O poste que se segue apresenta linguagem capaz de incomodar alguns leitores. São relatados alguns diálogos com palavrões. Paciência, os seus actores/autores estão-se cagando para o portuguesmente correcto e não abdicam do quadro hiper-realista que compõem. A voz ao
Cossa e a locução a mim, mero João, que aqui me tenho a escrever, inocentemente e felizmente, sem saber bem para quê, porquê ou para quem!
Prometido, devido e agora cumprido, que o destino da “laboração” da fábrica-história ficaria dependente de uma visita natal à fábrica-física que tem, actualmente, como único operário o único, polivalente e
grande Cossa. De nada servirá esta introdução a quem só agora aqui chegou, a quem tem por hábito começar a ler os livros pelo meio e ao fim de duas folhas lidas vai espreitar o fim da história, a quem clica avidamente de blogue em blogue procurando encontrar os fins da blogosfera. Enfim, tudo isto para esclarecer eventuais forasteiros que o produto desta fábrica-história apenas se destina ao consumo dos fregueses habituais.
Aconteceu, antes de ontem, segunda-feira. Negociar com o Cossa o destino da fábrica – eis a esperança de manter a história da fábrica aberta por mais uns tempos.

Entrei fábrica adentro seguro do local onde iria encontrar o Cossa. Passei no corredor limitado pelas paredes velhas que separam a casa da velha caldeira, da caldeira nova que foi instalada e montada nos tempos em que aqueles espaços eram também meus. Passei entre as poeiras e detritos acumulados em trinta e muitos anos sem limpezas, entre os vapores familiares que sempre jorraram de juntas de tubagens mal vedadas, entre as teias e os pingos de água com décadas de actividade. Passei e, enquanto passava, fixava ao fundo, junto à boca da fornalha que se abria ao nível do chão, por onde entram de quarto em quarto ou de meia em meia hora pazadas de lenha para alimentar a máquina que dá vapor e vida á fábrica, o vulto do Cossa tal qual o esperado. Ele ali estava, com o cu num cepo e a marmita noutro, a “candeia” de sete e meio junto ao pé direito, a dizer-me que cheguei a boa hora. As mesmas botas, as mesmas calças, as mesmas camisolas, o mesmo cabelo esgalhufado. Por baixo do bigode, a mesma boca entreaberta deixando arejar os dentes semisorridentes sempre prontos para mandar as suas farpas tipicamente temperadas com as suas caralhadas e afins.
- Olha-me outra vez este caralho! E vem de malinha na mão!... Mas tu agora és testemunha de Jeová ou andas a vender banha da cobra?!
Não se levantou, não me estendeu a mão, limpou a boca azeitada com um pedaço de pão, deu uma “trombada”, limpou o gargalo com o punho em movimentos circulares e estendeu-me a sua garrafa de todos os dias.
- Tás com nojo?! Bebe comuna dum cabrão! Este é do meu! Não levou nada, é o puro sumo da uva, fruto da videira e do trabalho deste homem!
Dei um trago, expeli o “ahhh!...” de bom saborear e agradeci com o circunstancial “boa pinga!” e mais dois ou três considerandos acerca dos paladares do morangueiro.
- Mas que caralho trazes tu dentro da mala?! Não cabem aí as notas que me deves por tudo o que te ensinei quando eras pobre!
Sentei-me num outro cepo que por ali resistia à câmara de fogo e que evidenciava a função de dar assento a quem fizesse proveito do calor que ali era abundante. Saquei do portátil, liguei a pen da net móvel, inicializei a máquina preparando-me para a catadupa de reacções que o gesto, pela certa, iria despertar no anfitrião.
- Foda-se! Computadores!? Não me venhas para aqui com essa merda! Só se for para ver putas!
Para lhe amaciar a curiosidade e arranjar a cama para os meus objectivos, passei por uns sites com coisas mais expostas, demonstrei-lhe de passagem algumas potencialidades da internet, até surgir a esperada interrupção.
- Vai para o caralho com essa porra! Já me estás a distrair, tenho de ir ali ligar a bomba para a cuba e abrir o vapor para a serpentina! Mete-me mas é aí lenha na máquina se queres que eu tenha mais um bocado de tempo para te aturar!
Enquanto foi e veio, cumpri a sua ordem e preparei a abordagem do assunto que me trouxera ali.
- Mas tu trouxeste essa foda para quê?! Julgavas que eu nunca tinha visto a internet ou lá o que é essa porra?!
Falei-lhe do Rei dos Leittões e da história da Fábrica. Mostrei-lhe obliquamente algumas passagens discutindo de permeio algumas mentiras e verdades de laurindas, laurindos e outros que mais.
- Sabes o que te digo? Tu escreves essas merdas porque não tens mais nada que fazer! Tás-me a "precurar" a mim se tá bem, se tá mal, se deves continuar!? Vai prá puta que te pariu - fora a tua mãe que não tem a culpa! Não quero é aí “cossas” no meio!!!...
Fiquei em silêncio, com um sorriso insonso, enquanto ele partiu para mais uma volta dos seus deveres de maquinista. Aproveitei o momento e arrumei o portátil.
- Engoliste algum sapo?! Escreve para aí o que quiseres “hóme”! Não quero que percas a tusa por causa cá do paizinho! Podes falar de mim mas com uma condição, só falas bem e não contas daquela vez em que apalpei as mamas à patroa!... Mas continuo na minha, essa coisa dos bogues (blogues! - Corrigi!) é de quem não faz nada e não chega a casa cansado! Para a próxima vez, em vez de trazeres essa porra, traz mas é um naco de carne para assarmos aqui e um garrafão lá dos lados para onde vives que ouvi dizer que é bom e nunca o provei!
- Vou ali ao carro, já venho!....