quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O próximo ministro da administração da interna é...



Por este andar o próximo ministro da administração interna só vai aguentar até à época das cheias. Isto se não houver um terramoto antes.

Por outro lado, o primeiro ministro tem agora a oportunidade de fazer com a floresta o que o Marquês de Pombal fez com Lisboa. Mas para isso, talvez fosse melhor começar por mudar a sede do governo para Vila do Rei.

domingo, 15 de outubro de 2017

Desabafo a quente e seco


A conversa incontornável do tempo a completar os "bons dias", os encontros de circunstância a aproximar vizinhanças de vidas diferentes, a salvar diálogos obrigatórios ou que apenas se desejam e, neste outono faúlhento, o fogo e o vento a pedir chuva.

Pois então que chova três dias sem parar
Que desabe o tempo
Que chova a rodos, a cântaros e a potes
Que molhe todos e não só os tolos
Que dancem a chuva, façam novenas e procissões
Águinha que Deus a dê
Que S.Pedro solte a sua incontinência
E vós, presidentes, ministros e secretários
Tirem o cavalinho da chuva
Se esta noite chover não será certamente por obra vossa.

- Ela faz cá tanta falta!
Disse-me a vizinha que sabe o que diz.


A restauração de Portugal


O puto já foi onde eu nunca fui, Paris, Rio, Londres, Praia mas para ele Portugal é Lisboa e, via A2, Albufeira. 

Gosto de Idanha a Velha porque os naturais, apesar do peso histórico da povoação, ainda não se deixaram intimidar pelos turistas, pelos estudiosos ou pelos projetistas de terra alheia. Nas ruas apertadas vêem-se garrafas de gás com o tubo a entrar na parede de cozinha, tanques de lavar a roupa, estendais  e a venda, que resiste, tem caricas de cervejas e beatas na calçada junto à porta de entrada. Por incrível que possa parecer, isto também me faz gostar desta aldeia.

Voltas dadas por ruínas e muralhas, com o meio dia o puto começou com o "tenho fome" e não se vê sítio de matar a dita e a mulher da venda não tem por negócio servir pratos.
- Mas a senhora não vende aqui latas de atum?
- Vendo.
- Não tem por aí uma cebola?
- Tenho.
- Um pingo de azeite?
- Também.
- Um pão?
- Também se arranja!
Bela refeição, belo o ambiente, bela a mulher da venda. O puto indagou que ela não tinha ar de quem gostava de heavy-metal pelo que não percebia porque se vestia totalmente de preto.

Passar por Fátima para a patroa acender um vela. O puto desconfiado da história e das crenças da avó a fazer perguntas até chatear. 
- Cala-te! Não vês ali escrito "silêncio"?!
A avó a aproximar-se dum orifício com duas notas dobradas. O puto avança comigo.
- Com esse dinheiro bem podíamos ir a um restaurante e estávamos na mesma a ajudar! As gentes daqui são das que mais dão à Santa como forma de agradecer o sucesso dos seus negócios!  

O moço que servia à mesa usava calças pretas e camisa branca!
- Meio viúvo? Morreu-lhe a namorada? 
Perguntou o puto acrescentando que o tipo não tinha pinta de gostar de heavy metal.
O moço era estagiário da Escola de Hotelaria de Fátima e tinha a simpatia e a educação suportadas na utilização abusiva de diminutivos.

- Pretendem uma mesinha? Temos bifinhos, um bacalhauzinho, pãozinho, um vinhinho, a comidinha está boazinha? Uma sobremesinha? E, no final, a continha: quarenta e cinco euros.
Juro que se ele tivesse dito "eurinhos" teria havido maus entendimentos com o pagamento! 

Atum enlatado com cebola é bom. Não formatem o bacalhau, a sopa, os moços e as moças que nos servem e lembrem-se, lá prós lados de Idanha, a Senhora do Almortão também faz milagres: para o ano o puto quer passar as férias com os avós e não quer ir ao Algarve nem a restaurantes com rapazinhos de fatinho.

domingo, 8 de outubro de 2017

A única vez em que fui eleito


Quando eu andava lá, no seminário, havia uma espécie de associação de estudantes cujos responsáveis eram eleitos nominalmente em assembleia anual. Daquela vez, determinados o presidente e o secretário, entre os mais velhos, chegada a vez de escolher o tesoureiro, viraram-se os olhares para os mais novos e calhou-me a mim ser o escolhido. Eu, pobre puto e pobretanas,  não poderia ter grande experiência de mexer com as mãos na massa mas era o melhor na matemática. Os meus quinze anos não esconderam o nervosismo quando subi ao palco mas também não escondi o orgulho de ter merecido a confiança dos meus amigos.

Quando chegou a hora de apresentar contas, a porca torceu o rabo. Despesas de teatros, torneios, livros, viagens e velas; receitas de quotas, contributos e bilheteiras e... eh lá grande contabilista que faltam quatrocentos e setenta escudos!

Três causas possíveis: engano grave nas contas, alguém que me foi ao baú ou então, coisa que eu acreditava na altura, intervenção divina para me pôr à prova.
Três saídas possíveis: aldrabar as contas para que batessem certas, reconhecer o meu falhanço e confessar ao reitor, ou arranjar o dinheiro em falta. 
Convencido da segunda causa, optei pela terceira saída.

- Mãe, se vais ter um filho padre, seria bom que houvesse uma bíblia em casa. Estão lá, no seminário, à venda umas antigas e de boa encadernação e, diz-me Deus, que uma comporia muito bem a mesa da nossa sala.
- Quatrocentos e setenta escudos? Só falando com o pai!

Lá consegui que a família cristã abrisse a bolsa e cristaneamente avancei para comigo: se roubar para comer não é pecado, roubar livros também não e então, se for "o livro dos livros", "a palavra do Senhor", nem de roubo se poderá falar mas antes de ato louvável de louvor a Deus.

Quatro da manhã, levantei-me no silêncio da camarata, percorri pela calada da noite os longos corredores que levavam à capela mor, enfiei por debaixo do pijama a bíblia sagrada e regressei à cama.

Chegado o final do ano letivo fui expulso do seminário - a Igreja Católica e Apostólica Romana perdeu um jovem promissor que viria, certamente, a dar um bom pastor.

Dias antes, um padre fora a casa dos meus pais averiguar os equilíbrios da família, entre os quais não poderiam escapar os financeiros, ou não estivesse sempre em cima da mesa o espaço para um aumento da mensalidade; padres recebem-se na sala, na mesa da sala estava a bíblia, a minha mãe falou da aquisição, o padre reconheceu a encadernação e não vale a pena contar mais nada: a Igreja Católica e Apostólica Romana perdeu um jovem promissor que viria, certamente, a dar um bom pastor e, tendo o caso corrido os meus pequenos mundos, dado como incompetente, ladrão ou pouco esperto, sempre candidato, nunca mais voltei a ser eleito.

- Esse gajo andou a estudar para padre! Sabe muito, sabe-a toda, se for para lá faz igual aos outros!...
E eu pergunto, se faço igual aos outros, porque raio escolhem os outros e não me escolhem a mim! Porra, eu andei a estudar para padre! 

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O debate de quatro e o candidato Ascenso

O candidato A, o candidato ex-dependente e agora auto-proclamado independente, dizia com orgulho que pensava apenas pela sua própria cabeça e, como pensava apenas com a sua própria cabeça, quando falava, já toda a gente adivinhava o que  ia dizer.

A candidata B, a quem nunca passara pela cabeça ser candidata-cabeça, era candidata porque o primeiro da lista tinha desistido por ter proposta irrecusável para ser gerente duma agência bancária, e o segundo para ser seu segurança e, sendo por lei das quotas ela a terceira, como mulher, calhara-lhe ter de ficar com o menino nas mãos.

Por A e por B, calhara a sorte a C, que mesmo sem saber falar, não falava como candidato mas fazia pose e gesticulava como futuro presidente.

O candidato D, Dependente, nem sequer lá estava. A cadeira vazia justificou-a a moderadora do debate como tendo havido um pequeno percalço, que estaria a caminho e, que não tardaria muito, ele chegaria.
E ele lá chegou meio atarantado e, com a discrição possível, tomou o seu lugar. No pensamento dos adversários que, além dos outros três, era toda a plateia, deu-se como julgado que o D era assim mesmo, um atrasado, e ainda bem que assim era, que por estas e por outras é que, como preterido, não fazia mossa. E o debate continuou.

Falou o candidato C de ser fundamental sanear devidamente as necessidades de todos os residentes e, na sua vez de falar, o candidato D  disse concordar  com ele: que sejam feitos esgotos MAS...

Falou a candidata B de como era fundamental a construção dum aeroporto e o candidato D disse que quando era pequeno também queria ser piloto MAS...

O candidato A achou fundamental convidar o presidente da república para festejar o seu aniversário na Vila e o candidato D disse que também gostava muito da canção parabéns a você MAS...

O candidato A, com interesses no negócio da construção, também achou fundamental a requalificação da estrada 256 e o candidato D disse que também MAS...

A candidata B, cujos sogros tinham uma ourivesaria no centro da vila, achou fundamental a requalificação da rua principal e o candidato D, disse que também achava que já era tempo da estrada nacional 256, que atravessa a vila, fosse transformada numa verdadeira avenida MAS...

O candidato C, disse que, no dia seguinte ao da sua tomada de posse, iria começar as obras dum teleférico da curva da morte da 256 para o centro de saúde e o candidato D disse achar boa ideia MAS...

Acrescente-se também que o candidato A, proprietário dum lar de idosos, prometia um relacionamento harmonioso com todos os párocos, a candidata B, proprietária duma funerária, prometia a ampliação de cemitérios em todas as aldeias e o candidato C, proprietário duma farmácia, prometia aumentar a natalidade aumentando o preço dos contracetivos.
Com estas promessas D disse não concordar MAS...  

E várias voltas dadas por A,B,C,D sem D incomodar, incomodada a moderadora diz:
- Candidato D, se concorda em tudo com os demais porque se candidata?

Foi então que o candidato D puxou do lenço e cuspiu da boca aquilo que parecia ser um dente MAS que era a afinal um pedaço do para-brisas do seu carro - tinha acabado de ter um acidente na 256 e fora por isso que chegara atrasado e tinha dificuldade em falar.

- Candidato-me porque sou dependente do pensamento e do sofrimento do povo MAS...
- MAS o quê?
- Movimento Ascenso e Saúde!

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

O candidato ingenuamente democrata


A RTRegional propôs aos candidatos do concelho do nordeste um debate entre cabeças, no dia xis, à hora ypsilon. 
O candidato Xis, pouco dado com a cidade dos estúdios da RTR, aproveitou a ideia-boleia da amizade com o ambiente e lembrou-se de propor ao candidato Ypsilon que fossem no mesmo carro. Como o candidato Ypsilon tem um carro de classe superior, seria de esperar que se optasse pela maior rapidez e pelo melhor conforto, além de que se trataria duma proposta difícil de desconsiderar dado que, se tornada pública, a ação ficaria bem à saudável convivência democrática e, se recusada, cairia mal aos olhos dos indecisos que são, afinal, quem decide quem ganha em todas as eleições. 

Por estas ou por mais autênticas e sãs reflexões, não houve hesitações, e os candidatos foram ambos no BMW,  fazendo a viagem falando de tudo menos de política.

Quando chegaram juntos ao parque da RTR já os outros cabeças estavam na receção e todos mostraram expressões de espanto pelo facto do Xis e do Ypsilon terem chegado os dois no mesmo carro. Com certeza que pensaram que ali  havia gato, farinha ou artes de geringonça no ar. 

Quando no ar, houve mesmo um deles que fez referência à cena como insólita, fazendo Ypsilon dizer sentir-se orgulhoso por a achar normal e Xis fazer a consideração de que o assunto não tinha interesse algum para o debate.

Mas quando, no calor duma troca de palavras, a discussão descambou e Xis carregou em Ypsilon, este, politicamente correto, cismou uma decisão que ali não poderia verbalizar.

Só quando, no final, ambos se encontraram no exterior dos estúdios, foi dito alto e em bom som:
- Agora vais a pé!
Xis não regressou à terra a pé, apanhou a camioneta.
A história correu e dividiu o eleitorado, havendo quem louvasse a generosidade e o sentido de justiça do candidato Ypsilon e quem defendesse a humildade e a injustiça de que foi vítima o candidato Xis.
E a pergunta é: quem vai ganhar as eleições? Penso que o candidato Ah.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O candidato que não quis ser figurão


Nunca se vira noutra. O homem nunca fora daqueles que se tinha a si próprio como o melhor de todos, nunca tivera ambições de exercer poder, era incapaz de em alguma circunstância se dirigir a uma assembleia eleitoral e dizer "escolham-me a mim!".
Contudo, entenderam os pares que, naquela circunstância, ele era o melhor para derrubar, democraticamente, o poder que punha em perigo a democracia e elegeram-no cabeça de lista.

Nunca se vira noutra. O homem teve três acidentes em três dias, em três rotundas diferentes, o último dos quais com alguma gravidade, porque se desonrientou ao deparar-se com a sua própria imagem no outdoor
Quando se teve de sujeitar às centenas de flashes do fotógrafo, aguentou. Quando soube do preço da campanha, aguentou. Quando lhe pareceu que a frase de campanha surpreendia tanto como o nome de qualquer telenovela, aguentou. Aguentaria tudo imbuído de espírito de missão. Nunca pensou é que o facto de se deparar com a sua própria imagem em cartaz, perturbasse o seu equilíbrio emocional a ponto de o atirar para a cama do hospital. 

Segundo o psiquiatra hospitalar, não foi tanto o impacto do "efeito espelho" que o atormentou mas mais a circunstância de se ver lado a lado com os adversários que abomina, estejam eles sós de meio corpo, aos pares de corpo inteiro, ao monte, em bando ou em matilha, sobre fundos verdes, azuis ou branco sujo, com frases ocas, vazias ou que nada dizem. Sentiu-se igual a eles, sentiu-se um deles e, mais grave ainda, deixou de reparar na moça em biquini que faz jus ao protetor solar melhor de todos.

Assim sendo, caso a força política em causa o queira manter como cabeça de cartaz, dadas as circunstâncias, terá de retirar todos os outdoors, colocar os militantes a colar cartazes nas paredes e a pintar murais, substituir as frases curtas por ideias e contar apenas com o candidato para apresentar o projeto coletivo.

É claro que nestas circunstâncias é mais difícil ganhar mas também é verdade que não será tão fácil perder a face ou a cabeça.  

sábado, 2 de setembro de 2017

Conversa de sábado na quinta

De como o desenvolvimento dos meios de comunicação permite às pessoas viajar tanto e tão depressa.

- Estou no Central. Onde é que estás?
- Estou a comer uma sopa da pedra em Santarém.
- Estou na Feira no lançamento do livro dum amigo. Onde é que estás?
- Estou em Setúbal a beber um moscatel.
- Estou num fórum, num debate sobre a vida. Onde é que estás?
- Estou em Aveiro a comer uma sandes de leitão.
- Estou no 1º de Maio num concerto tão bonito. Onde é que estás?!
- Estou no Porto a beber uma aguardente.
- Estou aqui numa sombra porreira na Madeira. Onde é que estás?
- Estou em Beja a beber um copo com o Norberto.
- Onde é que estás?
- Estou em Évora com um jarro, a Milu e o companheiro.
- Onde é que estás que nunca mais te encontro?
- No Brasil na caipirinha! Está aqui num ambiente do caraças!
- Vem já para Santarém!
- Antes ainda quero passar em Cuba e Angola! 
- Como é que te vou encontrar numar degente?
- "Numar degente"?! Que é isso?! Estou aqui no Algarve à tua espera! Onde é que estás?!
- Estou no Central.
- A estas horas?!
- Então não é aqui que se apanha a camioneta para Leiria?!
- Vou aí buscar-te! Deixa-te estar junto ao pórtico principal!
- Estás aonde!
- Estou aqui mesmo à tua frente!
- És tão linda!
- Estás lindo estás!

A que sábado e a que quinta nos estamos a referir?

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Viva Salazar!


... e estava eu em parte emersa da grande dorsal atlântica e em casa hospitaleira, criando amigos e quando se criam vários há sempre um que mais fica, este à custa da cumplicidade dos cigarros que agora não se fumam à mesa obrigando os que não os dispensam a virem ao luar, conversas que se enleiam no fumo entregue à brisa, Duarte de seu nome, setenta e cinco, cinquenta cinco em Ontário, a primeira vez que regressou à ilha trouxe oito filhos no avião, agora vem sempre ele e a velha em cada Verão, os filhos por lá andam, trabalhou muito e nós falávamos disso e de outras coisas quando deixei cair inadvertidamente um "no tempo de Salazar" logo caçado para ele largar:

- Mas Salazar foi um grande homem!
- Ai, pensei eu, queres ver que tenho aqui mais um dos tais? 

Que quando foi, foi para as minas e que três ficaram numa encurralados, três dias foi o tempo demorado para os salvar, dois não eram portugueses e saíram em mau estado e muito combalidos sem sequer falarem mas o nosso, mal saiu, logo gritou vivas a Salazar.

- Pensei então que o português, embora bem de físico vinha passado da cabeça e perguntei-lhe:
- Homem que é isso? Viva Salazar?
- Sim, devo agradecer a Salazar por me ter habituado a passar fome!

Eu me redimo pela desconfiança, tão perspicaz me julgo e não advinhei a ironia. Duarte continou:
- Puta que pariu o Salazar e os dele que ainda vivem nas cadeiras que ele deixou, os melos, os rebelos e os marcelos, os carneiros, os coelhos e os salgados, era metê-los a todos num bacalhoeiro prós gelos da Terra Nova ou do Canadá e ainda era pouco!

domingo, 9 de julho de 2017

À conversa com o coveiro.


Um coveiro é um homem que não colhe simpatias e é, regra geral, dos homens mais pobres da freguesia. Ele usa um fato sujo onde todos os outros estão de fato domingueiro, ele move a terra enquanto os outros a choram, ele é o que menos ganha e mais trabalha no negócio da morte, ele tem de ser rijo, de olhar esguio e frio. 

A Junta não compra uma máquina porque António Mafra, o Toino, não tem instrução para a manobrar e, por isso, ele continua a abrir as covas à pá e picareta, prestando serviços nos três cemitérios da união de freguesias. Apesar dos seus cinquenta anos, ainda é novo porque vive numa terra de população envelhecida e porque tem muita força. Apesar de haver velhos a dar com um pau também não é todos os dias que morre gente, pelo que Toino dispensa a sua força para outros trabalhos como limpeza de terrenos. Nessas ocasiões, a língua e a expressão dos funerais tranformam-se e soltam-se e ele é outro, conta-me coisas.

Que sabe que lhe pago mas que a outra de Lisboa não o fez e pior que isso:
- Quando a lembrei que me devia da limpeza do quintal dos falecidos, responde-me a puta assim:
- Ó Toino, então não te lembras, paguei-te há uns meses à saída da missa?
- Se me dissesses no café do Costa eu podia já estar com os copos e não me lembrar. Agora à saída da missa? Aí não de certeza porque eu não vou à missa há mais de trinta anos!
- Mas se for preciso eu pago-te outra vez...
- Não! Fica lá com o dinheiro e para a próxima fala a outro!

E outra:
- O padre franciscano que gosta de ver as coisas que o pai lhe deixou muito bem cuidadas falou-me para dar cabo dumas canas. Bem me pus a elas mas tive de falar a um trator para o serviço ficar bem feito. Quando cá veio, perguntou-me quanto era e achou muito:
- Dou só isto e pago-te o resto rezando pela tua alma!
- O cabrão a dizer-me que ia rezar pela minha alma! Então o gajo é muito mais velho do que eu!

- E lembras-te da professora Emília? Tantas que levei dela! E se calhar mereci-as! Aqui há uns tempos veio ter comigo no fim dum enterro.
- Ai Toino, perdoa-me que eu bati-te tanto!...
- Só vejo uma explicação para o arrependimento lhe ter vindo naquela altura. Ela ouviu as pazadas de terra a cair sobre as tábuas do caixão: trum! trum! trum!... trum! trum! trum... e lá deve ter pensado que não tarda é a vez dela e quer que eu seja mais doce.

Isto, para não falar de outras de morte que o seu humor negro solta e que me faz dizer-lhe à moda da canção:
- O coveiro não tem culpa é a sua profissão.



quinta-feira, 29 de junho de 2017

Há que saber distinguir as drogas


Toda a estratégia que países, como Portugal, têm seguido no combate à droga é um fracasso porque parte da ignorância e do preconceito, porque se baseia no desconhecimento e na arrogância, porque idealiza a vitória mas não o acordo, porque se dirige aos números e não às pessoas, porque privilegia a proibição e não a liberdade. Enquanto os comandantes desses combates não mudarem de roupa nada mudará.
Trago há muitos anos na memória esta história persa. Tão simples e diz tanto. Aqui a deixo:

"Três homens intoxicados, respetivamente pelo álcool, pela heroína e pelo haxixe, chegam, durante a noite, às portas fechadas de uma cidade.
O alcoólico grita com raiva: "Deitemos a porta abaixo, com as nossas espadas conseguiremos fazê-lo sem dificuldade"
"Não", respondeu o heroinómano, "Podemos instalar-nos cá fora confortavelmente e descansar aqui até de manhã"
O consumidor de haxixe declara por sua vez: "Que ideia tão estúpida! Passemos pelo buraco da fechadura".


Não vou beber aguardente, não vou snifar, não vou fumar, quero só um copo de água. Estou cheio de sede, andei toda a tarde a tomar banho na barragem, regressei a casa pelos cabos de energia e agora estou dentro da lâmpada da cozinha e não consigo sair. Poder-se-ia concluir que bebi água demais mas a verdade é que estou cheio de sede e não sei o caminho para o interface da canalização elétrica com a canalização de água para poder chegar ao lava loiça e encher um copo. Vou partir a lâmpada, beber um copo de água e depois descansar, que é o que eu faço todos os dias. Será que ando drógado!?

terça-feira, 27 de junho de 2017

Deixem Pedro fazer o seu trabalho

Que Deus Nosso Senhor mantenha muitos anos o Pedro à frente do PSD!
Bem que o Fernando Campos, d'o sítio dos desenhos, o podia ter desenhado mais real: a dar um tiro nos quatro pés. Um tiro nos próprios pés não é suicídio, ninguém morre disso. Que Deus Nosso Senhor mantenha muitos anos o Pedro à frente do PSD!

domingo, 25 de junho de 2017

Como beber um copo de água

Hoje, ao almoço, o meu filho engasgou-se, espirrando de seguida para cima do convidado que estava frente a ele na mesa, deixando-me terrivelmente incomodado e embaraçado. Eu, que só espirro por razões que já descrevi AQUI, repreendi-o:
- Nunca mais aprendes a beber um copo de água!
Ele, visivelmente embaraçado e incomodado levantou-se da mesa e dirigiu-se para o quarto. A forma como os nossos jovens se formam, se deformam  ou se informam põem a família e a escola tradicionais a um canto - encontrei-o a visualizar este tutorial. Vale a pena vê-lo até ao fim para aprendermos que este mundo já não é o nosso e que um engasgo inadvertido ou um espirro mal aparado são, afinal, coisas que nada têm a ver com educação e muito menos complicadas do que beber um simples copo de água.


sexta-feira, 23 de junho de 2017

Uma história que trago comigo


Pedro gozava a beira rio. Preparava a cana, lançava a linha, pescava um peixe, assava e comia. Quando lhe voltava o apetite, repetia os gestos e de imediato um outro peixe lhe mordia o anzol. Pedro passava-o pelas as brasas, preparava o petisco, saboreava o alimento e de seguida passava ele pelas brasas, descansando o dorso nas margens do seu rio.
Um vizinho da faxina, admirado com tamanha sorte não resistiu ao interpelo:
- Pedro, com a tua sorte, podias pôr duas canas e recolherias o dobro de peixe!
- Mas pra quê?!
- Duas? Podias até pôr uma data delas!
- Mas pra quê?!
- Pra quê!? Tivesse eu a tua sorte, comprava uma moto de três rodas com caixa atrás e venderia uns peixes por aí!
- Mas pra quê?!
- Oh! Mas que coisa! Eu com a tua sorte empregaria até uma data de gajos por minha conta e teria peixe para dar e vender!
- Mas pra quê?!
- Lá estás tu! Com a sorte que tu tens poderias até ter uma frota de carrinhas frigoríficas a vender peixe por toda a região!
- Mas pra quê?!
- Então para quê?! Poderias ganhar muito dinheiro, teres uma vida regalada e deitares-te ao sol descansado!
- Mas não é isso que eu estou a fazer?!

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Temos um problema em mãos

Do projeto de vida juntos, juntos os trapinhos, constavam as carreiras, alívios financeiros, meia dúzia de viagens, gozar a vida a dois e, só depois, um filho ou dois, fim comum de qualquer acasalamento.
Evitaram-nos, desde a primeira relação com o "tira antes", camisinhas e pílulas, até que um dia, apesar de por cumprir o projeto inicial, porque a idade da fêmea tem limite para embrionar, decidiram deitar fora os contracetivos e puseram orgãos à obra com muito prazer e muito amor.

Também aqui o projeto veio furado, cinco anos a tentar nada vingava.
Tentaram tudo, especialistas médicos e astrólogos, luas, kamasutras, mistelas e pielas, nem bébé nem meio bébé, barrigas nada!
Ele retirou até o candeeiro do quarto e prendeu no seu lugar duas correias, com comprimento que não chegava à cama, que tinham nas extremidades duas fivelas para atar os artelhos da parceira. Mas não se pense que era para variação de coito, era para que no final do mesmo ela assim permanecesse um tempo, de pernas ao alto, evitando que o caldo se entornasse.
Tentaram de tudo, coisas que não se podem dizer aqui, como aquela de ela se ter arrumado com um colega de trabalho numa arrecadação, traição por razão superior não é traição, se desse só ela saberia, pois que a condição dos homens, nestas coisas, nunca permite averiguar toda a verdade nem fazer coisa parecida: não lhe era possível a ele enganar a mulher, fazendo passar por filho dela, o filho que afinal era dele com outra.

Tentaram tudo e, quando já nada se esperava, uma paragem em Fátima, uma velinha e zás! Milagre ou coincidência?

Para não incomodar o feto, sexo tá quieto! Também, depois de tanto copular, o sexo não lhes interessava nada, agora a vida a dois realizava-se à volta daquela barriga, o climax seria quando se fizesse luz e uma nova vida, a três, desse um menino ou uma menina, o sexo não lhes interessava nada, que cumprisse no futuro as carreiras, os sucessos e as viagens que eles não conseguiram.

A partir daí, toda a vida social e familiar, todo o trabalho e rendimento disponível, foram para servir a felicidade e o bem estar do tão desejado, o príncipe - eu quero o melhor para o meu filho, o meu filho nunca me pediu nada que eu não lhe desse, o meu filho é tudo.
E diga-se que na formação do monstrozinho em crescimento também muito contribuíram os avós - é tão esperto o meu netinho, deixo-lhe fazer tudo o que ele quer, meu neto vai ser doutor.

E então, como é normal, o puto foi para a escola, assim educado e protegido, o maior, o intocável, e dotado dum telemóvel topo de gama.
Os médicos, os polícias, os professores e todos os profissionais que com ele interagiam, além de incompetentes, eram incorretos, não mereciam aquilo que ganhavam,  viviam às custas dos impostos dos pais e dos avós - aprendeu ele em casa desde pequeno.

Não deu o meio familiar por conta que a criatura se marginalizara progressivamente também deles, absorvido pelas consolas, pêcês, têvês e telemóveis e que o seu olhar estava dependente dessas radiações. Deixou de ver o mundo, se é que alguma vez o viu. Nunca reparou numa andorinha, numa folha seca ou num motor de rega. Acordaram os ascendentes quando repararam que a filha da vizinha fazia salivar qualquer um, homem ou mulher e que, embora também princesa e da mesma idade, não fazia tirar a atenção do telemóvel ao príncipezinho.
- Há qualquer coisa que não está bem com o nosso filho!
- Pois não, está ligado à máquina! Temos um problema em mãos! - disse eu e tu e tantos outros, que tantos somos os que temos em mãos um problema destes que é de todos.

- Atão e eu? Que raio estou eu a fazer? Comecei tão bem este texto ontem e hoje derrapei para a vulgaridade! Estou a sair-me mal! Preso aqui à máquina com tantas coisas outras para fazer! Bem sei que temos um problema em mãos com as novas gerações mas como se  costuma dizer "quem os pariu que os ature!" e se não estiverem para isso, é para isso que servem os professores! Não é para fazerem greves!

Todos os professores deviam ser bombeiros

Os alunos que frequentam as escolas dos concelhos atingidos pela tragédia dos incêndios irão realizar os exames nacionais em datas posteriores e o governo adianta que não serão de forma alguma prejudicados por essa alteração. Decisão esperada e acertada mas que põe por terra um dos principais argumentos que levaram à requisição de serviços mínimos para a greve de professores marcada para um dia em que decorreram exames nacionais: a mudança de data destes exames prejudicaria gravemente os alunos.

Para essa requisição o governo socorreu-se dum colégio arbitral, constituído por três doutores que votaram dois contra um,  cuja decisão se refugia, no essencial, na falta de objetividade do termo "impreterível" utilizado no texto da Constituição.

Das razões do governo podem ler-se estes dois excertos:
   
"Defende o ME que a realização dos identificados exames e prova de aferição é uma necessidade social impreterível...
... que os alunos têm o direito a verem realizadas as suas provas e exames em condições de igualdade, e que poderão ocorrer repercussões negativas na alteração do planeamento e organização dos tempos de férias de milhares de familias"

Ora deixe-mo-los ficar com o endeusamento nacional e o cerimonial em que se converteram, ano após ano, as provas de exames nacionais e admitamos que adiar um exame é tão grave como adiar um casamento e concentre-mo-nos nas contradições que põem a nu o verdadeiro caráter das suas intenções de limitar o direito à greve:
- As provas de aferição visam avaliar o sistema e não os alunos. Ao sabor dos ministros, podem existir ou não existir, podem ser em qualquer altura do ano e têm tido formas distintas de aplicação pelo que considerá-las uma necessidade social impreterível só pode ter sido lembrança do diabo anunciado.
- Se o exame fosse adiado para um dia em que os jovens dos concelhos atingidos pelos incêndios também pudessem fazê-los, aí sim poderiam existir condições de igualdade, assim não.
- Sobre a organização dos tempos de férias de milhares de famílias mais vale não dizer nada. 

Se todos os professores fossem bombeiros provavelmente, hoje, o impreterível teria mudado o seu significado. Assim, esta greve, foi só fumaça!

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Nada, puta!

Dizia eu à rã, que apanhei na represa de onde a minha mãe regava o milho, quando a levei para o tanque onde a minha mãe lavava a roupa: nada, puta!

E ela tanto nadava tanto como não nadava nada. E eis o mote que me levou, mais uma vez, a escrever sobre nada, com prazer, esperando que outros desfrutem do prazer de ler qualquer coisa que não diga nada. Temos essa necessidade, a mesma que temos ao jogar Tetris no PC ou à paciência com o baralho. De facto, muitas vezes procuramos o nada para descansarmos dos discursos do nosso dia a dia, das guerras e tragédias do noticiário, do livro sério que nos faz pensar, das lutas e causas em que estamos ou devíamos estar, das manápulas que nos empurram os olhos contra a areia, dos vírus, bactérias e gostos alimentares que atormentam a nossa saúde, da torneira a pingar, dos desgostos que o próximo nos inflige, da falta de sono que tanta coisa nos provoca, do imperativo de termos de trabalhar para o pão nosso de cada dia.

E aqui estou eu, sem nada para dizer, com a única intenção de vos levar a ler até ao fim um texto que, não engano, nada vos vai dizer.
Provavelmente, ontem ou hoje, já destes por vós numa palestra ou num encontro, onde tivestes de gramar com um orador que sacou dum power point, de que não se percebia onde queria chegar ou que simplesmente falou muito bem sem nada dizer, porventura, um texto que, pretendendo dizer muito, não dizia mais do que este, ou ouvistes com paciência uma colega ou uma vizinha que fala, fala, fala e não diz nada.

Pois ouçam-me, ou pior ainda, tendo em conta que ler é um ato muito mais voluntário do que ouvir, leiam-me, avisados de antemão que daqui não vão levar nada porque é de nada que estou a falar. Assim, tipo uma cantilena onde as palavras se encadeiam sem propósito maior a não ser desfilar, uma cantiga de aí ou ai, uma canção de ó baby, baby, um mestrado sobre a influência da oralidade nas relações sexuais, uma homilia do capelão solteiro num casamento gay, um  discurso do presidente da assembleia de freguesia numa entrega de prémios, assim mesmo farei, ou melhor, estou fazendo. E volto a avisar, sei onde isto vai chegar, não sei quando vai parar.

É um prazer do caraças escrever sem ter de pensar naquilo que se vai dizer, sem ter de estar preocupado em ser  mal entendido, em falar demais sobre aquilo que se é ou se pensa, em ter um objetivo de expressar uma opinião ou ideia. Oh como é bom escrever só por escrever e escrever sobre nada, estando-me nas tintas para quem largou a leitura no primeiro parágrafo e agradecendo a companhia àqueles que continuam a ler com o mesmo carinho amigo com que ouvem o colega ou o vizinho que fala, fala, fala e não diz nada.

Aguentem, estava agora mesmo para ficar por aqui mas lembrei-me outra vez que não sou nada original nesta ideia de falar ou escrever sobre nada. Isto da alfabetização, das universidades a pontapé, dos canais de televisão às mancheias, dos palcos desmontáveis e microfones sem fios, das redes sociais, dos reis auto-coroados em blogues, deu origem a um autêntico cataclismo de sabedoria inócua.

É muito fácil ver um porco a andar de bicicleta, o difícil é ele fazê-lo. É muito difícil um porco ser homem, já o contrário é facílimo. É difícil a um homem assumir a sua suinidade e eu acabo de fazê-lo. Estou a ser um pouco porco, a sujar o vosso precioso tempo em que vos predispusestes a entreter-vos, a resistir a uma leitura sobre nada e, de repente, por distração minha, já estávamos aqui a falar de porcos e outras coisas mais sérias sobre homens porcos. Não tarda muito estarei a falar sobre outras porcarias e eu não quero. Afinal de contas, escrever sobre nada é mais difícil do que eu pensava. Parabéns a todos os que desenvolvem a sua atividade política, profissional, social e familiar, fugindo de conversas sérias e falando com ar sério sobre nada.
Só me faltava que, no fim de tanto esforço, alguém me viesse dizer que escrevi sobre alguma coisa! Não, estive apenas nadando nas palavras, frases nadas, nascidas como os pardais, paridas como os ratos para uma existência  sem sentido mas ainda assim com vida.

Por uma questão contabilística agradecia que quem leu até ao fim assinale "boa patada" ou "uma porcaria". Bom 10 de junho!