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quarta-feira, 6 de março de 2019

Há homens que não tem jeito nenhum para as mulheres

Se eu fosse mulher não queria um dia, preferia um porco.

Em 1953 todos aqueles vales estavam rodeados de floresta, todas as propriedades eram limitadas por regatos, todos os campos eram cultivados. Nas imediações dos milheirais existiam sempre represas rodeadas de salgueiros, carvalhos e outros arvoredos. Era para aí que as mães mandavam os filhos brincar à hora do calor. Mesmo quando estes começavam a ganhar corpo para agarrar na enxada, naquela idade em que não se é uma coisa nem outra, ao fim duma leira de canseira, haveria sempre uma voz com mais poderes que mandava:
 - Vão lá agora brincar um bocadito!

Foi no cumprimento duma dessas ordens que os dois se viram a sós num daqueles recantos sombrios onde sempre brincaram. Passou a concha da mão pela água da represa e atirou sobre o corpo que começava a ser outro.
- Ai! Molhaste-me a mama!
- Molhei!? Ora mostra!

Abriu a blusa lentamente e exibiu com legítima vaidade só uma das duas. Não adianta descrever o que foi visto, toda a gente já viu! Enfim, a perfeição como ela se revela no corpo de qualquer rapariga, salvaguardando que a perfeição é sempre relativa e que não interessa aqui particularizar esse conceito aos olhos de quem viu. Aquela visão, aquele seio, vi-lo-ia a perseguir em toda a vida.

Quando, já barbado, deu pelo pai fugido para o Brasil, a irmã mais velha a dar lareira a um homem casado e a mãe, conformada, agarrada a todas as alfaias, determinou-se a dar caminho ao sonho e emigrou para a Austrália. Veio duas vezes curtas, a última em 78, visitar a mãe mas, por vergonha, medo, mania ou por acaso, não se encontrou com a irmã nem correu o povoado a rever velhas relações.

Voltava agora com 74 anos, com duas malas, num táxi que tacteou lentamente a estrada asfaltada coberta de folhedos, entre silvados e a paisagem cruel dos campos ao abandono: a primeira casa do vale, abandonada, depois, frente a frente, duas com poucos sinais de vida, mais à frente ”uma casa estilo maison com janelas à la fenetre”, residência de férias pela aparência, um pouco mais adiante uma outra em ruínas e, ao fundo, a casa do seu destino.
- Foi aqui que eu nasci!
- Não me diga que vai ficar aqui?!
Anotou o número de telefone do taxista e despediu-se. Olhou, apreciou, sentiu saudade, alegria, tristeza, reviveu. À parte as ervas, as silvas e as teias, tudo deveria estar como a sua mãe deixou quando morreu, fazia poucos anos.
A irmã, que pelo remetente da carta fazia vida lá para o norte, reclamara a sua presença para arrumar partilhas. Ele poderia até ficar definitivamente. Em terras de poucas mulheres havia feito vida apenas com mulheres da vida - diga-se que vira muitos mas nunca mais vira um igual ao da represa - não fizera família e bem que, como homem livre e aventureiro, lhe poderia dar para viver ali o resto dos seus dias.
Perguntava a si próprio o que ganhara em sair dali. Poderia pagar a sua longa ausência à memória da sua mãe, voltando a cultivar os campos, reconstruindo a casa e os anexos, restaurando ferramentas e utensílios – afinal de contas, em tudo o que via, sentia a presença e a energia dela.

Deu volta ao pátio e à casa e arrombou a porta apodrecida. Foi duro entrar, foi duro olhar cada prateleira, cada objecto e a lareira ainda com as cinzas da última fogueira. Já esperava não encontrar condições para pernoitar. Precavera-se com equipamento de campista para os primeiros dias. Antes de dar mais tempo a recordações, a projectos e trabalhos de limpeza teria de arranjar terreiro e montar a tenda. Estava agachado na preparação das estacas quando ouviu um carro de mão.
Aproximou-se. Depois dos primeiros instantes de reconhecimento, surpreenderam-se mutuamente. Cumprimentaram-se. Fizeram a conversa da ocasião. Estou eu, viúva, e a minha cunhada mas lá em baixo no lugar ainda vive muita gente!
- Por aqui passam-se os dias, as horas não. Ao menos hoje vai lá comer a casa. Alguma sopa se há-de arranjar!

Durante a ceia as duas mulheres não pararam de contar e fazer perguntas. Acabariam por ficar só os dois na despedida e, ao levantar-se, o evitável aconteceu: um copo de água despejou-se na blusa negra de Rosalina.
- Mostra-me a outra!
- Júlio!!!
Para quem nunca teve jeito para abordar mulheres, teria sido apenas mais um estalo. Aconteceu que o mesmo não criou desculpas, nem ressentimentos mas apenas uns pares de gargalhadas, sinal que ambos ainda estavam a tempo de poder começar. Quando se dirigiu à porta e olhou para trás para dizer boa noite, viu exibir-se a blusa entreaberta e sentiu de novo a juventude.
- Ainda bem que não me pediste para te mostrar a mesma!
Joaquina já devia estar a dormir. Mesmo que espreitasse pela janela nunca iria acreditar no que veria, os dois num beijo.
- Não te desejo pela perfeição, o teu sorriso é e será sempre belo nem que te caiam os dentes!

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O Bichinho do Teatro


Carlos Bicho, Carlitos no meio familiar, Bichinho entre os colegas, já tinha tido a experiência de actor na peça os Três Porquinhos, em pequenino mas era agora, já de buço, a primeira vez que pisava palco com pano e luzes numa sala de plateia cheia e às escuras.

O pai fizera-se à mãe, quando jovens se encontraram a sós num recanto dos bastidores do teatro da colectividade, ele ponto, ela contra-regra e honraram esse encontro mesmo depois de extinta essa actividade, participando como público em tudo o que era teatro, fosse na aldeia, na cidade, no Carmo ou no Trindade.

A professora Gertrudes era professora de português e honrava a sua profissão como especialista em Maias de Essa, amante de Camões e mulher de Gil Vicente. Da mesma forma que só lavava com Omo, só barrava o pão com Planta e só bebia Sagres, limitava orgulhosamente a sua cultura literária a este trio.

Há muitos anos que encenava com os seus alunos o Auto da Barca. Um lençol branco e outro vermelho a cada um dos cantos do palco; cada um com três cantos presos, um em cima e dois em baixo, de modo a fazerem vela triangular; na base deles mais dois lençóis castanhos presos a três cadeiras e a formar arco faziam as barcas; uma moça meiga em fato de comunhão solene a fazer de anjo; um moço espevitado, com rabo e cornos de diabo; o resto da turma nos restantes papéis; com jeito ou sem jeito, com brancas ou com rimas e “ó da barca” soavam as pancadas.

O pai do Carlos além de se auto-considerar com currículo de espectador, suficiente para desprezar as competências da professora encenadora, recomendou ao filho a recusa do papel secundário que lhe fora anunciado e acrescentou:

- Tu dizes-lhe que, em vez de participares na peça, preferes fazer uma recitação poética no final! Ela que não se preocupe com a escolha que eu trato disso!

Realizados o auto e os aplausos, Carlitos foi apresentado e apresentou-se sozinho, frente à ribalta, focado por um potente projector.

Todo ele e tudo nele abanava. De voz a abanar tentou começar. Nos rápidos pensamentos que lhe abanavam a cabeça pensou no que o pai, espectador, estaria a pensar. Não o conseguiu distinguir na penumbra da assistência repleta de olhos escuros e faces sombrias. Tentou novamente a primeira palavra. O olhar da professora Gertrudes à frente da fila da frente cortou-lhe a primeira sílaba. Sentiu um líquido viscoso escorrer-lhe pelas calças abaixo. Era o golpe final. Só lhe restava desistir corajosamente. Deu meia volta em direcção ao fundo do palco, esperou risos de troça e só ouviu silêncio, convenceu-se que com a luz intensa toda a gente via as calças claras com a mancha escorreita e escura e num acesso de raiva, virou a cara ao público e declamou:

- Caguei para isto tudo!

E dito isto, saiu das luzes com uma bomba de gargalhadas a estoirar entre estilhaços de palmas a aplaudir.

A professora Gertrudes que além de Essa, Camões e Gil Vicente também adorava microfones, subiu ao palco, cantou desculpas por esta mas também por outras quaisquer coisinhas e chamou ao palco a directora, o presidente, a vereadora, o pároco e a senhora que emprestara os lençóis.

Fora de cena, sob o fundo dos discursos que duravam mais tempo do que a própria peça, sob as salvas pedidas a este e àquilo, que eram mais devidas que aos actores, pai e mãe consolavam o filho:

- Estiveste bem! Foste verdadeiro e ninguém viu! Foste o verdadeiro actor! O público aplaudiu! Que mais queres tu?
- Quero ir para casa para mudar de calças!

NOTA: Se essa o incomoda leia os comentários.

domingo, 27 de maio de 2018

Lição de português

- Cuida da burra João mas não vás para ao pé do poço!

Dizia minha mãe antes de desaparecer, descalça, pelo milheiral adentro para, com os calcanhares e a sachola, encaminhar a água à raiz de cada pé de espiga. E eu ficava ali, seguindo as voltas da burra emprestada p´lo ti Adelino, vendada e amarrada à nora, repetindo voltas sempre iguais, cumprindo com os seus círculos o sucesso da próxima colheita. E eu andava por ali, também às voltas, seguindo solidário as suas voltas, caçando borboletas, contando os alcatruzes a cada despejo, seguindo os caminhos da água até esta desaparecer pela sombra fechada do milho que escondia a minha mãe. Impossível repetirem-se esses cheiros, essas águas, esse verde; nem a vida me permitirá chegar aos calcanhares do ti Adelino - dificilmente conseguirei um dia ter uma burra!

Mas sou bem herdado na parte que toca a ter passado. Usufruí dessa riqueza de partilhar com a burra o verde do milho, o som da água, a sombra da latada que completava o poço e toda a engenharia da secular nora.


Incrível como é possível que a foto que se segue me tenha permitido banhar-me nesta infância! Recebi-a com a legenda "anda tudo à nora!" Não me ofendam! "Andar à nora" não tem nada a ver com "à procura do lugar para a fotografia"!

Dum comentário: "A Merkl disse: hoje quero dormir com o colega de sapatos castanhos! Aí o pessoal entrou em pânico e todos quiseram certificar-se que não lhes tinha saído a fava no bolo-rei. Tá visto!"

segunda-feira, 19 de março de 2018

O meu pai era peixe

Não me recordo de ter visto mais de duas linhas escritas pelo meu pai. Um recado na mesa da cozinha, umas contas de bicas de pinheiros e nada mais. Via-o escrever, de mãos trémulas como as que tenho, quando parávamos ali para os lados da Venda das Raparigas e ele preenchia um folha de um livro de impressos, qualquer prática obrigatória que mais tarde viria a evoluir para os actuais discos tacográficos dos camionistas.

Quando eu tirava Bom a Matemática ouvia muitas vezes:
- Sais ao teu pai! Também era bom nos problemas!

Pelo que vi e pelo que me fizeram acreditar, vivi sempre convencido que quem escrevia as coisas bem era a mãe e que quem fazia bem as contas era o pai.
Quando o tempo de chuva e a idade de brincar me reduziam à pequena casa que era a nossa, eu vasculhava os armários e as gavetas, com esperança que a curiosidade me oferecesse alguma coisa para me entreter. Afinal de contas a casa também era minha, eu tinha o direito de saber tudo o que ela guardava.

Confesso-te agora pai que, quando a mãe propôs a compra de um fogão com forno para substituir o de dois bicos e tu disseste que não tínhamos dinheiro, eu tinha contado nesse dia as notas que estavam na caixa de sapatos e fiz as contas: aquilo dava para um fogão e para mais de meia dúzia de garrafas de gás e ainda sobrava para uma garrafa de aguardente para as constipações!

Só não entendo porque é que tu e a mãe guardaram, ainda melhor do que o dinheiro, o maço de cartas do vosso namoro que só agora, pelas sortes, encontrámos. Não chorámos, não rimos, dissemos satisfeitos um a um, talvez em coro:
- Olha que o pai escrevia mesmo bem!



 Olha pai, sabes? Eu, se não houver ondas, não me afogo!
(estou à vontade para dizer estas coisas ao meu pai porque além de peixe, ele era fish|)

domingo, 5 de junho de 2016

Para que serve o Correio da Manhã


O leitor, que gosta de ler - caso contrário não estaria neste momento a ler esta crónica menor - que lê compulsivamente, de tal forma que, quando na sanita, não tendo mais nada à mão, lê rótulos de sabonetes e livros de instruções de máquinas de barbear; 
O leitor que, por  se dar a ler este cronista menor, deve ser de geração próxima e, tal como ele, já deve viver atado por arames, com colesterol alto, tensão alta, fígado gordo, dores nas costas, intestino irritado, próteses dentárias, ouvido direito, pouco, óculos progressivos. 
O leitor já deve ser experiente em horas de espera em consultórios médicos. A gente entra, dirige-se ao balcão - o doutor hoje está atrasado! Senta-se numa cadeira de plástico desconfortável e começa a olhar para a mesinha que tem revistas. Uma é da ordem dos especialistas do ramo, outra é do anuário duma grande farmacêutica, outra duma instituição de toxicodependentes, com sorte encontrará uma revista do ano passado que um paciente, como nós, ali deixou por esquecimento. A gente paga quarenta, oitenta, cem euros de consulta, mas não há atenção orçamental para uma revista da semana, um jornal diário ou um diário do Torga! E o doutor, claro, é bom, tem tempo de espera! Olha se fosse no Centro de Saúde! Já estaria meia  sala a rogar pragas às funcionárias, aos médicos e ao estado! Mas ali não! A gente paga bem! O médico é bom! Tem de se esperar e bufar pouco!
E foi assim que fui para ao consultório de doutor Serra das Neves, neurologista, 1º esq, dizia a tabuleta de acrílico na entrada do prédio! É o melhor de Coimbra! Assegurou-me a minha cunhada. E é muito atencioso! Muito acessível! A gente fala com ele, ele entende-nos e nós entende-mo-lo! Fala assim como nós! Até diz umas cachaporras se for preciso!
O médico era diferente sim senhor! Além das literaturas já contadas tinha também um diário da casa, via-se que o era pela abundância de edições pousadas pela sala. E adivinhem que diário era? O Correio da Manhã! Pois claro! Um médico que escolhe o Correio da Manhã para entreter os seus pacientes, não é um varre merdas qualquer!
E assim entrei eu, ao fim de três horas e meia de espera, às oito já passadas.
- Feche a porta!
Mexia em papéis com uma facilidade incomparável com que arrastava o rato do computador!
- Então diga lá senhor João o que o traz por cá!
- Ó senhor doutor eu ando todo abrasado!
- A falar assim, pelos vistos anda!
- Como assim doutor?!
- Ó homem, não utilize essa linguagem arcaica! Diga "estou todo fodido!"
E lá começou a minha primeira e última consulta de neurologia, com o registo do histórico da minha ascendência: Pai morreu com que idade? Mãe foi mãe aos quantos? Avô tinha algum defeito? Avó era baixa ou alta? Primeira relação sexual? Primeiro filho? Quando começou a sentir-se assim?!
- Assim como, doutor?!
- Ah isso não é nada! Tenha calma! Isto da neurologia tem muito a ver com os nervos da pessoa! O senhor bebe?!
- Um copito de tinto senhor doutor!
- Então olhe, quando se sentir enervado, beba um bom brandy! Isso acalma!
E, assim, saí  em direção ao guichet para puxar pelos cem euros!
- Diga-me menina, quantos doentes o senhor doutor já atendeu hoje?!
- Mais duma dúzia! Porquê?
- Mais de mil e duzentos euros! A menina ganha o ordenado mínimo?
- O senhor não está bom!
- Ora menina! Se estivesse bom não estaria aqui! Posso levar o Correio da Manhã de ontem?
- Tenho de perguntar ao doutor! Para que o quer?
- Logo vi que a menina era esperta! Diga-lhe só que não é para ler! Como não uso a linguagem dele, diga-lhe apenas que o levo porque o papel higiénico está caro!... E, dito isto, desci ao rés do chão, entrei no café e bebi um brandy!

domingo, 13 de março de 2016

Não adianta partir mais pedra aqui


Antes das pedras chegarem à calçada, depois das máquinas grandes arrancarem ao coração da serra grandes blocos, existem homens que, com  martelos grandes e pequenos, formam um a um os paralelepípedos que pisamos. É vê-los à sombra dum chapéu de praia em alguns sítios de Reguengos da Serra, era vê-los ganhar muito dinheiro ainda há poucos anos.

Um deles teve um filho que, de sempre o acompanhar e de outros jeitos, lhe deu para com escôparos, ponteiros e outras máquinas começar, de pequenino, a mondar a pedra e a dar-lhe formas vivas.

Quando, de liceu pronto, manifestou à mesa o desejo de ir para belas artes - o pai, "ainda se fosse para médico, advogado ou engenheiro!"; a mãe "ainda se fosse para padre! mas está bem! deixemo-lo tentar a sua vontade!" - lá foi ele com a curta rédea-mesada para a escola superior.

Ainda estudante, haveria de montar oficina no estábulo abandonado do avô e conseguir até vender alguns trabalhos, fazer orgulho à mãe, "meu filho vai ser artista!", e pôr o pai de pé atrás, "com tanta massa gasta e rebarbadoras estragadas, mais valia ele começar a pensar em desistir dos estudos e fazer-se à serra que isto é duro mas ainda vai sendo seguro para sustento!".

E a contradição entre o casal teve seguimento quando foi inaugurado, no largo da capela, um monumento em pedra que consistia num paralelepípedo de dois de altura, por meio e meio de base, com uma gravação em baixo relevo de dedicatória às gentes de Reguengos que já partiram. Em contraponto, conseguiu então o jovem, em fim de curso, receber autorização do presidente da junta para, no largo da sua rua, enquadrar uma escultura ilustrativa do homem que faz as pedras para a calçada. A mãe pediu o aval de toda a vizinhança e o pai justificou-se a todos: "aquilo não tem jeito nenhum mas o que é que um homem há-de fazer?!".

Embora sem o entusiasmo da populaça a obra lá ficou e, já formado, o artista não teve outra sugestão senão ir criar para outro lado. E fez sucesso! Os seus trabalhos começaram a ser apreciados e bem pagos e o seu nome a constar em publicações da especialidade; a mãe-raiz a  atirar "vês?!vês?!", o pai-tronco a render-se ao peso dos frutos que sempre subestimou; os santos da terra a resistirem ao seu reconhecimento, a evitarem o assunto nas conversas e a fingirem ignorar.

Viraram-se todos os silêncios e juízos quando foi notícia e o primeiro nome, seguido do apelido de raízes locais, foi pronunciado no telejornal como autor da estátua que o presidente da república recém-empossado encomendara para homenagear o seu antecessor.

E, assim vista a inauguração na televisão, com o tirar do pano e os aplausos, com nome do escultor a passar em rodapé, o filho da terra ganhou então valor! Programou-se até um jantar de homenagem quando ele fosse lá pelo Natal.

Nas imagens podiam ver-se a cara de babado do esculpido a pensar "sou estátua!", o olhar do sucessor a acenar-lhe "ideia minha! sou porreiro" e os devotos presentes a salvarem o vazio da cerimónia com o dever das palmas. 

Mas eis que passados dias, ou porque certos comendadores tivessem recolhido informações de que o autor da obra não jogava no mesmo baralho, ou porque certos comentadores assegurassem que não jogava com o baralho todo, ou porque certa imprensa humorística tivesse dito que a escultura parecia uma múmia em acentuado estado de petrificação, ou porque toda a gente viu dois presidentes nus, ou porque os verdadeiros artistas estão condenados a serem incompreendidos pelo grosso dos seus contemporâneos, gerou-se um rebuliço fenomenal de opiniões e o monumento desapareceu do fundo da avenida. Se foi mandado retirar ou foi roubado, ninguém se esforçou por apurar, ninguém quis prestar declarações e os jornalistas do regime escolheram a discrição.

Mas em Reguendos foi mais do que falado. Quando em dezembro, o filho da terra voltou à serra amada, o seu monumento de estimação, do largo da sua rua, vandalizado, era um monte de pedras, boas para reciclar para calçada.

No entanto, ele continuou o seu caminho e a sua arte, nunca mais deu mostras do seu trabalho aos aldeões e passou a recusar  todos os prémios e medalhas. Num dia histórico para a freguesia, o presidente da junta convidou o presidente da república para conhecer e promover as pedras por que a terra devia ser conhecida. Cortou-se uma fita, bateram-se palmas. Falou-se dele, ele não estava, parece que estava na festa de aniversário dum amigo de infância! Apagaram-se umas velas, beberam-se uns copos e falou-se da Arte, o Artista e a Sociedade.


sábado, 5 de março de 2016

A luz como presente

O banco fica no centro onde todos passam quando vão à vila. Trata-se dum banco clássico de jardim, com tábuas paralelas pintadas de verde, separadas por espaços vazios paralelos de mais ou menos dois centímetros e onde normalmente as pessoas se sentam para passar tempo. Enquanto o autarca não tiver oportunidade de recorrer a um fundo para dar luz à ideia de renovar o centro, equipando-o com mobiliário urbano de design moderno, o banco manterá os seus clientes. Como estes que são as personagens que dão história ao banco e fazem esta história.


Foi lá que se conheceram. No começo, cada um na sua ponta, deixando no meio dois lugares vazios onde ninguém se sentaria. Um olhando os carros que passavam, as senhoras e crianças que passeavam, os rabos dos borrachos e as pombas que depenicavam as migalhas que a humanidade deixava cair, o outro fazendo precisamente a mesma coisa, apenas com um olhar diferente, porque ninguém vê as coisas da mesma maneira. Claro que, como observadores de banco de jardim teriam, cada um, entre as suas observações objetivas, múltiplas  reflexões e distrações subjetivas.

Com o andar dos dias, o acaso de se encontrarem ali costumeiramente aproximou-os: a cumplicidade duma troca de olhares acerca dum incidente comum com um transeunte, sabe-me dizer que horas são?,  o incontornável estado do tempo, empresta-me o jornal para ler as gordas?, o simultâneo e concordante salivar sobre um naco de mulher. Com o andar do tempo, haveriam de vir a saber um do outro, o nome, quem eram e onde moravam. O mais velho era viúvo e reformado dos correios, vivia bem porque bem abonado e mal porque sozinho, o mais novo era filho de pai solteiro e desempregado de nascença, vivia mal porque agora lhe faltava a pensão do velho, recentemente falecido e bem porque não tinha filhos nem mulher. O mais velho lia as partes do jornal que falavam das coisas que se passavam no mundo, o mais novo lia a parte do futebol e dos crimes da semana, portanto, embora lendo ambos o mesmo jornal, não viam nem viviam o mesmo mundo, apesar de partilharem o mesmo banco.

Com o andar dos dias e do tempo, eis que o mais velho começou a falar dos livros que lia, contando as histórias, enquadrando-as nos momentos históricos e falando dos autores. O mais novo, que nem dinheiro tinha para o tabaco, quanto mais para livros, ouvia com a condescendência que se tem de ter com os mais velhos; mas, com o andar dos dias, do tempo e a insistência, começava a saber de literatura mesmo sem ler, começou a interessar-se pelos livros mesmo sem os ver e começou a ter carinho e admiração por um homem que apenas conhecia de se sentar no mesmo banco de jardim.

- Que interesse tem um homem mais para lá do que para cá em continuar a ler e a aprender? Porque fala com tanta vida das coisas do mundo se não tarda outro mundo terá a sua vida? Que interesse tenho eu em ouvi-lo? Porque não sou eu como ele?...

- Hei-de trazer-te esse livro!

O mais novo sentiu-se outro quando entrou em casa com um livro debaixo do braço.

- Já leste o livro que te passei?
- Não tenho candeeiro na cama!...

Um candeeiro de presente  desarmou-o de desculpas. Fazia muito tempo que não recebia uma prenda. Tinha de ler, quanto mais não fosse, como forma de reconhecimento. Ao fim duma dúzia de meses e de livros, o mais novo entregou uma longa carta de agradecimento ao mais velho, por sinal muito bem escrita onde, entre outras coisas, manifestava o desejo de arranjar emprego numa livraria.

Passada mais uma dúzia de meses e de livros, o mais novo deixou de aparecer. Soube o mais velho, pelo jornal local, que o corpo havia sido encontrado em casa já em estado de decomposição.

- Talvez seja também esse o meu destino! – pensou.


Pensou também que tinha perdido um amigo e que não dava por perdidos os mais de mil euros que já lhe tinha emprestado. Nada que o impedisse de continuar ou de voltar a encontrar um jovem a quem pudesse dar livros depois de os ler.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

O homícidio do senhor Jesus


Acossado pelo espírito da homília dominical, arraigado do mais puro espírito cristão, imbuído do verdadeiro espírito natalício, o senhor Jesus saiu da igreja determinado a seguir à risca a palavra do Senhor. Coisas bíblicas como o “se tem duas túnicas…”, “um camelo passar pelo buraco duma agulha…”, “não se pode servir a Deus e ao dinheiro…” e, sobretudo, aquela do Menino ter nascido numa manjedoura, há muito tempo que atormentavam o homem e aquele domingo de dezembro apresentou-se-lhe como o dia da Revelação do Céu.

O senhor Jesus herdara e mantivera toda a vida a criação de gado do seu pai lavrador, abastado suficientemente para não deixar o filho solteiro.

Quando chegou a casa, por volta do meio dia, e disse à mulher que ia soltar as vacas, ela pensou que fosse do estábulo para a cerca. Nem lhe passou pela cabeça que fosse da cerca para fora!

Depois do almoço começaram a aparecer vozes à porta:
- Ó senhor Jesus, as suas vacas andam soltas por aí!...
- As minhas vacas são também vossas vacas, cuidem também vocês delas!

Toda a gente deu o senhor Jesus como louco ou possesso de espírito dos demónios, incluindo a mulher que pediu às pessoas que a ajudassem na recolha da manada. O senhor Jesus não foi com eles e dirigiu-se à exploração. Aí chegado e com a ajuda de Deus - no seu ponto de vista- com a ajuda do Diabo – no ponto de vista do próximo - destruiu todas as portas e cancelas que cativavam as suas cabeças.

Quando o povo e a esposa irada chegaram com as primeiras vacas, benzeram-se em nome de Deus, e a mulher rica viu-se obrigada a pedir à pobre gente para as distribuírem pelos seus pequenos currais já que ali não já não existiam condições para guardá-las.

Contente por ter levado a sua avante o senhor Jesus correu para abraçar a mulher que, como resposta, o ameaçou de morte correndo atrás dele com uma forquilha em direção à vacaria.
Assustado, o homem escondeu-se no meio da palha duma manjedoura e, enquanto ela gritava de raiva em busca dele, pensava:
- Já que carreguei toda a vida indignamente o nome Dele, que nasci em berço de ouro, que vivi que nem um padre, que morra ao menos nas condições em que Ele nasceu!

E assim foi, trespassado pelos dentes da forquilha, ali morreu na manjedoura, confortado pelos remorsos da companheira de toda a vida que, cainda em si, se fez de imediato arrependida.

A verdade histórica deveria revelar que a vaca faz parte dos presépios por esta história e não pelos acontecimentos narrados pelo evangelista, se iam de burro e foi numa estrebaria o que raio é que estava lá a fazer uma vaca!?...

- Não! Não é mau gosto! Quem assassina merece todos os nomes! Já é, é tempo da Igreja tomar uma posição e mandar retirar a vaca dos presépios.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Há quem diga que ele ainda é vivo


Não dava nada para a escola. Não aprendia nada na escola! Não andava a fazer nada na escola!...

E, no entanto, o irmão mais velho era muito inteligente, a irmã mais velha era muito esperta, ambos saindo aos seus. Mas ele, talvez por ter nascido sem ser desejado nem esperado, com a mãe a caminho dos cinquenta, já fazendo as noites com o macho sem atender às luas, aos períodos ou ao “tira antes”, nasceu assim, mal vingado e com uma falha.

Ao fim de três anos não passava do nome, do dois mais dois são quatro, duma dúzia são doze e do Tejo é o maior rio de Portugal.

- Uma falha é pouco!
Retorquiu ao pai e na presença do aluno, a professora Palmira.

O homem pensou: eu nem sequer andei na escola e tenho-me safado, ele ainda é novo e há-de aprender a ir à lenha, a juntar palha e a andar com o burro - amanhã já não vem!

Libertar-se-ia da troça dos colegas, daquela crueldade infantil que todos já sofremos, exercemos ou, pelo menos, presenciámos. O pior de todos era o Júlio das Moitas. O pobre rapaz aguentava dele as torturas mais porcas, as insinuações mais sujas, as piores humilhações e respondia baixinho:
- Um dia talvez te fodas!...

Mesmo passados anos de ter saído da escola, quando o via, o carrasco exercitava provocações ordinárias acerca da coisa da irmã dele, da autosuficiência sexual dele, ou mesmo chamando-lhe a atenção para que olhasse: que o travão da carroça ia travado, que tinha perdido uma roda ou que a coisa do burro estava de fora.
Ele, ingénuo, olhava para verificar, para logo a seguir reparar no gozão de riso rude, e dizia para si mesmo:
- Um dia talvez te fodas!...

Até que num certo ano, num certo dia, de tanto ser esticada, a corda partiu:
- Então não é que fodi a tua irmã e ela tem a coisa a atravessar!

Ele, filho de boa gente, pensou baixinho: tenho de foder este gajo!

Júlio das Moitas vivia numa casa, nas traseiras da qual, num patamar mais alto, passava a linha de comboio.  Se eu fizer descarrilar o comboio, ela tombará pela encosta abaixo, cairá sobre a casa e adeus Júlio. Como eles andam a substituir os carris e há muitos soltos nas bordas, eu vou lá de noite, atravesso um deles sobre a linha, vem o comboio e… 
E pensado, assim fez.

Gorada a tragédia pensada porque descoberta a tempo.
Descoberto o autor ao fim de dois passos da investigação.
Foi preso e transferido mais tarde para o Júlio de Matos para passar o resto dos seus dias.

Júlio das Moitas morreu pouco tempo depois da tentativa de homícidio, quando, sentado no carro do seu burro, atravessava a passagem de nível sem guarda. Conta-se que, durante muitos anos, uma cruz com uma tabuleta de madeira assinalou o local: aqui morreu Júlio das Moitas, solteiro, deixando desflorada uma mulher dez anos mais velha.

É claro que deve ser mentira o texto da inscrição como também o poderá ser parte da história que passou pelas teias de ofício do narrador. Verdade é, porque me contou o meu pai, que foi sempre homem de verdade e pouco dado a fantasias que, quando o juiz perguntou ao réu como conseguira sozinho mover o carril para o atravessar na linha, este terá respondido seco e frio:

- Fui eu, o diabo e a tranca!

terça-feira, 5 de junho de 2012

Ei-los que partem


Cinco quartos, quatro quartos de banho, três salas, duas cozinhas, uma churrasqueira, varandas, muros e mais janelas – grande como os sonhos. Ao lado, uma casa de duas águas cujo alçado principal deixa adivinhar o interior. Frente a uma das duas janelas, num banco de pau marcado por estios e invernos, está sentado um homem, marcado pela idade, com a mesma vontade de falar que outros homens e mulheres da sua idade que sentam em lugares idênticos.

- Há dez anos atrás ele tirava mais de duzentos contos por mês nas obras. Comprou um carro novo e pensou em fazer a casa para ver se arranjava mulher. Agora a coisa virou para o torto e teve de ir, os bancos não perdoam! ...

Conheço bem ambos. Do pai, foi minha mãe que me falou em tempos, quando na idade das perguntas a interroguei sobre a alcunha do Mato Grosso. Foi para o Brasil novinho e sozinho e voltou três anos depois tísico e teso que nem um carapau. Não o quiseram para a tropa e os pais arranjaram-lhe uma alcofa que o veio a safar.
Ela tinha muitas vinhas mas também bebia muito vinho, por isso e por casar com ele ficou-lhe a matar o nome da Grossa. Foi-se cedo e deixou o viúvo atado com o cachopo que, talvez pela vida e morte da mãe, demorou a tomar corpo e a falar direito. Na escola chamávamos-lhe o Tó Espinhas.

Quando saí do carro para cumprimentar o Ti Mato Grosso ele estava a pensar no filho. Imaginava-o a desembarcar do navio no porto de Luxemburgo. Imaginava-o num país tão grande como o Brasil a julgar pela gente da terra que para lá está. Imaginava-o a arranhar no francês e a arranjar mulher. Via-o a regressar contente num valente carro e com a situação resolvida. Via-o a regressar de mãos a abanar como ele regressou do Brasil. Via-o sempre e era dele que gostava sempre de falar.

- Tu é que estás bem na vida! Quando ele andava contigo na escola, eu dizia-lhe sempre “estuda como o João! junta-te com o João! olha para o João!” … não quis e agora olha! Só gostava que ele cá estivesse quando eu morrer!...

- As coisas não são bem assim Ti Mato Grosso! Sabe que também estou seriamente a pensar em emigrar! Quem sabe o seu Tó ainda me vá arranjar para lá trabalho.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Há homens que não têm jeito nenhum para as mulheres

Em 1953 todos aqueles vales estavam rodeados de floresta, todas as propriedades eram limitadas por regatos, todos os campos eram cultivados. Nas imediações dos milheirais existiam sempre represas rodeadas de salgueiros, carvalhos e outros arvoredos. Era para aí que as mães mandavam os filhos brincar à hora do calor. Mesmo quando estes começavam a ganhar corpo para agarrar na enxada, naquela idade em que não se é uma coisa nem outra, ao fim duma leira de canseira, haveria sempre uma voz com mais poderes que mandava:
 - Vão lá agora brincar um bocadito!

Foi no cumprimento duma dessas ordens que os dois se viram a sós num daqueles recantos sombrios onde sempre brincaram. Passou a concha da mão pela água da represa e atirou sobre o corpo que começava a ser outro.
- Ai! Molhaste-me a mama!
- Molhei!? Ora mostra!

Abriu a blusa lentamente e exibiu com legítima vaidade só uma das duas. Não adianta descrever o que foi visto, toda a gente já viu! Enfim, a perfeição como ela se revela no corpo de qualquer rapariga, salvaguardando que a perfeição é sempre relativa e que não interessa aqui particularizar esse conceito aos olhos de quem viu. Aquela visão, aquele seio, vi-lo-ia a perseguir em toda a vida.

Quando, já barbado, deu pelo pai fugido para o Brasil, a irmã mais velha a dar lareira a um homem casado e a mãe, conformada, agarrada a todas as alfaias, determinou-se a dar caminho ao sonho e emigrou para a Austrália. Veio duas vezes curtas, a última em 78, visitar a mãe mas, por vergonha, medo, mania ou por acaso, não se encontrou com a irmã nem correu o povoado a rever velhas relações.

Voltava agora com 74 anos, com duas malas, num táxi que tacteou lentamente a estrada asfaltada coberta de folhedos, entre silvados e a paisagem cruel dos campos ao abandono: a primeira casa do vale, abandonada, depois, frente a frente, duas com poucos sinais de vida, mais à frente ”uma casa estilo maison com janelas à la fenetre”, residência de férias pela aparência, um pouco mais adiante uma outra em ruínas e, ao fundo, a casa do seu destino.
- Foi aqui que eu nasci!
- Não me diga que vai ficar aqui?!
Anotou o número de telefone do taxista e despediu-se. Olhou, apreciou, sentiu saudade, alegria, tristeza, reviveu. À parte as ervas, as silvas e as teias, tudo deveria estar como a sua mãe deixou quando morreu, fazia poucos anos.
A irmã, que pelo remetente da carta fazia vida lá para o norte, reclamara a sua presença para arrumar partilhas. Ele poderia até ficar definitivamente. Em terras de poucas mulheres havia feito vida apenas com mulheres da vida - diga-se que vira muitos mas nunca mais vira um igual ao da represa - não fizera família e bem que, como homem livre e aventureiro, lhe poderia dar para viver ali o resto dos seus dias.
Perguntava a si próprio o que ganhara em sair dali. Poderia pagar a sua longa ausência à memória da sua mãe, voltando a cultivar os campos, reconstruindo a casa e os anexos, restaurando ferramentas e utensílios – afinal de contas, em tudo o que via, sentia a presença e a energia dela.

Deu volta ao pátio e à casa e arrombou a porta apodrecida. Foi duro entrar, foi duro olhar cada prateleira, cada objecto e a lareira ainda com as cinzas da última fogueira. Já esperava não encontrar condições para pernoitar. Precavera-se com equipamento de campista para os primeiros dias. Antes de dar mais tempo a recordações, a projectos e trabalhos de limpeza teria de arranjar terreiro e montar a tenda. Estava agachado na preparação das estacas quando ouviu um carro de mão.
Aproximou-se. Depois dos primeiros instantes de reconhecimento, surpreenderam-se mutuamente. Cumprimentaram-se. Fizeram a conversa da ocasião. Estou eu, viúva, e a minha cunhada mas lá em baixo no lugar ainda vive muita gente!
- Por aqui passam-se os dias, as horas não. Ao menos hoje vai lá comer a casa. Alguma sopa se há-de arranjar!

Durante a ceia as duas mulheres não pararam de contar e fazer perguntas. Acabariam por ficar só os dois na despedida e, ao levantar-se, o evitável aconteceu: um copo de água despejou-se na blusa negra de Rosalina.
- Mostra-me a outra!
- Júlio!!!
Para quem nunca teve jeito para abordar mulheres, teria sido apenas mais um estalo. Aconteceu que o mesmo não criou desculpas, nem ressentimentos mas apenas uns pares de gargalhadas, sinal que ambos ainda estavam a tempo de poder começar. Quando se dirigiu à porta e olhou para trás para dizer boa noite, viu exibir-se a blusa entreaberta e sentiu de novo a juventude.
- Ainda bem que não me pediste para te mostrar a mesma!
Joaquina já devia estar a dormir. Mesmo que espreitasse pela janela nunca iria acreditar no que veria, os dois num beijo.
- Não te desejo pela perfeição, o teu sorriso é e será sempre belo nem que te caiam os dentes!