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sexta-feira, 10 de abril de 2026

Dia do pai

Num 19 de Março, há muitos anos, a minha irmã ofereceu ao pai nosso um ramo de flores. Ele conformou-se com o facto de ela ter rompido com a prática anticonsumista seguida lá em casa e com preceito social de não se oferecerem flores a homens.

Durante o jantar, o acontecimento foi tema de conversa e, como nunca foi família de segredos no que toca a gastos e receitas, o preço do arranjo entornou-se na mesa como um copo de vinho. O pai nosso, surpreendido pelo valor da despesa, deixou escapar, sem ofensa:
- Por esse preço, bem que me podias ter oferecido um garrafão de tinto!

sexta-feira, 19 de março de 2021

Talvez por ser 19 de março

Não era camionista, era chofer, nesse tempo era o verbo mais corrente. Chofer da fábrica do senhor António. Nos anos cinquenta, para um aldeão, ter a carta de condução era um mestrado. Era o mais letrado e mais remunerado  depois do escriturário. E tinha um ajudante para a cargas e descargas, para as manobras, para perguntar nos cruzamentos por onde é que se ia para onde se queria ir, para enfiar paus nos rodados quando a Scania se atolava, para fazer de rádio na cabine porque não o havia. O Zé era um fiel amigo. Era como se fosse da família.

Conheci o meu pai nos anos sessenta. Raramente o sentia sem ser ao serão e ao domingo. O horário de trabalho começava entre as três e as seis, conforme o itinerário era traçado e o regresso era já noite feita. Conversa e meia a ceia e no final o terço, no qual era sua a lei que o primeiro a abrir a boca, de castigo, ia para a cama - era sempre ele. A cozinha, a roupa, a casa, os filhos, o gado, o mato, as sementeiras e as colheitas eram com a mãe. Com ele era a força de trabalho em troca do salário. Trabalhador, foi assim sempre que olhei para o meu pai.

Rijo e meigo, nervosamente sossegado, riso de não mostrar os dentes, uma humildade de meter respeito, as mãos calejadas, ai e os beijos que encontravam sempre os picos da barba por fazer. Gente dura. Começou aos dez anos como criado na quinta das Caldas do senhor Terrinha. Eu segui-lhe os passos e aos dez anos pus-me a andar. Mostrava vaidade por dizer que tinha um filho que andava a estudar para padre.

Depois veio 74 e tempos novos, horário de trabalho, o respeitinho do patrão por quem trabalha, três meses de vencimento em agosto que isso de gozar férias era para gente da cidade e de pequena prole, a motorizada a dar lugar ao carocha em terceira mão... e a vida continuou. O mesmo pai mas eu já varão e noutros territórios. Uma Scania nova com rádio, o Zé na Suíça, o salário sempre magro, o trabalho sempre pesado, a vida sempre dura, o mesmo riso de lábios encostados, os mesmos olhos verdes claro, a mesma força de trabalho.

Que grande herança: o grande orgulho de pertencer à classe trabalhadora!


terça-feira, 19 de março de 2019

Dia de S.José: padroeiro dos trabalhadores, sim! Dos pais, não!


Eu ainda sou do tempo em que 19 de março era feriado. Existe, perto da minha, uma aldeia de nome S.José e era para a festa dessa terra que toda a gente das redondezas ia nesse dia, sem ninguém se lembrar de quem era o pai.

A sociedade capitalista foi transferindo a sua religiosidade para o consumismo e os dias dos santos foram-se transformando em festividades mais consentâneas com o espírito do balcão do que com o culto de referências sagradas. 
E foi assim que o dia de S.José  passou a ser apenas o Dia do Pai.

Tenho pena porque S.José,  padroeiro dos trabalhadores, não merecia este enxovalho. Não chegava ao desgraçado o registo histórico-religioso de se ter conformado com o facto da sua noiva aparecer grávida dum filho, que não era seu, de ter criado o Puto e aceitar viver com ela conservando a virgindade, ainda por cima a crueldade dos crentes humilhou-o, celebrando-o também como padroeiro dos pais. 

Eu pergunto, a qualquer um dos homens que venera nas igrejas a Santíssima Trindade e a multiplicidade de santas Mãe de Deus, o que fariam se, por acaso, ao fim de mais de nove meses de namoro sem qualquer encosto de genitais, a futura esposa vos dissesse "estou grávida e não é de ti"?  - Não é do teu irmão, nem do padeiro, nem do pastor, nem do Rabino! É do Espírito Santo! (Do Ricardo? - perguntariam alguns). Imaginem que a moça acrescentaria: acredita que isto não é fruto de qualquer ato sexual. Mais ainda diria: quero que sejas apenas o seu pai nutrício e não contes comigo para te deixar fazer alguma coisa que me emprenhe outra vez!

De facto esta história brada aos céus! De tal forma que eu não reconheço como verdadeiro cristão qualquer homem que, perante uma gravidez inexplicável da sua mulher ou namorada, não aceite uma explicação do género: foi obra e graça do Espírito Santo.

Começar a chamar ao Dia de S.José o Dia do Pai também me parece muito pouco cristão. 
Senhores do Vaticano, para não dar cabo do comércio, e tratando-se do santo dos trabalhadores, talvez fosse melhor que o Dia de S.José passasse a ser o 1ª de maio.

segunda-feira, 19 de março de 2018

O meu pai era peixe

Não me recordo de ter visto mais de duas linhas escritas pelo meu pai. Um recado na mesa da cozinha, umas contas de bicas de pinheiros e nada mais. Via-o escrever, de mãos trémulas como as que tenho, quando parávamos ali para os lados da Venda das Raparigas e ele preenchia um folha de um livro de impressos, qualquer prática obrigatória que mais tarde viria a evoluir para os actuais discos tacográficos dos camionistas.

Quando eu tirava Bom a Matemática ouvia muitas vezes:
- Sais ao teu pai! Também era bom nos problemas!

Pelo que vi e pelo que me fizeram acreditar, vivi sempre convencido que quem escrevia as coisas bem era a mãe e que quem fazia bem as contas era o pai.
Quando o tempo de chuva e a idade de brincar me reduziam à pequena casa que era a nossa, eu vasculhava os armários e as gavetas, com esperança que a curiosidade me oferecesse alguma coisa para me entreter. Afinal de contas a casa também era minha, eu tinha o direito de saber tudo o que ela guardava.

Confesso-te agora pai que, quando a mãe propôs a compra de um fogão com forno para substituir o de dois bicos e tu disseste que não tínhamos dinheiro, eu tinha contado nesse dia as notas que estavam na caixa de sapatos e fiz as contas: aquilo dava para um fogão e para mais de meia dúzia de garrafas de gás e ainda sobrava para uma garrafa de aguardente para as constipações!

Só não entendo porque é que tu e a mãe guardaram, ainda melhor do que o dinheiro, o maço de cartas do vosso namoro que só agora, pelas sortes, encontrámos. Não chorámos, não rimos, dissemos satisfeitos um a um, talvez em coro:
- Olha que o pai escrevia mesmo bem!



 Olha pai, sabes? Eu, se não houver ondas, não me afogo!
(estou à vontade para dizer estas coisas ao meu pai porque além de peixe, ele era fish|)

sábado, 19 de março de 2016

Talvez por ser 19 de Março

"- Filho, isto a partir dos quarenta é um instante! Foi um instante enquanto te criaste!
Pois é pai! Não sei se nesses lado por onde andas o tempo existe! Por aqui continua a haver muita falta dele e, o que há, é escorregadio e foge-nos das mãos!

Parece que foi ontem e foi há meia dúzia de anos, porque sinto exactamente a mesma coisa, porque é mais fácil, vou repetir o post - perdão aos leitões, digo leitores, habituais! Até tenho tempo mas estou com preguiça!
Esta imagem serve também para provar que, desta vez, os tipos do Google não foram muito originais!

Regressavas de França de vez. Os carros não tinham caminho para chegar à nossa porta mas a mãe sentiu o táxi parar ao fundo da ladeira e largou alegria quando me anunciou:
- É o pai que chegou João, vai esperá-lo!
É a primeira memória que guardo de ti e talvez da vida! Eu, escondido debaixo da figueira, a ver-te subir, de mala na mão, cada vez mais perto, a timidez a consumir-me o desejo e a coragem de correr para um homem alto e com bigode!... Acocorei-me por detrás do carro de bois que o ti Manel tinha estacionado à porta dele e vi-te a passar, por entre um dos dois buracos da roda de madeira, sem dares por mim!... Vi-te beijar a mãe e logo a seguir perguntar:
- E o João?!
E a mãe a descobrir-me e a apontar:
- Olha ali!
E tu, largando a mala e a correr para este, então fedelho, envergonhado e a levares-me ao colo e a mãe a dizer-me, tal como a ouço ainda agora:
- Não chores João! Já tens pai!

Depois seguiram-se anos e uma casa cheia de filhos até que, com dois meses de reforma recebidos…

Mas, nem era disto que eu queria falar agora! Eu queria recordar-te de que como, apesar de mortais, nós, os da nossa linhagem, somos duros!
Ensinaste-me a decorar a data em que a avó nasceu porque me a recordavas sempre que passávamos a Alenquer - havia uma fábrica que se avistava longe e que tinha esse ano registado em letras garrafais numa empena. Ainda hoje esse ano me serve de referência para me localizar melhor na história: “100 anos antes da minha avó nascer”, “50 anos antes da minha avó nascer”, “quando a minha avó nasceu”, “quando a minha avó tinha dez anos”…
A avó Gracinda nasceu em 1888, casou com 14 anos e tinha seis filhos quando veio a pneumónica – levou-lhos todos! A avó Gracinda não tomou anti depressivos! Teve mais sete! Não havia cama para todos? À medida que iam crescendo iam sendo alojados no palheiro! Não havia mesa para todos? Punham a tigela em cima dos joelhos à lareira! Não havia comida para todos? Paciência! Deus prometia dias melhores!

Quando eu saí de casa, com dez anos, a avó deu-me 50 escudos! É o último gesto que recordo dela!
Pois lembrei-me disto pai! De te presentear a falar da tua mãe! Se hoje receber algum presente vão ter que me ouvir a falar de ti!

quinta-feira, 19 de março de 2015

Dia do Pai - este post é uma prenda para os meus filhos

Já há algum tempo que eu desconfiava, se eu não bebo, porque é que os meus filhos me oferecem sempre vinho?! E é sempre vinho da mesma marca!
Hoje descobri que me oferecem sempre a mesma garrafa!

Pelas minhas contas a garrafa já deve ter uns setenta anos. Intrigado, no meu último aniversário, não sei agora precisar a data, com uma unha fiz uma marca discreta, e hoje tirei as provas.

Poderia ter uma conversa com eles mas já sei que me responderiam que não voltariam a ir àquela garrafeira porque o homem tem as unhas sujas e grandes. Prefiro bebê-la. E tem de ser hoje porque amanhã faz anos que rompi com a minha penúltima namorada e o acontecimento costuma ser festejado aqui em casa com prenda e tudo. Afinal, se o namoro tivesse resultado, não teriam este pai nem a sua mãe e eu, provavelmente, não bebia. 

Nota: Há qualquer coisa que não bate certo nestas história: que idade tenho eu? que pai sou eu? bebo ou não bebo?