quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

17- A fábrica de noite

A fábrica de noite tem um ambiente surreal: os ruídos, as sombras, as penumbras, a visão dos candeeiros da aldeia entre os portais dos barracões e hoje, pelas circunstâncias desta narrativa, acrescentam-se duas almas de falsos gémeos. Esta fábrica, que costuma passar a noite só, sente como um cão de cabelos brancos, o Cossa é o seu dono, eu faço-lhe festas.

- Deixa lá a puta da computadora e passa cá a tarrafa!
- Olha lá como tu estás a chamar tarrafa a uma gafarra!
Com este diálogo estava dado o mote para o resto da noite. Era já suficientemente tarde para não surpreenderem os esperados toques dos telemóveis de ambos. Primeiro foi o do Cossa.
- Sabes bem que não saio daqui enquanto não acabar com o trabalho. Amanhã tens-me todo, todo o dia! Vai para a cama descansada mas vai sozinha pois bem sabes que eu posso aparecer a qualquer hora!
Quase de seguida tocou o meu.
- Deixa-me viver o primeiro dia do resto da minha vida! Sabes bem como gosto destas experiências amalucadas, sabes como gosto da minha terra, como sou saudosista e, além de tudo, sabes bem como preciso de dar de comer ao blogue se o quero ver gordo e em acção de vender! Precisamos de dinheiro para comprar um colchão novo.
Obviamente que devo omitir as perguntas e as respostas que saíram do outro lado. Mais, como se não bastasse, enquanto falávamos, o Cossa pôs o rádio em altos berros e não saía da minha beira, largando palavras em sotaque brasileiro e sons esganiçados no intuito de me comprometer com outros ambientes. Resultado: a moça, a minha moça... a minha mulher... a minha esposa... desligou!...

Na sequência destas comunicações começou a bater-nos uma certa lucidez.
- Sabes comuna, quando estiver destilada a resina que tenho no estaleiro cheira-me que será o fim. Já há uns tempos que o patrão me anda com rodeios a dizer que a coisa não dá, que a coisa já deu, crise prá aqui, crise prá acolá, para eu arranjar outra coisa. E eu, como não acredito, nem quero, nem posso, nem devo, acabo sempre por o mandar para a outra coisa!...
- De qualquer forma, tens os filhos criados, poderás não conseguir outro emprego mas terás sempre direito a uma boa indemnização, além de que darás sempre por aí um jeito a este e àquele, mais uma porca, duas ovelhas, três galinhas, umas couves e umas batatas, acabarás por viver como sempre viveste.
- Dizes bem, como sempre vivi, que nem um cão! E eu sei lá viver de outra forma?!
Para afastar os pés da terra e voltar à galhofa com que sempre nos relacionámos, provoquei-o com um gesto de mãos e, sem arriscar muito na “raça perigosa”, dirigi-me a ele como a um cão:
- Busso! Busso!...
- Levas-me com o cabo desta forquilha nos costados que nunca mais dizes “cão”! Comuna dum cabrão! A culpa é dos comunistas que queimaram os pinheiros todos! E dos chineses que trabalham por uma sopa! Cem por cento dos trabalhadores desta fábrica vão para o desemprego e tu, meu cão de merda, ainda te ris!?
- Havia de chorar!? Pois não é verdade que sabes que não penso como tu mas sinto como tu!? Já me viste a fazer tudo: a lutar, a trabalhar, a cantar, a rir, a chorar e até a cagar!...
- É verdade, só nunca te vi a … diz-me lá, quando vinhas da estação com a filha do Torneiras, ali no Vale da Porca, não te faltou a gasolina na mota?!
E ia eu para lhe responder, com toda a sinceridade, quando faltou a energia em toda a fábrica.
- Só me faltava esta! Não me bastavam as candeias da adega cooperativa sem azeite e agora até as lâmpadas se apagaram! Que se lixe! Apagaram-se as lâmpadas mas também pararam as máquinas!

16 comentários:

André D'Abô disse...

caro pata:
a fábrica está a todo vapor. gosto muito destes personagens. em poucos lugares li coisas tão boas quanto estas sobre aqueles que são chamados genéricamente de "os trabalhadores".

Compadre Alentejano disse...

É um problema que nos atinge muito hoje em dia.
Estou gostando do conto
Força.
Um abraço
Compadre Alentejano

MARIA disse...

É tão bonito este texto ...
A foto ...
O que dizer ?1...
"a visão dos candeeiros da aldeia entre os portais" transfere ao leitor a visão desses dois "falsos gémeos", um deles, vivendo como cão abandonado entre os pilares que o prendem a essa existência que decidiu viver e a que se agarra como se os mesmos o salvassem do Mundo ...
Esse Cossa...ligou então o rádio. Produziu sons ... b... esganiçados ?!...
Deve achar que conhece mesmo bem Vª Majestade... Ora Cossa, as pessoas mudam, importava dizer ...
:-)
Estou a brincar, já sabe. E eu também sei que não o leva a mal.
É muito ternurento este texto, muito lindo mesmo, para além de bem escrito, como sempre.
Se eu fosse a mulher do Cossa não lhe telefonava. Aparecia lá, disfarçada de computadora séria mas provocadora q b, com um bom presunto e um vinho da região e pedia-lhe que aumentasse a fogueira para passar a noite.

Claro que Vª Maajestade nessa altura aproveitava e visitava o Torneiras ...

Beijinhos

Maria

antonio - o implume disse...

Sem dúvida que isto ganhou novo ânimo. Estou a ver que ainda compras a fábrica e fazes turismo industrial. As pessoas podem ser empregadas da fábrica por um ou mais dias e conhecer o Cossa. Colher a resina no pinhal, trabalhar nos tanques e na fornalha!

Tens é que te ver livre do cabrão do comuna que fica sempre mal num negócio.

Marreta disse...

Pois, pois, tanto parlapier quando o cerne da questão é a Torneirinha, a filha do Torneiras.
Desbronca-te mas é e vamos lá a saber se abriste ou não a válvula da torneira.

Saudações canalizadoras do Marreta.

salvoconduto disse...

Palpita-me que o Cossa vai para o lay-off...

O Guardião disse...

A m... da crise e o desemprego acabam até por atingir o Cossa, que estava lá na terrinha descansado. Ainda bem que faltou a luz e os curiosos ficaram sem saber se sua majestade apertou o não a torneira, porque ninguém precisa de saber, ora essa.
Cumps

Nocturna disse...

Este Cossa não vai acabar bem.
A querer saber segredos de estado, acerca da abertura de Torneirinhas !!
Felizmente acabou a energia da fábrica. Mas não acabou de certo a energia do Cossa.
Majestade! Queremos mais! Estes rapazes da fábrica já fazem parte da nossa vida.
Um grande abraço
Nocturna

Milu disse...

Que delícia! Este texto tem tanto de espirituoso quanto de ternurento! Fez-me rir! Fez-me bem!

SILÊNCIO CULPADO disse...

Pata Negra
(Lembrei-me a propósito do teu comentário no meu blogue, quanto aprecio um bom Pata Negra.Não sou vegetariana mas matar só o qe se precisa e com um mínimo de sofrimento. Para gozar não.)

Bom mas vamos ao que interessa. Esta força que imprimes no que escreves faz-me recordar muitas histórias da minha infância. Não as vivi mas senti.Porque há gente que sente. Para isso é preciso viver experiências autênticas. Não aquelas experiências de aviário que vivem os privilegiados e que os tornam tão pobres por dentro.
Esta foto é o máximo bem como esta fábrica que fala connosco através dos seus filhos.
Abraço

aDesenhar disse...

Aguardo pelo regresso à fábrica e ao teu excelente conto.
Quando ligarem as lâmpadas avisa.

Globalização a quanto obriga, até já importamos a palavra lay-off.

abraço

jrd disse...

Uma maravilha!
A fábrica ficou sem energia e eu fiquei sem saber se faltou a gasolina à motorizada.
A "coisa" está a ficar "negra".
Um abraço

maceta disse...

Aqui está o verdadeiro Pata em acção, com o bom traço rápido da escrita, da sensibilidade... os humanos e até mesmo os cães têm direito `a vida.


bom ano com saúde

Mar Arável disse...

Tudo pelo melhor

a despertar relâmpagos

Abraço

do Zambujal disse...

... que mais dizer?
Continua excelente!
Sempre a merecer ser lido... e livro!

Abraço

heretico disse...

a realidade por vezes ultrapassa a ficção!...

força. "contas" muito bem.

abraço