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quarta-feira, 12 de março de 2014

24- A Fábrica em filme

Um filme de 1978. Foi gravado, sucessivamente, em fita super 8, em VHS, em DVD e agora em MP4. Não tem qualidade nenhuma. Ainda tentei compô-lo mas acabei por reconhecer que lhe estava a retirar a autenticidade. As personagens autênticas desta história andam por aí. Esta é a prenda final que ofereço a todos os que me acompanharam até aqui.



(sei que alguns leitores desejavam ardentemente o fim, mas isto tinha de chegar ao número 24 e no dia 24 – sou muito aritmético)

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

23- A Fábrica pra quê

Passámos a noite junto à fornalha da caldeira. O último contacto que tivemos, eram cinco da manhã, foi um telefonema da mulher do Cossa a perguntar se queríamos café. Continuava a ser Dia de Portugal. Pelas sete horas, depois de termos saboreado o dito café e da partida da serviçal, começou-nos a bater a lucidez maldita. Não se via vivalma, nem povo, nem guarda, nem TVI!
- Podíamos incendiar tudo e fugir para a Ribeira de Pracana!...
- Pra quê?!...
- Podíamos telefonar para a TVI!...
- Pra quê?!...
- Podíamos ir a casa do patrão e fazê-lo refém!...
- Pra quê?!...
- Podíamos ir cada um para sua casa!...
- Pra quê?!...
- Podíamos ficar aqui por mais uns dias!...
- Pra quê?!...
- Podíamos telefonar para umas companhias?!
- Pra quê?!...
- Podíamos!... Podíamos!... Podíamos!..........
- Ora experimenta dizer, “podíamos”, puxando os cantos da boca com os indicadores!
- Hoje é Dia de Portugal e nós aqui! Portugal não quer saber de nós para nada!...
- Portugal não existe, é uma miragem!
- Calma! Ainda não chegámos ao fim!
- Podíamos ao menos identificar a qual de nós pertence cada uma destas bocas!...
- Pra quê?!
- Podíamos escrever a história desta fábrica!...
- Pra quê?!
- Podíamos fugir naquele carro de mão!...
- Pra onde?!
- Prá…Pró… ai que já ia dizer uma asneira!...
(sei que alguns leitores desejam ardentemente o fim mas isto ainda não acabou)

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

22- A Fábrica no Dia de Portugal

Tocou o telefone, o indicativo é da terra, é o número do meu primo. Só me telefona quando morre alguém ou há outra desgraça.
- Amanhã não trabalhas! Tens de vir cá!
- Qual é a má notícia desta vez?!
- Nem queiras saber, está para aqui uma cena que se fosse em Lisboa já estava a dar em directo nas quatro televisões!
- Desembucha lá homem!
- O Cossa está barricado na Fábrica, regou por lá tudo com agua-rás, está armado com a sua caçadeira e ameaça incendiar aquela porra se não lhe fizerem as vontades.
- Mas o que é que lhe deu?
- O dono daquela merda agora - não o conheces?! - é um tipo lixado! Parece que lhe disse que não precisava mais dele, que ia fechar a fábrica e que indemnizações só em tribunal! Sabes como é o Cossa, não está com meias medidas!...
- Eu vou para aí!
- Espera aí pá! Tem calma! Deixa-me pôr-te ao corrente da situação!... Alguma malta cá da terra tem estado na estrada a tentar falar com ele! Ele responde lá de dentro mas não se deixa ver! O patrão já deve saber do caso mas não atende o telefone! Ninguém quer chamar a polícia!... Acontece que, não só eu, alguns acham que tu és a pessoa indicada para vires aqui falar com ele e resolver o problema. Porém, há também umas almas que afirmam que o culpado disto és tu que lhe meteste ideias destas na cabeça!
- Nada que surpreenda! Eu vou já, daqui a uma horita estou aí!
- Calma, podes vir mas não apareças no local sem eu te telefonar! Vou para lá preparar o terreno! Sabes como é a populaça, se lhes der para te coçarem, coçam-te, se lhes der para te eleger, elegem-te!...

Com o terreno preparado, estacionei na estrada junto à fábrica. Estariam por lá duas dúzias de pessoas das quais, uma, seguindo o meu primo, cumprimentou-me, incentivou-me e sugeriu-me procedimentos. A outra dúzia manteve-se afastada deixando perceber entre os olhares a reprovação da minha pessoa, mais do que da minha presença. A santa esposa do Cossa veio ter comigo com uma alcofa e sussurrou-me baixinho:
- É para vocês comerem e beberem durante a noite!
Dirigi-me, no passo de todos os meus afazeres, para as instalações onde o Cossa estava, sem cautelas, sem receios, sem protagonismos, com segurança, confiança e em causa própria.
- Alto! Quem vem lá?!
- Ribeira de Prá quê?!
- Prá cona! Contra-senha confirmada! Só podes ser tu!...
- Diz-me lá camarada o que estás aqui a fazer?
Apontou-me para o topo dum depósito onde tinha exposto um pedaço de barrote com uma palavra escrita em baixo relevo. Estivera um dia todo entretido com o canivete a escavar na madeira a sua obra de arte cuja mensagem se resumia a uma palavra.

Teorizou sobre as mais diversos significações da palavra e, esgotada a filosofagem, devolveu-me a pergunta inicial:
- E tu? Diz-me lá camarada o que estás aqui a fazer?
Tentei demovê-lo e convencê-lo de que poderiam existir outros caminhos. Mas Cossa não era um homem qualquer, era meu amigo! Não partira para um acto daquela natureza de ânimo leve. Sabia bem porquê, para quê e a quem se dirigia! Tinha muitos anos de fábrica! A fábrica, mais do que dos seus sucessivos proprietários, sempre fora da aldeia, dos que lá trabalhavam e, neste ponto da história, sobretudo dele! Eu não tinha razão e, sobretudo, não tinha direito, para pensar diferente dele. Enconei um pedaço de cartão que encontrei à mão para servir de megafone, posicionei-me num local onde podia ser visto pelos populares que se encontravam na estrada e :
- Caros conterrâneos, esta fábrica é tanto nossa quanto vossa! Era só um, agora somos dois! Chamem a guarda, a polícia, o presidente da junta, a TVI! Nós só sairemos daqui com um papel de doação, assinado pelo dono ilegítimo destes barracos! A fábrica é nossa! A fábrica é nossa! A fábrica é nossa! ...
O Cossa enrolou-me o braço à volta do pescoço, puxou-me para o interior das instalações e começou a largar velhas lágrimas que tinha acumulado ao longo da sua vida.
- Diz-lhes que se riscarmos o fósforo não será só a fábrica que arde, é o lugar inteiro que irá pelos ares! Eles não têm o direito de se acobardar! Isto não tem só a ver comigo ou contigo, tem a ver com eles!
Cumprida a ordem, trocámos mais umas ideias, tentámos sossegar e deitámos mão ao farnel que a mulher do Cossa me deu de encomenda. Às onze da noite já não se via vivalma. Está tudo calmo. Fui buscar o portátil ao carro e redigi este post sob a supervisão do Cossa. Já passa da meia-noite. Já é Dia de Portugal.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

21- A Fábrica sem título

A cena da despedida não exibiu emoções mas certamente que nos cumprimentos cruzados, nos desejos de saúde, nas promessas de novos encontros e no “até qualquer dia” final, cada um pressentiu a hipótese mais certa de nunca mais nos voltarmos a ver.
Os abraços de despedida de Laurindo foram como se ele tivesse aprendido a abraçar com os abraços que lhe havíamos dado à chegada. O tempo curto da visita parecia que se tinha transformado em anos de vivência em conjunto.
Pelo retrovisor gravei a imagem de mãe e filho manuseando adeuses enquanto o Cossa, com o pescoço esticado para fora da janela e falando cada vez mais alto para vencer o crescendo da distância, deixava a sua marca com bocas desmedidas:
- Oh Laurindo, ainda hei-de ser pai dum meio-irmão teu!...
Só quando se perderam as vistas, o desbocado se acomodou ao banco e pôs o cinto.
- Ela ainda estragava meias solas!...
- Cala-te! Laurinda tem idade suficiente para saber que cão que ladra não morde!
Não viste que se despediram de nós como se fôssemos os únicos amigos, a única família que têm?!....
- Realmente parece que não vive aqui mais ninguém! Lá por causa disso não quer dizer que vás fora-de-mão!...
- Cala-te! Deixa-me arrumar os pensamentos e os sentimentos!
- Quais sentimentos, quais caralho! Por acaso morreu alguém?! Além disso, para teres pensamentos não podias ter essa cabeça de leitão! Paramos mas é na primeira tasca que eu vou com sede!
Esta excitação do Cossa, o seu exibicionismo palavroso e a fuga do assunto incomodavam-me mas eram um sinal de que ele também pensava e sentia.
Pelo caminho ligou à patroa:
- Oh querida, ao jantar quero sopa de carne de porco e arranja para mais um!
Depois de desligar virou-se para mim:
- Percebeste esta?! Mais um!... Mais um porco!.... Ah!Ah!
Boa sopa, bom serão, tudo bem temperado pela hospitalidade da boa companhia.
- Oh homem, estás sempre a pôr picante na conversa! Oh João, faço ideia, isso é que foi um dia a ouvir falar português!
- Acabei por ficar com os ouvidos rotos! Fiquei com a sensação que me entrou uma varejeira no carro e que, por demais que abrisse os vidros, nunca a consegui calar!
- Pois é, as varejeiras andam sempre por perto dos montes de merda!
- Cala-te homem dum cabrão! Sabes lá João, o que é viver a vida inteira com este raio!?
- Não adianta esticar a conversa! Já chega de asneiras! São horas! Agora já só cá volto quando a fábrica fechar!
- Raios te abrasassem!

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

20 - Da fábrica com saudade

Laurindo acorreu ao chamamento da mãe e abeirou-se com servil prontidão.
- Não te lembras da fábrica?! Não te lembras destes senhores?!
- Não! Não me lembro de senhores nenhuns, só me lembro do João…, do Cossa e…
Perante a gargalhada geral, Laurindo percebeu:
- Ah! São vocês?!
E dizendo isto, estendeu-me a mão. Por este curto e tímido cumprimento não esperava eu! Puxei-o para o abraço que ele não arriscara e acrescentei-lhe umas valentes palmadas nas costas com umas frases próprias para a ocasião. Cossa puxou pelos seus modos e, agarrando-nos aos dois, intensificou e prolongou o abraço rematando a sua intervenção com uns encostos forçados das nossas duas cabeças e com frases menos próprias – à Cossa!... Quando nos separámos ainda tive tempo para observar Laurinda a limpar os olhos com as costas da mão, ao mesmo tempo que o Cossa me substituiu nos abraços ao Laurindo rodando-o e levantando-o até este não ter os pés no chão.

- Não! Acabámos de almoçar!
- Pelo menos broa com azeitonas e um copo de vinho!
Laurinda dirigiu-se a casa para preparar o petisco e ficámos os três sentados num resto de muro antigo de xisto que aparentava textura de desempenhar essa função habitualmente. Laurindo só falava quando interrogado mas comunicativamente há alguns minutos que, sentado a meu lado, conservava o seu antebraço pousado no meu ombro. O Cossa, num gesto de punho fechado e braço descaído em vai-vem, provocou-o:
- Então Laurindo e ... (movimento de braço)… nada?!
O atingido reagiu com um sorriso que deixava perceber que o Cossa se lhe arrancava da memória e, num surpreendente contra-ataque, muda de tema sem mudar de assunto:
- O bigode não te estorva?!
Porque tanto gostava de as mandar, o Cossa também as recebia. Engoliu com dificuldade e abriu novamente a boca para dizer novas asneiras:
- Se não viesse ali a tua mãe eu dizia-te!

A nossa senhora estendeu um pano sobre o muro e pousou meia broa, uma faca, uma tigela de azeitonas, dois copos e um jarro com vinho. Mesa composta, começámos então a pôr a escrita em dia. Laurinda contou-nos da morte de Canicha e nós contámos também os nossos mortos, falou-nos da sua vida e do seu filho – que continuava a seguir-me os movimentos e as palavras só intervindo quando o Cossa o picava – nós falámos de nós e da Terrinha. Não nos convidou para entrar em casa mas convidou-nos para ir ver a sua horta que ficava a uns cem metros, encosta a baixo, junto à ribeira de Pracana.

“- Prá quê?!” – içava sempre o Cossa cada vez que o nome da ribeira atravessava os diálogos.
A paisagem circundante, ferida pelos grandes incêndios, levou-nos ao incontornável tema:
- Foi aqui o inferno já por duas vezes, à primeira levou-nos os bens, à segunda levou-nos a esperança, para a próxima leva-nos a alma. Esta terra nunca mais foi a mesma e nós também nunca mais fomos os mesmos. Evitamos falar disso, isso é política!
A horta de Laurinda e de Laurindo era de se lhe beijar os cambalhões e a fertilidade. À medida que a obreira ia mostrando, ia devastando e pousando nos nossos regaços, tomates, pepinos, alfaces, couves…
- Oh Lindo vai buscar dois sacos dos de adubo ao alpendre! Isto vai estragar-se, nem dá para comer tudo, nem para vender! Este ano não tem sido muito bom mas como vêem…
- Mas cachopa, não foi a isto que viemos!...
- Deixem-me dar!...Deixem-me dar o que não vos dei estes anos todos e o que não vos vou dar nos outros que aí vêm!.... Deixem-me dar!...
No regresso emborcámos a colheita na bagageira do carro e, na oportunidade, entregámos também as nossas prendas, os garrafões do Cossa e os meus lenços de cabeça.
- Para que são dois lenços para a minha mãe se ela só tem uma cabeça!?
Laurinda percebeu que o seu destino inicial era para a falecida irmã e aguardou a minha explicação.
- A tua mãe tem só uma cabeça mas ainda tem muito Verão para aguentar! Toma lá para ti uma boina de pastor!
Tomou-a na mão enquanto mirava a que eu trazia e:
- Ofereço-te esta que me ofereces! Prefiro ficar com a tua!
Disse, devolvendo-me o embrulho e sacando-me da cabeça a minha boina de estimação que tanta estima me deu, mudar de dono.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

19- A Fábrica em viagem

Nos termos combinados, no passado sábado, fui buscar o Cossa a sua casa para a viagem. Entrou no carro com dois garrafões de cinco litros, um de azeite e outro de vinho. As minhas prendas seriam uma boina e dois lenços para a cabeça.
Saímos da A23, almoçámos em Mação e tomámos a direcção da pacata aldeia da Ribeira de Pracana. Aí chegados, a memória do Cossa, que lá havia estado em tempos idos na função de ajudante de camionista, fez o resto. Apontou-me um corte em terra batida por uma ladeira íngreme que desaguava num arrabalde de aldeia com meia dúzia de habitações espalhadas e mais umas tantas eiras, currais e telheiros em ruínas.
Um homem, de andar trôpego, atravessou-se-nos na estrada, meio aflito, tentando desviar as suas ovelhas para as bermas.
- Só pode ser ele! Pára aí! - ordenou-me o co-piloto enquanto abria o vidro para inquirir o pastor. Os seus cinquenta anos não lhe levaram o ar de criança. Uma expressão multifacetada entre o espanto, o receio, a curiosidade e a reserva dirigiu-nos a atenção enquanto, nas suas costas, as suas ovelhas geriam a autonomia dos seus movimentos e da vegetação que encontravam “à mão” para ocupar a boca.
- Olhe lá, andamos à procura de um tal senhor Laurindo que fugiu à tropa!
- Eu não fugi à tropa!... Não passei na inspecção!
- Não ligues ao Cossa, Laurindo, sabes como ele é!
Laurindo não nos topou, continuou revelando as mesmas expressões e, atrapalhado, encomendou-nos, aguardando suspenso a nossa reacção:
- A minha mãe está ali, em cima, em casa.
Estávamos a cerca de trinta metros da habitação de duas águas, com um alçado principal de porta ao meio e com uma janela de cada lado. Pus a mão no braço do Cossa transmitindo-lhe, nesse gesto, a sugestão de que seria melhor avançarmos para atenuarmos o choque que poderíamos causar no coração do nosso amigo que ainda não nos havia reconhecido. Conduzi, entre as ovelhas, em marcha lenta, quase no mesmo andamento em que seguia Laurindo em direcção à porta da sua casa.
- Oh mãe!
- Que é rapaz?! Já vou!
- Estão aqui os fiscais da Câmara!
Ao mesmo tempo que saíamos do carro, Laurinda aparecia na soleira da porta, enquanto o filho, de ar mais recomposto e olhando-nos num soslaio inofensivo, se dirigia às ovelhas com ordens e movimentos de as levar ao curral. Resistindo à vida, ali estavam as duas personagens que a minha memória parecia ter sempre acompanhado até este momento. Claro que estavam mais velhas, mas mantinham o essencial dos seus portes, das suas expressões, dos seus olhares.
Caminhou na nossa direcção revelando a vista curta e parando a uns três metros de distância. Os tiques do Cossa denunciaram logo a sua identidade.
- Eu não acredito! Que andas tu por aqui a fazer homem!? Aqui já não há pinheiros, nem resina, nem coisa que se leve!
- Mas existes tu minha cara linda, minha coisa fofa!... Dá cá um beijo dos teus ao Cossa!
E, ao dizer isto, aproximaram-se atabalhoadamente um para o outro desatando num, igualmente atabalhoado, abraço que terminou, ao fim de algumas interjeições, com o afastamento que deixou espaço à mútua contemplação.
- Tu estás na mesma!
- Estou, estou, eles é que pesam!
Compostas estas trocas esperadas e comentários à visita inesperada, lembraram-se de mim.
- É o teu mais velho!?
O Cossa inchou o bigode de indignação e largou das dele em toda a volta:
- Porra! Olha lá bem para os dois! Tu achas que esta cara de caminheta estampada alguma vez podia ser meu filho?! Não me digas que não sou eu que pareço ter idade para ser filho dele!? … É o meu empregado!
Laurinda riu da brincadeira e dirigiu-me a palavra num tom respeitoso:
- Você já o deve conhecer! Temos de lhe dar o desconto!...
- Mas tu pensas que estás a falar para algum doutor?! Não me digas que não tiras a pinta a esta prenda que aqui te trago?!...
Laurinda mediu-me, olhou-me dos pés à cabeça e fixou-me o rosto.
- Não, não vou lá! É o filho do…
- Do Toino porra! É o João!
- Ai! Ai é o Joãozito!... Ai Joãozito que eu já não te posso agarrar ao colo! Oh Laurindo! Oh Laurindo! Vem cá rapaz! O que é que tu andas para aí a fazer! Ai aquele rapaz não os reconheceu! Ai que lhe vai dar uma coisa quando souber que és o João!... Oh Lindo!...

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

18 - A Fábrica em fim

Não conseguimos perceber a origem do corte de energia, as ruas da aldeia continuavam com iluminação. Sobrecarga?! Curto-circuito?! Algum conterrâneo incomodado pelo ruído da fábrica em funcionamento teria vindo pela calada da noite sabotar a laboração extraordinária?! O patrão estaria para lá escondido em algum lado?! Àquelas horas da madrugada, e nas circunstâncias descritas, nem o verdadeiro operário – Cossa, nem o falso operário – eu, estávamos para investigar, solucionar ou ralar-se fosse com o que fosse. Entendemos aquilo como um sinal de Fim: acabava a noitada, o encontro, a conversa, o vinho, o trabalho, a fábrica operante e, por acordo entre o Cossa e eu, esta história da fábrica.
Despedimo-nos chochamente, como quaisquer tertúlianos no fim duma longa noite, com a satisfação do dever cumprido e a consolação de que ambos iríamos ter uma terça-feira da Páscoa na cama até ao meio dia.
Isto passou-se, portanto, há três semanas. Cheguei a casa com quase tudo escrito, decidido a levar à séria que o apagão seria o fim da história.


Hoje mesmo revi os comentários da Fábrica 17.
O André D'Abô diz que a fábrica está a todo vapor e que gosta muito destas personagens;
O Compadre Alentejano diz que está gostando muito do conto e mostra-se preocupado com a ameaça de desemprego do Cossa;
A Maria diz que o texto é bonito, a foto é bonita (Ó Maria, sou um desastre em fotografia!) e continua por aí fora com os seus sempre ternurentos, brincalhões e amigos comentários;
O Antonio Implume diz que a coisa está animada e deixa perceber, nas entrelinhas, que tem capital para me apoiar na compra da fábrica para criar uma unidade de turismo industrial;
O Marreta, o Marreta quer é sexo!
O Salvoconduto sonha com o lay-off para o Cossa que nem sequer sabe inglês;
O Guardião ficou contente porque faltou a luz revelando que sempre gostou de estar numa adega às escuras;
A Nocturna também se confessou feliz pela falta da energia e também falou da abertura de Torneirinhas às escuras;
A Milu diz que o texto era tanto espirituoso quanto ternurento e riu-se;
A Silêncio Culpado diz que não é vegetariana mas que gostou do verde da foto.
Adesenhar protestou pela palavra lay-off ser inglesa e disse que voltaria quando as lâmpadas se reacendessem.
JRD está preocupado com o nível da gasolina na mota e diz que isto é negra maravilha.
O Maceta diz que os cães também têm direito a ter um bom ano.
O Mar Arável só pensa no novo ano.
O Do Zambujal diz que continua excelente leitor.
O Herético diz que faço bem as contas. 

Por si só, embora recompensadores, estes comentários não seriam suficientes para continuar a trabalhar na fábrica. Acontece, que também hoje, recebi um telefonema do Cossa com uma sugestão prometedora:
- Está lá?! É da casa do comuna?!
- Não! Não preciso de uma máquina de purificação da água!
- Contra-senha confirmada!...Só podes ser tu! Ouve lá…
A ideia é irmos descobrir, lá para os lados de Mação, o que é feito de Laurindo, de Laurinda e de Canicha. Está combinado para o próximo sábado. Vamos ver se arranjamos história para mais uns episódios.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

17- A fábrica de noite

A fábrica de noite tem um ambiente surreal: os ruídos, as sombras, as penumbras, a visão dos candeeiros da aldeia entre os portais dos barracões e hoje, pelas circunstâncias desta narrativa, acrescentam-se duas almas de falsos gémeos. Esta fábrica, que costuma passar a noite só, sente como um cão de cabelos brancos, o Cossa é o seu dono, eu faço-lhe festas.

- Deixa lá a puta da computadora e passa cá a tarrafa!
- Olha lá como tu estás a chamar tarrafa a uma gafarra!
Com este diálogo estava dado o mote para o resto da noite. Era já suficientemente tarde para não surpreenderem os esperados toques dos telemóveis de ambos. Primeiro foi o do Cossa.
- Sabes bem que não saio daqui enquanto não acabar com o trabalho. Amanhã tens-me todo, todo o dia! Vai para a cama descansada mas vai sozinha pois bem sabes que eu posso aparecer a qualquer hora!
Quase de seguida tocou o meu.
- Deixa-me viver o primeiro dia do resto da minha vida! Sabes bem como gosto destas experiências amalucadas, sabes como gosto da minha terra, como sou saudosista e, além de tudo, sabes bem como preciso de dar de comer ao blogue se o quero ver gordo e em acção de vender! Precisamos de dinheiro para comprar um colchão novo.
Obviamente que devo omitir as perguntas e as respostas que saíram do outro lado. Mais, como se não bastasse, enquanto falávamos, o Cossa pôs o rádio em altos berros e não saía da minha beira, largando palavras em sotaque brasileiro e sons esganiçados no intuito de me comprometer com outros ambientes. Resultado: a moça, a minha moça... a minha mulher... a minha esposa... desligou!...

Na sequência destas comunicações começou a bater-nos uma certa lucidez.
- Sabes comuna, quando estiver destilada a resina que tenho no estaleiro cheira-me que será o fim. Já há uns tempos que o patrão me anda com rodeios a dizer que a coisa não dá, que a coisa já deu, crise prá aqui, crise prá acolá, para eu arranjar outra coisa. E eu, como não acredito, nem quero, nem posso, nem devo, acabo sempre por o mandar para a outra coisa!...
- De qualquer forma, tens os filhos criados, poderás não conseguir outro emprego mas terás sempre direito a uma boa indemnização, além de que darás sempre por aí um jeito a este e àquele, mais uma porca, duas ovelhas, três galinhas, umas couves e umas batatas, acabarás por viver como sempre viveste.
- Dizes bem, como sempre vivi, que nem um cão! E eu sei lá viver de outra forma?!
Para afastar os pés da terra e voltar à galhofa com que sempre nos relacionámos, provoquei-o com um gesto de mãos e, sem arriscar muito na “raça perigosa”, dirigi-me a ele como a um cão:
- Busso! Busso!...
- Levas-me com o cabo desta forquilha nos costados que nunca mais dizes “cão”! Comuna dum cabrão! A culpa é dos comunistas que queimaram os pinheiros todos! E dos chineses que trabalham por uma sopa! Cem por cento dos trabalhadores desta fábrica vão para o desemprego e tu, meu cão de merda, ainda te ris!?
- Havia de chorar!? Pois não é verdade que sabes que não penso como tu mas sinto como tu!? Já me viste a fazer tudo: a lutar, a trabalhar, a cantar, a rir, a chorar e até a cagar!...
- É verdade, só nunca te vi a … diz-me lá, quando vinhas da estação com a filha do Torneiras, ali no Vale da Porca, não te faltou a gasolina na mota?!
E ia eu para lhe responder, com toda a sinceridade, quando faltou a energia em toda a fábrica.
- Só me faltava esta! Não me bastavam as candeias da adega cooperativa sem azeite e agora até as lâmpadas se apagaram! Que se lixe! Apagaram-se as lâmpadas mas também pararam as máquinas!

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

16 - A fábrica do Torneiras

- Como não viste?! Ficaste de cabeça no chão, virada para cima, mesmo debaixo das saias da senhora?!
- Pois fiquei mas não as vi porque ela não as trazia!...


Todos os operários bebiam os seus copos mas bêbado e tido como tal, só o Torneiras. Apesar disso era um dos homens mais qualificados na casa sendo que a sua especialização consistia basicamente em vigiar termómetros, pressostatos, relógios e outros instrumentos de medida analógicos e, sobretudo, abrir e fechar torneiras. Como as bebidas também saem de torneiras, e porque “homem que bebe muito anda sempre de torneira na mão”, a alcunha pegou-se-lhe que nem resina.
Torneiras começava pelas 10 horas da manhã a vasculhar as lancheiras dos mais distraídos para provar, meio a brincar, meio por necessidade, as pingas de cada um. Para avaliar o seu estado alcoólico bastava observar a posição da sua boina na cabeça: “completamente são” – pala alinhada com as sobrancelhas; “a um quarto” – ponto médio da pala entre o olho e a orelha direita; “a meio gás” – pala de lado; “completamente bêbado” – pala completamente virada para trás.

Estávamos nós – lembram-se, noite dentro na Fábrica!?... – a recordar, quando o Cossa me atira com a filha do Torneiras, que hoje é dentista. A filha do Torneiras tinha em comum comigo algumas coisas: tinha “jeito” para estudar, gostava de estudar, queria estudar, vivia numa aldeia em que eram raros os jovens que estudavam, a fábrica era-lhe familiar, era filha de um operário e continuavam a nascer-lhe irmãos. De diferente teríamos o sexo e o facto de eu tecer um fraquinho por ela que ela não tecia por mim.
A filha do Torneiras, em períodos de férias escolares, ia levar o almoço ao pai. Enquanto nós almoçávamos numa mesa corrida, se não fosse grande a pressa, as mulheres aguardavam, de pé, por ali à volta, o despacho da lancheira entre conversas cruzadas. A estudante raramente abria a boca.

- Mas tu abrias! Lembro-me bem! Mal ela disse ao pai que, na segunda-feira, tinha de ir a Coimbra tratar duns papéis para ir para a universidade e que precisava que ele a fosse levar de mota à estação, tu enfiaste logo:
- Por acaso também tenho de ir a Coimbra na segunda-feira!
- Conta-me lá: deste-lhe boleia na mota e depois?!
- Depois comprámos os bilhetes e fomos no comboio!
- Foram no comboio e depois?
- Não sabia nada de música nem de livros mas queria ser doutora!
- Então e foste sentado ao lado dela ou no banco da frente?
- Lembro-me lá eu disso!
- E chegaste a Coimbra e foste fazer o quê com ela?!
- Ela foi à vida dela e eu fui à minha! Disse-lhe que ia concorrer a um emprego nos correios e fui comprar uns livros e uns trinta e três rotações!...
- Quais trinta e rotações quais carvalho! Tu nem sequer tinhas tractor! Ela não era parva nenhuma, sabia bem que não tinhas nada para fazer em Coimbra! Andaste como ela pelos choupais e depois?!
- E depois apanhei uma seca por lá todo o dia à espera do comboio de regresso!
- Então e no comboio de regresso vinhas sentado ao lado dela ou no banco da frente!
- No comboio de regresso tive de engasgar-me entre mentiras de sonhos de carteiro e render-me à minha timidez e à minha impotência para lidar com o assunto!
- Porra! E ainda sofres disso?! Hoje há o viagra homem!

E assim começou e acabou o meu caso com a filha do Torneiras.
Já passa da meia-noite. Vamos comendo e bebendo, trabalhando e falando. O Cossa não pára, a fábrica não pára e eu também vou escrevendo.
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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

15- A Fábrica noite dentro

- Vou ali ao carro, já venho!...
Por acaso até não me tinha esquecido, tinha no carro três garrafas da adega cooperativa para lhe oferecer. Para completar os seus desejos dei uma volta passando pela padaria e pelo talho. Quando regressei, o Cossa fez-me as perguntas esperadas, disse-me onde havia sal e deu-me ordens de preparação da brasa. Ele mesmo virou e revirou a assadura não sem que antes tivéssemos provado do famoso tinto que muito o entusiasmou.


Do petisco prolongado surgiu-nos a ideia de telefonarmos para nossas casas inventando a desculpa de termos de chegar muito tarde por motivos de trabalho. Para que a mentira não o fosse realmente e para que a festa continuasse com todos os ingredientes era conveniente que também a fábrica não parasse. Não seria a primeira vez que o patrão, que nutria completa confiança pelo seu único operário, receberia um telefonema do mesmo informando-o de que seria preferível trabalhar noite adentro para queimar toda a resina das cubas de pré-aquecimento do que parar para, na manhã seguinte, repor em funcionamento toda a maquinaria e a caldeira central.
Da minha parte, além do convívio e do divertimento da aventura de voltar a sujar-me nestes trabalhos – obviamente que teria de colaborar nos serviços para os quais fosse solicitado pelo chefe Cossa – estava ali à mão da noite, a solução de desenterrar recordações que me servissem para continuar por mais duas ou três semanas as Fábricas da Quarta de que este blogue tanto precisa para se manter em laboração.
Estávamos ainda na fase da mastigação quando me lembrei que o melhor mesmo seria começar pelas “mamas da patroa”.
- Oh Cossa! Que história é essa que falaste há pouco (na Fábrica 14) de eu não poder contar “daquela vez em que apalpaste as mamas à patroa”?! Embora não me recorde nem da história nem dos mamilos, com a proibição, despertaste-me as vontades de contar e recordar!

Andariam meia dúzia de homens a carregar um camião com barris. A mulher do Senhor António, a patroa, apareceria por ali muito raramente e sempre à procura do marido. Naquela ocasião, ele não estava e ela decidiu aguardá-lo, entretendo-se junto dos trabalhadores com perguntas e observações diversificadas acerca disto e daquilo, próprias de mulher poderosa, curiosa, chata e carraça. O Cossa estaria a rebolar um barril quando, ao passar por ela tropeçou, deu três passos cambaleantes acabando por suster a queda meio agarrado à senhora. Meio agarrado, porque as mãos lhe pararam nos seios avantajados e, agarrar-se por inteiro seria abraçá-la toda o que não aconteceu. Caiu apenas ele, não por insuficiência do amparo mas porque foi repelido violentamente vindo a ficar deitado, de cabeça, virado para cima mesmo entre os dois artelhos da patroa.
- Ai este cabrão que me apalpou as mamas e me viu as cuecas!
E zás, um pontapé na cabeça do prostado e a promessa que “o meu António vai saber de tudo e dar-te-á o merecido castigo e o devido destino ao teu emprego”.
O Cossa levantou-se, com o rosto ensanguentado e as roupas decompostas, qual moço forcado que desiste da pega. Seguem-se os sururus e os movimentos esperados dos presentes.
Entretanto eis que chega o marido, um homem alto, trancudo e sagaz que lhe exclama à bruta:
- Então meu filho da puta! Isto é a da Joana!? Isto é o que se quer?! Eu estou ausente e fazes-me isto à mulher?!
O Torneiras sai em socorro do companheiro de trabalho:
- Este pobre diabo já anda bêbado desde manhã! Mal se tem em pé! Não foi por acaso que tropeçou mas também não foi de propósito!
As explicações do Torneiras, aqui abreviadas, terão contido a ira do Senhor António que partiu com a senhora sua esposa em direcção ao escritório.
O Cossa nunca foi homem de beber até cair e, na minha opinião, tudo não deve ter passado de um acidente de trabalho. Acontece que, passados estes anos, a vítima se gaba de que se tratou de uma aposta de cem mil réis que fez com o Torneiras em como era capaz de apalpar as mamas da patroa. Mais, que nunca exigiu o referido pagamento porque, se não tivesse sido a intervenção do outro apostador, teria passado por muito maus lençóis.
- Não vi cuecas!...
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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

14- A Fábrica de antes de ontem

O poste que se segue apresenta linguagem capaz de incomodar alguns leitores. São relatados alguns diálogos com palavrões. Paciência, os seus actores/autores estão-se cagando para o portuguesmente correcto e não abdicam do quadro hiper-realista que compõem. A voz ao Cossa e a locução a mim, mero João, que aqui me tenho a escrever, inocentemente e felizmente, sem saber bem para quê, porquê ou para quem!

Prometido, devido e agora cumprido, que o destino da “laboração” da fábrica-história ficaria dependente de uma visita natal à fábrica-física que tem, actualmente, como único operário o único, polivalente e grande Cossa. De nada servirá esta introdução a quem só agora aqui chegou, a quem tem por hábito começar a ler os livros pelo meio e ao fim de duas folhas lidas vai espreitar o fim da história, a quem clica avidamente de blogue em blogue procurando encontrar os fins da blogosfera. Enfim, tudo isto para esclarecer eventuais forasteiros que o produto desta fábrica-história apenas se destina ao consumo dos fregueses habituais.

Aconteceu, antes de ontem, segunda-feira. Negociar com o Cossa o destino da fábrica – eis a esperança de manter a história da fábrica aberta por mais uns tempos.
Entrei fábrica adentro seguro do local onde iria encontrar o Cossa. Passei no corredor limitado pelas paredes velhas que separam a casa da velha caldeira, da caldeira nova que foi instalada e montada nos tempos em que aqueles espaços eram também meus. Passei entre as poeiras e detritos acumulados em trinta e muitos anos sem limpezas, entre os vapores familiares que sempre jorraram de juntas de tubagens mal vedadas, entre as teias e os pingos de água com décadas de actividade. Passei e, enquanto passava, fixava ao fundo, junto à boca da fornalha que se abria ao nível do chão, por onde entram de quarto em quarto ou de meia em meia hora pazadas de lenha para alimentar a máquina que dá vapor e vida á fábrica, o vulto do Cossa tal qual o esperado. Ele ali estava, com o cu num cepo e a marmita noutro, a “candeia” de sete e meio junto ao pé direito, a dizer-me que cheguei a boa hora. As mesmas botas, as mesmas calças, as mesmas camisolas, o mesmo cabelo esgalhufado. Por baixo do bigode, a mesma boca entreaberta deixando arejar os dentes semisorridentes sempre prontos para mandar as suas farpas tipicamente temperadas com as suas caralhadas e afins.
- Olha-me outra vez este caralho! E vem de malinha na mão!... Mas tu agora és testemunha de Jeová ou andas a vender banha da cobra?!
Não se levantou, não me estendeu a mão, limpou a boca azeitada com um pedaço de pão, deu uma “trombada”, limpou o gargalo com o punho em movimentos circulares e estendeu-me a sua garrafa de todos os dias.
- Tás com nojo?! Bebe comuna dum cabrão! Este é do meu! Não levou nada, é o puro sumo da uva, fruto da videira e do trabalho deste homem!
Dei um trago, expeli o “ahhh!...” de bom saborear e agradeci com o circunstancial “boa pinga!” e mais dois ou três considerandos acerca dos paladares do morangueiro.
- Mas que caralho trazes tu dentro da mala?! Não cabem aí as notas que me deves por tudo o que te ensinei quando eras pobre!
Sentei-me num outro cepo que por ali resistia à câmara de fogo e que evidenciava a função de dar assento a quem fizesse proveito do calor que ali era abundante. Saquei do portátil, liguei a pen da net móvel, inicializei a máquina preparando-me para a catadupa de reacções que o gesto, pela certa, iria despertar no anfitrião.
- Foda-se! Computadores!? Não me venhas para aqui com essa merda! Só se for para ver putas!
Para lhe amaciar a curiosidade e arranjar a cama para os meus objectivos, passei por uns sites com coisas mais expostas, demonstrei-lhe de passagem algumas potencialidades da internet, até surgir a esperada interrupção.
- Vai para o caralho com essa porra! Já me estás a distrair, tenho de ir ali ligar a bomba para a cuba e abrir o vapor para a serpentina! Mete-me mas é aí lenha na máquina se queres que eu tenha mais um bocado de tempo para te aturar!
Enquanto foi e veio, cumpri a sua ordem e preparei a abordagem do assunto que me trouxera ali.
- Mas tu trouxeste essa foda para quê?! Julgavas que eu nunca tinha visto a internet ou lá o que é essa porra?!
Falei-lhe do Rei dos Leittões e da história da Fábrica. Mostrei-lhe obliquamente algumas passagens discutindo de permeio algumas mentiras e verdades de laurindas, laurindos e outros que mais.
- Sabes o que te digo? Tu escreves essas merdas porque não tens mais nada que fazer! Tás-me a "precurar" a mim se tá bem, se tá mal, se deves continuar!? Vai prá puta que te pariu - fora a tua mãe que não tem a culpa! Não quero é aí “cossas” no meio!!!...
Fiquei em silêncio, com um sorriso insonso, enquanto ele partiu para mais uma volta dos seus deveres de maquinista. Aproveitei o momento e arrumei o portátil.
- Engoliste algum sapo?! Escreve para aí o que quiseres “hóme”! Não quero que percas a tusa por causa cá do paizinho! Podes falar de mim mas com uma condição, só falas bem e não contas daquela vez em que apalpei as mamas à patroa!... Mas continuo na minha, essa coisa dos bogues (blogues! - Corrigi!) é de quem não faz nada e não chega a casa cansado! Para a próxima vez, em vez de trazeres essa porra, traz mas é um naco de carne para assarmos aqui e um garrafão lá dos lados para onde vives que ouvi dizer que é bom e nunca o provei!
- Vou ali ao carro, já venho!....
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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

12- A fábrica ardeu

- A fábrica ardeu?! Faz-se outra!
E assim foi! Logo no dia seguinte ao incêndio, os operários transformaram-se em pedreiros, carpinteiros, serralheiros, canalizadores e em todos os demais ofícios necessários à reconstrução da fábrica.
Mas nem tudo foi lindo! Também, no dia seguinte, se assistiu à partida do meu amigo, da mãe e da tia. Iam de vez! Recordo-os a partirem pelo caminho que levava para a estação de caminhos de ferro. Laurinda com um lençol embrulhado às costas a fazer de saco com algumas roupas, Canicha com os tachos engatados uns nos outros com cordões e uns pares de calçado e Laurindo com uma saca com comida para a viagem. Despediram-se de todos lá na fábrica – não estava ninguém do patronato - e eu acompanhei-os a minha casa para se despedirem de minha mãe. Não vou contar mais nada se não choro!
Nunca percebi, ou não me apetece contar mais nada, se partiram por terem perdido o lar que o senhor António lhes oferecia ou se foi para salvarem o lar do senhor António!
De tempos a tempos o meu pai ia à Beira Baixa buscar resina na Scania, levava-me abraços para Laurindo e trazia-me em troca outros de lá. Um dia escrevi-lhe uma carta, o meu pai contou-me que lha leu mas não me foi capaz de contar mais nada! O meu pai também era muito chorão!

“Contar mais nada”, frase repetida nos três parágrafos anteriores – é sintomático.
Se bem se lembram, a Primeira Fábrica falava de um tal Cossa e da minha experiência como operário. Era por aí que pretendia desenvolver a história. Contudo achei devido, voltar um pouco mais atrás no tempo. Entusiasmei-me com a recordação de Laurindo e, entretanto, estendi-me perdido entre as personagens e acontecimentos sem nunca conseguir a coerência que se exigia. Cheguei a ser tentado a inventar sangue, sexo ou romance e, nada! Semana, após semana, ia planeando uma segunda parte em que, depois de um salto no tempo, eu, colega do Cossa, do Torneiras, do meu pai e outros mais, contaria as minhas memórias desse tempo. Comecei a cambalear na história, a enrolar-me na meada e decidi queimar a fábrica. Com a Fábrica queimada, estava decidido a acabar com a história. Acontece, no entanto, que no curso da presente redacção me achei pouco e voltei a pensar no Cossa. Vou visitar o Cossa, tenho de lhe dar alguma coisa pelo Natal, ele tem uma palavra a dizer, ele é que manda. O Cossa vai querer que a história vá mais longe. Até quarta.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

11- A fábrica a arder

No dia seguinte, à mal sucedida espera, foi Dia Santo de guarda. Não quereria a “enfeitada” esposa do Senhor António desagradar aos Céus já que, contrariamente ao que seria de esperar, não foi à fábrica descompor as mulheres mal comportadas! Pensaria, tal como elas, que não seria de esperar pela demora! Apresentou-se na Igreja, como habitualmente, acompanhada do marido e do filho, não demonstrando incómodo pelos naturais cochichos que a apontavam recordando as cenas do dia anterior.
Quando saíram ao átrio os fiéis foram surpreendidos por uma coluna de fumo que se erguia por detrás dos pinheirais - negro e tanto, só podia ser da fábrica do Senhor António! A certeza de tal conclusão deram-na os olhares, tantos, que se dirigiram à figura do respeitável empresário para apreciar a sua reacção. Num percurso apressado para o carro, sem largar uma palavra, deixou, atrás de si, um rosto de pedir socorro, acompanhado pelo filho – “agora é que foi o delas, pai!...” – e pela esposa e senhora - “foram elas, foram! foram aquelas putas para se vingarem!... “. A aflição foi correspondida por toda a gente que os seguiu, acudindo apressada a butes, em bicicletas ou motorizadas …
Quando os primeiros chegaram, já Laurindo, Laurinda, Canicha e mais dois ou três hereges que não eram de missas, andariam de baldes contra o inferno. Estragaram-se naquele dia muitas roupas domingueiras para acudir ao fogo. Eram baldes, eram mangueiras, eram ramos, eram pás, eram enxadas e, sobretudo, muitos braços e gritos, “acudam aqui!”, “acudam ali!”, “ai se chega ali”, “já se ouvem os bombeiros!”, “vem a caminho uma coluna militar com tropas do R7!”, “tem de se acudir às barcas e às cisternas de água-rás senão arde o lugar todo!”, “morremos aqui todos!”, “lá se foi o nosso ganha-pão!”, “ não há salvação”, “salvemos o que se puder” e, para abreviar o trabalho e disfarçar o engenho do narrador, fiquemos pelo ensejo de que só sabe o que são chamas quem já aiou por chamusco.
Mais que todos, quem o viveu mais intensamente foi Laurindo, Laurinda e a Canicha porque o viram nascer, crescer, tornar-se monstro até lhe levar os aposentos em que viviam. Foram salvas umas mantas e alguns tachos o que, parecendo pouco, era quase tudo o que tinham!
Ficou para a história da aldeia o grito da mulher de senhor António pedindo que a ajudassem à cabeça: - “Ó homens sem coragem ajudem-me aqui a esta barrica!” Não sabia a finória que se tratava de quinhentos quilos de pez louro, demasiado peso para o seu couro cabeludo que, provavelmente, nunca experimentara nem uma rodilha.
A tragédia encheu todo o feriado e só lusco-fusco o incêndio foi dado como extinto com toda a povoação a contemplar as chamas sobrantes aqui e acolá, a matéria-prima que se salvou e a fábrica quase totalmente destruída! O filho do patrão chorava para o pai que o conformava:
- Não te preocupes rapaz, já tenho para mim, para ti e para os teus filhos que ainda nem estão feitos! Ardeu?! Faz-se outra! Amanhã mesmo começará a nascer outra, com novas bombas, torneiras e tubagens, com chapas de zinco em vez de telha! Uma verdadeira indústria digna de ser visitada pelo Américo Tomás!
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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

10 - A fábrica da mulher do Senhor António

A mulher do Senhor António era a única que, naquele povo, era tratada e referida como senhora. Experimentara, em tempos, ser professora regente mas acabou por ser afastada por tanta porrada que dava nos alunos. Passava agora os dias na casa grande, entre lareiras, varandas, agulhas de renda, terços e orações aos santos que havia pelas salas e corredores do seu abençoado lar. Dela repetia-se muitas vezes, em conversas, a frase que certa vez largara: “Dizem que eu tenho muito que dar, e é verdade! Mas o meu coração não me ajuda!...”
Falaria com muito pouca gente. As criadas e algumas beatas pô-la-iam ao corrente das coisas que se passavam fora dos muros do seu quintal. Soube do caso do seu filho com Canicha e soube na condição de “última a saber” do caso, mais caso, do seu marido com Laurinda. Porque alguém teve indevidamente conhecimento, a senhora acabou por saber que, naquele dia, as duas irmãs tinham ido de carro para a vila com o seu António. Seria certo que o local do desembarque seria o mesmo onde embarcaram – um sítio onde a estrada passa entre salgueiros, a uns quinhentos metros da entrada do lugar. Se o caso já não era segredo para ninguém, então que houvesse escândalo!... Saiu de casa, espalhando pelo lugar a espera a que se dirigia. Falava alto para toda a gente: “aquelas putas vão ver com quem é que se meteram”; “arranco-lhes os cabelos”; “hoje vão dormir no meio dos salgueiros”, “na minha fábrica nunca mais põem as patas”, “se fossem boas tinham ficado na terra delas” e outras e outras mais que não vale a pena estar aqui a relatar. Atrás dela seguiam duas ou três mulheres, que disfarçavam com solidariedade o desejo de testemunharem a cena que daria história para contar durante muitos anos e, como não podia deixar de ser, seguiam-na também todos os cachopos da aldeia. Todos, menos dois, eu e Laurindo! Ou melhor, nós também fomos, mas fomos por veredas que se entrelaçavam com a estrada e fomos mais além do sítio anunciado para a espera. Sem que ninguém nos topasse conseguimos fazer alta aos viajantes e avisá-los do filme que os esperava!
Surpreendidos pela nossa informação o trio de passageiros corou de caras. O Senhor António seguiu sozinho no carro e eu e Laurindo, Laurinda e Canicha, regressámos escondidos pelos matos. Laurinda encomendou-me, agradecida, para que seguisse para minha casa e eles, os três, esperariam no pinhal algumas horas e só noite avançada, caso observassem sossego, se meteriam em casa. No dia seguinte, aconteceria o que Deus quisesse.
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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

9- A fábrica de Canicha

Canicha era mulher de várias fraquezas, disfarçadas ou vencidas pelo rosto duro, pela pele seca e rija, pelo andar despachado com que movimentava o seu corpo franzino.
Para um filho único mimado, bem colocado e na idade do desejo, como o filho do Senhor António, ela, agora viúva, apresentava-se como uma presa fácil. Enganou-se o menino. Abordagem após abordagem, Canicha, sem perder a frágil compostura, porventura intimidada pelo posto do investidor, não cedeu nem um passar de mãos, fiel ao luto ou fiel a si mesma, ciente de que tudo não passava de um abuso resultante da diferença de posições.
Com o devido respeito ia pondo tampas no rapaz, até que um dia uma tampa saltou e zás! Canicha foi agredida, acusada de não sei quê! Se a fábrica que tinha olhos por todos os recantos e há muito tempo via alguma coisa entre os dois, desta vez ouviu e ouviu bem:
- Putassa bebâda que nem tens onde cair morta! Não penses que me tentas! Eu sou um homem honrado e temente a Deus! Querias ter um filho rico?!
E, entre ofensas deste calibre, os ouvidos estenderam-se a olhos que espreitaram por entre postigos, esquinas, tubos e barris. Canicha, despachada, a desaparecer, deixando o riquito de tomates a abanar com o seu mau perder.
O episódio foi do conhecimento do senhor António. Como patrão, conhecia suficientemente o carácter de Canicha para poder concluir que ela tinha sido injustamente tratada pelo seu filho. Como pai e como homem, compreendia o filho que não teria, pela vida pacata que levava, grandes oportunidades de molhar o prego - suspeitava até que o rapaz nunca experimentara! Ora, perante o acontecido, era certo e sabido que todo o lugar pensava como ele o que, sendo bom para Canicha, não seria bom para a reputação do rapaz, quer como seu filho, quer como homem que o deveria ser por inteiro.
Veio-lhe então uma ideia. Se falasse com Laurinda, a coisa bem falada, naqueles momentos abertos de fim de acto de romance, podia ser que desse... Ela convenceria a irmã a levar por diante o plano do Senhor António, pediria perdão ao rapaz e permitir-lhe-ia a satisfação das suas carnes. Em troca, seria recompensada com um prémio irrecusável. O rapaz não poderia saber de nada.
- Nunca seria capaz de falar uma coisa dessas com a minha irmã! Se quiser, diga-lho você, senhor António! Olhe uma ocasião:
Temos de ir à Vila tratar dos papéis da morte do meu falecido cunhado. Bem que o senhor nos podia ajudar, precisamos de quem nos leve, de quem saiba ler, escrever e, sobretudo, de quem compreenda o que os escrivães dizem e querem!
Daria boleia às duas, Laurinda e Canicha, mas era bom que não se soubesse – sabe-se como é a voz do povo! Por isso, embarcariam e desembarcariam em lugar longe de olhares.

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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

8- A fábrica de Zé Coxo

O Zé Coxo, na voz do povo, era corno da sua própria cunhada. O Zé Coxo e os que dormiam com ele não iam à Missa. O padre bem tinha falado do alto do altar em avisos do Alto e em eventuais castigos. Pois não é que Zé Coxo tinha escrito no destino a sina da desgraça!
As bocas das barcas (as tais de que se chegou a pensar terem engolido o desaparecido Laurindo) onde se despejava a resina estavam sempre abertas. O trabalho de Zé Coxo, e de mais meia dúzia, era o de com a ajuda de ferramentas adequadas, sacar, através das bocas localizadas no dorso dos barris, a resina viscosa, para as barcas. Este trabalho era feito com os pés um metro abaixo do nível do estaleiro em cujo pavimento estavam abertas as bocas para a descarga. Zé Coxo, como os companheiros, repetia isto muitas vezes ao dia, subia os cinco degraus para o parque onde estavam os barris e rebolava um para a sua boca de serviço.
Foi numa dessas repetidas manobras que a perna que lhe falhava o atirou em desequilíbrio para dentro da sua boca de trabalho. Os colegas prontamente acorreram para lhe dar a mão enquanto ele se afundava na resina branca. A mão escapou-se. Deram-lhe à mão um cabo de ferramenta mas, como o diabo lha fizesse soltar, viram-no afundar-se e desaparecer como nos filmes se vêem as cenas nas areias movediças. Naturalmente, seguiu-se o pânico. Nada a fazer. A resina saía da barca por uma torneira de mais de dez polegadas mas, esvaziá-la, demoraria dias, além dos grandes prejuízos que acarretaria. Talvez os bombeiros tivessem bombas que fizessem o transvaze para a outra barca que estava quase vazia! E assim foi, durante o resto do dia e noite fora até que o corpo do pobre se distinguiu no fundo do tanque enlameado de resina.
Não existiam posses que possibilitassem que o corpo de Zé Coxo fosse transportado para a sua Beira Baixa para aí descansar em paz. Um grupo de rapazes foi buscar a carreta ao cemitério que distava dali quatro quilómetros. Deixaram-me ir também. O defunto foi a enterrar entre os ais de Canicha, as lágrimas de Laurinda, os soluços de Laurindo, os lamentos dos colegas de trabalho e o acompanhamento de toda a aldeia. Registe-se que a ausência do padre, que se recusou a fazer a cerimónia religiosa, não impediu o cortejo de todo o povo crente para encomendar a alma do desgraçado. Comentou-se até, em provocatórias conversas de insubmissão à Católica e Apostólica Romana, que Zé Coxo se estaria nas tintas para isso. Aliás, fora ele, que em brincadeiras de desejos de “quando eu morrer” dizia:
- Quando for eu façam um churrasco com a minha carne e não esqueçam que ela já vai temperada com vinho!
Entre os homens que ficaram à porta do espaço onde se fez o velório, largaram-se até umas gargalhadas quando alguém disse:
- Nem calculam o trabalho que deu lavar o Coxo coberto de resina, gastámos mais de um bidão de água rás! Ná! Mesmo grelhado, o corpo iria sempre saber a resina!
E no entanto, apesar destes desabafos, o ambiente era de pesar.
- Era um homem incapaz de fazer mal fosse a quem fosse; era um pobre desgraçado; gostava da pinga mas como dizia “muitos (juntos) bebem mais do que eu!”; podia ter acontecido a qualquer um; não ia à missa – e depois?!
Claro que, entre estas conversas, também surgiam comentários ao futuro incerto de Laurindo; à apetecida Laurinda e à, agora disponível, Canicha. Verdade seja dita, que ficaram por ali duas mulheres, sem homem, expostas às fantasias e às abordagens de homens que nunca teriam pés que substituíssem os calcanhares de Zé Coxo. Ficou também o meu maior amigo que não tardou a provar ao Senhor António que merecia, pelo seu desempenho, umas moedas que dessem para mais do que um copo de laranjada e um pacote de bolacha baunilha.
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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

7- A fábrica da aldeia

Canicha, a tia de Laurindo, bateu à porta da minha casa já era noite escura. Surpreendeu porque nunca ali viera e porque trazia uma respiração de quem correra e um ar aflito:
- O meu rapaz não está por aqui!? Ó João, tu não viste o Lindo?!
Ao fim dos nossos “nãos” desatou a explicar-se, nervosa como nunca se vira - que ficara ir ter com ela e a mãe ao Pinhal do Virginho com a bucha da tarde mas que nunca aparecera e que ninguém o vira; que o mais certo era ter-se perdido; ou então que caíra dentro de algum poço do Vale Feto; talvez até tivesse tropeçado para dentro de algum tanque da fábrica; que diabo teria acontecido ao meu Lindinho; que a deixassem chorar…
Com palavras de esperança acompanhámos a inconsolável pelas ruas abaixo perguntando em cada casa por Laurindo e, de cada casa, saiam as famílias solidárias com candeeiros de petróleo e lanternas francesas, de tal forma que, quando chegámos à fábrica, era já a aldeia inteira que se reunia à volta de Laurinda, agora acalorada e boa mãe para toda a gente. Zé Coxo já havia corrido todos os cantos da fábrica e inspeccionado, com um candeeiro preso por um cordel, o interior de todos os tanques pelo que, além da repetição das outras hipóteses já enunciadas por Canicha em minha casa, só havia uma outra, que de tão trágica nem seria averiguada: o rapaz poderia ter caído dentro duma das barcas – assim se chamavam aos dois grandes tanques onde era despejada a resina dos barris que eram descarregados diariamente – e aí não havia maneira de o encontrar senão ao fim de várias dias que seria o tempo necessário para as esvaziar.
Assim sendo, acordou-se que o melhor seria começar a bater os pinheirais em direcção ao Virginho. Organizados os grupos, só os mais pequenos, como eu, ficaram. Recordo viva a imagem de ver desaparecer, na escuridão, a luz das dezenas de candeeiros e lanternas e de ouvir, ao longe, as repetidas chamadas de “ó Laurindo!”.
A busca, sem sucesso, só terminou de madrugada e essa noite ficou para sempre registada na memória do povo de tal modo que, ainda hoje, de quando em vez, a propósito e a despropósito se ouve a expressão “ó Laurindo!”.
No dia seguinte, Domingo, foi um povo ensonado e desacorçoado que entrou na Igreja. O padre deu a bênção inicial da Missa e contou que, só de manhã, soubera que tinha desaparecido um rapaz dum lugar da freguesia; que já ouvira falar da sua família; que não são cá da terra; que não vem à Igreja e que por isso não seria de estranhar que Deus lhe tivesse dado este aviso e este sinal; que, apesar de tudo, Deus é bom e que, por isso, acabara também de receber um telefonema da Aldeia de Santa Cruz dando-lhe conta que tinha por ali aparecido um rapaz que afirmava ser destas bandas. Agradecia pois que, no fim da Missa, passassem a informação aos hereges familiares do desaparecido.
Qual no fim da Missa qual carapuça! O meu pai sussurrou ao ouvido de minha mãe e saiu Igreja fora comigo pela mão.
- Monta!
Percorridos, na Flandria, os três quilómetros que separam a sede da freguesia da Terrinha, numa encruzilhada entre pinhais, parou a motorizada e encomendou-me:
- Vais por aí abaixo ter à fábrica e contas a Laurinda que Laurindo apareceu e eu fui buscá-lo!
Recordo que Laurinda me agarrou pelas mãos e deu três voltas comigo em rodopio; que Canicha me deu um chi no pescoço; que Zé Coxo entrou porta a dentro dizendo “isto merece um copo; o tempo que demorou desde que se ouviu o ruído da Flandria até esta chegar como uma égua, com o meu pai a sorrir vitorioso e sentado, atrás dele e bem agarrado a ele, o amigo que me proporcionou um dos momentos mais emocionantes da minha vida.
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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

6- A fábrica do filho do Senhor António

O filho do senhor António já se tinha safado da tropa. O filho do senhor António não tinha namorada. O filho do senhor António já tomava conta do escritório e era ele que, ao sábado ao fim da tarde, fazia os pagamentos aos operários.
O Laurindo tinha por hábito deslocar-se, entre a sucessão dos seus destinos, sempre em corrida, imitando o som de uma motorizada e com os braços e as mãos em posição que simulavam a condução. Nas suas partidas, raspava com as solas dos tamancos no chão, imitando o patinar dos arranques bruscos desses veículos.
Este comportamento acabava por denunciar a sua passagem pelos meandros da fábrica ou pelas ruas da aldeia. Nos tempos em que a escola não me permitia fazer-lhe companhia, ele acabava por me ir visitar a minha casa. Como eu morava no extremo oposto, na saída do lugar para sede de freguesia, toda a gente sabia da nossa relação.
Muitos eram os que lhe dirigiam a repetida e conhecida pergunta, obrigando-o a meter duas mudanças, para lhe ouvir a resposta de sempre:
- Pra onde vais ó Laurindo?
- Vou ao João!
- De onde vens ó Laurindo?
- Venho do João!
O “motociclista” teria, no mínimo, quatro ou cinco diálogos destes durante cada trajecto largando pelas ruas a sua querida presença, levando de cada inquiridor um pouco de companhia.
Ao sábado, ao fim da tarde, era certo, eu acompanhá-lo-ia, estrada abaixo, também a acelerar. Como era dia de pagamento, a minha mãe apoiava a minha ida para que o meu pai não demorasse. Com dinheiro nos bolsos, os homens saíam do escritório da fábrica para a taberna do Costa e, claro, uma criança podia calar-se com dois rebuçados mas ao terceiro começava a chatear:
- Vamos embora pai! Ó pai! Vamos embora! Ó pai já é de noite! Ó pai já chega!
Naquele dia, ainda os homens andavam pela fábrica, já eu e Laurindo estávamos sentados nos degraus da escada do escritório. O filho do senhor António, dando pela nossa presença, veio à porta e:
- Também vêm receber?! Venham cá!
Mais uns caramelos franceses – pensámos! Mas não, desta vez foram pagamentos de outra massa, uma nota de Santo António a cada um!
E entre respeitosos obrigados – convém recordar que nós também fazíamos algum trabalho produtivo para a firma – saímos, cada um na sua “mota”, sem esperarmos pelos assalariados séniores. O Costa, quando nos viu entrar triunfantes deve ter pensado:
- Aí vem a canalha! Deixem-me preparar os copos que os bons fregueses vêm atrás!
Deve ter mudado de pensamentos e olhares quando nos viu acenar, cada um com a sua nota e, num coro de acaso, a pedir como homens:
- Dois copos de traçado!

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

5- A fábrica do senhor António

A fábrica era realmente do dono e mais que dono, do patrão e mais que patrão, do senhor e mais que senhor, senhor António, um homem fino pelo traje, grosso pelas ordens, distante pelas palavras, próximo pelos acontecimentos. Ele era o eixo da fábrica, a fábrica era o eixo da aldeia, a aldeia era o eixo da vida.
O escritório ficava do outro lado da estrada e tinha janelas que lhe permitiam acompanhar de perto a vida da fábrica. Lá passava o seu tempo, com o filho, entre papéis e telefonemas e só de lá saía, duas ou três vezes por dia, para correr a fábrica de uma ponta à outra ou para inspeccionar e anotar o movimento de cargas e descargas.
Encontraria Laurinda raras vezes, talvez numa ida ao pinhal, numa vinda dela à fábrica para tratar de almoços, numa ida dele à fábrica num Domingo de descanso e, de certeza, sempre que ela fazia a limpeza do escritório.
Teria eu idade para levar sozinho o almoço ao pai quando não ia à escola. Teria oito anos, o Laurindo catorze?! O Laurindo não tivera competências nem vontades para ter frequentado a escola mas teria ainda infância para brincar comigo. Ambos teríamos já corpo para fazer um ou outro trabalho de menos responsabilidade – pintar uns tampos de bidões, arrumar uns bidões, mudar uns bidões de lugar – a troco da generosidade que o Senhor António transformava numas moedas que sempre davam para um copo de laranjada ou para um pacote de bolacha baunilha.

Como andávamos sempre por ali, víamos tudo e, um dia, vimos mesmo o que a voz cega do povo há muito via. Os balneários da fábrica, embora modestos, eram um luxo para quem não tinha água corrente em casa e mais, a água quente da omnipotente caldeira da fábrica acabava por criar hábitos de higiene aos operários que nasceram em ambiente de banhos raros.
Pela minha observação, Laurinda regressara do pinhal e entrara naquela porta para tomar um reconfortante banho que a libertasse da sujidade e do cheiro da resina. De repente imaginei-a nua e toda ensaboada.
- Já viste alguma vez a tua mãe nua?
Laurindo riu-se como um macaco e eu, como outro macaco, sugeri:
- Ali, por aqueles buracos na parede talvez dê para ver!

E pregámo-nos um a cada buraco, distantes, um do outro do outro, para aí um metro e vimos. Afinal estava vestida. De costas para a parede, os braços estendidos e recuados pareciam rendidos ou talvez não, talvez fosse apenas para as mãos de resineira não sujarem o fato asseado do senhor António. A cabeça ligeiramente inclinada para trás, a face enfeitada com uma expressão de mulher dada e satisfeita contrastavam com o rosto nervoso e excitado do homem e senhor. Vimos mais, a saia levantada a deixar ver carnes habitualmente ocultas. Virei-me para Laurindo que retirava os olhos do seu buraco, ainda amacacado, atirou-me um sorriso temperado com um piscar de olho e um encolher de ombros. Abandonámos o local e eu, na minha inocência, perguntei-lhe:
- Que raio estavam eles a fazer?!... Aquilo?!...
- Aquilo o quê?! A gente não viu nada! Estavam vestidos!...
Laurindo, por vezes, surpreendia-me com uns rasgos de sabedoria. Ele não viu nada, eu não vi nada embora esse nada nunca mais me tivesse saído da cabeça.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

4- A fábrica de Laurinda

Como é que eu, sendo tão tenro à altura, guardo memória para aqui descrever Laurinda com tanto entusiasmo?! É que Laurinda foi caso, e foi tanto o caso que me foi sendo contado e recordado até eu ser já maior e ter idade para a não esquecer.
Diziam, as más línguas, que Laurindo podia muito bem ser filho do tio e até que, no pequeno espaço que habitavam, não havia remédio senão o homem dormir com as duas irmãs e que o pobre “faltadito” a muito coisa, que não devia, assistiria. Os mais cruéis ou ousados chegavam até a puxar pelo assunto da poligamia, aos visados e, sobretudo, a Laurindo, cuja inocência permitia mais descaramento nas interrogações, cuja ingenuidade poderia largar alguma afirmação que acrescentasse argumentos ao boato.

Também a condição e as qualidades de Laurinda, nas quais se deve incluir a simpatia, o ar divertido e a impudência com que reagia aos rudes cotejos, numa aldeia tão portuguesa, deitavam achas para a fogueira. A imaginação do povo não tem limites e ela foi caindo nas bocas ciosas dos homens que a desejavam e das mulheres que a invejavam como mulher fácil de encantar. Falava-se que certo resineiro fora apanhado com ela em factos, no meio de certos matos. Apareciam, de vez em quando, uns certos gabarolas que, acreditando como reais as suas fantasias, afirmavam terem conseguido, em sítio oportuno, um beijo, um apalpar de mamas, um levantar de saias e alguns até a verdade de terem apanhado uma lambada!

Laurinda revelava-se superior ou desconhecedora da difamação e vivia os seus dias a trabalhar para ganhar para o filho, para quem não adivinhava futuro, sempre com alegria de viver, sempre bonita e bem disposta e, qual era o problema?! Sensual e provocadora também! Não devia nada a ninguém e se teve um filho que tanto amava é porque tinha sido feito com amor! Não desesperava procurando homem mas não era alérgica à masculinidade! Talvez viesse a morrer solteira e tivesse de ser pobre a vida inteira mas morreria de certeza mãe e honrada. Não estava disposta a casar com qualquer um só porque já tinha um filho mas também não era castrada só porque não nascera com tomates.

De tanta fama o boato veio a tornar-se sério quando chegou aos ouvidos do povo que o Senhor António – como patrão que era teria de ter, fora de casa, uma amiga – andava a ter uns apartes com Laurinda. Aliás, já teria sido na base desse encantamento que aquela gente viera da Beira Baixa para tão longe. O senhor António ia longe para negociar a exploração da resina e, numa dessas viagens, teria sido tocado por um misto de compaixão e atracção que determinaram que o seu coração se abrisse e trouxesse os quatro, no carro, para a sua fábrica.
Mais verdade ou menos verdade, o que é certo é que a história acabou por ser falada e imaginada até à exaustão e acabou por chegar aqui à nossa história.