domingo, 13 de março de 2016

Não adianta partir mais pedra aqui


Antes das pedras chegarem à calçada, depois das máquinas grandes arrancarem ao coração da serra grandes blocos, existem homens que, com  martelos grandes e pequenos, formam um a um os paralelepípedos que pisamos. É vê-los à sombra dum chapéu de praia em alguns sítios de Reguengos da Serra, era vê-los ganhar muito dinheiro ainda há poucos anos.

Um deles teve um filho que, de sempre o acompanhar e de outros jeitos, lhe deu para com escôparos, ponteiros e outras máquinas começar, de pequenino, a mondar a pedra e a dar-lhe formas vivas.

Quando, de liceu pronto, manifestou à mesa o desejo de ir para belas artes - o pai, "ainda se fosse para médico, advogado ou engenheiro!"; a mãe "ainda se fosse para padre! mas está bem! deixemo-lo tentar a sua vontade!" - lá foi ele com a curta rédea-mesada para a escola superior.

Ainda estudante, haveria de montar oficina no estábulo abandonado do avô e conseguir até vender alguns trabalhos, fazer orgulho à mãe, "meu filho vai ser artista!", e pôr o pai de pé atrás, "com tanta massa gasta e rebarbadoras estragadas, mais valia ele começar a pensar em desistir dos estudos e fazer-se à serra que isto é duro mas ainda vai sendo seguro para sustento!".

E a contradição entre o casal teve seguimento quando foi inaugurado, no largo da capela, um monumento em pedra que consistia num paralelepípedo de dois de altura, por meio e meio de base, com uma gravação em baixo relevo de dedicatória às gentes de Reguengos que já partiram. Em contraponto, conseguiu então o jovem, em fim de curso, receber autorização do presidente da junta para, no largo da sua rua, enquadrar uma escultura ilustrativa do homem que faz as pedras para a calçada. A mãe pediu o aval de toda a vizinhança e o pai justificou-se a todos: "aquilo não tem jeito nenhum mas o que é que um homem há-de fazer?!".

Embora sem o entusiasmo da populaça a obra lá ficou e, já formado, o artista não teve outra sugestão senão ir criar para outro lado. E fez sucesso! Os seus trabalhos começaram a ser apreciados e bem pagos e o seu nome a constar em publicações da especialidade; a mãe-raiz a  atirar "vês?!vês?!", o pai-tronco a render-se ao peso dos frutos que sempre subestimou; os santos da terra a resistirem ao seu reconhecimento, a evitarem o assunto nas conversas e a fingirem ignorar.

Viraram-se todos os silêncios e juízos quando foi notícia e o primeiro nome, seguido do apelido de raízes locais, foi pronunciado no telejornal como autor da estátua que o presidente da república recém-empossado encomendara para homenagear o seu antecessor.

E, assim vista a inauguração na televisão, com o tirar do pano e os aplausos, com nome do escultor a passar em rodapé, o filho da terra ganhou então valor! Programou-se até um jantar de homenagem quando ele fosse lá pelo Natal.

Nas imagens podiam ver-se a cara de babado do esculpido a pensar "sou estátua!", o olhar do sucessor a acenar-lhe "ideia minha! sou porreiro" e os devotos presentes a salvarem o vazio da cerimónia com o dever das palmas. 

Mas eis que passados dias, ou porque certos comendadores tivessem recolhido informações de que o autor da obra não jogava no mesmo baralho, ou porque certos comentadores assegurassem que não jogava com o baralho todo, ou porque certa imprensa humorística tivesse dito que a escultura parecia uma múmia em acentuado estado de petrificação, ou porque toda a gente viu dois presidentes nus, ou porque os verdadeiros artistas estão condenados a serem incompreendidos pelo grosso dos seus contemporâneos, gerou-se um rebuliço fenomenal de opiniões e o monumento desapareceu do fundo da avenida. Se foi mandado retirar ou foi roubado, ninguém se esforçou por apurar, ninguém quis prestar declarações e os jornalistas do regime escolheram a discrição.

Mas em Reguendos foi mais do que falado. Quando em dezembro, o filho da terra voltou à serra amada, o seu monumento de estimação, do largo da sua rua, vandalizado, era um monte de pedras, boas para reciclar para calçada.

No entanto, ele continuou o seu caminho e a sua arte, nunca mais deu mostras do seu trabalho aos aldeões e passou a recusar  todos os prémios e medalhas. Num dia histórico para a freguesia, o presidente da junta convidou o presidente da república para conhecer e promover as pedras por que a terra devia ser conhecida. Cortou-se uma fita, bateram-se palmas. Falou-se dele, ele não estava, parece que estava na festa de aniversário dum amigo de infância! Apagaram-se umas velas, beberam-se uns copos e falou-se da Arte, o Artista e a Sociedade.


4 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...

Ah se as pedras falassem...

diriam que quem as parte, partem
porque ninguém as compra
e os que as compra
tarde as paga

e arte
fica mais pobre
e quem a trabalha
tem igual sorte

Anónimo disse...

"a fazer pedra p´ro monte" andamos todos.

gosto destes "Caetanos"...

M.V.

cid simoes disse...

Ah se os anónimos se esfumassem...
(era tão bom!)

O Puma disse...

Antes pedras que calhaus

Que não se calem as pedras com vida por dentro