terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Lição de português

- Cuida da burra João mas não vás para ao pé do poço!

Dizia minha mãe antes de desaparecer, descalça, pelo milheiral adentro para, com os calcanhares e a sachola, encaminhar a água à raiz de cada pé de espiga. E eu ficava ali, seguindo as voltas da burra emprestada p´lo ti Adelino, vendada e amarrada à nora, repetindo voltas sempre iguais, cumprindo com os seus círculos o sucesso da próxima colheita. E eu andava por ali, também às voltas, seguindo solidário as suas voltas, caçando borboletas, contando os alcatruzes a cada despejo, seguindo os caminhos da água até esta desaparecer pela sombra fechada do milho que escondia a minha mãe. Impossível repetirem-se esses cheiros, essas águas, esse verde; nem a vida me permitirá chegar aos calcanhares do ti Adelino - dificilmente conseguirei um dia ter uma burra!

Mas sou bem herdado na parte que toca a ter passado. Usufruí dessa riqueza de partilhar com a burra o verde do milho, o som da água, a sombra da latada que completava o poço e toda a engenharia da secular nora.


Incrível como é possível que a foto que se segue me tenha permitido banhar-me nesta infância! Recebi-a com a legenda "anda tudo à nora!" Não me ofendam! "Andar à nora" não tem nada a ver com "à procura do lugar para a fotografia"!

Dum comentário: "A Merkl disse: hoje quero dormir com o colega de sapatos castanhos! Aí o pessoal entrou em pânico e todos quiseram certificar-se que não lhes tinha saído a fava no bolo-rei. Tá visto!"

27 comentários:

lili canecas disse...

Pata Negra!
Eles andam à procura de um grão de milho. De um lugar ao sol.
Desta vez, como não têm venda nos olhos, estão desorientados.

antonio - o implume disse...

Curvados, de olhos postos no chão, quase de joelhos, eis como o futuro da europa é traçado!

São disse...

Pois é, há ligações (quase) impossíveis, não é?

Boa semana.

polidor disse...

não estavam à espera de uma finta...

abraço

MARIA disse...

Majestade,
À nora ...
é como nos deixa a nós ...
Texto tão lindo, lindo mesmo, para ligar a tão patuscas figuras.
Foi tão engenhosa a ligação, mas tão surpreendente, mesmo tratando-se de Vós ... que ...
fiquei à nora...
Não estava a falar a sério ?!...


Um beijinho amigo.
Maria

Tiago R Cardoso disse...

mas quem foi o anormal que colocou os nomes tão pequenos ?

Prefiro andar na hora, diga-se que tá na hora do jantar.

Meg disse...

Caro Pata Negra

Não me parece nada que estes andem à nora. À falta de assunto(?!) procuram a melhor maneira de não se notarem as diferenças de estatura. Também aqui está em vigor a normalização.

Um abraço

salvoconduto disse...

Sei de fonte segura o que estão a fazer. Estão a tentar perceber que é que meteu a pata na bosta, desta vez...

brit com disse...

Legenda: "Ajudem, ajudem, era o meu último cêntimo!"

O Guardião disse...

Cada um no seu lugar, senão o boneco sai mal... pelo menos o burro sabia o que fazer e qual o seu lugar.
Cumps

Desprafonildo I disse...

O que dirá cada um dos papelinhos que estão no chão?
Anúncio de bomba para se começar tudo de novo?

Nota:- O texto está na perfeição, visto que eles não sabem mesmo o que fazer...

alberto cardoso disse...

Olá Majestade.
Revi-me no belo texto com que nos prendou. Fez-me recuar muitos anos. Aos tempos de catraio quando ajudava os meus avós a regarem o milho, o feijão, ou as abóboras. “Pobretes mas alegretes”, éramos mais felizes que nos tempos que correm! A palavra stress ainda não tinha sido inventada e isso conta muito.
Quanto aos figurões da fotografia sei, de fonte segura, o que se passou. A Merkl disse: hoje quero dormir com o colega de sapatos castanhos! Aí o pessoal entrou em pânico e todos quiseram certificar-se que não lhes tinha saído a fava no bolo-rei. Tá visto!
P.S. Permita-me Majestade que use o seu espaço para daqui enviar um beijinho amigo à admiravel e terna Maria.
A.C.

MARIA disse...

Majestade, como compreenderá vou pedir-lhe este espaço para agradecer e retribuir o beijinho a nobre Alberto.
Essa da Merkl está muito boa ...
Mas, nobre Alberto, por entre o verde de que fala o texto, o cheirinho a terra molhada, morna, por entre as voltas das borboletas e os sons musicados dos alcatruzes da nora, vislumbro umas meias negras e uns sapatos castanhos...
Confesse, eram seus...
Assim se compreende afinal o que realmente se procura na imagem. Ou devo melhor dizer, quem se procura ...
:-)
É o que o que sucede a um nobre quando lhe dá para
"trocar" pela grande Europa a pobre Pátria...
:-)
Beijinhos. Muito obrigada .

Maria

Anónimo disse...

Gostei imenso do q li, tempos difícies mas vividos com alegria.
O castigo q eu dava a estes senhores...ora são 8 né...revesavam a burra...o dia tem oito horas, calhava uma hora a cada um deles, de olhos vendados andando á nora para encher os alcatruzes. Andarão à procura das notas q deixaram voar do Banco de negócios? Um abraço bem regado
Luis

Anónimo disse...

E eu que estava a gostar tanto do texto... eis que o rolamento me revela aquela foto de uns tipos que devem ter «fumado barbas de milho». Só o joão para estas associações imprevistas.
zerui

samuel disse...

Que injustiça para a Merkl... ela não gosta nem que lhe toquem...

Também tive gente que me desaparecia pelos milheirais pastoreando a água. Saudade!...

Abraço

Camolas disse...

Belo texto meu Bom Rei!!
"Trocámos a estrada pela estereofonia"... repare a diferença entre a nossa infância e a das crianças de hoje, filhas da fria e asséptica tecnologia.
Mandemos o progresso tecnológico "às urtigas", "eu quero uma casa no campo"

SILÊNCIO CULPADO disse...

Pata Negra

Fico fascinada quando falas das tuas raízes, desse passado pleno em que havia poesia e identidade.

Acho que o quadro que representas é em tudo o oposto desse quadro que a fotografia sugere. E aqui não são só "eles" que andam à nora: são os povos por eles governados que perderam o norte e andam à deriva. Acho que a nós todos calhou a fava do bolo-rei.


Abraço

Tiago R Cardoso disse...

hoje é quarta-feira, tou deprimido, falta aqui neste lugar qualquer coisa...

Compadre Alentejano disse...

Eles andam todos é à procura da manutenção no cargo!
São todos uns chulos da política...
Um abraço
Compadre Alentejano

alberto cardoso disse...

Majestade.
Esta quarta feira está-se (não está-se?) quase a finar e do Quarto nem sinais. Sei o que significa “Palavra de Rei”. Mas a verdade é que, a esta hora, estarão milhares, muuuuitos milhares de súbditos a salivar, com calafrios, náuseas, dores, eu sei lá que mais, com os sintomas de quem sente a falta de qualquer coisa, de quem está, dizem os livros, de ressaca. Sem Quarto sofrem (sofremos!) desalmadamente. Por um quarto do Quarto muitos dariam tudo, tal o vício que lhes (nos) incutiu! Não é impunemente que alguém incute qualquer coisa noutrem! Não! Não pode ser! Sempre ouvi dizer que quem incute tem que pagar por isso. Assim, se Vossa Alteza Real não nos pode ofertar um Quarto, pelos seus ricos Infantes, dê-nos uma Salinha mesmo modesta, um Atriozinho, sei lá, uma nesga do Real Jardim, qualquer coisa que diminua a dor que nos corrói, que preencha um pouco do vazio que sentimos.

Pata Negra disse...

Caros fidalgos e conselheiros, também eu sinto a quarta e o quarto vazio como se tivesse partido algo que é muito querido. É sempre difícil preenchermos esses vazios mas "por partir uma andorinha não acaba a Primavera".
Hoje estou vazio mas arejado por tão repletos comentários.
Aliás, ocorre-me registar, que em quase não sei quantos anos de reinado nunca me apareceu um comentador inconveniente. Será que sou mole?
Se não sou, pelo menos estou, vou para a cama.
Um grande abraço à Lili, ao António, à São, ao Polidor, à Maria, à Meg, ao Salvo Conduto, à Brit, ao Guardião, ao Desprafonildo, à Maria, ao Alberto, ao Luís, ao Zérui, ao Samuel, ao Camolas, à Silêncio, ao Tiago, ao Compadre e ao Cardoso, Mas só um abraço, naõ para repartir por todos, mas para juntar num só

brit com disse...

Já que nos juntaram num abraço, e á falta de quartos, podíamos aqui dedicar uma história a Sua Majestade, contada por todos enquanto estamos preso no abraço:

Se me permitem darei o mote:

"Era uma vez uma Sua Majestade que sentia o seu palácio um pouco mais vazio do que o costume. O problema não era a falta de súbditos, até porque estes corriam atarefadamente de um lado para o outro, tentando descobrir a solução para o mistério que tanto flagelava Sua Majestade: o mistério dos quartos vazios."

Fica aqui o desafio... do meu cantinho do abraço. :)

brit com disse...

Correcção: "à falta", "presos"

Zorze disse...

Pata Negra,

Gostei da história que contas. Também eu quando era putequito andei de sachola na mão. Os meus avós diziam como havia de fazer. A sachola!

Quanto à Merkl, ela que esteja descansada, os malandros que aparecem na foto estão habituados a escorts de luxo, daquelas que têm um piercing no lábio de baixo.

Abraço,
Zorze

A. João Soares disse...

Afinal eles não compraram o migalhães e foi preciso o papelinho, à antiga, como no tempo do burro à nora. Para mais a miopia não os deixa ler o que está em papel tão distante, lá em baixo.
E o lugar na foto é que é fundamental neste encontro de «alta» importância. Já que não encontraram solução para a crise (para isso seria necessário inteligência, isenção, sentido de Estado e de estratégia), ao menos que encontrem o lugar que o organizador lhes destinou, segundo o protocolo.
Abraços
João

Fliscorno disse...

Alcatruzes. Aí está uma enigmática palavra da minha infância que já não ouvia há muito. Há coisas irrepetíveis e a infância é, entre elas, única e também a razão de outras se poderem reproduzir, mantendo-se sem igual. São outros os olhos que então fazem do mundo um lugar mágico. Hoje o milheral é um sítio onde calor e pólen se misturam, enquanto há umas décadas era lugar para erguer presas, rebentar diques e fazer de conta que não quando me perguntava ao longe a minha avó «ó Jorge estás a tapar a água?» Mesmo assim há uma coisa que mesmo hoje me dá o mesmo gosto: caminhar por cima duma mangueira de polegada e meia, ainda meia cheia depois da rega e ver o vai-e-vem da água como se fosse uma onda guardada num tubo.