quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

22- A Fábrica no Dia de Portugal

Tocou o telefone, o indicativo é da terra, é o número do meu primo. Só me telefona quando morre alguém ou há outra desgraça.
- Amanhã não trabalhas! Tens de vir cá!
- Qual é a má notícia desta vez?!
- Nem queiras saber, está para aqui uma cena que se fosse em Lisboa já estava a dar em directo nas quatro televisões!
- Desembucha lá homem!
- O Cossa está barricado na Fábrica, regou por lá tudo com agua-rás, está armado com a sua caçadeira e ameaça incendiar aquela porra se não lhe fizerem as vontades.
- Mas o que é que lhe deu?
- O dono daquela merda agora - não o conheces?! - é um tipo lixado! Parece que lhe disse que não precisava mais dele, que ia fechar a fábrica e que indemnizações só em tribunal! Sabes como é o Cossa, não está com meias medidas!...
- Eu vou para aí!
- Espera aí pá! Tem calma! Deixa-me pôr-te ao corrente da situação!... Alguma malta cá da terra tem estado na estrada a tentar falar com ele! Ele responde lá de dentro mas não se deixa ver! O patrão já deve saber do caso mas não atende o telefone! Ninguém quer chamar a polícia!... Acontece que, não só eu, alguns acham que tu és a pessoa indicada para vires aqui falar com ele e resolver o problema. Porém, há também umas almas que afirmam que o culpado disto és tu que lhe meteste ideias destas na cabeça!
- Nada que surpreenda! Eu vou já, daqui a uma horita estou aí!
- Calma, podes vir mas não apareças no local sem eu te telefonar! Vou para lá preparar o terreno! Sabes como é a populaça, se lhes der para te coçarem, coçam-te, se lhes der para te eleger, elegem-te!...

Com o terreno preparado, estacionei na estrada junto à fábrica. Estariam por lá duas dúzias de pessoas das quais, uma, seguindo o meu primo, cumprimentou-me, incentivou-me e sugeriu-me procedimentos. A outra dúzia manteve-se afastada deixando perceber entre os olhares a reprovação da minha pessoa, mais do que da minha presença. A santa esposa do Cossa veio ter comigo com uma alcofa e sussurrou-me baixinho:
- É para vocês comerem e beberem durante a noite!
Dirigi-me, no passo de todos os meus afazeres, para as instalações onde o Cossa estava, sem cautelas, sem receios, sem protagonismos, com segurança, confiança e em causa própria.
- Alto! Quem vem lá?!
- Ribeira de Prá quê?!
- Prá cona! Contra-senha confirmada! Só podes ser tu!...
- Diz-me lá camarada o que estás aqui a fazer?
Apontou-me para o topo dum depósito onde tinha exposto um pedaço de barrote com uma palavra escrita em baixo relevo. Estivera um dia todo entretido com o canivete a escavar na madeira a sua obra de arte cuja mensagem se resumia a uma palavra.

Teorizou sobre as mais diversos significações da palavra e, esgotada a filosofagem, devolveu-me a pergunta inicial:
- E tu? Diz-me lá camarada o que estás aqui a fazer?
Tentei demovê-lo e convencê-lo de que poderiam existir outros caminhos. Mas Cossa não era um homem qualquer, era meu amigo! Não partira para um acto daquela natureza de ânimo leve. Sabia bem porquê, para quê e a quem se dirigia! Tinha muitos anos de fábrica! A fábrica, mais do que dos seus sucessivos proprietários, sempre fora da aldeia, dos que lá trabalhavam e, neste ponto da história, sobretudo dele! Eu não tinha razão e, sobretudo, não tinha direito, para pensar diferente dele. Enconei um pedaço de cartão que encontrei à mão para servir de megafone, posicionei-me num local onde podia ser visto pelos populares que se encontravam na estrada e :
- Caros conterrâneos, esta fábrica é tanto nossa quanto vossa! Era só um, agora somos dois! Chamem a guarda, a polícia, o presidente da junta, a TVI! Nós só sairemos daqui com um papel de doação, assinado pelo dono ilegítimo destes barracos! A fábrica é nossa! A fábrica é nossa! A fábrica é nossa! ...
O Cossa enrolou-me o braço à volta do pescoço, puxou-me para o interior das instalações e começou a largar velhas lágrimas que tinha acumulado ao longo da sua vida.
- Diz-lhes que se riscarmos o fósforo não será só a fábrica que arde, é o lugar inteiro que irá pelos ares! Eles não têm o direito de se acobardar! Isto não tem só a ver comigo ou contigo, tem a ver com eles!
Cumprida a ordem, trocámos mais umas ideias, tentámos sossegar e deitámos mão ao farnel que a mulher do Cossa me deu de encomenda. Às onze da noite já não se via vivalma. Está tudo calmo. Fui buscar o portátil ao carro e redigi este post sob a supervisão do Cossa. Já passa da meia-noite. Já é Dia de Portugal.

22 comentários:

salvoconduto disse...

Bora lá todos prá fábrica, caralho!

Ao Cossa o que é do Cossa! Raios me partam se não vou aqui organizar uma camioneta com o pessoal da pesada cá do sítio.

Prá frente, sem medo! Cossa, amigo, o Salvo está contigo!

Isabel Pedrosa Pires disse...

Também já vou a caminho! Vamos tomar conta das nossas fábricas e então gritamos, Viva Portugal!
Bem pensado Magestade.

AnaLee disse...

Vou aprontar o farnel e o GPS. Onde fica isso?

Kaotica disse...

Isso é o que eu chamo dar uma ajuda ao Cossa! Já só queria que em cada fábrica, em cada escola, em cada posto de trabalho houvesse pelo menos um Cossa.

Olha, deixo este prémio (vai buscar lá ao Pafuncio) para Sua Majestade repartir com quantos Cossas houver por aí pelas imediações!

ventoslunares disse...

prémio:
http://raivaescondida.wordpress.com/2009/06/10/11943/

O Guardião disse...

Fazem falta muitos com coragem idêntica para partir em defesa dos nossos direitos. Alguns andam por aqui...
Cumps

antonio - o implume disse...

Precisamos mais Cossas que peguem fogo a isto tudo, aos que pelo menos ainda por cá têm um barraco, pois os paraísos fiscais, como o Paraíso, estão muito longe.

Só um esclarecimento, a minha proposta de turismo pós-industrial, não teve nada a ver com o sucedido!

Um dia destes ameaço pegar fogo ao meu blog, talvez assim te dignes a aparecer para uma bucha!

Compadre Alentejano disse...

Fazem falta muitos Cossas e Patas Negras em Portugal!
Esperemos pelo desenlace.
Abraço
Compadre Alentejano

SILÊNCIO CULPADO disse...

Pata Negra

Por todos os Cossas que trabalharam uma vida e que são despejados como sobrantes; por todos os desempregados; por todos os que trabalham e não ganham o suficiente para viver; por todos os que são vítimas de injustiças que este post simboliza façamos deste dia de Portugal o dia da nossa indignação.
Pata Negra, és o meu herói.

Abraço

Milu disse...

Já tinha vindo aqui e li o post que me fez rir, hoje li novamente e tornei-me a rir. Não há dúvida de que há aqui muito espírito de observação e argúcia, que lhe permite extrair das cenas do quotidiano, toda a comicidade e o caricato que nelas pode existir! Parabéns pelo talento, que é disso que se trata!
Um abraço.

MARIA disse...

Estou mesmo a ver o dono da Fábrica chegar a casa pela madrugada, vindo do seu passeio estival para bandas da casa de Laurinda, a ser informado pela virtuosa esposa dos desmandos e reivindicações de Cossa .
Dirige-se à fábrica pela manhã e aproveitando os efeitos do repouso nocturno de Cossa, na companhia amiga de Vª Majestade, a estabelecer com o proletariado uma base de negociação tentadora :
- Caro Cossa, esta Fábrica não ta posso dar...
Como prescindir da alma, da boca destas paredes ?
- Mas faculto-te o Capital, a fonte própria para que tenhas a tua própria fábrica : a minha mulher ! E prometo que desta vez vem totalmente vestida ...


Vénias Majestade.

E um beijinho amigo.

Maria

martelo-polidor disse...

nada como ter os tomates no sítio...

abraço

André D'Abô disse...

eis aí que a fábrica finalmente será restituída aos seus donos... do lado de cá do atlântico espero que o farnel seja suficiente e que a aldeia vá para a fábrica!

lili canecas disse...

Majestade!
Que belo texto para o Dia de Portugal. Que pena não haver, muitos mais, Cossas neste País.
Agora, para si, Pata Negra que grande coragem ao enfrentar meia dúzia de pessoas com olhares de reprovação por ter desencadeado no Cossa todas essas manifestações.
Obrigado pela sua solidariedade para com o Cossa. Pata Negra, já há poucos amigos assim. Que grande lição de vida nos deu Sua Majestade.
Obrigado!

Nocturna disse...

Majestade,
Eu sempre admirei o Cossa.
Temos que ir todos por aí fora , salvar o Cossa e a Fábrica. E salvar todos os Cossas e fábricas que estejam em perigo, e nós sabemos que são cada vez mais. Só a união faz a força e não nos devemos calar perante tanta injustiça e destruição que está a acontecer neste País.
Viva o Cossa , que é um dos justos que não se cala.
Sejamos como ele !!

Agora uma perguntinha: nós não merecíamos já, «Histórias da Fábrica» num livro ?
Para além do prazer da leitura da história, escrita com o talento que sabemos que V. Majestade tem, também serviria para muitos aprenderem como é.
De joelho em terra perante V. Majestade
A fiel súbdita
Nocturna

samuel disse...

Belo filme que isto dava!...

Abraço.

Pata Negra disse...

Fiéis súbditos,
nem imaginam quantos remorsos sinto por não vos responder um a um como merecem. O tempo, o tempo!
Vós sois a razão destas histórias! Um dia ainda hei-de ter tempo para tudo! Curvo-me perante as vossas provas de amizade.
O Vosso Rei (às vezes mais porco, outras vezes mais bacorito)

João Miguel Salgueiro Gameiro disse...

Uma vez Rei não se perde a Majestade, assim me ensinaram e se pratica em casa!

Viva o Cossa ! Viva o nosso Rei e Portugal ! ( º.º )

cid simoes disse...

Tal como isto está vou fazer como o Cossa derramar água-raz por toda a fronteira e enquanto Portugal não for nosso continuarei barricado. Conto convosco! Até já.

Olinda disse...

Boa Magestade!...A fâbrica,a quem nela trabalha.Afinal,o Cossa entendeu o que tinha de entender.Vejamos,se a sua consciencia,nao serâ posta em causa.Espero que o exemplo do Grande Cossa frutifique,e torne o Dia de Portugal.no Dia-do-Povo-Portugues.(Os anti-Cossas,podem emigrar)

Um abraco

Zambujal disse...

Só tenho um adjectivo: (de) antologia!
Esta fábrica não pode ficar assim!
Neste episódio excedeste-te, meu grande... pois... isso: sacana!
Nem sei que diga

Zé Marreta disse...

Tanto desemprego, e esta fábrica não fecha!