feira, 17 de maio de 2016

Só fumo por razões políticas


A nova lei do tabaco pode, à primeira vista, parecer apenas mais um lei, um assunto menor que apenas diz respeito aos fumadores, apenas mais um entretem para nos distrair do essencial. Mas não! Estas abordagens sucessivas a questões aparentemente secundárias são, muitas vezes, demonstrativas da natureza hipócrita dos seus autores, do desrespeito que têm pelos cidadãos e da crueldade, que rudemente surge, quando se descobre um ceguinho em quem bater.

Como fumador, posso ser considerado um doente, um desrespeitador ou um irresponsável, mas estes senhores legisladores são o quê?! Lembrarem-se, depois de tantas medidas políticas, de colocar nos maços de tabaco imagens de cancros, de moribundos e caixões, só pode ser ideia de gente doente. Também eles são doentes e, as suas razões, são de tal modo (in)fundamentadas que chegam a usar o argumento mais estúpido que se pode arranjar: "nos Estados Unidos já é assim!".

Numa sociedade saudável, como a que eles ideologicamente querem decretar, surgirá entretanto um imposto sobre o sal e sobre o açúcar e nos rótulos das embalagens destes ver-se-ão também caixões. E já agora também nos rótulos das garrafas de vinho, da cerveja e do toucinho! E porque não, colocarem caixões ao longo das bermas das estradas para o pessoal moderar a velocidade?!
Se o objetivo é fazer com que nos sintamos culpados, andemos tristes e com o pensamento na hora da nossa morte, vós, ó homens com tanto poder que até o tendes para decidir as imagens dos rótulos das embalagens, já o conseguistes: este país está em vias de tornar-se num gigantesco caixão!

É preciso viver continuamente com o medo da morte certa. Qualquer coisa que entre pela goela abaixo é sempre uma das principais causas duma doença, doença essa que figura entre as principais causas de morte. São as notícias nossas de cada dia. Mas em verdade, em verdade vos digo, virá um dia uma epidemia de cujo vírus só se salvarão os fumadores!

Já chateia esta obsessão com o tabaco porra! Faz mal, provoca doenças, provoca cancro? Cabe a cada um decidir dentro da sua liberdade!
Não se pode fumar em determinados locais? Certo! Mas não venham a seguir com a proibição de fumar onde o ar é livre, enquanto não taparem todos os escapes e chaminés da atmosfera pública!
O tratamento de pacientes com doenças que comprovadamente advêm do hábito ou vício de fumar é pago por todos? Então e onde aplicam os faustosas receitas dos impostos sobre esta droga? Então e se um tipo morre mais cedo, já viram o que se poupa em reformas e pensões?  Então e aqueles que sofrem porque abusaram do sal, do açucar ou porque não respeitaram um sinal de trânsito?

Mas pronto! Ai de quem conteste! Está visto que enquanto a pele não romper, a maceta não vai parar de bater no bombo do fumador! A seguir virá a proibição de puxar por um maço de cigarros em público porque as imagens da embalagem podem traumatizar as crianças!
E, sempre que estiver em cima da mesa tomar medidas para equilibrar as contas públicas, haverá sempre um político idiota que levantará o seu braço luminoso:
- Tive uma ideia! Aumentamos o imposto sobre o tabaco!

E eu, que ando há tanto tempo para deixar de fumar, lá terei de puxar por mais um cigarro como forma de protesto! 

sábado, 7 de maio de 2016

Escolas, colégios e águas de bacalhau


De que lado estão os media no debate que se coloca sobre o cumprimento dos contratos de associação com os colégios privados? As reportagens não deixam dúvidas!
Em primeiro lugar, ai da direção duma escola pública que ousasse instrumentalizar os seus alunos, indo-os buscar às salas de aulas para manifestações de “televisão ver”! O Carmo e a Trindade chegariam ao Lumiar e a Carnaxide! 
Em segundo lugar, a areia dos títulos e dos comentários tem deitado aos olhos a ideia falsa de que o que está em causa é o fim dos contratos de associação com os colégios, quando a informação – obrigação primeira de quem faz as notícias – deveria ser que existem colégios que, com os financiamentos que lhe são prestados para prestarem serviços na área da sua rede, vão recrutar “clientes” a zonas exteriores, com carreiras de transporte que não são permitidas a qualquer escola pública; que  outros  casos serão de empresas-negócio da área da educação que, por portas travessas e conluios políticos conseguiram contratos em espaços sobrepostos com escolas públicas, concorrendo com elas com operações de marketing, liberdade de gestão financeira e desregulação laboral que às públicas – e bem! – são vedadas.
Em terceiro lugar, contrariamente à imagem que os media não se cansam de passar, a qualidade não é propriedade privada e o desemprego dos professores não é público nem é privado – é desemprego! Não é necessário despedir professores. Os professores do ensino privado sabem bem que trabalham muito mais horas letivas do que aquelas que lhes permitiriam prestar um ensino de qualidade e existem também muitos professores do ensino público, desempregados, que são necessários ao ensino para elevar a sua qualidade.
E não há três sem quatro, os media de opinião deveriam ir além do senso comum, quando replicam as falácias de que “cada um deve poder escolher a escola que quer para os seus filhos”, ” do que não interessa se é privado ou púbico, o que é preciso é serviço” ou de que – no que há contas para todos os gostos – de que “o ensino privado fica mais barato que o ensino público”!…
Contas feitas, e disso estamos todos à espera, é louvável a intenção do governo de apenas, e só apenas, fazer cumprir a lei. Mas a isso, os media fora-da-lei, não têm dado atenção!
Entretanto, a opinião comum nada espera, interesses ocultos, cardeais seculares e manifestantes domésticos negociarão com secretários e as letras da imprensa navegarão em águas de bacalhau! O primeiro ministro ficará com os louros de afrontar os interesses instalados, os proprietários dos colégios agradecerão diante dos crucifixos das suas salas de aula enquanto os pais e professores dos meninos os ensinarão a temer os ideais socialistas da constituição. Todos vamos ficar muito satisfeitos e esquecidos que, afinal, mais uma vez, o arroz não trazia bacalhau. 
Esperemos que não, a ver vamos! Esta é uma oportunidade única para avaliar a relação do governo com a escola pública, o cumprimento da lei e da Constituição da República. Esta é, para muitos, a primeira prova do governo!

sábado, 16 de abril de 2016

Não sabem distinguir um pássaro duma pássara


A comunicação social gosta do Bloco, o Bloco gosta da comunicação social. Existe uma espécie de relação platónica entre ambos. Os agentes do Bloco pescam ideias nas esplanadas dos cafés de Lisboa que têm as câmaras de vigilância diretamente ligadas às redações e faz-se logo luz, notícia, discussão, polémica, tema de conversa; agitam-se as redes sociais - antes as redes sociais do que os mercados! A governança descansa, a oposição limpa as unhas, fazem-se grandes transações e a realidade escapa-se por entre os dedos das massas obreiras.

A comunicação social, o Bloco, as pessoas que discutem estes assuntos, os perfis digitais que os ampliam, partilham uma adjetivação comum, não dita aqui porque é um palavrão. 

Entretanto o Senhor Carlos Costa... deve ser uma pessoa muito competente e séria, caso contrário não teria chegado a Governador do Banco de Portugal! O mesmo se deverá dizer  do Senhor Governador do Banco Central Europeu! Ai se tivesse sido o desgraçado do Cavaco a convidá-lo! Ai a agitação que teria provocado nesta gente! Assim não, veio cá, bolsou e ninguém se agitou! Tudo certo devagar! Palminhas mãos ao ar!...

Embora, aparentemente, também aqui se esteja a bater no caso do género do cartão, a questão aqui não é estar dum lado ou de outro, porque a estupidez não tem lados. Pretende-se apenas recordar que numa guerra a sério, no momento da batalha, não se caçam coelhos nem se atira aos pardais, por muito que se esteja enjoado da ração de combate! Ainda por cima, duvida-se que entre estes soldadinhos haja alguém que saiba distinguir um coelho dum coelha ou um pássaro duma pássara mas, no entanto, vêem sexo nas palavras. 
Mas pronto, vou ter uma recaída e armar-me em engraçadinho: porque não dão ao cartão a designação de Bilhete de Identidade?!

(as palavras podem ser dum sexo ou de outro mas não têm sexo - não há palavras macho nem palavras fêmeas)

domingo, 3 de abril de 2016

Para Angola, rapidamente e em força!


Não nos sai da memória nem do coração o Portugal Ultramarino, a missão católica de civilizar indígenas, o direito histórico que temos sobre povos que trouxemos ao colo e à chapada antes de se tornarem autónomos e, contra nossa vontade, se transformarem em nações para, bem ou mal, andarem pelo seu próprio pé!
Definimos-lhes as fronteiras, oferecemos-lhes alfaiates para os fatos  dos seus chefes e demos-lhes o mote para as suas leis e os seus sistemas judiciais. 

Mas é preciso estarmos vigilantes. Podemos tolerar guerras fratricidas entre eles, o petróleo bruto e sujo que compra meio Portugal, os meninos de Luanda, mas nunca permitiremos que um grupo de jovens pequeno-burgueses seja condenado por, segundo a nossa imprensa completamente séria e independente, ter lido um livro em colectivo.

Sobretudo porque não se passa na Zâmbia, no Quénia ou na Nigéria! Passa-se em Angola um país que se saiba, ainda é um bocadinho nosso!

E então, há que pôr a soberana Assembleia da República, da república tutora, a atirar juízos sobre a decisão judicial do jovem país soberano. Não interessa, portanto, que não se tenha igual zelo para situações bem mais claras de limitações à liberdade de expressão, que se ponha em causa o superior interesse da nação no que toca a relações entre nações, que se esqueça o que se passa dentro da nossa própria casa, Angola ainda é um bocadinho nossa e isso basta.

Esqueçam! Colonos saudosistas! Angola já não é nossa! ACABOU-SE!

Mas pronto, por cá, pode haver diferentes opiniões, estamos num país livre! Mas ai de quem não se levante para condenar, quem não atire pedras à nação adúltera! 

Sabemos que certa esquerda benetton e certo esquerdismo de podoa, mais do que atacar o governo de Angola, os negócios dos sócios do PS/D ou do CDS, se baba de indignação pela esperada serenidade dos comunistas portugueses que, diz-se, só o fazem porque o MPLA paga terreno na Festa do Avante! Conhecemos bem a lista dos convidados do casamento de Isabel dos Santos. Aprendemos que as primaveras árabes, cariocas ou da china, trazem sempre uma ideia engraçada e peregrina: vamos propor um voto!...

Dou-me bem com toda a gente, até com Deus mantenho uma relações bastante satisfatórias, baseadas no princípio da não ingerência nos assuntos internos. Estou solidário com os presos políticos de Angola e de qualquer parte do mundo. Não simpatizo com as oligarquias de poder que se parecem ter formado em muitos países africanos. Com estes media, sei muito pouco do meu país, quanto mais de Angola! Com esta esquerda mediática, sinto-me muito mais sereno com a esquerda silenciada!...

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Nunca minto


Nunca minto! Posso enlear-me nas teias da ficção, encarnar um suíno, ou dizer que navego em águas turvas quando, na verdade, não sou barco nem peixe, mas nunca minto!

Hoje é dia das pessoas se divertirem com mentiras, irreprováveis, porque é dia 1 de abril. E a brincadeira chega até aos noticiários e às manchetes dos jornais!...

Terá graça nos indivíduos de quem nunca se espera uma mentira mas é paradoxal nos média que com arte e engenho nos mentem todos os dias!

E, dito isto, num tempo em que há dias de tudo e para tudo, em que o "dia de" está banalizado, eu não acrescento mais um, mas proponho uma troca, que o dia 1 de abril passe a ser o Dia da Verdade, o dia em que ninguém, nenhum jornal ou televisão mente!

quinta-feira, 31 de março de 2016

Porque o primeiro património do Alentejo são as suas gentes


Por vezes uso uma boina para parecer mais velho e, dessa forma, me dar mais ao respeito. Ninguém me verá na cabeça um boné com publicidade ao Talho do Zé ou com o logotipo duma equipa de futebol americano. Também nunca uso óculos escuros; se o Criador achasse que a luz incomodava a vista, teria dado menos gás ao sol.

Mas elas, ambas, usam ambas as coisas e usam também o telemóvel para tirarem fotografias aos sítios mais que fotografados, às flores mais do que vistas e parece até que acreditam que a tecnologia já permite que o cheiro do ensopado de borrego, que se preparam para comer, chegue aos seus amigos do facebook.  Amigos, esses, que se preocupam muito com o que elas comem, que invejam a distância a que elas estão de casa e que apreciam muito a arte menor de fotografar com o telefone!

E lá entram as duas, muito animadas, pelo pórtico. No interior, hão-de admirar talhas douradas barrocamente iguais, esforçar a literacia para não decifrar nada da inscrição em baixo relevo do túmulo do conde de Arraiolos, quem sabe até trocar as mãos pelos pés para fazer o sinal da cruz frente a um santo do século dezasseis, dizer good morning a um andaluz, muita coisa hão-de fazer no monumento porque quase duas horas se perdem lá por dentro.

O meu filho que usa um chapéu de palha, como aqueles que a avó dele me comprava na feira de maio para cada estio, que o usa por mania e porque, na sua teimosia, advoga ter direito ao seu próprio estilo; o meu filho que tem dificuldades motoras e se mói muito quando pisa calçadas, que não liga patavina às coisas que encantam os turistas e que gosta é de ver passar as turistas bonitas e falar com os mais velhos que são os que melhor o entendem; o meu filho que arrasta as palavras pausadamente e fala um pouco mais alto que o normal, o que acaba por se notar muito  em locais onde se entende que se deve falar mais baixo que o normal, prefere normalmente ficar na rua comigo.

E lá vão elas, de andar leve, com a idade que as distingue, e nós, ele com o chapéu de palha e eu com a boina, ficamos ao largo, procurando um banco corrido de descanso, onde terá de estar já sentado um natural. Topam-se bem os da terra! Pode até não ser pela boina ou pela descontração! Talvez apenas pela maneira como olham ou pela forma com puxam pelo cigarro ou abanam a bengala!

A abordagem é feita assim: o da terra deve estar sentado numa ponta, o meu filho senta-se no meio e eu na outra ponta. 
O meu filho, que tem quase a idade que eu tinha quando o tive, joga muito bem comigo nas chalaças de queimar tempo: tipo, eu observo "olha aquela velha!", ele diz eu "estou a olhar para a nova!"; eu indago, "a tua mãe e a tua irmã devem ter encontrado dois espanhóis!" ele propõe, "e nós devíamos perguntar àquelas duas espanholas que ali estão se querem conhecer dois portugueses!"; eu brinco "lá vie est belle!" e ele, ensinado, completa "mais les femmes dão cabo déle!"; olho pró céu e digo "vai chover" e ele responde "vai tu!".

O companheiro natural que está sentado no mesmo banco, à primeira, olha, à segunda, sorri, e à terceira, ou porque o chapéu do meu filho lhe dá segurança, ou porque a minha boina, quase igual à sua, lhe dá confiança, também manda a sua piada e os três rimos.

Mais à frente há-de perguntar de onde é que somos - perto de Fátima! - que já lá foi ou, "que grande história essa!" e, consoante a devoção ou a opinião, lá iremos desenvolver a conversa e lá saberemos mais de si, da sua terra, dos seus e da visão que têm da história e do valor da igreja para onde elas foram e que, graças ao amigo que encontrámos, já não temos pressa nenhuma de que saiam.

Hão-de sair as duas, mais cultas e com coisas para contar aos amigos, mas não como nós que falamos com José Cavalheiro, trabalhador agrícola reformado com tuta e meia, 83 anos feitos faz três dias, antifascista, que não troca a sua terra por três lisboas e que acaba de nos convidar para ir a sua casa que se vê dali, "aquela de barra azul que tem uma botija de gás à porta!".

Uma excursão de orientais sai da igreja.
- Pai, vêm ali elas!
- Como as distingues?!
- Não têm bonés daqueles que não gostas e não usam óculos de sol!....
(Com esta observação inocente, o sacana já me deu cabo da história, que obviamente toca a ficção, ao expor uma flagrante contradição! Peço desculpa aos leitores! )
- Vossemecê gostava de ir à China?!
- E o que é que eu ia lá fazer se não sei falar chinês?
- Mas ao menos a Fátima você devia ir uma vez na vida!
- Mas isso é Meca ou quê!? Para quê, se eu não acredito em santas!
- Olha, para beber a pinga santa que o meu pai lá tem!
- É pá, mas depois a camioneta tinha de vir sempre a parar para eu mijar!...

É claro, que pelas razões expostas, não temos nenhuma foto com José Cavalheiro. Os quatro adoramos o povo alentejano, as casas,  a paisagem e o pão, o vinho sou mais eu!...

sexta-feira, 25 de março de 2016

Crucifiquem-me mas não me aleijem!


Não gosto de ver ninguém crucificado,  sinto os meus próprios pulsos a pulsar de dor. O menino e o burrinho, um jovem a aprender de carpinteiro com o padrasto de nome Zé, um homem novo de barbas louras a subir para o céu, isso eu gosto! Mas faz-me arrepios que, perante a figura de um crucificado, se ore, se implore, se dê culto, se coleccionem crucifixos e que essa cruz, tenha substituído o peixe, como símbolo da minha religião. Ao menos o peixe sempre podia aguçar o apetite!

Eu, que culturalmente sou cristão, gostava que os adoradores da dor do bom Homem e do bom Crucificado que foi Jesus, em vez do culto da imagem, lhes desse para o cumprimento da palavra que nos deu e começassem a dar, a dar, a dar, a dar tudo o que têm: aquele ex-ministro das finanças que costuma falar do aborto, aquele ex-gestor do bcp que se abotoou, o outro, o do "aguenta, aguenta", que também invocou a sua fé, aquele que fala aos domingos na tv e sabe tudo e diz que dá, o outro que é presidente da república e que também vai à missa, isto só para citar uns poucos de que nem sei o nome mas sei que muito têm.

Imaginem que esta gente, em vez de beijar os pés descalços das imagens de barro, começava a ouvir a palavra do Senhor e começava a dar, a dar, a dar... a dar tudo o que têm até ficar sem nada, isto é que ia ser uma revolução!

Mas isto vai lá! Para já o novo papa renunciou aos sapatos vermelhos e não sou daqueles que dizem que foi porque lhe davam um ar gay. Toda a gente sabe que os sapatos pretos são mais baratos que os vermelhos!

Não quero ver ninguém crucificado! Quero apenas que me dêem a minha parte, que repartam! Dizem: não se pode repartir porque não há! Vamos lá! Um cristão não engana outro! Digam-me lá onde é que foram comer ontem à noite?!


segunda-feira, 21 de março de 2016

Mais um dia mundial - desta vez é o da poesia.


Não sei porquê, nem me interessa, nem acho piada,
Mas hoje é Dia Mundial da Poesia.
Reparem que mudei de linha para parecer verso
e vou fechar com a rima "é dia".
Volto a repetir: é dia!
Hoje é dia de passear com ela
Porque é o seu dia.
Já que nunca encontro um pretexto para falar de poesia,
Já que há muitos anos que perdi o estado de poesia,

Podem não achar piada mas esta rima entrelaçada
Pode ser considerada  um sapiens da poesia.
(julgamos que o autor quis tentar um trocadilho tipo homesapiens verso poetasapiens - não sei se estão a ver?!? enfim! ao que parece não é o único que parece não ter mais nada para fazer!...)

Vou dar uma volta com ela. Com a poesia! Ainda não sei se a levarei presa por uma corda, como quem leva a vaca à fonte, ou se a levarei presa por uma trela como quem leva a cadela a defecar a monte. Ou então irei sozinho ver as árvores, os cães, as vacas e as pessoas. Talvez nesses encontros eu possa refletir acerca da forma como eu, se fosse poeta, traduziria os sentimentos em poesia.

Chega! Já disse o suficiente para assinalar o dia.
Apetece-me um verso! Mas não tenho pão em casa e um verso sem pão não tem graça!
Uma sandes de versos ia! Uma poetisa ia!
Não vou a lado nenhum com esta prosa!
Vou beber um copo para embebedar a poesia! Talvez com vinho ela vença a timidez!
Chega! Não tem graça!

sábado, 19 de março de 2016

Talvez por ser 19 de Março

"- Filho, isto a partir dos quarenta é um instante! Foi um instante enquanto te criaste!
Pois é pai! Não sei se nesses lado por onde andas o tempo existe! Por aqui continua a haver muita falta dele e, o que há, é escorregadio e foge-nos das mãos!

Parece que foi ontem e foi há meia dúzia de anos, porque sinto exactamente a mesma coisa, porque é mais fácil, vou repetir o post - perdão aos leitões, digo leitores, habituais! Até tenho tempo mas estou com preguiça!
Esta imagem serve também para provar que, desta vez, os tipos do Google não foram muito originais!

Regressavas de França de vez. Os carros não tinham caminho para chegar à nossa porta mas a mãe sentiu o táxi parar ao fundo da ladeira e largou alegria quando me anunciou:
- É o pai que chegou João, vai esperá-lo!
É a primeira memória que guardo de ti e talvez da vida! Eu, escondido debaixo da figueira, a ver-te subir, de mala na mão, cada vez mais perto, a timidez a consumir-me o desejo e a coragem de correr para um homem alto e com bigode!... Acocorei-me por detrás do carro de bois que o ti Manel tinha estacionado à porta dele e vi-te a passar, por entre um dos dois buracos da roda de madeira, sem dares por mim!... Vi-te beijar a mãe e logo a seguir perguntar:
- E o João?!
E a mãe a descobrir-me e a apontar:
- Olha ali!
E tu, largando a mala e a correr para este, então fedelho, envergonhado e a levares-me ao colo e a mãe a dizer-me, tal como a ouço ainda agora:
- Não chores João! Já tens pai!

Depois seguiram-se anos e uma casa cheia de filhos até que, com dois meses de reforma recebidos…

Mas, nem era disto que eu queria falar agora! Eu queria recordar-te de que como, apesar de mortais, nós, os da nossa linhagem, somos duros!
Ensinaste-me a decorar a data em que a avó nasceu porque me a recordavas sempre que passávamos a Alenquer - havia uma fábrica que se avistava longe e que tinha esse ano registado em letras garrafais numa empena. Ainda hoje esse ano me serve de referência para me localizar melhor na história: “100 anos antes da minha avó nascer”, “50 anos antes da minha avó nascer”, “quando a minha avó nasceu”, “quando a minha avó tinha dez anos”…
A avó Gracinda nasceu em 1888, casou com 14 anos e tinha seis filhos quando veio a pneumónica – levou-lhos todos! A avó Gracinda não tomou anti depressivos! Teve mais sete! Não havia cama para todos? À medida que iam crescendo iam sendo alojados no palheiro! Não havia mesa para todos? Punham a tigela em cima dos joelhos à lareira! Não havia comida para todos? Paciência! Deus prometia dias melhores!

Quando eu saí de casa, com dez anos, a avó deu-me 50 escudos! É o último gesto que recordo dela!
Pois lembrei-me disto pai! De te presentear a falar da tua mãe! Se hoje receber algum presente vão ter que me ouvir a falar de ti!