sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Morrer tranquilamente


Antigamente morria-se por tudo e por nada, de praga, de parto, de nascença, de cornada de boi, de beber vinho em cima de melancia, de tosse, de paixão ou de doença mas nunca de cancro, de sida ou de acidente de viação. E um tipo podia morrer tranquilamente em casa rodeado da família, dos vizinhos e amigos e não ligado a tubos, sozinho num hospital cheio de gente. E quando se ia, os pequenos gatinhavam por baixo do caixão e não se chorava muito porque, no fundo, aquilo era apenas um despacho que com meia dúzia de orações se encomendava para o Céu onde, mais cedo ou mais tarde, toda a gente iria parar e gozar livre dos desgostos da criação e da colheita ou da tragédia do mau tempo que derrubou o alpendre do forno.

Quando o candidato a defunto dava em notícia, a malta ia avaliar a situação, se fosse caso para tanto faziam-se as despedidas, davam-se-lhe mais três ou quatro dias e mandava-se chamar o padre.

O meu bisavô chegou a esse ponto e, na preparação do cenário para a extrema unção, duas moças lá do sítio elevaram-se em escadotes ou na mesinha, uma de cada lado do leito, para estender e pregar um lençol branco, de enfeites ao momento, na parede da cabeceira. E não é que o maroto, deitado e no ângulo em que estava, conseguiu mirar partes que noutra condição não veria e não se conteve:
- Oh Maria, que lindas pernas as tuas!
E ainda hoje, quando a família se junta é com esta que se recorda a sua morte… ou a sua vida!

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Enquanto coisa proibida, bate mais



Alberto Albuquerque de Almeida nasceu em 1821, ano em que foi formalmente extinta a inquisição em Portugal. Alberto sabia que podia falar mas entendia que não valia a pena e, por isso, limitava-se a pensar que, na História, as mudanças no sentido da justiça mais cedo ou mais tarde aconteceriam com o tempo.

E fora assim que a inquisição se fora, que foram vencidos Luís XV e Napoleão e, em Portugal, se entrara no novo regime da monarquia constitucional.

Na realidade, Alberto de Albuquerque de Almeida, era um homem à frente do seu tempo mas não punha a mão nem adiantava palavra, ficava quieto à espera que as coisas acontecessem.

Religiões? Tinham os séculos contados. Deixaria de ser obrigatório ir à igreja, existiriam funerais sem padres e gente que não batizaria os recém nascidos.
Monarquia? Cairia dentro de décadas. O futuro era a república e o governo do povo, o voto e a escola seriam um direito universal.
Mulheres de calças? Pode demorar cem anos mas o conforto falará mais alto. Viria até um dia em que as mulheres teriam os mesmos direitos que os homens.
Dava-se mal com a mulher? Um dia haveria divórcio. Um amigo fora apanhado de calças na mão com outro amigo? Um dia isso haveria de ser entendido como normal. Um dia haveria de até ser permitida a poligamia, fazer sexo sem ser para procriar ou fazer o aborto duma gravidez não desejada.

O filho de Alberto Albuquerque de Almeida, Almeida, assistiu à implantação da República, à Primeira Guerra Mundial e às Aparições de Fátima sem nunca se pronunciar. 
O neto de Alberto Albuquerque de Almeida, Albuquerque, assistiu à aclamação de Salazar, à Segunda Guerra Mundial, aos anos sessenta e nunca se pronunciou.

O trisneto de Alberto Albuquerque de Almeida, Alberto, achou o 25 de abril uma coisa normal e encara a religião, a república, os direitos das mulheres, o divórcio, o sexo, a liberdade, como coisas normais.
Na passada quinta feira, de manhã, tomou o pequeno almoço, acendeu um charro, ligou a TV e nem queria acreditar, a esquerda bonita que nunca foi com cachimbos de prata ou mortalhas Águia, parlamentava sobre ciência farmacêutica e queria a merda na forma de drunfos.

Alberto desatou a rir; estes tipos não sabiam o que era uma pedrada,  a diferença entre fumar e tomar, entre cânhamo e boi ou entre um boi e um trator. Aquela merda não o fazia só rir, inspirava-o com pensamentos pouco parlamentares: a liberalização das drogas leves acontecerá depois de  2021, é tudo uma questão de tempo, não tinha pressa, o consumo proibido bate mais.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Amanhã há tempestade


Os media não mentem só por razões políticas, por servirem a voz dos donos ou por falta de investigação sobre a verdade da notícia original. Os media mentem por dá cá aquela palha, por cliques ou por audiências.

A evolução científica e tecnológica tem permitido aperfeiçoar os métodos de previsão da meteorologia mas não ao rigor e ao pormenor que muitos serviços querem fazer parecer: o tempo daqui a um mês, às dez horas de amanhã trovoada em Albergaria dos Doze, o aviso com cores, são coisas a que já nos habituámos - às vezes acertam, outras tantas não.

Os media gostam do tema e ao menor indício dramatizam a previsão: fazem manchetes, ampliam as informações, desenvolvem notícias e o recetor iça as antenas, clica, lê e comenta com o vizinho. Isto porque está preocupado porque vai fazer uma viagem, porque espera uns amigos a quem quer mostrar a zona, porque tem de mudar o telhado, porque tem de fazer a vindima ou muita roupa para enxugar.
Enfim, o estado do tempo é uma coisa que interessa a todos. Não é por acaso que é o tema porque puxamos quando temos de inventar conversa para não dizer só bom dia.

Isto aconteceu este fim de semana, os tipos, lá prenderam os seus leitores, ouvintes, cliques na página, gostos, para grande consolo dos contadores digitais, alerta, alerta e está certo, o tempo não está por aí além mas também não era preciso exagerar tanto garantindo que vinha aí uma tempestuosa tempestade com nome e tudo.

Eu que queria festejar 25 anos, fiquei chateado. Fiquei chateado, não por o tempo não estar assim tão mau, talvez um pouco por ter adiado a festa, sobretudo, por ter clicado em tudo o que anunciava tempo, escutado com atenção os noticiários, ter acreditado na conversa do meu vizinho e afinal o céu até estar lindo.

- 25 anos eu? Eu não disse de quê! Poderia ter havido festa se não tivesse acreditado nos media que nos enganam a curiosidade por trinta moedas.

Nota: o título original era "Se disserem que amanhã há tempestade, duvidem sempre" mas como vou partilhar no facebook optei por "Amanhã há tempestade".

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Reinventar - a palavra inventada.


Inventar, se não se tratar do invento duma máquina, dum remédio ou duma solução, pode ser sinónimo de mentira, de pura ficção ou de inventona. Ora, a democracia, Portugal, os portugueses, não foram inventados; nasceram, foram nascendo ou nasceram em  cada dia, de modo que não podem ser reinventados, quando muito poderiam renascer perante o reconhecimento de algum golpe fatal que lhes tivesse determinado o óbito.

Um mero discurso do calendário televisivo, habitual e obrigatório, tão rotineiro como o natal ou a passagem dos anos, obriga a uma série de discursos de política ordinária que cumpre a sua rotina com o seu comentário habitual e obrigatório ao discurso mãe do ano. Cada um encontra, na retórica, na subjetividade e na formalidade do politicamente correto do sumo presidente, uma razão que lhe dá a sua razão, a frase que vai ao encontro daquilo que tem de dizer ou escrever. A este ridículo junta-se a notória intenção da mensagem transmitida já ter siso arquitetada de modo a não dar espaço a críticas, a discordâncias ou ser ignorada, dizendo tudo sem dizer nada, não passando de mais uma banalidade da época festiva.

Até aqui nada de novo, a novidade que os jogadores da comunicação inventaram este ano foi a de sacar uma palavra e começarem a jogar com ela, a fazer dela a bola que os diverte a eles e à assistência.

Só se pode reinventar aquilo que se inventa, só pode renascer aquilo que está morto, só se deve operar quem está doente e um doente deve ter sempre uns dias de convalescença. Cheira-me, por isso, que o discurso ainda vai piorar. Não se deve dizer que este presidente se não nascesse tinha de ser inventado, deve dizer-se que este presidente nunca devia ter sido batizado, não porque a água lhe tenha feito mal à testa mas porque as prendas de natal do padrinho ainda lhe estão na cabeça.

Releio o texto e concluo: eu também era capaz de redigir a mensagem do presidente!...

domingo, 31 de dezembro de 2017

O discurso da hérnia

Eu é que beijo,
Eu é que abraço,
Eu é que sofro como o povo,
Eu é que fui a Pedrogão,
Eu é que venço nas sondagens,
Eu é que dito os acontecimentos,
Eu é que apareço na televisão,
Eu é que sei.

Eu é que sei se as leis são boas ao más,
Eu posso vetar.
Eu é que opino se os juízes julgam bem ou não,
Eu sou de direito.
Eu é que digo como o governo deve governar,
Eu sou o mais eleito.
Eu é que dito se os professores ganham bem ou mal,
Eu sou o professor.

Eu sou frenético,
Eu sou incansável,
Eu sou omnipresente,
Eu sou incontestável;
Eu sou o desejado.
Eu sou querido,
Eu sou querido por todos,
Eu sou o Marcelo.

Cum Caetano! Eu venci a história! A mim não é qualquer hérnia  que me leva o umbigo!
Eu é que sou o presidente!
Eu sou o homem de 2017 e 2018.
Que pare o país:
A minha mensagem vai passar em todas, todas as televisões, todos se vão pronunciar sobre a minha mensagem!

E, no entanto, já todos sabemos o que vai dizer e que o que vai dizer não vai dizer nada de novo!
É assim, a vida! Vai ser assim o ano novo.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Desejo a todos que não passem em 2018 o que eu passei em 2017


Um gajo chega a uma certa idade, a uma certa altura, a um certo ponto e começa a estar-se nas tintas para as efemérides, para o calendário gregoriano, para as comemorações anuais e para as passagens de ano. Um gajo já tem idade, altura e pontos de sobra para estar farto do "faz hoje anos que", "hoje é dia de" e para as mensagens de bom carnaval, boa páscoa, boas férias, feliz aniversário e et cetera
A mim, já nem o "bom dia" me diz nada: repetitivo, obrigatório, vazio, automático, inconsciente, desnecessário - Bom dia? Porquê?
Chateia-me o passar dos dias e dos anos, até das décadas. Sou mais condescendente com o passar dos séculos e das horas. Aos minutos ligo, quando espero. Aos segundos não lhes passo cartucho.

Mas esta coisa do natal e do fim de ano, das boas festas, dos desejos, votos, do ano que passou, do ano que aí vem, da solidariedade empacotada, das homilias de conteúdo medieval, dos jantares das instituições, associações, empresas, grupos de amigos e famílias, das mensagens sms, do papa, do ministro e do presidente rebentam-me com o calendário todo! De tudo querer ser novo, nada é novidade, de tudo querer ser novidade, tudo é vulgaridade, de tudo querer ser invulgar, tudo é vulgar, o brinde, a ementa, a prenda, o verbo, o voto, o gesto, montes de mensagens gastas para nada, atiradas para janeiro, como uma macheia de grãos de areia atirada para o mar.

O ano que passou, as graças e desgraças, a personalidade do ano, o jogador do ano, o filme, a reportagem, a imagem, o acontecimento,  dão-me uma tal vontade de dizer "foda-se" que só não o digo porque tenho receio que essa seja eleita a palavra do ano. Antes vou mas é... porque não ousarão lembrar-se de eleger a cópula do ano!

Quanto ao ano que termina, apaguem esse tema dos incêndios duma vez por todas! Quanto ao ano que aí vem, apaguem-me os marcelismos na televisão que eu ainda sou do tempo das "conversas em família"!

- Estou farto! Estou mal disposto, eu? Não, não é para me gabar mas lá no meu serviço chamam-me o mal disposto!

Pronto! Venha mais um que eu ainda aguento! Entre 2018 que eu acho que ainda aguento! Vai fazer 101 anos da Revolução de Outubro, vai fazer 101 anos das Aparições de Fátima!... A gente aguenta!.... 

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

O Natal não resolve nada

O Natal não resolve nada.
Amanhã os pobres já terão comido o quilo de arroz que a leviana solidariedade lhes foi levar a casa; a casa dos pais, que receberam filhos e netos, voltará à quotidiana pasmaceira; os postais de natal irão para o papelão ou para os eliminados do gmail; o presidente da república continuará a descascar bananas para as câmaras; o campeonato de futebol voltará para a ordem do dia; tudo se continuará a não resolver com sorteios de santas casas; os suinicultores continuarão o seu trabalho porco e o Rei dos Leittões continuará a ser carne para canhão. 
Pois em verdade, em verdade vos digo, o colesterol há-de tornar-se a faca com que me desmanchastes. 

Palavra de minha majestade: em janeiro hão-de reconhecer que o natal nada resolveu.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Crónica cruel em dó maior para três irmãos pelo Natal


As aldeias desaguam nas ribeiras.
Nas margens dos campos das ribeiras ficam os casais dos dois ou três mais abastados das aldeias.

Custódio é um dos dois ou três na sua aldeia, tem parcelas por tudo o que é ribeira, monte ou charneca, de modo que se diz, na aldeia, que não há quem não tenha um talho, pinhal ou olival que não confronte com ele com dois marcos.

Naquela aldeia, em mil novecentos e sessenta e dois, Custódio é o último homem que ainda usa barrete, que tem duas juntas, mula e burro e que vive exclusivamente da terra. Ainda assim, quando a mulher faleceu, em mil novecentos e quarenta e cinco, os filhos foram para Lisboa.

Custódio não teve outro remédio senão casar-se com uma das criadas, a mais lerda, surda que nem uma vaca, que talvez por assim ser, ou por adiantada idade, ou por consanguinidade de filhos incógnitos de antepassados, não lhe deu filhos sãos como os primeiros, os três, foram, saíram com defeito de mentalidade.

Por desgosto, coincidência ou por capricho, Custódio foi a enterrar no mesmo dia de António de Oliveira Salazar, deixando os três faltados aos cuidados da também já faltada e cada vez mais mouca, segunda mulher.

Emília, a mais velha, falava, falava, falava se Deus a dava, falava de mais, falava a toda a gente das coisas que se passavam em casa, fazia correio da aldeia e até falava das suas mesntruações. Dava-se de tal modo ao desrespeito que os rapazes rudes, que a cruzavam, a demandavam a respeito:
- Emília mostra-me a tua crica! Emília, fodes? Emília para que queres a crica se não fodes?

Adriano, o do meio, era pacato, mas tinha desembaraço para tratar do gado e de toda a lavoura, nada que o livrasse da troça das gentes rudes de que era parte: provocavam-no acerca da coisa da irmã, tentavam embebedá-lo sem sucesso e, quando num grupo, a sua boina andava sempre de mão em mão.

Fernando o mais novo, aprendera a ler e a escrever. A loucura só o apoderou já adolescente, talvez por consciência tomada do lar em que nascera, talvez por atos da mãe, talvez por maldição hereditária, o que é certo é que, diferentemente dos irmãos, com ele não se brincava, era violento, rangia dentes e não ria, lia o jornal e depois rasgava-o, não permitia que o atentassem com balolices.

Um dia, zangando-se com o Adriano no meio duma lavoura, deu-lhe com a folha metálica da vara do charrueco num sobrolho, destinando-o ao hospital. A vizinhança deu asas à sua crueldade e, de sua justiça,  amarrou-o durante horas, de cabeça para baixo, a uma oliveira centenária.

(A minha mãe levava-me pela mão, íamos a passar, não teve tempo para me ocultar a tortura, o cenário ficou-me gravado para sempre e nunca mais fui o mesmo. Ainda bem que vi. Não se deve esconder tudo das crianças.)

Os meios sobrinhos de Fernando, Emília e Adriano, entregaram-nos há uns anos anos para uma Instituição Particular de Solidariedade Social. Tentaram vender a herança dos campos da ribeira, dos pinhais e olivais mas não apareceram compradores.

Um destes dias, deste Natal, fui a um funeral, Fernando, Emília e Adriano, foram os três a enterrar.
- Os três no mesmo dia?
- É verdade! Vá lá a gente saber porquê!


Por aqui, o Natal é sempre tempo de consternação. 
- E que tal leitão?
Filhos da puta|!

Natal de quem?

As coisas por aqui não estão a ficar muito famosas. O espírito natalício tem fome, devora tudo, nem que seja um porco, rei, infante, pata negra ou atravessado, vai tudo!


Imagem por via do Avinagrado

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Também a Grécia Antiga era uma democracia


Ouçam lá, o consentimento tem de ser quebrado, foram feitos presos políticos em Espanha!
Aqueles homens foram presos pelas posições políticas que defendem!
Houve eleições na Catalunha com lideres das principais forças políticas atrás das grades!
A Espanha deixou de ser uma democracia? Se fosse só isso!
As posições tomadas pelos senhores da Europa e, em particular, as declarações do senhor Costa e do comentador Marcelo dão sinais preocupantes! Esta gente enxerga-se!

É a altura de todas as forças democráticas, de todos os democratas, quebrarem o silêncio:
a chantagem capitalista de que a Catalunha está ser alvo, a manipulação informativa dos media dominantes, as declarações do senhor Costa e do comentador Marcelo não fazem adivinhar nada de bom para um sistema democrático, já de si, em acelerado apodrecimento. 

Catalunha, independente ou não, mas sem presos políticos!

sábado, 16 de dezembro de 2017

Resolvido

- Temos de fazer o presépio!... Temos de fazer o presépio!... Nhe! Nhe! Nhe! Temos de fazer o presépio!...Se vem alguém a casa!... Nhe! Nhe!Nhe! Temos de fazer o presépio!...
- Se o queres, fá-lo tu!
- Eu vou pôr a roupa na máquina e limpar a casa de banho!
- Podes ir para as compras que eu trato disso tudo!


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Com amigos destes nem sei como será o meu Natal

Há dias um amigo provocou-me comentando que, embora eu fosse dizendo que o Natal não é a minha época, que me estou nas tintas para o Natal e que dou muito pouco pelo espírito, pelas lâmpadas  e pelos desejos de Natal, todos os anos eu me esmerava na originalidade e no cuidado da minha mensagem de Boas Festas.

Tive de engolir alguma coisa mas contrapus argumentando que as minhas mensagens têm sempre uma intenção de sátira e de provocação para estimular reações da parte dos recetores.

Além disso, se ele falava do meu postal-natal-2017, deveria concordar que pouco esmero havia tido na sua conceção, já que me limitei a fazer uma pesquisa no youtube e a encontrar um clip em que um quarteto anónimo, em aparente harmonia familiar, em modo heavy-metal, chama filho da puta ao Pai Natal. Identificado com essa aversão ao barbas brancas da coca-cola, sensibilizado pela simplicidade dos autores/atores desse youtube, talvez abusando de alguns dos seus direitos,  fiz desse clip o meu Postal de Natal, partilhando-o com alguns amigos, ele incluído.

Acontece que a maior parte dos amigos a quem dei a conhecer o dito filme, feito postal de Boas Festas, nem sequer me retribuiu uma resposta seca de "boas festas para ti também" levando-me a concluir que ou me ignoraram ou ficaram pura e simplesmente desagradados com a provocação. E os que me deram troco, contornando os motivos de Natal, limitaram-se a fazer comentários pouco abonatórios ao estado de consciência do vocalista, às pantufas da guitarrista ou à qualidade da gravação.

Por tudo isso, digo, o meu amigo não tem razão e peço agora aos leitões-leitores que vejam o vídeo e digam de sua justiça, se a escolha do vosso Rei é ou não é uma boa rabanada de Natal.



segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Prá gaveta


Tendo acordado, como todos os dias, num dia assim:

Disse às pedras que poderiam ser árvores,
As pedras responderam-me que não tinham ouvidos.
Disse às árvores que se comportavam como pedras,
As árvores alegaram que as pedras não têm raízes.
Perguntei aos meus irmãos pelos nossos pais,
Eles afirmaram que não temos o mesmo apelido.
Perguntei ao vento de que lado vinha
E ele empurrou-me contra a montra da loja.
Juntei-me aos manifestantes que desciam a avenida
E os peões em trânsito tinham palas equestres.
Juntei-me ao povo que protestava na praça,
E puseram tapumes em todo o perímetro.

E depois fui para casa e liguei a TV:
Um periscópio manipulado por filhos da puta, que acabavam de ter um jantar de atum azul,  mostrava um oceano sem peixes; um filho da puta dum comentador, bem pago pelo dono, questionava  o aumento do salário mínimo em dez euros, um trabalhador duma superfície imperial agradecia ao falecido dono o quilo de arroz que lhe dera como prémio no natal.

Ao lado do televisor tenho uma foto do meu pai em fato operário. Cada vez que a olho tenho a sensação que ele está a olhar para mim.

Liguei o leitor e pus-me a ouvir o FMI, desliguei naquela parte em que o José Mário Branco começa a debitar palavrões e procurei, na estante, a Cena do Ódio do Almada Negreiros.

Adormeci a ler e a pensar que, embora, não desista de mudar o mundo, eu já só quero é que o mundo não me mude a mim.

- Almada - Negreiros?
- Xis.
- Se ao menos eu ganhesse o totobola!

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Dia das maculadas

Imaculada, rainha dos pastéis
Faz com que o vinho não se acabe nos tonéis
E a aguardente seja cada vez mais forte
Juro, beberei, beberei até à morte!


E é por isto que eu bebo e só escrevo por isso:

Os feriados só não dão gozo a quem não trabalha nos outros dias. Por isso, estou de acordo com este feriado mas não com a sua razão.

No Islão há correntes que consideram a mulher obra ou instrumento do diabo, a Cristandade idolatra a Imaculada, a Virgem, a que concebe por obra e graça do Espírito Santo, colocando-a, por esses atributos, acima ou em oposição à mulher que se mancha com o sémen. À maculada, a serva do macho, a parideira,  é-lhe vedado o acesso ao sacerdócio e o direito ao prazer sexual. 

Por isso, estou de acordo com este feriado, mas não por uma razão assim assim, que um ano é sagrado, outro ano pode não ser, dependendo da produtividade ou da sensibilidade política dos trabalhadores do alto clero.
Este dia devia ser o dia de todas as mulheres que, até aos dias de hoje, foram fodendo a velha civilização, que se deram ao prazer de ter prazer, que se estiveram nas tintas para os tabus da virgindade e bateram o Homem-de-Deus por razão e por direito, que sempre repulsaram a ideia de engravidarem dum espírito oculto, que se divertiram em estábulos, confessionários e paragens de autocarro, que estiveram por baixo, por cima, e de lado, com o namorado, com o amante ou com outras marias, que tomaram pílulas, que tiveram filhos, que amaram homens e continuam a amar, com exceção daqueles que beijam chão, paredes e sepulcros em Jerusalém.

Vivam as maculadas, as amalucadas e os malucos dos homens também!

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Para se ser feliz é preciso ser-se egoísta.


Não faltam receitas, recomendações, frases e livros para se alcançar a felicidade e, em particular, na época de Natal o termo felicidade e seus derivados são marca de comunicação até ao ponto de nos sentirmos felizes por obrigação ou deprimidos por uma felicidade obrigatória que não conseguimos experimentar.

Poderíamos andar aqui às voltas com reflexões e conceitos do que é e do que não é esse estado de espírito, trazer ao discurso a velha máxima de que a dita não depende do dinheiro, haja saúde, medir quem é mais feliz do que quem, eu sou mais feliz do que tu, colocar numa escala de avaliação objetiva, como se exige para tudo nas nossas sociedades de competição, o grau de felicidade dos indivíduos.

Mas no caso presente, o que me traz ao título, foi a declaração segura duma personagem que hoje ouvi na rádio, apresentada como solidária, altruísta, preocupada com as desigualdades sociais e com as tragédias infligidas à humanidade, com os que sofrem e com os que não têm e que, no fundo, não acrescentava nada ao que já ouvi centenas de vezes ao longo da vida, seja da parte de outros testemunhos nos media, da minha vizinha do terceiro esquerdo, dum colega de trabalho ou do padre da paróquia.

Efetivamente, a felizarda criatura, fez-me mais infeliz: como é possível um ser minimamente sensível, afirmar a plenitude da sua felicidade perante o mundo, o país ou a governação que temos. Das duas uma, ou é doida ou é uma profunda egoísta. 

A única coisa que nos pode fazer sentir menos infelizes é a luta!