quinta-feira, 31 de maio de 2007

Diário de um Dia de Greve

Ergui-me à mesma hora dos outros dias! Não tomei banho nem fiz a barba para acrescentar gestos de protesto. Liguei o computador, com os olhos enlameados da noite curta, fiz a espiral dos blogs costumeiros e antes de sair dela, fechei-a ao centro. Confirmei com agrado que muitos deles postavam à cabeceira a imagem com as palavras “fechado – este blog hoje está de greve”. Mais, as caixas de comentários de alguns mais próximos, confirmei ao longo do dia, mais pareciam fóruns de encontro ou até, nos casos mais extremos, chats.
Ao pequeno-almoço, liguei a televisão, o Carvalho da Silva fazia o seu papel e uns engravatados do governo faziam o papel de outros! Os números, sempre os números! Quando é que esta gente deixa de fazer as coisas para a televisão, munida de técnicas para chamar a atenção e camuflar verdades, e deixa o povo tirar as suas conclusões ao fim do dia!
É claro que o meu descontentamento me faz tomar partido e simpatia entre os que andam pelos locais de trabalho e os que convocam a imprensa para soletrar a sua arrogância à superfície dos seus fatos pretos de job boys!
Decidi não ir ao café, ir-me-iam perguntar porque não fui eu trabalhar, porque é que era esta greve, eu iria num sorriso feito ao momento hesitar um pensamento – ainda perguntas?! – e sairia sem responder com uns bons dias de homem de boa educação!
A vida por aqui ainda é muito assim – fazer greve agora é o mesmo que não ir à missa dominical há 50 anos. Mas fora essas coisas, apesar de nos últimos meses terem fechado algumas escolas, o SAP, a esquadra, o tribunal e a puta que os pariu, existem três cruzamentos com semáforos, três rotundas e o presidente da câmara tem BMW com motorista particular.
Dez horas, fui arrancar batatas - arranquei poucas mais do que as que semeei! A vida é assim também nestas coisas!
Telefonei para o serviço, dos 32 faltaram 10 ao trabalho! Sempre os mesmos, os que não querem trabalhar, aqueles a quem não faz falta o dinheiro, os políticos, os meios comunistas - aqueles que não dizem está mal, está mau, só por dizerem e que na hora de se fazerem ouvir dizem em forma de greve – ASSIM NÃO!
Não é todos os dias nem por qualquer motivo que há uma Greve Geral – desde o 25 de Abril é a quinta e a primeira realizada sobre a ameaça real de pré-ditadura! Dir-se-ia que se repete, com as inevitáveis diferenças, o clima do início dos anos trinta.
Por tudo isto, almocei e bebi regaladamente, fui dar uma nova volta à minha espiral da blogosfera e, agradado com o movimento da imagem que marcou a Greve Geral da minha blogosfera, pelas 16 horas bebi uma cerveja, voltei à blogosfera, bebi outra cerveja voltei à blogosfera e estou aqui – já jantado claro - sem ter ligado à televisão, à rádio, borrifando-me para notícias da greve e de outras coisas, com a consciência do dever cumprido, consciente de ter contribuído para um futuro melhor, para uma data de registo e porque é meia-noite contente por ser Rei dos Leittões e ir colocar já este desajeitado texto algures num servidor como eu!
Não vai haver mais nenhuma greve como esta! Ninguém viveu este dia como eu!
Abaixo o Sócrates! Viva os que poderão dizer: EU FIZ GREVE!

17 comentários:

Zé Ninguém disse...

Eu não fiz greve mas o seu empenho e esta prosa deixaram-me pesaroso talvez use a bandeira noutro dia. A greve,como a descreve, é como o Natal...Quando um homem quiser!

Bem haja de ter hoje militado por militar!

Anónimo disse...

Sabendo que me estou a repetir, parabéns pelo esforço de mobilização. Aguardo pelo número de blogs que aderiram. Mas pelo que já li são muitos. E BONS!
Abraço.

Debaixo do Bulcão disse...

João Rato: Antes de mais, obrigado pela visita. Já espreitei o teu blog (para já, um bocado à pressa,
mas hei-de voltar cá mais vezes).
No dia da greve eu estava sem internet, por isso não fui a tempo de procurar a tal imagem e de a
colcocar aqui.
Mas deixa-me dizer-te que não concordo contigo em algumas coisas.
Primeiro, fazer greve na blogosfera é uma possibilidade tão legítima quanto acompanhar a greve de
forma activa, dando a conhecer informação e/ou opiniões - nesse caso não se pode "fechar" o blog.
Comigo isso aconteceu porque, como já disse, estava sem internet.
Segundo: essa de que estamos num estado de pré-ditadura é coisa que, desde o 25 de Abril, já ouvi
tantas vezes que já lhes perdi a conta. Estamos numa época de autoritarismo, muito semelhante à que
vivemos com o Cavaco, na primeira metade dos anos 90. Mas não nos serve de nada ser alarmistas.
Se repetirmos constantemente que vem aí o lobo, banalizamos a coisa de tal maneira que, se ele
aparecer mesmo, ninguém vai estar preparado para o enfrentar, porque já não acreditam. E isso é uma
das piores coisas que podemos fazer à nossa causa.
É preciso ser persistente e paciente. Fazer propaganda sim, mas tendo em conta que as coisas são como são e não como nós queremos que elas sejam. E saber que chagar às pessoas, hoje em dia, não é repetir slogans. O capitalismo está podre mas já dfemonstrou muitas vezes (mas muitas mesmo) que tem uma grande capacidade de resistência. Não é por nós pensarmos que estamos numa época pré-revolucionária que estamos mesmo numa época pré-revolucionária.
As revoluções fazem-se com o povo, não com um grupo de "iluminados", mesmo que tenham toda a
razão do mundo. Se não ganhas o povo (ou enquanto não o ganhas) estás numa posição defensiva. Não
há mal nisso. Faz parte do processo. Tal como as lutas, políticas e/ou sindicais, que temos de fazer.
É preciso não nos iludirmos. E não termos medo.
Parabéns por (ao contrário do que tenho visto demasiadas vezes na internet) dares a cara e assumires a tua opinião.
Espero que respeites a minha opinião, como eu respeitei a tua ao, ponto de comentar tão longamente (olha que não é costume).
Isto é também um "desabafo" sobre tanta coisa que tenho visto na net, que já enjoa. Não é necessariamente sobre o que li até agoora no teu blog. Mas à cautela, ficas já com o meu ponto de vista sobre estes assuntos...
Se não te importas vou "linkar-te" no meu blog.

Saudações... olha, pode ser democráticas...

António Vitorino

magnolia disse...

Hoje, quando cheguei ao trabalho e os colegas "fura-greves" me cumprimentaram com as palavras do costume "Bom dia, tudo bem?", eu apenas respondi: Para vocês parece que sim, que está tudo bem. Para mim não. Acho que precisamos de outra greve... mas de uma semana!

HocusPocus disse...

Também já tenho o teu link aqui no blog.

keep in touch

belinha disse...

Último dia para votar na Bruxa!! Isto é PUB gratuita pois se votar não ganha nada com isso. Mas a Bruxinha agradece do fundo do caldeirão!

CORCUNDA disse...

Bem dito e melhor feito! Pena é que esta greve não seja o suficiente para varrer esta escumalha toda e suster as nuvens cinzentas que rapidamente se aproximam prontas para derramar chuva intensa sobre o panorama laboral português com evidente prejuízo (como sempre) para os trabalhadores.
É um principio e nunca um fim.
Abraço.

João Rato disse...

zé ninguém
não exageremos por esse andar qq dia estaríamos a transpor a velha homília de que o Natal deve ser todos os dias: nesse caso não trabalharíamos e logo não poderíamos fazer greve!
Um abraço

João Rato disse...


sabe-se para cima de 150, mais informações em algumas das minha ligações de estimação.

João Rato disse...

debaixo do bulcão
obrigado pelo grande comentário mas não me vou expor a uma grande resposta. Aceito a história do lobo.
Um comentador, a propósito de uma esfera a rodar já me chamou por aqui, um catavento!
Também o vou linkar
um abraço

João Rato disse...

magnólia
mas os acomodados e habituados a que a luta seja sempre feita pelos outros podiam dar uma ajudinha em géneros
um abraço

João Rato disse...

hocuspocus
quero passar um pouco de tempo no teu blog, com a calma que já vi que ele merece
bjjs

Kaotica disse...

Sempre achei que uma greve devia ser feita no posto de trabalho. De certa forma fizeste-a pois por pouco tempo abandonaste a blogosfera. Sinto-me orgulhosa de te ter atribuído o prémio, foi bem merecido. Fazer greve e, no dia seguinte voltar a encontrar a mesma carneirada alinhada é duro. Adorei a resposta dada pela magnólia. O pior é que estas greves doem no final do mês. Agora imagina que os desempregados todos aproveitavam um dia assim de greve geral e vinham todos para a rua afirmar-se cidadãos de segunda, frente à assembleia ou ao palácio de Belém. Esta greve, se pecou foi por duas coisas:
- a CGTP devia ter-se deixado de merdas e, desde logo ter convidado a UGT a participar na greve geral. Se dissessem que não, eram eles os responsáveis;
- as pessoas em vez de ficarem em casa tinham ido para a rua (ou para os blogs) ou convocar umas às outras para um giro até Belém ou São Bento. Pareceu-me uma oportunidade perdida: estava tudo aflitinho para se manifestar! Por que não convocaram uma manif, nem que fosse para a fotografia?
Erros a remediar numa próxima que não precisa de esperar anos para acontecer! Proponho aos bancos criarem um fundo para suportar os dias em greve!
Abraço!

Enfim... disse...

todos deveriam pensar como tu era bom, so quenão e por isso este pais não anda para a frente

Bjokas

Bom fim semana

João Rato disse...

Kaotica, quase sempre tenho marcado presença no local de trabalho. Desta vez não estava com pachorra para tolerar o olhar baixo e compremetido dos fura greves a pensarem com os seus dentes: olha cá está ele o sindicalista a julgar as nossas fraquezas!

João Rato disse...

enfim
mais do que pensarmos da mesma maneira é importante que pensemos juntos por objectivos comuns
bjjs

Moriae disse...

Concordo inteiramente com a Kaotica ... Assim, acho que temos uma tarefa engraçada pela frente, se nos apetecer, que é mudar os procedimentos típicos e secantes das greves e lutas estereotipadas ... alinham?