domingo, 13 de maio de 2018

13 de maio - há quem tenha parado em 1917

Aparições de e Fátima. Ou será Visões de Fátima? Ou será das Alucinações de Fátima? Ou será da história engendrada por um grupo de pessoas a fim de enganar outro grupo de pessoas? Nunca saberemos, mas sabemos.




Dia 13 de Maio, um dia especial para muitos portugueses, e não só, que celebra a vinda de Nossa Senhora à Terra para falar a três crianças portuguesas. Primeiro, devo afirmar que um jornalista sério nunca pode dizer “As Aparições de Fátima” já que nunca ficou provado que Nossa Senhora apareceu mesmo. Para não desrespeitar o código deontológico, a nomenclatura correcta para este evento seria “As alegadas aparições de Fátima” ou, mais honestamente, as “As alucinações de Fátima”.
No entanto, como a religião ainda está tão embrenhada na nossa sociedade, trata-se o assunto como se, efectivamente, se tivessem suspendido todas as leis da física e do bom senso naquele dia em 1917 em que uma senhora se materializou no ar e ali ficou a pairar. Os anos conferem à história um peso que seria impensável se ocorresse nos dias de hoje. Aliás, nos dias de hoje, Nossa Senhora teria de se materializar num vídeo de um Youtuber para as crianças darem pela sua presença, já que crianças a brincar no meio de um descampado seria impensável. Brincar, como quem diz, passear gado, hoje, seria considerado trabalho infantil, os pais dos pastorinhos seriam julgados e a Segurança Social sinalizaria as crianças e retirá-las-ia dos pais para irem para uma qualquer instituição amiga que recebe subsídios por cada acolhimento.
Mesmo que as crianças estivessem a brincar na rua e vissem Nossa Senhora, a primeira coisa que fariam era tirar uma selfie com ela para publicar no Instagram e toda a gente ia comentar a dizer que era fake. Chegavam a casa, transtornados, dizendo aos pais que haviam contactado com um adulto vestido de branco que lhes disse para guardarem segredo. Os pais, ou os levavam ao psiquiatra que lhes diagnosticava uma qualquer doença da moda e medicava-os, ou alertavam a PJ para um possível caso de pedofilia. Depois ainda se descobria que tinha sido um padre vestido de Nossa Senhora que tinha abusado das crianças, mas não acontecia nada e este era recolocado noutra paróquia a mando de altos cargos da Igreja, abafando o caso.

O que mais me choca é que Nossa Senhora escolheu os pastorinhos como mensageiros, mas depois matou logo dois, passado uns meses. Nos dias de hoje, isso dificilmente aconteceria porque a medicina já evoluiu e dificilmente morreriam de gripe espanhola. Nossa Senhora teria de se esforçar mais e dar-lhes um cancro agressivo para os levar tão depressa. A Lúcia ficou para freira, algo que não teria acontecido nos dias de hoje devido à existência do Tinder.
A sociedade vai evoluindo e vamos ficando menos permeáveis a novos milagres, mas continuamos a achar que os que aconteceram há centenas ou milhares de anos foram verdadeiros. Num país evoluído, já nenhuma mulher se safa com a história que engravidou virgem do Espírito Santo; já ninguém acredita numa criança com astigmatismo e miopia quando ela diz que viu uma senhora no cimo de uma árvore.
Moral da história: cada um acredita no que quer, mas os jornalistas e os media não podem compactuar com ficção, tratando-a como se fosse verdade. Hoje, é o aniversário das alegadas aparições de Fátima ou, se quisermos ser factuais e basearmo-nos em várias investigações já feitas: aniversário do dia em que crianças foram crianças e inventaram mentiras, mas das quais um grupo de pessoas decidiu aproveitar-se por motivos religiosos e económicos.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Sócrates leva o seu golpe de misericórdia



Não, não foram os homens de Costa que desligaram a máquina a Sócrates. O golpe de misericórdia foi dado hoje, pela sua ex-namorada Fernanda Câncio, num "artigo de confissão" (ou será de traição?) que acaba por provar quanto estavam bem um para o outro.

Sócrates já mete dó. Afinal ele acaba por se tornar vítima daqueles que lhe deram os seus tempos de glória, da amante que lhe fazia festas nos cabelos, dos correligionários que o seguiam, dos jornalistas que o apoiavam, dos comentadores que o elogiavam, dos eleitores que o escolhiam e até do sistema judicial que, pelo menos parcialmente, teve nas mãos.

Ninguém me provou ainda que Sócrates é um criminoso mas já tenho a certeza de que ele é uma vítima.

Pois é minha gente, quando ele recebia vivas dos carapaus e dos armadores, não por dar de comer aos peixes mas por oferecer as redes, não por fazer bem a uns mas por fazer mal a alguns, quando ele era o salvador que aniquilava as corporações de preguiçosos bem pagos, enquanto a Fernanda dormia com ele, nós outros lutávamos nas ruas para que o seu reinado chegasse ao fim. A nós ninguém nos pode acusar de o ter apoiado.

Que Vinicius de Moraes me perdoe assim como aqueles para quem me repito. Ficam aqui as palavras dum ataque de fúria que em 2009 me deu:

Sai, Sócrates
Desaparece, parte, sai deste povo
Volta a Vilar de Maçada onde te esperam
As ossadas dos teus avós, de que és
A herança perversa. Vai, foge do povo
Monstruosa farsa, hediondo
Ministro do faz conta, boy bóbó
Coito interrompido! Sai, Sócrates
Fato cagão, cueca suja como guardanapo,
Gravata de prepúcio, câncio homo-nada
Que empestas as passerelles da vidairada
Com teu petulante abanar de ancas
Enquanto largas traques sobre as palmas
Tuas encomendas aos boys-todo-o-serviço
Sai, get out, va-t-en, henaus
Tu e tua capa de marketing de plástico
Tu e teus telepontos
Tu e teu discurso cheio de nada
E pede perdão ao filósofo
Cujo nome roubaste. Deixa os portugueses em sossego
Odioso falozinho; fecha o fecho
Das tuas peles destomatadas
Secretárias, ministrinhas, directoras, jotas de saia curta
Movendo-se à volta da tua merda, como moscas
varejeiras que depois pousam nas mesas e nas camas,
Sai, Sócrates
Arruma as botas e diz adeus ao tacho
Em saudação fascista; galga, vasa,
Contra o teu próprio umbigo
E vai viver do teu próprio valor
Na poeira suja que se acumula no teu currículo.
Adeus
Recheador de ricos, multiplicador de pobres, tu
Com quem ninguém quererá jamais aprender nada.
Parte, punheta estéril, andate via
A23, destino Covilhã,
Experimenta viver igual às tuas vítimas.
Não tens mais estômago do que o homem da rua!
Cretino só, pinóquio de esparguete, que prescreves
A crise do país sem a experimentares, só
cretino, políticu, xuxalista...
Desanda, arruma as malas, toma banho,
E telefona para a empresa de mudanças!

IV
Há 1 trabalhador que foi para o desemprego
Há 2 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 4 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 16 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 256 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 65.536 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 4.294.296 trabalhadores que foram para o desemprego

VI
— Minha senhora, lamento muito, mas é meu dever informá-la de que a empresa não precisa mais dos seus serviços...
— Meu caro senhor, tenho de comunicar-lhe que está despedido...
— É, infelizmente a empresa diminui os lucros. É impossível manter o seu posto de trabalho...
— É a crise, meu amigo. Vá para casa...
— Você é um homem forte, com certeza que arranjará outro emprego...
— Sua folha de serviço é exemplar, dar-lhe-emos uma carta de recomendação...
— Veja, você já não tem nada para dar à empresa... talvez com formação...
— Compreendo que não tenha outro rendimento. Sou seu patrão, não sou seu pai...
— Há muito operário na mesma situação. Você não está só...
— Era o nosso melhor colaborador. Mas a crise é internacional e não perdoa...
— Qual quê, meu caro, não se assuste prematuramente. Ainda tem uma vida à sua frente...
— Parece que o engenheiro também vai fora...
— Uma trabalhadora exemplar... E depois, tão linda...
— Que coisa! Logo agora que empresa estava cheia de encomendas...
— Se não aceitar as condições, somos obrigados a despedi-lo...
— Não me diga? A auto-europa...
— Não só... e a general motors?...
— E atenção para a última notícia. Mais três mil trabalhadores despedidos esta tarde...

— SÓCRATES ESTÁ DESPEDIDO

domingo, 6 de maio de 2018

os dias da minha mãe

Ficou orfã de pai e mãe aos nove anos. Feita a terceira classe, teve de ir "servir" - como se dizia na altura - para ganhar o seu pão. Escreveu assim ( não, não era a minha tia Anselma, essa é de facto uma personagem da ficção!). Tenho consciência do valor literário destas poesias mas... o que é que querem? São da minha mãe. Aqui fica o que, por mais não seja, tem valor por ser autêntico.

desventurada
amargurada
sentia-me eu aos nove anos
p'la hora que vim ao mundo
triste sorte
tão cedo chegou a morte
levou-me o amor profundo
deixou-me orfã neste mundo
perdi chorando
os que não mais encontrei
desde então fiquei limpando
as lágrimas que chorei
e nessa idade
que eu queria amor e carinho
ficou comigo a saudade
daquele calor do ninho

nesse vazio os anos foram passando
eu ao calor e ao frio
o meu pão ia ganhando
e a seguir para a minha sina cumprir
casei pegava o troféu
com a cruz que Deus me deu
deu-me também
rosas criadas com espinhos
o maior tesouro de mãe
com lágrimas e carinhos
e convencida
que sofrer não é pecado
por isso a quem me deu vida
eu rezo e digo obrigado
(1964)

nós os dois, a nossa casa e o Hillman - 1975

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Poesia da tia

Depois de enterrada a tia Anselma, aqui contada recentemente, vasculhando o seu magro espólio, encontrei esta poesia que justifica a sua opção pelo celibato:

há homens de bom agrado
há outros são diabo
que aparecem às mulheres
em solteiros são tão lindos
mas aqueles lábios finos
em casados são colheres

nunca são o que parece
há homem que só se conhece
zangado e das avessas
quando briga com a mulher
chama-lhe aquilo que quer
esqueceram-se as promessas

há homem que é extravagante
por vezes é um moinante
passa a vida nas tabernas
quer é beber e jogar
e a mulher ir encontrar
disposta a abrir-lhe as pernas

em novos são ciumentos
em velhos são rabugentos
triste vida negro fado
não te metas em sarilhos
que aturar marido e filhos
é porca que torce o rabo

há homem que é um fascista
por vezes é egoísta
ainda meiguinho e a rir
mostra-se um bom camarada
faz da mulher uma criada
que ali está para o servir
eu tinha uma companheira
vivia também solteira
um dia perdeu o jeito
ao fim de um mês de casada
apareceu com a cara inchada
e um braço amarrado ao peito

rapariga se és solteira
e queres morrer de velha
vê-te bem a este espelho
estás a tempo não te cases
não dês conversa a rapazes
toma se queres meu conselho

ao falar-te deste assunto
se tenho vivido muito
pois foi sempre ajuizada
cá no meu entendimento
fiz porém meu juramento
de morrer sem ser casada

seja antero ou artur
quem os tiver que os ature
sempre disse e hei-de dizer
nunca me aventurarei
e só os aturarei
se algum dia enlouquecer

quero aqui escrito deixar
mulher que pensa em casar
traz sua alegria morta
deixo-te aqui recordado
este tão velho ditado
homens nem de barro à porta

A todos aqueles que duvidaram da autenticidade da história, julgo que a forma e teor da poesia atestam que não inventei nada.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Vai amanhã a enterrar a minha tia Anselma

Património da terra, a tia Anselma, vai amanhã a enterrar. Do leito da agonia, o mesmo onde dormiu todos os seus sonos desde que se fez moça, nem uma única pernoita fora daquela cama se lhe conta, disse-me isto assim:

- Abre aí essa gaveta, julgo que está aí dinheiro que chegue para não teres de entrar para o meu enterro. Se não chegar... olha, amanha-te! Se sobrar para um ramo de flores, que seja de cravos, acho que os mereço! Sei que não és de missas, por isso, se não houver padre, descansa, não me vou levantar!

Os pequenos, na idade em que se iniciavam na palração, não tendo língua para dobrar o nome Anselma, chamavam-lhe An e, os maiores, corrigiam-nos, completando com acentuação as sílabas em falta: - ... sel-ma! Mas foi assim, como se dum acordo de gerações se tratasse, que acabou por ficar An para os mais novos e para os mais velhos, Selma.

Por condição de solteira, mais tarde solteirinha e, a partir de certa altura, por correção sua quando a referiam nestes termos, assumidamente solteirona, ficou, por herança, com a casa dos pais, meus avós.
Com o andar dos anos, o espaço outrora cheio, foi perdendo a vida, as crianças, os animais, as arcas e as pipas cheias, as vizinhanças, até ficar só ela com mais meia dúzia de velhos enviuvados, os residentes do lugar. Enquanto teve forças, virou a terra, fez a burra carregar a palha que comia, escorou as capoeiras que ameaçavam desabar, substituiu telhas partidas, regou a horta, as hortenses e sardinheiras, caiou os muros, acendeu o forno, fez a sopa e cinco almudes de pinga por ano. 

Aos sete anos, a casa era-me de tal modo familiar que eu entrava cozinha dentro, sentindo os pés pegarem-se às tábuas sebosas, fazendo vistas largas à loiça suja e o nariz estreito ao cheiro a fumo e dizia:
- Tia An, tenho fome!
Então ela arranjava-me um naco de pão com tanta marmelada como se gastava na minha casa numa semana.

Aos doze anos, a tia An solicitava préstimos meus e dava-me em troca uns trocos que me davam jeito para comprar costelas para os pardais e fitas para os punhos da bicicleta.

Aos dezoito anos, comecei a tomar consciência do modo de ser da tia An. Teria sido, mais jovem, bonita e jeitosa, ainda era bonita e jeitosa, mas o vestuário austero, o cabelo sem cuidados, o semblante geométrico, davam-lhe um ar neutro, o ar duma pessoa que nunca surpreendia,  conformada com o destino de apenas ter de trabalhar para sobreviver.

Aos vinte e quatro anos, comecei a interrogar-me acerca da filosofia de vida da tia An. Limitada ao seu quinhão rural, na missa era mulher dos lugares do fundo, não tinha rádio nem televisor, era de conversas limitadas ao essencial, nunca dando largas a assuntos banais, era generosa mas não aprofundava grandes relações e escolhera-me como seu familiar de estimação.

Aos vinte e oito anos, quando a fui convidar para o meu casamento, tivemos a conversa das nossas vidas. Agradecia o gesto, aliás meu dever, mas saberia eu que não iria, não por não ter roupa, não a envergonhava o seu fato domingueiro, não por não ter dinheiro, saberia bem que eu não lhe cobrava a presença, mas porque não lhe apetecia e sabia bem que eu não a julgava, que comprasse eu os sapatos que quisesse que ela os pagaria.

- Ora essa tia An! Trazer-lhe-ei o talão! Pena só tenho de não ter ido ao seu!
- Ó rapaz, não penses tu que não tive namorados! Dois! Um sabia bem o que ele queria e o outro o que ele queria sei eu!...
E então, dito isto,  divagou sobre si própria, a sua opção de não viver para satisfazer os caprichos ou desejos dum homem peludo e de hálito vinhateiro, de gostar de viver sozinha, da vida que levava, surpreendendo-me com uma confidência que me fez corar como se de repente se tivesse despido à minha frente:
- Homem?! Eu tenho mãos para ganhar a vida e tenho dedos para me desenrascar!

Até anteontem continuei a visitar regularmente a tia An. Acompanhava-me sempre ao carro com umas batatas ou umas cebolas, uns ovos ou umas maçãs, uma galinha ou um coelho. Falávamos à volta da lareira se fosse inverno, no sobrado se fosse verão:

Foi uma vez a Fátima, jurou para nunca mais. A Coimbra nunca foi, nem sequer para fazer uma colonoscospia. Nos anos sessenta foi uma vez numa excursão à Nazaré. Dos carros tinha medo, a televisão para ela era bruxedo, telefonar só se fosse para os bombeiros, 25 de abril, sempre! votar só uma vez e foi na foice e no martelo, às Festas do Bodo se lá te apanho lá te... e ria, ria...

A tia Anselma vai amanhã a enterrar. Tentei encontrar padre para a encomendar, não consegui mas estou confortado com o facto dela não se importar. Comigo vai estar uma meia dúzia de pessoas. Nem uma lágrima se verterá. Durante uma semana outros saberão da morte dela e é natural que dela se vá falar. Feito o orçamento da agência acho que ainda me vai sobrar algum. Daqui a uns meses aparecerão os meus primos e vai haver desentendimentos sobre montes que nada valem e montantes que deveriam existir. Daqui a uns anos ninguém saberá quem foi a última moradora, nem quem são os donos da casa dos meus avós que estará em ruínas.

Se nunca teve uma causa maior pela qual lutasse, se não era de crenças, se não deixou descendência, se não deixou obra que lhe lembre a vida, se nunca viajou, se nunca partilhou a cama para se dar ou possuir e aos costumes disse nada, o que deixou a cidadã Anselma que se diga com humanidade que valeu a pena?

Ela mesmo disse do seu leito de agonia, que foi um instante e não dois dias como é hábito dizer-se, que nem ao padre alguma vez se dobrou ao arrependimento, que foi feliz sem homem e sem outra criação que não fosse as das suas cabeças e tomates e que ficaria morta em paz sem alguém que lhe velasse a sepultura.

E eu mesmo digo, continuar-se-á a respirar o oxigénio das árvores que plantou, comer-se-ão as filhas das filhas das filhas das crias que criou, ninguém poderá assegurar que o cabrito no forno que irá comer um ano destes pelo Natal não teve como antepassado uma cabrão que ela guardou, nem eu sei quando se esvairão no ciberespaço os significados deste texto que dela fala e conta. A sua vida foi tão importante como a de milhões de servos, nobres  e eremitas que já morreram e dos quais não há uma única lembrança. A sua vida valeu tanto e tão pouco como a de qualquer um.

Serena, Anselma, património da terra, vai a enterrar amanhã.


sábado, 14 de abril de 2018

Mísseis para cima deles!...


Tentar desativar o perigo dum barril de pólvora com um fósforo não é lá muito inteligente: é claro que a pólvora vai explodir. 
Bombardear um arsenal de armas químicas, na minha modesta inteligência, ativaria os agentes químicos e provocaria forçosamente efeitos muito mais trágicos do que a sua utilização num combate pontual. Portanto, se tal não aconteceu, ou as armas foram retiradas atempadamente ou nunca lá estiveram.

Impressiona-me também que, dum momento para o outro, o perigoso Trump, o anedota, o burro, tenha passado de besta a bestial, só porque ativou o seu cérebro do tamanho dum tweet e as suas perigosas bombas, históricamente pulverizadoras de paz e democracia pelo mundo inteiro.

Hoje, no café, ouvindo a conversa da mesa ao lado pensei: esta gente não pensa, não lê, não aprende, não merece um mundo melhor - seu eu tivesse à mão um spray!...


sábado, 7 de abril de 2018

Um pedaço de pequeno ódio numa grande cena

A Cena do Ódio é um dos maiores desabafos da minha vida e nem sequer tive o trabalho da escrever. Tenho, portanto uma grande dívida para com o Almada Negreiros. Por estes versos, bolço pedaços de alma, limo unhas em palavras de pedra, contenho ais em carateres fechados, aconchego a minha pequenez no grande poeta, beijo os meus, ergo dedos médios aos demais, peido-me, mijo-me, cago-me, entorno o vinho, olho para mim, olho para ti, dente por dente, verso por verso e, passados tantos anos, o ódio continua pertinente e a cena é a mesma num cenário diferente. 
....
Eu invejo-te a ti, ó coisa que não tens olhos de ver!
Eu queria como tu sentir a beleza de um almoço pontual
e a felicidade de um jantar cedinho
co'as bestas da família.

Eu queria gostar das revistas e das coisas que não prestam
porque são muitas mais que as boas
e enche-se o tempo mais! 
Eu queria, como tu, sentir o bem-estar
que te dá a bestialidade!
Eu queria, como tu, viver enganado da vida e da mulher,
e sem o prazer de seres inteligente pessoalmente!
Eu queria, como tu, não saber que os outros não valem nada
p'ra os poder admirar como tu!
Eu queria que a vida fosse tão divinal
como tu a supões, como tu a vives!
Eu invejo-te, ó pedaço de cortiça
a boiar à tona d'água, à mercê dos ventos,
sem nunca saber que fundo que é o Mar!
Olha para ti!
Se te não vês, concentra-te, procura-te!
Encontrarás primeiro o alfinete
que espetaste na dobra do casaco,
e depois não percas o sítio,
porque estás decerto ao pé do alfinete.
Espeta-te nele para não te perderes de novo,
e agora observa-te!
Não te escarneças! Acomoda-te em sentido!
Não te odeies ainda qu'inda agora começaste!
Enjoa-te no teu nojo, mastodonte!
Indigesta-te na palha dessa tua civilização!
Desbesunta te dessa vermência!
Destapa a tua decência, o teu imoral pudor!
Albarda te em senso! Estriba-te em Ser!
Limpa-te do cancro amarelo e podre!
Do lazareto de seres burro!
Desatrela-te do cérebro-carroça!
Desata o nó-cego da vista!
Desilustra-te, descultiva-te, despole-te,
que mais vale ser animal que besta! 
...

um pedaço da Cena do Ódio de Almada Negreiros

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Uma gigantesca prova de corta-mato nacional

Bush filho, quase tão inteligente como Trump,  apresentou um dia como solução para os incêndios da terra dos índios o corte das árvores da floresta. É assim a América do nosso contentamento: se aumenta a insegurança, há que munir os cidadãos de mais armas; se há fogo, corte-se o mal pela raiz, faça-se da floresta deserto.

No Portugal do nosso entretenimento, do fazer de conta que se faz, os fogos seguem o modo de pensar inteligente do amigo americano. Não chegam os carros de bombeiros, compram-se mais carros de bombeiros, não chegam mais carros de bombeiros, chamam-se helicópteros e aviões, não chegam os meios, ah! então vamos pensar...

Não pensando na  destruição da agricultura e da pastorícia, não pensando nos fatores económicos que ditaram o abandono da floresta, não pensando nas medidas de encerramentos de serviços e na inevitabilidade de concentração da atividade económica e do emprego nos grandes centros, os corredores do Grande Centro pensaram então:
- Fazer pagar, aos que por lá resistem, os males das políticas que lhes têm sido infligidas. Punam-se esses malandros! Multas pesadas para cima deles! Não têm dinheiro?  Então o que é que fazem às reformas que lhes damos?
Conclusão, pensam que podem acabar com os incêndios com a desertificação humana total. Não pensam, os imbecis, que o valor das propriedades, ou do rendimento que delas se tira, não chega para a despesa duma única limpeza anual, nem tão pouco para os custos cobrados pela sua eventual venda.

Nem os beijos dos beiços do Marcelo, nem as fotos do Costa no terreno, nem os coletes de bombeiro da Cristas, nem as imagens de fogo que passam em fundo nos comentários da tv, podem apagar as cinzas das aldeias e vilas abandonadas a troco do desenvolvimento do litoral.

Tenho uma sugestão, em vez de gastarem energias em ginásios para manterem a linha, em vez de oferecerem taças de ouro para corridas em pistas de tartan, organizem uma gigantesca prova de corta-mato nacional, chamem os desportistas de cidades, vilas e aldeias, delimitem faixas de competição para cada um, munam-nos de foices, enxadas e ancinhos, dêem o apito de partida e, no final, pesado o mato que cada um roçou, atribuam prémios. Seria uma forma lúdica e barata de pôr à prova a vontade, a verdadeira solidariedade de todos aqueles que, no dia a dia, despendem a sua força física apenas para manter a forma.

Não quer dizer que a força da autoridade não possa atenuar o problema no curto prazo. Mas, no médio prazo, o problema regressará porque notoriamente não há políticos com vontade, apoio, força ou inteligência para pôr em marcha o repovoamento do interior. Além disso, ninguém tira das suas propriedades rendimento suficiente para fazer a limpeza ano após ano. E, como não há notoriamente políticos com vontade, apoio, força ou inteligência para empreender uma reforma agrária e florestal, vão convencer toda a gente que o melhor é entregar a terra aos grandes. 

sexta-feira, 30 de março de 2018

Notícia de última hora: um tipo foi crucificado há 2000 anos


Tanta celebração, tanta compaixão, tanto sofrimento por um homem que foi crucificado há dois mil  anos. E depois, tanto fechar de olhos. tanta cumplicidade, tanta habituação a homens e mulheres  que, nos dias de hoje, são vítimas das mais variadas formas de crucificação.

Isto já para não falar dos crucificados, embora anestesiados, com as inevitabilidades do capitalismo cristão e com a indiscutível legitimidade das democracias  panfletárias.

Já a história dos folares, dos ovos, das amêndoas, da ressurreição não me diz nada. Ou melhor, deixam-me culturalmente crucificado.

Pronto, vou contar uma velha anedota:

O Evaristo, fabricante de pregos, falou com uma agência de publicidade para fazer um cartaz que aumentasse as suas vendas. E levou uma sugestão:

- Os senhores podem fazer um desenho com o Nosso Senhor Jesus Cristo crucificado, ilustrado com a frase: "Pregos Evaristo, os melhores há mais de dois mil anos!".

- Meu caro Evaristo, não acha que isso pode ser um pouco ofensivo para os cristãos? Não arranja outra ideia?

- Deixem-me pensar. Então e se for o Cristo caído junto à cruz com a frase: " Se tivessem usado pregos Evaristo, não tinha acontecido nada disto"?
- Evaristo, as mensagem publicitárias devem demonstrar entusiasmo e não tragédia ou derrotismo...
- Então... que tal um Cristo a correr para a cruz com a frase: " Com pregos Evaristo não há Cristo que resista!".

Evaristo desistiu de recorrer às empresas de publicidade mas a verdade é que nem um único pregador me saberá dizer a marca do último prego que pregou. Amén!



quarta-feira, 28 de março de 2018

A cantiga é uma arma

A minha mãe não era saloia de todo. Viveu três anos em Alfama, como criada, e contou-me que uma vez foi de lá ao hospital de Santa Maria, sozinha e a pé, a uma consulta. Trouxe de Lisboa o gosto pelas marchas populares e pelo fado.
A minha mãe gostava de cantar sozinha ou acompanhada ou, se alguém a desafiava, à desgarrada.
A minha mãe mandou-me ir à fábrica levar uma "casse-cruta" ao meu pai porque o almoço tinha sido fraco. Ficou a encerar a sala porque era a altura da Páscoa e o senhor prior iria lá a casa. Ficou a cantar um fado que encantaria a vizinhança ou qualquer outro freguês que passasse no outeiro.
Desci a vereda e, a meio dela, ouvi cantar a Maria Rosa que guardava as cabras; passei pela almuinha e encantei-me com a cantiga da Maria da Quinta que colhia tomates; cheguei à ribeira e levei no ouvido a canção da Maria da Graça que lavava roupa; segui pela tapada e cantei com o eco das quadras da Maria dos Anjos que regava o milho; às primeiras casas escutei a Maria Natividade a rogar pragas no curral dos porcos; à porta da Maria da Luz só os cães ladravam. Cheguei à fábrica e o Cossa assobiava uma melodia em alta fidelidade; no canto das suas máquinas, o Torneiras entoava as suas canções brejeiras.
O meu pai mandou-me de volta e recomendou-me que fosse a cantar para enganar o medo dos cães da Maria da Luz, dos porcos da Maria Natividade, da tapada da Maria dos Anjos, das cuecas da Maria da Graça, dos colhões da Maria da Quinta, dos cabrões da Maria Rosa.
Ao entrar em casa a minha mãe continuava a moldar o seu fado.

Isto é, era normal cantar. Teria razão o Marceneiro que dizia que as gravações e a rádio iam dar cabo do fado? Hoje quem canta ou assobia - ainda há quem assobie? - uma melodia enquanto trabalha ou caminha não é visto como normal!

Para quê cantar se há quem cante por nós? Dedilham-se os botões do aparelho e ele dá-nos música.

E, já que estou em maré de me virar contra quem não canta, também não perdoo aqueles que cantam aquela palha, sem nunca transportar uma estrofe revolucionária que dê voz à voz do povo. Poetas e cantores que não encontram poesia para um protesto, que não encontram acordes para uma insatisfação, que não musicam um grito para uma revolta (rapazes do rap dou-lhes o meu carinho!).
Nem sequer se pode perdoar a cantores de maio e abril, que foram cantando e tocando cada vez melhor, grandes produções - dizem eles - tão grandes que já não cabem no salão da associação.
Puta que os pariu e ao vosso profissionalismo musical!

Já só canto no carro e no chuveiro quando estou sozinho. Que ninguém cante comigo eu ainda aguento, não suporto é que haja sempre um voz familiar a repreender-me: ó pai, cala-te! ó pai, nem na letra acertas! ó homem, as pessoas vão saber que tu és maluco!...

Não é que eu não cante bem, não tenho é voz e tenho muito medo do sucesso.

terça-feira, 27 de março de 2018

17 mil milhões de euros



Pergunta-se: se não tivesse existido essa despesa "extra", pagar-se-ia a pensionistas e funcionários aquilo que lhes é devido?

Não, o argumento da crise, do não há dinheiro, do não chega para tudo ou do não chega para todos, continuaria a fazer parte do discurso dos ministros, dos seus comandantes e dos seus serviçais! 

Não, não nos comam por parvos, o desaparecimento de dinheiro da banca, a injeção de dinheiro nos bancos, a cumplicidade dos governantes com a cultura da crise,  a intocabilidade do sistema financeiro, são o combustível dum sistema-monstro que tem um nome, goste-se ou não: capitalismo!

Não, não nos chamem colaboradores! Somos trabalhadores de bancos, de empresas, do estado, produzimos a riqueza, temos cabeça, boca e membros, construímos o país. 

Não, nós já percebemos: para o povo nunca há dinheiro, para os banqueiros arranja-se sempre!

domingo, 25 de março de 2018

Venha um traçado de brexit com russofobia

O Meia Leca tinha uma alcunha que lhe assentava como uma luva e, de pequeno homem ou homem pequenino, outros atributos lhe cairiam como: saco de veneno, coração ao pé da boca, embusteiro, velhaco ou dançarino. Via-se em todos as feiras, arraiais e bailaricos, discussões, desordens e escaramuças.
De pé atrás observava o ambiente e o pendor dos acontecimentos e, na altura certa, cagava a sua pequena sentença ou metia o seu punho pequenino.

Quando a zaragata começava, saltitava silencioso na periferia do rodopio e, só quando o vencido já definido tombasse rendido à força maior, aparecia esquivo por entre a confusão para dar o seu pontapé ou o seu murro.

Isto, se o valentão da contenda não fosse o Enxurrada, o zaragateiro mais famoso da sua freguesia, capaz de dar sozinho a cinco ou sete duma penada. Nesse caso, ele aparecia mais notado ao lado do grandalhão, incentivando o desejado desfecho das vias de facto. 
Se ao lado do Enxurrada  apareciam outros golias da ribeira, subia-lhe ainda mais a coragem e podia até tomar lugar na linha de forcados, acabando sempre a pega atarantado à procura dum rabo que lhe calhasse.

O Enxurrada tinha um respeito frio, recíproco aliás, por Brutamontes, um tipo da sua laia que, nas aldeias da serra, era o rei da porrada. Cada um, no seu território, impunha o seu respeito e a rivalidade só aquecia se algum fazia das suas ou se cruzavam nas terras do sopé. Mas, como se temiam quando se mediam, normalmente os desacatos não iam além duma troca de bocas mais brejeiras acompanhadas pelos coros das respetivas companhias.

Nessas alturas o Meia Leca punha-se em bicos de pés na última fila mas ninguém dava importância à sua voz esganiçada.

Ora, assim contada a história, ninguém compreendeu porque
- tendo aparecido o cão do Marmanjo, um companheiro de armas do Enxurrada, falecido nas escadas da sua casa;
- tendo o Marmanjo concluído que provavelmente só poderia ter sido obra do Brutamontes, até porque havia fortes indícios que fora envenenado com queijo da serra fora de prazo;
- tendo o Enxurrada logo prometido que o serrano não esperaria pela demora;
- tendo todos os grandes da ribeira mostrado apoio ao Marmanjo e ditado ameaças contra a brutalidade do velho inimigo de estimação...
... o Meia Leca continuasse mudo e calado como se fosse seu hábito primeiro averiguar de que lado é que está a razão.



Vá lá, pequeno Marcelo, pequeno Costa, digam alguma coisa ou pelo menos escrevam um declaração para o pequenino Augusto Mateus ler à imprensa e o Paulo Rangel interpretar! Olhem que o caso não pode ser para menos, tentaram matar um russo em Inglaterra e "muito provavelmente" ou "há fortes indícios" que o veneno era russo!



- O traçado do vinho com gasosa tanto pode servir para diminuir o grau da bebida como para disfarçar o pique da pinga.

sábado, 24 de março de 2018

Modorra - porque é Dia Mundial da Poesia vou adormecer sobre um poema...



Acima de tudo, o que mais gosto na vida é de ter sono!...
Gosto de adormecer enquanto leio
Adoro adormecer enquanto faço a barba ou me penteio
Hoje mesmo adormeci a meio do banho
E saí de casa sem cortar as unhas de uma mão
Adormeço só de ver uma televisão
Caem-me as pálpebras quando me chateio
E já me aconteceu adormecer no seio dum orgasmo
Pasmo de sono quando falas
E balanceio a cabeça de tintas para as tuas conversas

Gosto de pousar a cabeça no ombro do passageiro do lado
Gosto de me deixar esticar no banco do jardim
Gosto de sestas
Gosto de adormecer ao anoitecer
Gosto de readormecer de madrugada
Gosto de dormir por tudo e nada
E até não me importava de adormecer eternamente
Se pudesse acordar na eterna noite
Para ver o sol, a horta, os filhos e o amor
E se a garrafa de gás já está a meio

Também gosto de adormecer com a bebedeira
Quero adormecer se tenho dores
Gosto de adormecer se estou contente
Dormir para mim é um descanso
Gosto de adormecer na minha cama
Gosto de adormecer à sombra do carvalho
Gostava de me deixar dormir descansado na calçada
Devia ser permitido dormir nas horas de trabalho
Gosto quando me bate o sono
Para mim uma boa palestra é um sedativo

Adormeci uma vez réu em tribunal no tempo da sentença
Gosto tanto de dormir que estou agora mesmo adormecendo enquanto estou escrevendo
Gosto de dormir como carago
O sono faz de mim um ser calado
Raramente digo asneiras enquanto durmo
Ressonar é o meu maior pecado
Gosto de vez em quando da claridade
Sobretudo se for para ver mulheres bonitas para as recordar enquanto sonho
Sobre o travesseiro
Sobre o corpo
Sobre tudo dormir

Dormir enquanto os poderosos falam de poder
Enquanto os poetas falam de poesia
Enquanto os engenheiros falam de pontes e os economistas de valias
Enquanto os artistas falam de arte
Que não há coisa mais entediante
Que um artista falar da própria arte

Dormir enquanto o país arde
Dormir enquanto a pátria se consome
Dormir enquanto se comem uns aos outros
E a mim não me comem
Porque como estou dormindo julgam que estou morto

Dormir enquanto falam os comentadores da TV
Sobretudo quando estes falam é absolutamente necessário
A bem das gerações vindouras
Que todo o país durma
E felizmente dorme
Neste preciso momento adormeci
-Golo!!!!
Nem isso me acorda
E estou com a sensação que me acarinham mãos macias
Durmo profundamente

Ah! Gosto também de adormecer enquanto me contam histórias
A do Capuchinho é a minha preferida
Embora eu goste de assinar João Ratão
Um dia adormeci quando me cantavam os anos
Adoro que me digam de manhã:
-Parece que ainda vens a dormir!
Adoro que me repreendam:
- Tu estás a dormir ou quê!?
Adoro que me ordenem:
- Tu vai mas é para a cama que o teu mal é sono!
Adoro ópio ou erva dormideira
Há fumo de cigarros nos meus sonhos
Espuma de cerveja em pesadelos
Cabelos de pestanas
De tudo há
E estas palavras só não têm nexo
Porque estou mais pra lá do que pra cá!

quinta-feira, 22 de março de 2018

Homenagem ao Bocage no Dia Mundial da Água


"A Água"
Meus senhores eu sou a água
que lava a cara, que lava os olhos
que lava a rata e os entrefolhos
que lava a nabiça e os agriões
que lava a piça e os colhões
que lava as damas e o que está vago
pois lava as mamas e por onde cago.
Meus senhores aqui está a água
que rega a salsa e o rabanete
que lava a língua a quem faz minete
que lava o chibo mesmo da raspa
tira o cheiro a bacalhau rasca
que bebe o homem, que bebe o cão
que lava a cona e o berbigão.
Meus senhores aqui está a água
que lava os olhos e os grelinhos
que lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes lutas
que lava sérias e lava putas
apaga o lume e o borralho
e que lava as guelras ao caralho
Meus senhores aqui está a água
que rega rosas e manjericos
que lava o bidé, que lava penicos
tira mau cheiro das algibeiras
dá de beber ás fressureiras
lava a tromba a qualquer fantoche e
lava a boca depois de um broche.
Bocage

segunda-feira, 19 de março de 2018

O meu pai era peixe

Não me recordo de ter visto mais de duas linhas escritas pelo meu pai. Um recado na mesa da cozinha, umas contas de bicas de pinheiros e nada mais. Via-o escrever, de mãos trémulas como as que tenho, quando parávamos ali para os lados da Venda das Raparigas e ele preenchia um folha de um livro de impressos, qualquer prática obrigatória que mais tarde viria a evoluir para os actuais discos tacográficos dos camionistas.

Quando eu tirava Bom a Matemática ouvia muitas vezes:
- Sais ao teu pai! Também era bom nos problemas!

Pelo que vi e pelo que me fizeram acreditar, vivi sempre convencido que quem escrevia as coisas bem era a mãe e que quem fazia bem as contas era o pai.
Quando o tempo de chuva e a idade de brincar me reduziam à pequena casa que era a nossa, eu vasculhava os armários e as gavetas, com esperança que a curiosidade me oferecesse alguma coisa para me entreter. Afinal de contas a casa também era minha, eu tinha o direito de saber tudo o que ela guardava.

Confesso-te agora pai que, quando a mãe propôs a compra de um fogão com forno para substituir o de dois bicos e tu disseste que não tínhamos dinheiro, eu tinha contado nesse dia as notas que estavam na caixa de sapatos e fiz as contas: aquilo dava para um fogão e para mais de meia dúzia de garrafas de gás e ainda sobrava para uma garrafa de aguardente para as constipações!

Só não entendo porque é que tu e a mãe guardaram, ainda melhor do que o dinheiro, o maço de cartas do vosso namoro que só agora, pelas sortes, encontrámos. Não chorámos, não rimos, dissemos satisfeitos um a um, talvez em coro:
- Olha que o pai escrevia mesmo bem!



 Olha pai, sabes? Eu, se não houver ondas, não me afogo!
(estou à vontade para dizer estas coisas ao meu pai porque além de peixe, ele era fish|)