quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Transgénicos

Quando a minha mãe me mandava ao mercado, ao peixe, dizia-me sempre - vai aonde estiver mais gente a comprar! O pior foi uma vez em que comprei petinga em vez de carapau!...
Ainda hoje obedeço àquela velha regra de escolher o restaurante onde estiver mais gente. Enfim, empirismo populaço!
Também tenho manias ao contrário, acreditar que são melhores as praias com menos gente, torcer sempre pela equipa que está a perder, seguir religiosamente a crença de que "a verdade está nas minorias".
Pois estava eu já a ir no barco de lançar ao mar a rapaziada que pisou lá para o Algarve umas espigas de milho - transgénicas, deve ser o nome da quinta - quando encontrei no Pimenta Negra este texto que me causou alguma simpatia:

Comentário de Paulo Varela Gomes ( historiador e professor de arquitectura) sobre a acção contra os transgénicos levada a cabo por activistas anti-OGM.

A reacção - histérica - ao caso de Silves e ao post do Miguel Portas é um caso dos mais interessantes acontecidos em Portugal de há muito tempo para cá. Neste país de cobardolas, qualquer gesto decidido assume de imediato foros de escândalo. Neste país que enterrou uma revolução debaixo de um manto de mentiras, silêncios e cumplicidades traidoras, qualquer recordação - por mais ténue - daquilo que se passou em 1974-75 cheira a ameaça insuportável. Neste país onde os poderosos violam a lei todos os dias, onde a polícia e os tribunais servem sobretudo para ajudar os poderosos a não cumprir a lei, onde a lentidão e ineficácia dos tribunais criam um estado de não-direito, ninguém se lembra de exigir que seja aplicada toda a força da lei (de imediato! rigorosamente!) quando os salários não são pagos, os patrões fogem aos impostos, as empresas e os bancos defraudam os cidadãos. Mas ai de quem puser o pé num centímetro quadrado da sacrossanta propriedade privada agrária, esse símbolo por excelência da Ordem multi-secular.Que extraordinário país! Um povo todos os dias enganado, roubado, o mais pobre da Europa, o mais ridículo. E nem um carro incendiado, nem uma montra partida, nem um protesto violento. Dóceis como carneiros, que é naquilo que foram treinados, é aquilo que são - envergonham-me vocês, oh ordeiros de dedinho sentencioso no ar e voz tremeluzende de indignação só porque meia dúzia de miúdos resolveram violar a lei. Pode não ter sido correcto o que os miúdos fizeram, mas mostraram mais coragem que vocês todos juntos. Respeitem ao menos isso: que ainda haja portugueses capazes de arriscar alguma coisa por aquilo em que acreditam.
Respeitem ao menos quem é capaz de um gesto.
Retirado daqui

14 comentários:

Metralhinha disse...

Texto muito interessante, tal como um ou outro que o antecedem.
Pena é que a acção estival que originou tudo isto tenha levado à discussão do acessório e se esqueça o que verdadeiramente é importante.

Tratou-se dum clamoroso erro estratégico que deita por terra a pouca respeitabilidade que os ambientalistas têm neste país, possibilitando a instalação do circo.

João Rato disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
MARIA disse...

É isso mesmo : estratégia é o que falta.
Pior que ser um carneiro dócil, é ser um carneiro capaz de um gesto, se depois, esse gesto se limita a atirar "os cornos" seja como for, contra o que for, SEM MEDIR OS EFEITOS DA PANCADA até contra si próprio e a causa em que acredita.
Acho que não se vive senão lutando, permanentemente, por tudo o que se deseja, por aquilo que se acredita. Mas há maneiras melhores e piores de se atingir um objectivo.Quando essa ponderação não é bem feita, o risco, é o tiro nos sair pela culatra ...
Mas enfim também como eles já pensei um dia que salvaria o mundo...
Beijinhos para eles. E para vós.
Maria

João Rato disse...

Metralhinha
Nada de perigosas extrapolações acerca da avaliação que faço do caso: estaremos de acordo pelo que já percebi da sua opinião!

João Rato disse...

Maria
Nada de perigosas extrapolações acerca da avaliação que faço do caso: estamos de acordo!

MARIA disse...

Caro João,
Voltei só para lhe dizer , ainda que não estivéssemos de acordo, o meu voto ali na banda ao lado é sempre para o ReidosLeittoes.

CORCUNDA disse...

'Tá dito! Hoje vou rebentar com o restaurante e com o gajo que me enganou com o almoço no outro dia. Não foi com trangénicos, mas o bife em vez de vaca devia ser de hiena.
Que se lixe a propriedade privada!
Abraço.

Tiago disse...

Inspirador! Brlhante! De facto aquilo que a maltinha fez não está lá muito correcto... Mas ao menos mostraram raça... Mostraram que ainda quem não seja "Sim, sim, senhor ministro"... há quem não se rebaixe saiba dizer não!

Passa no antitudo.

É verdade, novo blog com mais uma maltinha:
picklescompresunto.blogspot.com

Fica bem. E Passa pelas minhas paragens... LOL!

Zé Povinho disse...

Os gestos extremos podem tornar-se inconsequentes se não obedecerem a uma estratégia bem delineada. A manifestação da indignação é um acto cívico e necessário em qualquer democracia, e a irreverência da juventude um sinal de vitalidade das sociedades. Isto não quer dizer que eu aprove os actos de destruição, que como todos vimos foi mal visto e codenado, porque do outro lado estava uma máquina bem oleada que transformou o facto em actos de vandalismo, manipulação política e manobras de ataque à propriedade privada.
Falhou portanto nos objectivos e deramse alguns passos atrás na campanha contra os transgénicos.
Abraço do Zé

João Rato disse...

maria
nós sem sequer temos que estar sempre de acordo
bjs

corcunda
ora aí está um bom tema:
a santa propriedade privada!
Além disso, e se a plantação fosse de liamba? Deixaria de ter importância a propriedade privada?
E em que legitimidade se baseiam estes senhores para tornar legal uma coisa e ilegal a outra?
uma palmada de rebentar as costas

tiago
lá passei, lá tenho passado e lá continuarei a passar, o facto de por vezes não deixar rasto não significa que não esteja atento
um abraço

zé povinho
estou de acordo mas não é por isso que eu deixo de valorizar o texto que cito
um abraço dos teus

CHEVALIER DE PAS disse...

Ora nem mais!
Onde é que se assina?

chico maltês disse...

Combata-se a lei e toda esta corja de politicos bem falantes.

Querem o quê? pôr-nos a comer merda??? não chegou com a industrialização dos alimentos??

Depois admirem-se que estão a perder a tusa!!!

João Rato disse...

chevalier de pas
o seu comentário constitui já uma assinatura
abraço

chico maltês
bons olhos o vejam
... e querem que também a merda pague IVA ou IVG ou lá o que é isso!

chico maltês disse...

Não me parece que a coragem possa ser apelidada de gesto extremo. Não acho que a coragem seja inconsequente.
Não gosto de palavras calculistas nem de conversa de velhos, tipo:
" a irreverência da juventude é um sinal de vitali...blá, blá ,blá"