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sexta-feira, 8 de março de 2019

Dia da mulher de quem?


Dia da mulher de quem
Nem sempre se fala
Dia da mulher que não se cala
Dia da mulher fadista
Dia da mulher artista
Dia da mulher doutora
Dia da mulher do ferro de engomar
Dia da mulher operária
Dia da mulher agrária
Dia do mulher do mar
Dia da mulher professora
Dia da apresentadora de televisão
Dia da mulher do norte
Dia da mulher de Baleizão
Dia da mulher de Nova Iorque
Dia da mulher do Afeganistão
Dia da mulher violentada
Dia da mulher libertada
Dia da mulher amada
Dia da minha mulher
Dia da mulher a pilhas
Dia da mulher que dá à luz
Dia da mulher com filhas
Dia das mulheres do Pinto da Costa
Dia da mulher do Costa
Dia da mulher do outro
Dia da última dama
Dia da mulher de quem se gosta
Dia com a mulher na cama
Dia da mulher com marido
Dia da mulher com homem
Dia da mulher solteira
Dia da mulher solteirona
Dia de todas as marias
E se todos os dias há mulheres
E se o Natal é todos os dias
Ah Mulheres! Perdoem-me!
Mas o Dia da Mulher
É sempre que um homem quiser!..

- Dia da mulher de quem?!
- As mulheres não são de ninguém!
Nem sequer a minha mulher é minha! 

Ai mãe, disseste-me um dia que só por acaso não nasci mulher e que só por acaso eu não era filho de outra qualquer. Só que  eu via e tinha ti todas as mulheres e, a partir daí, em divino incesto ou divinal orgia, eu devia ser de todas sem que nenhuma fosse minha.

Dia da mulher querida
Dia da mulher que não se quer

quinta-feira, 22 de março de 2018

Homenagem ao Bocage no Dia Mundial da Água


"A Água"
Meus senhores eu sou a água
que lava a cara, que lava os olhos
que lava a rata e os entrefolhos
que lava a nabiça e os agriões
que lava a piça e os colhões
que lava as damas e o que está vago
pois lava as mamas e por onde cago.
Meus senhores aqui está a água
que rega a salsa e o rabanete
que lava a língua a quem faz minete
que lava o chibo mesmo da raspa
tira o cheiro a bacalhau rasca
que bebe o homem, que bebe o cão
que lava a cona e o berbigão.
Meus senhores aqui está a água
que lava os olhos e os grelinhos
que lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes lutas
que lava sérias e lava putas
apaga o lume e o borralho
e que lava as guelras ao caralho
Meus senhores aqui está a água
que rega rosas e manjericos
que lava o bidé, que lava penicos
tira mau cheiro das algibeiras
dá de beber ás fressureiras
lava a tromba a qualquer fantoche e
lava a boca depois de um broche.
Bocage

segunda-feira, 19 de março de 2018

O meu pai era peixe

Não me recordo de ter visto mais de duas linhas escritas pelo meu pai. Um recado na mesa da cozinha, umas contas de bicas de pinheiros e nada mais. Via-o escrever, de mãos trémulas como as que tenho, quando parávamos ali para os lados da Venda das Raparigas e ele preenchia um folha de um livro de impressos, qualquer prática obrigatória que mais tarde viria a evoluir para os actuais discos tacográficos dos camionistas.

Quando eu tirava Bom a Matemática ouvia muitas vezes:
- Sais ao teu pai! Também era bom nos problemas!

Pelo que vi e pelo que me fizeram acreditar, vivi sempre convencido que quem escrevia as coisas bem era a mãe e que quem fazia bem as contas era o pai.
Quando o tempo de chuva e a idade de brincar me reduziam à pequena casa que era a nossa, eu vasculhava os armários e as gavetas, com esperança que a curiosidade me oferecesse alguma coisa para me entreter. Afinal de contas a casa também era minha, eu tinha o direito de saber tudo o que ela guardava.

Confesso-te agora pai que, quando a mãe propôs a compra de um fogão com forno para substituir o de dois bicos e tu disseste que não tínhamos dinheiro, eu tinha contado nesse dia as notas que estavam na caixa de sapatos e fiz as contas: aquilo dava para um fogão e para mais de meia dúzia de garrafas de gás e ainda sobrava para uma garrafa de aguardente para as constipações!

Só não entendo porque é que tu e a mãe guardaram, ainda melhor do que o dinheiro, o maço de cartas do vosso namoro que só agora, pelas sortes, encontrámos. Não chorámos, não rimos, dissemos satisfeitos um a um, talvez em coro:
- Olha que o pai escrevia mesmo bem!



 Olha pai, sabes? Eu, se não houver ondas, não me afogo!
(estou à vontade para dizer estas coisas ao meu pai porque além de peixe, ele era fish|)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Nunca minto


Nunca minto! Posso enlear-me nas teias da ficção, encarnar um suíno, ou dizer que navego em águas turvas quando, na verdade, não sou barco nem peixe, mas nunca minto!

Hoje é dia das pessoas se divertirem com mentiras, irreprováveis, porque é dia 1 de abril. E a brincadeira chega até aos noticiários e às manchetes dos jornais!...

Terá graça nos indivíduos de quem nunca se espera uma mentira mas é paradoxal nos média que com arte e engenho nos mentem todos os dias!

E, dito isto, num tempo em que há dias de tudo e para tudo, em que o "dia de" está banalizado, eu não acrescento mais um, mas proponho uma troca, que o dia 1 de abril passe a ser o Dia da Verdade, o dia em que ninguém, nenhum jornal ou televisão mente!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Hoje é dia de Zeca

Faz hoje 29 anos, no dia 23 de Fevereiro de 1987 cumpria o serviço militar na Escola Prática de Artilharia em Vendas Novas. O camarada Nunes ouvira no rádio do balneário a notícia daquela madrugada e acordou-me com ela no regresso ao quarto: - morreu o Zeca Afonso!
Nessa manhã tomei a linha do Setil para vir à terra tratar duns assuntos urgentes: 
na janela da automotora, a paisagem desse Aquém Tejo, ditou-me esta homenagem:


amigo canto e morte
maior que o pensamento
abril não morre

por mais que novos ventos se levantem
de rumo a falsas índias
levando incautos marinheiros deste cais
abril traz sempre voz

virão mais cinco e mais
cantando sim ao dizer não
virão como tu outros iguais
fazer de maio cantiga
fazer de abril canção

amigo canto e sempre
até

domingo, 3 de maio de 2015

Sou um grande filho duma grande mãe!

"Meu caro". "Meu amigo". "Meu caro amigo".
Tudo junto ainda gosto menos. Não gosto destes tratamentos onde entram em choque a pretensa proximidade com a evidente distância.
Também não gosto daqueles tratamentos de rua tipo: "ó chefe, sabe-me dizer onde é que fica a repartição de finanças?"; "ó patrão, olhe que lhe caiu a carteira!".
Gosto do "tu" quando ele me convence de que ainda sou novo. Não gosto de "tu" quando ele transporta um ar de abuso de confiança  ou um desejo implícito de me trepar.
No trabalho não gosto do "você" porque me faz velho, não gosto do "colega" porque colegas são as putas, dizia-se na tropa. "Camarada"? Ai isso sim! Sempre! E aí não pode entrar "você", nem "senhor", nem "meu sargento"! É o "tu cá, tu lá", a cumplicidade é sempre um prazer.
Aqui então, no Rei dos Leittões, onde eu só procuro cumplicidades, onde os amigos não têm rosto, nem morada, nem idade, fico irritado quando um comentário começa por "meu caro amigo".
Meus caros amigos, aqui o trato certo é a devida "Majestade" ou então, por falta do reconhecimento da coroa, venha o "ó pá", gosto do "ó pá", o "ó pá" serve para tudo, "porreiro, pá", diziam os outros um para o outro.
Lembrei-me agora duma cantilena que me ensinou a minha mãe:
"Olá pá! Já casaste pá?
Eu não pá! E tu pá?
Eu já pá!
Com quem pá?
Com a filha do Zé, pá!
Eina pá tanto pá!..."
Gosto do "pá". Dizem que são questões culturais mas ninguém gosta de ser tratado de qualquer forma, a não ser se for por uma amigo. A esses tudo se permite: "ó meu cabrão por onde é que tens andado?", "olha-me o filho da puta que aqui vem!...
Pois bem! Mas o que eu gosto mesmo é de ir à terrinha e sentir que ali sou sempre tratado como em nenhum outro lado. Pode ser carinhosamente por "cabrão", "filho da puta" mas o mais corrente é ser referido ou tratado por "João da Emília. Para quem não sabe, "João" é o meu nome próprio, "Emília" é nome de mãe aqui na ficção, porque não quero misturar a Idália com estas coisas.

terça-feira, 30 de abril de 2013

... Maio quem te criou?...


RECUSA

Convosco, não, traidores! Que poeta decente poderia
Acompanhar-vos um segundo apenas?
À quente romaria do futuro
Não vão homens obesos e cansados.
Vão rapazes alegres.
Moças bonitas,
Trovadores,
E também os eternos desgraçados,
Revoltados
E sonhadores.

Miguel Torga

sexta-feira, 29 de março de 2013

Crucifiquem-me mas não me aleijem

Não gosto de ver ninguém crucificado,  sinto os meus próprios pulsos a pulsar de dor. O menino e o burrinho, um jovem a aprender de carpinteiro com o padrasto de nome Zé, um homem novo de barbas louras a subir para o céu, isso eu gosto! Mas faz-me arrepios que, perante a figura de um crucificado, se ore, se implore, se dê culto, se coleccionem crucifixos e que essa cruz, tenha substituído o peixe, como símbolo da minha religião. Ao menos o peixe sempre podia aguçar o apetite!

Eu, que culturalmente sou cristão, gostava que os adoradores da dor do bom Homem e do bom Crucificado que foi Jesus, em vez do culto da imagem, lhes desse para o cumprimento da palavra que nos deu e começassem a dar, a dar, a dar, a dar tudo o que têm: aquele ex-ministro das finanças que costuma falar do aborto, aquele ex-gestor do bcp que se abotoou, o outro, o do "aguenta, aguenta", que também invocou a sua fé, aquele que fala aos domingos na tv e sabe tudo e diz que dá, o outro que é presidente da república e que também vai à missa, isto só para citar uns poucos de que nem sei o nome mas sei que muito têm.

Imaginem que esta gente, em vez de beijar os pés descalços das imagens de barro, começava a ouvir a palavra do Senhor e começava a dar, a dar, a dar... a dar tudo o que têm até ficar sem nada, isto é que ia ser uma revolução!

Mas isto vai lá! Para já o novo papa renunciou aos sapatos vermelhos e não sou daqueles que dizem que foi porque lhe davam um ar gay. Toda a gente sabe que os sapatos pretos são mais baratos que os vermelhos!

Não quero ver ninguém crucificado! Quero apenas que me dêem a minha parte, que repartam! Dizem: não se pode repartir porque não há! Vamos lá! Um cristão não engana outro! Digam-me lá onde é que foram comer ontem à noite?!

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Estou pascoado de todo

A mim ninguém me come! Sobretudo hoje, sexta feira santa! Não comam porco, comam coelho!  Este blogue está pregado a uma cruz! Há-de ressuscitar um dia destes! Tenham paciência! O Rei há-de voltar! Não se deixem comer pelo coelho! Boa Páscoa a toda a fidalguia!


Vai-te rir pró carvalho!

domingo, 18 de março de 2012

Meu pai era peixe

Não me recordo de ter visto mais de duas linhas escritas pelo meu pai. Um recado na mesa da cozinha, umas contas de bicas de pinheiros e nada mais. Via-o escrever, de mãos trémulas como as que tenho, quando parávamos ali para os lados da Venda das Raparigas e ele preenchia um folha de um livro de impressos, qualquer prática obrigatória que mais tarde viria a evoluir para os actuais discos tacográficos dos camionistas.
Quando eu tirava Bom a Matemática dizia-se lá em casa, ou o próprio ou a mãe:
- Sais ao teu pai! Também era bom nos problemas!
Pelo que vi e pelo que me fizeram acreditar, vivi sempre convencido que quem escrevia as coisas bem era a mãe e que quem fazia bem as contas era o pai.
Quando o tempo de chuva e a idade de brincar me reduziam à pequena casa que era a nossa, eu vasculhava os armários e as gavetas, com esperança que a curiosidade me oferecesse alguma coisa para me entreter. Afinal de contas a casa também era minha, eu tinha o direito de saber tudo o que ela guardava.
Confesso-te agora pai que, quando a mãe propôs a compra de um fogão com forno para substituir o de dois bicos e tu disseste que não tínhamos dinheiro, eu tinha contado nesse dia as notas que estavam na caixa de sapatos e fiz as contas: aquilo dava para um fogão e para mais de meia dúzia de garrafas de gás e ainda sobrava para uma garrafa de aguardente para as constipações!
Só não entendo porque é que tu e a mãe guardaram, ainda melhor do que o dinheiro, o maço de cartas do vosso namoro que só agora, pelas sortes, encontrámos. Não chorámos, não rimos, dissemos satisfeitos um a um, talvez em coro:
- Olha que o pai escrevia mesmo bem!


- Olha pai, sabes? Eu, se não houver ondas, não me afogo!
(estou à vontade para dizer estas coisas ao meu pai porque além de peixe, ele era fish|)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Entrevista com Zeca Afonso



"O problema é que os direitos formais têm cada vez menos conteúdo prático. As liberdades formais não servem para nada se não tiverem consequências no dia a dia das pessoas. Teoricamente não há censura, não existe repressão policial ao nível da política, pode-se portanto falar, escrever, etc. Mas os mecanismos de coerção e discriminação permanecem. Mais subtis, mais pulverizados, mas permanecem. O que não quer dizer que eu não preferia a democracia formal ao fascismo, é evidente. Mas no fundo a liberdade é antes de mais nada a liberdade de se viver melhor. Por isso a liberdade para o doutor Mário Soares é uma coisa e para o tipo que está sem salários ou sem emprego ou sem casa é outra. Em quase toda a região de Setúbal há fome, mulheres casadas e raparigas prostituem-se para comer. Que sentido faz falar a estas pessoas da liberdade da democracia? Claro, há uma data de gente que vive melhor do que antes do 25 de Abril, mas à custa de clientelismos partidários e favores políticos que não afirmam propriamente os trunfos dum regime. (…)"
A entrevista na íntegra em: http://livratemundo.blogspot.com/

domingo, 1 de maio de 2011

Que hei-de fazer com este dia?!

Que hei-de fazer com este dia?!
Sou filho de mãe, mãe, pai operário, sou pai, trabalhador, revolucionário! Já sei! Tive uma ideia: vou almoçar fora com a família!
Há duas mães que não esqueço, uma é a de Gorki e outra é a Minha!

sábado, 19 de março de 2011

Dia do Pai

Ela já topou que existe algo que se passa com alguns serões do pai - um dia perguntou-me mesmo se "blogs" é alguma raça de porcos. Se o pai passa tanto tempo com imagens de porcos num reino de leitões, vai gostar. E gostei.


Num 19 de Março há muitos anos, a minha irmã ofereceu ao meu pai um ramo de flores que muito sensibilizou o prendado pois foi prática consumista novidade lá no lar. Durante o jantar, o acontecimento foi até tema de conversa e, como nunca foi família de segredos no que toca a despesas e receitas, o preço do arranjo caiu na mesa que nem uma bomba. O pai surpreendido pelo valor da despesa descaiu-se inocente:
- Por esse preço bem que me podias ter oferecido um garrafão de tinto!

O espírito do presente de necessária utilidade sempre foi regra lá da casa e, daí para a frente, as jarras continuaram só com flores do campo ou do jardim da mãe.
Tantos anos passados, as prendas do Dia do Pai voltam a dar que falar, agora no meu novo lar pequeno-burguês. Se a mais nova se ficou pela imagem, o mais velho ofereceu-me um moto-serra.
- Útil?! Foram os malditos jogos vídeo! Um mestiço encorpado percorre as ruas de um ambiente urbano americano e ataca tudo e todos com variadas armas entre as quais, cheira-me que não faltará um belicoso moto-serra!
Irado atiro à mãe:
- Temos de acabar com essa maldita Playstation 2!
O meu filho atento, corre do quarto e interrompe:
- Boa pai! Vem aí o Dia da Criança e eu ainda não tenho a Playstation 3!?
A patroa leitoa acha que o presente da menina é um sinal de que os leitõezinhos cá da casa também precisam de atenção e que o presente do menino vem na sequência de termos passado o Inverno com a lareira a meio gás, isto apesar de termos lenha para traçar!
Afinal de contas tive presentes úteis. Talvez a minha irmã, na Páscoa, me ofereça um garrafão de pinga!

terça-feira, 8 de março de 2011

Dia da Mulher de quem?!

Dia da mulher de quem
Nem sempre se fala
Dia da mulher que não se cala
Dia da mulher que canta
Dia da mulher fadista
Dia da mulher dentista
Dia da mulher doutora
Dia da mulher doméstica
Dia da mulher operária
Dia da mulher professora
Dia da apresentadora de televisão
Dia da mulher do ferro de engomar
Dia da mulher de Nova Iorque
Dia da mulher de Baleizão
Dia da mulher de S.Petersburgo
Dia da mulher do Afeganistão
Dia da mulher violentada
Dia da mulher libertada
Dia da mulher amada
Dia da minha mulher
Dia da mulher a pilhas
Dia da mulher que dá à luz
Dia da mulher com filhas
Dia da mulher de Eanes
Dia das mulheres do Pinto da Costa
Dia da mulher de Sócrates
Dia da mulher do outro
Dia da mulher de quem se gosta
Dia com a mulher na cama
Dia da mulher com marido
Dia da mulher com homem
Dia da mulher solteira
Dia da mulher solteirona
Dia de todas as marias
E se todos os dias há mulheres
E se o Natal é todos os dias
Ah Mulheres! Perdoem-me!
Mas o Dia da Mulher
É sempre que um homem quiser!..

- Dia da mulher de quem?!
- As mulheres não são de ninguém! A minha mulher não é minha! Para que não restem dúvidas acerca daquilo que penso das mulheres, revelo que, não por acaso, a minha mãe foi mulher!

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Eles comem tudo


Amigo canto e morte
maior que o pensamento
abril não morre

por mais que novos ventos se levantem
de rumo a falsas índias
levando incautos marinheiros deste cais
abril traz sempre voz

virão mais cinco e mais
cantando sim ao dizer não
virão como tu outros iguais
fazer de Maio cantiga
fazer de Abril canção

amigo canto e sempre
até
Linha do Setil- Fev-1987

Lá onde estiveres, sabe amigo que eles já comeram tudo e agora estão-nos comendo a nós! E fazem-no com o mesmo descaramento com que, depois de te verem morto, começaram a reconhecer o José Afonso e a dizerem que gostam das suas canções.
Linha do Norte, Fev-2011

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Dia de Portugal

Dedico áquela que foi encarregada pelo médico de me vigiar um sinal nas costas.

No dia do Pai , lembro-me dos que não têm pai.
No dia da Mãe, lembro-me dos que não têm mãe.
No dia da Mulher, lembro-me dos homens.
No dia dos Animais, lembro-me dos homens.
No dia da Árvore, lembro-me dos homens e dos ninhos.
No dia da Água, lembro-me do vinho.
No dia Sem Carros, lembro-me dos cavalos.
No dia do Não Fumador, lembro-me de fumar.
No dia do Consumidor, lembro-me do Continente.
No dia da Europa, lembro-me de África.
No dia de Portugal, lembro-me dos que não são portugueses.
No dia de Camões, lembro-me de Bocage.
No dia da Liberdade, lembro-me da prisão.
No dia do Trabalhador, lembro-me dos desempregados.
No dia da Defesa, lembro-me dos meus dezoito aninhos.
No dia das Mentiras, lembro-me do primeiro ministro.
No dia de Todos os Santos, lembro-me de todo o povo.
No dia de Natal, lembro-me do Ano Novo.
No dia da República, lembro-me do Rei.
No dia de Reis, lembro-me do Rei dos Leitões
No dia dos namorados, lembro-me dos que não têm namorada.
Mas a verdade é que geralmente não me lembro de nada.
A não ser quando tenho comichão mas costas:
- O amor chega aqui!
- Só se me disseres que dia foi ontem!...
- Segunda-feira!
- Dia de Portugal!...
Qual dos dois o melhor!... A idade não perdoa!
Imagem desviada do Zé Povinho

quinta-feira, 10 de junho de 2010

10 de Junho - Condecorem-me porra!

Ai estas carinhas, estes portes, estes fatos, estas satisfações mútuas, estas palmas, este público, este país! Eu nunca vi pátria assim tão pequena e com tantos feitos!

Olha quem está ali! O omnipresente, o opinador geral da república, o especialista de generalidades! De manhã está numa escola  a falar sobre preservativos, à tarde no grémio a falar sobre touradas, à noite na TV a falar sobre os capacetes das forças de segurança e durante a noite a escrever sobre o caso Esmeralda ou sobre as qualidades do presidente da Câmara de Santarém. Nem sei como consegue arranjar tempo para ser condecorado.
Juro que me pus ao poste por ser 10 de Junho, que escolhi este vídeo porque gosto da música e abomino os actores.  Deus está em todo o lado e o Moita Flores pode aparecer por lá. Portanto, é-me difícil justificar que não esperava encontrá-lo aqui! Veio mesmo a calhar, era para servir o filme cru, não era para escrever nada que já é tarde e já escrevi!
- Oh querida que horas são?!
- Olha, pergunta ao Moita Flores!
- Não tenho o número dele!
- Não faz mal, ele tem o teu!
Vou acabar por aqui, tenho de ir atender!

Vídeo amador do blogue http://aventar.eu

domingo, 2 de maio de 2010

Mãe

A mãe morreu!
A crueza do verbo:
morrer.
O sentimento que faz pequena a palavra:
Mãe!...

Metade de nós
Que vai à frente
Prá lá, pró não sei pra onde!
Finalmente adulto de corpo inteiro:
Órfão de mãe!

A mãe morreu!

E no entanto passados anos,
Os lábios procurando o mamilo
Ao passar pela mesinha do telefone:
- Já não posso telefonar à minha mãe!

Lembrar-me todos os dias
e hoje sobretudo,
Pelo o orgulho de nunca termos ligado patavina a este dia.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Santa sexta-feira

Ressuscitarei

Sexta-feira Santa. O que contam para mim estas datas do calendário católico? - Contam!

Não tenho segredos no que toca à minha relação com Deus!
- Deus?! Oh Deus! Que Fé a minha! Estamos cá, é Páscoa!

Não sei se acredito no Deus dos Judeus, ou noutro, mas uma coisa que não sou é "católico não praticante"! Quando muito sou "culturalmente católico". De outra forma não estaria aqui a recorrer a imagens para assinalar este tempo. Não me vou esticar mais, a minha vida pessoal, o ponto em que estão as minhas batatas, a minha triste conta bancária, não são para aqui chamados!
Sou pacato, tenho sido um livro aberto revelando as páginas esborratadas, amarrotadas, dobradas, sublinhadas, enfim, abertas.

E, nesta parte, como tenho pecado um pouco pela ingenuidade, direi apenas, respeito! Respeito tanto, que me limito às imagens.

Esta imagem é uma repostagem - repostagem, palavra nova! - talvez a imagem seja suficientemente expressiva para revelar a minha relação com a Páscoa.
E se não revelar? O que é que isso importa?
O tempo da semana que mais gostamos é sexta-feira à noite! Santa sexta-feira!