quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

21- A Fábrica sem título

A cena da despedida não exibiu emoções mas certamente que nos cumprimentos cruzados, nos desejos de saúde, nas promessas de novos encontros e no “até qualquer dia” final, cada um pressentiu a hipótese mais certa de nunca mais nos voltarmos a ver.
Os abraços de despedida de Laurindo foram como se ele tivesse aprendido a abraçar com os abraços que lhe havíamos dado à chegada. O tempo curto da visita parecia que se tinha transformado em anos de vivência em conjunto.
Pelo retrovisor gravei a imagem de mãe e filho manuseando adeuses enquanto o Cossa, com o pescoço esticado para fora da janela e falando cada vez mais alto para vencer o crescendo da distância, deixava a sua marca com bocas desmedidas:
- Oh Laurindo, ainda hei-de ser pai dum meio-irmão teu!...
Só quando se perderam as vistas, o desbocado se acomodou ao banco e pôs o cinto.
- Ela ainda estragava meias solas!...
- Cala-te! Laurinda tem idade suficiente para saber que cão que ladra não morde!
Não viste que se despediram de nós como se fôssemos os únicos amigos, a única família que têm?!....
- Realmente parece que não vive aqui mais ninguém! Lá por causa disso não quer dizer que vás fora-de-mão!...
- Cala-te! Deixa-me arrumar os pensamentos e os sentimentos!
- Quais sentimentos, quais caralho! Por acaso morreu alguém?! Além disso, para teres pensamentos não podias ter essa cabeça de leitão! Paramos mas é na primeira tasca que eu vou com sede!
Esta excitação do Cossa, o seu exibicionismo palavroso e a fuga do assunto incomodavam-me mas eram um sinal de que ele também pensava e sentia.
Pelo caminho ligou à patroa:
- Oh querida, ao jantar quero sopa de carne de porco e arranja para mais um!
Depois de desligar virou-se para mim:
- Percebeste esta?! Mais um!... Mais um porco!.... Ah!Ah!
Boa sopa, bom serão, tudo bem temperado pela hospitalidade da boa companhia.
- Oh homem, estás sempre a pôr picante na conversa! Oh João, faço ideia, isso é que foi um dia a ouvir falar português!
- Acabei por ficar com os ouvidos rotos! Fiquei com a sensação que me entrou uma varejeira no carro e que, por demais que abrisse os vidros, nunca a consegui calar!
- Pois é, as varejeiras andam sempre por perto dos montes de merda!
- Cala-te homem dum cabrão! Sabes lá João, o que é viver a vida inteira com este raio!?
- Não adianta esticar a conversa! Já chega de asneiras! São horas! Agora já só cá volto quando a fábrica fechar!
- Raios te abrasassem!

11 comentários:

salvoconduto disse...

Decididamente o Cossa e tu não estavam nada bem, primeiro não se abrasa um porco com um raio, é com palha, e segundo, despojaste, gosto desta palavra, des-po-jas-te, a fábrica de qualquer título, que raio de mau feitio.

antonio - o implume disse...

Não se devem nomear as despedidas, todas as despedidas são iguais e sem títulos, de todas elas esperamos que não sejam definitivas...

Nocturna disse...

Então Majestade ?
Nós estamos a ficar entusiasmados com a vossa viagem e queremos mais histórias destes personagens, que têm tanto a ver com algumas histórias das nossas famílias, e afinal vocês vêm de viagem com um humor tão ácido ?
Jantem lá, e comam bem e deixem-se dessa ideia «ideia de jerico» de fechar a fábrica.
Conto consigo, para esta missão.
Um grande abraço
Nocturna

Milu disse...

Quando o leio sou perfeitamente capaz de imaginar e por isso quase vivenciar estas cenas. Quando se está com determinadas pessoas que nos são queridas e em perfeita comunhão, dizem-se muitas destas coisas, não existe travão para os impulsos nem para os sentimentos! Lê-lo é sempre, para mim, um momento hilariante e de boa disposição!
Um abraço.

martelo-polidor disse...

boa conversa animada repleta de boas carne.

abraço

Compadre Alentejano disse...

Não há como as amizades de antigamente, perduráveis no tempo e...no espaço...
Um abraço aos dois
Compadre Alentejano

Zé Povinho disse...

O Cossa aproveitou para recordar a vossa majestade que o português vernáculo ainda se usa e só por vergonha de certas almas púdicas é que não teve a devida influência no Acordo Ortográfico, eheheh
Abraço do Zé

Rui Figueiredo Vieira disse...

Grande......muito bom!!! Abraço

MARIA disse...

Majestade ficamos todos a compreender que quando Vª Majestade alinha os pensamentos, qualquer coisa lhe sai de mão.
O importante é que não perdeu o trilho ao seu percurso, seguiu a estrada certa de volta à Fábrica.
E se essa era a sua vontade, nada poderia sobrepor-se a ela.


Um beijinho amigo

Maria

Olinda disse...

Bem,a despedida provocou um certo mau humor,a sua Magestade.Talvez,porque preveja,ser esta a ûltima visita aos Laurindos.Ou,porque as despedidas,entre amigos,sao sempre depressivas.

Um abraco

Zé Povinho disse...

Quantas vezes os palavrões servem para esconder o que se sente...
Abraço do Zé