sábado, 19 de março de 2016

Talvez por ser 19 de Março

"- Filho, isto a partir dos quarenta é um instante! Foi um instante enquanto te criaste!
Pois é pai! Não sei se nesses lado por onde andas o tempo existe! Por aqui continua a haver muita falta dele e, o que há, é escorregadio e foge-nos das mãos!

Parece que foi ontem e foi há meia dúzia de anos, porque sinto exactamente a mesma coisa, porque é mais fácil, vou repetir o post - perdão aos leitões, digo leitores, habituais! Até tenho tempo mas estou com preguiça!
Esta imagem serve também para provar que, desta vez, os tipos do Google não foram muito originais!

Regressavas de França de vez. Os carros não tinham caminho para chegar à nossa porta mas a mãe sentiu o táxi parar ao fundo da ladeira e largou alegria quando me anunciou:
- É o pai que chegou João, vai esperá-lo!
É a primeira memória que guardo de ti e talvez da vida! Eu, escondido debaixo da figueira, a ver-te subir, de mala na mão, cada vez mais perto, a timidez a consumir-me o desejo e a coragem de correr para um homem alto e com bigode!... Acocorei-me por detrás do carro de bois que o ti Manel tinha estacionado à porta dele e vi-te a passar, por entre um dos dois buracos da roda de madeira, sem dares por mim!... Vi-te beijar a mãe e logo a seguir perguntar:
- E o João?!
E a mãe a descobrir-me e a apontar:
- Olha ali!
E tu, largando a mala e a correr para este, então fedelho, envergonhado e a levares-me ao colo e a mãe a dizer-me, tal como a ouço ainda agora:
- Não chores João! Já tens pai!

Depois seguiram-se anos e uma casa cheia de filhos até que, com dois meses de reforma recebidos…

Mas, nem era disto que eu queria falar agora! Eu queria recordar-te de que como, apesar de mortais, nós, os da nossa linhagem, somos duros!
Ensinaste-me a decorar a data em que a avó nasceu porque me a recordavas sempre que passávamos a Alenquer - havia uma fábrica que se avistava longe e que tinha esse ano registado em letras garrafais numa empena. Ainda hoje esse ano me serve de referência para me localizar melhor na história: “100 anos antes da minha avó nascer”, “50 anos antes da minha avó nascer”, “quando a minha avó nasceu”, “quando a minha avó tinha dez anos”…
A avó Gracinda nasceu em 1888, casou com 14 anos e tinha seis filhos quando veio a pneumónica – levou-lhos todos! A avó Gracinda não tomou anti depressivos! Teve mais sete! Não havia cama para todos? À medida que iam crescendo iam sendo alojados no palheiro! Não havia mesa para todos? Punham a tigela em cima dos joelhos à lareira! Não havia comida para todos? Paciência! Deus prometia dias melhores!

Quando eu saí de casa, com dez anos, a avó deu-me 50 escudos! É o último gesto que recordo dela!
Pois lembrei-me disto pai! De te presentear a falar da tua mãe! Se hoje receber algum presente vão ter que me ouvir a falar de ti!

27 comentários:

antonio - o implume disse...

Já ouvimos e foi um belo presente! Para ele e para todos nós. Obrigado.

Nocturna disse...

Bela homenagem aos mais velhos das nossa famílias !
Magestade, espero que os princepezinhos saibam compreender o Pai que têm.
Um abraço
Nocturna

MARIA disse...

Majestade, que lindo texto. Quanta emoção, quanta afectividade especial transmite.
Para mim, um verdadeiro presente, em especial após o dia que tive.
Esta madrugada o meu local de trabalho foi "distinguido e agraciado" por alguém muito especial. A ânsia de me cumprimentar foi de tal ordem que nem a porta de madeira lhe resistiu...
Há pessoas que "não há mesmo pai para elas" ... A outras falta pai e até falta o PC...
Enfim, chegada a casa, ao meu PC pessoal, nada como o seu reino para me conduzir ao lado mais luminoso da alma, onde as mais verdadeiras e bonitas emoções se revelam e nos enchem de paz e tranquilidade.
Feliz dia do pai, a si que foi um filho excepcional e é seguramente o melhor pai do mundo.

Um beijinho amigo

Maria

Isabel Pedrosa Pires disse...

Gostei da maneira afectuosa como recordou a História e os Pais. Para que da Memória nada se apague.

Bom dia da Pai.

Zé Povinho disse...

Há recordações que marcam, e nem sempre são prendas ou ocasiões festivas.
Abraço do Zé

alberto cardoso disse...

Bolas Majestade!
O seu belo texto conseguiu comover-me, admito até que os meus olhos se humedeceram. Porque é, sem dúvida, um belíssimo texto, que só poderia ser escrito por alguém com uma sensibilidade e um saber transmitir apenas ao alcance de alguns; também porque hoje é o dia do Pai, eu ser Pai e não ser fácil, como Pai, recordar dores passadas que podem repetir-se; também porque hoje é o dia do meu aniversário; também porque, oficialmente, entrei hoje na idade sénior, maneira simpática de se referirem aos velhos.
Talvez estupidamente não me sinto “velho”! Acho que não houve em mim nenhuma alteração visível de ontem para hoje. Mas ninguém é bom juiz em causa própria. Só os outros podem avaliar da nossa decadência. Por isso Majestade lhe rogo que me previna quando (se?) os meus comentários confirmarem a decadência que o B.I. (raios-o-partam) passou a afirmar. Para eu parar de dizer disparates. No meu entendimento, nos tempos que correm, quem pode afirmar disparates impunemente são os políticos em geral, os do partido do poder em especial, os ministros nem se fala e o PM é tido como inimputável. Mas esta visão pode estar (está, de certeza) distorcida pela minha provecta idade que já não discerne (ai que não discerne!) a realidade da fantasia.
Cumprimentos à Realíssima Esposa e aos Infantes (que saibam apreciar e seguir os exemplos e os ensinamentos do Pai exemplar, único nos tempos que correm, que a Sorte lhes ditou).
Alberto Cardoso

Camolas disse...

- Repensar quem são os grandes heróis, será a tarefa do novo homem.Quantas vezes estão perto de nós e não damos por eles.
Estou nfastiado de ídolos e semi-deuses que se peidam à mesa

Meg disse...

Pata Negra,

Li este teu texto de um fôlego e com muita emoção.

"... avó Gracinda nasceu em 1888, casou com 14 anos e tinha seis filhos quando veio a pneumónica – levou-lhos todos! A avó Gracinda não tomou anti depressivos! Teve mais sete! Não havia cama para todos? À medida que iam crescendo iam sendo alojados no palheiro! Não havia mesa para todos? Punham a tigela em cima dos joelhos à lareira! Não havia comida para todos? Paciência! Deus prometia dias melhores!"

E ainda sem fala te deixo

Um abraço MUITO comovido

Compadre Alentejano disse...

Comever um alentejano não é muito fácil, mas conseguiste-o!
Esta homenagem aos "velhotes" está formidável. Os meus parabéns!
A tua avó Gracinda nasceu na mesma altura do meu avô paterno, 1888.
Um grande abraço
Compadre Alentejano

polidor disse...

mas, depois... depois, o tempo passa e vem uma saudade doentia que faz contrair o peito como se o ar não fosse suficiente...
abraço

samuel disse...

Que coisa bonita!

Jorge P.G disse...

Gostei, pá!

Um abraço.

Milu disse...

Estou sem palavras! Gostei imenso! Este é um texto revelador de grande sensibilidade!

André D'Abô disse...

muito bonito, muito mesmo!

O Guardião disse...

Um presente muito singelo mas muito revelador.
Cumps

Marreta disse...

Será que isto tem a ver com o dia do pai?
Saudações de um filho sem dia.

opolidor disse...

Rei Pata
eu sei que muitos que parecem algo cómicos até são os mais dramáticos...
abraço

MARIA disse...

Reli o seu texto com tanto agrado, porque escreve sempre excepcionalmente bem, quer quando brinca, quer quando fala a sério.
E quando fala de sentimentos tão bonitos " não há pai para Si Majestade" !

mfm disse...

O Dia do Pai teve origem na antiga Babilónia, quando um jovem, Elmesu moldou em argila o primeiro cartão no qual desejava sorte,saúde e longa vida a seu pai.O Rei,não deseja o rei sente e partilha os seus sentimentos. Orgulhosos devem estar o pai e os filhos pelo seu legado.

Anónimo disse...

Incognito
Realmente isto de fazer rir e chorar com esta facilidade nao é para todos!

Pois é, confesso que também chorei.O facto de ter uma experiencia parecida, ainda tornou esta leitura mais emocionante. Lembro-me como se fosse hoje, que o ultimo presente que ofereci ao meu pai (faz hoje uns anitos) foi um diploma do Melhor Pai do Mundo, e pela 1ª vez (que me lembre) vi cairem-lhe duas timidas lagrimas.

Fico feliz por ainda ter ido a tempo do lhe dizer em vida! Faleceu passado pouco mais de um mês!!!

Um abraço amigo e obrigado pelo momento

Anónimo disse...

"A vezes o homem mais pobre deixa a seus filhos a herança mais rica."
Tive um bom pai, embora o deixasse de ver com 23 anos, coisas da vida.
Gostei imenso do que li. Mostra ter grande sensibilidade. Feliz dia!
Beijos

cid simoes disse...

E com muito esforço retive uma sentida lágrima.

Camolas disse...

Escreve um livro carago! para eu poder dizer que tambem tenho um amigo escritor.

O Puma disse...

Sempre um prazer navegar nas tuas águas

do Zambujal disse...

Que bom ler-te!
Como é que podia estar (quase!) esquecido?!
Contas como os melhores contam. A vida. O viver...
Obrigado por contares.

Anónimo disse...

um abraço.

Judite Castro disse...

:-)