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sexta-feira, 10 de abril de 2026

Dia do pai

Num 19 de Março, há muitos anos, a minha irmã ofereceu ao pai nosso um ramo de flores. Ele conformou-se com o facto de ela ter rompido com a prática anticonsumista seguida lá em casa e com preceito social de não se oferecerem flores a homens.

Durante o jantar, o acontecimento foi tema de conversa e, como nunca foi família de segredos no que toca a gastos e receitas, o preço do arranjo entornou-se na mesa como um copo de vinho. O pai nosso, surpreendido pelo valor da despesa, deixou escapar, sem ofensa:
- Por esse preço, bem que me podias ter oferecido um garrafão de tinto!

quinta-feira, 28 de março de 2024

A última ceia

 


A última ceia só com pão e vinho?! Alguém aceita ou acredita que o petisco tenha sido sopas de cavalo cansado?! Não! Segundo o estudo de uma universidade norte-americana, basta dizer que é norte-americana para ser fidedigna, chegou-se à conclusão que comeram leitão. A investigação baseou-se na observação deste quadro descoberto num templo inca do princípio da era cristã.


quinta-feira, 14 de março de 2024

Antes que seja dia do pai

Já há algum tempo que eu desconfiava: se eu não bebo, porque é que os meus filhos me oferecem sempre vinho?! E é sempre vinho da mesma marca!

Há dias, no meu último aniversário, não sei agora precisar a data, comecei a desconfiar que me embrulham sempre a mesma garrafa.

Pelas minhas contas a botelha já deve ter dado mais vinho que a água das Bodas de Caná.

Eu digo à mãe: arrecada para aí isso na despensa! Ela guarda e eu, como só bebo água e derivados, esqueço-me da prenda.

Mas desta vez, para confirmar as minhas dúvidas, com uma unha fiz uma marca discreta no rótulo e na quarta-feira, dia do pai, vou tirar as provas. Vou tirar as provas e vou prová-lo!

Poderia ter uma conversa com eles mas já sei que me responderiam que não voltariam a ir àquela garrafeira porque o homem tem as unhas grandes e sujas. Prefiro bebê-la e obrigá-los a comprar outra para o dia da mãe, altura em que para eu não ficar a olhar, repetem o ciclo da garrafa e oferecem uma Nossa Senhora de Fátima luminosa à que os deu à luz. Nos serões em que falha a luz, a circulação na minha casa está facilitada com linhas de objetos refletores como se fosse uma autoestrada. Portanto, só são sacanas com o velho.

E perguntam os que, com tanta leitura para não lerem nada, já bebiam um copo:

- E qual é a marca?

Então se eu não consigo precisar a data dos meus anos, como é que eu me hei de lembrar da marca! A garrafa é de sete e meio, “chega”?!

(É melhor parar porque já disse uma asneira! Aqui em casa desde que determinámos a proibição dessa palavra até temos engordado! Não bastam as vezes que eles a têm dito na televisão? Fdp!)


sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Viva Portugal e a restauração

O puto já tinha ido onde o avô nunca fora: Paris, Londres, Praia, Rio e conhecia bem Portugal do eixo A1, A2, Lisboa e Albufeira. 

O avô encantara-se por Idanha-a-Velha porque os naturais, apesar do peso histórico da povoação, não se deixaram intimidar pelos turistas nem foram na cantiga de estudiosos e projetistas de terra alheia que lhe prometiam mudança de modos e rendimentos de vida. Nas ruas apertadas viam-se garrafas de gás com o tubo a entrar na parede de cozinha, aparelhos de ar condicionado a pingarem na calçada, tanques de lavar a roupa, estendais  e a venda, que resistia, tinha caricas de cervejas e beatas junto à porta de entrada, pormenores que o tinham feito gostar da vida viva da histórica aldeia.

Deram voltas por ruínas e muralhas e, com o meio-dia, o puto começou com o "tenho fome" e não se via sítio de matar a dita e a mulher da venda não tinha por negócio servir pratos.

- Mas a senhora não vende aqui latas de atum?

- Vendo.

- Não tem por aí uma cebola?

- Tenho.

- Um pingo de azeite?

- Também.

- Um pão?

- Também se arranja!

Bela refeição, bela a solução do avô, bela a mulher da venda e a venda. O puto indagou que ela não tinha ar de quem gostava de heavy-metal pelo que não percebia porque se vestia totalmente de preto.

De regresso a Lisboa, a avó fez questão de passar por Fátima para agradecer o dinheiro que tinha para passear por onde quisesse e a saúde que tinha para comer o que lhe apetecesse. O puto desconfiado da história e das crenças da mãe da mãe fez perguntas até chatear. 

- Cala-te! Não vês ali escrito "silêncio"?!

A avó a aproximar-se dum orifício com duas notas dobradas. O puto avança com ela.

- Com esse dinheiro bem podíamos ir a um restaurante e estávamos na mesma a ajudar! As gentes daqui são das que mais dão à Santa como forma de agradecer o sucesso dos seus negócios!  

 O moço que servia à mesa usava calças pretas e camisa branca.

- Meio viúvo? Morreu-lhe a namorada? 

Perguntou o puto acrescentando que o tipo não tinha pinta de gostar de heavy metal.

O moço era estagiário da Escola de Hotelaria de Fátima e tinha a simpatia e a educação suportadas na utilização abusiva de diminutivos.

 - Pretendem uma mesinha? Temos bifinhos, um bacalhauzinho, pãozinho, um vinhinho. A comidinha está boazinha? Uma sobremesazinha? E, no final, a continha: oitenta e cinco euros.

Se tivesse dito "eurinhos", o avô teria ido aos arames! 

Atum enlatado com cebola é bom. Não formatem o bacalhau, a sopa, os moços e as moças que nos servem e lembrem-se, lá prós lados de Idanha, a Senhora do Almortão também faz milagres: para o ano o puto quer passar de novo o Dia da Restauração com os avós e não quer ir ao Algarve nem a restaurantes com rapazinhos de fatinho.



quarta-feira, 1 de maio de 2019

Dia do colaborador


Então ó santos silva limpopó, não arranjaste nenhum guaidó prá china?

Por vezes a hipocrisia vai mesmo longe: o que vêem estes senhores na democracia chinesa que não conseguem ver na venezuelana?

Sinónimos de "santos silva": revolucionário de ocasião, chuchalista, filho da puta, colaborador.

Colaboradores o carvalho! Trabalhadores! Caralh.!

(alternativa na informação: https://www.youtube.com/watch?v=BRPtKbFVF_8&feature=share)

quinta-feira, 25 de abril de 2019

25 de abril - precisa-se



Ano após ano, abril vai-se-nos sumindo por entre documentários, testemunhos e comemorações; vai-se-nos sumindo por entre as leis, o poder e os governantes; vai-se-nos sumindo por entre os papéis, as máquinas e as portas dos locais de emprego; vai-se-nos sumindo nas escolas, nas repartições e nas ruas; vai-se-nos sumindo entre os dedos – o 25 de abril não é para guardar entre mãos, é para agarrar! Está escorregadio?! Untemos as mãos com as areias que nos atiram para os olhos! Dói? Não tivéssemos permitido que o untassem com manteiga!

Todos cantam o Grândola, é uma vergonha! A televisão, pela espuma dos lábios dos netos bastardos de Salazar, reescreve a história e reinventa os heróis; qualquer indício duma ventosidade duma quadrilha de fascistas é imediatamente e mediaticamente espalhada aos quatro ventos; o menino querido do último ditador é omnipresente e presidente; o governo é uma filial de Bruxelas; a moeda é alemã; a soberania vai-se-nos sumindo entre os dedos - este não é povo unido nem de abril, não dá graças aos anjos nem aos soldados! O nosso anjo da guarda é o FMI!

Só festejarei o 25 de abril com outro 25 de Abril, tudo o resto ou é fachada ou é saudade.

sábado, 20 de abril de 2019

Primeiro de maio


Estou muito baralhado com o calendário católico desde que ousaram fazer-me trabalhar no dia de Todos os Santos. Vão vender natais, páscoas, trezes de maio e dia dos defuntos para o raio que vos parta! Eu vou mas é ao futebol!

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Santa sexta-feira

Ressuscitarei

Sexta-feira Santa. O que contam para mim estas datas do calendário católico? - Contam!

Não tenho segredos no que toca à minha relação com Deus!
- Deus?! Oh Deus! Que Fé a minha! Estamos cá, é Páscoa!

Não sei se acredito no Deus dos Judeus, ou noutro, mas uma coisa que não sou é "católico não praticante"! Quando muito sou "culturalmente católico". De outra forma não estaria aqui a recorrer a imagens para assinalar este tempo. Não me vou esticar mais, a minha vida pessoal, o ponto em que estão as minhas batatas, a minha triste conta bancária, não são para aqui chamados!
Sou pacato, tenho sido um livro aberto revelando as páginas esborratadas, amarrotadas, dobradas, sublinhadas, enfim, abertas.

E, nesta parte, como tenho pecado um pouco pela ingenuidade, direi apenas, respeito! Respeito tanto, que me limito às imagens.

Esta imagem é uma repostagem - repostagem, palavra nova! - talvez a imagem seja suficientemente expressiva para revelar a minha relação com a Páscoa.
E se não revelar? O que é que isso importa?
O tempo da semana que mais gostamos é sexta-feira à noite! Santa sexta-feira!

terça-feira, 19 de março de 2019

Dia de S.José: padroeiro dos trabalhadores, sim! Dos pais, não!


Eu ainda sou do tempo em que 19 de março era feriado. Existe, perto da minha, uma aldeia de nome S.José e era para a festa dessa terra que toda a gente das redondezas ia nesse dia, sem ninguém se lembrar de quem era o pai.

A sociedade capitalista foi transferindo a sua religiosidade para o consumismo e os dias dos santos foram-se transformando em festividades mais consentâneas com o espírito do balcão do que com o culto de referências sagradas. 
E foi assim que o dia de S.José  passou a ser apenas o Dia do Pai.

Tenho pena porque S.José,  padroeiro dos trabalhadores, não merecia este enxovalho. Não chegava ao desgraçado o registo histórico-religioso de se ter conformado com o facto da sua noiva aparecer grávida dum filho, que não era seu, de ter criado o Puto e aceitar viver com ela conservando a virgindade, ainda por cima a crueldade dos crentes humilhou-o, celebrando-o também como padroeiro dos pais. 

Eu pergunto, a qualquer um dos homens que venera nas igrejas a Santíssima Trindade e a multiplicidade de santas Mãe de Deus, o que fariam se, por acaso, ao fim de mais de nove meses de namoro sem qualquer encosto de genitais, a futura esposa vos dissesse "estou grávida e não é de ti"?  - Não é do teu irmão, nem do padeiro, nem do pastor, nem do Rabino! É do Espírito Santo! (Do Ricardo? - perguntariam alguns). Imaginem que a moça acrescentaria: acredita que isto não é fruto de qualquer ato sexual. Mais ainda diria: quero que sejas apenas o seu pai nutrício e não contes comigo para te deixar fazer alguma coisa que me emprenhe outra vez!

De facto esta história brada aos céus! De tal forma que eu não reconheço como verdadeiro cristão qualquer homem que, perante uma gravidez inexplicável da sua mulher ou namorada, não aceite uma explicação do género: foi obra e graça do Espírito Santo.

Começar a chamar ao Dia de S.José o Dia do Pai também me parece muito pouco cristão. 
Senhores do Vaticano, para não dar cabo do comércio, e tratando-se do santo dos trabalhadores, talvez fosse melhor que o Dia de S.José passasse a ser o 1ª de maio.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Dia da mulher de quem?


Dia da mulher de quem
Nem sempre se fala
Dia da mulher que não se cala
Dia da mulher fadista
Dia da mulher artista
Dia da mulher doutora
Dia da mulher do ferro de engomar
Dia da mulher operária
Dia da mulher agrária
Dia do mulher do mar
Dia da mulher professora
Dia da apresentadora de televisão
Dia da mulher do norte
Dia da mulher de Baleizão
Dia da mulher de Nova Iorque
Dia da mulher do Afeganistão
Dia da mulher violentada
Dia da mulher libertada
Dia da mulher amada
Dia da minha mulher
Dia da mulher a pilhas
Dia da mulher que dá à luz
Dia da mulher com filhas
Dia das mulheres do Pinto da Costa
Dia da mulher do Costa
Dia da mulher do outro
Dia da última dama
Dia da mulher de quem se gosta
Dia com a mulher na cama
Dia da mulher com marido
Dia da mulher com homem
Dia da mulher solteira
Dia da mulher solteirona
Dia de todas as marias
E se todos os dias há mulheres
E se o Natal é todos os dias
Ah Mulheres! Perdoem-me!
Mas o Dia da Mulher
É sempre que um homem quiser!..

- Dia da mulher de quem?!
- As mulheres não são de ninguém!
Nem sequer a minha mulher é minha! 

Ai mãe, disseste-me um dia que só por acaso não nasci mulher e que só por acaso eu não era filho de outra qualquer. Só que  eu via e tinha ti todas as mulheres e, a partir daí, em divino incesto ou divinal orgia, eu devia ser de todas sem que nenhuma fosse minha.

Dia da mulher querida
Dia da mulher que não se quer

quinta-feira, 22 de março de 2018

Homenagem ao Bocage no Dia Mundial da Água


"A Água"
Meus senhores eu sou a água
que lava a cara, que lava os olhos
que lava a rata e os entrefolhos
que lava a nabiça e os agriões
que lava a piça e os colhões
que lava as damas e o que está vago
pois lava as mamas e por onde cago.
Meus senhores aqui está a água
que rega a salsa e o rabanete
que lava a língua a quem faz minete
que lava o chibo mesmo da raspa
tira o cheiro a bacalhau rasca
que bebe o homem, que bebe o cão
que lava a cona e o berbigão.
Meus senhores aqui está a água
que lava os olhos e os grelinhos
que lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes lutas
que lava sérias e lava putas
apaga o lume e o borralho
e que lava as guelras ao caralho
Meus senhores aqui está a água
que rega rosas e manjericos
que lava o bidé, que lava penicos
tira mau cheiro das algibeiras
dá de beber ás fressureiras
lava a tromba a qualquer fantoche e
lava a boca depois de um broche.
Bocage

segunda-feira, 19 de março de 2018

O meu pai era peixe

Não me recordo de ter visto mais de duas linhas escritas pelo meu pai. Um recado na mesa da cozinha, umas contas de bicas de pinheiros e nada mais. Via-o escrever, de mãos trémulas como as que tenho, quando parávamos ali para os lados da Venda das Raparigas e ele preenchia um folha de um livro de impressos, qualquer prática obrigatória que mais tarde viria a evoluir para os actuais discos tacográficos dos camionistas.

Quando eu tirava Bom a Matemática ouvia muitas vezes:
- Sais ao teu pai! Também era bom nos problemas!

Pelo que vi e pelo que me fizeram acreditar, vivi sempre convencido que quem escrevia as coisas bem era a mãe e que quem fazia bem as contas era o pai.
Quando o tempo de chuva e a idade de brincar me reduziam à pequena casa que era a nossa, eu vasculhava os armários e as gavetas, com esperança que a curiosidade me oferecesse alguma coisa para me entreter. Afinal de contas a casa também era minha, eu tinha o direito de saber tudo o que ela guardava.

Confesso-te agora pai que, quando a mãe propôs a compra de um fogão com forno para substituir o de dois bicos e tu disseste que não tínhamos dinheiro, eu tinha contado nesse dia as notas que estavam na caixa de sapatos e fiz as contas: aquilo dava para um fogão e para mais de meia dúzia de garrafas de gás e ainda sobrava para uma garrafa de aguardente para as constipações!

Só não entendo porque é que tu e a mãe guardaram, ainda melhor do que o dinheiro, o maço de cartas do vosso namoro que só agora, pelas sortes, encontrámos. Não chorámos, não rimos, dissemos satisfeitos um a um, talvez em coro:
- Olha que o pai escrevia mesmo bem!



 Olha pai, sabes? Eu, se não houver ondas, não me afogo!
(estou à vontade para dizer estas coisas ao meu pai porque além de peixe, ele era fish|)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Nunca minto


Nunca minto! Posso enlear-me nas teias da ficção, encarnar um suíno, ou dizer que navego em águas turvas quando, na verdade, não sou barco nem peixe, mas nunca minto!

Hoje é dia das pessoas se divertirem com mentiras, irreprováveis, porque é dia 1 de abril. E a brincadeira chega até aos noticiários e às manchetes dos jornais!...

Terá graça nos indivíduos de quem nunca se espera uma mentira mas é paradoxal nos média que com arte e engenho nos mentem todos os dias!

E, dito isto, num tempo em que há dias de tudo e para tudo, em que o "dia de" está banalizado, eu não acrescento mais um, mas proponho uma troca, que o dia 1 de abril passe a ser o Dia da Verdade, o dia em que ninguém, nenhum jornal ou televisão mente!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Hoje é dia de Zeca

Faz hoje 29 anos, no dia 23 de Fevereiro de 1987 cumpria o serviço militar na Escola Prática de Artilharia em Vendas Novas. O camarada Nunes ouvira no rádio do balneário a notícia daquela madrugada e acordou-me com ela no regresso ao quarto: - morreu o Zeca Afonso!
Nessa manhã tomei a linha do Setil para vir à terra tratar duns assuntos urgentes: 
na janela da automotora, a paisagem desse Aquém Tejo, ditou-me esta homenagem:


amigo canto e morte
maior que o pensamento
abril não morre

por mais que novos ventos se levantem
de rumo a falsas índias
levando incautos marinheiros deste cais
abril traz sempre voz

virão mais cinco e mais
cantando sim ao dizer não
virão como tu outros iguais
fazer de maio cantiga
fazer de abril canção

amigo canto e sempre
até

domingo, 3 de maio de 2015

Sou um grande filho duma grande mãe!

"Meu caro". "Meu amigo". "Meu caro amigo".
Tudo junto ainda gosto menos. Não gosto destes tratamentos onde entram em choque a pretensa proximidade com a evidente distância.
Também não gosto daqueles tratamentos de rua tipo: "ó chefe, sabe-me dizer onde é que fica a repartição de finanças?"; "ó patrão, olhe que lhe caiu a carteira!".
Gosto do "tu" quando ele me convence de que ainda sou novo. Não gosto de "tu" quando ele transporta um ar de abuso de confiança  ou um desejo implícito de me trepar.
No trabalho não gosto do "você" porque me faz velho, não gosto do "colega" porque colegas são as putas, dizia-se na tropa. "Camarada"? Ai isso sim! Sempre! E aí não pode entrar "você", nem "senhor", nem "meu sargento"! É o "tu cá, tu lá", a cumplicidade é sempre um prazer.
Aqui então, no Rei dos Leittões, onde eu só procuro cumplicidades, onde os amigos não têm rosto, nem morada, nem idade, fico irritado quando um comentário começa por "meu caro amigo".
Meus caros amigos, aqui o trato certo é a devida "Majestade" ou então, por falta do reconhecimento da coroa, venha o "ó pá", gosto do "ó pá", o "ó pá" serve para tudo, "porreiro, pá", diziam os outros um para o outro.
Lembrei-me agora duma cantilena que me ensinou a minha mãe:
"Olá pá! Já casaste pá?
Eu não pá! E tu pá?
Eu já pá!
Com quem pá?
Com a filha do Zé, pá!
Eina pá tanto pá!..."
Gosto do "pá". Dizem que são questões culturais mas ninguém gosta de ser tratado de qualquer forma, a não ser se for por uma amigo. A esses tudo se permite: "ó meu cabrão por onde é que tens andado?", "olha-me o filho da puta que aqui vem!...
Pois bem! Mas o que eu gosto mesmo é de ir à terrinha e sentir que ali sou sempre tratado como em nenhum outro lado. Pode ser carinhosamente por "cabrão", "filho da puta" mas o mais corrente é ser referido ou tratado por "João da Emília. Para quem não sabe, "João" é o meu nome próprio, "Emília" é nome de mãe aqui na ficção, porque não quero misturar a Idália com estas coisas.

terça-feira, 30 de abril de 2013

... Maio quem te criou?...


RECUSA

Convosco, não, traidores! Que poeta decente poderia
Acompanhar-vos um segundo apenas?
À quente romaria do futuro
Não vão homens obesos e cansados.
Vão rapazes alegres.
Moças bonitas,
Trovadores,
E também os eternos desgraçados,
Revoltados
E sonhadores.

Miguel Torga

sexta-feira, 29 de março de 2013

Crucifiquem-me mas não me aleijem

Não gosto de ver ninguém crucificado,  sinto os meus próprios pulsos a pulsar de dor. O menino e o burrinho, um jovem a aprender de carpinteiro com o padrasto de nome Zé, um homem novo de barbas louras a subir para o céu, isso eu gosto! Mas faz-me arrepios que, perante a figura de um crucificado, se ore, se implore, se dê culto, se coleccionem crucifixos e que essa cruz, tenha substituído o peixe, como símbolo da minha religião. Ao menos o peixe sempre podia aguçar o apetite!

Eu, que culturalmente sou cristão, gostava que os adoradores da dor do bom Homem e do bom Crucificado que foi Jesus, em vez do culto da imagem, lhes desse para o cumprimento da palavra que nos deu e começassem a dar, a dar, a dar, a dar tudo o que têm: aquele ex-ministro das finanças que costuma falar do aborto, aquele ex-gestor do bcp que se abotoou, o outro, o do "aguenta, aguenta", que também invocou a sua fé, aquele que fala aos domingos na tv e sabe tudo e diz que dá, o outro que é presidente da república e que também vai à missa, isto só para citar uns poucos de que nem sei o nome mas sei que muito têm.

Imaginem que esta gente, em vez de beijar os pés descalços das imagens de barro, começava a ouvir a palavra do Senhor e começava a dar, a dar, a dar... a dar tudo o que têm até ficar sem nada, isto é que ia ser uma revolução!

Mas isto vai lá! Para já o novo papa renunciou aos sapatos vermelhos e não sou daqueles que dizem que foi porque lhe davam um ar gay. Toda a gente sabe que os sapatos pretos são mais baratos que os vermelhos!

Não quero ver ninguém crucificado! Quero apenas que me dêem a minha parte, que repartam! Dizem: não se pode repartir porque não há! Vamos lá! Um cristão não engana outro! Digam-me lá onde é que foram comer ontem à noite?!

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Estou pascoado de todo

A mim ninguém me come! Sobretudo hoje, sexta feira santa! Não comam porco, comam coelho!  Este blogue está pregado a uma cruz! Há-de ressuscitar um dia destes! Tenham paciência! O Rei há-de voltar! Não se deixem comer pelo coelho! Boa Páscoa a toda a fidalguia!


Vai-te rir pró carvalho!

domingo, 18 de março de 2012

Meu pai era peixe

Não me recordo de ter visto mais de duas linhas escritas pelo meu pai. Um recado na mesa da cozinha, umas contas de bicas de pinheiros e nada mais. Via-o escrever, de mãos trémulas como as que tenho, quando parávamos ali para os lados da Venda das Raparigas e ele preenchia um folha de um livro de impressos, qualquer prática obrigatória que mais tarde viria a evoluir para os actuais discos tacográficos dos camionistas.
Quando eu tirava Bom a Matemática dizia-se lá em casa, ou o próprio ou a mãe:
- Sais ao teu pai! Também era bom nos problemas!
Pelo que vi e pelo que me fizeram acreditar, vivi sempre convencido que quem escrevia as coisas bem era a mãe e que quem fazia bem as contas era o pai.
Quando o tempo de chuva e a idade de brincar me reduziam à pequena casa que era a nossa, eu vasculhava os armários e as gavetas, com esperança que a curiosidade me oferecesse alguma coisa para me entreter. Afinal de contas a casa também era minha, eu tinha o direito de saber tudo o que ela guardava.
Confesso-te agora pai que, quando a mãe propôs a compra de um fogão com forno para substituir o de dois bicos e tu disseste que não tínhamos dinheiro, eu tinha contado nesse dia as notas que estavam na caixa de sapatos e fiz as contas: aquilo dava para um fogão e para mais de meia dúzia de garrafas de gás e ainda sobrava para uma garrafa de aguardente para as constipações!
Só não entendo porque é que tu e a mãe guardaram, ainda melhor do que o dinheiro, o maço de cartas do vosso namoro que só agora, pelas sortes, encontrámos. Não chorámos, não rimos, dissemos satisfeitos um a um, talvez em coro:
- Olha que o pai escrevia mesmo bem!


- Olha pai, sabes? Eu, se não houver ondas, não me afogo!
(estou à vontade para dizer estas coisas ao meu pai porque além de peixe, ele era fish|)