sexta-feira, 26 de junho de 2015

Há quem diga que ele ainda é vivo


Não dava nada para a escola. Não aprendia nada na escola! Não andava a fazer nada na escola!...

E, no entanto, o irmão mais velho era muito inteligente, a irmã mais velha era muito esperta, ambos saindo aos seus. Mas ele, talvez por ter nascido sem ser desejado nem esperado, com a mãe a caminho dos cinquenta, já fazendo as noites com o macho sem atender às luas, aos períodos ou ao “tira antes”, nasceu assim, mal vingado e com uma falha.

Ao fim de três anos não passava do nome, do dois mais dois são quatro, duma dúzia são doze e do Tejo é o maior rio de Portugal.

- Uma falha é pouco!
Retorquiu ao pai e na presença do aluno, a professora Palmira.

O homem pensou: eu nem sequer andei na escola e tenho-me safado, ele ainda é novo e há-de aprender a ir à lenha, a juntar palha e a andar com o burro - amanhã já não vem!

Libertar-se-ia da troça dos colegas, daquela crueldade infantil que todos já sofremos, exercemos ou, pelo menos, presenciámos. O pior de todos era o Júlio das Moitas. O pobre rapaz aguentava dele as torturas mais porcas, as insinuações mais sujas, as piores humilhações e respondia baixinho:
- Um dia talvez te fodas!...

Mesmo passados anos de ter saído da escola, quando o via, o carrasco exercitava provocações ordinárias acerca da coisa da irmã dele, da autosuficiência sexual dele, ou mesmo chamando-lhe a atenção para que olhasse: que o travão da carroça ia travado, que tinha perdido uma roda ou que a coisa do burro estava de fora.
Ele, ingénuo, olhava para verificar, para logo a seguir reparar no gozão de riso rude, e dizia para si mesmo:
- Um dia talvez te fodas!...

Até que num certo ano, num certo dia, de tanto ser esticada, a corda partiu:
- Então não é que fodi a tua irmã e ela tem a coisa a atravessar!

Ele, filho de boa gente, pensou baixinho: tenho de foder este gajo!

Júlio das Moitas vivia numa casa, nas traseiras da qual, num patamar mais alto, passava a linha de comboio.  Se eu fizer descarrilar o comboio, ela tombará pela encosta abaixo, cairá sobre a casa e adeus Júlio. Como eles andam a substituir os carris e há muitos soltos nas bordas, eu vou lá de noite, atravesso um deles sobre a linha, vem o comboio e… 
E pensado, assim fez.

Gorada a tragédia pensada porque descoberta a tempo.
Descoberto o autor ao fim de dois passos da investigação.
Foi preso e transferido mais tarde para o Júlio de Matos para passar o resto dos seus dias.

Júlio das Moitas morreu pouco tempo depois da tentativa de homícidio, quando, sentado no carro do seu burro, atravessava a passagem de nível sem guarda. Conta-se que, durante muitos anos, uma cruz com uma tabuleta de madeira assinalou o local: aqui morreu Júlio das Moitas, solteiro, deixando desflorada uma mulher dez anos mais velha.

É claro que deve ser mentira o texto da inscrição como também o poderá ser parte da história que passou pelas teias de ofício do narrador. Verdade é, porque me contou o meu pai, que foi sempre homem de verdade e pouco dado a fantasias que, quando o juiz perguntou ao réu como conseguira sozinho mover o carril para o atravessar na linha, este terá respondido seco e frio:

- Fui eu, o diabo e a tranca!

10 comentários:

jrd disse...

A coisa a atravessar é como um carril atravessado na linha que faz o comboio descarrilar.
"Estória" bem contada a tua.

Um abraço

Rogerio G. V. Pereira disse...

Este é mais um conto que vale para além do que é contado...

Obrigado

O Puma disse...

E a Grécia aqui tão perto a dardejar
Sempre um prazer ler-te

Gandapancada disse...

Que bela "estória". Este Pata é um poço de imaginação.

cid simoes disse...

A ‘short story’ requer uma técnica difícil de trabalhar mas que dominas cada vez melhor.

heretico disse...

ele há coisas que só mesmo urdidas pelo diabo!...

(agora reparo que aquele grego do cachecol tem um certo ar mefistofélico ...)

Anónimo disse...

Pergunta....

Porque é que os robôs não podem comentar?

Zambujal disse...

Muito bem contado.
Merece ser divulgado o teu contar!

JFrade disse...

Belo conto!
Comme d'habitude.
JF

maceta disse...

vais a caminho da meia idade, mas tens boa imaginação

abraço