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sexta-feira, 8 de março de 2019

Dia da mulher de quem?


Dia da mulher de quem
Nem sempre se fala
Dia da mulher que não se cala
Dia da mulher fadista
Dia da mulher artista
Dia da mulher doutora
Dia da mulher do ferro de engomar
Dia da mulher operária
Dia da mulher agrária
Dia do mulher do mar
Dia da mulher professora
Dia da apresentadora de televisão
Dia da mulher do norte
Dia da mulher de Baleizão
Dia da mulher de Nova Iorque
Dia da mulher do Afeganistão
Dia da mulher violentada
Dia da mulher libertada
Dia da mulher amada
Dia da minha mulher
Dia da mulher a pilhas
Dia da mulher que dá à luz
Dia da mulher com filhas
Dia das mulheres do Pinto da Costa
Dia da mulher do Costa
Dia da mulher do outro
Dia da última dama
Dia da mulher de quem se gosta
Dia com a mulher na cama
Dia da mulher com marido
Dia da mulher com homem
Dia da mulher solteira
Dia da mulher solteirona
Dia de todas as marias
E se todos os dias há mulheres
E se o Natal é todos os dias
Ah Mulheres! Perdoem-me!
Mas o Dia da Mulher
É sempre que um homem quiser!..

- Dia da mulher de quem?!
- As mulheres não são de ninguém!
Nem sequer a minha mulher é minha! 

Ai mãe, disseste-me um dia que só por acaso não nasci mulher e que só por acaso eu não era filho de outra qualquer. Só que  eu via e tinha ti todas as mulheres e, a partir daí, em divino incesto ou divinal orgia, eu devia ser de todas sem que nenhuma fosse minha.

Dia da mulher querida
Dia da mulher que não se quer

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

ser e não ser


se falo do passado, dizem que sou saudosista
se tento adivinhar o futuro, exercito a bruxaria
se sou crítico do presente, dizem que sou pessimista
se revelo um pensamento, isso é filosofia
se defendo um ideal, dizem que sou idealista
se faço uma metáfora,  faço uma poesia
se defendo a revolução, dizem que sou anarquista
se apelo à revolta, quero é rebaldaria
se faço greve, dizem que sou sindicalista
se me mantenho em silêncio, estou em estado de apatia
se me manifesto, dizem que sou comunista
se aponto um negro, isso é xenofobia
se me reparo na saia curta, dizem que sou machista
se abraço crianças, acusam-me de pedofilia
se grito de insatisfação, dizem que sofro de histerismo
se me queixo duma dor, sofro de hipocondria
se me levanto a sonhar, dizem que é sonambulismo
se me dói a barriga, são efeitos da bolimia
se compro um canivete, dizem que sou consumista
se bebo um copo, dependo da alcoolemia
se me sai um traque chamam-me porco

antes porco de que louco
antes doido que varrido
pois que  o seja
sei que é pouco
poeta não sou
fazer uma lista
não é poesia
mas pouco mais
se não me lembro do porco
terminava tudo em "ista"
e "ia"
- ia pá! falta-me a rima com "ais" pró "mas pouco mais"! já sei:
ai os ais de quem não aia!
- ai pá! falta-me a rima com "aia"! já sei:
que o primeiro ministro caia
ao descer a escadaria de S.Bento
- ai pá! ele não sai por lá!
... pronto é melhor não falar da saia do papa Bento que saía
estou completamente e ia...
... aonde é que eu ia?!
se até o papa saiu porque é que eu não me posso sair! saiu-me assim!
que é que eu hei-de fazer?! não sei escrever de outra maneira!
(o importante é fazer textos incitáveis que não se possam citar)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

... da palavra mais feia do calão


(porque umas vezes vale mais a palavra,
outras vezes, o palavrão)

Partir...
Partir para aqui e pra acolá
Partir pra lá...
Partir para o Alasca
Partir pro outro lado e partir pra todo o lado
Partir sei lá...
Partir sei lá o quê
Partir a loiça toda
Partir os cornos contra as mamas da estátua da liberdade
Partir a cuca a rir...
Partir pra ter saudade
Partir pro infinito porque nunca chegarei
Partir porque já chega
Partir pra onde os outros não vão
Partir só por partir e partir tudo
Partir para Caracas ou ir para o Irão
Fazer um partida
Partir uma
Partir o baralho
Partir para a palavra mais feia do calão
Partir sei lá o quê pra onde pra que lado
Partir-me todo
Partir parado

Parti ontem
Cheguei ontem talvez
Talvez de onde de lá de mim de alguém
do mar ou do passado

Cheguei talvez agora
Vou-me embora
Sei lá pra onde de mim pra lá pra aqui pra aí
prá lua ou pro futuro

Bolas! Nunca parti um copo! Nunca saí daqui!....

Pronto para partir
Pronto! Não jogo com o baralho todo
Não digo um (palavra mais feia do calão)

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Florbela espanca os versos


Aquela espécie de soneto, sem regras de soneto mas ainda assim com qualquer coisa de soneto, não era de ler só por ler, em de banco de espera, sanita ou sarau, não era de guardar na gaveta ou de enviar por carta. Um ato de despedida onde não faltasse a poesia, uma última poesia de amante despedido. Convidei-a para um petisco no José Manel dos Ossos, saquei dum dos bolsos de trás das calças Lois a folha A4 dobrada em quatro, provei o vinho, desdobrei o manuscrito, pousei-o sobre a toalha plástica de padrão xadrez, pousei-lhe o copo em cima sobre um vinco, e lia-a enquanto degustava um osso, não sem antes perguntar:
- posso?

Florbela

Flor-minha-bela-ser-perdidamente
porquê? porquê perdidamente
fingindo amor-amar-perdidamente?

a porta do nascente abriu-se em cio
janela morta e dor
perdida de tanto ser amada

Flor-minha-bela-ser-perdida-a-mente
o moço de recados de prazer
partirá pelos prados férreos do poente
como quem parte do sítio da chegada

Flor-minha-Bela
parte! parte perdidamente!

perdido eu também fico
e também parto descontente
de perder-te.

Florbela espancou todos os versos, um a um, comeu e bebeu tanto quanto eu, retribuiu-me de igual para igual todos os olhares, pagou a conta e terminou, numa entoação de desprezo, com a expressão:
- Poetas!...

Como poderia eu ser um poeta se, passados tantos anos e enganos, não resisto, a despropósito, de borrar a escrita e terminar com um nome capaz de acabar de vez com toda a poesia? augusto santos silva!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Os homens de Lucina

(Lucina - nome poético da lua)

marinheiros da lua.
existência de navios na barra, à solta.
toca três vezes a guitarra eléctrica.
é a libertação,
a independência,
é a revolta...

homens da física e da astronáutica nada nos disseram
da nudez e dos orgasmos de Lucina,
escrava da Terra, e do Mar ama que se fez,
da noite para os seus abraços,
da mente para os seus porquês.

menina de mil esposos falando a meia voz dos meninos de Adolfo,
do pedantismo burguês dos cães da frente,
dos braços perversos da Nação.

alguém falou do Céu e calou seus astros
alguém falou de Adão e calou seus avós
alguém ousou simular a fantasia
nos corações dos órfãos da espada de haraquiri...

nada me detém,
sou um macho da Lua,
não preciso que o Poder caia nem que a terra do sonho seja aqui,
sou um macho da lua.

Lucina libertou-me...
levou-me para longe da cidade
levou-me para longe da floresta
libertou-me! libertou-me!

nas intimidades de Lucina estão preparando a revolução, 
limpai as vossas armas, 
muitas cabeças vão rolar na praça pública.

quero apenas libertar-me
das discussões da bola dos meus vizinhos
da negritude da sombra do bácoro que me persegue.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Movimento relativo


Vou desligar.
Parem de me dar notícias
Porque eu já sei que as coisas acontecem.
Parem de escrever bons livros
Porque o meu ritmo de leitura é lento.
Parem de fazer bons filmes
Porque tenho uns em atraso para ver.
Parem de inventar músicas
Porque eu tenho discos que nunca ouvi.
Parem com a tecnologia
Que eu já não dou conta dos botões.
Parem de me oferecer produtos
Que eu tenho a despensa cheia.
Parem de me anunciar espectáculos
Que eu já não tenho agenda.
Parem de fazer leis
Que eu faço questão de andar legal.
Parem de fazer estradas
Porque eu já não sei por onde hei-de ir.
Parem o comboio
Porque eu vou apear-me.
Parem a camioneta
Porque me apetece vomitar.

Ainda o sinal não estava verde
E já me estavam a apitar.
Parem! Stop! Dêem-me tempo! Dêem-me espaço!
Parem que eu não consigo acompanhar!
Oh! Estou a ficar para trás!
Parem de me encher a cabeça.
Deixem-me respirar.
Respirem.
Todos os livros, músicas e filmes estão compostos.
Chega de tecnologia.
A Terra está esgotada.
Já vi todos os números de circo.
Todas as leis estão feitas e todas as cidades construídas.
Será este o caminho?! Não são estradas a mais!?
Não vou para mais lado nenhum!
Não quero mais nada!
Vou viver aqui que aqui há terra!
Vou descansar.
E tu? Ficas comigo? Ou fico só?

sábado, 17 de novembro de 2018

Marrem que é vermelho

triste fado o nosso
quando marrar é o nosso maior consolo,
somos filhos da pastagem e do touro,
marramos no preto, no vermelho e no mouro.

marrar em tudo, marrar sempre,
pelo são martinho, pelo natal e pelo entrudo.
marrar por todo o lado e contra não sei quê,
no mercado, nas redes, na tv e nos jornais,
no cais, nos  transportes, no trabalho e à mesa.
gente tesa! cum carvalho!
marra que é demais!
marram nos touros, nas touradas e nos animais.
cornos que deus os dê!
que deus está de todos os lados!

marram no sporting, no porto e no benfica,
porque são verdes, azuis ou encarnados.
marram em tudo o que mexe porque vêem pouco.
marram no vento, no parlamento, no inverno e no governo.

e foi tanto o que se viu na manifestação da CGTP!...

então? não marraram? foi vermelha? foi pequena? foi grande?
gente que deus a dava!...
e, no entanto, não se marra. porquê?...


sábado, 3 de novembro de 2018

No Brasil também há outono

é o outono...

tombam as folhas, os bêbados, o brasil

um soldado varre as folhas secas para as esquecer
um copo partido jaz em plena avenida
um facho queima os lábios duma canção do chico


vieram más notícias com as primeiras chuvas
os sinos dobram um enterro de vivos
a um canto da alma

todos sabem que ninguém morreu

não há estação nem mau tempo que resista  
às forças vivas de povos acossados
aos versos imortais dos seus cantores

por cá abril também não se conteve
nada está concluído
até já brasil
espero-te em breve

domingo, 21 de outubro de 2018

Os vencidos da vida



Os olhos verdes, pequenos e distantes, vistos de perto, como tudo o que é verde, todas as coisas pequenas e todos os olhos devem ser vistos. Eram os teus olhos.

As mulheres frágeis, vazias e amantes, como todas as mulheres que o homem desejava deviam ser. E tu não eras.

Os passos dos homens de sucesso e elegantes como todos os dos que dizem vencer na vida devem ser. Não era eu.

- Que importa esta conversa?! Que interessa o resto?! São frias e mundanas todas as coisas!

Os campos, verdes, grandes e gigantes, vistos de longe, que só não são céu porque existe o horizonte. E no horizonte oposto estamos nós.

O eco dos tratores cantando canções dantes e a visão das ceifeiras aos volantes.
Mas nós continuamos a trabalhar para o pão nosso de cada dia!...

Os dentes dos poderosos e importantes e os bicos das suas damas. Nós seus serventes. 
Tu, a outra, o outro e as mamas da puta desta vida.

Sim, fui traído como o espermatozóide que saiu por uma punheta! Pela porta da traição só entram ou saem os vencidos.

Quero todos os campos cobertos de videiras! Quero todos os olhos pequenos! Quero tudo com vinho!

(um porco pode usar óculos mas nunca poderá fazer uma poema)

domingo, 5 de agosto de 2018

As pessoas comuns são as que mais gosto

As pessoas são comuns quando já não querem ser outras.
As pessoas comuns só querem que não as chateiam e mais nada.
As pessoas comuns não esperam pela esperança.

Ela espera sempre e nunca é esperada,
Ela faz-se adulta mas é sempre criança,
Ela é maior mas é sempre pequena,
Ela é amante antes de ser amada,
Ela é oficial e age como ordenança,
Ela é profissional  e pagam-lhe como amadora,
Ela é mestre e ouve como discente,
Ela é doutora e tratam-na como paciente,
Ela é mãe sem deixar de ser filha.

Ele nunca é observador é sempre observado,
Ele nunca é escritor é  sempre leitor,
Ele é o ator que atua na plateia.

Ele queria ser flor e foi sempre mato,
Ele queria ser poema e não passou de letra,
Ele não conseguiu ser fadista nem letra de fado,
Ele queria ser marinheiro e foi faroleiro,
Ele queria ser pastor e foi sempre ovelha,
Ele queria ser dono e foi sempre um animal,
Ele queria ser agricultor  mas limitou-se a comer,
Ele nunca tratou da vinha e não lhe faltou de beber,
Ele queria ser eleito e foi sempre eleitor,
Ele queria um mundo melhor mas

Ele queria ser outro e foi ele mesmo,
Ele queria ser rico e foi sempre pobre,
Ele queria ser história e só teve nome,
Ele queria ser herói e é
O meu herói:
O homem comum

Ele foi sempre limpo e não passou de porco,
Ele queria ser lúcido e foi sempre louco,
Ele queria ser muito e foi sempre pouco,
Ele sonhava o futuro e só teve o presente,
Ele queria viver para sempre e morreu,
Comumente

- Que é isso de vencer na vida, ó vós incomuns?

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Sócrates leva o seu golpe de misericórdia



Não, não foram os homens de Costa que desligaram a máquina a Sócrates. O golpe de misericórdia foi dado hoje, pela sua ex-namorada Fernanda Câncio, num "artigo de confissão" (ou será de traição?) que acaba por provar quanto estavam bem um para o outro.

Sócrates já mete dó. Afinal ele acaba por se tornar vítima daqueles que lhe deram os seus tempos de glória, da amante que lhe fazia festas nos cabelos, dos correligionários que o seguiam, dos jornalistas que o apoiavam, dos comentadores que o elogiavam, dos eleitores que o escolhiam e até do sistema judicial que, pelo menos parcialmente, teve nas mãos.

Ninguém me provou ainda que Sócrates é um criminoso mas já tenho a certeza de que ele é uma vítima.

Pois é minha gente, quando ele recebia vivas dos carapaus e dos armadores, não por dar de comer aos peixes mas por oferecer as redes, não por fazer bem a uns mas por fazer mal a alguns, quando ele era o salvador que aniquilava as corporações de preguiçosos bem pagos, enquanto a Fernanda dormia com ele, nós outros lutávamos nas ruas para que o seu reinado chegasse ao fim. A nós ninguém nos pode acusar de o ter apoiado.

Que Vinicius de Moraes me perdoe assim como aqueles para quem me repito. Ficam aqui as palavras dum ataque de fúria que em 2009 me deu:

Sai, Sócrates
Desaparece, parte, sai deste povo
Volta a Vilar de Maçada onde te esperam
As ossadas dos teus avós, de que és
A herança perversa. Vai, foge do povo
Monstruosa farsa, hediondo
Ministro do faz conta, boy bóbó
Coito interrompido! Sai, Sócrates
Fato cagão, cueca suja como guardanapo,
Gravata de prepúcio, câncio homo-nada
Que empestas as passerelles da vidairada
Com teu petulante abanar de ancas
Enquanto largas traques sobre as palmas
Tuas encomendas aos boys-todo-o-serviço
Sai, get out, va-t-en, henaus
Tu e tua capa de marketing de plástico
Tu e teus telepontos
Tu e teu discurso cheio de nada
E pede perdão ao filósofo
Cujo nome roubaste. Deixa os portugueses em sossego
Odioso falozinho; fecha o fecho
Das tuas peles destomatadas
Secretárias, ministrinhas, directoras, jotas de saia curta
Movendo-se à volta da tua merda, como moscas
varejeiras que depois pousam nas mesas e nas camas,
Sai, Sócrates
Arruma as botas e diz adeus ao tacho
Em saudação fascista; galga, vasa,
Contra o teu próprio umbigo
E vai viver do teu próprio valor
Na poeira suja que se acumula no teu currículo.
Adeus
Recheador de ricos, multiplicador de pobres, tu
Com quem ninguém quererá jamais aprender nada.
Parte, punheta estéril, andate via
A23, destino Covilhã,
Experimenta viver igual às tuas vítimas.
Não tens mais estômago do que o homem da rua!
Cretino só, pinóquio de esparguete, que prescreves
A crise do país sem a experimentares, só
cretino, políticu, xuxalista...
Desanda, arruma as malas, toma banho,
E telefona para a empresa de mudanças!

IV
Há 1 trabalhador que foi para o desemprego
Há 2 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 4 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 16 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 256 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 65.536 trabalhadores que foram para o desemprego
Há 4.294.296 trabalhadores que foram para o desemprego

VI
— Minha senhora, lamento muito, mas é meu dever informá-la de que a empresa não precisa mais dos seus serviços...
— Meu caro senhor, tenho de comunicar-lhe que está despedido...
— É, infelizmente a empresa diminui os lucros. É impossível manter o seu posto de trabalho...
— É a crise, meu amigo. Vá para casa...
— Você é um homem forte, com certeza que arranjará outro emprego...
— Sua folha de serviço é exemplar, dar-lhe-emos uma carta de recomendação...
— Veja, você já não tem nada para dar à empresa... talvez com formação...
— Compreendo que não tenha outro rendimento. Sou seu patrão, não sou seu pai...
— Há muito operário na mesma situação. Você não está só...
— Era o nosso melhor colaborador. Mas a crise é internacional e não perdoa...
— Qual quê, meu caro, não se assuste prematuramente. Ainda tem uma vida à sua frente...
— Parece que o engenheiro também vai fora...
— Uma trabalhadora exemplar... E depois, tão linda...
— Que coisa! Logo agora que empresa estava cheia de encomendas...
— Se não aceitar as condições, somos obrigados a despedi-lo...
— Não me diga? A auto-europa...
— Não só... e a general motors?...
— E atenção para a última notícia. Mais três mil trabalhadores despedidos esta tarde...

— SÓCRATES ESTÁ DESPEDIDO

domingo, 6 de maio de 2018

os dias da minha mãe

Ficou orfã de pai e mãe aos nove anos. Feita a terceira classe, teve de ir "servir" - como se dizia na altura - para ganhar o seu pão. Escreveu assim ( não, não era a minha tia Anselma, essa é de facto uma personagem da ficção!). Tenho consciência do valor literário destas poesias mas... o que é que querem? São da minha mãe. Aqui fica o que, por mais não seja, tem valor por ser autêntico.

desventurada
amargurada
sentia-me eu aos nove anos
p'la hora que vim ao mundo
triste sorte
tão cedo chegou a morte
levou-me o amor profundo
deixou-me orfã neste mundo
perdi chorando
os que não mais encontrei
desde então fiquei limpando
as lágrimas que chorei
e nessa idade
que eu queria amor e carinho
ficou comigo a saudade
daquele calor do ninho

nesse vazio os anos foram passando
eu ao calor e ao frio
o meu pão ia ganhando
e a seguir para a minha sina cumprir
casei pegava o troféu
com a cruz que Deus me deu
deu-me também
rosas criadas com espinhos
o maior tesouro de mãe
com lágrimas e carinhos
e convencida
que sofrer não é pecado
por isso a quem me deu vida
eu rezo e digo obrigado
(1964)

nós os dois, a nossa casa e o Hillman - 1975

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Poesia da tia

Depois de enterrada a tia Anselma, aqui contada recentemente, vasculhando o seu magro espólio, encontrei esta poesia que justifica a sua opção pelo celibato:

há homens de bom agrado
há outros são diabo
que aparecem às mulheres
em solteiros são tão lindos
mas aqueles lábios finos
em casados são colheres

nunca são o que parece
há homem que só se conhece
zangado e das avessas
quando briga com a mulher
chama-lhe aquilo que quer
esqueceram-se as promessas

há homem que é extravagante
por vezes é um moinante
passa a vida nas tabernas
quer é beber e jogar
e a mulher ir encontrar
disposta a abrir-lhe as pernas

em novos são ciumentos
em velhos são rabugentos
triste vida negro fado
não te metas em sarilhos
que aturar marido e filhos
é porca que torce o rabo

há homem que é um fascista
por vezes é egoísta
ainda meiguinho e a rir
mostra-se um bom camarada
faz da mulher uma criada
que ali está para o servir
eu tinha uma companheira
vivia também solteira
um dia perdeu o jeito
ao fim de um mês de casada
apareceu com a cara inchada
e um braço amarrado ao peito

rapariga se és solteira
e queres morrer de velha
vê-te bem a este espelho
estás a tempo não te cases
não dês conversa a rapazes
toma se queres meu conselho

ao falar-te deste assunto
se tenho vivido muito
pois foi sempre ajuizada
cá no meu entendimento
fiz porém meu juramento
de morrer sem ser casada

seja antero ou artur
quem os tiver que os ature
sempre disse e hei-de dizer
nunca me aventurarei
e só os aturarei
se algum dia enlouquecer

quero aqui escrito deixar
mulher que pensa em casar
traz sua alegria morta
deixo-te aqui recordado
este tão velho ditado
homens nem de barro à porta

A todos aqueles que duvidaram da autenticidade da história, julgo que a forma e teor da poesia atestam que não inventei nada.

sábado, 24 de março de 2018

Modorra - porque é Dia Mundial da Poesia vou adormecer sobre um poema...



Acima de tudo, o que mais gosto na vida é de ter sono!...
Gosto de adormecer enquanto leio
Adoro adormecer enquanto faço a barba ou me penteio
Hoje mesmo adormeci a meio do banho
E saí de casa sem cortar as unhas de uma mão
Adormeço só de ver uma televisão
Caem-me as pálpebras quando me chateio
E já me aconteceu adormecer no seio dum orgasmo
Pasmo de sono quando falas
E balanceio a cabeça de tintas para as tuas conversas

Gosto de pousar a cabeça no ombro do passageiro do lado
Gosto de me deixar esticar no banco do jardim
Gosto de sestas
Gosto de adormecer ao anoitecer
Gosto de readormecer de madrugada
Gosto de dormir por tudo e nada
E até não me importava de adormecer eternamente
Se pudesse acordar na eterna noite
Para ver o sol, a horta, os filhos e o amor
E se a garrafa de gás já está a meio

Também gosto de adormecer com a bebedeira
Quero adormecer se tenho dores
Gosto de adormecer se estou contente
Dormir para mim é um descanso
Gosto de adormecer na minha cama
Gosto de adormecer à sombra do carvalho
Gostava de me deixar dormir descansado na calçada
Devia ser permitido dormir nas horas de trabalho
Gosto quando me bate o sono
Para mim uma boa palestra é um sedativo

Adormeci uma vez réu em tribunal no tempo da sentença
Gosto tanto de dormir que estou agora mesmo adormecendo enquanto estou escrevendo
Gosto de dormir como carago
O sono faz de mim um ser calado
Raramente digo asneiras enquanto durmo
Ressonar é o meu maior pecado
Gosto de vez em quando da claridade
Sobretudo se for para ver mulheres bonitas para as recordar enquanto sonho
Sobre o travesseiro
Sobre o corpo
Sobre tudo dormir

Dormir enquanto os poderosos falam de poder
Enquanto os poetas falam de poesia
Enquanto os engenheiros falam de pontes e os economistas de valias
Enquanto os artistas falam de arte
Que não há coisa mais entediante
Que um artista falar da própria arte

Dormir enquanto o país arde
Dormir enquanto a pátria se consome
Dormir enquanto se comem uns aos outros
E a mim não me comem
Porque como estou dormindo julgam que estou morto

Dormir enquanto falam os comentadores da TV
Sobretudo quando estes falam é absolutamente necessário
A bem das gerações vindouras
Que todo o país durma
E felizmente dorme
Neste preciso momento adormeci
-Golo!!!!
Nem isso me acorda
E estou com a sensação que me acarinham mãos macias
Durmo profundamente

Ah! Gosto também de adormecer enquanto me contam histórias
A do Capuchinho é a minha preferida
Embora eu goste de assinar João Ratão
Um dia adormeci quando me cantavam os anos
Adoro que me digam de manhã:
-Parece que ainda vens a dormir!
Adoro que me repreendam:
- Tu estás a dormir ou quê!?
Adoro que me ordenem:
- Tu vai mas é para a cama que o teu mal é sono!
Adoro ópio ou erva dormideira
Há fumo de cigarros nos meus sonhos
Espuma de cerveja em pesadelos
Cabelos de pestanas
De tudo há
E estas palavras só não têm nexo
Porque estou mais pra lá do que pra cá!

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

ai eu coitado

Ai eu coitado como vivo em gram cuidado,
a represa seca,
o gado sem pasto.
Ai eu cuidado como vivo em grã coutado
a riqueza sem rasto,
os cornos sem testa.
Ai Meca, ai Jerusalém, ai Fátima,
ai manifesta vontade de ser rua.
Deus me cuide, coitado.
A virilidade de Costa de rabo na Europa,
a virilha de Marcelo nas campas do Dão.
- Nada será como dantes, diz este.
- Tudo será como eles quiserem, diz o outro.
Ai fogo, ai chuva, ai ruas,
ai as vontades da feira do mês,
vendeu-se agosto? compra-se dezembro!
vendeu-se abril? compra-se maio!
Para porquês de novembro, respostas nuas.
Está um tempo seco e frio como o orçamento.
Cuidem de mim, cuidado comigo, ai eu coitado,
sem pingo para a pinga,
rouco para o fado,
levaram-me a voz e o rendimento.
Rendo pouco.
Ai eu estou louco, ai eu estou muito mal, 
arderam os pinheiros que seriam árvores de Natal, 
foi restringida a rega dos campos de golfe.
Ai eu com mágoa vou viver para Lisboa,
Onde tudo acontece e não há fogo e há água.
Coitado de mim que estou louco.
Cuidado comigo que sou coitado.
Sou frágil e mordo.
Sou porco.

sábado, 18 de novembro de 2017

Não sei se rio se seco

Pensamento:
Todos nós temos o nosso rio de criança,
um rio grande, uma ribeira, uma levada,
um rio seco, um rio de cheia, um rio com peixes
ou mesmo um rio que atravessa a cidade emparedado.
Até pode ser o rio de uma imagem, dum filme, duma história
mas todos nós temos um rio de criança.

No meu caso, o meu rio deixou-me sempre insatisfeito,
era ali, na minha aldeia, que ele se formava de dois ou três riachos.
No inverno levava água se Deus a dava
mas no verão toda a água era para o milho,
ele esquecia-se que era rio e eu também.

Na aldeia a jusante já a ribeira corria todo o ano,
as mães lavavam a roupa aos filhos
e os filhos apanhavam peixes com uma cesta.
Eu molhava-me lá com os outros meninos e acontecia-me pensar
no destino daquela água, por que terras passaria
e quanto tempo demoraria até chegar ao mar.
Penso que os outros meninos também pensavam nisso
e que todos eles, como eu, sonhavam um dia ver o mar.

Agora que somos grandes já não sentimos os rios.
O que importa é que o governo cuide dos rios,
sejam eles de água ou de povo.
Que os deixe correr e desaguar,
que os contenha, que os regule, que os aproveite.
Ah! E que nunca se esqueça de tratar do saneamento!

Intervalo de pensamento: 
O povo no tempo é como um rio no espaço.
Alguém já deve ter dito isto!...
Mas isto não:
Rio de rir
Rio das águas
Rio das ruas
e levo-as com o rio ao mar.

Continuação de pensamento:
Mas o importante é que o rio nos continue a correr na memória
e o povo fluvie e vença as margens que o comprimem.
Um poeta já deve ter falado disto!...
Mas ninguém, senão eu ou os meus primos,
retém a imagem da minha mãe e das minhas tias
a lavar no rio da minha aldeia
as tripas do porco que matámos em dezembro.

Fim de pensamento:
Não tarda aí dezembro,
o porco está vivo,
o povo está no rio,
o rio vai cheio,
a greve é em novembro,
o povo está vivo,
o porco está cheio,
há que matar o porco,
senão ele bebe o rio.

Rio! Não sei se de rir se de ser também rio!


E de quem é o nosso mar???
Isto sou eu a pensar!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Desabafo dum professor


Faço projectos, planos, planificações;
Sou membro de assembleias, conselhos, reuniões;
Escrevo actas, relatórios e relações;
Faço inventários, requerimentos e requisições;
Escrevo actas, faço contactos e comunicações;
Consulto ordens de serviço, circulares, normativos e legislações;
Preencho impressos, grelhas, fichas e observações;
Faço regimentos, regulamentos, projectos, planos, planificações;
Faço cópias de tudo, dossiers, arquivos e encadernações;
Participo em actividades, eventos, festividades e acções;
Faço balanços, balancetes e tiro conclusões;
Apresento, relato, critico e envolvo-me em auto-avaliações;
Defino estratégias, critérios, objectivos e consecuções;
Leio, corrijo, aprovo, releio múltiplas redacções;
Informo-me, investigo, estudo, frequento formações;
Redijo ordens, participações e autorizações;
Lavro actas, escrevo, participo em reuniões;
E mais actas, planos, projectos e avaliações;
E reuniões e reuniões e mais reuniões!...
E depois ouço,
alunos, pais, coordenadores, directores, inspectores,
observadores, secretários de estado, o ministro
e, como se não bastasse, outros professores,
e o ministro!...
Elaboro, verifico, analiso, avalio, aprovo;
Assino, rubrico, sumario, sintetizo, informo;
Averiguo, estudo, consulto, concluo,
Coisas curriculares, disciplinares, departamentais,
Educativas, pedagógicas, comportamentais,
De comunidade, de grupo, de turma, individuais,
Particulares, sigilosas, públicas, gerais,
Internas, externas, locais, nacionais,
Anuais, mensais, semanais, diárias e ainda querem mais?
- Que eu dê aulas!?...

sábado, 21 de janeiro de 2017

Hei-de morrer

Estou a escrever
Para dizer que vou morrer
Ainda há-de haver
Em nome de Deus virgens a explodir em Telavive
Em nome da América soldados gordos a morrer em Kandahar
E em meu nome homens que não me conhecem a falar

Estou a escrever
Porque irei morrer
Ainda há-de haver
Crianças a morrer de fome em Mogadíscio
E um menino chamado Aparício
Assassinado em Janeiro no Rio

Caramba irei morrer
De frio a escrever
E ainda há-de haver
Um Portugal pobre e amordaçado
E um povo orgulhoso de lhe chamarem zé

É hei-de morrer
A escrever a mesma coisa
Com outros confortáveis blogueres de T3
Conformado por ter passado a minha vez
De despir e ter nua a verdade à minha frente
Entre operários que desceram a rua que era para subir

É hei-de morrer a rir
De mim e qualquer coisa
Hei-de partir a loiça a definhar
Com o Sol todos os dias a pôr-se e a nascer
Com a Lua aluada a crescer e a minguar
E por cá a Terra a rodar em voltas sempre iguais

Ah hei-de morrer
Se não morresse era demais
A ver as gerações passarem em mutação
E os pobres desgraçados humilhados
Sempre à espera duma tal revolução
Que sempre é vencida

Escrevam da vida escritores de secretária
Cantem o amor cantores de luminária
Que hei-de morrer a ouvi-los escrever e a cantar
Sem nunca pegarem numa palavra a atirar
Forte nos dentes dos párias que demandam
Às castas baixas o vinho sem papéis
Andam para aí uns que se dizem democratas
Abatam-nos são mentirosos e ranhosos

Hei-de morrer de baba e ranho
Num futuro igual a antanho e a dormir
Com a América Latina a sonhar
Com a Europa em obras
Com Putin entre ursas
Com Trump entre vacas
Com uma dor do caraças a moer-me o juízo

Ai a vida é desesperançada sei
Porque não há decreto que mude este mundo e este país
Não quero ter esperança nem medo
Quero, quis, quererei

Hei-de morrer
E se eu morrer de dia a seguir haverá uma noite
E se eu morrer de noite a seguir haverá um dia
E quer seja de noite ou de dia haverá uma madrugada
Em que depois se irá lutar
E depois de se lutar haverá dia ou nada
E depois da noite haverá luto ou alvorada

Olha se eu morresse
Ainda gostava de viver o que acontece
Talvez depois de eu morrer por escárnio
Alguém invente a paz o amor e a democracia